Cirurgia

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Nasci com Síndrome de Marfan e com um prolapso na válvula mitral. Algumas das minhas cavidades cardíacas desenvolveram, ao longo de 29 anos, um tamanho anormal. As válvulas mitral e aórtica sofrem um círculo vicioso em que a sua insuficiência faz parte do sangue retornar, o que a dilata e a torna insuficiente. Nisso, o próprio coração cresce e já mal cabe na caixa torácica.

Em muitos casos de Síndrome de Marfan, há o risco de romper-se alguma válvula, devido a um problema no tecido conjuntivo, próprio dessa síndrome. Para evitar que o quadro venha a se agravar e “o pior” aconteça, é importante uma eventual intervenção cirúrgica que corrija a insuficiência cardíaca e prolongue a expectativa de vida de um marfan. Após alguns anos sendo acompanhado por uma cardiologista que já havia me preparado para a eventualidade, finalmnte chegou a ocasião.

Válvulas cardíacas

As válvulas mitral e aórtica estão à direita

Então, na próxima Segunda-feira, dia 23 de agosto de 2010 e.c., passarei pelo procedimento cirúrgico em que terei a válvula aórtica substituída por outra, extraída de um porco francês, e a válvula mitral corrigida (a não ser, disse o cirurgião, dr. Marcelo Cascudo, que não dê para corrigir, sendo necessária também a substituição).

Já brinquei com minha amada, dizendo que terei um coração de porco, mas que não ficarei com “espírito de porco”. Não por causa disso, pelo menos. No máximo, talvez eu passe a detestar bacon e a ter impulsos ocasionais de chafurdar na lama, quem sabe? Pelo menos já tenho alguma noção da língua francesa, o que pode ajudar na adaptação. A propósito, será que os porcos franceses falam “óinc” fazendo biquinho? Na verdade, nem sei se o porco é francês, só sei que as válvulas vêm da França, que pode tê-las importado da China.

Eu me pergunto se esse porco (ou será um boi? Na verdade, o médico disse que a válvula pode ser suína ou bovina, mas a piada do “espírito de porco” ficou tão marcada que acabei esquecendo dessa possbilidade.) ou boi morreu para ter suas entranhas “doadas” a um paciente como eu ou aproveitaram o abate de um animal destinado à indústria alimentícia para atender também esse propósito.

Caso tenha ocorrido a primeira hipótese, será que a perspectiva egoísta é eticamente válida para justificar a troca de uma vida por outra? O porco (ou boi… pode até ter sido uma porca ou uma vaca) não teve escolha, foi abatido por seres humanos treinados para coagir e matar, enquanto eu pude optar (se bem que as circunstâncias também se impuseram sobre mim) por um procedimento cujo objetivo é me manter vivo.

Mas, se eu tiver certeza de que minha existência nesta vida intrafísica poderá ser mais positiva para o conjunto policármico de pessoas no universo do que a vida de um animal irracional que talvez (?) esteja adiantando sua evolução individual ao deixar sua atual vida e ser encaminhado para a próxima, então posso ficar perfeitamente tranquilo quanto à implicação ética.

Tranquila, aliás, é o que se pode dizer de minha disposição diante da abertura de meu tórax, a intrusão de instrumentos cortantes no interior de meu peito e a longa recuperação que me espera. Como Sarek e seu filho Spock, impassíveis vulcanos sob os cuidados do Dr. McCoy, na ilustração que inicia este post (cena do episódio A Caminho de Babel, da 2ª temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas). Não que eu não tenha um pouco de medo e excitação diante de um evento tão contundente em minha vida. Porém, diz-se que a coragem não é ausência de medo, mas a habilidade de enfrentá-lo. Tampouco é sinônimo de bravura e ímpeto destemido. A serenidade perante as vicissitudes da existência é um dos maiores sinais de coragem.

E nada disso tem a ver com qualquer crença religiosa ou recurso a um deus todo-protetor. Certa vez, alguns dias antes de eu me submeter a uma cirurgia ocular (problemas oftalmológicos também são comuns na Síndrome de Marfan), uma amiga me disse que embora eu fosse forte e demonstrasse calma diante de um procedimento invasivo ao meu corpo, eu precisava recorrer a algo externo e mais forte do que eu, e em circunstâncias piores do que aquela seria necessário que eu buscasse conforto em Deus.

Entretanto, não sinto necessidade de recorrrer a uma força misteriosa, mística e oculta para me manter “confortado”. Não vejo necessidade de acreditar que há um ser onipotente e bondoso que “guia a mão do médico” para que tudo dê certo. Afinal, se ele fosse mesmo bondoso, não ajudaria só os que a ele confiam suas vidas, como um chefão da Máfia que protege aqueles que beijam sua mão e o chamam de “padrinho”.

Don Corleone

O padrinho da Máfia. Não é à toa que em inglês o chamem de “godfather”

E o adágio segundo o qual “tudo o que acontece, bom ou mau, é pela vontade de Deus”, é ainda mais ilógico e irracional, pois não é preciso dar uma explicação teológica ao que acontece aparentemente por acaso (não que eu ache que as coisas ocorrem por acaso; vejo sincronicidade e relações de causa e efeito). Além disso, observo que toda essa “teo-lógica” parece não abrandar o sofrimento de ninguém. Há pessoas muito crentes que oram desesperadamente em situações críticas e não apresentam nenhum sinal de que estão “confortadas”. A manutenção da serenidade em situações de crise depende muito mais do autocontrole e de uma força desenvolvida intimamente do que de uma força exterior. Tanto há ateus e agnósticos que se desesperam quanto os que se mantêm calmos. E há crentes tranquilos e outros não tanto.

Tenepes

Há uma complexa conexão entre as consciências e suas energias conscienciais

O único conforto de que preciso é meu próprio otimismo. E a certeza de que tudo ficará bem, seja o que acontecer, é apenas uma tranquilidade advinda de uma visão consciencial das coisas. Posso parecer contraditório ao dizer que confio na ajuda de consciências extrafísicas (que alguns preferem chamar de anjos da guarda ou espíritos de luz) e até solicito a elas essa ajuda. Mas não se tratam de deuses numa relação de poder. São pessoas que conheço e que estão elas mesmas imersas numa imensa rede de relações de causa e efeito, e a quem hei de ajudar quando eu estiver sem este corpo físico e quando elas estiverem vivendo na dimensão intrafísica (como estou agora).

De qualquer forma, pensem positivamente sobre a ocasião. Se alguém quiser orar para que o deus em que acredita faça com que tudo ocorra bem, por favor, ore. Sua energia bem-intencionada será bem vinda. E se alguém preferir torcer com o mero pensamento positivo, só posso agradecer. Quem tiver a disposição de me enviar deliberadamente suas energias conscienciais benfazejas terá minha gratidão. E caso alguns de vocês, por convicção pessoal, não queiram recorrer a nenhum desses meios, só o fato de desejarem o bem-estar de todos os seres existentes (para não dizer que estou pensando só em mim) já me deixa grato.

Espero, como disse uma amiga minha, que a cirurgia signifique um ajuste e uma melhora em minha manifestação nesta vida, para que eu possa dar mais de mim em minha programação existencial e contribuir ainda mais em meus modestos esforços para o bem comum das consciências do universo. Como disse Galadriel a Frodo,

Even the smallest person can change the course of the future.

Até breve.

Fim

I’ll be back!

Da onipotência

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As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).

Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.

Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?

Soube.

Quando você soube?

Fulana me contou semana passada.

Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.

Pois é, o mistério de Deus.

É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento…

É, esse menino era meio alegrinho…

…então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais… mas não sei, só Deus sabe.

É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?

Oro!

Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.

A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no Inferno de Dante, que tem três cabeças.

Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação “crescei e multiplicai-vos” não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.

Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.

“Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino… ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.” Mas ele não poupou o “sofrimento” de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o” sofrimento” daqueles que morreram sem ter esse “problema”.

Essa é a crueldade do “mistério de Deus”. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), “Deus sabe”, “Deus não faz nada em vão”, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.

Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.

Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.

Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.

Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.

É proibido duvidar

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Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo aguerrido essa opinião pública. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é falar sobre religião e Deus.

Não é nada fácil ser agnóstico e muito menos ser ateu numa cultura em que predomina o monoteísmo cristão. Dizer que não se tem certeza se existe um deus ou Deus é convidar os teístas mais fanáticos a nos dar um sermão. Afirmar que Deus não existe é despertar pena ou ganhar a desconfiança de algumas pessoas.

Pior ainda é quando sua forma de encarar a existência de Deus é complexa demais para ser denominada pelos termos disponíveis no mercado linguístico. Se alguém me pergunta se acredito em Deus, responder que “não acredito” resume bem minha visão, mas desperta uma série de preconceitos atrelados a essa frase que não correspondem exatamente à minha visão do tema.

Uma colega minha do trabalho não acredita que exista Deus nem afirma sua inexistência. Para mim, ela se encaixa no conceito de agnóstica. Mas ela não se considera agnóstica nem ateia nem teísta. Conversando com ela, sugeri que ela é agnóstica, mas ela discordou, dizendo que não aceita essas denominações.

Desde que comecei a entender bem o que significa ateísmo, agnosticismo e Ciência, comecei a me considerar cientificamente agnóstico e filosoficamente ateu. O primeiro termo se refere à minha ideia de que não é possível, através da investigação científica, averiguar a existência ou a inexistência de um criador onipotente, onisciente e/ou onipresente. Na Ciência, não se tratam de verdades absolutas, mas de aproximações da realidade, e toda afirmação científica é, de certo modo, agnóstica, pois não é revelada e sim o resultado de um esforço cognitivo.

O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade absoluta, humana ou divina. De modo que me reporto ao pensamento de Mikhail Bakunin, para quem a existência do Deus das religiões monoteístas implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltaire (“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”), Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”. O que me faz relacionar filosofia e ateísmo é uma noção ética, moral, ou seja, mesmo que exista algo que se possa chamar de Deus, considero antiético que sua existência implique na servidão humana.

Além disso, algumas de minhas perspectivas de existência são contrárias a grande parte das crenças dos ateus. Considero, por exemplo, que as manifestações da consciência humana extrapolam os 5 sentidos do corpo físico, que podemos nos manifestar fora desse mesmo corpo (o que se conhece como projeção astral, experiência fora do corpo ou projeção da consciência), que faz sentido que cada um de nós tenha tido outras vidas e terá outras no futuro e que nesse processo estamos evoluindo, cada um, para uma condição cada vez mais avançada. Isso não quer dizer que eu não possa me considerar ateu, pois o sentido estrito dessa palavra é a negação (a-) da divindade (théos).

Etiqueta

Certa vez li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais figurava a religião. Ora, quando se diz isso, o que se deixa implícito  é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, não há riscos de haver confusão ao se falar de religião num jantar onde todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Esse risco é até pequeno mesmo quando cristãos de diversas correntes discorrem sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles.

Entretanto, não se considera aceitável deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. Um especialista em etiqueta que recomenda a discrição na hora de se abordar religião pode estar implicitamente assumindo que tem uma religião que acredita ser a correta e não gosta que outros abordem suas crenças de maneira crítica, mesmo que seja para ajudar a entender melhor algum aspecto dessa crença.

A lógica dessa etiqueta se baseia na ideia de que as religiões têm que ser respeitadas (mesmo que seus discursos incluam críticas a outras formas de pensar) e que a crítica às religiões é um erro, pois seria a negação de algo fundamental da natureza humana. É a mesma lógica de quem pensa que os símbolos religiosos têm que estar presentes nas instituições públicas de um Estado laico (mesmo que eles ofendam algumas pessoas) mas se sente ofendido com uma manifestação ateísta ou de outra religião. A tirinha abaixo, de Don Addis, resume extraordinariamente bem o que tenho em mente:

"Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!" "Ei! Que tal mostrar algum respeito?!"

“Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!” “Ei! Que tal mostrar algum respeito?!”

Porém, é preciso levar em consideração um outro aspecto, que se relaciona à mesma ética a que aludi acima: às vezes uma pessoa tem tão entranhada em si uma convicção que questionar e desconstruir de maneira lógica seu pensamento seria uma violência.

Mas se todos incorporassem verdadeiramente uma postura racional e civilizada, poderiam deixar de lado esses melindres e discutir abertamente seus pontos de vista, flexibilizando-se a novas experiências e novas perspectivas, sem as noções preconcebidas de que “é preciso mostrar ao outro que eu estou certo”. Surgiria então uma nova etiqueta, baseada no discernimento, no abertismo e no universalismo, e toda essa bobagem de discrição na hora de abordar certos temas seria superada.

Notas

Este texto é uma versão ampliada de um post originalmente publicado na primeira Teia Neuronial. Seguindo a ideia que expressei no texto A Morte e o Texto, decidi, ao invés de pegar os textos antigos e republicá-los integralmente, reconstruí-los, atualizando as ideias a respeito dos temas abordados, seja porque mudei minha forma de vê-los, seja porque há algo novo a acrescentar.

Confiram o texto original neste link ou abaixo:

Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é religião e Deus.

Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar cientificamente agnóstico mas filosoficamente ateu. Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Há algum tempo li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava religião. Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.