"Da Correção Política à Censura"

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Os termos “politicamente correto” e seu antônimo “politicamente incorreto” são muito usadas hoje em dia para designar posturas relacionadas a preconceitos, discriminação, movimentos sociais e políticas de inclusão, dentro dos mais variados âmbitos, como a linguagem, a literatura, a publicidade, o humor, as produções acadêmicas, a mídia e as instituições governamentais.

Para discutir as questões ligadas à “correção política”, seus dilemas e disputas, o site Carta Potiguar lançou esta semana a série “Da Correção Política à Censura”. Vários dos colunistas da Carta (entre os quais me incluo) apresentamos artigos sobre o tema, explorando os diversos âmbitos do debate e nos posicionando a respeito dos problemas dessa disputa. Os artigos estão sendo publicados ao longo desta semana. Confira clicando no link abaixo.

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O que faz do nerd um nerd? – parte 1

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Quando criança, eu me destacava intelectualmente na escola. Meus familiares, desde muito cedo, me incentivaram a ler, dando-me livros de literatura infantil. Na adolescência, desenvolveram-se o gosto pela leitura e pela escrita. Comecei a me interessar por cinema e literatura de terror, Poe, Lovecraft… Elegi o heavy metal e derivados, estilos pouco apreciados pela maioria das pessoas com que convivo, como trilha sonora do meu quarto.

A convivência com certas amizades manteve acesa a lembrança e o gosto por desenhos animados e seriados de super-heróis japoneses. Comecei a jogar RPG com um pessoal, chegando a esboçar a criação de vários sistemas e cenários. Conheci Tolkien e Marion Zimmer Bradley, além de alguns quadrinhos. Certo dia, com o dinheiro de uma bolsa de estudos da Universidade, comprei em VHS a trilogia original de Guerra nas Estrelas. Até então, eu nem sabia bem o que era um “nerd”.

Seria uma questão de tempo até que eu viesse, inadvertidamente, a encontrar o termo nerd como denominação de um conjunto de gostos pessoais e hobbies com os quais eu me identificava. Antes disso, nerd era para mim uma palavra que me remetia a uns filmes de comédia norte-americanos (A Vingança dos Nerds e continuações). Eu tinha certeza de que nerd não era mais do que o equivalente ao nosso “CDF”, ou seja, alguém que estuda muito e/ou é inteligente e /ou se destaca em alguma atividade intelectual.

Peter Parker e Flash Thompson

O nerd Peter Parker (antes de se tornar o Homem-Aranha) e o cool Flash Thompson. O “cool” é definido pela beleza física e pela humilhação que impõe aos “fracassados” (“losers”) e “nerds” (quadrinho de “Homem-Aranha com Grandes Poderes” n. 1)

Compreendi depois que nerd, no contexto das referidas comédias, era uma identidade presente na taxonomia escolar das high schools norte-americanas, em que há os populares (grosso modo e generalizadamente, esportistas, líderes de torcida, ricaços e bonitonas) e os impopulares (traças de livros, esquisitos, feiosos, antissociais… nerds…). Isso se diferencia sobremaneira do CDF brasileiro, que é simplesmente aquele que estuda muito, sem necessariamente ser brilhante, e pode até ser popular.

De modo que se desenvolveu uma certa imagem relacionada ao termo nerd que tem a ver com algum grau de interesse intelectual por um ou mais assuntos não-dominados pela maioria das pessoas (como Ciência, Literatura, Quadrinhos, Cinema; ou até um domínio sobre uma área específica de um desses campos, como a Física, a Ficção Científica, os mangás, a obra de Akira Kurosawa). Às vezes o nerd tem um gosto por coisas consideradas exóticas, como estilos de música pouco conhecidos em seu meio de convívio (cânticos indianos, J-Rock (rock japonês)… há quem colecione trilhas sonoras de filmes), Ufologia ou idiomas pouco conhecidos (Esperanto, toki pona, Élfico, Klingon).

Muitas vezes são pessoas tímidas e pouco sociáveis, ou pessoas com estigmas ou deficiências físicos, que encontraram na erudição uma forma de compensar a falta de atividades sociais. Mas não necessariamente, já que um outro aspecto da “nerdice” é a socialização de uma certa cultura (material e imaterial) nerd, que envolve o compartilhamento de livros, revistas em quadrinhos, filmes (DVDs), video games; ou partidas de RPG, festas à fantasia de personagens (cosplay), convenções de ficção científica.

Também é comum associar o conceito de nerd à tecnofilia, seja trabalhando com informática (em suporte técnico, desenvolvimento de softwares e hardwares – Bill Gates é um famoso nerd) ou se atualizando constantemente a respeito de novidades tecnológicas, aproveitando o que há de mais atual e útil (ou não) no mercado de gadgets, como computadores e acessórios, celulares e smartphones, câmeras digitais ou eletrodomésticos futuristas. Às vezes o termo geek é usado para designar os nerds tecnófilos.

Dentro de uma miríade tão grande de possíveis interesses, podemos imaginar dois nerds muito diferentes um do outro: um é técnico de informática (o que, para ele, já o torna nerd), coleciona tudo o que encontra sobre Star Wars (DVDs, livros, quadrinhos, video games, bonecos) e é fanático por video games. O outro é cientista social, coleciona tudo sobre Star Trek (Jornada nas Estrelas) e joga RPG com os amigos. Não há nenhum interesse em comum entre os dois; então, o que os identifica como nerds? O que os torna nerds a ambos, já que eles dificilmente vão conseguir dialogar sobre o que faz de cada um um nerd? O que faz do nerd um nerd? O que faz do geek um geek?

Geeks

Uma tribo urbana (mais ou menos) dividida em clãs

Para algumas pessoas, nerd é alguém que se aprofunda de modo sistemático no estudo de algum assunto, tema ou área do conhecimento humano. Diz-se também que o nerd se destaca excepcionalmente em alguma área do conhecimento mas usa isso de forma infantil e para fins inúteis (para, por exemplo, simplesmente ser reconhecido como nerd). Nessa linha, há quem considere que os nerds são crianças crescidas, que mantêm, na idade adulta, gostos e hobbies da infância.

(Há inclusive a ideia de que os nerds são não só “crianças grandes”, mas “garotos grandes”, ou seja, meninos que, quando se tornam homens, mantêm gostos da própria infância ou hábitos considerados  infantis adquiridos posteriormente. Há geralmente uma diferenciação que marca um suposto amadurecimento: criança x nerd, quadrinhos x graphic novels, bonecos x figuras de ação/miniaturas, faz-de-conta x RPG… Essa relação entre a identidade nerd e o sexo masculino se faz notar na quantidade esmagadoramente maior de meninos/homens nerds do que a de meninas/mulheres. Tanto que “garota nerd“, “menina nerd” ou “guria nerd” são termos específicos da cultura nerd, assumindo que o nerd default é um homem. Muitas vezes, garotas se tornam nerds por influência dos amigos homens ou do namorado.)

Dessa forma, é fácil englobar várias pessoas muito diferentes entre si na mesma categoria, como os dois personagens que descrevi acima. Mas, mesmo assim, vários nichos nerds se mantêm afastados, e um “nerd gamer” (que gosta de video games) pode não ter nada a ver com um “nerd trekkie” (que gosta de Star Trek), tendo cada um seus ciclos de amizades nerds. Porém, o que observo é que esses ciclos possuem múltiplas interseções entre si, e mesmo que algum nerd do grupo dos jogadores de RPG não tenha outro ciclo de amizades, há alguns que também jogam video game ou gostam de cinema de aventura ou curtem quadrinhos, e eles andam por vários ciclos diferentes do que se pode chamar a “nerdosfera”.

Esta nerdosfera é ampla e, assim como aprendemos em Antropologia que nenhum indivíduo consegue esgotar toda o arcabouço de conhecimento de sua própria cultura, nenhum nerd consegue abarcar tudo aquilo que se considera assunto e interesse dos nerds. Mas há certos símbolos que, mesmo não sendo do gosto de um ou outro nerd específico, são reconhecidos como “assunto nerd”.

Dois exemplos notáveis são os universos de Star Trek e o de Star Wars (confira um comparativo básico entre as duas franquias neste texto). É difícil encontrar um nerd que não goste de ambos, mas é muito fácil achar aqueles que colecionam produtos e informações de um deles, conhecendo superficialmente ou ignorando totalmente o outro. Ou seja, um trekkie inveterado que não gosta de Star Wars vai reconhecer um fã dos jedi como um nerd.

Por exemplo, numa reunião de trabalho que envolveu colegas de todo o Brasil, notei que o colega sentado ao meu lado estava lendo mangás no computador. Mesmo eu não sendo um fã nem colecionador de mangás, eu o reconheci na hora como um nerd. Quando ele comentou o vídeo que eu estava vendo no meu notebook (uma prévia do video game Marvel vs. Capcom 3), e quando o assunto chegou em Star Wars, ele se referiu a nós dois como “crianças crescidas”, e eu usei o termo nerd, que ele também reconheceu como uma nomeação válida.

A ilustração abaixo, editada a partir da imagem do mascote do site Jovem Nerd, mostra vários desses símbolos:

O que faz do nerd um nerd?

Óculos, Star Trek, séries de TV, desenhos animados, Thundercats, quadrinhos, Batman, literatura fantástica, J. R. R. Tolkien, RPG, livros, video game, Playstation, cinema, De Volta para o Futuro, Star Wars, ação e aventura

A tendência, para quem já tem certos gostos e passa a integrar a “comunidade nerd” (que nem sempre é reconhecida por esse nome, mas tem seus equivalentes em todo lugar) é conhecer outras coisas dessa “cultura”, a partir de indicações e referências. Em minha experiência, por exemplo, tive acesso a gibis, a video games, a filmes, a livros etc. que não conhecia e que passaram a fazer parte de meu repertório.

O estereótipo se impõe de tal forma que o “iniciado” se sente impelido a procurar e a cultivar gostos tidos como de nerd, e a demonstrar essas preferências aos outros, assumindo uma identidade (usando, por exemplo, camisetas como as da RedBug ou da Nerdstore). A assunção do termo nerd como parte da identidade é uma prática bem recente, mas pessoas de uma geração anterior faziam o mesmo sem esse nome, e elas até se negam a se chamar assim. Mas a interação dessas gerações mostra que os mesmos gostos e a mesma forma de apreciar esses gostos são compartilhados.

Mas, então, o que faz do nerd um nerd? O que há em comum entre os filmes de space opera, a literatura fantástica, os quadrinhos e os video games?

[Continua na parte 2…]

Objeto Neuronial 002

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Resolvemos experimentar uma periodicidade semanal para as tirinhas Objeto Neuronial, colocando-as no ar aos domingos (certo, certo, estou publicando na segunda-feira, mas vou tentar ser mais pontual).

Apresentamos a personagem Leda, nome que significa alegre e tem o mesmo radical de ledice, derivado do latim Laetitia, que em português se lê Letícia e era o nome de uma deusa romana que personificava a alegria. A história é baseada em fatos reais e você pode vê-la também no blog Objeto Obscuro.

Leda

É preciso o Orgulho Nerd?

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Ontem, dia 25 de maio, foi o Dia da Toalha. Esta data foi inventada por fãs da obra de ficção científica/comédia de Douglas Adams, autor de O Guia do Mochileiro das Galáxias, segundo o qual a toalha é o item mais útil que um mochileiro das galáxias pode levar numa viagem pelo espaço sideral.

Essa data também é o dia da estreia de Guerra nas Estrelas, em 1977. Como muitos fãs das histórias de Guerra nas Estrelas e da obra de Adams são nerds, resolveram transformar esta data também no Dia do Orgulho Nerd, ou Dia del Orgullo Friki, comemorado pela primeira vez em Madrid, Espanha, em 2006.

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Enchendo balões

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Esta semana Karlisson fez um pequeno desafio em seu blog Nerdson não vai à Escola. Ele criou uma tirinha sem título e sem falas, com os personagens principais de suas histórias em quadrinhos, os programadores Nerdson, Beta Bitsy e Lilo Tag.

Os visitantes tiveram a oportunidade de praticar sua criatividade e concorrer a uma camiseta e a três bottons da Redbug. O desafio real consistia em criar um dialogo coerente com as imagens (contextos, cenários e expressões dos personagens) e fazê-lo mantendo-se fiel às personalidades dos personagens e aos temas comumente tratados em suas histórias.

Fumetti senza paroli

Após ver muitas sugestões dos visitantes nos comentários, percebi que eu seria incapaz, em minha sugestão, de chegar ao nível de sofisticação normalmente presente nos diálogos de Nerdson e cia., tendo em vista que sou leigo em programação e não estou bem atualizado sobre as notícias que envolvem internet e tecnologia.

É claro que muitos temas podem ser tratados, como a gripe suína, o conflito entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes ou até coisas do dia-a-dia, comuns a qualquer ser humano, programador ou não. Como eu queria participar, mas como sabia que tinha poucas chances de compreender bem a linguagem específica de Nerdson e cia. para criar uma tirinha que me satisfizesse e a Karlisson, esculhambei e usei Nerdson, Beta e Lilo como instrumentos para uma historinha nonsense com Superman, Lois Lane e Batman.

NerDC Comics

O problema dessa ideia é que o diálogo foi construído no formulário de comentários do blog do Nerdson, e não me preocupei muito com a extensão das frases, que poderiam não caber nos balões ou, mesmo aumentado estes, poderiam não caber nos quadrinhos. Percebe-se isso na imagem acima, que editei no Inkscape. Tive que aumentar os balões e o resultado estético não foi muito agradável. As coisas ficaram abarrotadas e um elemento do cenário ficou escondido (a placa da parada de ônibus).

Além desses problemas, também não se encaixou bem o teor dos balões com os semblantes dos personagens. A expressão de susto de Beta/Lois no primeiro quadrinho não condiz com a despreocupação de sua fala. A cara fleumática de Nerdson/Clark na cena final não tem nada a ver com sua tentativa de despistar Lilo/Bruce. Apenas o segundo quadrinho ficou bem neste sentido.

O resultado do concurso foi divulgado hoje. Averiguei que não era necessário saber coisa nenhuma de programação para fazer uma tirinha como esta:

S03E05 - Apocalipse

Tão importante quanto tratar de um tema corriqueiro entre os nerds, Gabriel Rondon conseguiu encaixar as falas com as situações e expressões dos personagens. Os outros que ganharam menção honrosa também foram bem-sucedidos, inclusive brincando com o próprio concurso.

Foi então que decidi copiar a imagem da promoção e aplicar a sugestão que eu tinha feito (e cujo resultado já foi citado e mostrado acima). Aí pensei em fazer outra coisa. Criei um novo diálogo, dessa vez me preocupando ao máximo com a adequação e com os espaços disponíveis para as falas. O resultado, também um tanto nonsense, está abaixo:

Leçon de Français

Fiz uma alusão a um episódio de O Laboratório de Dexter, no qual o menino gênio Dexter passou a falar a expressão francesa “omelette du fromage” descontroladamente, após dormir ouvindo uma gravação para a aula da manhã seguinte. A alusão aos desenhos animados contemporâneos se mantém no último quadrinho, em que Lilo cita a repetitiva fala de Pikachu, do anime Pokémon.

Um exercício parecido com este e que rende muitos risos é o Festival de Legendas do site Jovem Nerd. A cada semana, eles publicam um frame de algum filme famoso e os internautas devem dar suas sugestões de legenda para a cena, ou seja, devem usar a criatividade para dizer o que está sendo falado ali. Não vale, é claro, usar a fala original do filme.

Esse tipo de exercício de criatividade é muito interessante. Ajuda a desenvolver a capacidade de preencher lacunas e dar sentido às coisas. Quando estamos investigando um assunto, muitas vezes precisamos fazer a ligação entre um tema e outro, e isso só se dá porque construímos uma ponte, cuja resistência será averiguada a posteriori, quando outras pessoas se enveredarem por aquele caminho.

Um exercício de redação muito comum é oferecer uma frase ou parágrafo para o experimentador continuar a história. Uma variação é juntar um grupo, no qual cada integrante contará um pedaço de uma narrativa, baseado no que o outro escreveu. Dyego Saraiva promoveu duas vezes essa brincadeira, em que participamos eu, Dyego, Bárbara, Francine e Mr. T. Aquele que inicia a narrativa não concebe a priori o desfecho que a história acaba tendo.

É mais ou menos o que ocorre na Ciência. O descobridor de alguma lei do universo não consegue prever o que os cientistas que tomam por base suas descobertas farão. O conhecimento evolui através do olhar do outro, que vê as lacunas do conhecimento de seus antecessores e as preenche. Mais tarde, estes preenchimentos serão revistos por uma nova geração.

Para concluir, ao menos por enquanto, sugiro um exercício que já fiz algumas vezes. Procure alguma anotação antiga sua, um trecho de um texto não concluído ou apenas ensaiado, um esboço de um desenho ou qualquer obra inacabada que há muito tempo você não revisita. Tente concluir e note como ficam claras as diferenças entre quem você era no momento em que iniciou aquela obra e quem você é agora.