Afrofuturismo em cinco pequenos gestos

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Pode-se dizer que o Afrofuturismo é uma reinvenção do futuro das pessoas negras vivendo na cultura racista ocidental. Seja concebendo a presença dos descendentes de africanos nas narrativas fictícias futuristas, seja representando-os como pertencentes ao mundo da alta tecnologia (e não só de uma certa cultura pautada num passado “primitivo”), seja os negros se apropriando da Ficção Científica para contar histórias pertinentes a sua existência enquanto minoria, o Afrofuturismo se compõe de uma gama de manifestações que atualizam a cultura pop/nerd/geek/futurista segundo um ideal igualitário ainda difícil de ser concretizado, tanto na vida cotidiana quanto nas artes e na ficção.

Em artigo anterior, eu discorri sobre potenciais releituras afrofuturistas de temas recorrentes da Ficção Científica, baseando-me nas ideias de Ytasha Womack em seu livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, mostrando como os diversos temas e tropos do gênero podem ser reinterpretados como metáforas da tragédia dos afrodescendentes no Atlântico Negro. Mas essas releituras não resultam necessariamente em produtos afrofuturistas e podem não radicalizar suficientemente a proposta. Para que isso seja feito, penso, é preciso que as manifestações de reinvenção afrofuturista da cultura seja protagonizada por negros. Aliás, esse é necessariamente um pré-requisito para se considerar certas iniciativas como autenticamente afrofuturistas.

Isso foi feito por seus principais expoentes, como Sun Ra, na música, Octavia Butler, na literatura, e Spike Lee, no cinema. As grandes obras desses artistas são por si só instrumentos de inspiração. Mas há alguns pequenos gestos, iniciativas e atitudes que fizeram e fazem grande diferença e cujo significado é bastante contundente, não só por terem sido empreendidos por pessoas negras, mas porque ajudaram a mudar certos paradigmas ou, no mínimo, chamaram atenção para certas falhas na representatividade negra na mídia.

1. Nichelle Nichols: where no black woman has gone before

1966 testemunhou o advento de uma grande franquia de Ficção Científica na televisão estadounidense. Em Jornada nas Estrelas (Star Trek), Gene Roddenberry visualizou um futuro de alta tecnologia onde estava presente uma significativa diversidade humana. E entre os principais componentes da ponte de comando da nave estelar Enterprise estava Uhura, oficial de comunicações, uma mulher negra.

Embora a concepção da personagem em si não tenha sido feita pela própria Nichelle Nichols, atriz que a interpretou, há um detalhe interessante a respeito do seu nome. Uhura é derivado de uhuru, palavra suaíli que significa “liberdade”. De acordo com Nichols, o nome da personagem foi concebido por ela junto a Gene Roddenberry, que se basearam no nome de um romance popular na época (Uhuru, de Robert Ruark).

Isso é significativo porque representa a participação de uma atriz negra na construção de uma personagem que viria a ser um ícone muito significativo na cultura pop, além de trazer uma óbvia referência à luta contra a escravidão e à emancipação dos negros como um ideal a ser perseguido e plenamente realizado num futuro utópico.

Podemos perceber que a própria personalidade de Nichols influenciou Uhura, muito notadamente em sua caracterização como uma cantora e dançarina apaixonada que canta e dança por um ímpeto pessoal e não por demanda de uma plateia branca.

A mera presença Nichols/Uhura na tripulação principal de uma série de televisão popular foi tão influente que inspirou muitas crianças negras a seguir carreiras de difícil acesso à população racialmente discriminada. Mae Jemison é uma física e astronauta da NASA que se sentiu encorajada pela atriz/personagem a realizar seu sonho e foi a primeira mulher negra a viajar ao espaço (ela também viria a fazer uma ponta na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração). Whoopi Goldberg relembra que em sua infância, ao ver Uhura pela primeira vez, correu para avisar sua família:

Acabei de ver uma mulher negra na televisão, e ela não é uma empregada!

Goldberg não apenas veio a ser uma renomada e versátil atriz como fez um papel semirrecorrente em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, a misteriosa Guinan.

2. Martin Luther King aposta em Uhura

A história contada acima não estaria completa se deixássemos de mencionar o gesto de encorajamento que manteve Nichelle Nichols na franquia Star Trek. A atriz, por considerar seu papel na série como de pouca importância, havia decidido não renovar o contrato para a segunda temporada.

Nichols conta que um dos principais motivadores para que ela se mantivesse na série foi uma rápida conversa com ninguém menos do que Martin Luther King, grande ativista negro que, segundo ela, fez questão de lhe pedir pessoalmente que não abandonasse Star Trek, pois a presença dela na televisão representava um grande incentivo para jovens negras e negros dos EUA, em plena luta pelos direitos civis e contra o segregacionismo racial.

O gesto de Martin Luther King pode ser dividido em duas atitudes encorajadoras. Primeiro, ele se declarou fã de Star Trek e de Uhura, quebrando de forma contundente a ideia preconceituosa de que os negros não se interessam por Ficção Científica ou por ideias futuristas. Puro Afrofuturismo. Segundo, ele foi corresponsável por manter na televisão uma das grandes referências e influências da representatividade negra (e feminina) da cultura pop. Nichelle Nichols não apenas ficaria nas duas temporadas seguintes da série original, como participaria da Série Animada e de todos os seis filmes com a tripulação clássica.

3. Michael Jackson caminha na Lua

Michael Jackson pode ser considerado uma das grandes figuras do Afrofuturismo na música. Ele era um verdadeiro nerd, gostava de quadrinhos e video games. Parte de suas maiores composições musicais, performances coreográficas e videoclipes tem referências a temas da Ficção Científica, do Fantástico e do Terror.

Em 1983, no festival Motown 25: Yesterday, Today, Forever, Jackson executou em público pela primeira vez e de forma espetacular o passo de dança que ele batizou de moonwalk, “caminhada na Lua”. Veja no vídeo abaixo, em 3’37”.

Embora muitos pensem que o dançarino inventou o gesto, na verdade ele aprendeu de outro artista, e a bem da verdade, desde pelo menos 1932 esse passo já era realizado por dançarinos e cantores nos Estados Unidos. Mas o que há de interessante nisso em termos de Afrofuturismo, já que o passo não foi invenção de Michael Jackson?

O que importa neste gesto é o fato de ele ter sido reimaginado por Jackson como uma referência aos avanços científicos. O dançarino que executa o moonwalk parece estar livre da influência da gravidade terrestre, como se estivesse caminhando na Lua. Ou seja, o artista trouxe para a música e a dança negras um conceito futurista. Se faltava representatividade negra na Astronomia em termos de pessoas que já pisaram na Lua ou que já haviam no mínimo ido ao espaço, o cantor e dançarino negro Michael Jackson trouxe para a Terra uma forma de sonhar com a ida de pessoas negras ao satélite natural da Terra.

É interessante lembrar que a primeira pessoa negra a viajar ao espaço foi o cubano Arnaldo Tamayo Méndez, em 1980, na missão soviética Soyuz 38, três anos antes da apresentação de Michael Jackson. Em 1983, deu-se a primeira ida de uma pessoa afro-americana ao espaço, Guion Bluford. Desde então, houve algumas pessoas negras em missões espaciais, entre as quais a primeira mulher negra, Mae Jamison, citada acima, em 1992. Porém, até hoje não houve uma negra ou um negro na Lua.

4. Samuel L. Jackson: o negro é o último a morrer

Star Wars é uma das mais lucrativas e populares franquias de Fantasia Científica de todos os tempos. Mas desde seu início tem sido um tanto pobre em termos de representatividade da diversidade. No elenco original, Leia Organa (Carrie Fisher) cumpria seu papel como elemento do Princípio da Smurfette e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) marcava presença num papel coadjuvante.

Mesmo a segunda trilogia continuou fraca em termos de presença de personagens negros, mas melhorou um pouquinho ao colocar Samuel L. Jackson no papel de Mace Windu, um dos mais poderosos mestres da Ordem Jedi e também um dos mais populares personagens dos novos filmes. Sua popularidade se deve em parte por causa de certas características ligadas ao ator que o interpreta. Jackson, sendo careca, costuma incorporar personagens com cabelos extravagantes, e Mace Windu foi uma exceção que chamou atenção do público. Além disso, o sabre-de-luz deste mestre jedi é o único que tem a cor roxa em todos os filmes da franquia (todos os outros jedi têm lâminas que variam entre azul, verde, vermelho e amarelo), e é uma marca da intervenção do próprio ator na concepção visual do personagem.

Como se não bastasse o versátil ator negro ter construído a figura de Mace Windu como um tipo afrofuturista durão e de grande força presencial, ele ainda contribuiu para transgredir um tropo muito comum no cinema, conhecido como “o cara negro morre primeiro“. Segundo este tropo, se há uma pessoa negra num grupo de personagens que vão morrer durante a trama, a probabilidade de ela ser a primeira a ser eliminada é altíssima, e muitas vezes de forma estúpida. O personagem aparece ali, talvez, no máximo para cumprir uma cota de diversidade e é logo descartado quando não se precisa mais dele.

Porém, Samuel L. Jackson solicitou pessoalmente a George Lucas que seu personagem, fadado a morrer no roteiro, não fosse eliminado “como um marginal qualquer” (“like some punk”). Assim, Mace Windu subverteu o tropo ao ser o último de seu grupo a morrer na luta contra o Senador Palpatine e ao fazê-lo de maneira heroica, tendo a vida do inimigo em suas mãos e só sucumbindo porque foi traído por Anakin Skywalker.

5. Janelle Monáe e os androides

Janelle Monáe é uma musicista, compositora, cantora e dançarina estadounidense que tem na versatilidade de estilos uma de suas marcas. Sua música é temática e envolve uma elaborada história de Ficção Científica com temas como viagens no tempo, distopia e inteligência artificial (androides). É considerada, na música contemporânea, como um expoente do Afrofuturismo, não só por misturar música negra com Ficção Científica, mas também por subverter, em suas performances musicais, videoclípicas e de palco, as identidades raciais estabelecidas e as tradicionais camisas-de-força do gênero. Eu a vejo como uma herdeira espiritual de Michael Jackson, uma figura excêntrica que constrói sua imagem pública como uma obra de arte viva e inspiradora.

Na mitologia narrativa criada por Monáe em sua música, a figura dos androides é uma constante, usada como metáfora da alteridade, das minorias oprimidas, dos grupos discriminados e objetificados, especialmente os povos escravizados, como os africanos e seus descendentes na América. E foi usando essa metáfora que a artista, num pequeno gesto afrofuturista, respondeu de maneira magnífica a uma pergunta da imprensa sobre sua sexualidade, sobre se ela é lésbica:

I only date androids. That’s great, they can claim me as well as the straight community, as well as androids. I speak about androids because I think the android represents the new ‘other’. You can compare it to being a lesbian or being a gay man or being a black woman … What I want is for people who feel oppressed or feel like the ‘other’ to connect with the music and to feel like, ‘She represents who I am’.

[Eu só me relaciono com androides. Isso é ótimo, elas [as lésbicas] podem se identificar comigo assim como a comunidade hétero, assim como os androides. Eu falo sobre androides porque penso que o androide representa o novo ‘outro’. Você pode enxergá-lo como representando uma lésbica ou um gay ou uma mulher negra… O que eu quero é que as pessoas que se sentem oprimidas ou se sentem como o ‘outro’ se conectem com a música e pensem: ‘Ela representa quem eu sou’.]

Dessa forma, Janelle Monáe explicita a metáfora do indivíduo coisificado, explorado, expropriado de sua autonomia, presente na figura dos androides, especialmente aqueles que, em histórias como as que ela conta, se rebelam contra a sujeição sob a qual vivem. Seja qual for a orientação sexual de Monáe, o fato é que a forma como ela se apresenta publicamente aciona os preconceitos da cultura em que vive, que assume que certa forma de se vestir e se comportar é supostamente típica de uma mulher homossexual. Neste sentido, identificar-se como androide é jogar para o público uma dúvida que representa a impossibilidade de se inferir, sem algum grau de preconceito, qualquer coisa a respeito da identidade individual de outra pessoa.

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As mulheres de Star Trek

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Uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e um alienígena. Esses eram os principais não-americanos da tripulação da Enterprise nos idos da década de 1960. Desde então, Star Trek tem se empenhado, embora com menos sucesso do que o satisfatório, em representar a diversidade humana entre seus protagonistas. Embora a representação de negros, por exemplo, não tenha sido lá tão contundente e até tenha decaído, como já discorri em outro texto, pode-se dizer que a representação feminina apresentou um crescendo que teve como fenomenal ápice a série Voyager (para depois decair bruscamente com a sofrível Enterprise).

Sem grandes pretensões de esgotar o tema, vamos aqui fazer uma viagem aonde nenhuma mulher jamais esteve, partindo da Série Clássica dos anos 60 até a última série da franquia, nos anos 2000, dissertando sobre as principais mulheres que tiveram destaque. Até onde Star Trek conseguiu ser revolucionária quando se trata de representar as mulheres fora dos padrões androcêntricos que dominaram e ainda dominam nossa cultura?

A Série Clássica

A primeira série, transmitida entre 1966 e 1969, em suas três temporadas, teve poucas mulheres em papel de protagonistas recorrentes. De maneira geral, os heróis da série foram os três homens principais da nave Enterprise, e as mulheres se destacavam mais como antagonistas ou coadjuvantes eventuais, interpretadas por atrizes convidadas para representar o interesse amoroso de um dos protagonistas homens, especialmente Kirk. Mas, apesar dos vestidos curtíssimos e reveladores, o pouco que as tripulantes do sexo feminino apareceram foi suficiente para causar um impacto duradouro que posteriormente se desenvolveria de maneira bem mais interessante.

Número Um (Majel Barrett)

Não podemos deixar de lado “A Jaula” (“The Cage”), o primordial episódio piloto de Star Trek, onde o capitão Christopher Pike é acompanhado por uma mulher no posto de imediata. O contexto cultural da época certamente não permitia que a protagonista, o papel principal, fosse uma mulher, mas mesmo estando em segundo lugar de importância na hierarquia da tripulação, a Número Um (cujo nome nunca foi mencionado) foi um dos motivos para que a NBC rejeitasse o episódio e pedisse outro.

Mas sempre podemos retomar a esse episódio e admirar a importância de que se reveste a personagem em questão, mostrada não de forma objetificada, mas como uma figura de liderança e uma mulher muito inteligente e racional. Ela foi a primeira mulher a se sentar na cadeira de capitão (enquanto Pike descia para uma missão), o que demoraria muito a acontecer de novo na franquia.

Felizmente, a maior parte do episódio, que nunca foi ao ar, foi resgatada posteriormente no episódio “A Coleção” (“The Menagerie”), e voltamos a ver Majel Barrett naquele importante papel. A atriz, diga-se, foi uma pessoa de presença marcante ao longo da franquia, aparecendo como três personagens diferentes em três das séries e dando voz aos computadores das naves da Frota Estelar.

Uhura (Nichelle Nichols)

Tenente Uhura pode não ter sido a primeira mulher a ocupar um posto importante na ponte de comando de uma nave da Frota Estelar (embora tenha sido a primeira a aparecer na televisão, visto que o episódio piloto não fora ao ar até então). Porém, contrariando o contexto sócio-cultural da época, foi a primeira mulher negra, o que era extraordinário.

Não nos enganemos, a importância do papel de Uhura nas histórias da Série Clássica não é tão grande se a compararmos com outras personagens femininas que surgiram nas séries posteriores. Mas ela teve um impacto enorme, tendo sido uma referência para atrizes como Whoopi Goldberg e para líderes de movimentos sociais antirracistas, como Martin Luther King.

Curiosamente, um dos episódios em que Uhura aparece com mais destaque é “Mirror, Mirror”, onde a tenente assume o lugar de sua contraparte de uma brutal realidade paralela e precisa se fazer durona e violenta para executar o plano de retorno à normalidade. Porém, foram poucas as vezes em que Uhura se mostrou mais do que uma oficial de comunicações sentada em seu posto na ponte de comando.

No início da série, por exemplo, ela demonstrou um grande talento como cantora nas horas de folga, talento que, aliado a um semi-strip tease, utilizaria no filme A Última Fronteira (1989) para seduzir um bando de capangas. Infelizmente, isso meio que diminui sua importância como indivíduo ao colocá-la numa posição de isca, mas paradoxalmente a coloca no lugar de breve destaque de uma estrela num palco. Felizmente, sua sensualidade não exclui seu papel de oficial de comunicações, antes se soma a ele na configuração de uma personagem complexa que não se reduz a um corpo-objeto de desejo. Felizmente, apesar de qualquer limitação da Série Clássica quanto a questões de gênero, os personagens, tanto homens quanto mulheres, conseguem carregar várias facetas, incluindo a de agentes, sujeitos e objetos da libido.

Outras mulheres da Série Clássica

Christine Chapel (Majel Barrett)

Majel Barrett retornou para interpretar a assistente do Dr. McCoy, a Enfermeira Chapel. Ela manteve um papel secundário nas tramas dos episódios em que aparecia, estando subordinada ao temperamental médico-chefe da nave e representando um interesse romântico platônico pelo Sr. Spock. Ela sobreviveu à Série Clássica e se tornou médica da Frota Estelar em Jornada nas Estrelas: O Filme (Star Trek: The Motion Picture). Mas é uma personagem que tinha potencial desaproveitado para tramas interessantes que envolvessem cuidados médicos e o objeto de seu amor platônico, o frio e racional vulcano da Enterprise (que, diga-se de passagem, também tinha uma queda por Christine).

Janice Rand (Grace Lee Whitney)

Por outro lado, a ordenança Janice Rand, uma figura apagada e paradoxalmente cultuada como uma beldade no meio dos heróis masculinos, era a típica mulher decorativa. Estava ali ao pé da cadeira do capitão, uma secretária sem nenhum talento aparente, compartilhando um certo flerte com seu chefe. É interessante observar como essa figura persiste na lembrança dos fãs da Série Clássica, mesmo carregando pouca importância e tendo aparecido em poucos episódios. Talvez o gérmen da valorização da diversidade já fosse forte o suficiente para lhe conceder certa importância. Porém, ela não é lembrada por nenhum feito significativo, senão por suas características físicas.

A Nova Geração

Enquanto na primeira série somente Uhura era uma mulher com presença constante, A Nova Geração melhorou bastante a representação feminina, não só em termos de quantidade quanto de relevância e destaque. O episódio piloto já trouxe três figuras fortes e bem distintas entre si, a ponderada Dra. Crusher, a conciliadora Conselheira Troi e a impetuosa chefe de segurança, Tenente Yar. Uma novidade interessante em comparação com a Série Clássica foi a mudança dos uniformes. Desta vez as fardas da Frota Estelar eram unissex e não diferenciavam os tripulantes pelo gênero.

Beverly Crusher (Gates McFadden)

Celebrity CityComo que uma herdeira espiritual do Dr. McCoy, Dra. Crusher chama atenção para sua postura humanista e ética. É a primeira mãe a ocupar um espaço importante entre os protagonistas da franquia. Isso é importante, por um lado, para abordar questões relacionadas à maternidade e como tais questões podem ser relevantes para se entender as relações de gênero no presente e como elas podem vir a se configurar no futuro.

Por outro lado, é importante porque mostra uma personagem que não se resume ao papel de mãe. De fato, sua carreira como médica da Frota Estelar é tão notável que o fato de ela ser mãe fica em segundo plano e só com certo esforço eu me lembro de Wesley Crusher e, ainda mais, tem alguma relação com ela. O que realmente é relevante nessa personagem é sua dedicação a uma carreira na qual ela demonstra excelência. Importa mencionar que Beverly Crusher é uma cientista, não apenas aplicando os conhecimentos da Medicina, mas desenvolvendo novas teorias e tratamentos.

Essa dedicação à carreira às vezes representa um conflito interno, compartilhado com o Capitão Picard. Ambos têm uma afeição mútua que só não se concretiza na forma de um relacionamento porque isso poderia ser arriscada para ambos e para a tripulação da Enterprise-D. No entanto, há um episódio que mostra o futuro de Picard e ficamos sabendo que em determinado momento de sua história ele e Crusher se casaram. Porém, neste momento nos deparamos com uma grande mancada dos roteiristas ao apresentar a médica com o sobrenome Picard, mantendo uma mentalidade tradicionalmente patrilinear que a essa altura já deveria ter sido superada há muito. Apesar disso, nessa mesma cena temos um vislumbre do promissor futuro de Beverly Crusher, tornando-se capitã de sua própria nave.

Deanna Troi (Marina Sirtis)

Conselheira Troi é uma híbrida de um humano com uma betazoide, e herdou desta a capacidade de se comunicar empaticamente com outras criaturas. Ela assume o papel de conselheira da tripulação da nave, um papel que não existia na Série Clássica e que deixou de existir nas séries seguintes. Ela é como uma psicóloga e terapeuta que aconselha os tripulantes que a procuram com problemas pessoais.

Ela recebeu bastante atenção em diversos episódios da série, protagonizando várias narrativas interessantes que exploraram sua história como mestiça, filha de Lwaxanna Troi (em mais um grande papel de Majel Barrett), a pitoresca embaixatriz do planeta Betazed, e de um homem humano, dotada de habilidade empática (quase telepática) e compartilhando uma certa amizade colorida com o Comandante Riker. Deanna Troi teve vários relacionamentos ao longo das sete temporadas da Nova Geração, sendo retratada como uma mulher emocionalmente livre das amarras de um relacionamento patriarcal.

Estranhamente, Troi é a única mulher da tripulação a usar um uniforme diferente do padrão. Sua roupa, no início da série, lembra os vestidos usados na Série Clássica. Posteriormente, na maior parte do tempo ela usará um colante que se diferencia até mesmo nas cores dos uniformes normais. Neste sentido, a personagem acabou por ter sua sensualidade exacerbada, com roupas mais reveladoras do que as das outras mulheres da Enterprise. Apesar disso não ser um peoblema em si, parece que ela só passou a interagir como um verdadeiro membro oficial da tripulação quando começou a usar o uniforme padrão, lá pelas últimas temporadas da série.

Tasha Yar (Denise Crosby)

Tenente Yar é uma das figuras femininas mais impressionantes da Nova Geração. Apresentando-se no posto de chefe de segurança, bastante incomum para mulheres, ela não só quebra a barreira dos papéis de gênero tradicionais como rompe com o estereótipo da mulher com temperamento frágil ou, no máximo, brando. Na ponte de comando, ela encarna o temperamento colérico, ainda mais do que o klingon Worf.

Em pouco tempo de série, ficamos conhecendo parte da história conturbada de Tasha Yar e o potencial dramático da personagem. Infelizmente, ela morreu muito cedo, no final da primeira temporada, um evento chocante, inesperado e lamentável, tendo em vista que ela representava uma feminilidade atípica em termos do que estávamos acostumados até então.

A personalidade “masculina” de Tasha suscitou especulações sobre sua sexualidade, e houve quem sugerisse que ela era lésbica. Ela teve um momento de intimidade física com o androide Data, o que poderia ter sido uma forma de os produtores afirmarem sua heterossexualidade, como se a possibilidade de ela ser homossexual fosse um problema. De qualquer forma, é interessante encará-la como uma alegoria de uma identidade transgênera e de uma sexualidade queer, tendo em vista que o própria Data não é exatamente um homem no sentido pleno do termo (ao menos não no início da série, antes de conquistar vários aspectos que vieram a torná-lo cada vez mais humano), e pode ele mesmo ser visto como um transgênero queer.

Outras mulheres da Nova Geração

Katherine Pulaski (Diana Muldaur)

Na segunda temporada, Dra. Crusher foi substituída em seu posto pela Dra. Pulaski, uma mulher mais velha (interpretada por uma atriz que, a propósito, apareceu mais de uma vez na Série Clássica), mais experiente e mais geniosa. Sua personalidade a faz lembrar o rabugento Dr. McCoy. Não há uma grande diferença entre Katherine e Beverly em termos do que elas representam para as tramas dos episódios. Ambas são médicas, ambas possuem um exacerbado grau de preocupação ética. Mas Pulaski poderia ter sido melhor explorada quanto a sua identidade de “cinquentona” e a forma como a sociedade ocidental (e outras culturas) encaram mulheres mais velhas.

Guinan (Whoopi Goldberg)

A segunda mulher negra de destaque em Star Trek na verdade não é humana. Guinan, a bartender do salão recreativo da Enterprise-D, é o arquétipo da feiticeira errante ou cigana misteriosa. Embora tenha um poder fora do comum e incompreensível para os humanos, ela foi pouco explorada, por vezes passando um certo tempo sem aparecer. Guinan, a meu ver, deveria ter ganhado ao menos um pouco mais de destaque, assumido o papel de protagonista de pelo menos um ou dois episódios da longa série, pois Whoopi Goldberg certamente teria sido espetacular se a misteriosa alienígena mostrasse quem realmente é e o que pode fazer, mesmo que o fizesse de maneira sutil.

Ro Laren (Michelle Forbes)

Sua aparição foi muito breve mas marcante. A primeira bajoriana da franquia, a indisciplinada Alferes Ro representava um povo oprimido pelas forças imperiais dos cardassianos. Ela é a clássica personagem com ideias ambivalentes, ao mesmo tempo parte da Frota Estelar como uma de suas oficiais, mas discordante dos métodos da Federação no trato de questões diplomáticas. Ro acabaria por abandonar a tripulação da Enterprise e seu uniforme para se juntar a um grupo de rebeldes de seu povo e enfrentar os cardassianos. Neste sentido, ela pode ser vista como um exemplo de mulher que toma suas próprias decisões sobre aquilo que lhe diz respeito.

Keiko O’Brien (Rosalind Chao)

Uma das mulheres de papel recorrente de menos destaque é a esposa do operador de teletransporte Miles O ‘Brien. Keiko é digna de menção por ser oriental (uma herdeira de Hikaru Sulu da Série Clássica), já que personagens com identidade asiática não são tão comuns em Star Trek. Mas é colocada em destaque poucas vezes, como em episódios que mostram a creche que ela administra. Porém, em certos episódios da série Deep Space 9 (da qual também participou e sobre a qual discutirei abaixo), Rosalind Chao se mostrou uma atriz acima da média. É uma pena que, assim como Dra. Crusher, Keiko tenha abdicado de seu sobrenome quando se casou com O’Brien. Apesar disso, ela se mostra uma mulher independente quando precisa passar meses trabalhando longe de seu marido, dando mais importância ao seu sucesso profissional do que a cuidar de um homem adulto.

Deep Space 9

O principal impacto de Deep Space 9 veio com o protagonista negro, Comandante Benjamin Sisko. Em termos da quantidade de personagens femininas recorrentes, a série foi inferior à anterior. Porém, as poucas que fizeram presença foram tão significativa que não se pode dizer que Deep Space 9 tenha sido negativa com relação a esse aspecto. Duas fortes mulheres alienígenas fizeram parte da equipe principal, e algumas personagens menos recorrentes também mostraram uma representatividade feminina importante.

Kira Nerys (Nana Visitor)

A bajoriana mais célebre de toda a franquia tem uma personalidade forte e irascível, construída por anos de liderança na guerrilha de resistência contra o domínio dos cardassianos em seu planeta. Major Kira assumiu o posto de segunda em comando na estação espacial Deep Space 9, administrada pelo Comandante Sisko, da Frota Estelar.

Kira às vezes pode ser instável, pois sua experiência com os cardassianos, com quem é obrigada a conviver, a tornaram desconfiada. Mas ela é uma líder forte e uma mulher confiante. Isso a coloca numa posição importante no rol das figuras femininas de Star Trek.

Sendo uma mulher não-humana, podemos nos questionar se Kira realmente representa as mulheres na franquia. Mas é bem claro que as raças alienígenas desse universo são em geral alegorias da diversidade étnico-cultural humana. Kira pode ser encarada como um tipo de feminilidade possível (e real). A sociedade bajoriana se caracteriza pela igualdade dos gêneros, e não vemos predileção de um gênero ou outro nos papéis sociais da cultura de Bajor. Isso torna Kira uma representante de um mundo idealizado onde o sexo/gênero já não representa um problema.

Em sua versão alternativa no Universo Espelho, Kira é uma dominatrix que comanda a estação Terok Nor (denominação cardassiana da Deep Space 9). Sexualmente poderosa, ela subjuga homens e mulheres que estão sob seu controle. Infelizmente, essa imagem acaba trazendo algum aspecto negativo na representação da mulher bissexual, pois é a primeira vez na franquia que se vê uma personagem claramente não-heterossexual, e é justamente uma vilã. Felizmente, Ezri Tigan viria a corrigir isso, como veremos mais abaixo.

Jadzia Dax (Terry Farrell)

Uma força presencial notável está entre as principais características da trill simbionte Jadzia Dax. Oficial de ciências da estação, ela se caracteriza por carregar no ventre uma espécie de ser inteligente que detém as memórias de outros tantos hospedeiros que o carregaram no passado. Dax é um ser sem gênero que se manifesta como ser sexuado através de seus hospedeiros. Uma vez que Jadzia é uma mulher (da espécie trill), a personagem de maneira geral é uma figura feminina.

No entanto, a relação que Dax mantinha com o Comandante Sisko no passado, sob o semblante de um hospedeiro homem (Curzon Dax) mantém um caráter de camaradagem heterossexual mesmo na atual personalidade feminina do simbionte. Sisko continua chamando-a de “meu velho” ad infinitum. Isso configura uma situação interessante por dois motivos.

Primeiro, Jadzia aparece como uma pessoa de identidade feminina mas de personalidade andrógina. Segundo, a relação com seu amigo humano é diferente da maioria das amizades entre pessoas de gênero diferente, pois eles compartilham conversas, assuntos e formas de comunicação mútua que tradicionalmente se dão em contexto de amizade entre homens heterossexuais e homoafetividade sublimada.

Em seu relacionamento com o klingon Worf, a “Magnífica Jadzia”, como a chama seu amado, encena um casamento em que ambos os parceiros compartilham a mesma importância, ela buscando sempre demonstrar que é uma mulher extremamente forte que não se deixa dominar por um homem poderoso como Worf. Infelizmente, Jadzia é assassinada pouco tempo depois do casamento, num episódio dramático e inesperado.

Ezri Dax (Nicole de Boer)

A sucessora de Jadzia como hospedeira do simbionte Dax, Ezri trouxe as memórias da antecessora mas se manifestava de forma bastante diferente, com uma personalidade muito própria. Ela não teve grande destaque na série e tenho a impressão de que foi um acréscimo desnecessário em termos narrativo-dramáticos. Mas alegoricamente ela encenou alguns temas interessantes, como o da filha (Ezri) que precisa desconstruir a herança da mãe (Jadzia) para construir sua própria identidade.

Outro tema que pode ser lido por trás de uma alegoria é o da mulher que, por mudanças advindas das vicissitudes da vida, deixa o homem que amava. Jadzia Dax mal havia se casado com Worf quando foi assassinada, e Ezri Dax representa a mesma mulher depois de uma trágica transformação em sua vida, que a leva a deixar seu “marido”. Worf, sempre trazendo à tona o machismo tradicional, fica muito confuso com relação a seus sentimentos por Ezri, mas esta tem mais certeza sobre o que não quer, e posteriormente sobre o que quer, envolvendo-se com outro homem, o médico-chefe da estação, Dr. Bashir.

Mas é talvez em sua versão alternativa do Universo Espelho (Ezri Tigan) que ela represente a maior (mesmo que um tanto tímida) ruptura nas questões de gênero e sexualidade. Fica muito claro, através de diversas alusões, que a pequena trill, desejada por vários homens de várias espécies (incluindo homens ferengi), é lésbica e provavelmente terá algum relacionamento com Leeta, uma bajoriana com a qual compartilha um flerte ao final do episódio. Como é uma heroína nessa história, ela corrige a falsa impressão que pode ter causado a Kira alternativa de que a sexualidade não-normativa possa estar relacionada a mau caráter.

Voyager

Star Trek: Voyager é certamente a melhor das séries da franquia quanto à representatividade feminina. As mulheres da nave comandada pela Capitã Janeway não tem apenas uma presença forte, mas são diversas entre si, ambrangendo um amplo leque de feminilidades.

Kathryn Janeway (Kate Mulgrew)

Quando se fala em presença feminina em Star Trek, a capitã Kathryn Janeway é certamente o ícone mais significativo. Janeway é a alma de Voyager, e dessa forma a série reveste de uma grande importância o papel das mulheres e a representação feminina na franquia.

Capitã Janeway é, na minha opinião, a personagem feminina mais complexa de Star Trek. Ela consegue ter muitas facetas, que se revelam ao longo da série, algumas das quais antagônicas entre si (o que é normal para qualquer indivíduo tridimensional), mas sem deixar de ser coerente consigo mesma e com o conceito por trás de sua personalidade.

Ela possui um forte senso de ética ligado à sua dedicação às diretrizes da Frota Estelar, mas tem uma relação especialmente ambígua com a Primeira Diretriz, ou seja, a regra da não-interferência. Muitas vezes ela se vê na situação conflituosa de ter que decidir entre seguir à risca o protocolo de seu papel oficial e agir de acordo com uma compaixão baseada em princípios mais profundos do que os racionais procedimentos previstos para seu cargo. Nesse sentido, sua personalidade ressoa muito o Capitão Picard, mas fora isso ela é bem diferente dele.

Janeway é uma mãe para sua tripulação, acolhedora, compreensiva e dedicada, ao mesmo tempo em que age com dureza quando críticas são necessárias, mesmo que se dirija aos tripulantes mais próximos dela e com quem tem mais afinidade. Porém, ela sempre colocará a conciliação como prioritária sobre o combate, o que a diferencia sobremaneira do estilo supermasculino do Capitão Kirk, sempre antecipando o conflito. No entanto, a capitã da Voyager é uma guerreira quando precisa ser.

O único elemento que poderia ter recebido mais atenção, a meu ver, foi a vida amorosa de Kathryn. Enquanto Kirk era um Don Juan e Picard se envolveu emocionalmente com um bom número de pessoas, Janeway parece ter caído no estereótipo da mãe assexuada, dedicada emocionalmente apenas aos filhos (seus subordinados). Durante toda a série, fora o marido que deixou no Quadrante Alfa e que se casou com outra mulher por pensar que Janeway não voltaria mais, ela só teve um caso com u alienígena que se revelou um traidor, um homem com quem só se envolveu por que havia perdido a memória e um personagem holográfico, sem contar o flerte velado por seu imediato, Comandante Chakotay. Ou seja, seus romances sempre foram cercados de ilusão e decepção. Se outros capitães tão ocupados quanto ela podem se dar ao luxo de explorar a própria libido, por que não Kathryn Janeway?

Mesmo assim ela não deixa de ser um ícone, por se mostrar tão multifacetada e liderando uma tripulação de mulheres e homens fortes, representando um grupo diverso quanto às suas feminilidades e masculinidades, até mesmo bordejando os limites das identidades de gênero padrão e se envolvendo em tramas que incluem alienígenas que podem ser vistos como alegorias do transgenerismo.

B’Elanna Torres (Roxann Dawson)

Um exemplo de mulher feroz, B’Elanna é meio-humana meio-klingon, e possui um pouco da personalidade selvagem típica dos klingons. Assumindo o trabalho de engenheira-chefe supereficiente (na tradição iniciada por Scotty e continuada por Geordi Laforge), B’Elanna não aceita ser questionada em suas decisões a respeito de sua jurisdição na nave, o que leva a constantes conflitos, acirrados pelo fato de, antes de se juntar à tripulação da Voyager, ter feito parte dos Maquis, um grupo rebelde anti-Federação, e antes disso ter sido uma indisciplinada oficial da Frota Estelar.

Dessa forma, a irritadiça Tenente Torres é uma mulher lutando por autonomia em seu espaço de trabalho. Ela sente essa autonomia ameaçada quando a ex-borg Sete de Nove se junta à equipe da nave e começa a se meter em assuntos relacionados ao funcionamento do veículo espacial. O apoio da capitã Janeway, assumindo para ela um papel materno, é um dos poucos motivadores para que a ex-maqui continue em seus esforços de ajudar Voyager a retornar ao Quadrante Alfa.

B’elanna também sofre os reveses de ser uma mestiça. Os klingons (espécie à qual pertencia sua mãe) nunca foram plenamente aceitos pela xenofóbica cultura humana, e ela mesma tem dificuldades de aceitar seu lado klingon. O fato de ser interpretada por uma atriz de ascendência latina (Roxann Dawson Caballero), tendo inclusive um sobrenome espanhol (Torres), reforça a ideia de que os conflitos relativos à mestiçagem são uma metáfora das dificuldades de os “latinos” se integrarem à cultura estadounidense, e mais ainda das mulheres de origem hispano-americana.

Kes (Jennifer Lien)

Pertencente à espécie ocampa, nativa do Quadrante Delta, Kes se une à trupe da Capitã Janeway no início da série e se mantém durante algumas temporadas. Nesse meio tempo, ela ajuda a tripulação com com valiosas habilidades telepáticas; como assistente do Doutor, demonstrando uma capacidade de aprendizado surpreendente e praticamente se tornando uma médica; e com o cultivo de vegetais destinados à cozinha (esta comandada por seu companheiro Neelix).

Kes tem um aspecto que a faz lembrar um certo arquétipo da elfa ou fada mágica, reforçado pelas orelhas e pela roupa, que lembra vestimentas antigas ou medievais. Ressoando as ninfas selvagens e as bruxas dotadas de poderes misteriosos, ela representa um certo poder feminino guardado sob uma aparente fragilidade. Kes é uma personagem propositalmente construída para se parecer com uma criança que na verdade é uma adulta amadurecida e capaz de amadurecer ainda mais.

O fato de os ocampa viverem em média 9 anos também a torna um ser exótico e a faz parecer uma das personagens mais alienígenas da franquia, pois suas diferenças em relação aos humanos extrapolam o mero exotismo cultural. Em determinado ponto de sua trajetória, seus poderes psíquicos se desenvolvem tanto que ela se torna praticamente um ser sobrenatural e abandona Voyager para buscar novos horizontes.

Em um episódio, Kes protagoniza uma história na qual tem vislumbres de seu futuro, casada com o timoneiro Tom Paris. Nesse futuro, ela se vê envelhecida, tendo em vista os poucos anos de vida de uma ocampa, e percebemos uma referência interessante à questão do relacionamento afetivo entre um homem jovem e uma mulher mais velha que ele. Neste ponto, Star Trek consegue abordar a valorização da mulher idosa enquanto pleno indivíduo e sujeito de desejo.

Sete de Nove (Jeri Ryan)

Annika costumava ser uma menina humana até ser assimilada pelos Borg, seres cibernéticos, parte máquina, parte orgânicos, cujos indivíduos são capturados de outras espécies e transformados em parte de uma coletividade com a mente compartilhada. Mesmo depois de ser libertada de sua condição de ciborgue, ela manteve a denominação que recebeu da rainha borg, Sete de Nove.

Sete se caracteriza como uma mulher muito inteligente e racional, uma mente que funciona como a de um vulcano (o que faz com que sinta afinidade com Tuvok), mas sem nenhuma experiência como ser social em uma sociedade individualista como a nossa. Falta-lhe totalmente a etiqueta mínima para o convívio com seres emotivos como os humanos. Sete de Nove pode ser entendida assim como uma mulher nerd, que depois de perder o contato com a coletividade borg se tornou bastante solitária.

Por outro lado, ela é também retratada como uma mulher muito bonita e sensual, interesse amoroso de alguns dos homens da Voyager. Esse aspecto resvalou para uma ênfase na busca por um romance, que acabou concretizando com o Comandante Chakotay. A série retrata assim a constituição de um casal como uma etapa necessária para sua humanização, e infelizmente faz isso se baseando numa ideia heteronormativa, tradicional e sexista de relacionamento afetivo.

Mas de maneira geral sua trajetória é a de reconstrução de sua identidade humana. Em seu aprendizado, ela aprende os ritos da conduta de seus cotripulantes. Em sua condição de borg, Sete pode ser lida como uma alegoria da mulher sem identidade própria, parte de um tipo de harém cibernético. Sua libertação é a descoberta de seus próprios anseios e do domínio de sua própria vida.

Enterprise

Como já discuti em outros lugares, Star Trek: Enterprise foi um retrocesso. Enquanto as séries anteriores melhoraram gradativamente a representação dos negros e, muito especialmente, a das mulheres, a série estreada em 2001 colocou em destaque muitos personagens brancos do sexo masculino e praticamente só deu destaque a uma mulher, a vulcana T’Pol, deixando a primeira mulher oriental a aparecer na ponte de comando das naves da Frota Estelar num papel muito secundário.

Hoshi Sato (Linda Park)

O conceito por trás dos personagens de Enterprise é muito bom. Mas alguns deles são muito mal explorados, como é o caso da oficial de comunicações, Alferes Sato. Ela é uma especialista em Xenolinguística, capaz de aprender um novo idioma em pouquíssimo tempo, e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do tradutor universal, tão essencial para os oficiais da Frota Estelar em seu contato com espécies alienígenas.

Mas essa mulher japonesa é deixada de lado em quase toda a série, executando seu papel eficientemente mas muito pontualmente, sem que se aprofunde uma trama mais complexa sobre sua história, suas motivações e sua personalidade (contrastando com os episódios em que os homens brancos da ponte de comando aparecem como o centro da narrativa).

Somente sua versão no Universo Espelho tem maior relevância, e mesmo assim só para a realidade paralela. Lá Hoshi Sato é a protagonista de um complô que a leva a se tornar, com base em ameaça bélica, Imperatriz da Terra. Teria sido muito interessante que ela protagonizasse com mais destaque uma história no universo principal da série.

T’Pol (Jolene Blalock)

A oficial de ciências e segunda em comando da Enterprise comandada pelo Capitão Archer é uma mulher vulcana, e como tal extremamente racional, inteligente, ponderada e fria. Dentro de uma abordagem de gênero, T’Pol é bastante rica enquanto mote para discussões sobre feminilidade. Em primeiro lugar, assim como Kira Nerys em Deep Space 9, ela pode ser vista como um tipo de feminilidade alternativa, alienígena, possível. A sociedade vulcana parece não fazer uma diferenciação de temperamento e comportamento baseada no gênero de seus indivíduos. T’Pol é ao mesmo tempo representante de um tipo diferente de feminilidade e de uma cultura com uma noção diferente de identidades e papéis de gênero.

Além disso, ela encarna uma contradição dentro do cenário de Enterprise. Acima de tudo, ela representa a racionalidade necessária para administrar a emotividade do Capitão Archer, papel análogo ao de seu conterrâneo Spock para o Capitão Kirk. Sendo assim, ela difere do papel normalmente atribuído às mulheres, mais movidas pelo sentimento. Dessa forma, é interessante notar que a relação ente T’Pol e Archer é uma inversão da estrutura sexista na qual o homem encarna a razão e a mulher incorpora a emoção.

Por outro lado, a vulcana é fisicamente apresentada de maneira muito sexualizada, com roupas justas e reveladoras e sendo objeto de conversas entre tripulantes que a acham atraente. Ela destoa das outras mulheres humanas a bordo, que usam um macacão como uniforme, igual ao dos homens. Talvez a última sucessora de uma “tradição” que começou com Deanna Troi (ou até antes, com Janice Rand), passando por Sete de Nove, ela encarna o elemento afrodisíaco da feminilidade, conjugando em sua figura o culto ao corpo com o cultivo da mente.

Os negros em Star Trek

Padrão

Já é quase um clichê dizer que Jornada nas Estrelas (Star Trek) foi uma franquia revolucionária em vários aspectos. Muita gente sempre se lembra de dizer que a tripulação da nave estelar Enterprise era multiétnica, tendo entre seus principais membros uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e até um alienígena.

Mas é sempre notória a participação maior de personagens caucasianos nas posições de protagonismo das histórias. Apresentada inicialmente, nos idos dos anos 1960, como uma proposta libertária, era de se esperar que a franquia se desenvolvesse com cada vez mais abertismo em relação a identidades de gênero, de sexualidade e de raça-etnia. Como se deu então, na trajetória das diversas séries de Star Trek, o destaque dos personagens pertencentes à identidade racial mais menosprezada no Ocidente, ou seja, os negros?

Uhura (Nichelle Nichols)

A icônica tenente Uhura, oficial de comunicações da mais clássica das Enterprises, cujo prenome nunca foi conhecido na série clássica e só seria revelado no filme de 2009, foi uma novidade e tanto na televisão norte-americana no ano 1966, quando era extremamente difícil colocar uma atriz/personagem do sexo feminino e/ou negra entre os papéis principais de uma série de TV.

O episódio piloto da série (The Cage) foi recusado pela emissora, entre outras coisas, justamente por ter uma mulher em posição de destaque na trama. Mas Gene Roddenberry conseguiu uma façanha: apresentou uma nova proposta em que uma mulher, Nichelle Nichols, faria parte do elenco principal, se bem que numa posição não tão importante quanto a de um capitão ou de um imediato, mas mesmo assim na ponte de comando. E mais, era uma mulher negra.

O fato de ser uma mulher negra num papel importante (e com um rank de tenente) foi tão impactante que influenciou uma geração de jovens afro-americanos de ambos os sexos. Whoopi Goldberg conta que, quando criança, viu Uhura na televisão e correu para contar para a família:

I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!

[Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!]

Uhura encenou com o Capitão Kirk (William Shatner) aquele que foi considerado o primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana. Mesmo sendo uma cena em que os personagens foram forçados telepaticamente ao ato, os produtores e o diretor relutaram muito em concretizá-la, e a repercussão posterior foi grande.

O papel de Nichelle Nichols foi tão importante para o público afro-americano que ninguém menos do que Martin Luther King pediu pessoalmente a ela que não saísse do show, pois ela era um exemplo para os jovens negros em plena era de luta por direitos civis. Porém, a equiparação do destaque de personagens negros com brancos (e também de mulheres com homens) ainda estava em estágio embrionário, pois Uhura ainda era mais um elemento exótico da tripulação do que uma figura de peso.

Geordi Laforge (LeVar Burton)

Enquanto Uhura foi concebida como uma especialista em comunicações e xenoliguística, Geordi Laforge, interpretado por LeVar Burton, era um engenheiro altamente capacitado, que possuía o título de tenente e ocupava o cargo de engenheiro-chefe da Enterprise-D, comandada pelo Capitão Jean-Luc Picard.

Essa caracterização de Laforge manteve a tradição de se colocar um personagem negro que não se limita aos estereótipos racistas que menosprezam suas capacidades mentais. Geordi era um prodígio da engenharia que salvava a Enterprise de colapsar em momentos críticos, mais ou menos como o fazia Scotty na série dos anos 60, mas bem menos falastrão do que o carismático escocês.

É interessante observar que a “raça” dos personagens em Star Trek, especialmente a partir da Nova Geração, não era mais motivo de qualquer menção ou relevância no contexto fictício utópico da série. Laforge nunca teve a cor de sua pele ou a textura de seu cabelo trazidos à tona como justificativa para qualquer tipo de conflito, por menor que fosse, caracterizado o contexto do universo ficcional como um ideal antirracista. Os conflitos raciais, em Star Trek, aparecem metaforicamente em situações de relação entre espécies de planetas diferentes.

Assim como Uhura, Geordi Laforge também encenou flertes inter-raciais, com a colega tripulante Christy Henshaw e com a cientista Leah Brahms. São tão poucas as vezes em que o vemos demonstrar esforços para flertar ou namorar que Geordi também acaba escapando do estereótipo que vê os negros como propensos ao galanteio, e ele se aproxima mais do estereótipo do nerd do que do afro-americano folgazão.

Worf (Michael Dorn)

O klingon mais querido de toda a franquia não é exatamente uma pessoa negra no sentido humano do termo, já que ele é alienígena, mas é interpretado por um ator negro, Michael Dorn, que incorporou Worf, um dos mais instigantes exemplos de hibridismo cultural interespécies em Star Trek.

Entre os klingons não há divisões do tipo “racial”, pelo menos não do tipo que humanos ocidentais fazem entre si, já que eles aparentam ter a mesma cor de pele (tanto atores negros quanto brancos já interpretaram klingons, e eles sempre usam uma maquiagem que colore a pele de um tom bronzeado.

Apesar de não ter trazido grandes contribuições para a discussão de relações raciais humanas para o universo da série, a presença de um excelente ator negro na franquia foi enriquecedora, e Michael Dorn conseguiu trazer à tona uma profunda complexidade nas relações interculturais entre humanos e klingons, encarnada no próprio Worf, com seus conflitos internos entre sua cultura natal e a de seus pais adotivos humanos, e entre os valores da Federação (e da Frota Estelar da qual é oficial) e os da sociedade klingon.

Guinan (Whoopi Goldberg)

Guinan apareceu a partir da segunda temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Interpretada por Whoopi Goldberg, grande fã da franquia e admiradora de Uhura/Nichelle Nichols (como visto acima), a personagem administra o 10-Foward, um bar/restaurante na Enterprise-D.

Uma das figuras mais misteriosas de Star Trek, ninguém sabe exatamente sua origem, mas sabe-se que ela tem pelo menos séculos de idade. Guinan é caracterizada como muito sábia e é capaz de surpreender os tripulantes da Enterprise com habilidades que ninguém imagina que uma estalajadeira possua. Possui alguns poderes cuja natureza não é bem compreendida pelos mortais que a conhecem, e estes tampouco imaginam a verdadeira extensão desses poderes.

Embora tenha caído num papel até certo ponto típico para personagens negros e tenha um forte exotismo normalmente associado à identidade negra, ela não deixa de ser extremamente humana em sua relação com outras pessoas, dotada de uma empatia que a aproxima muito de pessoas comuns e lhe permite atuar quando os esforços da conselheira Deanna Troi falham. Guinan mistura a estranheza de sua condição alienígena e semidivina com uma figura que se confunde com qualquer mortal humano. Além disso, possui um visual muito marcante que remonta ao afrofuturismo, valorizando elementos da identidade negra num contexto dominado pela estética branca.

Benjamin Sisko (Avery Brooks)

Comandante Sisko talvez tenha sido o marco mais importante na inserção dos negros no elenco da franquia, depois de Uhura. Até então, o modelo do líder em Star Trek estava representado por dois homens brancos, um norte-americano (Kirk) e um europeu (Picard), e a maioria dos capitães das naves da Frota Estelar seguem esse modelo. É também ao redor de Sisko que pela primeira vez vemos uma família negra em destaque em Star Trek: Ele tem um filho, Jake, e se encontra com o pai, Joseph, em momentos cruciais de sua trajetória.

A princípio dotado do título de comandante e designado para administrar a estação espacial Deep Space Nine, que deu título à série da qual é protagonista, Benjamin Sisko é promovido a capitão no decorrer da história e assume um papel central de liderança no combate a uma ameaça gigantesca contra a Federação e todo o Quadrante Alfa.

Novamente, as questões raciais humanas não são tema em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, ao menos em sua história principal. No entanto, Sisko possui um alter-ego da década de 1950, chamado Benny Russell, um escritor de ficção científica negro que sofre preconceito e tem dificuldade de publicar suas histórias, a não ser ocultando sua identidade racial. Quando ele concebe escrever uma história sobre um capitão negro que comanda uma estação espacial no futuro distante (ou seja, o próprio Benjamin Sisko), o editor reluta muito, pois considera que um personagem negro em posição de destaque será mal recebido pelo público.

Apesar de tudo, um ponto até certo ponto negativo na inserção de Sisko na história de Deep Space Nine é o fato de ele representar, mais do que todos os outros protagonistas da franquia, a ambiguidade ética da Federação. Por vezes extremamente correto em suas decisões, há momentos importantes na luta contra o Dominion em que o capitão se utiliza de meios escusos para garantir os fins almejados. Em alguns aspectos, ele pode se encaixar no modelo do príncipe maquiavélico, o que ao mesmo tempo pode significar que ele é tão humano quanto qualquer oficial branco, mas também que ele está mais sujeito às falhas humanas do que, por exemplo, o impecável Capitão Picard.

Tuvok (Tim Russ)

Assim como Worf, Tuvok não é um negro humano. Sendo vulcano, ele chama atenção pelo fato de todos os vulcanos que apareceram antes nas séries e nos filmes terem pele clara. Antes de Tuvok, os vulcanos em geral pareciam um estereótipo genérico dos orientais (Spock era interpretado por um judeu, e alguns outros de sua espécie foram interpretados por atores de ascendência asiática ou aparência que remonta a alguns estereótipos orientais – mas no cômputo geral a maioria dos atores que encarnaram vulcanos é branca).

O surgimento de Tuvok, interpretado por Tim Russ, apresentou aos espectadores uma realidade vulcana plurifenotípica, ou seja, deu a entender que a variação fenotípica vulcana é semelhante à humana. Aliás, Tuvok não tem apenas a pele escura, mas cabelos crespos e feições “africanas”.

Além dele, só me lembro de ter visto outros dois vulcanos negros: a esposa de Tuvok, que só apareceu uma vez, e um figurante de um episódio de Deep Space Nine. Isso demonstra a impregnação de uma implícita visão antropocêntrica-eurocêntrica de que o fenótipo branco é a manifestação comum da espécie, sendo os negros uma minoria, como que uma variação exótica. Apesar disso, como acontecia com Geordi Laforge, o fenótipo “negro” desse vulcano nunca foi mencionado, implicando a superação utópica do racismo nessa realidade futurista.

Travis Mayweather (Anthony Montgomery)

Jornada nas Estrelas: Enterprise é a mais medíocre das séries da franquia, e regrediu em muitos aspectos quando comparada com as séries anteriores. Os ideais veiculados se tornaram muito mais americanocêntricos, belicistas, antropocêntricos e em grande parte conservadores. Embora se veja aqui e ali ideias libertárias que lembram a proposta inicial de Gene Roddenberry, de forma geral Enterprise foi uma decepção.

E isso se reflete no personagem interpretado pelo ator mediano Anthony Montgomery. Travis Mayweather é muito apagado no meio do elenco predominantemente branco. Além de não ter força presencial (talvez pela combinação da mediocridade do ator com o menosprezo velado da produção), ele não atua de forma significativa nos eventos importantes da série e sua história é muito pouco explorada.

Infelizmente, depois do Capitão Sisko a importância dos negros em Star Trek só diminuiu e decaiu totalmente com a insignificância do alferes Mayweather, que parecia estar na ponte de comando para, junto da oficial de comunicações japonesa Hoshi Sato, compor a “cota étnica” do elenco, sem dar volume e profundidade ao personagem. Enfim, é lamentável que um personagem com um conceito tão interessante (ele nasceu num cargueiro espacial e aprendeu desde cedo a pilotar naves, sendo um exímio timoneiro) tenha sido desperdiçado dessa forma.

Race, the final frontier

Sempre senti falta de ver um personagem negro em Star Trek num papel importante que usasse o uniforme azul da divisão de ciências. Embora haja vários exemplos de indivíduos geniais em suas respectivas áreas, é como se, sub-repticiamente, se considerasse mais adequado a um negro ocupar uma posição “não-intelectual”, como oficial de comunicações, engenheiro, chefe de segurança, timoneiro e até a liderança, desde que esta se baseie mais em habilidades políticas do que naquilo que se convenciona chamar de “atividades intelectuais”.

Mas seria possível utilizar esses mesmos exemplos supracitados para se colocar uma questão muito pertinente a respeito do que é a inteligência. Esta assume várias formas diversas, e alguém que domine magistralmente uma área da engenharia (como Geordi) não é menos genial do que um erudito das ciências humanas (como Picard). São áreas diferentes do saber humano, para cujo domínio se exige esforço mental semelhante. Numa perspectiva de maior abertismo, Geordi, o nerd, é tão intelectual quanto Picard, o capitão filósofo. E é difícil imaginar que dos tripulantes da nave estelar Voyager haja alguém mais inteligente do que Tuvok, o chefe de segurança (ao menos numa perspectiva ortodoxa sobre o que é inteligência, que estou criticando aqui). Mesmo assim, seria importante ver os negros ocuparem uma variedade maior de profissões, para que no final não fique a impressão de que eles são “naturalmente” limitados em certas áreas.

Outra limitação na representação dos negros diz respeito ao caráter exótico de grande parte deles, como se eles fossem personagens fantásticos, dotados de uma certa magia e sobrenaturalidade. Geordi com seu visor é um ciborgue com ar misterioso. Guinan é praticamente uma bruxa ou cigana cheia de segredos encantados. Sisko é de certa forma um semideus, filho de um humano com uma “profeta” (ser alienígena que vive fora da temporalidade linear humana).

Vale lembrar um episódio interessante da Nova Geração, em que a tripulação da Enterprise-D se encontra com os Ligonianos (Código de Honra, 1ª temporada, 4º episódio). Estes são todos interpretados por atores negros que não usam nenhuma maquiagem que os diferencie dos humanos. Esses alienígenas podem ser, por um lado, uma resposta interessante às tantas vezes em que apareceram espécies humanoides cujos membros tinham todos a aparência de humanos brancos. Ao mesmo tempo, podem ser ser vistos como uma reafirmação inconsciente de que basta uma espécie ser toda igual aos negros humanos para caracterizá-los como não-humanos (já que, para a ideologia racista eurocêntrica, o modelo default de ser humano é o branco). De qualquer forma, é um episódio instigante que levanta diversas outras questões que contribuem para o debate sobre o racismo.

Star Trek deu um impulso importante para a valorização das minorias, mas ele conseguiu isso muito mais através do contato com alienígenas como metáforas das relações raciais do que dando destaque e relevância a personagens e atores pertencentes a minorias humanas. O espírito da série é favorável para a valorização de mulheres, negros, homossexuais e outros grupos discriminados, mas infelizmente não conseguiu radicalizar até um ponto satisfatório.

Olhando para a montagem que fiz para ilustrar o topo deste post, eu imagino uma tripulação toda formada por pessoas negras. Ora, temos ali um capitão (Sisko), uma oficial de comunicações (Uhura), um engenheiro-chefe (Geordi), um chefe de segurança (Tuvok) e um timoneiro (Mayweather). Pena que não há nenhum grande exemplo de médico (que usaria, a propósito, o uniforme azul) nas naves da Federação para administrar a enfermaria de nossa imaginária nave estelar afro.