O mundo fantástico do Oriente – parte 1

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O livro Orientalismo, de Edward W. Said, é uma obra muito importante para a compreensão do engendramento das representações europeias e americanas sobre o que se convencionou, no “Ocidente”, chamar de “Oriente”. Aí se incluem quase todos os povos da Ásia e o mundo islâmico em geral.

Said era americano de origem palestina, nascido em Jerusalém de pais árabes cristãos. Foi professor de Inglês e Literatura Comparada na Universidade de Columbia, nos EUA, e um dos maiores ativistas na defesa dos direitos dos palestinos. Fundou, em 1999, com o amigo argentino de origem israelita Daniel Barenboim, a West-Eastern Divan Orchestra, composta de jovens judeus e árabes.

Partindo de uma análise da literatura e trabalhos acadêmicos realizados na Europa do século XIX, Said traça a história dos estudos sobre o “Oriente”, um conjunto de escritores, livros e saberes que ele batiza de orientalismo e que tem muito mais a ver com uma representação da relação do “Ocidente” (sempre dominador) com o “Oriente” (sempre dominado) do que com um conhecimento científico dos povos a leste da Europa.

A trajetória da acumulação desses conhecimentos sobre o Oriente mostra que o orientalismo sempre se construiui sobre ideias pré-concebidas a respeito dos países asiáticos, com pouca influência de observações empíricas. Mesmo quando um explorador europeu vai aos países árabes, ao norte da África e à Índia (como Richard Burton, estudioso inglês que trouxe para a Europa traduções de As Mil e Uma Noites e do Kama Sutra), ele subordina sua experiência pessoal às interpretações que leu a priori sobre os locais que visitou.

Dessa forma, diz Said, os estudos sobre o “Oriente” são pouco mais que a reiteração de preconceitos e conceitos etnocêntricos (eurocêntricos e, mais tarde, americocêntricos) e racistas, sempre com o objetivo velado de justificar a colonização do “Oriente”, indistinto, bárbaro e atrasado, pelo “Ocidente”, autêntico, civilizado e avançado.

Salomé por Pierre Bonnaud

Através desses estudos analisados por Said, o “Ocidente” engendrou uma imagem do “Oriente” como um mundo em que imperam os sentidos acima da razão, um universo de sombras, sedução e misticismo, em que só há a preocupação com alimentar os desejos carnais. A imagem de uma odalisca seminua dançando, com uma bandeja repleta de frutas na mão direita e uma adaga na mão esquerda escondida atras das costas, poderia sintetizar essa imagem do “Oriente”.

Até mesmo quando vemos representações positivas de cenários orientais, elas são carregadas dessas mesmas pré-noções. O mundo oriental é visto como mágico, fantástico, repleto de aventura e criaturas sobrenaturais e a vida comum das pessoas nunca prescinde de eventos fabulosos. O lado sedutor é enfatizado como algo bom, mas a vida real do “Oriente” não é revelada.

Said consegue ser bastante isento em sua análise, mas, algumas vezes no texto, deixa manifestar um pouco de revolta, principalmente no que tange à questão palestina. O que é compreensível, já que se trata de sua origem étnica. Certamente esta origem o motivou a se enveredar pelo estudo desse objeto tão complexo, controverso e polêmico.

Ele procura, nesta obra, focalizar a forma como o Islã, em particular, aparece nas represenações ocidentais. Dessa forma, percebemos que o preconceito e o ódio norte-americano e, em menor medida, europeu dos dias atuais aos muçulmaos vem de muito longe. O orientalismo criou uma imagem do Islã carregada de prejuízos.

O Islamismo e, por extensão inexata, o mundo árabe, sempre foi descrito pelos orientalistas como carregado de beligerância, de emocionalismo, irracionalidade, subserviência cega e inconstância, entre muitas outras coisas. Ainda hoje a população islâmica/árabe mundial é vista com desconfiança devido à ideia de que há uma semente de terrorismo em sua religião.

Ao estudar o Alcorão, alguns “especialistas” se arrogam chegar a conclusões sobre a “mentalidade iskâmica” e assim pensam que podem controlar as possibilidades de ocorrer um ataque terrorista. Seria como averiguar o modo de pensar dos ocidentais através da leitura da Bíblia. Mas, como em qualquer lugar do mundo, um livro não determina a mentalidade de um povo e muito menos de um indivíduo.

Há hoje em dia muita literatura que busca “elucidar o Islã”, como se os ocidentais precisassem compreender a religião dos árabes para evitar conflitos entre o Oriente Médio e o resto do mundo, e “entender” o comportamento dos árabes/muçulmanos. Felizmente temos disponível uma obra como a de Said para nos alertar do perigo dos racismos preconceituosos e histórias  como Persépolis, escrita por Marjane Satrpi, uma mulher iraniana que mostra que há muito, muito mais no mundo islâmico do que fanatismo cego e irracionalidade. Recomendo o romance gráfico e o filme.

Persépolis © Sony Pictures