Avatar [Resenha – Parte 1]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009), de James Cameron, era um filme cujos trailer e pré-resenhas me deixaram com um pouco de vontade de assistir. Não havia entendido bem a ideia, mas gostara do visual dos personagens alienígenas, esbeltos e azuis, e dos cenários selváticos da lua Pandora.

Mas foi depois de ver algumas pós-resenhas que realmente me motivei a ir ao cinema. Havia, segundo li, uma questão antropológica de grande interesse meu. Antevi uma semelhança com Dança com Lobos (1990), mas, tendo em mente que eu veria clichês e uma trama mais ou menos previsível, preparei-me para as novidades que o filme oferecesse. Ademais, histórias com alienígenas são uma preferência pessoal.

Sinopse estendida

No século XXII, Pandora, um satélite natural do planeta Polifemo (que gira ao redor de uma estrela da constelação Alfa Centauro) constitui uma atração para os humanos, pois é habitada por uma espécie inteligente chamada na’vi. Sobretudo, é uma atração para a economia humana porque essa lua contém um minério valiosíssimo chamado unobtânio. Na realidade, os na’vi podem ser considerados mais um obstáculo do que uma atração, pois a região com maior concentração de unobtânio é protegida por eles como um santuário.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Pandora é  uma boa alegoria para a expressão Inferno Verde (com que os exploradores europeus apelidaram a Amazônia), pois é uma biosfera densa e bela, mas ao mesmo tempo hostil aos humanos, pois possui grandes animais perigosos e é envolta por uma atmosfera tóxica para pulmões terráqueos.

Ela é habitada por exóticos seres inteligentes chamados na’vi, humanoides esquios e azuiss, com 3 metros de altura, cabelos pretos, lisos e longos (como os dos ameríndios), pescoços e membros compridos e caudas preênseis. Possuem grande força, resistência e agilidade e se movem com facilidade pelas florestas em que vivem, portando armas simples como arcos e flechas, cavalgando grandes montarias parecidas com cavalos e animais alados semelhantes a grandes aves com asas coriáceas.

Para explorar o local em busca do unobtânio, que não está em nossa tabela periódica dos elementos, a empresa RDA instala uma base em Pandora, com um programa dividido em duas partes.

A primeira parte desse programa é o Projeto Avatar: corpos de na’vi capazes de portar a consciência de alguns indivíduos humanos selecionados (o DNA desses corpos é uma mistura do DNA na’vi com o do indivíduo humano que o vai controlar), para que estes possam interagir na atmosfera de Pandora e, especialmente, para interagir com os na’vi e negociar a exploração do unobtânio.

Jake Sully, ex-fuzileiro naval paraplégico, entra em cena para substituir seu falecido irmão gêmeo univitelino. Ele assume a responsabilidade sobre o avatar do seu irmão, pois tem o mesmo DNA deste. Grace Augustine, a cientista que lidera as atividades dos avatares, duvida que ele seja capaz de substituir o irmão. Jake fica maravilhado ao redescobrir as sensações e movimentos dos pés e pernas em seu corpo na’vi.

Diferente de seu irmão, Jake não passou por um processo de preparação para incorporar um avatar nem para se comunicar e interagir com os na’vi. Neytiri, a filha do líder dos Omaticaya, clã na’vi com que Sully entra em contato, o considera uma criança, e é sua mente fresca, com muito poucas expectativas, que o permite ser aceito no clã e ser ensinado a ser um nativo. Contra as expectativas de Augustine, Sully consegue melhor do que ninguém incorporar um na’vi.

Ele se torna assim a maior esperança de Parker Selfridge, o diretor maquiavélico da ação exploratória, mostrado como um homem obcecado pelo unobtânio; e de Miles Quaritch, o coronel que comanda a tropa militar que vai empreender a segunda parte do projeto: defender os humanos de possíveis perigos e atacar aqueles que servirem de obstáculo. Quaritch promete a Sully, em troca do sucesso da operação, um tratamento para retomar o movimento das pernas.

A cientista, o empresário e o militar

Augustine, a cientista; Selfridge, o empresário; Quaritch, o militar. O capitalismo desconsiderou a vida dos nativos, enquanto o militarismo os viu como inimigos. A Ciência, felizmente, compreendeu e passou para o lado dos na’vi.

Sully acaba por frustrar os planos da RDA, tornando-se um na’vi de corpo e alma, domando sua própria montaria alada, entendendo e adotando o modo de vida dos na’vi (aprendendo a viver em harmonia e conexão com a natureza, chamada de Eywa pelos na’vi) e tornando-se parceiro amoroso de Neytiri. A vida como na’vi passa a ser mais real para ele do que a vida como humano, e ele se torna incapaz de trair seus irmãos na’vi e, embora tenha fornecido informações cruciais à RDA sobre o acesso ao unobtânio, tenta de tudo para impedir Selfridge e Quaritch de tomar a terra dos nativos à força.

O híbrido Sully, meio-humano meio-na’vi, encontra-se então no limbo, traidor da empresa que o contratou, pois vai impedi-la a todo custo de violar a liberdade dos nativos; traidor dos que o acolheram como irmão, pois desde sempre não confidenciou o plano original por trás de sua imersão em Pandora.

Em contrapartida, Sully empreende um passo decisivo para retomar a confiança dos na’vi, domando uma fera alada que só grandes heróis do passado conseguiram. Finalmente, tendo informações valiosas sobre seus ex-aliados, que estão em vias de destruir a árvore sagrada sob a qual jaz o unobtânio, ele lidera uma defensiva que livra os na’vi do perigo humano.

Sully completa sua transformação com a transferência definitiva de sua consciência para o corpo na’vi, ganhando de Eywa as pernas prometidas por Quaritch. O selvagem primitivo se torna seu próximo passo evolutivo, mais avançado na superação dos preconceitos inter-raciais e interespécies, na compreensão da interconexão dos seres e da natureza e no entendimento do equilíbrio das forças e energias naturais.

A trama através da nomenclatura

Muitas dos nomes do cenário de Avatar são simbólicos e ajudam a contar a história, pois revelam o destino da trama e a índole de personagens. A começar com o nome do mundo em que tem palco a narrativa: Pandora.

Pandora é uma personagem da mitologia grega, que em algumas versões do mito é considerada a primeira mulher criada pelos deuses. Prometeu havia dado aos humanos o fogo divino, que lhes permitiu sair da barbárie. Após puni-lo, Zeus mandou que Hefesto criasse uma mulher, Pandora, que enganaria Epimeteu, irmão de Prometeu, para que este abrisse a caixa com todos os males que afligiriam a humanidade. Mas ela a fechou antes que a esperança escapasse.

A lua Pandora pode ser vista então como um terreno com valor polivalente para os humanos que ali descem: é ao mesmo a fonte de enormes riquezas materiais, uma selva perigosa que pode matar quem nela se aventura ou uma chance de aprender lições valiosas sobre a alteridade, a natureza e a esperança.

O unobtânio, um aportuguesamento livre da palavra unobtainium, é um metal cujo nome já prediz o resultado da história, pois é um trocadilho com unobtainable, que significa em inglês “inobtenível”,  “que não se pode obter”. Esse minério está no solo em que se enraíza uma árvore sagrada para os na’vi, que a protegerão com suas vidas. A natureza, Eywa, também não deixará que os humanos coletem o valioso metal.

Na’vi, o nome inventado dos habitantes de Pandora, pode ser entendido como uma mistura de nativo (native, em inglês) com o sânscrito Devi. Eles são o símbolo da alteridade na história, o outro que pode ser visto como antagonista não-humano ou, como vem a ser no final, o não-humano humanizado, compreendido como igual. Eles são os nativos colonizados ou que se pretendem colonizar, simbolizando todo os povos exóticos.

KaliMas ao mesmo tempo são entendidos como seres míticos, como deuses e, talvez, como aquilo a que o humano aspira ser. Eles são Devi, que na mitologia hindu designa as divindades femininas, ou as manifestações femininas da divindade, ou ainda as manifestações divinas do feminino. Os na’vi até lembram, com suas peles azuis, algumas imagens sacras de deuses hindus.

Neste sentido, os na’vi são incorporações da natureza de Pandora, ou Eywa, e representam o antagonista-natureza de caráter feminino, que se opõe à tecnologia bélica de caráter masculino levada pela RDA. Esse antagonismo entre selva e tecnologia, natureza e cultura, feminino e masculino, é instigante como tema de narrativas como Alien: O Oitavo Passageiro, também dirigido por James Cameron.

Também do sânscrito, avatar denomina as encarnações terrenas da divindade, como Krsna e, dependendo da interpretação teológica, Cristo (Deus feito carne). (Essa palavra nomeia, por derivação, as imagens que na internet servem para identificar uma pessoa (seja em bate-papo, em redes sociais, em RPGs online ou em comentários de blog).)

Os humanos que encarnam na’vi no mundo destes são como os avatares hindus, deuses encarnados na Terra. Neste sentido, a lição do filme chega a ser ateísta e humanista, pois esses avatares se deparam com o fato de que são iguais aos na’vi “comuns”. Ao mesmo tempo, é salvacionista, pois é o avatar de Jake Sully quem lidera e salva o clã que o acolhe.

Eywa é a divindade suprema nas crenças dos nas’vi, e poderia ser entendida como a imagem que nós humanos nomeamos de Mãe-Natureza. Eywa lembra Eva, a primeira mulher, e como entidade feminina primordial, Eywa simboliza o mundo dos na’vi, uma interconexão natural.

Segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário), o imaginário se divide basicemente em dois regimes: o diurno e o noturno. Este último é onde as imagens são regidas pela ideia de acolhimento, de aconchego, do abraço, da rede que embala e, envolvendo, protege. Se para o regime diurno a rede é uma teia de aranha que tolhe a liberdade, para o regime noturno, que poderia ser entendido como regido por uma mãe, é acalentamento. Eywa, Eva, princípio feminino, é maternal.

Jake Sully, à primeira vista, é um homem cujo principal objetivo é se ocupar depois que perdeu as pernas e, se possível, tê-las de volta com uma cirurgia. O que muda bastante depois que ele se empolga com o Projeto Avatar, que lhe dá a oportunidade de andar e de conhecer um mundo novo e fascinante. A reviravolta completa acontece quando ele se torna um na’vi, é aceito pelo clã e se une amorosamente a Neytiri.

Sully é um verbo inglês que reporta à ideia de suspeita, ou seja, Jake Sully está todo o tempo sendo vigiado para que suas intenções fiquem claras e se saiba como ele vai agir. Em certo momento, ele se torna traidor em ambos os lados e precisa tomar uma atitude para agir da maneira mais justa.

Grace Augustine, a botânica que escreveu um tratado sobre a flora de Pandora, é Graça Augusta. Se sua importância faz a primeira impressão dela parecer arrogante, ela se mostra uma valiosa aliada para os na’vi em sua luta pela proteção de Pandora, sendo permitida sua entrada na vila dos Omaticaya, que, mais tarde, tentarão salvar sua vida ameaçada por um tiro de Quaritch.

Parker Selfridge está pouquíssimo interessado em entender os outros. A única coisa que ocupa suas preocupações é o self, sua própria trincheira. Os outros ou são ferramentas para ele conseguir o que quer ou são obstáculos a ser derrubados. O estereótipo do empreendedor egoísta e maquiavélico.

Miles Quaritch só tem um objetivo: quarrel, peleja. Ele está a serviço da RDA apenas para combater os na’vi com armas. Ele vai matar quantos nativos forem necessários para executar a meta de Selfridge. Sua índole bélica será decisiva para frustrar qualquer plano diplomático e para criar uma guerra na selva que remonta o sonho guerreiro dos norte-americanos.

[Continua…]

Distrito 9 [Resenha]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Imagine uma gigantesca nave espacial parada no ar sobre sua cidade. Nada sai lá de dentro durante algum tempo e não sabemos o que a nave trouxe. As Forças Armadas, após algum período de ansiedade geral, decidem penetrar a nave e descobre uma população alienígena, com uma aparência mais ou menos de artrópodes bípedes, desnutrida e desamparada.

O que seria mais adequado fazermos com esses extraterrestres que pedem asilo na Terra? Onde devemos alocá-los? O que podemos lhes oferecer? O que eles podem nos dar em troca? Devemos integrá-los à nossa sociedade? Devemos tratá-los como humanos, como não-humanos com alma ou como animais sem alma (animais sem alma, agora eu me toco, é uma contradição; alma vem do latim: anima)?

O filme Distrito 9, de Neill Blomkamp, produzido por Peter Jackson, assume que uma nave extraterrestre pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul, e apresenta essa história na forma de um semidocumentário. Nele vemos que as Forças Armadas decidiram abrir a nave e encontraram alienígenas desnutridos e desamparados em busca de asilo.

Não sabemos o que ocorreu com eles nem porque vieram até a Terra; especula-se que seus líderes morreram ou que os recursos naturais de seu planeta-natal se exauriram. O fato é que: ei-los, não têm para onde ir.

Começam os conflitos. Os não-humanos, apelidados de “camarões” pelos humanos, são alocados numa região inabitada do município, próxima ao centro urbano, chamada de Distrito 9. Assim como os ex-escravos negros construíram o que hoje são as favelas, os “camarões” passam a viver uma vida degenerada, habitações apertadas envoltas por lixo, convívio com humanos da Nigéria que traficam armas e drogas. O resultado é que o Distrito 9 se tornou um depósito de “camarões” e de lixo.

Aliás, mais do que um depósito, um criadouro. A população não-humana vai crescendo e os “camarões”, segregados da população humana, começam a ser vistos como um perigo. As autoridades decidem realocar os “camarões” e autorizam a MNU (Multinational United), uma empresa militar privada, a empreender uma ação de despejo liderada pelo funcionário Wikus van der Merwe. Os residentes do Distrito 9 deverão ser realojados no Distrito 10, fora das imediações de Joanesburgo.

Por acidente, Wikus é infectado por uma substância que o faz passar por uma gradativa metamorfose, tornando-o genética e fenotipicamente um híbrido de humano e alienígena. Ele se torna cobaia de testes da MNU e depois foragido, nem humano nem “camarão”. Estabelece uma relação ambígua com Christopher, um alienígena que está tentando fugir da Terra. No final, Wikus ajuda Christopher a escapar na nave, em troca da promessa de trazer, em alguns anos, a cura para sua metamorfose.

O navio negreiro e o banzo interplanetário

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

A nave espacial repleta de extraterrestres desamparados pode ser entendida como uma metáfora de um navio negreiro ou uma embarcação repleta de imigrantes. A nave simboliza o degredo e nos faz perguntar qual é a origem desse povo degenerado que se encontra sem rumo no espaço, sem líderes e sem saber para onde ir.

Podemos inferir, pelo conjunto de analogias com a relação colonialista e escravocrata da qual a África foi vítima, que os alienígenas que pairam no céu de Joanesburgo são uma carga de escravos, e que a tripulação da nave morreu de alguma forma, talvez assassinada pelos “camarões”.

Entretanto, os equipamentos que eles trazem só podem ser usados por eles, ou seja, foram construídos para sua espécie e provavelmente pela sua espécie. Se eles era escravos, os escravizadores eram muito provavelmente outros “camarões”. Os especialistas entrevistados no “documentário” dizem que os “camarões” encontrados na nave eram operários incapazes de tomar decisões.

Nessa condição, semelhante à dos negros trazidos em navios para a América, seria muito difícil encontrar para eles um abrigo melhor do que uma favela. Não só porque os extraterrestres provocam medo e ninguém sabe que perigo eles podem representar, mas porque a humanidade não se preparou para ampliar os Direitos Humanos ao nível interplanetário.

Esse é o ponto em que a história pode se tornar polêmica. O fato de serem criaturas conscientes (sentient beings) não deveria lhes conceder os mesmos direitos que aqueles concedidos aos humanos?

Humanos não-humanos

Quando as nações  europeias expandiram seu domínio ao Leste, construíram um conjunto de representações racistas (o Orientalismo, segundo Edward W. Said; leia aqui minha resenha do seu livro sobre este tema) que rebaixaram os humanos orientais a uma condição menos evoluída. Para muitos, sua “situação” era irreparável: árabes, indianos e judeus sempre seriam dependentes do domínio do europeu civilizado.

Quando navegantes europeus chegaram à África ocidental e à América, algo semelhante se constituiu. As biologias e as culturas de ameríndios e africanos foram consideradas sub-humanas pela ideologia imperialista, e mais tarde se desenvolveria o racismo científico que naturalizaria a inferioridade e a não-humanidade de povos não-europeus.

O próximo capítulo dessa história, e que se aproxima mais da trama de Distrito 9, é o processo de imigração, especialmente de imigrantes considerados de “raças” diferentes, e que ainda são vistos com o mesmo racismo imperialista e colonialista. É nesse contexto que se desenvolve a xenofobia na forma como a vulgarizamos hoje, ou seja, o medo dos estrangeiros.

Não-humanos humanos

Atualmente, o processo de mundialização da história da humanidade já vislumbra uma nova ética planetária, ainda não colocada plenamente em prática, mas em princípio já esboçada, segundo a qual todos os seres humanos têm os mesmos direitos básicos. Há também uma tendência a ampliar esses direitos aos animais não-humanos (um exemplo pode ser visto no documentário Terráqueos (Earthlings), sobre o qual você pode saber mais neste link).

Como já escrevi em algum lugar desta Teia, esses direitos deverão se expandir quando os humanos tiverem contato e começarem relações com espécies alienígenas. Assim como a crença nas diferenças fundamentais entre “raças” humanas (que justificavam conflitos violentos) foi revista, qualquer crença que justifique desigualdades baseadas nas diferenças interespécies deverá ser superada tanto por parte dos humanos quanto de qualquer outro povo extraterrestre.

Brasão da Federação Unida de Planetas

Brasão da Federação Unida de Planetas, do universo de Jornada nas Estrelas

Essa utopia é prevista em obras como a franquia Jornada nas Estrelas, onde se concebe a Federação Unida de Planetas, que rege vários planetas e vários povos que entre si são alienígenas, tanto biológica como culturalmente. Na série Babylon 5, também há a ideia de que os vários povos interplanetários devem tratar uns aos outros como detentores dos mesmos direitos básicos.

A situação criada em Joanesburgo e no Distrito 9 dificultou grandemente a aplicação de qualquer ideal universalista pós-humanista. Os alienígenas estavam em situação tão precária e doente que passaram a viver no lixo, viciados em ração de gato, traficando armas hi-tech e sem controle populacional.

Ou seja, sem condições de reconstruir uma vida organizada, os “camarões” passam a ser monstros ou, no mínimo, animais, uma praga com que ninguém sabe como lidar. Os Direitos Humanos, portanto, não têm condições de evoluir nessas circunstâncias. Talvez, se nós um dia tivermos condições de acolher um povo desamparado com as melhores condições para sua recuperação, poderemos começar a revisar os Direitos Humanos e constituir os Direitos Universalistas.

O híbrido no limbo

Wikus van der Merwe é um personagem que à primeira vista dá a impressão de poder ser resumido numa palavra: pateta. É arrogante, simplório, preconceituoso e bobo. Porém, enquanto figura central da narrativa, ele se revela e revela a complexidade humana, em seus sentimentos e ações, diante do inusitado, diante do outro e do diferente.

A operação de despejo ocorre através de duas forças antagônicas e complementares: a abordagem pseudoconciliatória de Wikus e a abordagem destrutiva dos soldados que o acompanham. Wikus arrefece os ânimos dos militares (ansiosos para descarregar suas tensões e balas nos “camarões” cuja existência é uma afronta a sua xenofobia) enquanto estes asseguram a eficiência da ação e a segurança de Wikus.

A complexidade subjetiva de sua ação de despejo se revela primeiramente quando ele não consegue convencer um dos alienígenas, Christopher, a deixar sua casa, pois este, inadvertidamente, sabe ler o mandado de despejo e encontra uma contradição. Para se safar, Wikus apela para os sentimentos de Christopher, ameaçando levar embora seu filho.

Em segundo lugar, Wikus se vê sofrendo uma mutação que transforma seu corpo, primeiro um dos braços, no de um “camarão”. Ele é forçado a testar uma arma alienígena, que só funciona quando em contato com um “camarão”, e a matar um não-humano, o que ele recusa insistentemente.

Ao fugir do cativeiro, Wikus passa a protagonizar um dos principais temas do filme: o dilema do híbrido. Ele se torna pária entre os humanos, e aquele que deveria ter salvo Joanesburgo da praga dos “camarões” se encontra no caminho não só de se tornar um destes como de minar a operação de despejo. Isso por que ele passa a trabalhar com um dos alienígenas, em busca de uma troca de favores: Christopher quer voltar para casa e Wikus quer uma cura para a transformação.

Mas é graças à transformação que Wikus consegue salvar a própria pele e a de seu amigo. Para todos os efeitos, Wikus passa a ser um “camarão”, mesmo que neste ponto do filme ele ainda seja bem reconhecível como humano. Sua esposa não o quer mais (primeiro por insistência do pai, mas depois pelo escândalo que os acontecimentos causaram) e ele perde toda os laços com Joanesburgo.

Quando o “branco” se misturou com um “negro” (ou um “camarão”), a ideologia segregacionista da colonização anglo-saxã não cogitou a identidade mestiça. O resultado da mistura é que a parte “branca” foi sujada pela parte “negra”. Como nos EUA, em que uma gota de sangue negro é suficiente para tornar um indivíduo “negro”, Wikus se tornou um “camarão” ao entrar em contato com uma gota do elixir preto de Christopher.

(O dilema do híbrido

Spock, Worf e Arwen

Esse problema trazido pelo ineditismo da identidade híbrida aparece em outras histórias em que a mistura é tematizada. Spock é exemplar, pois, por mais claro que seja, para ele e para os que o rodeiam, o fato de que sua mãe é humana e seu pai é vulcano, ele insistentemente declara sua identidade vulcana, e é muitas vezes questionado sobre essa identidade. Ele é exortado pelo pai, em Star Trek (2009), a escolher entre sua natureza vulcana e humana, e não a assumir uma terceira opção, ou seja, a de que ele é um mestiço.

Ainda no universo de Jornada nas Estrelas, Worf nasceu klingon mas foi criado por humanos. Embora tivesse pouquíssimo contato com outros klingons, ele insistiu que os pais só lhe fizessem comida de sua cultura-natal, e foi muito exigente consigo mesmo quanto à manutenção da tradição de seus ancestrais biológicos e não a dos seus pais adotivos. “I’m a Klingon” é uma expressão que ele repete em muitos momentos da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. O encontro de culturas poderia ter feito nascer uma mentalidade amálgama em Worf, mas ele parece não ter herdado nada dos pais humanos.

Na Terra-Média criada por J. R. R. Tolkien, várias raças se encontram e se misturam. Arwen, por exemplo, é uma meio-elfa, resultado de uma genealogia em que se encontram elfos e humanos. Mas ela é considerada elfa, e portanto imortal, durante quase toda a história de sua vida, até que decide se tornar mortal (humana) por amor ao seu marido, Aragorn, que é humano. Ela não poderia ser um híbrido (como aliás existe no universo do RPG Dungeons & Dragons), com características de ambas as ascendências?

(Pretendo escrever em breve um post mais elaborado sobre este tema.))

O herói

Despretensiosamente, Wikus se tornou um herói para os “camarões”, e talvez sua metamorfose seja considerada uma benção pelos não-humanos. O fato é que, com o tempo, ele completou essa metamorfose e se tornou fisicamente um “camarão”, vivendo no lixo do Distrito 10, à espera do retorno de Christopher.

Porém, fica implícito que a promessa de Christopher de trazer uma cura pode ser uma mentira. De certa forma, Wikus só foi importante para que se abrisse a oportunidade de os “camarões” fugirem e voltarem para casa. Ele é o Judas sem cuja traição Cristo(pher) não poderia ter cumprido sua promessa (talvez a analogia religiosa tenha um certo apelo nos espectadores).

No entanto, é bem provável que Wikus não tenha mais perspectiva de retornar à humanidade. Ele se tornou um anátema em Joanesburgo, por muitos é tido como morto (para sua ex-epossa, ele é um fantasma que deixa flores de metal na porta de sua casa).

Se Christopher retornar com mais não-humanos, possivelmente tentará resgatar os “camarões” que ficaram (e que se multiplicam velozmente) e é bem provável que ocorra um conflito violento com os humanos. Neste conflito, só haverá duas opções razoáveis para Wikus: abster-se ou ficar do lado dos alienígenas. Se a oportunidade de ajudar os humanos surgir (baseada na larga experiência de como vivem e pensam os “camarões”), ele não terá nada a ganhar.

Um cinema híbrido

Distrito 9 me causou sentimentos ambíguos. Se por um lado suscitou uma reflexão interessante (exposta acima) e se inicia de forma criativa, como um documentário realístico, passa depois a conter elementos de ação heroicista e belicista. Se em alguns momentos aborda os temas de modo crítico, em outros cai no apelo emotivo.

No entanto, essa mistura de cinema sul-africano com Hollywood gerou uma obra multifacetada, que pode ser admirada de várias formas e gerar diversas interpretações e apreciações. A introdução do filme cria uma tensão muito grande e uma expectativa de tragédia iminente que, se não fosse contornada pela ação da segunda parte da história, a faria terminar como Dançando no Escuro de Lars von Trier. Pensando  bem, o final de Wikus, transformado em alienígena, é trágico.

Essa mesma ação, que se opõe à primeira parte, contribui para manter a tensão e o espectador na cadeira. Neste aspecto, o cineasta foi bem-sucedido, criando uma obra que prende a atenção até o fim e proporciona a oportunidade de não nos perdermos enquanto acompanhamos uma trajetória repleta de elementos que nos levam à reflexão sobre humanidade, Direitos Humanos e Universalismo.