Éowyn e os Homens

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J. R. R. Tolkien pode ser considerado um autor extremamente imaginativo e criador de histórias instigantes, além de ser reconhecido como uma das maiores influências do gênero “alta fantasia” (high-fantasy). Eu admiro sua obra, em suas virtudes e com seus defeitos. O que é dizer que há elementos em seus escritos que podem perfeitamente ser criticados sob uma luz contemporânea.

Um desses elementos é o racismo sub-reptício em sua caracterização dos povos humanos da Terra-Média, especialmente visível em O Silmarillion, onde há humanos de natureza mais nobre, mais parecidos com europeus, e humanos de caráter mais vil e servil, cuja aparência remete aos médio-orientais e/ou aos africanos.

Também é notório o androcentrismo da obra, elemento estrutural de suas narrativas que não está lá à toa, tendo em vista o autor pertencer a uma época e a uma cultura que tinha (e a ainda tem) no homem (do sexo masculino) o modelo arquetípico de ser humano. Não é irrelevante notar que Tolkien era um cristão devoto e que o Cristianismo é tradicionalmente machista: Adão foi criado à semelhança de Deus; Eva foi criada para servir Adão.

Não é que sua obra, sendo de natureza literária, não possua pistas e chaves para a desconstrução de valores tradicionais como os papéis de gênero e as identidades de gênero. É possível perceber na leitura de O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, entre outros escritos de Tolkien, detalhes importantes e pertinentes para ver nesses livros o caráter transgressor da Literatura, este apontado por Roland Barthes em sua Aula, mesmo que no caso do escritor britânico essa subversão seja tímida.

Melanie Rost, por exemplo, em seu ensaio Masculinity in Tolkien, mostra que diversas figuras masculinas da obra do escritor subvertem o ideal de masculinidade presente na tradição literária fantástica europeia. Aragorn, por exemplo, é diferente dos reis tradicionais de histórias como as de Arthur, pois conquista seus súditos com amor e não com glória bélica. Bilbo é diferente dos heróis convencionais, pois conquista seu heroímo através do uso da conciliação e não de seu valor em batalha, a qual evita a todo o custo.

Homens, Anões, Hobbits e Elfos

“Homens”, Anões, Hobbits e Elfos

Homens

Uma das coisas que me chamaram muita atenção desde a primeira vez em que li O Senhor dos Anéis foi a forma como Tolkien se refere à raça humana: Homens ou, em inglês, Men, sempre com inicial maiúscula (outras raças também era nomeadas com maiúsculas: Elfos, Anões, Hobbits etc.). Esse modo de designar a espécie humana com uma palavra que também denota o indivíduo de gênero masculino desta espécie não é nada muito diferente do tradicional, na realidade, pois é comum até hoje as pessoas se referirem aos seres humanos de ambos os gêneros como “homens” (“men”), e ao ser humano em geral como “o Homem” (“Man”), este às vezes com inicial maiúscula, para diferenciar da referência a um indivíduo específico. Ora, vejamos as definições tradicionais de man e de homem, retiradas, respectivamente, dos sites-dicionários Oxford Dictionaries (inglês) e Priberam (português) (os exemplos e significados derivados foram suprimidos, mas podem ser conferidos nos respectivos sites originais):

Definition of man in English:
noun (plural men /mɛn/)

1. An adult human male:
(…)
2. A human being of either sex; a person:
(…)
2.1 (also Man) [in singular] Human beings in general; the human race:
(…)

ho·mem
(latim homo,inis)
substantivo masculino

1. [Zoologia]  Mamífero primata, bípede, com capacidade de fala, e que constitui o .gênero humano.
2. Indivíduo masculino do .gênero humano (depois da adolescência).
3. [Figurado]  Humanidade, .gênero humano.
4. Cônjuge ou pessoa do sexo masculino com quem se mantém uma relação sentimental e/ou sexual.
5. Pessoa do sexo masculino que demonstra força, coragem ou vigor.

O sentido dúbio da palavra homem está instrinsecamente relacionado à representação androcêntrica do ser humano como um ser modelarmente masculino, uma representação que enxerga sub-repticiamente (às vezes explicitamente) as mulheres como uma variação do ser humano “normal”, uma criatura secundária, até mesmo incompleta comparada ao modelo ideal masculino (esta visão da mulher como um “homem defeituoso” era explicitamente defendida na Grécia Antiga, cuja cultura exerce influência milenar sobre nós). (No artigo A Evolução do Homem Branco eu explorei um pouco esse tema, inclusive a representação do ser humano idealizado como branco-europeu.)

Em Tolkien, como já afirmei acima, não se foge dessa nomenclatura tradicional e antiga. Porém, é interessante notar o uso específico pelo escritor britânico das formas Man, Men, man e men. Quando usa a palavra com inicial maiúscula (tanto no singular quanto no plural), Man/Men se referem à raça mortal à qual, por exemplo, pertencem Boromir de Gondor e Éowyn de Rohan. Quando escrito com minúscula, man/men designa indivíduos específicos do sexo masculino, em alguns casos até mesmo de raças não humanas (essa dicotomia, traduzida para o português, não traz diferença significativa em relação ao original inglês). Assim, Boromir e Éowyn são Homens (maiúsc.), pertencem à raça Homem (maiúsc.), enquanto Galadriel e Meriadoc Brandebuque, sendo respectivamente uma Elfa e um Hobbit, não podem ser chamados de Homens (maiúsc.); por outro lado, se Boromir é um homem (minúsc.), Éowyn não o é, pois pertence ao gênero feminino, é mulher; Galadriel também pode ser referida, nos termos de Tolkien, como uma mulher Elfa, enquanto Meriadoc pode ser chamado de homem (minúsc.) Hobbit.

Éowyn

Entretanto, uma das cenas mais impactantes de O Senhor dos Anéis coincide com um momento em que Tolkien flerta com uma subversão dessa regra: o embate entre a guerreira Éowyn e o Senhor dos Nazgûl, no capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”. Esse momento fatídico é a culminação de um ato de rebeldia da sobrinha do rei Théoden, proibida por este de participar da batalha nos campos de Pelennor. Disfarçada com um elmo, Éowyn, usando o pseudônimo Dernhelm, não só adentra as fileiras de seus conterrâneos Rohirrim como leva seu amigo Meriadoc, mais conhecido como Merry, o Hobbit que também fora instado pelo rei a ficar com as mulheres e crianças durante o conflito.

Depois que o Rei-Bruxo derruba Théoden de seu cavalo e entrega a montaria do monarca como presa à sua própria montaria alada, Éowyn se interpõe temerariamente diante do inimigo, ao que este responde com uma zombaria (a tradução em português é da edição da Martins Fontes):

Thou fool. No living man may hinder me.

[Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!]

A guerreira remata:

But no living man am I! You look upon a woman. Éowyn I am, Éomund’s daughter. You stand between me and my lord and kin. Begone, if you be not deathless! For living or dark undead, I will smite you, if you touch him.

[Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.]

Resumindo o restante da cena, o Nazgûl hesita, Éowyn decapita o monstro alado, o inimigo ameaça atacá-la com sua maça, Merry atravessa o joelho do dele por trás com uma adaga, ela golpeia com sua lâmina a cabeça do vilão e este se deteriora em pleno ar.

O que esta sucessão de acontecimentos e, especialmente, essa troca de palavras entre a heroína e seu oponente me leva a pensar em termos de significado e ressignificação é a desconstrução que o texto de Tolkien faz de sua própria forma androcêntrica de conceber a humanidade. A narrativa neste trecho é extremamente densa, e o trocadilho que envolve a palavra “man” (“homem”) serve, explicitamente, para criar um efeito dramático que provoca um arrepio na espinha do leitor, pois a profecia do Nazgûl é posta em cheque pela quebra da expectativa de estar diante de um indivíduo do sexo masculino, contrariando ao mesmo tempo o preconceito de que num campo de batalha qualquer Homem (maiúsc.) deveria ser um homem (minúsc.).

Porém, mais do que perceber com os sentidos que se trata de uma pessoa do sexo feminino, podemos pensar que é o discurso de Éowyn que realmente provoca impacto sobre a postura desafiadora do Nazgûl: ele poderia continuar pensando, mesmo depois de ver a mulher, que ela continuava sendo um Homem (maiúsc.), ou seja, um ser humano, já que, embora o texto mostre a palavra com minúscula, na fala essa diferença de escrita é despercebida. Assim, quem acerta o primeiro golpe no duelo é Éowyn, com suas palavras, e estas já provocam o efeito que seu inimigo pensou que evitaria: ele hesita, ou seja, ele se detém (hinder), o que de certa forma já dá início a sua derrota.

O trecho pode ser lido, repito, como um momento de autodesconstrução do próprio texto. A fala de Éowyn desafia a designação tradicional do ser humano como “Homem”, tendo em vista o valor machista veiculado (intencionalmente ou não) por meio desta palavra. Se o Nazgûl, em princípio, deixa implícito que “living man” pode se referir a qualquer ser humano, o feroz contragolpe, neste duelo de palavras, chega mesmo a desconcertar o decoroso Lorde, ressoando talvez o desconcerto do leitor do livro ao descobrir que aquele jovem cavaleiro chamado Dernhelm é na verdade a sobrinha do rei, e as circunstâncias da luta concretizam o que estava previsto: o Nazgûl é detido e morto pelo golpe de uma mulher, não de um homem.

Ainda mais interessante é a profundidade que esta desconstrução e jogo de palavras alcançam se notarmos que Merry teve participação na derrota do vilão. Ele, Merry, não é um Homem (maiúsc.), embora seja, nos termos tolkenianos, um homem (minúsc.). Um Hobbit, não um Homem, também conseguiu deter (hinder) o Nazgûl com um golpe em seu joelho. Esse elemento adiciona mais sentido a essa desconstrução ao evidenciar a possibilidade de confusão entre os termos com maiúscula e com minúscula, confusão “proposital” que faz parte da própria ideologia da desigualdade de sexo/gênero, responsável por manter a ideia de que o homem do sexo masculino é o modelo padrão de ser humano; ao escutar em voz alta o texto dessa passagem do livro, não temos como identificar a marcação da diferença na letra minúscula: nem Éowyn nem Merry são (h/H)omens.

Podemos deixar essa equivalência fonética e semântica mais clara, vendo o trecho do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que corresponde ao capítulo “A Batalha dos Campos de Pelennor”, onde o diálogo foi reelaborado, mas o trocadilho se manteve e o efeito dramático mudou com o uso dos efeitos visuais.

Esclarecimentos

A ideia da desconstrução do androcentrismo estrutural reproduzido pela língua tem sido debatida entre feministas, desde pelo menos a primeira metade do século XX, com Simone de Beauvoir, e por linguistas de diversas vertentes, especialmente na área da Análise do Discurso, como a Linguística Sistêmica Funcional (Michael Halliday etc.) e a Análise Crítica do Discurso (Norman Fairclough etc.). Digo isso principalmente para que os desavisados não pensem que estou inventando moda, ou que só eu e alguns felinos gotejados estamos enxergando folículos capilares em óvulos não-fecundados de aves galináceas.

Também adianto, antes de mais nada, que gosto muito dos livros de Tolkien e que qualquer obra realizada por seres humanos portadores de individualidade única está sujeita a altos e baixos sob o olhar de quem a admira, como disse no início do texto, em suas virtudes e com seus defeitos que a tornam um objeto singular, para apreciação e para crítica. Ambas podem enriquecer a obra ainda mais.

Fontes bibliográficas

  • TOLKIEN, J. R. R. The lord of the rings – 50th anniversary edition. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2004.
  • _______. O senhor dos anéis: o retorno do rei. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Links

Imagens

  • Destaque: Éowyn du Rohan, por Donato Giancola
  • JRR Tolkien, por Audrey Benjaminsen – DeviantArt
  • Elrond Recalls the Hosts of Gil-Galad, por Michael Kaluta
  • Trecho de Éowyn Before the Doors of Meduseld, por Michael Kaluta
  • Éowyn and the Nazgûl, por John Howe
  • Éowyn & Nazgûl, por Donato Giancola

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

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o-hobbit-jornada-inesperada-poster-13-anoesTítulo original: The Hobbit: An Unexpected Journey

Direção: Peter Jackson

Ano: 2012

País: EUA e Nova Zelândia

Uma jornada muito esperada

Houve uma enorme expectativa, com uma pitada de receio, pois o filme prometia muito e, se não fosse bom, seria altamente decepcionante. Mas não foi.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), nova incursão cinematográfica do diretor Peter Jackson no mundo imaginado por J. R. R. Tolkien, trouxe à vida a primeira terça parte de O Hobbit, a grande aventura de Bilbo Bolseiro para o Leste, ajudando os anões a reaver seu antigo lar. (Leia o artigo O Hobbit para saber mais sobre o livro.)

O filme começa a partir de onde se inicia a narrativa do primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis, do mesmo Peter Jackson, ou seja, com Bilbo se preparando para seu onzentésimo primeiro aniversário e sua fuga do Condado. É então que ele decide escrever sua história, dando início ao que seria depois chamado O Livro Vermelho, que contém os relatos de sua aventura e da missão de seu sobrinho Frodo (ou seja, todo o texto de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis).

Ele conta a Frodo os antecedentes da histótia do anão Thorin Escudo de Carvalho, de como seu avô foi destronado pelo dragão Smaug, que tomou a Montanha Solitária dos anões, e de como estes ficaram desamparados, sem poder contar com os humanos expropriados pelo mesmo monstro e sem receber auxílio dos elfos, que se recusaram a ajudar.

“Numa toca no chão vivia um hobbit”, começa Bilbo (ecoando a frase que apareceu na cabeça de Tolkien e que lhe rendeu uma das mais interessantes aventuras de fantasia do século XX), e conta como o mago Gandalf apareceu numa certa manhã, convidando-o para uma aventura, e a chegada dos 13 anões não convidados a sua casa, vindos para jantar, discutir planos e contratar um ladrão, ou seja,  o próprio relutante Bilbo, cuja participação na missão viria a ser muito mais interessante e significativa do que todos (exceto Gandalf) imaginaram desde o início.

Uma análise do filme através dos personagens

Bilbo, o hobbit

Eu havia dito em minha resenha do livro que provavelmente Bilbo, o hobbit do título da obra, ficaria meio apagado no meio de 13 anões. Mas isso felizmente não aconteceu. Assim como no livro, o protagonista do filme está no centro de tudo e a trama gira em torno de seu desenvolvimento. Um pacato e típico hobbit, Bilbo chega a desmaiar ao saber dos possíveis perigos que enfrentaria em sua jornada. Mas algo dentro dele ansiava por uma aventura, e caberia somente a ele a decisão de seguir os anões.

Neste sentido, há uma diferença significativa em relação ao romance, no qual Bilbo só segue os anões ao ser pressionado por Gandalf. No livro, ficam bem claros os motivos profundos para o hobbit realmente querer viajar, conhecer outras raças e lugares, mas isso não fica tão claro no filme, e seu “salto de fé” para a aventura pareceu um tanto inverossímil. Porém, a cena em que ele enrola os trolls para ganhar tempo (no livro é Gandalf quem engana os monstros) foi importante para mostrar que, desde o início, Bilbo tinha habilidades importantes para o sucesso da missão.

E seu papel se mostra crucial no decorrer dos eventos, ao demonstrar coragem (ajudando Thorin a lutar contra os orcs), compaixão (ao poupar a vida de Gollum, colocando em prática uma importante lição ensinada por Gandalf) e empatia (ao se comprometer a ajudar os anões a retomar aquilo que Bilbo mais preza: o lar). Ele se destaca como o pequeno indivíduo dotado de um grande espírito, em conformidade com a proposta original de Tolkien. Por isso tudo o considero muito mais marcante do que Frodo, pois este, especialmente nos filmes, se mostra muito melancólico, fraco e resignado, sendo um protagonista bem menos interessante do que Bilbo, este sim o hobbit.

Gandalf

O mago errante continua o mesmo de sempre, e sua imagem é agora mais do que nunca associada com o grande ator Ian McKellen. Sábio, bem-humorado, pontual, assertivo e prevenido, ele funciona na história como articulador dos eventos e intermediador dos conflitos que podem atrapalhar a execução da missão. Gandalf é a perfeita figura do guia, orientador e mestre, ajudando os indivíduos a encontrar seu rumo e seu lugar no mundo.

Está sempre um passo à frente e sempre está no lugar certo na hora certa. Não dá para imaginar a história sem ele, e seriam plenamente dispensáveis as aparições de Galadriel e Saruman, nas deliberações sobre o futuro da Terra-Média, embora tenham sido bem mais pertinentes do que Radagast.

Thorin

Thorin Escudo de Carvalho é um grande herói entre os anões. Ele é neto de Thrór, o Rei sob a Montanha destronado por Smaug. Tendo morrido seu avô e seu pai Thráin, Thorin é o herdeiro do trono de Erebor, a Montanha Solitária. Ele busca retomar o antigo lar dos anões e o grande tesouro guardado pelo dragão. Principal representante de todos os anões do filme, ele praticamente ofusca sua comitiva de 12 companheiros, que estão ali como coadjuvantes (excetuando-se Balin, que é o mais importante da comitiva depois de Thorin e serve como mediador em alguns momentos).

Depois de ser exilado de Erebor como todos os anões que lá habitavam, o nobre príncipe Thorin teve que se sujeitar a diversos trabalhos braçais até conseguir recursos suficientes para reunir um grupo com a coragem de tentar retomar a Montanha. Nesse ínterim, também esteve envolvido numa sangrenta batalha contra orcs, cujo líder, Azog, se tornou seu arqui-inimigo.

Thorin é um personagem que ecoa o mesmo papel de Aragorn em O Senhor dos Anéis, ou seja, é o legítimo herdeiro de uma linhagem de nobres governantes, buscando retomar seu lugar de direito. Tanto sua herança quanto seus feitos inspiram seus companheiros e são admirados por Bilbo. No entanto, sua arrogância provoca algum conflito com o hobbit e com Elrond, o elfo sem cuja ajuda ele jamais conseguiria executar sua missão.

Radagast

O mago Radagast,  o Castanho,  merece apenas uma breve consideração. A presença dele no filme só se justifica pela relação com O Senhor dos Anéis, servindo de ponte para explicar o surgimento do vilão daquela trilogia. O ponto positivo dessa presença foi mostrar as diferenças entre os magos (ao lado de Gandalf e Saruman), bem como trazer à tona o fato de que na Terra-Média os animais costumavam se comunicar com as raças humanoides.

Nesse sentido, sua presença foi importante para evidenciar o caráter mágico desse mundo fantástico, que às vezes fica esquecido. Mas suas cenas são meio enfadonhas e fogem demais do ritmo e clima da trama principal, e ele poderia ter sido dispensado. Considero o personagem até interessante, mas pelo menos poderiam ter deixado para lá aquele trenó de coelhos, que ressoa uma fantasia muito à Disney, bem diferente do estilo de Tolkien.

Gollum

Talvez o personagem mais esperado pelos fãs de Tolkien e da trilogia anterior, Gollum fez uma ótima aparição, extremamente real na renovada tecnologia de captação de movimento e ainda mais carismático do que antes. Mais uma vez Andy Serkis faz um excelente trabalho incorporando um personagem virtual, mas muito crível em suas expressões, suas flutuações esquizofrênicas e especialmente no semblante de desamparo e desespero que provocam a compaixão de Bilbo e freiam a espada deste (numa perfeita cena sem palavras).

Mas achei seu capítulo um tanto curto, o engajamento e a resolução meio bruscas. Porém, mesmo assim todo o essencial estava ali, revelando apenas o necessário, sem se estender desnecessariamente em seu passado e sua história (que já está toda contada em O Senhor dos Anéis).

Considerações finais

Durante a divulgação do filme e enquanto o assistia, encontrei uma forma interessante de relacionar os livros ao filmes (de ambas as trilogias). Nos filmes, as adaptações, ou seja, as supressões e/ou os acréscimos, podem ser entendidas como disparidades de versões. Os filmes seriam uma suposta aproximação maior do que realmente aconteceu, enquanto os livros apresentam os mesmos eventos recontados pelos seus protagonistas (Bilbo, Frodo e Sam), ou seja, com um olhar enviesado, recriando episódios, retirando eventos considerados não muito importantes e enfeitando outros para parecerem mais coloridos do que realmente foram. Por isso, e tendo em vista as observações acima, penso que, para se apreciar esse universo fantástico ao máximo, vale muito a pena conhecer a literatura tolkieniana.

Pensando bem sobre todas as cenas do filme, não me recordo de ter havido supressões significativas em relação ao livro. É como se tudo o que acontece nos seis primeiros capítulos do livro estivesse ali na tela, e ainda com a inclusão de vários outros elementos que enriquecem (ou, em alguns raros casos, só tomam tempo desnecessário) a trama, dando um significado mais profundo à trajetória de Bilbo, de Thorin e de Gandalf. A inclusão, por exemplo, de um arqui-inimigo de Thorin, o orc Azog, torna as ameaças da viagem mais verossímeis e significativas.

Comparando a extensão deste filme (e consequentemente dos dois próximos filmes) com a da outra trilogia, percebo um aproveitamento maior da história de O Hobbit na tela, tendo em vista que há muito mais supressões na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, devido à longa extensão do livro. A aventura de Bilbo tem um terço do tamanho da de Frodo e bastaria um filme para apresentá-lo da forma como o foi a outra trilogia. Dessa forma, para os fãs, a escolha pelo formato de uma trilogia mantém quase intacta a riqueza da obra literária original.

Algumas pequenas mudanças e acréscimos em cenas-chave também não foram despropositadas. Um ótimo exemplo é o encontro de Bilbo com Gollum, contado de modo diferente. No filme, ao invés de encontrar o anel antes de Gollum, este aparece primeiro, para mostrar quem ele é, seus hábitos alimentares e o que costuma fazer com orcs fracos que encontra. Logo em seguida, quando Gollum mata o orc, a espada de Bilbo, que sempre se acende à proximidade dessas criaturas, se apaga, indicando que Gollum não é um orc, embora de longe se pareça com um.

Alguns criticaram os elementos cômicos do filme, vendo-os como pontos negativos. Porém, penso que esses elementos fizeram jus a um dos aspectos mais marcantes de O Hobbit, o humor que permeia toda a narrativa. Considere-se também o fato de o livro ter sido destinado originalmente a um público infantil. Jackson conseguiu dosar um caráter mais sério com boas pitadas de comicidade, que no geral não me pareceram exageradas. Vibrei especialmente com a cena dos pratos e a canção debochada dos anões ao arrumar a louça de Bilbo. Afinal, a música e a poesia fazem parte das histórias na Terra-Média, inclusive com peças mais sombrias, como a famigerada “canção do exílio” dos anões, cena que foi divulgada na internet antes da estreia do filme e representou um bom presságio para aqueles que aguardavam essa jornada tão esperada.

O Hobbit

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Muito antes do grande sucesso mundial da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003), bem antes mesmo da obra literária que inspirou os filmes (publicada entre 1954 e 1955), havia uma toca no chão e lá dentro morava um hobbit.

O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, foi publicado originalmente em 1937, como um livro infantil de aventura. Conta a história de uma grande viagem empreendida por um pequeno ser, o hobbit Bilbo Bolseiro (ou Bilbo Baggins no original em inglês). Dizem que os primeiros leitores do livro foram os filhos pequenos de Tolkien.

Bilbo Bolseiro, o hobbit

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Os hobbits são humanoides com cerca de metade do tamanho de um ser humano (por isso, em inglês eles são chamados também de halflings), parecendo crianças humanas, exceto pelas mãos longas e ágeis e os grandes pés peludos. Vivem em “tocas”, ou seja, constroem suas casas escavadas em colinas, nos flancos das quais despontam janelas e belas portinhas redondas. Eles têm uma predileção pela vida pacata, boa comida e cachimbos. Há um quê de inglês em suas personalidades, inclusive no hábito de tomar chá no final da tarde.

Mas Bilbo tem antepassados heroicos e Gandalf, o mago errante, sabe disso, convidando-o para uma grande missão: ajudar o anão Thorin Escudo de Carvalho e seus 12 companheiros a recuperar a Montanha Solitária e o tesouro tomado pelo dragão Smaug. A princípio, tanto os anões quanto o próprio Bilbo duvidam que o hobbit tenha alguma utilidade na aventura. Mas o pequenino acaba salvando seus companheiros mais de uma vez e assumindo um papel crucial para a resolução da história.

Pessoalmente, considero O Hobbit como uma narrativa de aventura exemplar, por três motivos:

  1. Empolga a criança existente no leitor, ávida por uma grandiosa fábula, e pode ser apreciada por diferentes públicos, das mais diversas idades, gêneros, tradições culturais e interesses pessoais.
  2. É pontuada por humor e elementos pitorescos, que a tornam uma leitura agradável e nos transporta para um mundo da mais pura fantasia e romantismo, mas bastante verossímil. Os elementos fantásticos não precisam de explicação e adentramos o universo tolkeniano naturalmente, com um misto de estranheza e familiaridade.
  3. Ela segue a estrutura clássica e básica de qualquer grande narrativa mítico-literária. Um indivíduo comum que vive uma vida comum recebe inesperadamente um chamado para uma grande missão. Ele nega a princípio, mas acaba sendo levado pelas circunstâncias. Encontra aliados, inimigos e passa por dificuldades. Está sempre se lembrando de sua casa confortável, contrastando-a ao mundo perigoso e imprevisível que enfrenta. Em determinado momento crucial, ele quase morre, e é realmente tido como perdido, mas ressurge da escuridão, renovado e mais forte. Descobre e desenvolve habilidades que utiliza no momento crítico da história, tornando-se o herói de um grande evento, muito maior do que ele poderia conceber no início. Retorna ao lar, mudado, já bem diferente do que costumava ser.

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Encontros com a ganância

Ao longo dos capítulos, os personagens vão encontrando diversas criaturas fantásticas, como trolls que viram pedra à luz do sol, orcs que moram dentro das montanhas, bondosas águias gigantes e elfos desconfiados. Mas os encontros mais significativos são com indivíduos únicos, especialmente Gollum e Smaug. Estes, junto com o anão Thorin, incorporam um dos temas principais da obra, que é a ganância e a avareza.

Gollum

mcbrideGollum, como explicado posteriormente em O Senhor dos Anéis, é um hobbit que há centenas de anos encontrou um anel mágico e se isolou do mundo num pequeno lago na raiz das Montanhas Sombrias. Ele chama o anel de “meu precioso” e de “presente de aniversário”, pois o artefato lhe permite ficar invisível, recurso usado por ele para se proteger dos orcs ou matá-los se estiver com muita fome. Mas Bilbo encontra o anel e, depois de um jogo de adivinhas, acaba levando-o consigo e o utilizando em diversas situações da fábula.

No conjunto narrativo que envolve O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Gollum pode ser visto como uma imagem prospectiva de Bilbo, aquilo em que este poderia se transformar se se mantivesse tempo demais com a posse do anel, cultivando o sentimento de avareza e possessividade que ele traz consigo.

O anel não é apresentado como um item mau nem bom, mas apenas uma ferramenta, que Bilbo utiliza para o bem de sua aventura e de seus companheiros, dando a ele um fim mais nobre do que aquele dado por Gollum. O próprio “roubo” do anel por Bilbo mostra um caráter moralmente ambíguo nas atitudes do hobbit, pois a picaretagem serviu, no conjunto da história, para um bem maior.

Smaug

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O dragão que no passado expulsou os anões da Montanha Solitária, tomando para si todo o tesouro e transformando os arredores em uma grande Desolação, é o símbolo máximo da avareza. Semelhante à figura do Tio Patinhas em sua caixa-forte repleta de moedas, Smaug desenvolveu um extremo zelo e ciúme pelo enorme tesouro roubado dos anões, não admitindo que seja surrupiada sequer uma ínfima peça, e chegando ao ponto de ter encravadas em seu longo ventre inúmeras joias, transformadas numa (quase) impenetrável couraça.

É uma figura imponente, temível e poderosa, dando a impressão de representar um desafio intransponível para anões e hobbit. Porém, na instigante conversa que Bilbo trava com a besta, ele se utiliza da vaidade e arrogância de Smaug para enganá-lo. O duelo entre os dois é puramente psicológico, e o hobbit o vence indiretamente, descobrindo seu ponto fraco e enviando uma mensagem para um exímio arqueiro, que mata o dragão.

O encontro/conversa de Bilbo com Smaug ressoa seu diálogo com Gollum, pois ambos ocorrem no canto mais recôndito de uma montanha, e tanto o desgraçado hobbit quanto o maldito dragão são figuras solitárias, tornadas assim por seus próprios vícios. Gollum serve, de certa forma, como preparação para o o desafio maior que é enfrentar Smaug.

Thorin

Também é bastante dramático o conflito entre Bilbo e Thorin, o próprio indivíduo que o contratou para a aventura. O herdeiro do trono dos anões é movido pela cobiça, sendo sua raça naturalmente propícia a amar o ouro e os artefatos de grande valor. Quando finalmente recuperam a Montanha Solitária, Thorin é tomado por um surto de ganância, e se recusa a dividir o tesouro com os humanos, vítimas de Smaug e, em parte significativa, responsáveis pela destruição do dragão.

Bilbo intervém de forma genial e virtuosa, não só auxiliando na Batalha dos Cinco Exércitos (anões, elfos e humanos contra orcs e wargs), em que os protagonistas saem vitoriosos, como ajudando Thorin a retomar a lucidez e finalmente dividir de forma justa o imenso tesouro.

Bilbo, Frodo e os anões

O Bilbo de O Hobbit é muito mais forte e interessante do que seu sobrinho Frodo de O Senhor dos Anéis. O tio foi muito mais versátil e bravo em sua aventura, fazendo coisas que nunca imaginaria capaz, tomando a iniciativa quando os anões hesitavam e concebendo ideias que significaram o sucesso da empreitada. Frodo, por outro lado, é no geral apenas o encarregado de destruir o artefato mágico maligno, muitas vezes escapando dos perigos por pura sorte, mas principalmente por causa de seu companheiro Sam, seu guarda-costas e o verdadeiro guerreiro da missão.

A partir do sucesso de O Hobbit, os leitores ansiavam por conhecer mais sobre os hobbits, e O Senhor dos Anéis trouxe isso, tanto com informações sobre a origem e os hábitos desse povo quanto colocando 4 personagens de destaque na trama. Por causa disso, talvez haja um efeito inverso para aqueles que só conhecem os filmes/adaptações de Peter Jackson. A trilogia cinematográfica que conta a aventura de Frodo Bolseiro está repleta de informações sobre os hobbits. Por outro lado, O Senhor dos Anéis pouco trata sobre os anões, trazendo apenas Gimli como representante de destaque. Assim, para quem só viu os filmes, O Hobbit de Peter Jackson trará muito ênfase em anões e pouca em hobbits (especialmente considerando que os anões do filme parecem estar muito mais complexos do que no livro), o que pode diminuir a verdadeira importância do papel de Bilbo aos olhos dos espectadores.

Legado

BILBO__O_HOBBIT_1298987128PA moderna literatura de fantasia deve muito à aventura de Bilbo Bolseiro, especialmente aquela ligada ao universo dos RPGs que seguem a linha de Dungeons & Dragons. O Hobbit praticamente estabeleceu as principais raças da maioria dos cenários de role-playing games de fantasia medieval: humanos, elfos, anões e hobbits/halflings. Também montou o cenário de eterna rivalidade entre elfos e anões e a aguerrida inimizade destes com os orcs.

Há uma conhecida adaptação de O Hobbit para os quadrinhos, feita por Charles Dixon (roteiro) e David Wenzel (desenhos), muito bonita e caprichada. A visão pessoal de Dixon e Wenzel evidencia o caráter mágico e fantástico da história, com uma arte que remete ao estilo das ilustrações de livros infanto-juvenis. A imagem de Gollum é uma das melhores que já vi entre todos os ilustradores que já desenharam as histórias de Tolkien.

No cinema/televisão, não só houve adaptações diretas da obra como influência em diversos filmes e cineastas (para mais detalhes sobre as adaptações audiovisuais, confira o artigo O Hobbit na televisão e no cinema). Grande parte dos filmes de fantasia medieval tem alguma coisa que remete a O Hobbit, mas basta lembrar de Willow – Na Terra da Magia (1988), produzido por George Lucas e dirigido por Ron Howard, que conta a grande aventura vivida por um nelwyn (raça pequenina que lembra muito os hobbits e vive em sua própria sociedade). Willow é interpretado por Warwick Davis e todos os nelwyns do filme são  vividos por anões (humanos com nanismo, para ficar bem claro).

Muitos músicos também têm nessa obra uma fonte de inspiração, sendo talvez os mais célebres a banda inglesa Led Zeppelin, que tem referências sutis em suas letras, e os alemães da Blind Guardian, autores de várias canções diretamente inspieradas pela obra de Tolkien, inclusive The Bard’s Song (The Hobbit), cuja letra resume a aventura de Bilbo.

Homo_floresiensisNa Ciência, há alguns casos de cientistas homenageando a obra de Tolkien ao batizar espécies de seres vivos.

Há um gênero de tubarões, por exemplo, que vive nas profundezas do oceano e tem grandes olhos. Pela semelhança com a imagem de Gollum (que tinha grandes olhos brilhantes e vivia na escuridão profunda de uma caverna), ele foi batizado pelo pesquisador Leonard Compagno como Gollum. Há duas espécies conhecidas, Gollum attenuatus, que vive em águas ao redor da Nova Zelândia, e Gollum suluensis, habitante do Mar de Sulu, ao sul das Filipinas.

Outra criatura, neste caso extinta, é um hominídeo que viveu na Ilha de Flores, na Indonésia, cujos vestígios foram descobertos em 2003, o Homo florensiensis (ainda se discute se se trata de uma espécie separada do gênero Homo ou se são Homo sapiens com patologias anatômicas). Pelo seu tamanho diminuto, são apelidados como “hobbits” por arqueólogos, e quase foram batizados como Homo hobbitus na época de sua descoberta.

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O próximo grande  legado de O Hobbit é a vindoura trilogia dirigida por Peter Jackson, cuja primeira parte estreia nesta sexta-feira, dia 14. Não é exagero dizer que todos os admiradores da obra de Tolkien esperam ansiosamente.

Links

Imagens

  • Jogo de Adivinhas, por Tim Kirk (Destaque)
  • Uma Visita Matutina Inesperada, por Ted Nasmith
  • Uma Festa Inesperada, por John Howe
  • Gollum, por Angus McBride
  • Smaug, por Justin Gerard
  • Capa de Bilbo – O Hobbit, de Charles Dixon e David Wenzel
  • Crânio de um Homo florensiensis
  • Foto de um tubarão da espécie Gollum attenuatus