Sexualidade alienígena – parte 1

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O ser humano tende a antropomorfizar a natureza, ou seja, representar a realidade ao seu redor segundo parâmetros construídos a partir de sua própria experiência. Um dos exemplos mais marcantes em nossa cultura e idioma é a classificação de coisas inanimadas em gêneros masculino e feminino e a representação dessas coisas segundo o que se entende como características masculinas e femininas.

Extrapolando tudo isso, é comum imaginarmos, em histórias de ficção científica, que as espécies alienígenas que porventura possamos encontrar universo afora tenham características muito parecidas com as humanas, como a divisão em dois sexos/gêneros e a procriação sexuada. Até mesmo a existência de algo que possamos identificar como sexualidade é resultado do antropomorfismo.

Mas sabemos quase nada sobre a fisiologia de espécies extraterrestres e só podemos especular, segundo alguns exobiólogos, imaginando que, se uma determinada forma de funcionar deu certo para nós, deve ter se desenvolvido também em outros lugares do Cosmos.

Porém, é provável que a variedade das formas de vida no universo seja muito maior do que tendemos a imaginar, e a forma humanoide dimórfica pode não ser o modelo mais comum. Mas a grande maioria dos alienígenas inteligentes da ficção científica é humanoide e dimórfica, o que pode se dar pelos seguintes motivos:

  • os limites da imaginação humana;
  • o antropomorfismo nas representações do Cosmos;
  • o fato de, no cinema e na televisão, ser mais fácil fantasiar atores humanos para interpretar personagens alienígenas e
  • o fato de muitas histórias com extraterrestres serem alegorias dos problemas enfrentados nas relações entre seres humanos, sendo as espécies alienígenas representações da diversidade humana.

O dimorfismo sexual de espécies humanoides na ficção científica não se resume apenas a uma funcionalidade procriativa, mas envolve o estabelecimento de uniões e alianças entre os indivíduos, diversas formas de afetividade e regras tácitas de como machos e fêmeas se comportam no sexo. Tudo isso pode ser justificado por uma necessidade evolutiva, pois podemos presumir que uma espécie inteligente tenha seguido um caminho parecido ao dos humanos, ou seja:

  • tenha substituído a natureza pela cultura como principal institucionalizador de comportamentos, o que permitiria a complexificação do pensamento, e
  • tenha desenvolvido a necessidade do social (o que inclui a sexualidade, entendida não só como o sexo que pode servir para a procriação, mas como o conjunto das formas de se trocar afeto e prazer) para a manutenção dos costumes, linguagem e saberes sem os quais o espécime não se completa como membro de seu grupo.

Mesmo assim, toda a sexualidade alienígena é imaginada com base nas práticas humanas. Vejamos a descrição de algumas das espécies alienígenas da ficção científica televisiva e cinematográfica que reproduzem o modelo humanoide dimórfico, juntamente com algumas reflexões sobre a influência do antropomorfismo em sua concepção e até onde os autores conseguem chegar na extrapolação da realidade que conhecemos mais de perto.

Vulcanos

Spock e T'Pring

Spock e T’Pring no ritual vulcano do pon farr

Os vulcanos são uma das raças mais notáveis no universo de Jornada nas Estrelas, sendo uma das mais presentes ao longo das cinco séries da franquia. São fisicamente muito aprecidos com os humanos, sendo as únicas diferenças perceptíveis a olho nu as orelhas pontiagudas, as sobrancelhas arqueadas e uma quase imperceptível tonalidade verde na pele. As outras poucas características morfológicas diferentes das humanas incluem o coração localizado na altura do plexo solar e hemoglobina baseada em cobalto ao invés de ferro (o que dá a cor verde ao seu sangue).

Psico-biologicamente, eles são muito parecidos com os seres humanos, porém são mais propensos, geneticamente, a emoções fortes. Sócio-culturalmente, são criados segundo os rígidos ditames de uma ética baseada na Lógica, o que dá a aparência de que não têm emoções, mas a verdade é que estas ficam reprimidas.

Tanto que, quando completam um ciclo de 7 anos, são arrebatados por uma condição fisiológica chamada pon farr, na qual têm a premente necessidade de voltar ao planeta-natal (Vulcano) e se unir ao parceiro ou pretendente. Nisso, precisam se entregar a um elaborado ritual em que se determina a união ou rejeição dos parceiros. O ritual pode envolver até mesmo um combate, que a mulher pode determinar como condição para a consecução do acasalamento.

Embora se diferenciem significativamente dos humanos em alguns aspectos, como o fato de costumarem fazer sexo a cada 7 anos (diferentemente dos humanos, que não têm cio e podem copular em quaisquer dias do ano), a sexualidade vulcana ainda é, no quadro geral, inspirada na humana.

Klingons

Worf e Jadzia

Worf, um klingon, flerta furiosamente com Jadzia, uma trill que sabe como se comportar como uma klingon

Os klingons surgem na série de Jornada nas Estrelas como uma raça praticamente igual à humana, tanto que no episódio Problemas aos Pingos (The Trouble with Tribbles, 15º episódio da 2ª temporada da Série Clássica) um klingon se passa facilmente por humano, só tendo sua identidade descoberta com a ajuda de um tricorder médico.

As maiores diferenças culturais e biológicas entre klingons e humanos só foram melhor exploradas a partir de A Nova Geração, em que desobrimos que os klingons costumam grunhir e morder em suas relações sexuais, sendo escoriações e hematomas os sinais de que um indivíduo praticou sexo recentemente.

Fora isso, não parece haver diferenças fundamentais entre a sexualidade klingon e a humana, pois da possibilidade de intercruzamento se infere que os órgãos sexuais e a cópula são no mínimo semelhantes. Porém, há pequenas peculiaridades na escolha dos parceiros, na corte e no ato sexual. A atração e o amor, em muitos indivíduos dessa espécie, é atiçada pela força, altivez e coragem do pretendente. Os flertes às vezes incluem trocas de grunhidos, e o ato sexual em si parece se misturar com elementos de uma renhida luta.

A diferença entre a sexualidade humana e a klingon, portanto, parece ser mais o resultado de uma diferença cultural, visto que é verossímil que uma sociedade humana desenvolva os mesmos valores e práticas dessa raça de honrados guerreiros. No entanto, os klingons são representados como naturalmente mais fortes e resistentes fisicamente do que os humanos, o que levou Worf, em certa ocasião, a recusar a troca de afetos com uma humana. “Preciso me conter demais. As mulheres humanas são muito frágeis.”

O problema da fertilidade inter-espécies

Mas é notável a presença de um elemento extremamente improvável no quadro geral das espécies alienígenas no universo de Jornada nas Estrelas, que é o fato de praticamente todas as raças serem férteis entre si. O próprio Spock, vulcano mais notável da franquia, é na verdade um meio-vulcano/meio-humano, pois tem pai vulcano e mãe humana.

A própria possibilidade de indivíduos de espécies diferentes formarem casais é um pouco inverossímil (embora não impossível, tendo em vista que os sentimentos comuns podem, em teoria, transcender as formas físicas). Porém, essa possibilidade só se realizaria com a compatibilidade das formas de se trocar afeto e formar uniões. Na ficção científica, é muito comum que os alienígenas sejam, além de sexualmente dimórficos, monogâmicos e quase estritamente heterossexuais (o que, além de representar um antropomorfismo, representa um etnocentrismo de viés euro-ocidental – veja o ensaio Homossexualidade em Star Trek). De fato, aparecem ao longo das séries da franquia muios casais inter-espécies:

  • Sarek (vulcano) e Amanda (humana),
  • Comandante Riker (humano) e Deanna Troi (meio-betazoide),
  • Rom (ferengi) e Leeta (bajoriana),
  • Quark (ferengi) e Grilka (klingon)
  • Jadzia Dax (trill) e Worf (klingon),
  • Odo (transmorfo) e Kira (bajoriana),
  • Ezri Dax (trill) e Dr. Bashir (humano),
  • Neelix (talaxiano) e Kes (ocampa), entre outros.

A necessidade de se criar pretextos para roteiros interessantes permeia as histórias de ficção científica. Em Jornada nas Estrelas, não só os vulcanos e os humanos podem procriar entre si (como no caso dos pais de Spock). Já apareceram híbridos de

  • humano e betazoide (Deanna Troi),
  • humano e klingon (K’ehleyr e B’elanna),
  • humano e romulano (Sela),
  • klingon e romulano (Ba’el) e
  • cardassiano e bajoriano (Ziyal), entre outros.

Essa possibilidade de interfecundidade só é relevante para a criação de enredos pertinentes à reflexão sobre a relação entre os povos (humanos), os problemas advindos do contato intercultural, os conflitos de identidade e situações diplomáticas.

Porém, biologicamente, é improvável que espécies desenvolvidas em dois planetas diferentes e com histórias evolutivas tão díspares possam se unir sexualmente (como é tão comum em todas as histórias de Jornada nas Estrelas). Muito mais improvável, portanto, é que essas uniões possam produzir frutos férteis.

No universo de Babylon 5, série que tem Jornada nas Estrelas como uma de suas principais fontes de inspiração, a situação é um pouco mais verossímil, como veremos no exemplo em seguida.

Centauri

Adira e Londo

Adira Tyree e Londo Mollari, dois centauri

Os centauri são externamente a espécie mais parecida com os humanos na série Babylon 5, ao menos quando estão vestidos. Seus órgãos sexuais são um pouco diferentes dos humanos: os homens têm seis tentáculos em suas costas, três em cada lado, e as fêmeas possuem seis orifícios distribuídos da mesma forma. A cópula acontece numa gradação, começando com a penetração de um dos tentáculos, que provoca prazer em menor intensidade, e este vai aumentando de acordo com a introdução dos tentáculos seguintes, cada um mais intenso do que o anterior.

Um diferencial de Babylon 5 em relação a Jornada nas Estrelas é que o intercruzamento não acontece tão facilmente. Os centauri e os humanos, por exemplo, não têm como cruzar entre si e tampouco produzir filhos (tanto por causa da morfologia como pela incompatibilidade de DNA). O que se vê na série, no máximo, são homens centauri (e de outras raças) apreciando a beleza das fêmeas de outras espécies, inclusive das humanas. O único casamento fértil inter-espécies que se vê na série se dá entre um humano e uma minbari, que teve o próprio DNA misturado com o DNA humano.

Entretanto, por mais diferente que pareça, a sexualidade centauri tem dois resquícios da sexualidade humana. O primeiro é o próprio fato de a espécie ser dividida em dois sexos, com praticamente as mesmas características de seus equivalentes humanos. O segundo é a forma pela qual se dá a cópula, ou seja, a penetração de uma protuberância do macho num orifício da fêmea.

Entre os alienígenas na’vi, do filme Avatar, isso muda um pouco mais significativamente.

Na’vi

Jake e Neytiri

Jake e Neytiri, um meio-na’vi e uma na’vi

Os na’vi são humanoides com diversas características parecidas com os humanos. Têm cabeça, tronco, braços e pernas, rosto com olhos, nariz, boca, cabeça com orelhas e cabelos. Têm algumas diferenças, como cauda, pescoço comprido, orelhas longas, pele azul e olhos amarelos, além de medirem cerca de 3 metros de altura. Seus traços lembram os felinos, como se eles tivessem evoluído a partir de gatos e não de símios.

Eles são tão parecidos com os seres humanos que era de se esperar que seus órgãos reprodutivos fossem praticamente iguais aos do Homo sapiens. Porém, eles fazem sexo através de conexões presentes em filamentos que ficam em meio aos seus cabelos. Não fica claro, no filme, se essa mesma conexão é responsável pela fecundação e reprodução da espécie, mas isso fica subentendido de nossa própria autorrepresentação humana.

Um detalhe curioso e um pouco bizarro é que a conexão usada para a cópula é também usada para se domar animais de montaria, como cavalos e pássaros. Para um olhar humano, é como se eles tivessem institucionalizado o bestialismo como prática aceitável e corriqueira. Isso poderia significar também que o amor, para essa espécie, é um conceito muito mais amplo do que aquele que temos. Ou eles podem sentir algo diferente dependendo de a quem eles se conectam, assim como o afeto trocado com um parente próximo (geralmente) não nos deixa sexualmente excitados, enquanto o mesmo contato físico com um parceiro afetivo-sexual traz essa excitação em menor ou maior grau.

Mas o que é mais problemático nessa espécie fictícia é que eles são criados propositalmente com uma aparência bela, explorando e extrapolando a estética dos modelos de beleza ocidentais e hollywoodianos (altura e magreza), misturada a um exotismo alienígena. É fácil para muita gente se afeiçoar pelos na’vi (muitos até gostariam de pertencer a essa espécie). Aliado a isso, por mais diferentes que eles sejam dos humanos, são quase iguais no comportamento, na forma de expressar emoções e, mais pertinente para este ensaio, na forma de trocar afeto, com carícias, beijos e abraços, de modo que não foi nada difícil para Jake Sully (humano travestido de na’vi) entender como proceder nas preliminares com Neytiri.

[Continua na próxima semana]

Imagens

O paciente

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Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, o tempo se torna um elemento de preocupação intermitente, como o é o próprio tempo. Ora, todo processo  de cura leva tempo para se concretizar, e a medicina, mais do que a simples aplicação do remédio, é muitas vezes o acompanhamento técnico desse processo de cura, que se dá quase naturalmente, como resposta a algum estímulo químico ou outras terapias adequadas a cada caso.

Numa cena do filme O Outro Lado da Nobreza (Restoration, 1995), o médico Merivel, instado pelo rei a curar a doença de sua cachorrinha, tem a intuição de que a natureza e o tempo deveriam ali fazer seu papel; ele apenas observaria e acompanharia o processo de cura, o que afinal se concretizou e o levou a ser eleito médico real.

 

Para nossas existências humanas, o tempo representa um fator elementar, e a passagem do tempo, sendo um processo natural e, de certa forma, afetando de maneira igualitária toda a matéria existente, (dentro, é claro, das mesmas condições físicas), não é experimentada da mesma forma pelas diferentes mentes que sofrem com ela, sendo, portanto, para nós um fenômeno subjetivo.

O substantivo paciência (do latim patientia, “capacidade de suportar, de resistir”) serve para designar a condição de quem lida mais ou menos bem com a passagem do tempo. O indivíduo paciente é aquele que se deixa abalar o menos possivelmente pela passagem do tempo. Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, usa-se o substantivo paciente, que não por acaso é homônimo e cognato daquele sujeito que suporta a passagem do tempo.

Na cena do filme supracitado, a paciente teve que ser paciente (assim como o médico), suportando as dores até que seu corpo sanasse a si mesmo. E muitas vezes o paciente num hospital precisa exercitar sua paciência, tanto porque se encontra em situação atípica (tendemos a perceber a passagem do tempo mais lenta em situações com que não estamos acostumados) quanto porque fica privado de várias de suas atividades corriqueiras (o que dá a impressão de que o tempo foi “esvaziado”).

Para quem é forçado a se internar na UTI (unidade de tratamento intensivo), há mais razões para que o tempo lhe corra lentamente: a necessidade de se manter por bastante tempo (“bastante tempo” sendo também, ora, uma quantidade subjetiva) numa só posição (deitada ou semideitada), com os movimentos do corpo limitados temporariamente, aliada à dificuldade de os enfermeiros atenderem prontamente aos desconfortos dos vários pacientes (fazendo-os esperar um tempo imprevisível até serem atendidos) e a ausência prolongada de pessoas do convívio cotidiano, que têm um intervalo de tempo muito limitado para efetuar visitas.

A situação é tão reconhecidamente desconfortável que próximo a cada leito da UTI há um televisor, cujo uso, um enfermeiro certa vez me aconselhou, faz “o tempo passar mais rápido”. Mas para que alguém quereria que o tempo passasse mais rápido? Em situações cotidianas e ordinárias, a maioria das pessoas gostaria que o tempo passasse mais lentamente e desejariam ter mais tempo com que se ocupar com atividades mais satisfatórias. Quando estamos na UTI (unidade de tempo infinito) há tempo de sobra com que ocupar a mente, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue conceber esse aproveitamento se não for de uma maneira convencional de “passatempo”, ou seja, ouvindo música, vendo TV ou dormindo (o que, para muita gente, é uma técnica para “apagar” certos intervalos de tempo em que seria preciso esperar).

Albert Einstein

Einstein demonstra que a língua é mais rápida que a luz do flash da câmera

Mas lembremo-nos da Teoria da Relatividade de Einstein e suas aplicações quando o assunto é velocidade x tempo. Uma pessoa que viajasse à velocidade da luz durante 50 anos não sofreria nenhum envelhecimento significativo, o tempo não haveria passado para ela quando a viagem chegasse ao fim, mas as pessoas ao seu redor envelhecerão 50 anos e algumas morrerão. Quando estamos ocupados, o tempo parece passar mais rápido, e mais rápido ainda quando estamos ocupados com algo prazeroso, mas o tempo se arrasta quando estamos ociosos e nos oprime com sua lentidão quando estamos fazendo algo que nos desagrada profundamente.

A primeira noite que passei na UTI (unidade de tortura infernal) depois de uma cirurgia cardíaca foi sentida por mim como uma das mais longas de minha vida. A sensação de passagem do tempo estava alterada em relação à sensação que normalmente experimento, e quando eu achava que haviam passado duas horas, em meio a cochilos e despertares de duração incertíssima, o relógio da enfermeira revelava a passagem de uns 30 minutos. A janela aberta mostrava que o Sol parecia não querer acordar o céu.

Entretanto, o tempo dilatado nesta situação é, à primeira vista, difícil de ser aproveitado com algo menos banal do que a TV (é difícil ficar ouvindo música, pois às vezes as inesperadas interrupções dos enfermeiros e a manipulação do mp3-player – ou equivalente – é complicada pela limitação física; além disso, é difícil dormir devido aos desconfortos). A mente ficará divagando, tal como a avezinha no poema O Devanear de um Cético, de Bernardo Guimarães, sem um caderno para registrar os pensamentos e ajudar a elaborá-los e desenvolvê-los. Se o pa-ciente já estiver ciente do que o espera depois da cirurgia, pode pedir que alguém providencie antecipadamente um gravador a ficar-lhe disponível (se a dificuldade de manipulá-lo não for grande demais).

Civilizações Extraterrenas, de Isaac AsimovNa situação em que escrevo este ensaio (estou pela terceira vez na UTI do mesmo hospital depois da cirurgia), as circunstâncias físicas são mais favoráveis, as limitações corporais são menores e as possibilidades de “passatempo” são mais variadas. Pude facilmente dedicar um bom tempo à escrita num caderno (a falta de um computador se fez sentida, é realmente uma ferramenta muito prática – há quem diga que o PC dificulta a escrita, pois a possibilidade de apagar qualquer resultado momentaneamente insatisfatório supostamente paralisa o escritor, e prefira uma máquina de escrever, na qual o texto vai sendo escrito até o fim e as correções e ajustes são deixadas para depois; discordo disso e não tenho essa dificuldade diante de um teclado e um monitor, tudo depende da desenvoltura desenvolvida pelo escritor), a facilidade de relaxar o corpo me permitiu um bom tempo de expansão da consciência e ainda me foi possível desfrutar a leitura de um bom livro, Civilizações Extraterrenas, de Isaac Asimov, no qual até encontrei uma citação adequada a este texto:

é mais fácil imaginar uma vitória sobre a morte do que uma vitória sobre o tédio.

Asimov afirmou isso num contexto em que discute a possibilidade (improvável) de alcançarmos a imortalidade física enquanto exploramos o espaço em busca de outro sistema planetário, viajando em naves espaciais que não possuem distrações suficientes para”preencher” o tempo dos exploradores. Mas o tédio pode, em algumas circunstâncias, ser até fonte de inspiração para a mente, como o demonstrou Charles Baudelaire num conjunto de poemas denominado Spleen (poemas LXXVIII a LXXXI de As Flores do Mal). O que pode demonstrar que alguma virtude mental permite à pessoa em condição de tédio (predisponente à impaciência) passar bem o tempo.

No filme Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, 2000), cada vez que o personagem do título é privado em sua cela de seus pertences (até ficar plenamente nu), ele encontra alguma forma de escrever e dar vazão à sua imaginação pornográfica, seja rabiscando com sangue suas roupas, seja sussurrando o texto para seus vizinhos de cela, através de pequenas frestas, para que, num telefone-sem-fio, alguém o registre em algum lugar.

Contos Proibidos do Marquês de Sade

O marquês de Sade escreveu em suas próprias roupas, usando sangue como tinta

Em várias partes da Terra, desenvolveram-se técnicas capazes de pacificar a mente, de modo que um indivíduo não precisa de mais do que de si mesmo para “sobreviver” à falta do que fazer. A Ioga (ou o Yôga), as diversas formas do que se generaliza sob o termo meditação, as técnicas para autopromover a experiência fora do corpo e os mantras que induzem o transe são alguns exemplos dessa tecnologia da paciência. Essas técnicas não são simplesmente usadas pontualmente, para “o tempo passar”, mas têm a importância de servir como cultivadoras de uma disposição mental mais permanente, que permite suportar melhor a situação potencialmente estressante.

O que me leva a outras nuances do espectro semântico da paciência.

Faquir

“Um faquir em Benares” (fotografia de Herbert Ponting, 1907)

Uma das coisas que um paciente de hospital precisa aprender desde logo é suportar a dor física. As partes do corpo que foram mexidas durante uma cirurgia doerão quando os efeitos dos sedativos e anestésicos passarem. De vez em quando será preciso puncionar uma(s) ou outra(s) veia(s) para retirar sangue ou para injetar soro e medicamentos (a entrada de alguns dos quais provoca uma extra dor extrema). É preciso seguir o exemplo de um faquir (porém, certa vez Beakman explicou que os faquires não têm que suportar dor nenhuma quando se deitam sobre uma cama de pregos, pois estes estão tão próximos uns dos outros e tão uniformemente espalhados que a pressão do corpo se distribui igualmente sobre eles e nenhum deles chega a perfurar a pele do indivíduo).

A mente, em princípio, pode ser livre e fugir da opressão das urgências do corpo. O Sr. Spock, no episódio Operação: Aniquilar! (Operation: Annihilate!) da série original de Jornada nas Estrelas, consegue, com sua disciplina mental, suspender a sensação de dor excruciante e enfrentar as criaturas que impingem esta sensação em suas vítimas. Os minbari, da série Babylon 5, têm uma disciplina mental parecida e conseguem até controlar a respiração, o que lhes permite  economizar energia (psíquica e física) quando, por exemplo, há pouco oxigênio numa cápsula espacial.

Num dos episódios da história do fundador do Budismo, Sidarta Gautama, em sua busca pela iluminação, ele deliberadamente passou algumas noites numa floresta, com o fim de apaziguar seu medo dos sons noturnos, que a princípio o assustavam, mas que depois passaram a ser encarados com serenidade. Afinal, nas situações em que não se pode evitar um perigo iminente, não adianta perder a calma, o que até pode mais atrapalhar. Pensando bem, nesse tipo de situação é útil um misto de serenidade e atenção, o que ajuda a ativar o foco, e uma mente concentrada pode conseguir agir rapidamente para resolver a ameaça antes que ela piore.

A Temperança

A Temperança, o Arcano Maior de número XIV do Tarô

Neste caso, a paciência tem muito a ver com a virtude da temperança, que é a capacidade de dosar os sentimentos e impulsos da forma mais eficaz possível. Essa noção vem das antigas teorias dos humores, os líquidos que se acreditavam compor nossa fisiologia e cujas dosagens determinavam nossos temperamentos. A fleuma determinava uma personalidade apática, o sangue determinava um caráter sensual, a cólera ou bile amarela determinava um aspecto irascível e a melancolia ou bile negra determinava uma tendência ao abatimento. O ideal buscado era a temperança dos 4 humores.

Talvez daí venha a expressão bom humor, ou seja, o equilíbrio entre os humores formando uma personalidade saudável (tanto física como psiquicamente; na Antiguidade, não havia a rígida separação dualista entre corpo e mente estabelecida por Descartes). E isso tem particularmente a ver com a paciência, pois a mente paciente também tende a desenvolver o bom humor. Um claro sinal de paciência é quando uma pessoa consegue manter um sorriso ou fazer gracejos enquanto passa por uma tribulação.

Aliás, paciência e bom humor estão tão intimamente ligados que se pode dizer também, inversamente, que o bom humor pode predispor à paciência. A pessoa realmente bem-humorada tem a “alma leve”, está quase sempre se sentindo bem e fazendo os outros se sentirem assim. Quando precisa enfrentar uma dificuldade, não permite que as circunstâncias negativas o afetem, mas procura, ao contrário, contagiá-las com seu próprio temperamento.

Passar por uma situação estressante não é sofrimento para o portador de bom humor, que pode encontrar em tudo motivos para sorrir. Porém, isso não quer dizer que se deva contentar com o que poderia ser diferente. É preciso lutar para mudar aquilo que representa um mal às pessoas, mas sempre mantendo a serenidade e a disposição de não sofrer diante do inevitável.

Agora chega dessa chatice e vamos direto à pornografia! “The internet is for porn!”

Obrigado pela paciência

Cirurgia

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Nasci com Síndrome de Marfan e com um prolapso na válvula mitral. Algumas das minhas cavidades cardíacas desenvolveram, ao longo de 29 anos, um tamanho anormal. As válvulas mitral e aórtica sofrem um círculo vicioso em que a sua insuficiência faz parte do sangue retornar, o que a dilata e a torna insuficiente. Nisso, o próprio coração cresce e já mal cabe na caixa torácica.

Em muitos casos de Síndrome de Marfan, há o risco de romper-se alguma válvula, devido a um problema no tecido conjuntivo, próprio dessa síndrome. Para evitar que o quadro venha a se agravar e “o pior” aconteça, é importante uma eventual intervenção cirúrgica que corrija a insuficiência cardíaca e prolongue a expectativa de vida de um marfan. Após alguns anos sendo acompanhado por uma cardiologista que já havia me preparado para a eventualidade, finalmnte chegou a ocasião.

Válvulas cardíacas

As válvulas mitral e aórtica estão à direita

Então, na próxima Segunda-feira, dia 23 de agosto de 2010 e.c., passarei pelo procedimento cirúrgico em que terei a válvula aórtica substituída por outra, extraída de um porco francês, e a válvula mitral corrigida (a não ser, disse o cirurgião, dr. Marcelo Cascudo, que não dê para corrigir, sendo necessária também a substituição).

Já brinquei com minha amada, dizendo que terei um coração de porco, mas que não ficarei com “espírito de porco”. Não por causa disso, pelo menos. No máximo, talvez eu passe a detestar bacon e a ter impulsos ocasionais de chafurdar na lama, quem sabe? Pelo menos já tenho alguma noção da língua francesa, o que pode ajudar na adaptação. A propósito, será que os porcos franceses falam “óinc” fazendo biquinho? Na verdade, nem sei se o porco é francês, só sei que as válvulas vêm da França, que pode tê-las importado da China.

Eu me pergunto se esse porco (ou será um boi? Na verdade, o médico disse que a válvula pode ser suína ou bovina, mas a piada do “espírito de porco” ficou tão marcada que acabei esquecendo dessa possbilidade.) ou boi morreu para ter suas entranhas “doadas” a um paciente como eu ou aproveitaram o abate de um animal destinado à indústria alimentícia para atender também esse propósito.

Caso tenha ocorrido a primeira hipótese, será que a perspectiva egoísta é eticamente válida para justificar a troca de uma vida por outra? O porco (ou boi… pode até ter sido uma porca ou uma vaca) não teve escolha, foi abatido por seres humanos treinados para coagir e matar, enquanto eu pude optar (se bem que as circunstâncias também se impuseram sobre mim) por um procedimento cujo objetivo é me manter vivo.

Mas, se eu tiver certeza de que minha existência nesta vida intrafísica poderá ser mais positiva para o conjunto policármico de pessoas no universo do que a vida de um animal irracional que talvez (?) esteja adiantando sua evolução individual ao deixar sua atual vida e ser encaminhado para a próxima, então posso ficar perfeitamente tranquilo quanto à implicação ética.

Tranquila, aliás, é o que se pode dizer de minha disposição diante da abertura de meu tórax, a intrusão de instrumentos cortantes no interior de meu peito e a longa recuperação que me espera. Como Sarek e seu filho Spock, impassíveis vulcanos sob os cuidados do Dr. McCoy, na ilustração que inicia este post (cena do episódio A Caminho de Babel, da 2ª temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas). Não que eu não tenha um pouco de medo e excitação diante de um evento tão contundente em minha vida. Porém, diz-se que a coragem não é ausência de medo, mas a habilidade de enfrentá-lo. Tampouco é sinônimo de bravura e ímpeto destemido. A serenidade perante as vicissitudes da existência é um dos maiores sinais de coragem.

E nada disso tem a ver com qualquer crença religiosa ou recurso a um deus todo-protetor. Certa vez, alguns dias antes de eu me submeter a uma cirurgia ocular (problemas oftalmológicos também são comuns na Síndrome de Marfan), uma amiga me disse que embora eu fosse forte e demonstrasse calma diante de um procedimento invasivo ao meu corpo, eu precisava recorrer a algo externo e mais forte do que eu, e em circunstâncias piores do que aquela seria necessário que eu buscasse conforto em Deus.

Entretanto, não sinto necessidade de recorrrer a uma força misteriosa, mística e oculta para me manter “confortado”. Não vejo necessidade de acreditar que há um ser onipotente e bondoso que “guia a mão do médico” para que tudo dê certo. Afinal, se ele fosse mesmo bondoso, não ajudaria só os que a ele confiam suas vidas, como um chefão da Máfia que protege aqueles que beijam sua mão e o chamam de “padrinho”.

Don Corleone

O padrinho da Máfia. Não é à toa que em inglês o chamem de “godfather”

E o adágio segundo o qual “tudo o que acontece, bom ou mau, é pela vontade de Deus”, é ainda mais ilógico e irracional, pois não é preciso dar uma explicação teológica ao que acontece aparentemente por acaso (não que eu ache que as coisas ocorrem por acaso; vejo sincronicidade e relações de causa e efeito). Além disso, observo que toda essa “teo-lógica” parece não abrandar o sofrimento de ninguém. Há pessoas muito crentes que oram desesperadamente em situações críticas e não apresentam nenhum sinal de que estão “confortadas”. A manutenção da serenidade em situações de crise depende muito mais do autocontrole e de uma força desenvolvida intimamente do que de uma força exterior. Tanto há ateus e agnósticos que se desesperam quanto os que se mantêm calmos. E há crentes tranquilos e outros não tanto.

Tenepes

Há uma complexa conexão entre as consciências e suas energias conscienciais

O único conforto de que preciso é meu próprio otimismo. E a certeza de que tudo ficará bem, seja o que acontecer, é apenas uma tranquilidade advinda de uma visão consciencial das coisas. Posso parecer contraditório ao dizer que confio na ajuda de consciências extrafísicas (que alguns preferem chamar de anjos da guarda ou espíritos de luz) e até solicito a elas essa ajuda. Mas não se tratam de deuses numa relação de poder. São pessoas que conheço e que estão elas mesmas imersas numa imensa rede de relações de causa e efeito, e a quem hei de ajudar quando eu estiver sem este corpo físico e quando elas estiverem vivendo na dimensão intrafísica (como estou agora).

De qualquer forma, pensem positivamente sobre a ocasião. Se alguém quiser orar para que o deus em que acredita faça com que tudo ocorra bem, por favor, ore. Sua energia bem-intencionada será bem vinda. E se alguém preferir torcer com o mero pensamento positivo, só posso agradecer. Quem tiver a disposição de me enviar deliberadamente suas energias conscienciais benfazejas terá minha gratidão. E caso alguns de vocês, por convicção pessoal, não queiram recorrer a nenhum desses meios, só o fato de desejarem o bem-estar de todos os seres existentes (para não dizer que estou pensando só em mim) já me deixa grato.

Espero, como disse uma amiga minha, que a cirurgia signifique um ajuste e uma melhora em minha manifestação nesta vida, para que eu possa dar mais de mim em minha programação existencial e contribuir ainda mais em meus modestos esforços para o bem comum das consciências do universo. Como disse Galadriel a Frodo,

Even the smallest person can change the course of the future.

Até breve.

Fim

I’ll be back!

Coleção de sinapses 5

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Esta semana vimos como o racismo ainda existe e como é fácil aflorar os preconceitos baseados na aparência física. A aparência física, esta, pretende ser usada para identificar o sexo do usuário do Xbox no Projeto Natal, e vimos também como é fácil identificar os heróis de Star Trek em forma de ursinhos de pelúcia estilizados, bem como o próprio Dom Quixote estilizado numa forma inusitada.

Lemos a notícia de que a franquia Guerra nas Estrelas continua lucrativa e sem alma, e embevecemos a alma com a bela canção Spread Your Wings, do Queen. Mas mergulhamos ainda mais profundamente na descoberta do criativo, surrealista e extravagante livro Codex Seraphinianus, uma bela obra de arte-enciclopédia fantástica-poema épico visual que parece muito com ideias que já tive para escrever livros…

Acusações de discriminação racial se repetem no futebol brasileiro – Globo Esporte

Acho que tenho um certo preconceito por achar que, como a maioria dos jogadores de futebol vem da classe pobre e pior alfabetizada, eles tendem a ter mais preconceito racial do que outras pessoas. Mas acho que estou enganado, o racismo está em nossa cultura e basta que alguém com pouco autocontrole se deixe levar por uma raiva para manifestar rapidamente uma discriminação racial.

Projeto Natal é capaz de reconhecer o sexo do usuário – Jovem Nerd News

Aposto que haverá pessoas que terão seu sexo “confundido” pelo Projeto Natal. Lembro que a câmera de minha esposa, que tem o mecanismo de detectar sorrisos, detectou as bocas dos bonequinhos (em forma de caricaturas) que ela fez para o casamento de seu filho com sua nora. E isso me remete também às histórias de Asimov sobre robôs; como um robô será capaz de identificar um ser humano para que as Leis da Robótica se apliquem com eficácia?

Ursinhos de Pelúcia do Capitão Kirk e Spock! – Blog de Brinquedo

A Enterprise já esteve em várias realidades alternativas. Num episódio escrito por Douglas Adams, um gerador de improbabilidades infinitas instalado na nave estelar da Federação poderia causar uma mudança na realidade e transformar a todos em ursinhos de pelúcia. Aí é que veríamos um verdadeiro teste para a lógica vulcana e autocontrole do Sr. Spock.

dom paper quixote – obvious

Achei essa imagem criativa, e sinceramente não tenho mais nenhum comentário para fazer sobre ela…

Nova série de animação de Star Wars se passará depois de Episódio 6?! – Jovem Nerd News

Os episódios IV, V  e VI de Guerra nas Estrelas não eram meras histórias de aventura. Eram contos épicos, míticos, dramáticos, trágicos. Tinham muitos elementos que os faziam histórias bem contadas e envolventes, que nos faziam identificar com os personagens e seus dramas pessoais, que nos faziam detestar os vilões e participar dos conflitos daqueles que não eram tão vilões assim (o Dark Father, por exemplo). Mas as novas histórias, episódios I, II e III, desenhos animados sobre as Guerras dos Clones… foram feitos só para preencher as lacunas deixadas na trilogia original. Tais lacunas foram muito mal preenchidas. Pior, não houve mais preocupação em criar boas histórias (exceto o episódio III, que tem um pouco de conflito e tramoia até que mais ou menos bem-feitas), apenas se quis expandir o universo com novas naves, novas armas, novos personagens extravagantes, novos mundos… tudo sem alma. Não acho que os episódios VII, VIII e XIX venham a trazer nada de bom, pois Guerra nas Estrelas se tornou uma franquia para fazer dinheiro, bonecos, brinquedos, HQs, DVDs, livros e qualquer merchandising que atraia fãs bobocas e crianças que não entendem nada de cinema e de arte.

Spread Your Wings (Queen) – YouTube

Conheci essa música através de um cover feito pela banda Blind Guardian. Só tempos depois descobri que era de autoria do Queen. A versão original, neste videoclip, é bem melhor do que o cover. Uma música triste e otimista.

Abra suas asas e voe para longe
Para longe, para bem longe
Abra suas asinhas e voe para longe
Para longe, para bem longe

Recomponha-se
Porque você sabe que deveria fazer melhor
Pois você é um homem livre

Codex Seraphinianus – Wikipedia

Essa dica de meu amigo Flaubert (não o Gustave) foi um achado. Uma obra ilustrada, escrita e desenhada pelo artista italiano Luigi Serafini, que descreve um mundo imaginário extremamente bizarro e surrealista (ao menos para nossos olhos). Uma obra de arte inusitada, que brinca com a percepção e com nossa forma de ver a natureza e o ser humano, escrita num idioma indecifrável (inventado pelo autor) e desenhada com grande detalhismo. 400 páginas! Custa só R$ 299,04 no site da Livraria Cultura e estou me coçando para comprar… talvez no mês que vem.