Filmes para crianças – parte 3

Padrão

As histórias sobre robôs, androides, replicantes e outros seres artificiais podem servir como pano de fundo para reflexões sobre o próprio ser humano. Os robôs que agem como pinóquio, tentando se tornar seres humanos, e aqueles que extrapolam a programação inicial dada por seus criadores são metáforas do indivíduo que se desenvolve a partir de uma tabula rasa, da pessoa que procura se autoaprimorar para alcançar um ideal de valor e humanidade, tentando superar suas falhas e adquirir virtudes.

Os três filmes listados abaixo têm como protagonistas seres artificiais, robôs que aprenderam a ser mais do que máquinas. São ótimas opções para discutir com as crianças sobre humanidade, Ética e autoevolução. Recomendo que o adulto interessado veja os filmes antes de ler este artigo e antes de passar para seus filhos/sobrinhos/netos/amigos etc. As descrições dos filmes contêm spoilers. Divirtam-se.

Veja também:

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O Gigante de Ferro (The Iron Giant)

Direção: Brad Bird

País: EUA

Ano: 1999

No ano de 1957, no estado norte-americano de Maine, em plena Guerra Fria, Hogarth, um garoto órfão de pai, encontra uma criatura inusitada: um robô gigante vindo do espaço. Esse Gigante de Ferro, muito amigável e pacífico, tem provocado algum transtorno no local, pois se alimenta de metal, ou seja, carros, cabos de aço e trilhos de trem. Ele vem sendo perseguido pelas forças armadas, pois alguns, especialmente o agente Kent Mansley, acreditam que se trata de uma máquina de guerra e uma ameaça à humanidade.

A verdade é que o Gigante possui em sua estrutura interna um conjunto de armas letais ultra-avançadas, e ele é realmente programado para ser uma arma. Devido à amizade de Hogarth, sua programação é reprimida e ele desenvolve uma personalidade altruísta e antibelicista. Entre assumir a identidade de um robô maligno e a de um herói bondoso como o Super-homem (vistos nos quadrinhos de Hogarth), ele prefere seguir o ideal deste último. Porém, quando detecta uma arma, seus sistemas destrutivos são acionados e representam um perigo para todos ao redor. Ele aprende que cada um de nós pode seguir um ideal maior, não necessariamente se mantendo fiel a sua “natureza”.

Por causa de um incidente provocado por Mansley, que levou à interceptação de Hogarth e do Gigante, este, na ânsia de proteger seu pequeno amigo, tem sua “natureza” ativada, e começa a destruir as máquinas das forças armadas que cercaram a cidade. Quase provocando um desastre. Hogarth consegue fazê-lo parar, mas, devido à mprudência de Mansley, um míssil nuclear está voando a caminho do robô, ameaçando destruir a cidade e matar todos os seus habitantes.

Sem outra solução à vista, o Gigante de Ferro se despede de seu amigo e se sacrifica, voando em direção ao míssil e se chocando com este para destruí-lo. Instantes antes de morrer, o Gigante pensa para si mesmo: “Sou o Super-homem”.

O Gigante de Ferro representa bem o indivíduo que busca cultivar em si ideais éticos maiores, ao mesmo tempo abrindo mão de seus vícios e defeitos (as armas que representam um perigo para os outros ao seu redor) e assumindo posturas altruístas e atos visando ao bem comum, trilhando um caminho que extrapola sua programação original, ou seja, promovendo aprendizado, autossuperação e autoaprimoramento.

A obra aborda

  • amizade,
  • autossuperação,
  • Ética,
  • altruísmo,
  • belicismo,
  • pacifismo e
  • reconciliação.

Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence)

Direção: Steven Spielberg

País: EUA

Ano: 2001

David é um robô-menino programado para ser o “filho perfeito”, fabricado espceialmente para mulheres que desejam ser mães. Ele é oferecido por seu criador, Prof. Hobby, a Monica Swinton, cujo filho biológico, Martin, está em coma. Ela não suporta a ausência de uma criança para chamá-la de “mamãe”.

Quando Martin desperta do coma, instala-se a rivalidade entre os “irmãos”, mas quem sofre com isso é a própria Monica, que decide, não sem hesitar e não sem grande pesar, abandonar David na floresta. A partir daí, inicia-se uma aventura em que David procura realizar o desejo de se tonar um menino de verdade.

Ele acaba encontrando outros robôs rejeitados e descobre que existe um grupo de humanos que os persegue e os destrói. O garoto faz amizade com Gigolo Joe, um robô programado para dar prazer às mulheres. Ele ajuda David em sua busca, e ambos passam por muitos incidentes, até encontrar o Prof. Hobby, e este afirma que David é um menino de verdade, tendo em vista tudo o que ele experienciou e sentiu.

David não se convence e vai atrás da Fada Azul (que na história de Pinóquio transformou o marionete num menino de verdade). Ele acaba por encontrá-la na forma de uma estátua, num antigo parque de diversões submerso. O garoto passa então o resto de sua existência repetindo a frase: “Por favor, me transforma num menino de verdade”.

Depois de séculos, já desativado pelo tempo, David é encontrado por robôs ultra-avançados, de uma época em que não existem mais humanos. Eles descobrem em David um repositório de tudo o que é preciso para entender a já extinta humanidade.

A busca de David por se tornar um ser menino de verdade, por si só, já o dota de um aspecto tipicamente humano, ou seja, a constante procura por um ideal existencial. A dificuldade de a sociedade humana aceitar os robôs como pessoas, inclusive com sua destruição sistemática pelos seus odiadores, é uma metáfora da discriminação sofrida por grupos minoritários, como as mulheres, os negros e os pobres, que ao longo da história humana precisaram lutar para ter seus direitos de humanidade reconhecidos pelo conjunto da sociedade.

A obra aborda

  • preconceito,
  • discriminação,
  • amor,
  • relação mãe e filho,
  • relação entre irmãos,
  • Ética,
  • amizade e
  • evolução pessoal.

WALL-E (WALL-E)

Direção: Andrew Stanton

País: EUA

Ano: 2008

No ano de 2805, a Terra está desolada, coberta de lixo e quase sem traços de vida orgânica. Apenas duas criaturas vagam pela superfície: WALL-E, um robô programado para empilhar lixo, e Hal, sua barata de estimação. Os seres humanos evacuaram a Terra há 700 anos, devido aos níveis de toxicidade do planeta, e foram todos viver numa estação espacial chamada Axiom.

WALL-E é o único robô de sua linha que permaneceu ativado e funcionando, e acabou desenvolvendo uma personalidade mais complexa do que aquilo para que foi programado, para além de sua “diretriz” básica. Ele agora possui um hobby: colecionar coisas chamativas que encontra no lixo, como cubos mágicos, caixinhas de anéis e lâmpadas incandescentes. Também tem uma predileção por música e musicais, a que assiste num iPod. Esses muscais românticos o fazem ansiar por uma companhia como ele.

Um dia ele recebe uma visita inusitada, uma robô chamada EVA, programada para encontrar vida vegetal e averiguar se a Terra já tem condições de sustentar vida. WALL-E mostra a EVA as maravilhas de seu pequeno museu particular (sua casa, que era originalmente um galpão onde as unidades WALL-E se recolhiam). Porém, ao avistar uma pequena planta que ele guardava num sapato, ela tem um sistema automático ativado, recolhe a planta em uma cápsula no próprio corpo e se desliga.

WALL-E cuida de EVA (como se fosse um marido cuidando da esposa grávida) por dias a fio, até que uma nave vem recolhê-la e ele se vê na missão de resgatar a princesa no castelo do dragão. Chegando à Axiom, WALL-E encontra muitos robôs diferentes trabalhando e muitos humanos quase iguais, vivendo uma vida sedentária. A princípio obcecado apenas em encontrar EVA, por quem está apaixonado, WALL-E aos poucos percebe a importância da planta para o retorno dos humanos e a recomposição da Terra.

Por outro lado, EVA a princípio só tem foco em sua “diretriz”, mas aos poucos vê em WALL-E um grande amigo e um amor para cuidar. Juntos eles desmascaram uma sabotagem e, deparando-se com inimigos e aliados, conseguem recuperar a planta para fazer a nave retornar à Terra, salvando a humanidade.

Os robôs do filme, através de experiências afetivas significativas, ou seja, eventos que os marcaram em seus corpos e mentes, aprendem coisas que não sabiam, que não faziam parte das memórias pré-programadas. Eles vão criando uma memória extra, e o contato com os outros vai potencializando esse aprendizado, fazendo-os exibir traços de humanidade de que nem mesmo os humanos robotizados da Axiom gozavam. A metáfora do ser que se autoaprimora para se tornar um indivíduo moralmente mais completo e, acima de tudo, altruísta, é muito bem explorada em WALL-E.

A obra aborda

  • amizade,
  • amor,
  • meio ambiente,
  • liderança,
  • Ética,
  • altruísmo e
  • missão de vida.

Onde encontrar

Filmes para crianças – parte 2

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As histórias sobre extraterrestres são ótimas oportunidades para se refletir sobre diferença e igualdade. Nelas vemos metáforas das próprias diferenças entre os indivíduos e povos humanos e o desafio do convívio pacífico entre eles, além do aprendizado mútuo. Essas histórias são, assim, um meio de ampliar as perspectivas sobre o mundo e o universo, fazendo-nos refletir sobre o respeito à diferença e à possibilidade de nos considerarmos todos parte de um mesmo mundo.

Nesta segunda parte da série Filmes para crianças, abordarei três obras de ficção científica que tratam do contato entre seres alienígenas entre si, e de como esse contato é importante para mudar a maneira como vemos o outro. Para mim e para as pessoas que me ajudaram a escolher os itens desta lista, assistir a eles na infância foi um marco importante em nosso desenvolvimento como seres humanos e como consciências universalistas.

Dedicatória e agradecimentos

A Inês Mota, a Diego Leite, a Alan Hiramoto, a Paulinho Mota, a Rúbio Medeiros, a Betânia Monteiro, a Werner Soares, a Amanda Cavalcante e a Hermann Cavalcante (não são parentes).

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial)

E.T.: O ExtraterrestreDireção: Steven Spielberg

País: Estados Unidos

Ano: 1982

Certa noite, um pequeno extraterrestre se perde da nave espacial que o trouxe à Terra, enquanto agentes policiais o buscam após perceberem um certo tumulto nos arredores despovoados da cidade. O pequeno alienígena se esconde num depósito de uma casa próxima, onde vive um garoto humano chamado Elliott.

Naquela mesma noite, o menino humano percebe a presença de algo estranho e tenta avisar a mãe e o irmão mais velho, mas todos acham que se trata ou da imaginação do garoto ou de algum animal selvagem que entrou no depósito. Mas Elliott não desiste e no dia seguinte tenta atrair o ser misterioso com doces, até que finalmente, sob a luz da lua crescente, eles se deparam um com o outro e ambos se assustam. Mas Elliott leva seu novo amigo para casa e o esconde em seu quarto.

Elliott revela a presença do alienígena ao seu irmão mais velho, exigindo ser tratado com mais respeito, e acidentalmente sua irmã mais nova o descobre também. Os três empreendem esforços para não permitir que a mãe descubra o extraterrestre, e passam grande parte do tempo no quarto de Elliott brincando com E.T., como passam a chamá-lo, e descobrindo algumas habilidades incríveis do pequeno visitante do espaço. Ele consegue mover objetos com a força da mente e curar pequenas feridas com a ponta do dedo.

Mas o poder mais interessante de E.T. é a conexão empática e telepática que ele estabelece com Elliott, fazendo com que cada um deles sinta o que o outro sente e até pense o que o outro pensa. Dessa forma, eles compartilham uma amizade visceral em que um se confunde com o outro, quase como a ideia de amizade defendida por Michel de Montaigne em seu famoso ensaio.

E.T. consegue elaborar um plano para enviar uma mensagem ao seu povo solicitando um resgate, e constrói uma máquina, usando vário objetos como um computador de brinquedo e um guarda-chuva. Durante a tarde de Halloween, Ele e Elliott vão à floresta, lenando a máquina para ativá-la a céu aberto e enviar a mensagem. Ambos dormem ao relento e, pela manhã, Elliott percebe que E.T. não está por perto. O menino volta para casa com um terrível resfriado e seu irmão encontra E.T. à beira de um riacho, muito pálido e fraco.

Enquanto todos retornam à casa, uma larga equipe do governo, comporta de policiais e cientistas, começa uma operação de isolamento do local, para estudar o extraterrestre, mas este está tão doente que não resiste. a conexão com Elliott se rompe e este volta a ficar bem, mas se mostra intensamente triste com a morte de seu amigo. No entanto, E.T. retorna à vida e, com a ajuda do irmão e dos amigos deste, leva o pequeno ser do espaço ao campo, onde uma nave espacial aparece. Após uma tocante cena de despedida, E.T. parte em sua nave.

Os eventos da história não foram importantes só para Elliott, que passa a conhecer uma amizade que nunca vivera antes. A aparição de E.T. também provoca mudanças em Michael, o irmão mais velho, que passa a ser menos arrogante, e em Gertie, a irmã mais nova, que no início tinha alguma repulsa por E.T., mas passa a vê-lo com outros olhos.

A amizade de Elliott e E.T. simboliza uma relação desprovida de preconceitos e baseada numa total confiança mútua. Eles ficam tão ligados um ao outro que têm dificuldade de se despedir ao final. E.T. diz “Venha”, e Elliott responde “Fique”. O alienígena então lhe fala, apontando para a testa de seu amigo, “Estarei bem aqui”. Ambos aprendem a se desapegar diante da necessidade de cada um ir para onde pertence, mas, depois da experiência que tiveram juntos, a lembrança e o sentimento de amizade permanecerão em ambos.

A obra aborda

  • amizade,
  • diferença,
  • respeito,
  • aprendizado,
  • humildade e
  • desapego.

Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers)

Viagem ao Mundo dos SonhosDireção: Joe Dante

País: Estados Unidos

Ano: 1985

Ben certa vez sonhou que sobrevoava um imenso circuito. Assim que despertou, desenhou o que conseguiu lembrar do circuito e ligou para seu amigo Wolfgang para contar. Como Ben era um garoto sonhador e fascinado por ficção científica, não foi difícil para seu amigo imaginar que se tratava de um típico sonho de sua cabeça avoada. Mas quando Wolfgang, um cientista-mirim filho de cientistas, vê o desenho do circuito, percebe que se trata mesmo de algo que pode ser construído e funcionar de alguma forma.

Então Ben, o sonhador, junto com Darren, o realista, e Wolfgang, o intelectual, se juntam para experimentar a descoberta, e através de um computador Wolfgang consegue criar uma esfera azul indestrutível que flutua no ar e atravessa qualquer coisa. Mais tarde, eles conseguem criar uma esfera maior e descobrem que ela é oca e pode carregar objetos dentro de si. Os três amigos decidem criar uma cápsula para voar pelo céu de sua cidade.

Depois de uma tentativa frustrada de subir ao espaço, os três amigos têm o mesmo sonho e ambos veem o circuito, o que lhes possibilita completá-lo e tentar de novo. Ao voarem outra vez naquela noite, são fisgados por um raio trator e levados a uma gigantesca nave espacial.

Eles imaginam estar presos numa típica nave alienígena do mal que aparece em tantos filmes de ficção científica. Mas logo descobrem que os tripulantes são um casal de irmãos extraterrestres gentis, Wak e Neek, que captam todas as ondas eletromagnéticas da Terra, incluindo as trasmissões de rádio e TV. Eles são fascinados por tudo o que ouvem e veem da Terra, e se divertem numa pequena festa com os jovens terráqueos.

Então Ben os convida para irem à Terra, mas Wak se recusa veementemente, tendo em vista tantas imagens do cinema da Terra que representam a forma violenta como os alienígenas são recebidos pelos humanos. Wak explica que só trouxe os três porque eles são diferentes do resto da humanidade. Ben fica desolado com o reconhecimento de que provavelmente seria perigoso para qualquer estrangeiro do espaço visitar um planeta beligerante como a Terra.

Finalmente, os três garotos descobrem que a nave em que estão foi surrupiada do pai dos dois alienígenas, que são jovens como seus hóspedes. O pai alienígena irrompe no salão em que estão e dá um sermão em Wak e Neek, acabando com a festa. Os novos amigos se despedem e o trio terráqueo fica marcado para sempre com a imressão de um mundo muito mais vasto do que jamais imaginaram.

É importante perceber como três crianças tão diferentes, um muito sonhador (sentimento), outro muito realista (corpo) e o terceiro muito intelectual (pensamento), superam essas mesmas diferenças e juntam suas qualidades para entrar numa aventura que mudará suas vidas para sempre.

A irrelevância das diferenças também é encarada no contato com uma espécie alienígena, que, apesar da aparência exótica, têm sentimentos e anseios parecidos com os dos humanos. A aparência é tão relevada que Wolfgang e Neek ensaiam um romance.

Finalmente, os garotos visionários têm que reconhecer que sua facilidade para ver através das diferenças não é compartilhada por toda a humanidade, que ainda percorrerá um longo caminho antes de superar suas diferenças internas e, a longo prazo, as diferenças mais marcantes entre humanos e extraterrestres.

A obra aborda

  • a busca pela realização dos sonhos,
  • amizade,
  • aprendizado mútuo,
  • amadurecimento,
  • tolerância e
  • pacifismo.

Inimigo Meu (Enemy Mine)

Inimigo MeuDireção: Wolfgang Petersen

País: Alemanha e Estados Unidos

Ano: 1985

Willis Davidge é um piloto de caça espacial terráqueo que luta contra os dracs, uma espécie alienígena em guerra contra a Terra, pela reivindicação de uma região da galáxia.

Durante uma batalha, Davidge se perde num planeta inóspito. Perto de onde sua nave caiu, também naufragou um piloto drac, chamado Jeriba Shigan. Após a tentativa mútua de assassinato, ambos percebem que precisarão um do outro para sobreviver nesse planeta selvagem, e “Jerry”, apelido que Davidge dá ao drac, aprisiona o humano para evitar que este o mate.

Numa busca pelo ambiente que os rodeia, os dois vão aos poucos encontrando alimento e formas de se proteger das intempéries da natureza local, mas, apesar de cooperarem, eles ainda se veem como rivais e inimigos de guerra.

Certa vez, quando buscava alimento, Davidge foi capturado por um predador, uma criatura que se escondia embaixo da terra e que agarrava suas presas com um tentáculo. Ela segurou Davidge pela perna e o puxou para baixo. Ele só se salvou graças a “Jerry”, que matou o animal (numa cena que lembra Han Solo salvando Lando Calrissian do Sarlacc).

A partir daí Davidge passa a cooperar mais com “Jerry”, e eles passam a se aproximar mais. Constroem juntos um abrigo contra as tempestades de pedra e fogo e começam a se conhecer melhor.

Com o tempo, eles aprendem o idioma um do outro e compartilham suas respectivas culturas. Seu relacionamento se aprofunda até o ponto de se tornarem amigos. O drac, através da leitura de um livro considerado sagrado por seu povo, entende que o conflito entre eles deve cessar. Ao iniciar Davidge nos ensinamentos de sua cultura, “Jerry” consegue fazer seu amigo entender melhor os dracs, enquanto ele passa a compreender melhor os humanos.

“Jerry” fica grávido (pois os dracs são hermafroditas e concebem seus filhos sem relações sexuais) e passa a se comportar como uma mulher. Davidge encara o desafio de cuidar de seu amigo e de criar seu filho, pois “Jerry” morre no parto.

Zammis, filho de Jeriba, é criado por Davidge, e cresce bem mais rápido do que um humano. O garoto começa a perceber as diferenças entre ele e seu “tio”, estranhando que sua ascendência (com um só progenitor) seja diversa da de Davidge (que teve um pai e uma mãe).

O jovem drac é raptado por mineradores humanos, que escravizam os de sua espécie para o trabalho braçal. Ao tentar salvá-lo, Davidge é resgatado por uma nave militar humana, que o leva para uma estação. Desmaiado, ele balbucia frases na língua dos dracs, o que os médicos e os soldados da estação estranham. Depois de acordar, Davidge encontra um meio de escapar e resgatar Zammis.

Após todos esses acontecimentos, a paz entre os dois povos é finalmente alcançada, e Davidge leva Zammis para o planeta dos dracs. No devido tempo, Zammis dá à luz a uma criança que batizou de Davidge, inserindo em sua descendência um nome humano.

A experiência dos dois antagonistas os levou da inimizade cega, passando pela necessidade de sobreviver juntos, até uma profunda amizade. Se no início eles consideravam um ao outro “feios” (cada um deles nunca havia visto um indivíduo da espécie do outro), Davidge aprendeu a achar Zammis uma bela criança. A biologia e a sexualidade das duas espécies (uma assexuada e outra bissexuada) é compreendida apesar do exotismo mútuo. Ambos aprendem a respeitar a cultura um do outro, o que lhes permite aprender um com o outro.

Se no início Davidge estava disposto a matar Jeriba, ao final arriscou a própria vida para salvar Zammis. A irracionalidade da guerra impedia que os antagonistas se conhecessem e alimentava fortes preconceitos e uma espécie de racismo que os opunha de maneira cega. Ao se conhecerem e se tornarem grandes amigos, eles provam que as diferenças superficiais (espécie, planeta de origem, cultura) são irrelevantes quando percebemos que temos em comum algo mais fundamental, e podemos nos relacionar de maneira significativa com qualquer pessoa do Universo. Como me disse um amigo, resumindo bem o filme:

Como criança, achei a ideia de dois inimigos mortais se conhecerem e se tornarem amigos muito bonita,  superarem diferenças que na verdade nem eles entendiam bem.

A obra aborda

  • preconceito,
  • cooperação,
  • relativismo cultural,
  • respeito,
  • amizade e
  • pacifismo.

Para adquirir os filmes

Semelhanças entre Star Wars e Indiana Jones

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As duas obras cinematográficas mais bem-sucedidas de George Lucas são provavelmente as séries de filmes Guerra nas Estrelas e Indiana Jones. É notório entre os fãs de ambas as séries que há várias referências de Guerra… nos filmes de Indiana…, como a aparição de R2-D2 e C3P0 como hieróglifos e o Clube Obi Wan.

Mas há várias semelhanças nas narrativas, nos personagens e nas cenas que podem não ter sido intencionais e provavelmente se tratam da marca do criador, elementos da imaginação de George Lucas que se repetem e dizem mais sobre o autor do que sobre a obra. Essas recorrências podem ainda nos dizer muito sobre os elementos indispensáveis para o sucesso e a longevidade de um filme de aventura.

Eis uma relação de algumas semelhanças entre as duas séries, bem como a provável razão porque estão presentes em filmes de aventura bem-sucedidos. Os filmes referenciados são:

  • Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança
  • Guerra nas Estrelas – Episódio V: O Império Contra-ataca
  • Guerra nas Estrelas – Episódio VI: O Retorno de Jedi
  • Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida
  • Indiana Jones e o Templo da Perdição
  • Indiana Jones e a Última Cruzada

Harrison Ford

Han Solo e Indiana Jones

George Lucas escolheu Harrison Ford tanto para o papel de Han Solo, um dos coadjuvantes mais importantes  em Guerra nas Estrelas, e para Indiana Jones, o protagonista dos filmes homônimos.

Tanto Han Solo quanto Indiana Jones são epítomes do arquétipo do aventureiro, e Ford incorpora muito bem o intrépido viajante em busca de tesouros e aventura.

Por que dá certo? Harrison Ford consegue interpretar um personagem ao mesmo tempo audacioso e extremamente fleumático, que enfrenta as situações mais tensas sem hesitar. Grande parte dos homens se identificacom um ideal de masculinidade e muitas mulheres se encantam. E o intrépido viajante que há dentro de todos nós encontra uma ressonância.

Troca de tiros num bar

Han enfrenta Greedo e Indiana enfrenta Lao

Na primeira aparição de Han Solo em Guerra nas Estrelas, ele topa com o caçador de recompensas Greedo e é obrigado a se sentar numa das mesas da cantina de Mos Eisley e trocar uma rápida sucessão de tiros.

Na primeira cena de O Templo da Perdição, Indiana está num restaurante em Xangai, em busca de um diamante. Sentado à mesa do chinês Lao e seus dois capangas, há um tenso trecho em que um amigo de Indiana aponta uma arma escondida, ameaçando os chineses. Em seguida, o barulho de garrafas de champanhe se abrindo abafa o tiro que mata o assistente de Indiana.

Por que dá certo? Essas cenas criam uma tensão que deixa o espectador na iminência da possibilidade de uma reviravolta na trama. Estão todos sentados, o que a princípio significaria que estão todos relaxados, mas a tensão cria um paradoxo, uma leve perplexidade que traz incerteza. A mesa, símbolo da confraternização, se torna palco de um festim de sangue.

Vilões imperialistas militaristas

Oficial Jerjerrod e Coronel Vogel

Os principal antagonista em Guerra nas Estrelas é o Império Galático. Os oficiais do Império são claramente uma referência aos oficiais nazistas, com uniformes e postura muito parecidos com os dos militares da Alemanha do 3º Reich.

Não por acaso, os maiores inimigos de Indiana Jones são os nazistas, que estão sempre atrás das relíquias buscadas pelo Dr. Jones.

Por que dá certo? A mentalidade moderna rechaçou o imperialismo militarista e ditatorial representado pelo Nazismo, pelo Fascismo e pelos regimes socialistas. Um vilão que traga ameaça à liberdade, seja dos povos de uma ex-República Galática, seja ao desenvolvimento da ciência arqueológica, provoca a hostilidade de quase todos os espectadores e a automática simpatia pelos que lutam contra ele.

Disfarce entre os vilões

Han como stormtrooper e Indiana como nazista

Luke Skywalker e Han Solo, ao tentar resgatar a Princesa Leia, se infiltram na Estrela da Morte disfarçados de stormtroopers, os soldados de infantaria do Império, para chegar até a cela onde está presa Leia.

Em A Última Cruzada, Indiana vai em busca do diário de seu pai, que está nas mãos dos nazistas. Ele precisa se vestir em uniforme nazista para se infiltrar, e acaba topando com o próprio Führer, Adolf Hitler. Ficamos esperando que ele será desmascarado e perderá o diário que está em suas mãos, mas Hitler pega o livro e o autografa. Ufa! O diário acaba ficando ainda mais valioso.

Por que dá certo? Uma cena em que os heróis mergulham na fortaleza inimiga, arriscando-se a ser descobertos a qualquer momento, cria uma tensão que prende o espectador na frente da tela. É uma cena tão clichê… mas, quando bem feita, provoca suspense.

O piloto e o artilheiro

Luke Skywalker na Millenium Falcon e Henry Jones num aeroplano nazista

Quando estão fugindo da Estrela da Morte, Han, Luke e cia. embarcam na Millenium Falcon e escapam, mas são perseguidos. Luke assume a artilharia da Falcon, pilotada por Han, para se livrar das naves imperiais em seu encalço.

Em A Última Cruzada, há uma referência a esta cena, em que Indiana e Henry Jones sobem num aeroplano para fugir de seus perseguidores. Indiana assume a cadeira do piloto enquanto seu pai, no assento posterior, pega a metralhadora para repelir os nazistas. Jones pai acaba destroçando o leme do próprio veículo…

Por que dá certo? São cenas típicas de perseguição que acrescentam animação à história. E é quase indispensável que numa história de aventura haja pelo menos uma cena de perseguição. Além disso, temos o acréscimo de haver dois personagens trabalhando em conjunto para fugir dos perseguidores, um encarregado da pilotagem e outro do armamento. A resolução depende da boa sintonia entre os dois, o que Han e Luke, que mal se conhecem, conseguem com êxito, enquanto os Jones, pai e filho, falham.

Batalhas contra veículos encouraçados

AT-ATs em Hoth e um tanque nazista

Ao longo da trilogia Guerra nas Estrelas, o Império se utiliza de armamentos gigantescos, como os Destróieres Imperiais, os AT-ATs, que parecem quadrúpedes imensos de metal, e a própria Estrela da Morte, que destrói planetas. Os rebeldes não têm mais do que pequenas naves ou pistolas e rifles laser. Tanto na batalha do planeta Hoth, em O Império Contra-ataca, quanto na batalha na lua de Endor, em O Retorno de Jedi, os rebeldes são como Davis enfrentando Golias.

Os tanques nazistas que Indiana Jones e seu pai enfrentam lembram os grandes AT-ATs blindados ou os AT-RTs bípedes que os pequenos ewoks de Endor derrubam com fundas e toras de madeira.

Por que dá certo? É emocionante ver heróis lutando contra uma força muito maior do que eles e usando a astúcia para derrotar o poder dominador. Os grandes monstros de metal que os na’vi enfrentam em Avatar pertencem a este mesmo tema, assim como os 300 espartanos liderados por Leônidas em 300 de Esparta, de Frank Miller, que enfrentam um exército persa muito maior e com muito mais armadura.

Vira-casaca que se arrepende

Lando Calrissian e Elsa Schneider

Desde sua primeira aparição em O Império Contra-ataca, Lando Calrissian provoca uma impressão ambígua. Única esperança de Han Solo para fugir do Império, não sabemos se podemos confiar nele. Primeiro, ele acolhe Han, Leia e Chewbacca, demonstrando hospitalidade e oferecendo socorro. Depois, ele os entrega a Darth Vader para enfim se arrepender da traição e se tornar um dos maiores aliados da Aliança Rebelde.

Dra. Elsa Schneider ajuda Indiana Jones e seu pai na busca pelas pistas para encontrar o Santa Graal, para depois entregá-los aos seus colegas nazistas. Mais tarde, ela muda sua intenção, renegando os interesses dos nazistas e tentando retomar a confiança dos Jones.

Por que dá certo? Em situações de perigo, busca e incerteza, os heróis precisam contar com alguém que tenha meios e recursos extras. Mas nem sempre se pode confiar em todo mundo. É esse um dos elementos que tornam O Clã das Adagas Voadoras, para citar outro exemplo, tão instigante e envolvente.

Além disso, quando tanto os traídos quanto os traidores se deparam com uma ameaça maior a ambos, eles tendem a juntar forças. A solidariedade diante das adversidades nos toca.

A salvação do pai

Luke salva Darth Vader e Indiana salva Henry Jones

A missão de Luke Skywalker em O Retorno de Jedi deveria ser matar Darth Vader. Quando aquele descobre que este é seu pai, ele deliberadamente muda de ideia e enfrenta seu antagonista com a intenção de salvá-lo do lado sombrio da Força. Uma das cenas memoráveis deste filme é quando Luke dialoga com seu pai moribundo, cujo verdadeiro nome é Anakin:

ANAKIN (muito fraco)
Agora… vá, meu filho. Deixe-me.

LUKE
Não. Você vem comigo. Não posso deixá-lo aqui. Tenho que salvá-lo.

ANAKIN
Você já me salvou, Luke. Você estava certo sobre mim. Diga a sua irmã… que você estava certo.

Numa posição semelhante, Indiana traz até seu pai ferido um pouco de água no Santo Graal, com que cura um ferimento de bala. A cura física da ferida é apenas uma metáfora de uma situação em que pais e filho, depois de tantos anos de desentendimento, finalmente se entendem.

Por que dá certo? O conflito entre pai e filho, segundo Sigmund Freud, que batizou esse conflito de Complexo de Édipo, está na base da maioria das neuroses e é inclusive uma realidade psíquica que move a maioria das pessoas, estando geralmente relacionado, para falar em termos mais generalistas, a um conflito entre os impulsos naturais e a autoridade repressora. Resolver esse conflito na forma de um encarar de frente o próprio pai e derrubar a tradição segundo a qual existe uma hierarquia absoluta em que pai (ou a Lei, o Estado, Deus etc.) precede o filho mexe com todos nós. Quando Luke se salva do conflito com o pai, ele também salva Anakin. Quando Indiana se livra do constrangimento do pai, este também se liberta, e podemos ver este diálogo no final de A Última Cruzada:

INDY
O que você encontrou, pai?

HENRY
Eu?… Iluminação.

Considerações finais

Não busquei fazer aqui uma relação dos easter eggs de Guerra nas Estrelas presentes em Indiana Jones. Uma relação dessas referências/homenagens pode ser vista neste link.

Aqui procurei relacionar referências (provavelmente) não intencionais, temas presentes nas boas histórias de aventura. O fato de ambas as sagas terem sido concebidas pelo mesmo George Lucas só facilita essa identificação. Mas se analisarmos bem qualquer grande aventura, poderemos encontrar a maior parte dos itens que relacionei neste texto.

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