As línguas em Star Wars

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Já comentei anteriormente sobre as extrapolações de vida alienígena na franquia Star Wars (Guerra nas Estrelas), mais radicais do que, por exemplo, Star Trek (Jornada nas Estrelas). Na ocasião, apontei para o fato de que a saga de George Lucas não é tão ficção científica quanto o universo concebido por Gene Roddenberry, mas mesmo assim a fantástica galáxia dos jedis vai mais além ao imaginar espécies não-humanas do que o mundo futurista da Federação Unida de Planetas (neste os extraterrestres são apenas humanos de outras culturas disfarçados de alienígenas).

Isso tudo acontece, aparentemente, despretensiosamente, e não é um tema explorado nas histórias dos filmes. Da mesma forma, a questão dos idiomas e variantes linguísticas falados pelos personagens é um detalhe pitoresco e secundário, mas se for bem analisado pode nos levar a reflexões tão interessantes quanto as suscitadas em Star Trek. Nesta, encontramos várias situações pertinentes aos interesses da Linguística, como escrevi anteriormente, mas veremos no presente artigo que isso se dá de maneira diferente nos dois universos fictícios.

E como podemos abordar Star Wars quanto às línguas? É preciso começar dizendo que a maioria dos personagens fala inglês. Podemos, entretanto, entender que a língua mais comumente falada nessa galáxia fictícia não é a inglesa, mas foi convenientemente “traduzida” para os espectadores terráqueos (assim como Tolkien supostamente “traduziu” O Hobbit e O Senhor dos Anéis do westron para o inglês). Portanto, o que é pertinente aqui é o fato de haver uma língua franca na Galáxia. A partir desta constatação, observamos vários contextos interessantes em que essa língua está longe de ser a única maneira de as pessoas das mais variadas espécies se comunicarem entre si.

Um tradutor universal plausível

Quando discorremos anteriormente sobre as línguas em Star Trek, observamos que na realidade o fictício tradutor universal seria bem mais complicado do que parece ser nas séries e nos filmes daquela franquia. Mas em Star Wars temos um dispositivo que encarna as funções do tradutor de uma maneira que parece ser bem mais plausível: o droide C-3P0.

Diferente do maravilhoso aparelho que traduz simultaneamente (quase como se conseguisse ler os pensamentos dos interlocutores), nosso querido robô dourado (com uma perna prateada) funciona na prática como um intérprete, fazendo traduções mediatas. Fluente em mais de 6 milhões de formas de comunicação, infere-se que seu escopo de conhecimentos envolve não apenas línguas propriamente ditas, mas linguagens de outros tipos, o que pode nos levar a questionar se há espécies na Galáxia que possuem formas de comunicação que não sejam línguas.

Como C-3P0 é um droide diplomata, fica bastante verossímil seu papel de intérprete não como meramente um tradutor, mas como mediador. Podemos entender seu programa como extremamente avançado a ponto de apreender frases completas e contextualizadas (já que ele é um robô com sentidos que o permitem perceber outros elementos do contexto da comunicação que possibilitem a compreensão de elementos não-textuais da comunicação) e traduzi-las apropriadamente. Inclusive, ele é capaz de interpretar as situações com empatia, percebendo a presença de certos sentimentos e até fazer sugestões, por exemplo, para que os interlocutores tenham cautela diante de colocações maliciosas ou ameaças.

Em suma, esse carismático droide é uma solução bem mais plausível e factível, enquanto elemento de uma ficção científica verossímil, do que o tradutor universal. Não é nada absurdo imaginar um robô de tamanho humano feito com tecnologia avançadíssima e que contenha dados suficientes para estabelecer comunicação com milhões de línguas, através da interpretação mediata e não de uma tradução simultânea imediata que, num cenário realista, poderia implicar em erros toscos de tradução, mal-entendidos e até conflitos entre as partes que tentam estabelecer contato entre si.

Fonética alienígena

A primeira quebra no paradigma da língua universal se dá logo na primeira cena de Star Wars IV: Uma Nova Esperança, em que vemos dois droides dialogando enquanto tentam escapar de um tiroteio. Um deles, R2-D2, não “fala” a língua comum, mas se comunica através de zumbidos, blipes e zoada eletrônica, além de fazer alguns movimentos com sua cabeça circular que gira ao redor de um eixo. Todos ao redor entendem o que ele diz e ele entende o que todos os outros dizem.

Mas talvez chame mais atenção o grandalhão Chewbacca. Ele (e os outros wookies que aparecem no episódio III) são um exemplo interessante de extrapolação da fonética humana. É praticamente impossível para essa espécie falar o idioma comum, assim como para humanos falar a língua dos wookies, ao menos pelo que se depreende das histórias. Isso cria uma situação em que aparentemente não há hierarquia de prestígio entre as duas formas de comunicação, pois as duas são impronunciáveis para a respectiva espécie não nativa, e todos se entendem, cada um falando em seu próprio idioma.

Nessa circunstância, é inviável que cada falante se meta a ficar corrigindo os possíveis “erros” de seu interlocutor, pois a necessidade de comunicação se sobrepõe a qualquer ideia sobre algum tipo de forma ideal ou pura de um idioma. Cada comunicador sabe a forma de se expressar em seu próprio código. Isso também acontece na comunicação com R2-D2 e outros droides em sua relação com seres que falam línguas “orgânicas”. O pequeno droide emite sons eletrônicos que formam “frases” inteligíveis para os que conhecem seu código. Mas o exemplo de R2 não é dos melhores.

Um outro bom exemplo do modelo wookie de diversidade linguística aparece no Episódio II: Ataque dos Clones, com os geonosianos, insectoides bípedes que aparentam viver numa sociedade estilo colmeia. Eles falam um idioma repleto de sons inumanos, como estalidos, rangidos e claques feitos com os “lábios” de quitina. Diante de um conselho de representantes separatistas que falam idiomas diversos, o líder geonosiano fala em sua própria língua sem receio de ser incompreendido, bem como compreende os outros membros da mesa.

Variantes e dialetos

Um elemento de diversidade linguística que muitas vezes falta em universos de ficção científica e fantasia são as variações linguísticas. É difícil encontrar nessas histórias as diversas variantes léxicas, fonéticas ou sintáticas que são características de qualquer língua. O exemplo mais notório da rara presença desse elemento é a Terra-Média de Tolkien, com as diversas línguas e dialetos falados pelos elfos, todas derivadas de um idioma-mãe. Mas neste caso se trata da obra de um filólogo que tinha como um de seus principais motivos para escrever o registro de suas ideias sobre línguas e os idiomas que ele gostava de inventar.

Star Trek prescinde totalmente disso, a não ser que se considerem os diversos sotaques da língua inglesa falados pelos atores das séries e filmes, um elemento incidental. Porém, Star Wars tem um exemplo interessantíssimo de variante no estilo dialeto/jargão: a fala de Jabba o Hutt e de outros criminosos do submundo do planeta Tatooine, o chamado idioma huttês. É bastante notável que o trabalho por trás das câmeras consistiu em improvisar as falas com base na sonoridade e construção das frases em inglês.

A cena da primeira aparição de Jabba, por exemplo, foi filmada com um ator real falando em inglês que depois foi substituído por uma animação em CG e teve sua voz sobreposta por uma improvisação que soasse como a língua dos hutts mas que se parecesse foneticamente com o que o ator original falou (esse método foi usado por Marc Okrand para criar uma boa parte do idioma klingon em Star Trek). Dessa forma, às vezes dá até para adivinhar o que dizem os mafiosos, como se se tratasse de um dialeto ou um código para dificultar a compreensão por parte de intrometidos e das autoridades. Inadvertidamente, acabou sendo criado um idioma que em algumas situações parece um jargão para disfarçar negócios escusos.

“Han, ma bookie” = “Han, my boy” [“Han, meu garoto”].

É claro que a maior parte do que os personagens que falam huttês dizem não tem nada a ver com o inglês, mas podemos pensar que esse jargão foi evoluindo com o tempo e se diferenciou muito da língua padrão. Mais ainda, podemos dizer que ambas as línguas evoluíram de uma matriz comum. E um outro ponto interessante sobre esse caso é a necessidade de um intérprete twi’lek quando os heróis do Episódio VI conversam com o chefão Jabba, afinal, nem sempre todo mundo vai conhecer as línguas de outros povos para conversar livremente entre si.

Sintaxe e aprendizado de novas línguas

Quase sempre que alguém aprende um idioma alienígena em histórias de aventura como Star Wars, é notório seu perfeito domínio de tal idioma, mesmo que o tempo para aprender tenha sido muito curto. Mas na realidade não é difícil encontrar pessoas que mesmo depois de muitos anos falando uma língua estrangeira ainda guardam traços perfeitamente distinguíveis de seu idioma materno, sejam traços fonéticos, lexicais ou sintáticos.

Yoda é um exemplo muito interessante disso. Com cerca de 900 anos de idade e profundamente sábio, o pequeno Mestre Jedi não consegue falar o idioma comum sem usar a estrutura SOV (sujeito, objeto, verbo), que se diferencia da ordem normal do inglês e de grande parte das línguas ocidentais como o português, que elaboram as sentenças na ordem SVO (sujeito, verbo, objeto). Isso pode facilmente ser interpretado como uma sinal de que a língua materna de Yoda utiliza a ordem SOV.

Este e outros aspectos discutidos antes nos levam a notar a completa ausência de mecanismos de tradução automática tais quais o tradutor universal presente em Star Trek, que, se existisse em Star Wars, eliminaria toda essa gama de situações pitorescas e interessantes na comunicação entre os personagens, pois de outra forma todos falariam “inglês” com a mesma aparente desenvoltura. Na vida real, a tradução e o aprendizado de idiomas é um trabalho complexo e difícil.

Evolução das línguas

A maioria das espécies da Galáxia consegue se comunicar entre si sem problemas, pois em geral conhecem as línguas umas das outras e podem até conversar usando seus próprios idiomas maternos sem óbices para a compreensão mútua. Mas num lugar tão grande e com tantas centenas de sistemas planetários habitados, não pode ser surpreendente encontrar uma espécie ou outra que se manteve isolada do resto dos povos, que não conhece a língua franca e cujo idioma é praticamente desconhecido ou, em certos casos, esquecido pelas outras raças.

Os ewoks da Lua de Endor são pequenos humanoides peludos que lembram ursos antropomórficos. Seu primeiro contato com alienígenas ocorreu durante a Guerra Civil que culminou na derrocada do Império Galáctico e na qual tiveram participação importante. Nesse contato, nem os humanos da Aliança Rebelde nem os ewoks conseguiram estabelecer comunicação linguística direta, e foram obrigados a recorrer a C-3P0, que conhecia uma língua semelhante, provavelmente um idioma com raízes em comum com o dos ewoks.

Essa situação linguística é uma das mais emblemáticas em Star Wars, pois traz à tona a necessidade de aprender uma língua estrangeira para estabelecer comunicação, o que em geral é resolvido de maneira um tanto mágica em outras histórias de ficção científica. Aqui os interlocutores precisam encontrar um jeito de se entenderem sem o uso de um tradutor universal. Sua solução mais prática foi utilizar C-3P0, que traduz mutuamente aquilo que cada lado diz ao outro. Mesmo assim não foi um processo fácil e o contato entre eles quase resultou na morte dos rebeldes.

Além disso, é interessante ver aí, mesmo que de forma superficial, um caso de línguas irmãs cuja semelhança facilitou o contato direto entre o droide intérprete e os nativos de Endor. Embora C-3P0 se refira à língua dos ewoks como um dialeto “primitivo” cuja forma mais “avançada” ele conhece (termos que no âmbito da Linguística não se aplicariam), podemos considerar que são duas línguas com origem comum, assim como o são o Português e o Espanhol, derivados do Latim. Se recorrermos a Star Trek, não encontramos praticamente nada neste sentido, pois lá cada língua parece estar bem delimitada e distinguida, e parece ser dada, como se não tivesse história.

Que a Língua esteja com você

Em Star Trek, tínhamos visto que existe uma preocupação constante com a verossimilhança, característica da ficção científica, e vemos no exemplo da língua klingon a elaboração cuidadosa e detalhista da diversidade na ficção. Mas em Star Wars a diversidade parece ser concebida de modo intuitivo, o que faz aparecer exemplos pitorescos saídos da imaginação fantástica e talvez por isso mais interessantes do ponto de vista de um possível vislumbre da radical diversidade de formas de comunicação dos seres vivos no mundo e das criaturas inteligentes no Universo.

As línguas em Star Trek

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Star Trek (Jornada nas Estrelas) sempre foi reconhecida como uma franquia de ficção científica que explora vários subtemas dentro do grande tema da diversidade humana (e extra-humana), seja étnico-racial (com suas limitações), seja de identidade de gênero ou, de forma mais alegórica do que explícita, de sexualidade. Porém, no que tange a diversidade linguística, Star Trek nunca foi muito a fundo, e só não vale a pena repreender seus criadores porque esse é um tema quase universalmente menosprezado e incompreendido.

Segundo o linguista brasileiro Marcos Bagno, os diversos tipos de preconceito, mesmo não tendo sido plenamente erradicados ainda, são quase todos temas de nossas preocupações hoje em dia, mas o preconceito linguístico é ainda ostensivamente ignorado e até menosprezado, considerado irrelevante. Tendo isso em mente, penso que vale a pena considerar a possibilidade de ampliar a representação da diversidade linguística na ficção científica e outras literaturas, não apenas de forma romantizada e idealizada (como a criação de línguas diferentes da “língua humana”, como o élfico e o klingon), mas com base na realidade linguística humana, com suas variações dentro de uma mesma língua, os preconceitos e hierarquizações, as transformações e sua lógica fonética e de uso circunstancial.

Além disso, seria extremamente pertinente extrapolar o tema para formas alienígenas de comunicação, explorando as possibilidades de manifestações não-humanas de fonética, sintaxe, léxico etc. Apesar de tudo, há sim coisas interessantes no âmbito da linguística fictícia em Star Trek, embora a maioria delas apareça de forma pontual em episódios específicos.

O mítico tradutor universal

Uma versão portátil do tradutor universal, no filme "Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida"

Uma versão portátil do tradutor universal, no filme “Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida”

A quase completa ausência de questões linguísticas na franquia é constatada pelo sempiterno uso do tradutor universal como recurso para explicar porque todos os personagens se comunicam sem entraves entre si, como se todos falassem inglês. Do ponto de vista da produção dos seriados e filmes, o tradutor universal é uma maneira simples de evitar os esforços no sentido de elaborar idiomas complexos, sendo mais fácil colocar todos os atores falando o mesmo idioma para que os espectadores não tenham dificuldade de compreender os diálogos.

Algumas versões portáteis do aparelho já apareceram nas séries e nos filmes, mas em geral se assume que ele está instalado nos circuitos internos das naves ou nos comunicadores, sejam os portáteis ou os embutidos nas insígnias do uniforme da Frota Estelar (ou, no caso dos ferengi, preso no interior de suas orelhas), permitindo que a tradução simultânea seja feita sem nenhum incômodo.

Mas do ponto de vista da ficção, essa maravilhosa ferramenta suscita questionamentos no âmbito da ciência Linguística, e podemos levantar questões a respeito de seu caráter enquanto elemento de ficção científica. Se tomarmos a discussão de Umberto Eco em Quase a Mesma Coisa: Experiências de Tradução, em que o erudito italiano fala de sua experiência como tradutor e autor traduzido, trazendo também as ideias de outros pensadores sobre a traduzibilidade dos idiomas entre si, vemos como é utópica a ideia de um aparelho que faça traduções automáticas, simultâneas e imediatas. Mesmo entre dois idiomas humanos, é necessário um lapso de tempo para que uma frase seja apropriadamente traduzida, pois a sentença precisa chegar até o fim e o contexto (altamente subjetivo) precisa ser compreendido pela inteligência artificial do tradutor.

Podemos imaginar que tal aparelho seja capaz de fazer um trabalho quase automático quando lida com duas línguas que ele já “conhece”, bem como as respectivas culturas dos povos que as falam, desde que tenha uma inteligência artificial capaz de identificar emoções e um banco de dados amplo e eficiente a ponto de entender qualquer contexto sem precisar “pensar” muito. Mas isso é muito improvável de acontecer quando duas espécies entram em contato pela primeira vez entre si. Uma das raríssimas vezes em que isso é retratado (e mesmo assim aparece como exceção) é no episódio “Santuário”, da segunda temporada de Deep Space Nine, no qual o tradutor universal demora várias horas para decodificar o idioma dos Skrreeanos, provenientes do Quadrante Gama, devido a existir uma grande diferença de estrutura entre seu idioma e a maioria das línguas do Quadrante Alfa.

Esse tipo de situação deveria ser muito mais comum e poderia render muitas histórias interessantes (veremos adiante um ótimo exemplo disso). Além disso, é bastante estranho que haja situações em que algumas espécies, principalmente os klingons, que misturam termos de sua língua (como saudações e xingamentos) com o inglês. O que acontece com o tradutor universal nessas horas? Ele simplesmente falha em momentos-chave ou possui algum obscuro critério para traduzir certos termos em detrimento de outros?

A meu ver, o tradutor universal raramente foi abordado sob uma perspectiva de hard sci-fi, pois seu funcionamento é simplesmente aceito sem explicações profundas de caráter científico (linguístico). Da maneira como é utilizado na franquia, tendo a vê-lo, no máximo, como um elemento de soft sci-fi, e no mínimo como algo mágico que poderia estar presente em histórias de Fantasia e ser explicado como dotado de caráter sobrenatural.

Uma língua extraterrestre, mas nem tanto

O idioma dos klingons foi a primeira língua não-humana a ser elaborada no universo de Star Trek. Na série clássica, todos os personagens falavam inglês (não havia barreiras para a comunicação, por causa do tradutor universal) e portanto não havia motivos para colocar em cena as peculiaridades de um idioma alienígena. Mas no primeiro longa metragem da franquia, Jornada nas Estrelas: O Filme, decidiram incluir uma cena muito rápida no início, em que apareciam klingons falando algumas frases improvisadas em seu idioma-natal.

Quando o terceiro filme, À Procura de Spock, estava sendo produzido, tendo como antagonista um general klingon, seu idioma começou a ser elaborado com um vocabulário e gramática completos para que, quando falado em qualquer outro contexto na televisão ou no cinema, não fosse apenas um punhado de fonemas aleatórios sem significado. É um idioma único, extremamente diferente da maioria das línguas humanas em sua sintaxe e sua fonética. Marc Okrand, o linguista que sistematizou esse idioma fictício, teve o cuidado de elaborá-lo como algo realmente alienígena. Fez combinações de fonemas muito incomuns em qualquer língua humana e estabeleceu a ordem dos elementos das orações segundo o esquema mais raro dos encontrados na Terra.

Porém, há dois pontos em que o klingon se mostra limitado nessa proposta (embora continue sendo uma das criações mais interessantes e complexas dos universos de sci-fi): 1) ele se utiliza apenas e tão-somente de fonemas humanos, sendo perfeitamente pronunciável por qualquer indivíduo humano suficientemente treinado (e que não tenha algum defeito no aparelho fonador); 02) seu vocabulário é quase exclusivamente uma tradução termo a termo de palavras inglesas, relação que não acontece entre dois idiomas humanos, sendo a tradução uma tarefa extremamente complicada (esta crítica lexicológica é apresentada pelo antropólogo-linguista David Samuels, no artigo “Alien Tongues”, que se encontra no livro E.T. Culture: Anthropology in Outerspaces).

“Darmok e Jalad em Tanagra”

O capitão tamariano Dathon e o Capitão Picard tentando encontrar uma forma de traduzir o idioma um do outro

O capitão tamariano Dathon e o Capitão Picard tentando encontrar uma forma de traduzir o idioma um do outro

O episódio “Darmok”, da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, é um belíssimo exemplo de extrapolação de uma forma de comunicação quase impossível de ser decodificada pelo tradutor universal. Para que um não-tamariano consiga entender essa língua, precisa antes conhecer toda a cosmologia desse povo, ou escutará apenas um conjunto de metáforas descontextualizadas e sem sentido.

Cada uma das metáforas, que envolve algum personagem mitológico em uma determinada situação, conota uma atitude ou um sentimento. Por exemplo, quando um tamariano diz “Shaka, quando os muros caíram”, a referência ao personagem mítico Shaka diante da queda de determinada muralha significa pesar, desapontamento.

Esse episódio é muito bem analisado no artigo “De Shakespeare a Wittgenstein: ‘Darmok’ e a Alfabetização Cultural”, escrito por Paul Cantor, na coletânea Star Trek e a Filosofia: A Ira de Kant. Nesse artigo, o filósofo cita Wittgenstein, que afirmou que, “se um leão pudesse falar, não conseguiríamos entendê-lo”. Isso significa que a vida psicofisiológica de uma espécie alienígena, bem com0 sua história, cultura e sociedade, implicariam uma linguagem com estrutura muito diferente da estrutura linguística humana (se considerarmos as estruturas de que falam Saussure, Chomsky etc.). Assim, imagino que a situação enfrentada pelo Capitão Picard ao lutar para estabelecer comunicação com o Capitão Dathon deveria ser muito mais comum nas histórias de Star Trek, se a Linguística, enquanto ciência, fosse realmente levada a sério como componente de uma obra de ficção científica.

Se considerarmos a teoria de Edward Sapir e Benjamin Whorf (nenhuma relação com o klingon Worf), segundo a qual um idioma está intrinsecamente ligado à cultura do povo que o fala, o que nos leva a observar a diversidade linguística humana como reflexo de sua diversidade cultural, deveríamos esperar que as diferenças entre um idioma humano e uma língua extraterrestre fossem muito mais profundas e difíceis de transpor, e “Darmok” é uma rara pérola no universo de Star Trek.

Antes do tradutor universal

A série Jornada nas Estrelas: Enterprise, embora tenha sido a mais fraca da franquia  quanto à exploração de temas relativos à diversidade, trouxe alguns bons exemplos de como explorar a Linguística na ficção científica. Na época em que se passam as histórias do Capitão Archer, os humanos ainda estão desenvolvendo o tradutor universal, e enfrentam algumas dificuldades no contato com espécies “novas”. A xenolinguista Hoshi Sato precisa intervir em diversas situações para calibrar o tradutor, que ainda está longe de funcionar com desenvoltura.

Mas ainda se mantém a ideia de que qualquer língua no universo possui a mesma estrutura e é passível de ser traduzida com o uso de padrões. A própria Hoshi explica que sua facilidade de aprender línguas alienígenas se baseia no reconhecimento desses padrões. Num nível extrapolado, isso poderia acontecer com uma linguista em âmbito terrestre, humano, traduzindo idiomas terrestres, mas é provável que entre espécies alienígenas aparecessem problemas como os que exemplificou “Darmok”.

No entanto, entre os xindi, principais antagonistas na terceira temporada de Enterprise, há duas espécies que se comunicam em idiomas foneticamente alienígenas, os insectoides e os aquáticos. É interessante ver situações em que o tradutor universal não funciona sozinho em diálogos entre humanos e insectoides, sendo necessária a constante intervenção da especialista humana para a decodificação. Nas mesmas cenas, os xindi humanoides conversam normalmente em “inglês”, como se o tradutor universal não tivesse a mesma dificuldade. São circunstâncias interessantes, pois apesar da impossibilidade de se pronunciar os fonemas da espécie alienígena, tanto insectoides quanto humanoides e aquáticos compreendem as respectivas línguas uns dos outros.

Mas é compreensível que questões linguísticas sejam abordadas superficialmente em Star Trek, assim como na maioria das narrativas de ficção (científica ou não). A própria Linguística (e suas sub-disciplinas, especialmente a Sociolinguística) ainda é incompreendida enquanto ciência e um tanto ignorada quando o tema da linguagem vem à tona. Embora os poucos exemplos presentes na franquia suscitem reflexões interessantes, ainda está para surgir uma ficção científica mais radical no tratamento do tema da diversidade linguística. A própria franquia Star Wars, mais caracterizada como “fantasia científica”, é tão ou mais interessante nesse quesito do que Star Trek, como veremos no próximo artigo da Teia Neuronial.

My fair lady (1964) – Resenha

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

My Fair Lady (1964), filme dirigido por George Cukor e estrelado por Audrey Hepburn e Rex Harrison, é uma história baseada na peça Pigmalião (Pygmalion), de George Bernard Shaw, publicada em 1912. Entre a peça e o filme de 1964, há um filme de 1938, que influenciou a obra de Cukor, e um musical, que a inspirou largamente, de modo que o filme de que aqui se trata tem vários trechos com músicas vindas do musical.

Henry Higgins é um estudioso da Fonética, capaz de identificar a origem de uma pesso através de sua fala, um homem preocupado com o bem falar da língua inglesa, crítico das formas consideradas por ele como degeneradas do inglês autêntico . Ele considera, por exemplo, que a pronúncia cockney da florista Eliza Dootlittle, característica da camada pobre da população de Londres, é uma afronta ao idioma de Shakespeare. Ele é desafiado a ensiná-la a falar como uma dama da nobreza e a se passar por uma duquesa num evento da alta sociedade.

Higgins comenta com seu colega Hugh Pickering que seria capaz de ensinar Eliza a falar e, portanto, se portar como uma dama da nobreza. Esse comentário ressoa na cabeça de Eliza, que sonha com uma vida de conforto bem diferente da pobreza em que vive. Se soubesse falar como uma dama, ela pensa, poderia ter sua própria floricultura.

Ela decide pagar a Higgins para receber aulas de boa pronúncia, e o professor, após recusar veementemente, é desafiado por Pickering a fazer Eliza se passar por uma duquesa numa recepção a uma rainha estrangeira. Mas ele não só se propõe a ensinar o “inglês bem falado”; para transformá-la numa dama, é preciso ensinar-lhe “boas maneiras”, dar-lhe vestidos “adequados” e fazê-la esquecer totalmente sua antiga forma de viver.

Grandes dificuldades se mostram a Higgins, primeiro ao obrigá-la a tomar um banho e se desfazer de sua roupas, tarefa designada às empregadas de Higgins. Depois, ao tentar ensiná-la a pronúncia culta de sua língua. Ele se esforça herculeamente, com a ajuda de complexos equipamentos, para fazer Eliza pronunciar a letra A (eɪ), que ela só consegue pronunciar aɪ. As dificuldades de Eliza, por outro lado, são tantas que ela nutre sentimentos de raiva, desprezo e ódio para com Higgins, especialmente diante da extrema arrogância do professor.

Depois de muito trabalho e fadiga, certa noite Higgins, por um breve momento, expressa palavras motivadoras e otimistas (bem diferentes de sua habitual arrogância, dispensada indiscriminadamente a todos ao seu redor), e Eliza consegue pronunciar, num “bom inglês”, as frases que antes seu sotaque cockney não permitia expressar “bem”:

The rain in Spain stays mainly in the plain.

In Hertford, Hereford and Hampshire, hurricanes hardly ever happen. [Eliza não conseguia pronunciar o som aspirado da letra H.]

A partir daí, desenvolve-se um sentimento de profundo afeto de Eliza por Higgins, e ela deixa de vê-lo como um inimigo. Ele decide testar seu progresso levando-a a um hipódromo, onde apenas frequentam pessoas da alta sociedade. Ela quase consegue convencer a todos que é uma dama, mas só até o momento em que solta um grito entusiasmado com a melhor pronúncia cockney herdada do meio onde cresceu.

Mas o treinamento continua até o teste final, uma recepção a uma família nobre estrangeira. Ela impressiona tanto a família real com seus modos e pronúncia, que a rainha manda Zoltan Karpathy, antigo aluno de Higgins, averiguar de onde Eliza realmente é. Karpathy diagnostica que a pronúncia de Eliza é tão perfeita que ela só pode ter sido ensinada, e portanto ela só pode pertencer à família real húngara.

Higgins e Pickering celebram a vitória do primeiro, tratando Eliza como mero objeto de um exerimento. Esta fica imensamente magoada e, após uma violenta discussão com o professor, que não entende o rompante de sua pupila, o deixa.

Higgins tenta trazê-la de volta e só então começa a perceber quão importante ela é para ele. Após alguns incidentes e discussões, envolvendo Pickering, a mãe de Higgins e Freddy (um rapaz apaixonado por Eliza), eles acabam juntos, num desfecho abrupto, desconcertante e pitoresco.

A transformação do habitus

O professor Higgins se dedica a um empreendimento que muitos consideram impossível: extirpar qualquer traço de origens humildes de uma jovem pobre e transformá-la numa dama.

De acordo com o conceito de habitus do sociólogo Pierre Bourdieu, todo o conjunto de manifestações de qualquer pessoa está profundamente condicionado e se revela em suas escolhas, nos seus gestos, na sua fala (sotaque, cadência rítmica, vocabulário). A tarefa de Higgins poderia ser descrita como a tentativa de imbuir Eliza de um novo habitus, o que, para a sociologia de Bourdieu, é quase impossível, mesmo que se dispusesse de alguns anos de reeducação.

No entanto, a primeira experiência em campo no hipódromo mostra quão artificial a moça soa ao conversar, pronunciando cada palavra como se fosse um robô e escolhendo tópicos totalmente inadequados para os interlocutores. Seu “verdadeiro eu” (seu mais profundo habitus) se revela num momento de excitação, em que ela não consegue manter a máscara.

Uma transformação do tipo almejado por Higgins e Eliza não pode ser realizada completamente. As maneiras de agir e falar podem ser representadas por alguém com boa habilidade para interpretar e imitar. Mas certas disposições e valores são muito mais difíceis de forjar. Eliza se manteve até o fim da história uma honrada moça da classe trabalhadora, sempre honesta quanto aos seus sentimentos e pensamentos. Os novos modos de se expressar com o corpo e a fala lhe servem não para uma nova vida na classe média, com os valores e expectativas específicos desta, mas para reforçar aquilo em que acredita e que foi aprendido na humilde pobreza.

Por outro lado, o fazer constrói o pensar, a vivência transforma o corpo e a mente. Eliza não poderá voltar mais a ser a florista pobre e inarticulada. E Higgins se depara com novos sentimentos, diferentes da frieza científica e dos valores de solteiro, livre de compromissos. Eliza era humana demais para ser tratada como um objeto sem alma, e ele não pôde evitar que a proximidade o encantasse e o fizesse se apaixonar.

O desejo de ascender de sua condição de empregada de uma floricultura pobre para a de dona de uma floricultura elegante se manteve até o fim. A vontade de Higgins de mantê-la sob seus cuidados não podia vencer a força de vontade e a autoestima que ele a ajudou a desenvolver, como a filha que o pai tem que deixar se emancipar quando se torna adulta.

Distinções linguísticas na língua inglesa

Um detalhe que chama atenção nesta obra, e que talvez nem tenha sido intencional, é que há uma distinção entre a forma como os pobres e os ricos cantam. As performances musicais dos personagens pobres é marcada por uma forte melodia e ritmo dançante, ao passo que as músicas cantadas por Higgins e Pickering estão mais para poemas recitados, como se houvesse uma diferença na forma como ambos os grupos encaram o mundo, um deles usando a música para se consolar e o outro como meio de demonstrar diletantismo.

Essa diferença leva a outro aspecto do conceito de habitus. Ele também é usado como mecanismo de distinção de grupos, como uma forma, por exemplo, de criar a ilusão de que as diferenças entre pessoas de classes distintas são naturais, intrasponíveis e que há uma hierarquia inevitável entre essas classes.

A língua é um meio de marcar essa distinção, e no inglês existe uma hierarquia que coloca uma certa variação do idioma no topo, como sendo o padrão a partir do qual todas as outras são derivadas. A “pronúncia reconhecida” (received pronounciation) também é chamada de inglês da rainha, inglês de Oxford ou inglês da BBC. É preciso entender esse aspecto da sociedade britânica para compreender porque Eliza Doolittle acredita que sua ascensão social depende da adequação de seu falar ao inglês padrão.

Mel Gibson como Hamlet

Mel Gibson como Hamlet

É muito comum que os atores não-ingleses que participam de produções cinematográficas baseadas em obras shakespearianas ou em cenários de fantasia medieval sejam forçados a falar no inglês padrão. É claro que, pelo princípio da verossimilhança, numa história encenada na Inglaterra se espera que os personagens falem inglês britânico. Mas isso se impõe até mesmo nos casos em que as falas dos personagens, todas em inglês, representam como que traduções. É o caso de Hamlet, de Shakespeare, história passada na Dinamarca, onde não se falava inglês. Ao invés de simplesmente deixar os atores falarem como falam, pois estão apenas, teoricamente, “traduzindo” do dinamarquês, todos são obrigados a falar um inglês padrão impecável, como se vê num making of de Hamlet, dirigido por Milos Forman, em que Mel Gibson pena para não deixar escapar seu sotaque de origem. É o caso também de O Senhor dos Anéis, adaptado nos cinemas por Peter Jackson. No cenário da história nenhum personagem fala inglês, mas sim idiomas “antigos” que não existem mais, como o westron e o élfico, o que também caracterizaria as falas do livro e do filme como “traduções”. Mas os atores norte-americanos que interpretaram Frodo, Aragorn e Arwen, por exemplo, tiveram que colocar para fora um inglês britânico que em alguns momentos soa falso.

No entanto, o topo da hierarquia se confunde com o modelo, ou seja, ele é tido como um sotaque “neutro”, “não-regional”. Cria-se a ilusão de que os falantes do padrão estão falando um inglês sem ligação regional, e os diferentes sotaques das diversas regiões abrangidas pelo idioma em questão são tidas como regionalizadas e pouco recomendadas em comunicações públicas, como por exemplo na mídia.

Na verdade, o inglês padrão é apenas uma variação do idioma, localizado mais ou menos no sul da Grã-Bretanha, nos arredores de Londres. Um curso histórico diferentes poderia ter estabelecido o dialeto escocês como o padrão das Ilhas, se eles tivessem conquistado os ingleses.

A história dos outros idiomas europeus (e provavelmente de qualquer região do mundo) é semelhante. As variações do latim, imposto pelo Império Romano, eram inúmeras, e a consolidação das nações como as conhecemos hoje se acompanhou do reconhecimento de uma língua oficial para cada uma delas, que era sempre aquele falado na sede de cada reino.

No português essa distinção também acontece. A variação reconhecida como padrão no Brasil, por exemplo, se localiza geograficamente na Região Sudeste do país, especialmente São Paulo (atual centro econômico do Brasil), mas abrangendo também o sotaque carioca (tendo em vista o Rio de Janeiro ter sido, durante algum tempo, a sede do Império Português). É comum os potiguares acharem mais normal o sotaque dos jornalistas sudestinos, que apresentam os jornais televisivos “nacionais”, do que o de seus conterrâneos que apresentam os jornais “regionais”.

Esse privilégio da variação padrão, embora se costume alegar que não há privilégio, se revela no ensino do idioma. Os dicionários ingleses, por exemplo, passam por cima de todas as formas possíveis de se pronunciar a língua britânica, apresentando somente a fonética padrão. Assim também os dicionários brasileiros da língua portuguesa. Algumas gramáticas brasileiras chegam ao ponto de sugerir uma pronúncia correta de certas palavras (na de Evanildo Bechara, por exemplo, recomenda-se que a palavra “coelho” seja falada “qüelho”, ignorando as regiões que pronunciam o “co”, e que o L mudo seja levemente pronunciado, o que vai de encontro à maior parte do Brasil, que o transformou em U).

O exemplo, entre os que conheço, que para mim é o mais gritante, é o ensino do espanhol na América Latina. É notável que a maioria (se não todos) dos países da América do Sul que falam espanhol tenham transformado a pronúncia do C e do Z castelhano (som do TH inglês) em S, mas eles aprendem em suas gramáticas que o som do C e do Z são diferentes do S, embora na prática não haja diferença alguma (exceto na Espanha).

Pigmalião

Capa da edição de 1913 da peça Pigmalião, de George Bernard Shaw

Capa da edição de 1913 da peça Pigmalião, de George Bernard Shaw

My Fair Lady é baseado na peça Pigmalião, de George Bernard Shaw. Infelizmente, (ainda) não tive o prazer de ler essa obra, mas os resumos que se podem encontrar na internet mostram que a história é basicamente a mesma na peça e no filme. A fidelidade pode-se explicar em parte pelo fato de Shaw ter participado da produção da versão cinematográfica de 1938 (também chamada My Fair Lady), e de esta ter influenciado a versão de 1964.

Pigmalião é um personagem da mitologia grega, um escultor que criava obras perfeitas e que se apaixonou por uma de suas estátuas, que representava uma mulher. Ele pediu a Afrodite que desse vida à escultura, e esta se tornou uma mulher de verdade, que foi chamada Galateia.

Henry Higgins é uma referência a Pigmalião, pois ele pretende transformar a “matéria bruta” que é Eliza numa dama, ou numa “mulher de verdade”, e assim consegue (uma curiosidade é que o nome de Eliza Doolittle foi inspirado na versão de Goethe para a história de Pigmalião e Galateia, em que esta se chama Elise).

A lenda de Pigmalião pode ter surgido a partir de algum escultor que realmente existiu. É comum que certas obras, de tão bem feitas, sejam consideradas quase vivas. Um exemplo interessante é a história segundo a qual Michelangelo, ao terminar a escultura de Moisés, ficou tão admirado com a perfeição de sua obra que exclamou “Parla!” (“Fale!”), como se só faltasse a voz para considerar a estátua uma criatura viva.

Certa vez conheci um artista, Pedro, pescador da praia de Sibaúma (Tibau do Sul/RN), que demonstrou a mesma autoadmiração estupefata. Ele cria réplicas em madeira perfeitas de animais da fauna potiguar, como caranguejos, siris, tatus e pebas (eu vi pessoalmente um dos caranguejos, muito impressionante). Falando de seu trabalho, ele alega que seu talento é um dom de Deus e usou a palavra “impressionante” para descrever seu próprio trabalho, como se este fugisse de seu próprio mérito e se criasse por si mesmo, assim como Galateia e Eliza, e seria interessante que em determinado momento de My Fair Lady Higgins mirasse Eliza, com um semblante e maneiras tão diferentes daquelas da florista pobre, e exclamasse, apropriadamente: “Speak!”.

Pigmalião, de Boris Valejo

Pigmalião, de Boris Vallejo

Referências