Deuses e mistérios em Avalon: livros da adolescência

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A blogagem coletiva sobre livros da infância me levou a refletir mais amplamente sobre o assunto. Uma das coisas que tentei delinear enquanto escrevia aquele texto foi onde terminou minha infância e começou minha adolescência, pois disso dependia incluir ou excluir certos livros. Uma das coisas que percebi ao tentar decifrar (seria melhor dizer, recriar) essa fronteira (arbitrária) foi que, a partir de certo momento não muito bem delimitado mas mais ou menos claro, o “tipo” de livro com que mais passei a me ocupar mudou.

Depois de ler O Fantástico Mistério de Feiurinha, o que se deu pelos 12 ou 13 anos de idade, passei a escolher mais os livros que leria. Estes eram agora ou mais complexos (como Vidas Secas) ou fisicamente maiores (como As Brumas de Avalon), e a experiência da leitura passou a ser um hobby eleito e não uma mera obrigação escolar. A partir daí percebi que seria rico me delongar numa segunda parte e pensar sobre os livros de minha adolescência, pois compreendi que se trata de uma outra etapa da minha vida de leitor.

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Comecei a ler Vidas Secas numa época em que os professores escolhiam os livros de literatura que deveríamos estudar. Acho que era época de férias, encontrei o exemplar na biblioteca do meu pai e pensei, “vou ver do que se trata”, e acabei gostando muito.

As vidas secas da família sertaneja, pai, mãe, filho mais velho e filho mais novo, além do único membro com nome do grupo, a cachorra Baleia, são retratadas com a rudeza que caracteriza o implacável mundo do pobres que enfrentam a seca nas regiões mais áridas do Brasil. A linguagem lacônica, dizendo o mínimo necessário, reproduz a forma coloquial de se comunicar das pessoas pobres das regiões rurais.

A leitura me fez visualizar de perto as agruras e alegrias de uma família que se agarra ao pouco que consegue tirar da natureza escassa e de uma sociedade desigual. E me fez emocionar com a profundamente significativa existência de Baleia e seus sonhos repletos de preás.

Devo ter lido o livro duas vezes, se me lembro bem, e minha admiração pelo autor me fez adquirir, anos depois, já na época da faculdade, um exemplar de seu romance São Bernardo. Eu tinha feito uma cirurgia ocular em São Paulo e estava me recuperando na casa de minha madrinha, em Tupã, e encontrei o livro num sebo. Mas Vidas Secas continuou sendo muito mais significativo em minha memória, tendo inclusive repercutido num interesse pela literatura brasileira, especialmente por Machado de Assis, que se tornaria um de meus romancistas/contistas preferidos.

Toda a Poesia de Augusto dos Anjos

Essa coletânea da obra de Augusto dos Anjos, da editora Paz e Terra, cujo prefácio é um ensaio de Ferreira Gullar sobre o poeta paraibano, não é completa, mas contém sua única obra poética publicada em vida, que é o livro Eu e Outras Poesias, e mais alguns poemas póstumos. O volume que eu li era emprestado de um grande amigo meu e eu cheguei mesmo a tirar xerox de todo o livro.

No ardor das emoções adolescentes, Augusto dos Anjos foi para mim uma pungente voz que representava a angústia das mudanças da puberdade e a empatia para com o sofrimento humano. Ele se tornou meu principal modelo para escrever meus poemas e é para mim o paradigma daquilo que considero poesia.

Posteriormente eu compraria uma edição da Martins Fontes, com mais poemas do que a edição da Paz e Terra, e que se tornaria um item caro em minha biblioteca. Mas durante a graduação em Ciências Sociais, eu acabaria adquirindo a obra completa dele, da Nova Aguilar, e fazendo minha monografia tendo dois poemas de Augusto como objeto de pesquisa: Do Leite Materno ao Leito Meretrício: Mãe e Meretriz como Objetos de Desejo no Imaginário de Augusto dos Anjos.

Olimpo: a Saga dos Deuses – Márcia Villas-Bôas

Cavaleiros do Zodíaco criou um público de fãs no Brasil, e eu não escapei dessa onda. Mas aquilo que tenho mais a agradecer à televisão brasileira por exibir essa série é o fato de ela me ter instigado o interesse por mitologia grega. E esse interesse me levou a fazer com que meu pai comprasse o livro Olimpo: a Saga dos Deuses, que encontrei num supermercado e que, pelo que sei, é hoje uma raridade (ainda bem que ainda guardo meu exemplar).

A obra é basicamente um longo romance que ata numa narrativa contínua todas as histórias mais conhecidas da mitologia grega. Cada capítulo se foca em um personagem (o que me veio muito fortemente à memória quando, há alguns meses, comecei a ler As Crônicas de Gelo e Fogo), e são arrolados de maneira mais ou menos cronológica, partindo desde os eventos da gênese do Universo, passando pela Era dos Deuses, adentrando a Era dos Heróis e concluindo com a partida dos seres divinos para outro mundo.

O livro tem um certo viés esotérico, ecoando certas ideias herdadas da Teosofia (que baseia muito do universo conhecido como Nova Era), o que o torna interessante no sentido de que os deuses são entendidos como algo mais do que indivíduos com forma definida, mas forças que atuam na natureza e que são interpretadas como universalmente experimentadas por qualquer cultura humana. Tanto é assim que em determinado momento os olimpianos estão se admirando com os nomes com que são conhecidos no Egito e em Roma (tratando-os, portanto, como arquétipos presentes no inconsciente coletivo).

Olimpo foi importante para mim por ter me levado posteriormente a ler muitas histórias gregas (Homero, Ésquilo, Sófocles etc.). Mas acho que um dos impactos mais positivos dessa leitura foi sobre minhas ideias a respeito de gênero e sexualidade. Enquanto a mitologia e a cultura gregas remexem com nossos valores cristãos modernos, a autora deixa bem claro, através dessa narrativa, que sexo e gênero não são determinações, e nos faz relevar, de diversas formas, os preconceitos a respeito das identidades sexuais e das sexualidades humanas.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

VALON__VOL1_1250982341PA edição em quatro volumes dessa maravilhosa obra chegou às minhas mãos por um amigo que havia comprado num sebo. Eu devo ter trocado com ele por algum outro livro, o fato é que passou a fazer parte da minha seleta e embrionária biblioteca. Uma coisa curiosa a respeito do meu exemplar é que as capas estavam bastante comidas nas bordas, e eu criei capas no Microsoft Word, imprimi e encapei os volumes, cobrindo tudo com papel adesivo.

Eu sabia pouco sobre as histórias arturianas nessa época, e As Brumas foi minha primeira e principal referência sobre essa mitologia pré-medieval. O livro é na verdade a história das mulheres que viveram em Camelot, especialmente Morgana e Gwenhwyfar (o nome pelo qual é chamada Guinevere no texto). Dessa forma o mythos de Camelot é contado de maneira diferente do convencional, fugindo do androcentrismo das obras tradicionais.

Esse épico teve impactos positivos na minha forma de ver o mundo, ajudando-me a cultivar um espírito relativista, especialmente quanto à religião e às relações de gênero. Sendo uma obra repleta de referências à religiosidade anglo-saxã pré-cristã, colocada em oposição ao Cristianismo levado às Ilhas Britânicas pelo Império Romano, a história provoca simpatia pela ideia de que não há religiões certas nem erradas. A religião antiga de Avalon tem forte ênfase no feminino e na valorização da mulher, um toque feminista que a obra de Bradley sempre traz e que me ajudou a desenvolver grande simpatia pelo Feminismo e, como consequência natural, pelos estudos sobre a diversidade humana, seja de gênero e sexualidade, seja racial/étnica, seja qual for.

Acho que essa foi uma das leituras mais imersivas que fiz na adolescência e talvez em toda minha história de leitor de ficção. O reino de Arthur Pendragon, especialmente a Ilha de Avalon, é repleto de uma magia sutil, de uma ligação com uma realidade (sobre)natural, maravilhosa e antiga, e um sentimento de nostalgia era constante enquanto eu lia e “testemunhava” a desagregação da cultura bretã e sua ancestral religião pagã.

A leitura de Bradley me levou a procurar, junto com meu irmão, outras obras dela, das quais Lythande é a que lembro com mais carinho. Também com viés feminista, os contos sobre o mago Lythande são instigantes quanto a questões de gênero, principalmente quando se trata de explorar as formas pelas quais o segredo do protagonista é trazido à tona como recurso narrativo.

O Nome da Rosa – Umberto Eco

Um instigante romance policial de um autor que não se acanha de esbanjar erudição. Esse livro me foi emprestado por um amigo de meu pai, e eu acabei ficando com ele (só para constar, anos depois ele me disse que eu podia ficar com o livro – só para constar…).

A obra traz elementos que me encantaram e me tornaram um fã de histórias fantásticas, a começar pelo fato de Eco afirmar, no prefácio, que esse livro é a tradução de um manuscrito em latim que ele encontrou e que teria sido escrito pelo protagonista da história (mais ou menos a mesma relação entre Tolkien e Bilbo/Frodo). O que já constitui um mistério e prepara o leitor para o tipo de história que se segue.

Além disso, o fato de haver um mapa do mosteiro onde ocorre a narrativa a torna bastante imersiva, pois de vez em quando o texto nos leva a consultar o mapa para compreender melhor o que está acontecendo na trama. Esse tipo de recurso extratextual enriquece de maneira interessante a experiência de leitura (como eu disse, no artigo anterior, sobre O Reino Perdido de Beleléu).

O Nome da Rosa é uma história instigante sobre o obscurantismo da Igreja Católica na Idade Média e o perigo que é a sonegação de conhecimento, que pode acabar se perdendo sob um regime de censura. A narrativa policial e as reviravoltas da trama são geniais. Os temas tratados em episódios esporádicos são muito pertinentes para se pensar a importância da quebra de tabus e a desmistificação das relações de poder.

Eu gostei tanto desse livro que logo em seguida tentei ler O Pêndulo de Foucault, do mesmo autor, mas não consegui passar da metade (fiquei todo enrolado com a história e já não estava entendendo mais nada). Porém, muitos anos depois eu ganharia um presente muito especial: Quase a Mesma Coisa, também de Eco, um livro sobre experiências de tradução e um dos melhores ensaios que já li.

Outras leituras e continuações

Houve várias leituras importantes que não citei acima porque não foram exatamente livros, mas contos ou partes de livros. Por exemplo, eu li na adolescência A Sociedade do Anel, primeiro volume de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mas só leria o livro completo vários anos depois, já na época da faculdade. No entanto, foi uma leitura mágica para mim, e fiquei encantado com a épica Terra-Média, mas principalmente com os singelos hobbits.

Outro livro muito importante foi Imortais: O Melhor da Ficção Científica do Século XIX, organizado por Isaac Asimov. Mas eu li esse livro tão espaçadamente que só terminei quando estava na universidade (de novo…). É uma coletânea de contos que Asimov considera serem os verdadeiros precursores da Ficção Científica, segundo um conceito que ele elabora na introdução do livro. Dos que eu li na adolescência, lembro principalmente dos contos “O Homem de Areia”, uma perturbadora narrativa de E. T. A. Hoffmann, e “A Filha de Rappaccini”, de Nathaniel Hawthorne, que depois eu descobriria ter sido uma inspiração para a personagem Hera Venenosa, vilã do Batman.

A primeira vez que li Edgar Allan Poe foi numa coleção que meu pai tinha, chamada Para Gostar de Ler, que reunia diversas histórias curtas de variados autores, brasileiros ou não. Lá eu encontrei “O Retrato Oval” e “O Coração Delator”, que me instigariam depois a procurar outros contos do perturbado escritor norte-americano. Cheguei a ler várias de suas narrativas de suspense, terror e histórias policiais, e cheguei a ensaiar uma tradução do clássico e grandioso poema “O Corvo”.

Elenquei acima os livros que considero mais importantes em minha memória afetiva. Mas, além desses, houve outros importantes para mim na época e que me inspiraram a ler mais, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Espada da Galáxia, de Marcelo Cassaro, Frankenstein, de Mary Shelley, O Caso de Charles Dexter Ward, de H. P. Lovecraft, A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e O Relato de Arthur Gordon Pym, de Poe. Olhando para todo esse conjunto de obras, percebo quanto meus atuais interesses de leitura foram formados nesse período, bem como minha perspectiva a respeito da humanidade, em sua diversidade e naquilo que nos torna todos iguais.

A morte e o texto

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O texto, expressão escrita da língua — literário, ficcional, filosófico ou científico —, tem o caráter simbólico da morte. A inércia do texto o faz ter essa cara de epitáfio, que simboliza o signo do qual só se tem a lembrança, evocada em cada leitura, como o morto evocado na memória inscrita na lápide.

O texto científico é conhecimento cristalizado, como a crisálida, letárgica, numa condição de quase morte, e que ressuscita como um ser feérico, quase etéreo como a ideia. A partir do momento em que publica seu texto, o cientista tem em mãos um fruto morto, obsoleto em relação ao conhecimento que está sempre mudando e se aperfeiçoando.

Roland Barthes, na Aula, diz que todo texto literário é libertário, por subverter a ordem da instituição mais repressora — a língua. Ora, liberdade é morte; é na morte que se desfazem os grilhões da dominadora cultura, inevitável para a vida humana. E, na experiência pseudolibertadora do texto — para o autor e para o leitor — pode-se sonhar; e no sono/sonho se experimenta antecipadamente a morte. Pode-se vivenciar uma realidade que ultrapassa a prisão das instituições humanas. Assim, a morte como transformação também caracteriza o texto artístico, que transforma a língua; o texto filosófico/científico, que transforma a realidade.

O texto acaba sendo a principal forma de transmissão de conhecimento em sociedades que conhecem a escrita. Na transmissão pela fala, os saberes se transformam mais rapidamente, porém mais caoticamente. É possível a gradual mudança do conhecimento sistematizado, racional ou artístico, através dos textos, periódicos ou livros. Mas a lentidão, que se sente na leitura de cada texto, na experiência pessoal, é comparável às sucessivas mortes e renascimentos da vida, tanto da matéria quanto da consciência. A sensação, no leitor, da desilusão, da angústia sadia, da solidão, que o conhecimento traz ao descortinar a realidade, da arte ao transformá-la, é a angústia da mudança brusca, da morte.

Não é à toa que a linguagem é feminina, passiva, instrumento do autor para sua paixão. Feminina porque idealmente inerte (e a inércia/morte é feminina; o feminino é inércia/morte), aparece aos humanos como sujeita a eles. Porém, o citado Barthes já disse que, longe de permitir dizer, a língua obriga a dizer. E os homens ficam sujeitos a essa bruxa, prostituta que se aproveita dos indefesos meninos que estão dentro deles. A meretriz(/bruxa) é um dos grandes arquétipos femininos relacionados à morte: a mulher que nega a maternidade, Medéia que mata seus filhos. Mas, além disso, não vamos negligenciar o caráter de mãe/parteira, que dá à luz imagens, idéias, conhecimento, discernimento.

Notas póstumas

Este texto foi publicado originalmente em 14 de dezembro de 2004, na primeira Teia Neuronial. É um exemplo de texto que eu não escreveria hoje em dia, pelos seguintes motivos:

  1. O encadeamento das ideias é desordenado, seguindo o rumo caótico do pensamento em devaneio. Os parágrafos seguem um rumo parecido com o dos veios de um rio, como se a escolha dos afluentes fosse feita ao acaso. As ideias foram jogadas uma depois da outra e não me preocupei em esgotar as alusões e referências.
  2. Há muitas figuras de linguagem expostas numa tentativa de compor um texto literário-filosófico. Abundam as afirmações e escassam os questionamentos. Não deixei muito espaço para a autocrítica nem heterocrítica, e o texto acabou ficando naquilo que ele mesmo descreve: na morte estática.
  3. O que me leva a outro ponto: não tive, quando escrevi esse texto, a intenção de revisá-lo depois. Qualquer coisa que viesse posteriormente seria acréscimo e nunca cortaria nada. Hoje em dia, todo texto meu é passível de revisão, de desmembramentos que fujam da linha original. Ou seja, procuro fazer meus textos vivos e subverter a ideia de que eles têm necessariamente de se manter imutáveis.
  4. Apesar do caráter quase autocrítico do texto, havia ali a manifestação de uma obsessão pela morte, uma tanatomania adolescente que há pouco tempo abandonei. O texto era uma forma de me manter cultivando ideias mórbidas que me fizeram mal por um período da vida.
  5. Enfim, já não concordo totalmente com as ideias em si do texto.
    1. Em Obra Aberta, Umberto Eco mostra que os textos escritos são passíveis de releitura e de ampliação muito além daquilo que porventura o autor pensou originalmente. Todo texto pode ser resscrito pelo seu autor e revisto pelos leitores.
    2. Dizer que alguma coisa tem caráter feminino é verdade até certo ponto. Se o caráter passivo do texto lembra a representação de que o lado feminino da dualidade (idealizada) de gênero é passivo, isso só se aplica a alguns aspectos (pois o “feminino” tem características ativas, é só ver a própria imagem da bruxa). Além disso, a divisão masculino/feminino da realidade é um ideal que serve mais para justificar certas divisões arbitrárias do que a representação da realidade.

Talvez eu devesse escrever um novo capítulo desta saga: A Vida e o Texto ou O tear como metáfora da ramificação infinita do texto escrito.

No entanto, o tema do fascínio humano pela morte e a relação dele com a escrita pode render elucubrações interessantes. Só o Livro dos Mortos egípcio já serve de mote para um texto.