A alma dos robôs – parte 3

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Um computador pode emular uma inteligência humana de modo visivelmente artificial. Não é difícil encontrar na internet programas que simulam um interlocutor com o qual você pode travar um bate-papo mais ou menos coerente. Mas basta aprofundar ou complexificar um pouco a conversa para desmascarar o robô e fazê-lo dizer coisas sem sentido.

A inteligência das máquinas tem uma especificidade particularmente artificial. A utilidade de um computador prescinde de qualquer traço de humanidade. Um computador e um braço mecânico de uma fábrica não precisam ser nenhum pouco parecidos com um ser vivo, e talvez fosse muito perturbador para nós se não fossem explicitamente artificiais. Esse é o tema de uma história de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que Data descobre que tem um irmão mais velho, Lore, que fora descartado por seu criador porque era parecido demais com um ser humano.

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O sexo do cérebro

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Ontem o texto Resposta a um Comentário foi comentado por alguém que se identificou como Lisandro Hubris. Ele deve ter errado ao digitar o endereço de seu site, mas aparentemente quis deixar registrado http://ateus.net (Ateus.net). Numa busca, constatei que ele é um usuário do fórum do referido site e está escrevendo um livro ateísta.

Resolvi não responder diretamente na seção de comentários por dois motivos: porque ele fugiu do assunto e porque minha resposta ganharia as proporções de um post. Dessa forma, venho escrever uma réplica, tendo em vista que a questão sobre a origem do comportamento sexual é um emaranhado de dúvidas e controvérsias.

Em suma, o comentário de Lisandro é apenas uma afirmação de que a homossexualidade é um comportamento determinado pela biologia, ou seja, é inato. É um comentário que não cabe na discussão iniciada por mim em Homossexuais ainda na mira da Inquisição, onde discorri sobre o casamento homossexual, mas trouxe de volta alguns questionamentos que eu apresentei num dos primeiros posts deste blog: De neurônios, sexo e sexualidade.

Já se nasce homossexual!

Já está provado que, a origem da homossexualidade é biológica…

Pois em 1991, uma pesquisa sobre homossexualidade e neurociência feita por Simon Le Vay, do Instituto Salk da Califórnia, EUA.

O mesmo onde Torsten Wiesel e David Hibel verificaram que a região do cérebro envolvida na regulagem do comportamento sexual é comandada por um substrato biológico da orientação sexual.

E que determinados impulsos sexuais, dos homossexuais são anatomicamente diferentes dos impulsos dos heterossexuais.

Deixou claro que, já se nasce homossexual.

Lê Vay comprovou que o NIHA-3 é grande em homens hetero e em mulheres homo, (ou seja, nos indivíduos que têm uma predisposição sexual para ter relações com mulheres) e pequeno nas mulheres heteros e homens homos (nos indivíduos com alguma orientação sexual para ter relações com homens).

A primeira coisa que Lisandro faz é afirmar que “já se nasce homossexual”. Logo em seguida, faz referência a uma pesquisa de 1991 que mostrou que determinada área do cérebro é semelhante entre pessoas que têm preferência sexual por homens (sejam essas pessoas homens ou mulheres) e entre pessoas com preferência sexual por mulheres (idem). A conclusão precipitada, como em muitas pesquisas desse tipo, é a de que uma característica biológica determinou um comportamento.

A origem do comportamento homossexual é um assunto controverso e há estudos nas mais diversas áreas da Ciência apresentando as teorias mais díspares. A Psicanálise, por exemplo, diz que o indivíduo nasce sem orientação sexual definida, e pode desenvolver qualquer gosto, de acordo com sua história pessoal e com a influência do meio.

O complicado na afirmação de que “a observação do cérebro prova que a homossexualidade é biológica” é assumir de antemão que as pessoas pesquisadas já nasceram com o cérebro assim. Quando o Homo sapiens interage com o ambiente, seu cérebro sofre estímulos e se modifica. Poderíamos supor, por exemplo, que um garoto que desenvolveu atração por outros garotos, devido a alguma particularidade dos episódios de sua infância, desenvolveu um cérebro cujo NIHA-3 é parecido com o das mulheres que gostam de homens. O delas também teria ficado assim pelo mesmo motivo.

De modo que a afirmação de que “orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo” poderia ser invertida: a biologia do indivíduo depende da sua orientação sexual.

Os ateus, em geral, são loucos por Ciência. Para mim, é salutar buscar na Ciência uma compreensão mais aproximada da realidade, e é muito superior nesse sentido do que a Religião. Mas uma cienciomania pode levar a uma um entusiasmo cego.

NIHA-3 significa, Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior.

E no caso em tela, o mesmo é denominado de “03”, porque também existe o NIHA 01,02 e 04. Que são as estruturas do hipotálamo que regulam a fome, a sede, as funções sexuais, a temperatura e certos hormônios.

Lisandro mostra com entusiasmo seus conhecimentos triviais a respeito do cérebro, e acaba caindo em alguns erros muito comuns entre os cienciomaníacos:

  1. Considerar como ciências somente as exatas e/ou naturais, ignorando muitas vezes o que as ciências humanas dizem a respeito desses assuntos;
  2. Fiar-se na Ciência como uma verdade absoluta, o que a Ciência essencialmente não é (em oposição aos dogmas religiosos). Daí decorre uma postura comum na cienciomania, que é expressa em frases do tipo “já está provado que…” ou “a Ciência já provou”.

Esquece-se ou se ignora a epistemologia mais contemporânea, para a qual a Ciência é uma aproximação da realidade e não uma descrição exata, além do que todas a teorias são passíveis de refutação.

Essas pesquisas normalmente deixam uma lacuna: como explicar os bissexuais? Como é o cérebro deles? Como é o cérebro de um pansexual? Como se dá isso em sociedades nas quais o comportamento bissexual é instituído socialmente, como era o caso da Roma antiga? Os romanos já nasciam bissexuais?

Embora Lisandro não tenha deixado claro o que pensa moralmente sobre a homossexualidade, deixou escapar um preconceito:

Lê Vay pesquisou o tecido cerebral de 41 indivíduos.

entre eles haviam 19 homens comprovadamente gays; 16 homens heterossexuais e 06 mulheres normais. [grifo meu]

Não ficou bem entendido, num comentário que buscou ser isento, o que significa uma “mulher normal”.

A conclusão do Dr. Le Vay foi que “O NIHA-03 exibiu dimorfismo”.

Ou seja, o aparecimento de duas formas diferentes, dentro de um mesmo grupo.

Pois o NIHA-03 dos homossexuais era duas vezes mais volumoso do que o dos heteros.

A descoberta de que entre os heterossexuais e os homossexuais, um núcleo difere em tamanho.

E aparece de duas formas características.

Indica que a orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo.

Sendo bem racional, a única coisa certa que se pode tirar da pesquisa e Le Vay é que, aparentemente, certo dimorfismo do cérebro coincide com uma variação e comportamento. Mas a conclusão peremptória de que , obviamente, a biologia (o cérebro) determinou um comportamento é uma postura pseudocientífica.

Além dos genes de gêmeos idênticos, apresentarem uma possibilidade acima da média dos mesmos compartilhar a mesma orientação sexual.

O homossexualismo independe da raça e da origem do individuo.

Pois cerca de 5% da população é homossexual.

A orientação sexual dos recém – nascidos adotados tem pouca relação com a dos seus pais adotivos.

E mais de 90% dos recém-nascidos adotadas por casais gays são heterossexuais.

Como nos gêmeos idênticos, a probabilidade deles compartilharem à mesma orientação homossexual é superior a 50%.

Enquanto, nos pares aleatórios de indivíduos a média está abaixo de 8%.

Algo que fica pouco claro é se essa teoria neurológica considera que o aspecto do cérebro determina ou influencia. Se for considerada a estatística de que os gêmeos tem grande probabilidade de ter a mesma orientação, então não há determinismo, o que nos faz perguntar: o que faz com que dois irmãos gêmeos não compartilhem a mesma orientação sexual?

Pode ser a história pessoal de cada um deles. Mas podemos também considerar outra hipótese: não é a genética idêntica que influencia nessa probabilidade, mas as condições mesológicas parecidas e a nossa tendência a considerar os gêmeos como se fossem a cópia um do outro, o que pode gerar uma confusão identitária em ambos. E aí cabe uma pergunta muito pertinente: como são os cérebros de dois irmãos gêmeos que têm orientação sexual diferente entre si?

Finalmente, chegamos ao trecho que tem alguma pertinência na discussão sobre o casamento homossexual: a orientação sexual dos filhos de um casal homossexual. Talvez seja esse o ponto a que Lisandro quis chegar ao introduzir o tema da origem biológica da sexualidade.

E acho que toda essa argumentação biologista é sofisma. Primeiro, porque as estatísticas mostram que a orientação sexual de um indivíduo independe daquela dos adultos que o criaram; se isso se dá por fatores genéticos ou sociais ou psíquicos ou físicos pouco importa, e é uma resposta que ainda não foi respondida.

Em segundo lugar, dar tanta importância a esses dados é admitir que a homossexualidade e as famílias diferentes da tradicionais são problemáticas, ou seja, é se manter ainda numa mentalidade conservadora que não se alinha com uma postura libertária, que, penso eu, a Ciência e o ateísmo buscam.

As evidencias indicam que a orientação sexual tem uma base genética.

E demonstram que o caráter e as características individualizadas de uma pessoa não são enraizados pelo meio ambientes em que a mesma vive.

Ademais, é preciso separar ainda algumas coisas dentro da própria Biologia: não é tão forçosa assim a relação entre cérebro (órgão biológico) e genes. Afinal, no âmbito biológico, não é só a genética que influencia nas características físicas de um indivíduo. Os hábitos da mãe durante a gravidez precisam ser considerados, o clima no qual se vive e as reações do organismo àquele. Há inúmeros aspectos fisiológicos que são adquiridos durante a gestação do novo ser vivo e não são determinados pelas cadeias de DNA.

Não quero levantar a bandeira do sociologismo e afirmar que tudo é social, contra o biologismo que afirma que tudo é biológico. Deve haver influências de vários tipos no comportamento das pessoas. A própria dificuldade de as ciências dialogarem abertamente entre si impede que tenhamos claro o que realmente está em jogo na constituição de cada indivíduo. Porém, é importante levantar questionamentos acerca de cada argumento apresentado, propondo outras interpretações dos mesmos fatos.

No campo da vida real – parte 2

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Há 3 dias, republiquei na Teia um texto que havia perdido. Meu amigo Cadu, que já o tinha lido, resolveu comentar na forma de um post em seu próprio blog. Sua réplica foi bastante extensa e me ajudou significativamente a rever alguns aspectos da minha reflexão. Portanto, para aprimorar o pensamento e também para rebater algumas observações de Cadu, resolvi apresentar esta tréplica.

Primeiramente, tentei deixar claro no subtítulo do texto que não se tratava de uma análise crítica. De fato, após reler meu próprio texto, vi-o mais como um desabafo repleto de impressões motivadas pelas minhas emoções, pelo meu próprio habitus, do que como um texto crítico-analítico (embora haja alguns elementos deste aspecto).

Escola de Atenas, de Rafael, e um... menino

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No campo da vida real

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Ontem*, ao tomar o ônibus para casa, presenciei duas situações que me deram a ideia de escrever um texto na Teia. A primeira foi uma mulher oferecendo o assento a um homem idoso. Este disse polidamente que não precisava. Aquela reiterou dizendo que se ele quisesse poderia sentar no lugar dela. Ao dizer isso, ela nem sequer fez um movimento para se levantar 1.

A outra situação foi um homem sentado à janela da última linha de cadeiras, meio deitado, ocupando dois espaços, absorto na paisagem, sem esboçar a menor disposição para ceder um espaço, sem aparentemente perceber que o ônibus ficava cada vez mais cheio de gente em pé e que agradeceria imensamente a bondade de um estranho que lhe oferecesse um pouco de conforto coletivo.

O sociopata e a sociedade

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De neurônios, sexo e sexualidade

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Recentemente, o professor Alípio de Sousa Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, editor da revista Bagoas, publicou um artigo intitulado “Cérebros (homos)sexuais: as ressonâncias do preconceito”, no CMI Brasil e no blog Mulheres de Olho. No texto, o sociólogo comenta a conclusão de uma pesquisa neurológica feita por Ivanka Savic e Per Lindström, em Estocolmo, sobre os cérebros de homossexuais. Segundo a pesquisa, os cérebros dos gays funcionam como os cérebros das mulheres heterossexuais, e os cérebros das lésbicas como os cérebros dos homens heterossexuais, o que, de acordo com os cientistas, indicaria uma predisposição neurobiológica ao comportamento homossexual.

Alípio (chamo-o pelo primeiro nome pela intimidade; ele foi meu professor na universidade) critica duramente a conclusão de Savic e Lindström, dizendo que ela ressoa uma necessidade da sociedade ocidental de explicar a origem da homossexualidade, tida como anormal, e não se detém na explicação da heterossexualidade, tida como óbvia normalidade. Esse tipo de pesquisa é comemorado por militantes GLBTT, que acreditam que traz a possibilidade de ser melhor aceitos pela humanidade homófoba. Para Alípio, entretanto, essa pesquisa não deveria ser motivo de comemoração, pois ela reflete a incapacidade de nossa sociedade de aceitar que a homosexualidade pode ser uma opção. Essa sociedade se dá melhor com a idéia de que a orientação sexual é algo inevitável, uma determinação a que os homossexuais, “coitados”, não podem escapar. Vale a pena ler o texto na íntegra.

Em ambos os websites em que foi publicado, o artigo de Alípio suscitou comentários desfavoráveis, tanto de fanáticos religiosos e homófobos assumidos quanto de militantes homossexuais e de feministas. Concordo com alguns argumentos de Alípio, principalmente no que se refere ao tipo de acolhimento de nossa sociedade aos homossexuais, vistos como anormais, pecadores, portadores de uma doença (às vezes quase) irremediável. Também concordo que é preciso levar em consideração, numa pesquisa neurológica, que o funcionamento do cérebro pode ser o resultado e não a causa de um comportamento.

No entanto, a questão não é resolvida de forma tão simples como ele propõe (para Alípio, todo comportamento humano prescinde de explicação biológica). A meu ver, concordo que fatores sociológicos são tão importantes ou mais do que os biológicos para constituir o comportamento humano. Mas não há evidências científicas suficientes para assegurar que são os únicos fatores. Concordo com ele que cada indivíduo possui uma trajetória de vida composta de uma miríade de ocorrências condicionantes de seu temperamento. Mas talvez a a biologia tenha algum papel nisso tudo. E se tiver, não penso que seja o mais determinante, nem acho que seja em si motivo para pensar nas pessoas como condenadas pela biologia.

Hermafrodito reclinado

Hermafrodito Reclinado, escultura romana do século I e.c.

De qualquer forma, para além dos comentários sobre o artigo supracitado, penso que uma pesquisa neurobiológica como a de Savic e Lindström deixou de levar em conta um complexo conjunto de outros elementos relevantes e importantes na questão da sexualidade. Um deles é a bissexualidade. Como funciona o cérebro de um bissexual? Como funciona o cérebro de um zoófilo? E como, por todas as estrelas que brilham no céu terráqueo, como funciona o cérebro de um pansexual?

Brokeback MountainÉ muito importante que tenhamos em mente que o gênero masculino de uma pessoa não necessariamente corresponde ao desejo sexual por mulheres. Se um homem homossexual tivesse alguma diferença, em relação a um homem heterossexual, em termos de gênero, ele não seria chamado de homossexual, pois ele não seria homem. É justamente pelo fato de ser homem que seu desejo por outro homem é homossexual (homo, em grego, quer dizer “igual”). Um homem que gosta de outros homens não tem necessariamente vontade de pertencer ao sexo feminino. Uma lésbica não é necessariamente um homem em corpo de mulher.

Já vi, na televisão, um homem, casado com um travesti, que queria que sua companheira fizesse uma cirurgia para trocar de sexo. Onde se encaixam esses indivíduos na classificação do comportamento sexual? Qual é a preferência do primeiro, casado com uma pessoa que tem corpo masculino? Será que ele gostou da pessoa que conheceu, mas ficou insatisfeito por não ter um corpo de mulher?

Outro caso interessante, também visto na televisão, que só conhecia em teoria, foi o de uma pessoa, nascida com o sexo masculino, que tinha o desejo de mudar, de se tornar uma mulher. Já assumira uma identidade feminina, trocando o nome de batismo e passando a se vestir com roupas de mulher. Mas ela não tinha desejos sexuais por homens. De fato, namorava uma moça de sua idade. Como funciona os cérebros dessas pessoas?

Gostaria de saber o nome do filme do qual, certa vez, vi trechos, em que uma garota dizia algo assim:

Não é que eu goste de mulheres. Eu me apaixono por pessoas. O fato de as pessoas por quem eu me apaixonei serem mulhere é coincidência.