Mitose Neural 8 – O Guia do Mochileiro das Galáxias

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Saudações! Bem-vindos a nossa espaçonave Mitose Neural! Neste episódio 8 do podcast da Teia Neuronial, conversamos sobre O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy), clássico livro de ficção científica e humor de Douglas Adams, discorrendo sobre a as paródias cientificamente corretas e reflexões filosóficas a respeito da vida, o universo e tudo mais.
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A primeira toalha de Hipólita

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“Clio, o que há de errado?”

“Nada, Hipólita, tava só pensando…”

“Quer desistir? Sei que você tem gostado muito deste lugarzinho sem graça, deste planetinha praticamente inofensivo, mas temos que seguir em frente. Nosso trabalho… quero dizer, seu trabalho aqui terminou, ainda temos muitos mundos para visitar antes de… bem, de qualquer forma, depois que tivermos concluído tudo, você pode voltar aqui e ficar dando peixes aos golfinhos até o fim do universo.”

“Não é isso… é que tenho um pressentimento… como se algo horrível fosse acontecer a qualquer momento e nunca mais vou poder voltar aqui…”

“Escute, Clio, você talvez esteja cansada desta vida de repórter interplanetária, deve ter visitado quarenta e dois mil mundos por essa galáxia afora, mas eu estou confinada à Terra desde que nasci, e não posso perder a oportunidade de conhecer outras paragens. Ter conhecido e feito amizade com uma mulher extraterrestre, na arquibancada de um jogo de críquete, que por acaso está só de passagem neste planeta e que conhece uma maneira de me tirar daqui é uma tremenda improbabilidade!”

“Infinita paciência me deem os divinos designers de Magrathea! Minha cara Hipólita, não estou querendo cortar seu barato, só estou dizendo que estou preocupada.Toda mulher de Betelgeuse tem um oitavo sentido, sabe? Mas se houver qualquer grande tragédia vindo aí para assolar a Terra, não poderemos fazer nada, não é? Mas pode ser que eu esteja enganada… o que estou querendo dizer é: NÃO ENTRE EM PÂNICO! Prometo que você vai cair fora deste seu pitoresco planeta, ou não me chamo Clio Renault!”

“Você não se chama Clio Renault, minha amiga…”

“Não importa. Vamos às compras!”

“Hem?!”

“Se liga, Hipólita! Se quer viajar pela galáxia, tem que se preparar!”


“Vai lá, Hipólita, escolha uma.”

“Hum… gosto desta estampa com cachalotes… essa aqui com vasinhos de petúnia também me agrada…”

“Tanto faz, amiga, temos pouco tempo. Vamos logo ao caixa.”

“Ué, só vamos comprar isso?”

“Você vai precisar disso mais do que qualquer outra coisa nessa viagem. Bem, agora que já fomos na loja de roupa, mesa e banho, devo lhe entregar isto.”

“Ah, então esse é o famoso…”

“Manual do Caroneiro Interplanetário, 1ª Edição.”

“Hem? Pensei que se chamasse Guia…”

“Não trabalho mais pare eles agora. Recebi uma proposta irrecusável. O Manual é o futuro em termos de compêndios para viajantes, Hipólita! Eles têm uma proposta diferenciada, que vai revolucionar a maneira como os mochileiros aproveitam suas viagens interplanetárias.”

“Hum… para mim dá no mesmo, ainda sou iniciante…”

“Agora vem a parte divertida. Mostre-me sua orelha.”

“Ah, aquele tal de peixe-babel que você falou…”

“Errou de novo, amiga. Os pesquisadores do Manual descobriram algo muito mais surpreendente. Apresento-lhe o polvo-uhura!”

“Hem?”

“Parece um pequeno octópode arroxeado. Depois que é introduzido no ouvido, ele espalha seus finíssimos tentáculos pelo sistema nervoso do hospedeiro. E aí vem a melhor parte! Ele não apenas traduz automaticamente qualquer idioma de qualquer lugar da galáxia (como também faz o peixe-babel), mas cria ondas nervosas extracutâneas que reverberam nos cérebros de outras criaturas e as fazem achar que você pertence à espécie delas! Não é demais?!”

“Hem?! Quer dizer que, se eu usar esse peixe-uhura, uma pessoa de outra espécie, digamos, um vogon, vai me ver como uma vogon?”

“Exato! Além disso, e essa é a parte mais espetacular de todas, o polvo-uhura cria uma rede de ondas cerebrais, uma espécie de teia neuronial virtual através do espaço, que liga todos os usuários desse pequeno molusco. Essa rede angaria informações e conhecimentos que são transmitidas automaticamente para os mainframes na sede do Manual, e é aí que essa obra supera de longe o Guia, pois é constantemente alimentada por informações de pessoas que nem sabem que estão contribuindo!”

“Impressionante! E você, vai usar um desses bichinhos também?”

“Eu já uso um. Quando você me conheceu eu já usava.”

“É mesmo? Então… peraí, quer dizer que você não é assim?! Digo, sempre me perguntei quais eram as probabilidades de uma alienígena ser tão parecida com um ser humano…”

“Você é quase tão esperta quanto um rato, amiga!”

“Hem?”

“Pare de dizer ‘hem?’! Vamos nessa!”

“Puxa, Clio, nem acredito que você está fazendo esse favor por mim… você tem um coração de ouro, sabia?! Não sei nem como agradecer!”

“Que nada. É sempre bom ter companhia. Em nossa próxima parada você me paga uma dinamite pangaláctica. Agora segure sua toalha que vamos pegar uma carona…”

Dia da Toalha

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25 de maio foi comemorado o Dia da Toalha, em memória de Douglas Adams. Em sua “trilogia de 5 livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias, a toalha é apresentada como o item mais útil para um viajante interestelar. Duas semanas após a morte de Adams, seus fãs estabeleceram o Dia da Toalha, em que cada pessoa deve sair de casa com sua toalha, que pode vir a calhar em diversas situações cotidianas.

Essa data também é o dia da estreia de Guerra nas Estrelas, em 1977. Como muitos fãs das histórias de Guerra nas Estrelas e da obra de Adams são nerds, resolveram transformar esta data também no Dia do Orgulho Nerd, ou Dia del Orgullo Friki, comemorado pela primeira vez em Madrid, Espanha, em 2006.

Tudo isso é parte de uma onda contemporânea de assunção de uma certa identidade nerd. É interessante ver essas diversas manifestações culturais surgirem como que do nada, celebrando alguns ícones que já se tornaram parte de nossas mitologias modernas, alguns mais populares (como Guerra nas Estrelas e seus jedis) e outras nem tanto (mas com um fiel público específico, como é o caso de O Guia do Mochileiro das Galáxias e sua desconcertante resposta para “a vida, o universo e tudo mais”: 42).

A toalha

Eis o que há de tão extraordinário nas toalhas, segundo Douglas Adams:

O Guia do Mochileiro das Galáxias faz algumas afirmações a respeito das toalhas.

Segundo ele, a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido ao seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está a sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.

Daí a expressão que entrou na gíria dos mochileiros, exemplificada na seguinte frase: “Vem cá, você sancha esse cara dupal, o Ford Prefect? Taí um mingo que sabe onde guarda a toalha.” (Sancha: conhecer, estar ciente de, encontrar, ter relações sexuais com; dupal: cara muito incrível; mingo: cara realmente muito incrível.)

De fato, os viajantes profissionais que perambulam na própria superfície terrestre costumam ter uma toalha a tiracolo, que serve para muitas coisas (dependendo também do tamanho dela). Se pensarmos bem, há tanta coisa que se pode fazer com uma toalha, um verdadeiro quebra-galho, que pode ser considerada uma das grandes invenções da humanidade.

As viagens interplanetárias de Arthur Dent e Ford Prefect, protagonistas da série de Adams, representam todas as odisseias em que nos jogamos, todas as grandes aventuras, buscas e missões de cada ser humano e da humanidade como um todo. Se houver algo mais para se fazer nesse tal de Dia da Toalha que não seja ficar exibindo um pedaço de pano por aí, que seja para pensarmos sobre nossa infinita busca por conhecimento e experiências.

E levar essa reflexão para todos os nossos dias, saindo pelo mundo a conhecê-lo e criando uma existência plena e significativa.

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