Rambo e Goku natalenses

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Do Museu de Tudo – Quanto maiores e mais caóticas as cidades, maiores são as possibilidades de inadequação, assim como são mais variados os subterfúgios para safar-se dessa onda massacrante de confusão cotidiana. Por isso, personagens como Goku e Rambo de Natal são, em certa altura, compreensíveis.

Se a um primeiro olhar mais precipitado as pessoas sentem a necessidade de tratar essas figuras que têm ganhado espaço nas ruas de Natal e nas redes sociais como loucos é porque, provavelmente, não convivem ou já se perderam em meio ao caos urbano. Ninguém veste roupa de super-herói e sai às ruas gratuitamente: esses rapazes fazem aquilo a que a cidade os obriga: surtar para não surtar. Não é à toa que os personagens escolhidos são heróis que marcaram gerações: não há ninguém vestido de Bento XVI ou de Neil Armstrong, porque a distância que a fantasia estabelece da realidade é peça fundamental para que a primeira adentre a segunda e provoque o efeito desejado.

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Babies – Resenha

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Babies (2010), filme dirigido por Thomas Balmès, é um documentário que testemunha, sem narração, o 1º ano de vida de quatro pequenos seres humanos, cada um de uma parte distinta da Terra. Ponijao é um menino namibiano, Mari é uma menina japonesa, Bayar é um menino mongólico e Hattie é uma menina norte-americana.

Acompanhamos diversos momentos da vida das pequenas crianças, desde o nascimento, passando pelas primeiras palavras até os primeiros passos. Os quatro bebês comovem o espectador, como é comum com adultos contemplando infantes dessa tamanho e idade. O cineasta escolhe momentos pitorescos e os encaixa com cenas que mostram especificidades culturais, de hábitos e costumes.

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

BabiesTítulo: Babies

Diretor: Thomas Balmès

País: França

Ano: 2010

A câmera do europeu adulto

A presença dos pais e de outros coadjuvantes é sempre notada, mas os ângulos das câmeras privilegiam a ação dos pequeninos em sua aventura de descoberta do mundo. Essa abordagem nos aproxima da experiência dos bebês e da vivência dos cuidados dos pais.

Como o filme é dirigido por um ocidental, percebe-se que o documentário tem um viés voltado para o registro da alteridade. Dessa forma, a pequena Hattie tem pouco destaque, enquanto Ponijao e Bayar parecem brilhar mais. Isso parece ter a ver com o fato de serem os mais “estranhos” para a câmera de Balmès, com costumes e ambientes mais exóticos para os olhos de um europeu.

Entretanto, pode ser que essa tenha sido a minha impressão enquanto compartilhando, ou seja, a vida da bebê norte-americana não era muita novidade para mim, acostumado com hábitos um pouco parecidos na sociedade em que vivo e conhecendo um pouco da vida norte-americana através da mídia.

Diferenças e semelhanças

As situações díspares a que assistimos durante o filme nos mostram a diversidade de condições em que os seres humanos podem se criar e viver, sem deixar de se constituírem como plenas criaturas da mesma espécie.

Se, por um lado, ao bebê namibiano é permitido engatinhar na terra nua e brincar com ossos de animais, por outro, a menina norte-americana é cercada de cuidadosa obsessão com a higiene esterilizadora. Os ambientes em que vivem, respectivamente, Bayar e Mari são bem diferentes também. O menino mongólico está o tempo todo rodeado de animais domésticos e em constante contato com bois, cabras, gatos e galinhas, enquanto o cenário em que vive a japonesinha é completamente urbano (os únicos animais, além do gato doméstico, com que tem contato estão atrás das janelas de vidro do zoológico).

De modo geral, a obra nos mostra quão semelhantes são os seres humanos, independentemente da cultura e das superficiais características físicas. Vemos todos os bebês rindo, chorando e com medo. Cada um deles busca com curiosidade conhecer o mundo ao seu redor, os objetos e os animais. Cada um, em seu tempo, aprende a balbuciar e imitar a fala dos adultos. Todos eles experimentam os primeiros passos e as primeiras quedas.

Ao mesmo tempo, vemos como são diversas as culturas humanas. As mães e pais têm técnicas e modos diferentes de lidar com os mesmos problemas. A mãe namibiana limpa os olhos de seu bebê com a língua, enquanto a mãe mongólica lava os do seu com o leite do próprio seio. As diferenças entre o ambiente urbano (Japão e EUA) o rural (Mongólia e Namíbia) implica em uma socialização diferente também. Na cidade, o contato familiar quase se restringe ao convívio com os pais (os dois bebês urbanos são filhos únicos) e com adultos que fazem parte do círculo de amizades dos pais ou de grupos dos quais estes participam. Já as crianças do mundo rural têm relação mais próxima com a família extensa, irmãos, primos, tios e avós.

Desde muito cedo em sua vida, o ser humano está rodeado de estímulos, imerso nos hábitos e costumes dos adultos. Isso nos ajuda a perceber o processo pelo qual uma cultura fica tão entranhada no indivíduo, acostumado com os padrões de comportamento que presencia e replicador desse mesmo modo de viver e ver o mundo.

Mas ficamos com o registro de quatro mundos diferentes, sem comunicação entre si. Embora tenha sido uma proposta válida em si mesma, seria muito interessante que Balmès, talvez posteriormente, promovesse um encontro com os quatro pequenos astros e enriquecesse a experiência, mostrando a estranheza que cada um demonstraria diante de seus companheiros de enredo.

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Trailer

Babies

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Está previsto para estrear em 2010 o filme Babies (Bebês), um documentário dirigido por Thomas Balmes, não muito conhecido, mas suspeito que esteja prestes a dar uma (no mínimo pequena) guinada em sua carreira cinematográfica com esse que promete ser um belo filme e que já está fazendo algum sucesso na internet.

A premissa do filme é simples e muito interessante: acompanhar o desenvolvimento de quatro bebês recém-nascidos, desde o nascimento até o primeiro aniversário; cada criança nasce e vive num lugar diferente da Terra: Ponijao é de Opuwo, na Namíbia; Mari é de Tóquio, Japão; Bayar é de Bayanchandmani, Mongólia; e Hattie é de San Francisco, EUA.

Embora haja muito poucos detalhes disponíveis sobre essa obra, basicamente detalhes de produção e um trailer divertido, podemos adiantar alguns pensamentos a respeito, pelo menos, da ideia de se fazer um documentário com essa criativa premissa.

O trailer já deixa evidentes os dois aspectos opostos e complementares que apreendemos da visão de quatro crianças de diferentes culturas: as semelhanças e as diferenças.

A cena de dois bebês africanos brigando é muito familiar para nós do Ocidente. Quando brincam com animais, todos os bebês têm algo em comum, uma mão desajeitada explorando com audácia a parte animada do mundo. Ao rastejar, engatinhar e enfim caminhar, qualquer bebê mostra que todos nós temos um início de trajetória parecido na vida (além de nos ensinar a origem comum da espécie humana, descendente de vertebrados reptilianos que se tornaram mamíferos quadrúpedes e enfim primatas).

Mas ao mesmo tempo vemos que os seres humanos têm que ser reconhecidos pela singularidade dos grupos e indivíduos. No trailer, podemos vislumbrar, neste aspecto, apenas detalhes que diferenciam o ambiente em que vive cada criança, coisas que em cada lugar servem aos mesmos propósitos básicos da vida humana. Certamente, vendo o filme completo, poderemos enxergar melhor os aspectos locais que determinam o desenvolvimento de um caráter cultural específico, e essa será a parte mais interessante, pois tocará num ponto antropológico fundamental.

Para concluir, gostaria de apresentar uma preocupação epistemológica que pretendo levar comigo para a sala de cinema (ou para minha TV, quando tiver o DVD), que diz respeito a uma abordagem corrente segundo a qual, observando bebês, poderíamos perceber aquilo que é cultural e distingui-lo daquilo que é biológico no Homo sapiens, como se um recém-nascido estivesse na condição de tabula rasa.

Em condições normais, todo ser humano anda, mas não aprende a andar sozinho; todo ser humano fala, mas não aprende a falar sozinho; todo ser humano estabelece relações com outros seres, mas essas relações estão regidas por regras culturais específicas que só podem ser aprendidas através dessas próprias relações. Enfim, observar bebês nos primeiros estágios de vida não nos permite apreender de forma óbvia aquilo que é universal (que tanto pode ser biológico como cultural) daquilo que é específico (tanto em relação à cultura específica que identifica os conterrâneos quanto às experiências pessoais que tornam cada indivíduo único).

Estou inclinado a considerar que aquilo que há de comum em todos os seres humanos é um amálgama entre condições biológicas e condições culturais. A cultura é a natureza humana e a natureza humana é resultado da cultura. As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand, ajuda a vislumbrar como uma coisa mexe na outra. O que quero dizer com isso tudo é que o documentário Babies provavelmente servirá mais para nos trazer insights sobre essas questões do que evidências para uma teoria.

Anyway, há alguma coisa em nós, seres humanos (talvez o haja em outras espécies), que nos faz ficar encantados com as feições infantis de um filhote de Homo sapiens (e de outros filhotes também). Só isso já proporcionará uma experiência agradável para os espectadores desse documentário. Bebezinhos fofos…

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