O Hobbit na televisão e no cinema

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Hoje, 21 de setembro de 2012, O Hobbit completa 75 anos desde sua primeira edição. Foi o primeiro livro de J. R. R. Tolkien sobre a Terra-Média, cujos acontecimentos antecedem e preparam o cenário para O Senhor dos Anéis, bastante conhecido hoje em dia pelo público em geral devido à primorosa adaptação cinematográfica de Peter Jackson. O Hobbit é muito menos conhecido do que O Senhor dos Anéis, mas vai se tornar muito popular com um novo trabalho de Jackson, que estreia em dezembro deste ano (2012).

No entanto, não é a primeira vez que alguém teve a ideia de adaptar a obra de Tolkien para as telas (seja a televisão, seja o cinema). Houve alguns trabalhos na década de 1970 em cima de O Senhor dos Anéis. Mas mesmo bem antes disso já haviam começado as adaptações do primeiro livro, considerado por muitos uma obra voltada para crianças (Tolkien a escreveu tendo em vista um público infantil), mas ainda hoje aclamado como um belo exemplo de literatura fantástica.

A primeira transposição oficial de O Hobbit para o cinema foi realizada em 1966, pelo animador Gene Deitch, num curta metragem que, para aqueles que conhecem bem a obra de Tolkien, resultou em algo bem estranho, formalmente deturpado e ligeiramente diferente em sua essência. Os gráficos foram feitos num estilo de ilustração de histórias infantis. A animação é pobre, mantendo o filme com a aparência de um livro ilustrado, e há apenas a voz do narrador, como se estivesse lendo o livro. Veja abaixo o filme na íntegra.

O diretor se deu a liberdade de modificar vários elementos importantes da obra de Tolkien. Ele reduziu o grupo de aventureiros, que no livro contava com 13 anões, 1 hobbit e 1 mago, para um general e seu ajudante, uma princesa e o nosso pequeno protagonista. Essa adaptação mostra de forma interessante como O Hobbit pode ser visto, por certos leitores, como uma história mágica e fabulosa, que pode ser recontada de maneira simples e sem a preocupação com detalhes, mas mantendo certos elementos cruciais da narrativa, como o herói, a partida de um lar confortável para uma grande aventura, a presença de aliados, os encontros com inimigos e outros perigos, a transformação do herói, a execução da tarefa e o retorno ao aconchego da toca de hobbit.

No entanto, para muitos apreciadores do livro original, uma adaptação mais fiel e detalhada sempre agrada, pois a história não se resume a uma fábula, está repleta de elementos que extrapolam para um universo mais complexo, com seus personagens pitorescos, situações interessantes e diálogos dramáticos. Onze anos depois do curta de Deitch, Jules Bass e Arthur Rankin Jr. apresentaram um longa metragem animado para a televisão. Não existe trailer oficial desse filme, portanto segue abaixo um trailer feito por um fã:

Nesse filme foi possível explorar melhor quase toda a trama do livro, com a presença de praticamente todos os personagens importantes e a encenação com poucas perdas das cenas mais dramáticas, como os encontros de Bilbo com Gollum e com o dragão Smaug, além da tragédia do rei anão Thorin, que quase deixou a ganância corrompê-lo e quase levou os heróis à derrota.

O estilo de Bass/Rankin, que também produziram o célebre desenho animado O Último Unicórnio, mantém um aspecto de contos de fadas, as caricaturas infantis e exageradas. Além disso, conserva o espírito dos anos 70, notadamente na trilha sonora, bem feita e divertida. Mas ainda pode ser considerada uma excelente adaptação da narrativa de Tolkien, inclusive aproveitando várias das letras das canções do livro nas músicas feitas para o filme.

Este ano (2012), O Hobbit retorna às telas, desta vez com as novidades técnicas do cinema contemporâneo. Peter Jackson retoma o que iniciou (ou concluiu?) com O Senhor dos Anéis , trazendo ao público que nunca leu Tolkien os acontecimentos que antecedem e culminam na aventura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, apresentados em três filmes (Uma Jornada Inesperada, A Desolação de Smaug e Lá e de Volta Outra Vez). Eis o trailer oficial da primeira parte, que estreia no próximo dezembro:

A expectativa é de que a história seja recontada num tom mais “realista”, mais complexo e profundo, até mesmo mais sombrio, como se a narrativa do livro representasse uma versão atenuada da história, enviesada pelo olhar de seu suposto autor e protagonista (o próprio hobbit Bilbo Bolseiro). A trilogia também explorará eventos paralelos, ausentes de O Hobbit, mas desenvolvidos pelo próprio Tolkien em outros escritos, criando uma conexão maior com O Senhor dos Anéis

Referências

45 anos de Star Trek

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No dia 8 de setembro de 1966, ia ao ar na NBC, na televisão norte-americana, o episódio O Sal da Terra (The Man Trap), estreia da série Jornada nas Estrelas (Star Trek), que se tornaria uma das mais longevas franquias de ficção científica, indo audaciosamente a seguidas séries e temporadas de TV, filmes, livros, quadrinhos e tanta parafernália de merchandising (brinquedos, roupas e acessórios úteis ou inúteis) a que talvez só Guerra nas Estrelas (Star Wars) se equipare ou, quiçá, supere.

A premissa da série idealizada por Gene Roddenberry era levar a um futuro utópico histórias de aventura, suspense e drama, tudo em torno de uma elaborada e inteligente ficção científica, o que se traduz em “explorar novos mundos estranhos, procurar novas formas de vida e novas civilizações”. Inicialmente, tal premissa foi desenvolvida através de três temporadas mais ou menos bem-sucedidas. Personagens marcantes como Capitão James T. Kirk, Sr. Spock e Dr. Leonard McCoy encenariam enredos repletos de surpresas e reviravoltas.

O Sal da Terra (The Man Trap)

O antagonista do primeiro episódio de Star Trek, “O Sal da Terra” (The Man Trap)

Digo “mais ou menos bem-sucedidas” porque o fiel público que admirava Jornada nas Estrelas só foi descoberto anos depois da série ter sido cancelada. Esse público ajudou a motivar os produtores a ressucitar as aventuras da tripulação da Enterprise numa sequência de longas-metragens (hoje, são ao todo 11 filmes) e depois numa série chamada Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation). Outras três séries se seguiram, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise, com novos personagens e com um complexo desenvolvimento desse universo ficcional.

Jornada nas Estrelas se tornou um objeto de adoração de uma multidão de fãs ao redor do mundo. As raças exóticas, os personagens pitorescos com seus bordões, os gadgets de uma tecnologia que facilitaria a vida de muita gente… muita gente se encantou, algumas vezes de modo exagerado (como acontece com qualquer produto da cultura), e tentou trazer a estética de Jornada nas Estrelas para suas vidas, seja com roupas ou com adornos para o ambiente doméstico se parecer com o cenário futurista dos séculos XIII e XIV.

Uhura e Kirk

Primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana

Por outro lado, os vislumbres de um futuro em que o progresso científico traria grandes avanços e desafios para a humanidade inspirou muitos jovens a se dedicar à Ciência, levando uma safra sonhadora a ingressar na NASA ou seguir carreiras acadêmicas nas Ciências Exatas, Naturais ou Humanas.

Para além dessas influências pessoais, Jornada nas Estrelas construiu um arcabouço de histórias muito variadas, tanto nos temas e nas narrativas quanto nas abordagens filosóficas, éticas, morais, políticas e sociais. Às vezes trazendo uma visão libertária a respeito da alteridade, outras vezes “sem querer” enaltecendo valores específicos da cultura norte-americana, Jornada formou um repertório impregnado de novas ideias e questionamentos para a humanidade.

Jornada nas Estrelas, enfim, representou um marco na história da televisão, colocando personagens de diversas etnias e nacionalidades juntos na mesma ponte de comando, contrariando os sentimentos antissoviéticos da época, bem como a beligerância dos EUA na Guerra do Vietnã.

Além disso, ousou colocar uma mulher negra em posição de destaque na tripulação, cuja permanência na série só foi possível pela intervenção de Martin Luther King, que entendia que Nichelle Nichols era uma inspiração para as jovens e os jovens negros oprimidos pelo racismo. Sua personagem, Uhura, também encenou um dos mais importantes beijos da TV norte-americana, o primeiro a envolver um homem branco e uma mulher negra, rompendo simbolicamente com o apartheid racial do país. Um singelo gesto que resume o significado dessa série que continua indo aonde ninguém jamais esteve.

O Big Brother está de olho em você…

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O programa Big Brother Brasil (BBB) chega à sua 11ª edição, e quase todo mundo está de olho nele. Grande parte dessas pessoas assiste ao “reality show” 1 mas diz que não gosta. Afinal, quem não vê o BBB não consegue acompanhar grande parte das conversas nos intervalos do trabalho, da escola ou da universidade, não tem condições de participar das fofocas cotidianas.

Todo mundo sabe que o título desse infame e adorado programa é baseado num livro. “É de Admirável Mundo Novo, né?” 2 Chegou perto, mas não, não é do famigerado romance de Aldous Huxley. Ele vem de outra ficção científica distópica: 1984, de George Orwell. E ironicamente o programa e o livro não têm nada e ao mesmo tempo têm tudo a ver um com o outro.

O programa de TV monta uma situação em que várias pessoas se confinam numa casa para disputar um prêmio, que será recebido pelo participante que não for eliminado pela audiência. O Grande Irmão (Big Brother), que vigia, pune e recompensa, não é representado apenas pela figura antipática de Pedro Bial, única pessoa que conversa diretamente com os ocupantes da casa. Se no livro de Orwell os vigilantes por trás das câmeras são uma equipe pertencente ao Núcleo do Partido único, no programa da Rede Globo quem vigia e julga são seus milhões de telespectadores.

1984, de George Orwell (Companhia das Letras)

1984, de George Orwell (Companhia das Letras)

A grande diferença é, portanto, que em 1984 toda uma sociedade é autovigiada e qualquer pessoa, mesmo um parente ou amigo seu, pode denunciá-lo por pensar e/ou agir de modo subversivo, entregando-o à Polícia das Ideias para a adequada punição, segundo regras rígidas e estabelecidas pelo Governo. No BBB, as pessoas que são julgadas, recompensadas e punidas estão num jogo “inofensivo” e é o povão quem decide que comportamentos são reprováveis e quais merecem recompensa, o que pode, por exemplo fugir totalmente das regras morais pregadas explicitamente pela maioria das pessoas.

O Grande Irmão de 1984 é o símbolo do totalitarismo, do poder e controle absolutos sobre uma população (em toda a parte da Oceânia se encontram cartazes com a foto do Grande Irmão e os dizeres: “O Grande Irmão está de olho em você”), 3 que serve para manter uma ordem social rígida. O socing (socialismo inglês), regime da sociedade retratada em 1984, não pode prescindir de pessoas obedientes que trabalhem pelo e para o Partido, com o objetivo de manter o poder deste e de manter todo o resto da sociedade amarrada por grilhões. O objetivo maior desse regime é integrar ao máximo toda a população, evitando como puder qualquer desvio e garantindo total obediência.

O Grande Irmão do BBB está ali apenas para classificar o vencedor de um jogo e eliminar todos os outros. Os “brothers” não servem para nada no contexto da casa e do show em si, e o objetivo da brincadeira é esvaziar a casa. Não há ordem nenhuma a ser mantida nessa casa, tendo em vista que as regras podem mudar a cada dia, com a eleição periódica de um líder entre os participantes.

Dito isso, vemos que o Big Brother Brasil não tem nada a ver com o Grande Irmão desenhado por Orwell. Mas, se olharmos de outra forma…

Toda a população da Oceânia, em 1984, vive diariamente os Dois Minutos de Ódio. Como as teletelas (aparelhos que são ao mesmo tempo televisores e câmeras) estão por toda a parte, todo mundo se posta diante de uma delas num horário pré-estabelecido, para ouvir sobre Goldstein, o traidor da Revolução, e proferir impropérios contra ele ao mesmo tempo em que se louva o Grande Irmão. Isso também serve como cultivador de uma mente coletiva, com a repressão de qualquer individualidade.

Se o BBB não faz isso com os vigiados que estão dentro da casa, o faz com os telespectadores. Todos os dias, milhões de pessoas param diante de televisores para ver o programa, escarnecer dos “brothers” mais impopulares e louvar os seus favoritos. Cria-se assim um conjunto de assuntos para discutir com os familiares e amigos, e durante toda a duração do programa o BBB desponta como o assunto da moda, sobre o qual todos conversam, seja para atualizar a situação dos “habitantes” da casa, seja para falar mal deles.

Outro efeito parecido é representado em 1984 pelo conceito de duplipensamento. Trata-se de uma forma de pensar paradoxal, pelo qual as pessoas controlam seus próprios pensamentos de acordo com os ditames do Partido. Ao duplipensar, você sabe que tudo piora a cada dia, mas é forçado a crer que as coisas nunca estiveram melhores. Você sabe que a história é modificada o tempo todo pelo Grande Irmão, mas sua mente se esquece disso. Você é ao mesmo tempo consciente e inconsciente da dominação que sofre no seio dessa sociedade autoritária. Você sabe que as coisas poderiam ser diferentes, mas acredita que elas são imutáveis. Ou seja, os mecanismos de controle usados sobre você para criar obediência cega são internalizados por você mesmo para que você se esqueça que foi adestrado.

Há um paradoxo semelhante na conduta dos telespectadores do BBB. Muitas pessoas consideram o Big Brother Brasil um programa fútil, mas não deixam de assistir a ele. O próprio programa parece provocar, de propósito, os pudores dos telespectadores, fazendo-os taxar esse programa de “indecente”, “perda de tempo”, “bobagem”, “coisa sem futuro”… Mas eles só dizem essas coisas porque conhecem o programa, e justificam de várias formas essa contradição, ou alegando que precisam conhecer para criticar (sem se perguntar se é realmente preciso criticá-lo), ou dizendo que “não há mais nada para ver na TV mesmo…”

Cria-se assim uma necessidade supérflua a que todos aderem, um programa alimentado pela opinião dos que a ele assistem 4 e que, dessa forma, se aprimora de acordo com o que o que pensam que querem ver. A Rede Globo é como o Grande Irmão, observando você, suas opiniões sobre os “brothers” e aquilo que você gostaria de ver no programa. Mas ao mesmo tempo esse Grande Irmão lhe diz o que você quer ver, para desviar sua mente do pensamento crítico e manter sua hegemonia midiática.

Portanto, lembre-se, o Big Brother Brasil está de olho em você.


Notas

  1. Para não citar aquelas pessoas que acham que “Big Brother” é o nome do livro que inspirou o show.
  2. Não existe reality show. A não ser que se colocassem câmeras para acompanhar o dia-a-dia de pessoas que não sabem que estão sendo filmadas. Qualquer pessoa colocada entre as paredes de uma casa isolada e repleta de câmeras não pode agir naturalmente. Winston, protagonista de 1984, sabe muito bem que a teletela montada em seu apartamento não é só um televisor, mas uma câmera, e todos os seus mínimos movimentos e gestos, toda e qualquer palavra murmurada serão vistos e ouvidas pelo Grande Irmão, que espera dele uma obediência baseada não no medo de ser punido, mas numa convicção cega e burra.
  3. No original, “Big Brother is watching you”, frase que tem sentido ambíguo: tanto pode significar que o Grande Irmão está cuidando de você quanto pode querer dizer que ele o está vigiando para punir qualquer desvio. Assim também, o BBB cria a ilusão de estar dando ao público o que ele quer, ao mesmo tempo em que tira desse mesmo público a fonte de sua manutenção, ou seja, a audiência.
  4. Ao menos é o que todos pensam, tendo em vista as suspeitas de manipulação dos resultados dos votos do público. O que torna o BBB ainda mais parecido com 1984, onde se descreve uma manipulação através de notícias falsas e tendenciosas, nas quais todos são forçados a acreditar.

Links

Homossexualidade em Star Trek

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O atual cenário político brasileiro tem demonstrado quão difícil ainda é superar a homofobia e as restrições aos direitos dos homossexuais, fato analisado, por exemplo, por Alípio de Sousa Filho em 2 artigos recentes (aqui e aqui). Grandes avanços já foram feitos, em grande parte do Ocidente, no alcance de direitos das mulheres e na superação do racismo e do segregacionismo étnico.

Mas parece que, quando se trata da busca por direitos iguais por parte de pessoas que não se enquadram na sexualidade convencionada, ainda há muita resistência. As graduais e lentas mudanças no status quo da sexualidade podem ser vistas em alguns episódios de Jornada nas Estrelas, na série clássica, em A Nova Geração e em Deep Space Nine, e percebemos que, numa série de televisão que foi tão revolucionária em sua concepção, é extremamente difícil abordar esse tema.

Jornada nas Estrelas (Star Trek) representa em sua concepção inicial um grande avanço na mídia televisiva norte-americana. A tripulação da Enterprise era composta por pessoas de diversas partes da Terra, até mesmo um russo, em plena Guerra Fria no mundo real, e um oriental, em plena Guerra do Vietnã. Gene Roddenberry, idealizador da série, imaginou um futuro utópico em que a humanidade superaria suas diferenças e se integraria numa só sociedade. Ela conviveria até mesmo com espécies alienígenas, como os vulcanos, cujo maior exemplo é o Sr. Spock, segundo em comando da nave estelar Enterprise.

A tripulação que se consolidou na série original de Star Trek era composta de várias nacionalidades: além dos norte-americanos, havia um escocês, um russo, uma africana, um extremo-oriental e um extraterrestre

Um dos pontos interessantes e que mais chamaram atenção na série original foi a veiculação do primeiro beijo “inter-racial” da história da televisão norte-americana, entre o branco capitão Kirk e a negra tenente Uhura, no episódio Os Herdeiros de Platão (Plato’s Stepchildren, 10º episódio da 3ª temporada da Série Original). A cena foi controversa, tanto que o diretor, David Alexander, se recusou a fazê-la. Nichelle Nichols, que interpretava Uhura, conta num documentário que os atores tiveram que ludibriar Alexander para ter a cena realizada. Isso num país e numa época em que a segregação racial era uma instituição forte. Enfim, a cena, reproduzida abaixo, representou um avanço, embora os personagens a se beijar o tenham feito por coação.

A questão racial parece ter ficado resolvida em toda a continuidade de Jornada nas Estrelas, especialmente na série A Nova Geração. Porém, quase nada se aborda quanto à homossexualidade, mesmo que o andar da história moderna aponte para um futuro em que a opção ou orientação sexual será irrelevante na valorização dos indivíduos e, portanto, ninguém precisará esconder com quem está se relacionando afetiva e sexualmente.

Mas nem na série original nem em A Nova Geração vemos sequer um casal homossexual. A primeira vez em que isso poderia ter ocorrido é no episódio O Hospedeiro (The Host, 23º da 4ª temporada de A Nova Geração), quando a Dra. Beverly Crusher se apaixona pelo trill Odan, cujo corpo humanoide é hospedeiro de um simbionte em seu ventre, verdadeira fonte de sua personalidade e consciência. Ao ser forçado a mudar de corpo, assumindo a fisionomia do comandante Riker, Crusher tem dificuldade de manter o relacionamento, pois Riker é seu amigo, mas ela acaba por ceder a seus sentimentos. No entanto, quando um novo hospedeiro trill é trazido, Crusher se surpreende com o fato de esse ser uma mulher, e não consegue conceber a continuidade do relacionamento.

O vídeo abaixo é o trecho final do episódio, em que Odan, na forma de sua nova hospedeira, pergunta a Crusher se esta quer continuar o caso, ao que ela responde negativamente.

Embora a Dra. Crusher alegue, no final do episódio, que não quer continuar com o relacionamento porque não suportaria viver com alguém que muda de aparência imprevisivelmente, é muito claro que ela demonstrou decepção ao constatar que a próxima hospedeira de Odan seria uma mulher, surpresa que se espera por parte dos próprios telespectadores. Ela não poderia viver o sincero amor que sentia com alguém do mesmo sexo que ela.

A controvérsia entre os fãs da série foi tamanha que muitos deles, homossexuais ou simpatizantes, enviaram cartas perguntando quando Jornada nas Estrelas, apresentando um futuro utópico, iria assumir uma posição favorável às possibilidades de sexualidade não-convencionada.

Talvez tenha sido uma resposta (tímida) a isso o episódio O Excluído (The Outcast, 17º episódio da 5ª temporada de A Nova Geração), no qual o comandante Riker se apaixona por um indivíduo da espécie andrógina  j’naii. Soren não se identifica com a identidade andrógina, sentindo-se uma fêmea com desejos sexuais por machos. No entanto, a sociedade j’naii proíbe a escolha por um gênero, e obriga Soren a passar por uma lavagem cerebral para assumir a identidade hermafrodita.

Essas história foi uma forma metafórica de abordar a homofobia, mas muitos fãs não ficaram satisfeitos. De fato, não há sequer uma menção ao paralelo entre a fobia dos j’naii e a homofobia humana. Porém, vendo o que até agora já havia sido feito, esse episódio pode ser considerado um avanço na abordagem do tema. O seguinte trecho é o julgamento pelo qual Soren passa e no qual ela faz um discurso que ecoa as reivindicações do movimento LGBT.

2 anos depois desse episódio, na série Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine (DS9), apareceria no episódio Espelho, Espelho Meu (Crossover, 23º episódio da 2ª temporada)  uma personagem bissexual: uma versão corrupta da major Kira Nerys, num universo paralelo. Ainda sem conseguir admitir que um dos protagonistas, um dos “mocinhos”, pudesse ter uma sexualidade diferente da convencionada, os produtores criaram uma antagonista que não era estritamente heterossexual. Mas ao menos apareceu, depois de 29 anos da franquia, algo diferente do que costumávamos ver.

Mais de um ano se passaria até o próximo avanço. Foi no episódio Reassociação (Rejoined, 6º episódio da 4ª temporada de DS9), em que se retomaria a raça trill para encenar uma relação homossexual. Como a personalidade do simbionte se mantém independente do hospedeiro, e como cada simbionte muda diversas vezes de hospedeiro durante sua existência, vivendo assim centenas de anos, é possível que duas pessoas que se conheceram portando determinados corpos venham a se reencontrar com aparências diferentes.

É o que acontece com Jadzia Dax, portadora do simbionte Dax, e Lenara Kahn, que hospeda o simbionete Kahn. Um dos antigos hospedeiros de Dax era casado com uma hospedeira anterior de Kahn. O amor que sentiam ainda está vivo, de modo que Jadzia e Lenara sentem o desejo de permanecer juntas, contra uma tradição trill que proíbe a retomada de um relacionamento afetivo depois que os hospedeiros mudam.

É interessante ver determinado momento do episódio, não reproduzido acima, em que o dr. Bashir explica à major Kira que o relacionamento entre Jadzia Dax e Lenara Kahn é proibido pela sociedade trill. Tem-se a impressão inicial de que os trill são homofóbicos, mas Bashir logo elucida que a proibição é de que dois trills retomem um relacionamento passado, o que tem como punição o exílio.

Também é notável que, quando Dax pede ao capitão Sisko um conselho sobre se ela deve ou não retomar o relacionamento com Kahn, ele se refira apenas ao problema de ela vir a ser exilada, e não se oponha ao caso por causa do sexo das duas amantes, mas sim porque sua amiga sofreria com a execração.

Entretanto, as personagens envolvidas não encenam exatamente um caso homossexual como entendemos. Seu relacionamento ocorre não porque elas se sintam atraídas por pessoas do mesmo sexo, mas porque se amam. De certa forma, é uma maneira até mais libertária de encarar a sexualidade, como algo que ocorre por amor, independente do sexo da pessoa amada. Porém, a história, sendo um passo ousado devido à cena de beijo homossexual, ainda é tímida porque trata esse tipo de relacionamento como algo particular a uma espécie alienígena, no caso os trills, não aparecendo ainda nenhum personagem humano abertamente gay ou lésbica.

Apesar de o idelizador de Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry, já ter expressado o desejo de colocar personagens homossexuais na franquia; embora já tenham aparecido vários roteiros que abordam a homossexualidade, que por decisão dos estúdios não foram concretizados; e mesmo que vários atores que já participaram das séries, como Jonathan Frakes e Kate Mulgrew, tenham deixado clara sua posição favorável à aparição de gays e/ou lésbicas nos episódios, o tema ainda é tabu na televisão norte-americana e talvez ainda precisemos de muito tempo para superar a homofobia e a dificuldade de conceber um futuro em que a opção, a orientação e a identidade sexuais sejam insignificantes no reconhecimento dos indivíduos.

De qualquer forma, sempre podemos imaginar que certas relações de amizade muito próximas tinham alguma coisa de homoafetividade…

Vida longa e próspera

Coleção de sinapses 1

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Esta semana a atriz Demi Moore ajudou um twitteiro a desistir do suicídio, mas o CQC não desistiu de desmascarar a corrupção existente na Educação Pública do interior de São Paulo. Quanto à corrupção na Igreja Católica, muitas crianças continuam sendo abusadas sexualmente e sacerdotes continuam impunes.

O que não continuou impune foi a Conjuntura de Poincaré, resolvida por um matemático russo que recusou o prêmio pelo feito. O que ainda não está resolvida é a existência de vida extraterrestre, que poderia haver em Titã, lua de Saturno. Quanto à vida na Terra, biólogos tentam conciliar o Evolucionismo com a visão cristã do mundo. E da vida de Leonard Nimoy, só sei que deveria ser longa e próspera…

Demi Moore evita suicídio de fã pela segunda vez – Jovem Nerd News

O Twitter e tantas outras ferramentas virtuais, redes sociais e afins, têm potencial para servir como meio de as pessoas encontrarem apoio para sua solidão e sofrimento. Não se pode negar que, com mais possibilidade de interação social, há mais chances de encontrar alguém disposto a dar consolo a quem precisa.

CQC – PROTESTE JÁ 22/03 – TV de Barueri – Sem censura (em 5 partes) – YouTube

Se o Jornalismo brasileiro ousasse mais, como o faz o pessoal do Custe o Que Custar – CQC, talvez a vergonha pública de dirigentes corruptos os obrigasse a cumprir com suas obrigações para com a população atendida por seus serviços, pelo que todos nós pagamos.

“X-Woman” Discovered -Shared Ancestry with Neanderthals and Modern Humans – The Daily Galaxy

Não seria de surpreender encontrar outras espécies do gênero Homo convivendo além do sapiens e do neanderthalensis, antes do primeiro ter subsistido ao outro. E também não seria surpresa encontrar muitos casos de híbridos entre as duas raças, pois são geneticamente compatíveis. É bem provável, aliás, que os humanos contemporâneos, que constituem uma só raça, seja resultado da mistura de mais de uma subespécie antiga.

Charge: A Igreja e a Padrefilia – Blog do Joaquim Monteiro

A Igreja e os que fazem parte de sua dirigência têm enorme poder acumulado e muitos recursos para não deixar que seus crimes abalem suas estruturas. A ICAR está aí firme e forte, depois dos horrores das Cruzadas e da Inquisição. Já passou da hora de mudanças radicais, de quebrar o tabu de se mexer com os representantes de Deus na Terra e puni-los como cidadãos com deveres iguais aos de qualquer outro. O problema é que cada país onde há padres pedófilos há uma legislação diferente, mas os Direitos Humanos Universais devem prevalecer para proteger as vítimas.

debaixo da torre eiffel – obvious

Eu me pergunto se monsieur Eiffel já tinha previsto o efeito de se olhar sua Torre de um ângulo não-convencional.

mac vs pc – obvious

Eu sinto essa diferença até entre meu notebook com Windows e meu iPod Touch. As coisas da Microsoft não são fluidas, parecem gambiarras muito bem disfarçadas. Os produtos da Apple, por outro lado, só surpreendem mesmo quando travam, o que, no caso do meu iPod, só aconteceu uma vez até hoje e nem houve prejuízo.

Russo resolve problema de matemática e ganha 1 milhão de dólares – Jovem Nerd News

O engraçado disso tudo é que há um episódio de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração (cuja história se passa no século XXIV) em que o capitão Jean-Luc Picard está tentando resolver a tal Conjuntura de Poincaré, até então insolúvel. Felizmente, podemos tratar o universo de Star Trek como uma realidade alternativa à nossa e não uma previsão do que vai acontecer de fato. Afinal, na storyline da série, a Terra da década de 90 do século XX foi dominada por vários ditadores sobre-humanos nascidos da eugenia, como o famigerado Khan Noonien Singh.

Life on Saturn’s Titan: Could It be Methane Based? – The Daily Galaxy

A ficção científica já especulou muito sobre a possibilidade de vida em condições diferentes da Terra, tanto em termos de temperatura, pressão e clima quanto dos elementos presentes no planeta candidato a fazer brotar vida. Mas uma coisa que me deixa intrigado no caso de um satélite natural é que seu movimento de translação ao redor do planeta combinado com o de revolução ao redor do Sol produz uma órbita que talvez deixe as condições de luz e temperatura instáveis demais. No caso da Terra, temos um ciclo circadiano relativamente contante, que permite a existência de seres vivos que vivem um ritmo estável de atividade e repouso. Entretanto, condições diferentes destas poderiam produzir criaturas com ciclos bem excêntricos em relação aos nossos, porém possíveis.

If ET Calls, Who Speaks For Humanity? – The Daily Galaxy

Muito boa a ideia de mandarmos mensagens explícitas para o espaço ao invés de contar com a captação de transmissões aleatórias de rádio e TV. Evitaríamos, por exemplo, mal-entendidos como no filme Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers, 1985), em que extraterrestres têm medo de vir à Terra, pois viram nos filmes que os forasteiros vindos do espaço sempre são recebidos com fogo. Porém, todo antropólogo sabe que se pode aprender muito mais de uma cultura observando as manifestações espontâneas dos nativos do que lhes pedindo para formular o que pensam da própria sociedade.

Official Adam Hughes Website

Gosto muito desse estilo de desenho. Lembra muito Quinton Hoover, que lembra Michael Kaluta (que influenciou esse último), que lembra Alphonse Mucha (que influenciou esse último). Não por acaso, Hughes tem influência do art nouveau.

ENTREVISTA: FRANCISCO AYALA Biólogo, premio Templeton: “Si el creacionismo fuera verdad, Dios sería un abortista” – El País

Por que as pessoas insistem tanto em louvar um cientista por “conseguir”, ou tentar “conseguir” conciliar Religião e Ciência? São duas coisas completamente separadas. Se um cientista tenta manter-se religioso, precisa abdicar de muitas das verdades proferidas pela religião, para não se contradizer. E fazendo isso acaba criando para si uma religião própria, diferente ou deturpada em relação àquela que costumava seguir. Ademais, é perfeitamente possível desenvolver um “sentido” para o mundo sem recorrer à religião. A própria Ciência, junto com a Filosofia, fazem isso sem precisar recorrer às tradições religiosas, que, via de regra, são rígidas demais em muitos pontos para se adaptar totalmente ao Zeitgeist contemporâneo.

Artistas juntam US$ 9,5 milhões para preservar símbolo de Hollywood – G1

Um letreiro não vale tanto assim. Todo esse dinheiro, conseguido tão facilmente, irá para os bolsos de pessoas que já têm dinheiro demais. Por que não aproveitar essa facilidade de angariar fundos para ajudar pessoas que realmente precisam? Está certo que “Hollywood” tem um valor histórico, mas a prefeitura de Los Angeles não poderia tombá-lo como patrimônio?

Leonard Nimoy, o eterno Spock, completa 79 anos. Veja curiosidades sobre o ator! – Portal Vírgula

Leonard Nimoy me surpreendeu quando descobri que foi ele quem dirigiu As Coisas Engraçadas do Amor (Funny About Love, 1990), um filme que não tem quase nada a ver com o imperturbável Sr. Spock. É um artista bem versátil, e a matéria me deu vontade de conhecer mais dos trabalhos dele fora da nave estelar Enterprise.

peugeot, mobilidade em estilo futurista – obvious

Estamos “chegando no futuro”! Muito legal ver esse veículo e imaginar que talvez daqui a algumas décadas teremos uma nova estética trafegando as ruas (e talvez os ares). Gadgets como Eva, do filme WALL-E, com um design cheio de curvas e abóbadas, nos remetem a uma vindoura era (realmente) espacial. Mas há ainda muitíssimo chão para pisar e nivelar antes que possamos nos dar ao luxo de usufruir de tecnologias limpas e eficientes. E há também muitas desigualdades a se equilibrar antes de concebermos uma sociedade cujos membros possam todos aproveitar os benefícios das tecnologias ecologicamente (e, espero, economicamente) corretas.

Star Wars vs. Star Trek

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[Há uma versão mais recente e completa deste texto neste link]

No seriado Os Universitários (Undergrads), a que eu assistia no [adult swim], a faculdade técnica era habitada por nerds e geeks. Entre eles, havia uma certa rivalidade entre os fãs de Guerra nas Estrelas (Star Wars) e os fãs de Jornada nas Estrelas (Star Trek), também conhecidos como trekkers.

Eu não conhecia quase nada sobre Jornada nas Estrelas há até certo tempo, tendo apenas visto uns dois episódios de Enterprise e apenas um dos filmes. Porém, sabia quase tudo sobre Guerra nas Estrelas (ao menos tudo o que não incluísse o Universo Expandido), tendo visto todos os 6 filmes mais de uma vez cada.

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