Releituras afrofuturistas da Ficção Científica

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Ytasha L Womack e seu livro “Afrofuturism”.

O Afrofuturismo é um conjunto de manifestações culturais que mistura elementos da cultura negra (ou daquilo que é representado como cultura negra, de matriz africana ou afrodescendente) com aspectos da cultura pop que dizem respeito a noções de futuro e progresso tecnológico, notadamente as ideias da ficção científica futurista, e envolve literatura, música, estética e moda, artes visuais, cinema e televisão. Acima de tudo, o Afrofuturismo é uma filosofia, uma forma de revisar o modo como os negros veem a si mesmos na mídia, valorizando elementos culturais do passado e do presente e construindo uma visão de futuro com base em seus próprios anseios e não nos tradicionais estereótipos racistas (e também de identidade de gênero e sexualidade).

O livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, da escritora norte-americana Ytasha L. Womack, apresenta um panorama das diversas vertentes do Afrofuturismo, seus diversos artistas e pensadores. O que mais me interessou no livro foram as diversas referências a temas da Ficção Científica (literatura, cinema e televisão) e como eles são reconstruídos na perspectiva da experiência negra no Ocidente e também na África. Há não apenas uma forma alternativa de ver a ficção científica clássica, mas uma produção de literatura negra que remonta a W. E. B. Du Bois e tem em Octavia Butler uma de suas principais referências.

Há algum tempo venho me interessando por essa parte ainda marginalizada da Ficção Científica, da qual aos poucos estou me inteirando. Mas ainda não li muita coisa da produção afrofuturista propriamente dita. No entanto, na apropriação desse gênero literário pelos negros, uma vez que o Afrofuturismo abrange também uma forma alternativa de interpretar a produção eurocêntrica mais consagrada, é muito interessante a forma pela qual ele ressignifica temas clássicos como a abdução alienígena e a inteligência artificial, usados como metáforas para a história dos africanos e seus descendentes no Atlântico Negro.

Naves e abduções alienígenas

Ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de "A Guerra dos Mundos"

Invasores alienígenas na ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de “A Guerra dos Mundos”

A diáspora negra resultante do comércio de escravos africanos por europeus pode ser colocada nestes exatos termos:

Alienígenas chegaram em naves e abduziram pessoas.

Com essas palavras, é impossível não pensar numa história de ficção científica sobre seres extraterrestres que chegam à Terra em espaçonaves e raptam seres humanos. Mas se explorarmos outros sentidos dos termos da expressão acima destacada, podemos pensar no significado próprio de alienígena como “estrangeiro”, nave como “embarcação” (navio) e abdução como “captura”.

Os autores Mark Dery, Mark Sinker e Reynaldo Anderson, citados por Womack, escreveram sobre essa pungente metáfora. Assim, se por um lado as histórias de invasão e abdução extraterrestres representam o medo europeu e norte-americano de sofrer na pele o mesmo processo de dominação colonial que esses povos empreenderam e ainda empreendem, elas falam sobre a história real daqueles que sofreram e sofrem essa mesma dominação, em especial os africanos.

Mas a abdução é apenas uma parte desse processo de contato com alienígenas. Os contos sobre invasão de grandes naves espaciais prontas para subjugar e, em alguns casos, exterminar a humanidade são exatamente uma representação do que os “conquistadores” fizeram em suas viagens de “descoberta”. Os enredos de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, de Independece Day e o histriônico Marte Ataca! são ótimas analogias da invasão, escravização e dominação dos africanos pelos europeus imperialistas.

Distopias pós-apocalípticas

O apocalipse zumbi de "The Walking Dead", ilustrado por Charlie Adlard

O apocalipse zumbi de “The Walking Dead”, ilustrado por Charlie Adlard

Se continuarmos a sequência dessa história e falarmos sobre a diáspora negra, o pesadelo dos africanos e seus descendentes, tanto na África colonizada quanto nos países para os quais foram levados em navios negreiros, a desolação de viver subjugados a alienígenas de cara pálida num mundo desagregado, podemos extrapolar a interpretação das histórias distópicas de teor pós-apocalíptico.

Estas histórias retratam uma humanidade vivendo à beira de um colapso, geralmente ameaçada por seres perigosos, como robôs, monstros, zumbis ou ditaduras totalitárias. 1984, de George Orwell, com sua metáfora da bota militar esmagando um rosto, é a síntese perfeita da opressão absoluta de uma classe sobre uma minoria social (mesmo que esta seja maioria em quantidade), o que é visto nos regimes de apartheid e nas nações escravocratas.

A alegoria do apocalipse zumbi também pode ter repercussões imagéticas interessantes na descrição da vida dos escravos vivendo entre seres que são semelhantes a eles (como o são os mortos-vivos) mas que carregam diferenças consideradas inconciliáveis. Zumbis se assemelham a vampiros em sua natureza parasítica, sempre em busca dos cérebros ou do sangue dos vivos, e é como parasitas vampíricos que podem ser vistos os senhores de escravos, explorando a energia dos cativos. Além disso, a metáfora encontrada na série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), que foi adaptada para a TV, também é muito pertinente, pois nessa história os “mortos caminhantes” não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes que estão à beira da morte. Os escravos negros também eram mortos-vivos neste sentido, pois suas vidas estavam à mercê dos implacáveis senhores, não eram donos de suas vidas, sempre à beira da morte ou, em certo sentido, mortos em vida.

Robôs

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

As histórias sobre robôs trazem diversos temas antropológicos interessantes. Um deles está ligado diretamente à etimologia da palavra robô, que pode ser entendida como sinônimo de “escravo”.

As máquinas que servem como substitutos do trabalho humano são entendidas por seus criadores e usuários como autômatos desprovidos de vontade própria, utensílios sem alma que apenas se assemelham vagamente a seres humanos. Essa forma de ver os robôs resume o que era a ideologia defendida para justificar a subjugação de seres humanos escravizados, representando-os como indivíduos dotados de menos humanidade que seus escravizadores, máquinas de carne negra sem alma.

O estigma que atrela a noção de escravo à de pessoa negra é tão forte hoje em dia que temos dificuldade de pensar em escravidão que não envolva pessoas negras. A escravidão existiu em toda parte ao redor do mundo, e povos de várias origens étnicas e diversos matizes já se encontraram sob o jugo da servidão forçada. Mas as consequências sócio-culturais dessa forma de trabalho não são tão sentidas na contemporaneidade quanto pelos negros descendentes de africanos, ainda tentando, em diversos contextos, provar seu status de humanos pensantes, do mesmo modo que robôs como Johnny 5 (Um Robô em Curto-circuito), Andrew (O Homem Bicentenário) e Data (Star Trek) tentam.

Essa metáfora que compara os afrodescendentes a androides foi explorada pela musicista Janelle Monáe em sua obra. A sinfonia The ArchAndroid, uma ficção científica em forma de música, conta sobre a profetizada vinda de uma Arquiandroide que libertará todos os androides.

Fábulas com robôs que querem ser humanos são excelentes metáforas do processo de humanização dos indivíduos de nossa espécie: estamos o tempo todo nos esforçando para nos aproximar de um ideal de humanidade, condicionado pela cultura em que vivemos. Minorias discriminadas, seja por racismo, sexismo ou outras normatividades, se vêem numa luta ainda mais hercúlea. Aliadas a isso, as fantasias de revolta contra os opressores e de tomada do poder encontram nas histórias com robôs um interessante paralelo. A revolta das máquinas em Matrix e O Exterminador do Futuro é uma alegoria do levante de escravos contra os portadores do látego. O Quilombo dos Palmares é uma sociedade de robôs libertos que provaram sua humanidade.

Hibridismos

O xenomorfo híbrido em “Alien: O Oitavo Passageiro”

Um tema da Ficção Científica que se relaciona com nossa dificuldade de lidar com sentimentos racistas é o hibridismo, seja entre duas ou mais espécies orgânicas, seja entre ser vivo e máquina. O exemplo mais clássico do parasita alienígena do cinema talvez seja a franquia Alien, onde a contaminação de seres humanos (e de outros animais) pelos xenomorfos produz criaturas que são amálgamas monstruosos, belos e mortais.

A história começa com a chegada de exploradores numa terra estranha e seu contato com uma espécie nativa, da qual resulta um ser mestiço, o “alien”. Esta criatura surge do estupro de um dos tripulantes, um homem branco, por parte da criatura feminina que eclode de um ovo e que pode ser vista como uma reminiscência simbólica de uma mulher africana. Há portanto a inversão da relação da violência sexual. Porém, tendo em vista a representação, por parte do colonizador, dessa relação como prejudicial a este – inclusive com a ideia de contaminação de DSTs supostamente originárias da África -, a metáfora invertida cumpre seu papel de remontar ao processo de exploração do continente africano e da consequente “contaminação” da cultura e biologia europeias pelas africanas. De acordo com Célia Magalhães, no livro Os Monstros e a Questão Racial na Narrativa Modernista Brasileira, a alegoria do parasitismo pode ser uma referência à mestiçagem colonial, em que os elementos culturais dos dominados são vistos como indesejados pelos defensores de uma idealizada pureza da cultura dominante.

O ser estranho que assim surge, mesmo tendo metade do DNA do conquistador, é visto como totalmente alienígena. E bastante emblemático que o xenomorfo tenha a cor negra e é bastante interessante o fato de, no primeiro filme da franquia, ele ser interpretado por um ator africano, escolhido justamente pelo exotismo de seu corpo. A parcela africana da herança das culturas ocidentais é ainda hoje vista como algo exótico e não propriamente normal, e ainda existem pessoas e grupos que defendem a extirpação dessa herança, como se o elemento negro de nossa cultura e de nossa população fosse uma monstruosidade incômoda. Nosso racismo velado ainda percebe a presença negra como um elemento intruso em nossa sociedade, ainda sentido como alienígena e passível de ocultamento ou até mesmo extirpação.

Embora um pouco diferente, o hibridismo cibernético também se presta à mesma alegoria. Como vimos, os robôs podem ser vistos como metáforas da minoria escravizada e desumanizada. Quando a máquina é integrada ao humano, dando origem aos ciborgues, temos toda sorte de enredos admoestando-nos sobre os perigos dessa união, o medo de que a parte máquina tome conta da parte orgânica e até mesmo oprima seu livre-arbítrio. É o que acontece com o policial Alex Murphy em Robocop, que precisa lutar internamente para não deixar que a máquina sem alma assuma o controle de suas ações. Também é o drama do Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, que perde quase totalmente sua vontade ao ser seduzido pela frieza ambiciosa do implante que colocou em si mesmo, e dos Borgs em Star Trek, cuja parte mecânica embota completamente a liberdade do ser orgânico animado.

Representatividade

Depois que uma obra é publicada, ela não pertence mais ao autor. Seus leitores se apropriam dela como bem entendem e lhe imprimem os significados que consideram mais pertinentes. Dessa forma, é muito importante que as obras clássicas tradicionalmente carregadas de eurocentrismo, androcentrismo e heteronormatividade sejam relidas pelo olhar das minorias pouco ou nada representadas nessas obras. Além de ser um meio de enriquecer o cânone com mais possibilidades de leitura, é uma forma de os leitores se constituírem como ativos construtores de significado, fomentando a criação de novas obras carregadas de mais representatividade, especialmente uma representatividade de autoras e autores.

Os negros em Star Trek

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Já é quase um clichê dizer que Jornada nas Estrelas (Star Trek) foi uma franquia revolucionária em vários aspectos. Muita gente sempre se lembra de dizer que a tripulação da nave estelar Enterprise era multiétnica, tendo entre seus principais membros uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e até um alienígena.

Mas é sempre notória a participação maior de personagens caucasianos nas posições de protagonismo das histórias. Apresentada inicialmente, nos idos dos anos 1960, como uma proposta libertária, era de se esperar que a franquia se desenvolvesse com cada vez mais abertismo em relação a identidades de gênero, de sexualidade e de raça-etnia. Como se deu então, na trajetória das diversas séries de Star Trek, o destaque dos personagens pertencentes à identidade racial mais menosprezada no Ocidente, ou seja, os negros?

Uhura (Nichelle Nichols)

A icônica tenente Uhura, oficial de comunicações da mais clássica das Enterprises, cujo prenome nunca foi conhecido na série clássica e só seria revelado no filme de 2009, foi uma novidade e tanto na televisão norte-americana no ano 1966, quando era extremamente difícil colocar uma atriz/personagem do sexo feminino e/ou negra entre os papéis principais de uma série de TV.

O episódio piloto da série (The Cage) foi recusado pela emissora, entre outras coisas, justamente por ter uma mulher em posição de destaque na trama. Mas Gene Roddenberry conseguiu uma façanha: apresentou uma nova proposta em que uma mulher, Nichelle Nichols, faria parte do elenco principal, se bem que numa posição não tão importante quanto a de um capitão ou de um imediato, mas mesmo assim na ponte de comando. E mais, era uma mulher negra.

O fato de ser uma mulher negra num papel importante (e com um rank de tenente) foi tão impactante que influenciou uma geração de jovens afro-americanos de ambos os sexos. Whoopi Goldberg conta que, quando criança, viu Uhura na televisão e correu para contar para a família:

I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!

[Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!]

Uhura encenou com o Capitão Kirk (William Shatner) aquele que foi considerado o primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana. Mesmo sendo uma cena em que os personagens foram forçados telepaticamente ao ato, os produtores e o diretor relutaram muito em concretizá-la, e a repercussão posterior foi grande.

O papel de Nichelle Nichols foi tão importante para o público afro-americano que ninguém menos do que Martin Luther King pediu pessoalmente a ela que não saísse do show, pois ela era um exemplo para os jovens negros em plena era de luta por direitos civis. Porém, a equiparação do destaque de personagens negros com brancos (e também de mulheres com homens) ainda estava em estágio embrionário, pois Uhura ainda era mais um elemento exótico da tripulação do que uma figura de peso.

Geordi Laforge (LeVar Burton)

Enquanto Uhura foi concebida como uma especialista em comunicações e xenoliguística, Geordi Laforge, interpretado por LeVar Burton, era um engenheiro altamente capacitado, que possuía o título de tenente e ocupava o cargo de engenheiro-chefe da Enterprise-D, comandada pelo Capitão Jean-Luc Picard.

Essa caracterização de Laforge manteve a tradição de se colocar um personagem negro que não se limita aos estereótipos racistas que menosprezam suas capacidades mentais. Geordi era um prodígio da engenharia que salvava a Enterprise de colapsar em momentos críticos, mais ou menos como o fazia Scotty na série dos anos 60, mas bem menos falastrão do que o carismático escocês.

É interessante observar que a “raça” dos personagens em Star Trek, especialmente a partir da Nova Geração, não era mais motivo de qualquer menção ou relevância no contexto fictício utópico da série. Laforge nunca teve a cor de sua pele ou a textura de seu cabelo trazidos à tona como justificativa para qualquer tipo de conflito, por menor que fosse, caracterizado o contexto do universo ficcional como um ideal antirracista. Os conflitos raciais, em Star Trek, aparecem metaforicamente em situações de relação entre espécies de planetas diferentes.

Assim como Uhura, Geordi Laforge também encenou flertes inter-raciais, com a colega tripulante Christy Henshaw e com a cientista Leah Brahms. São tão poucas as vezes em que o vemos demonstrar esforços para flertar ou namorar que Geordi também acaba escapando do estereótipo que vê os negros como propensos ao galanteio, e ele se aproxima mais do estereótipo do nerd do que do afro-americano folgazão.

Worf (Michael Dorn)

O klingon mais querido de toda a franquia não é exatamente uma pessoa negra no sentido humano do termo, já que ele é alienígena, mas é interpretado por um ator negro, Michael Dorn, que incorporou Worf, um dos mais instigantes exemplos de hibridismo cultural interespécies em Star Trek.

Entre os klingons não há divisões do tipo “racial”, pelo menos não do tipo que humanos ocidentais fazem entre si, já que eles aparentam ter a mesma cor de pele (tanto atores negros quanto brancos já interpretaram klingons, e eles sempre usam uma maquiagem que colore a pele de um tom bronzeado.

Apesar de não ter trazido grandes contribuições para a discussão de relações raciais humanas para o universo da série, a presença de um excelente ator negro na franquia foi enriquecedora, e Michael Dorn conseguiu trazer à tona uma profunda complexidade nas relações interculturais entre humanos e klingons, encarnada no próprio Worf, com seus conflitos internos entre sua cultura natal e a de seus pais adotivos humanos, e entre os valores da Federação (e da Frota Estelar da qual é oficial) e os da sociedade klingon.

Guinan (Whoopi Goldberg)

Guinan apareceu a partir da segunda temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Interpretada por Whoopi Goldberg, grande fã da franquia e admiradora de Uhura/Nichelle Nichols (como visto acima), a personagem administra o 10-Foward, um bar/restaurante na Enterprise-D.

Uma das figuras mais misteriosas de Star Trek, ninguém sabe exatamente sua origem, mas sabe-se que ela tem pelo menos séculos de idade. Guinan é caracterizada como muito sábia e é capaz de surpreender os tripulantes da Enterprise com habilidades que ninguém imagina que uma estalajadeira possua. Possui alguns poderes cuja natureza não é bem compreendida pelos mortais que a conhecem, e estes tampouco imaginam a verdadeira extensão desses poderes.

Embora tenha caído num papel até certo ponto típico para personagens negros e tenha um forte exotismo normalmente associado à identidade negra, ela não deixa de ser extremamente humana em sua relação com outras pessoas, dotada de uma empatia que a aproxima muito de pessoas comuns e lhe permite atuar quando os esforços da conselheira Deanna Troi falham. Guinan mistura a estranheza de sua condição alienígena e semidivina com uma figura que se confunde com qualquer mortal humano. Além disso, possui um visual muito marcante que remonta ao afrofuturismo, valorizando elementos da identidade negra num contexto dominado pela estética branca.

Benjamin Sisko (Avery Brooks)

Comandante Sisko talvez tenha sido o marco mais importante na inserção dos negros no elenco da franquia, depois de Uhura. Até então, o modelo do líder em Star Trek estava representado por dois homens brancos, um norte-americano (Kirk) e um europeu (Picard), e a maioria dos capitães das naves da Frota Estelar seguem esse modelo. É também ao redor de Sisko que pela primeira vez vemos uma família negra em destaque em Star Trek: Ele tem um filho, Jake, e se encontra com o pai, Joseph, em momentos cruciais de sua trajetória.

A princípio dotado do título de comandante e designado para administrar a estação espacial Deep Space Nine, que deu título à série da qual é protagonista, Benjamin Sisko é promovido a capitão no decorrer da história e assume um papel central de liderança no combate a uma ameaça gigantesca contra a Federação e todo o Quadrante Alfa.

Novamente, as questões raciais humanas não são tema em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, ao menos em sua história principal. No entanto, Sisko possui um alter-ego da década de 1950, chamado Benny Russell, um escritor de ficção científica negro que sofre preconceito e tem dificuldade de publicar suas histórias, a não ser ocultando sua identidade racial. Quando ele concebe escrever uma história sobre um capitão negro que comanda uma estação espacial no futuro distante (ou seja, o próprio Benjamin Sisko), o editor reluta muito, pois considera que um personagem negro em posição de destaque será mal recebido pelo público.

Apesar de tudo, um ponto até certo ponto negativo na inserção de Sisko na história de Deep Space Nine é o fato de ele representar, mais do que todos os outros protagonistas da franquia, a ambiguidade ética da Federação. Por vezes extremamente correto em suas decisões, há momentos importantes na luta contra o Dominion em que o capitão se utiliza de meios escusos para garantir os fins almejados. Em alguns aspectos, ele pode se encaixar no modelo do príncipe maquiavélico, o que ao mesmo tempo pode significar que ele é tão humano quanto qualquer oficial branco, mas também que ele está mais sujeito às falhas humanas do que, por exemplo, o impecável Capitão Picard.

Tuvok (Tim Russ)

Assim como Worf, Tuvok não é um negro humano. Sendo vulcano, ele chama atenção pelo fato de todos os vulcanos que apareceram antes nas séries e nos filmes terem pele clara. Antes de Tuvok, os vulcanos em geral pareciam um estereótipo genérico dos orientais (Spock era interpretado por um judeu, e alguns outros de sua espécie foram interpretados por atores de ascendência asiática ou aparência que remonta a alguns estereótipos orientais – mas no cômputo geral a maioria dos atores que encarnaram vulcanos é branca).

O surgimento de Tuvok, interpretado por Tim Russ, apresentou aos espectadores uma realidade vulcana plurifenotípica, ou seja, deu a entender que a variação fenotípica vulcana é semelhante à humana. Aliás, Tuvok não tem apenas a pele escura, mas cabelos crespos e feições “africanas”.

Além dele, só me lembro de ter visto outros dois vulcanos negros: a esposa de Tuvok, que só apareceu uma vez, e um figurante de um episódio de Deep Space Nine. Isso demonstra a impregnação de uma implícita visão antropocêntrica-eurocêntrica de que o fenótipo branco é a manifestação comum da espécie, sendo os negros uma minoria, como que uma variação exótica. Apesar disso, como acontecia com Geordi Laforge, o fenótipo “negro” desse vulcano nunca foi mencionado, implicando a superação utópica do racismo nessa realidade futurista.

Travis Mayweather (Anthony Montgomery)

Jornada nas Estrelas: Enterprise é a mais medíocre das séries da franquia, e regrediu em muitos aspectos quando comparada com as séries anteriores. Os ideais veiculados se tornaram muito mais americanocêntricos, belicistas, antropocêntricos e em grande parte conservadores. Embora se veja aqui e ali ideias libertárias que lembram a proposta inicial de Gene Roddenberry, de forma geral Enterprise foi uma decepção.

E isso se reflete no personagem interpretado pelo ator mediano Anthony Montgomery. Travis Mayweather é muito apagado no meio do elenco predominantemente branco. Além de não ter força presencial (talvez pela combinação da mediocridade do ator com o menosprezo velado da produção), ele não atua de forma significativa nos eventos importantes da série e sua história é muito pouco explorada.

Infelizmente, depois do Capitão Sisko a importância dos negros em Star Trek só diminuiu e decaiu totalmente com a insignificância do alferes Mayweather, que parecia estar na ponte de comando para, junto da oficial de comunicações japonesa Hoshi Sato, compor a “cota étnica” do elenco, sem dar volume e profundidade ao personagem. Enfim, é lamentável que um personagem com um conceito tão interessante (ele nasceu num cargueiro espacial e aprendeu desde cedo a pilotar naves, sendo um exímio timoneiro) tenha sido desperdiçado dessa forma.

Race, the final frontier

Sempre senti falta de ver um personagem negro em Star Trek num papel importante que usasse o uniforme azul da divisão de ciências. Embora haja vários exemplos de indivíduos geniais em suas respectivas áreas, é como se, sub-repticiamente, se considerasse mais adequado a um negro ocupar uma posição “não-intelectual”, como oficial de comunicações, engenheiro, chefe de segurança, timoneiro e até a liderança, desde que esta se baseie mais em habilidades políticas do que naquilo que se convenciona chamar de “atividades intelectuais”.

Mas seria possível utilizar esses mesmos exemplos supracitados para se colocar uma questão muito pertinente a respeito do que é a inteligência. Esta assume várias formas diversas, e alguém que domine magistralmente uma área da engenharia (como Geordi) não é menos genial do que um erudito das ciências humanas (como Picard). São áreas diferentes do saber humano, para cujo domínio se exige esforço mental semelhante. Numa perspectiva de maior abertismo, Geordi, o nerd, é tão intelectual quanto Picard, o capitão filósofo. E é difícil imaginar que dos tripulantes da nave estelar Voyager haja alguém mais inteligente do que Tuvok, o chefe de segurança (ao menos numa perspectiva ortodoxa sobre o que é inteligência, que estou criticando aqui). Mesmo assim, seria importante ver os negros ocuparem uma variedade maior de profissões, para que no final não fique a impressão de que eles são “naturalmente” limitados em certas áreas.

Outra limitação na representação dos negros diz respeito ao caráter exótico de grande parte deles, como se eles fossem personagens fantásticos, dotados de uma certa magia e sobrenaturalidade. Geordi com seu visor é um ciborgue com ar misterioso. Guinan é praticamente uma bruxa ou cigana cheia de segredos encantados. Sisko é de certa forma um semideus, filho de um humano com uma “profeta” (ser alienígena que vive fora da temporalidade linear humana).

Vale lembrar um episódio interessante da Nova Geração, em que a tripulação da Enterprise-D se encontra com os Ligonianos (Código de Honra, 1ª temporada, 4º episódio). Estes são todos interpretados por atores negros que não usam nenhuma maquiagem que os diferencie dos humanos. Esses alienígenas podem ser, por um lado, uma resposta interessante às tantas vezes em que apareceram espécies humanoides cujos membros tinham todos a aparência de humanos brancos. Ao mesmo tempo, podem ser ser vistos como uma reafirmação inconsciente de que basta uma espécie ser toda igual aos negros humanos para caracterizá-los como não-humanos (já que, para a ideologia racista eurocêntrica, o modelo default de ser humano é o branco). De qualquer forma, é um episódio instigante que levanta diversas outras questões que contribuem para o debate sobre o racismo.

Star Trek deu um impulso importante para a valorização das minorias, mas ele conseguiu isso muito mais através do contato com alienígenas como metáforas das relações raciais do que dando destaque e relevância a personagens e atores pertencentes a minorias humanas. O espírito da série é favorável para a valorização de mulheres, negros, homossexuais e outros grupos discriminados, mas infelizmente não conseguiu radicalizar até um ponto satisfatório.

Olhando para a montagem que fiz para ilustrar o topo deste post, eu imagino uma tripulação toda formada por pessoas negras. Ora, temos ali um capitão (Sisko), uma oficial de comunicações (Uhura), um engenheiro-chefe (Geordi), um chefe de segurança (Tuvok) e um timoneiro (Mayweather). Pena que não há nenhum grande exemplo de médico (que usaria, a propósito, o uniforme azul) nas naves da Federação para administrar a enfermaria de nossa imaginária nave estelar afro.

A alma dos robôs – parte 1

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A evolução dos robôs segue seu caminho. Para cientistas, engenheiros e entusiastas da Ciência e da Tecnologia, há, entre outros, um objetivo claro: reproduzir com cada vez mais fidelidade a inteligência humana. Não basta, portanto, criar ferramentas supereficazes em suas tarefas autômatas, mas dar a ilusão de que as máquinas têm uma alma.

Desde a Antiguidade se contam fábulas sobre criaturas artificiais que se tornam seres vivos. Histórias sobre robôs na ficção científica têm abordado o fascínio do ser humano pela possibilidade de surgirem vida e alma das criações tecnológicas. A antropomorfização de seres inanimados não é novidade na história humana, mas quando se tratam de seres que imitam comportamentos e funções humanas, como os robôs, é muito forte a fantasia de que eles podem se tornar completamente humanos.

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