Avatar [Resenha – Parte 3]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009) é um filme que, se dividiu muita gente na opinião quanto à trama e aos temas tratados na narrativa, encantou a maioria em seus aspectos estéticos. Toda a criação virtual deu um aspecto muito real ao mundo imaginário de Pandora, com fauna e flora críveis e um ecossistema simbiótico envolvente.

Na primeira parte desta resenha, fiz um resumo comentado do filme e discorri sobre os nomes usados na história. Na segunda parte, analisei algumas questões antropológicas. Nesta terceira e última parte, trato dos aspectos estéticos de Avatar, do mundo áudio-visual criado por Cameron, da ficção científica misturada com fantasia mítica (e um pouco mística) e de como tudo isso se relaciona com um dos temas mais contundentes do filme: Ecologia e meio ambiente.

Sinestesia fantástica

(Não pude ver o filme na versão 3D, pois tenho visão monocular (mas, se pudesse, não hesitaria experimentar essa nova tecnologia cinematográfica). Mas alguns comentaristas constam que a obra não foi inicialmente concebida para ser vista em 3D, então penso que este recurso é só um extra interessante. No entanto, mesmo em 2D o visual é espetacular.)

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

O clima penumbroso do laboratório é frio e deprimente. Ao fazer a conexão com seu avatar, Jake Sully faz uma viagem neuronial, apresentada em primeira pessoa, que leva o próprio espectador a sentir que saiu de um lugar cinzento para uma sala bem iluminada. A cor do corpo na’vi se destaca, e o amarelo dos olhos compõe, sobre a pele azul, a imagem do amanhecer, dois sóis que se destacam contra o céu.

Mas a luz reconfortante desta antessala é só uma transição para o que está do lado e fora: uma atmosfera diferente, com um brilhante sol a esquentar o chão que há muito Jake Sully não sentia; agora ele corre para aproveitar ao máximo a sensação que perdera com seu paralítico corpo humano. Mas isso não é suficiente para ele, pois em seus melhores sonhos ele voa.

Passamos então para a floresta fechada, onde há plantas um tanto diferentes do que se viu na Terra (se é que esses personagens viram muitas plantas na devastada Terra) e animais exóticos mas nada muito alienígenas. Fauna e flora pandorianas são ao mesmo tempo surpreendentes e familiares, tudo sob uma luz/sombra florestal que nos faz sentir aconchego e apreensão.

A noite traz perigo e mistério. Luzes se acendem no céu, nas plantas e na pele, como velas numa caverna. Os na’vi recebem Jake Sully com receio, mas tanto o forasteiro quanto a tribo nativa dão uma chance um ao outro. Já a manhã traz um cenário aberto com planícies a cavalgar e cânions a sobrevoar. Subimos as Montanhas Aleluia, grandes pedras flutuantes, e estamos quase voando. Mas é só quando as belas aves pterossáuricas são montadas que o destino de Jake Sully começa a se concretizar.

Um destino que se alcança às custas de várias viagens de ida e volta, entre o sonho aborrecido que experimenta entre humanos e a realidade vívida que vive entre os na’vi. Nesta realidade, Jake Sully encontra um amor construído com aprendizado e afeição, e entendemos junto com ele e Neytiri que os seres que habitam o universo têm todos algo em comum.

A Árvore das Almas e a bioluminescência de tudo em volta é uma imagem brilhante e envolvente, e nos faz quase sentir nossos cabelos se arrepiando e se envolvendo na mente dos seres vivos que formam todos uma só consciência. E quando fazem amor, Jake Sully e Neytiri expressam em poucos gestos e palavras uma afeição que não precisa ser mostrada de outra forma.

Mas toda essa benevolente realidade é ameaçada pelo pesadelo de escorpiões voadores e grandes fantoches de metal. Ou será o contrário, o onírico mundo regido por Eywa ameaçado pela terrível realidade destrutiva humana? Se o sonho é ruim ou bom, se a realidade física é negativa ou não, se uma coisa é a outra ou vice versa, depende da experiência de cada um. Para Augusto dos Anjos, a ilusão era doença:

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimento rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Grifo meu.

No filme, seres construídos por computadores lutam contra humanos feitos pela natureza. Porém, são as criaturas virtuais que representam as forças naturais, enquanto os seres de carne e osso se apresentam como ícones da tecnologia empregada para fins inescrupulosos. Toda a imagem é digna de um épico ilustrado em paredes esculpidas por antigas civilizações.

Batalha aérea em Pandora

Jake Sully completa seu destino nas costas de um Toruk, “última sombra”, e voa com os na’vi, uma corte de guerreiros alados. Ele se reconcilia com seu rival Tsu’Tey, atual líder na’vi, assim como um predador gigante renuncia sua ferocidade para que Neytiri monte em suas costas. Toda a natureza toma partido e luta contra a ameaça tecnológica, não para vencer uma guerra, não para matar um inimigo, mas para preservar algo muito maior, às tristes custas da morte de alguns.

Neytiri sente que Jake Sully está morrendo em seu corpo humano, ela o vê à distância. Ao alcançar o frágil corpo humano, ela o acolhe em seus braços, reconhecendo a alma forte que ela enxerga no fundo dos olhos que a enxerga da mesma forma. Numa das cenas de  amor romântico mais belas que já vi, dois indivíduos, de espécies alienígenas um para o outro, se acariciam depois e abraçarem a alma um do outro.

Avatar é um universo mágico, uma aventura de Fantasia que remonta às histórias de viagens a mundos idealizados, como a Terra do Nunca a que Peter Pan leva Wendy e seus irmãos, como o País das Maravilhas a que Alice é conduzida por um coelho branco, ou Oz em que Dorothy se perde. Sempre se viaja para um mundo de maiores possibilidades que a realidade, de libertação, normalmente se vai para mais perto da natureza, em busca de algo perdido e sufocado pela civilização.

Mas não só a Fantasia oferece essas viagens reveladoras. Na Ficção Científica, Neo viaja da Matrix para o mundo real; o Planeta dos Macacos também é destino de uma viagem que ensina muito sobre a natureza humana; o arqueólogo Daniel Jackson faz uma jornada no espaço e na história para descobrir os segredos do Antigo Egito. E Avatar também se envereda a Ficção Científica.

Ficção científica

Avatar não é um filme de ficção científica, pelo menos não uma hard science fiction. É uma história romântica (não só no vulgarizado sentido do romance amoroso, que também está presente, mas especialmente no aspecto que envolve a autodescoberta e a fantasia do retorno à natureza selvagem) que tem elementos de ficção científica.

Mas não é como Guerra nas Estrelas, uma aventura épica cujos elementos de ficção científica são mais fantásticos do que científicos. Avatar tem uma ficção científica verossímil, pertinente e bem encaixada na narrativa.

Qualquer história de ficção se inicia com uma pergunta, que normalmente está implícita, um problema cuja solução se tenta resolver através da narrativa. “E se um fantoche criasse vida?” Resposta: Pinóquio, de Carlo Collodi. “Como seria a história de um homem atormentado pela dúvida se sua mulher o traiu ou não?” Resposta: Dom Casmurro, de Machado de Assis.”E se uma pequena e fleumática criatura se envolvesse numa aventura épica?” Resposta: O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Na ficção científica, essa pergunta necessariamente se dá no campo da especulação científica e normalmente envolve uma preocupação social em relação ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. “E se houvesse um planeta habitado por macacos inteligentes e humanos bestiais?” Resposta: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. “Se uma espécie alienígena avançada e pacifista olhasse para a Terra da Guera Fria, que partido ela tomaria?” Resposta: O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise.”Quais seriam as implicações da criação artificial de um ser humano?” Resposta: Frankenstein, de Mary Shelley. (É claro que essas perguntas estão muito resumidas. Cada uma dessas histórias tem um conjunto complexo de questões encadeadas.)

“E se a Terra ficar exaurida de recursos naturais? E se o mundo que tem os recursos que queremos explorar é habitado por criaturas inteligentes que vivem em cima do metal precioso que queremos? E se essas criaturas respiram um ar tóxico para nós? E se a lua em que vivem tem gravidade maior do que a da Terra? E se esses nativos têm 3 metros de altura e se locomovem com agilidade num ambiente que para humanos é difícil de ser explorado?” Resposta: Avatar.

Imagine então uma tecnologia que permita a um ser humano assumir a forma de um nativo, respirar o mesmo ar que ele, resistir à forte gravidade, percorrer com desenvoltura, força e agilidade o ambiente local e, da mesma forma que os alienígenas, fazer conexões neuroniais com animais e plantas desse mundo. É uma tecnologia muito complexa, avançada e, portanto, cara. E é empregada como um pesado investimento para a obtenção do valiosíssimo unobtânio.

Jake Sully e seu avatar

A humanidade chegou a um avanço tecnológico gigantesco: viagens intergalácticas, robôs humanoides bélicos que obedecem aos movimentos de seus pilotos, transmissão da mente para outro corpo. Mas não conseguiu avançar sua ética, e repetem com os na’vi os mesmos erros que os colonizadores (humanos) cometeram com povos (humanos) nativos no escopo do planeta Terra.

Dessa forma, Avatar repete e inverte a fórmula clássica de filmes sobre alienígenas que invadem a Terra com ultratecnologia e ultradestrutividade. Mas desta vez os invadidos são os alienígenas, os humanos são os invasores. “Como seria se os humanos detivessem tecnologia suficiente para visitar outro planeta com tecnologia menos avançada?” Resposta de James Cameron: seria o mesmo que se viu em Independence Day, de Roland Emmerich, só que os humanos é que estão nas naves estelares.

O ecossistema de Pandora também parece verossímil ao espectador médio, principalmente pelo realismo das imagens, e menos por causa de alguma verossimilhança sistêmica na relação entre animais e plantas. Mas o detalhismo deste âmbito não é tão importante neste filme. A parte da natureza sai da ficção científica e entra mais no fantástico, sobre que discorri acima.

Assim, James Cameron concebeu Eywa como um sinônimo de mãe-natureza, como uma referência à divindade grega Gaia, que representa a Terra, a biosfera, o ecossistema terráqueo. Eywa é essa mesma divindade, mas representada pelos na’vi no planeta Pandora. Ela tem uma grande importância para a questão ambiental tratada no filme.

Questão ambiental

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

De acordo com a hipótese (ou teoria) de Gaia, a biosfera da Terra constitui um sistema autorregulador, quase como um ser vivo composto pelos  animais, plantas e outras criaturas e pelo meio ambiente ocupado e formado por esses seres. Fugindo da polêmica em torno do real significado metafórico ou não de Gaia (não sou versado em Geologia, Ecologia nem qualquer área pertinente), uma coisa parece ser unânime entre os cientistas: um ser vivo mantém uma relação direta ou indireta com todo o ecossistema terrestre, e qualquer grande mudança de uma de suas partes  acarreta uma reação do todo.

Os seres vivos de Pandora vivem uma conexão extrema. Os na’vi, inteligentes, conectam suas mentes (através de fios de cabelos que transmitem impulsos bioquímicos/sinápticos) às de montarias nativas, cavalos hexápodes, para fazê-los obedecer ordens de movimento, ou a grandes aves para que estas os carreguem voando. Os na’vi também se conectam assim à Árvore das Vozes, para escutar seus ancestrais. A interconexão entre os seres de Pandora é tão interdependente que qualquer interferência séria como a derrubada de uma grande árvore põe em risco todo o biossistema.

O ecossistema fictício de Pandora é assim uma metáfora hiperbólica de uma realidade existente em nosso próprio mundo, o planeta Terra. A extinção de uma espécie terráquea, a derrubada ou queimada de florestas, a poluição de um rio ou de um mar e a infestação do ar com fumaça são exemplos de interferências humanas que têm consequências sérias sobre todo o conjunto.

Avatar é, portanto, bem atual ao tocar num tema que está na pauta contemporânea e que tem preocupado diversos setores das sociedades ocidentais. Na base de todas as controvérsias sobre as causas mais contundentes e do real escopo das mudanças climáticas (especialmente as controvérsias sobre se há ou não um aquecimento global catastrófico provocado pelos seres humanos), é unânime a exortação de que devemos cuidar do meio ambiente.

A mensagem ecológica do filme é sintetizada na frase dita a Jake Sully por Neytiri: “Tudo o que Eywa dá é emprestado e será preciso devolver”. É uma exortação à nossa responsabilidade enquanto parte integrante de um mesmo meio ambiente. E enquanto seres humanos, capazes de transformar esse meio de formas muito impactantes, é preciso lembrar do que Carl Sagan disse no livro Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre Vida e Morte na Virada do Milênio:

Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante [p. 85].

Que completa, reiterando:

Se os humanos criam problemas, os humanos podem encontrar soluções [p. 86].

Numa resenha muito pertinente publicada na Folha de S. Paulo, o físico Marcelo Gleiser nota que Avatar pode ser visto como um aviso dos atuais perigos ambientais na Terra. Esta, no filme, está esgotada de recursos naturais, o que obriga os humanos a buscarem energia fora do Sistema Solar. Precisamos cuidar da Terra para que não se repita a farsa histórica na qual os nativos de um paraíso natural são dizimados pela ganância e pelo desespero. Gleiser conclui assim seu artigo:

somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Comentários sobre as notas

Trama 4: a história é bem conhecida, e a falta de originalidade faz com que a trama seja previsível. Mas ela é bem construída e agradável, suas partes se encaixam bem, com início, meio e fim, com harmonia e sem excessos.

Montagem 5: As cenas se encaixam com perfeição. Cada corte diz muita coisa sobre os sentimentos dos personagens e sobre o clima geral da trama. A exemplo o momento em que Jake Sully acorda em seu corpo humano logo após fazer amor com Neytiri. A música silencia, os olhos desolados de Jake se abrem dentro da tubo de conexão e ele se pergunta: “O que diabos você está fazendo, Jake?”, sem saber mais qual é sua missão ali.

Atuação 3: os atores fazem bem o seu trabalho, sem nada excepcional. Alguns personagens são marcantes, como o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e a doutora Grace Augustine (Sigourney Weaver), mas no geral as dramatis personae são secundárias diante do espetáculo visual e da sucessão de eventos.

Diálogo 3: as falas são bem simples e não contribuem muito para o show. Mas não se percebe nenhuma pretensão de se criar algo impactante e original nos diálogos, e eles não atrapalham em nada.

Visual 5: o visual é simplesmente perfeito. Toda a beleza selvagem que se pretendeu criar está presente nas imagens e os seres artificiais que aparecem na tela são muito realistas.

Trilha sonora 4: a música é linda e apropriada, fazendo com que os cenários se enriqueçam e sejam facilmente acessíveis ao espectador. No entanto, há momentos em que o som fica discrepante com a cena, mas isso ocorre pouco.

Reflexão 4: os temas são muito instigantes para quem nunca viu Dança com Lobos, O Último Samurai ou Distrito 9. Mas a maioria deles é batida. No entanto, soma-se aí o detalhe de o estrangeiro ser de outra espécie, o que faz com que o protagonista mude de corpo, se tornando realmente um outro, e a questão ambiental tão em voga e ainda pouco (e mal) explorada no cinema.

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Avatar [Resenha – Parte 2]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O filme Avatar (2009), de James Cameron, apesar de sua trama simples e previsível, apresenta muitos temas relevantes para a humanidade do século XXI. Com uma montagem de cenas perfeita e imagens arrebatadoramente belas e envolventes, consegue sensibilizar para muitas questões pertinentes.

Na primeira parte desta resenha, fiz uma sinopse comentada e uma análise dos nomes de lugares e personagens da trama. Nesta segunda parte, discorrerei sobre temas antropológicos: observação participante, choque cultural, etnocentrismo, relativismo, imperialismo; e, imiscuídas nestes tópicos, questões filosóficas: ética e universalismo.

Choque cultural

Avatar é uma história de choque cultural. Extrapandorianos, humanos, com tecnologia superavançada pousam no mundo dos na’vi e começam um trabalho de exploração capitalista que vai de encontro ao modo de vida dos nativos. Os alienígenas terráqueos consideram importante para os na’vi aprender a língua da Terra (o inglês) e ter acesso a novíssimas e complexas tecnologias que mudarão suas vidas. É a velha anedota do colonizador que traz bugigangas para os índios em troca de pau-brasil e ouro.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Mas os nativos não precisam de nada que os humanos oferecem. Porém, estes estão ávidos por três coisas: a riqueza material que poderiam extrair do unobtânio, minério caríssimo (Parker Selfridge e sua equipe); a oportunidade belicosa de viver uma batalha (Miles Quaritch e seu batalhão); e a oportunidade científica de descobrir novas realidades geológicas, botânicas, zoológicas e antropológicas. Apenas esta última se justifica racionalmente.

They missed the point, of course. A motivação de um homem que cai ali de paraquedas, o paraplégico Jake Sully, é retomar suas pernas e viver uma aventura. O resultado é que ele conseguiu algo muito mais valioso do que dinheiro, adrenalina guerreira ou descobertas científicas. Ele descobre a importância do equilíbrio natural do universo, através de sua iniciação na sociedade dos na’vi do clã Omaticaya.

Observação participante

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Antes de tudo, e repetirei isso adiante, Jake Sully não empreendeu a observação participante propriamente dita, ou seja, o método científico desenvolvido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski em seus estudos etnográficos nas Ilhas Trobriand. Ele não usou uma abordagem científica nem estava preocupado com elaborar teorias a respeito da vida dos na’vi. Afinal, ele não era cientista, era um “bebê”.

No entanto (relevando a impossibilidade de se tornar um nativo em qualquer cultura diferente daquela que nos criou desde criança até a idade adulta em apenas 3 meses), podemos ver a experiência de Jake como uma ilustração de como se dá a observação participante, essa que é talvez uma das mais sofisticadas metodologias na Antropologia.

O pouco tempo que Jake leva para se iniciar na vida dos na’vi poderia se justificar (em parte) pelo fato de que terráqueos e pandorianos já tinham bastante experiência uns com os outros, o que não é mostrado no filme. A história começa com uma tentativa de retomada de contato, ou seja, cada uma das duas culturas já sabe bastante sobre a outra. Neste sentido, penso que foi uma perda grande não ter explorado mais o choque cultural, metaforizando as reais dificuldades advindas de um encontro entre alienígenas que nunca haviam ouvido falar uns dos outros (o que a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração faz bem melhor).

Repetindo, Jake não é antropólogo e não empreende a observação participante malinowskiana. Mas ele entra no clã dos omaticaya de coração e cabeça vazios, o que permite que ele se abra à completa experiência de se mover pelas árvores com agilidade, domar montarias, dominar o arco e flecha e sentir-se conectado à natureza como qualquer na’vi.

Por ser um “bebê” para Neytiri, Jake começa do zero sua imersão. Como nenhum outro cientista conseguiu, por terem as cabeças cheias de expectativas, o ex-fuzileiro está pronto para começar uma nova vida, e somente incorporando a identidade e os costumes na’vi ele consegue entender a mentalidade, a vida e os anseios do outro. Pode-se dizer que ele realizou uma observação participante visceral e não-etnográafica.

Antropologia imperialista

Os maiores desenvolvimentos da Antropologia se deram, paradoxalmente, em situações neocolonialistas. A Grã-Bretanha enviou Malinowski às Ilhas Trobriand porque estas eram colônia inglesa, e conhecer melhor os nativos era importante para uma melhor administração.

Uma crítica que li algures à história de Avatar foi que o escolhido para salvar os nativos era um “civilizado”, ou seja, um humano branco norte-americano, e isso seria propaganda ideológica norte-americana, mostrando quão virtuoso é o povo salvador do mundo. Porém, lembremo-nos que esses norte-americanos do filme são na maioria favoráveis à exploração dos na’vi e de Pandora.

Além disso, Jake deixa aos poucos de ser humano e incorpora a identidade na’vi, tanto que a vida em seu corpo paraplégico passa a ser um sonho ruim e a vida com os na’vi vai se tornando cada vez mais real. Ele realmente renasce como na’vi, e a única coisa que lhe permite ajudar seus novos irmãos é seu conhecimento profundo do inimigo e uma audácia que ele deve mais ao seu temperamento individual e a sua história particular do que ao fato de ser humano branco norte-americano.

Depois de audaciosamente domar um Toruk (“última sombra”, uma espécie de ave extremamente feroz que apenas 5 na’vi conseguiram cavalgar na história dos omaticaya) a nobreza de Jake finalmente se manifesta no ato humilde de oferecer ajuda ao novo chefe do clã, Tsu’tey (que herdou o posto de Eytucan, recém-morto pelos humanos), seu ex-rival, sem clamar para si nenhum posto importante, mesmo sabendo que, ao se tornar Toruk Macto (“cavaleiro da última sombra”), será respeitado por todos os na’vi.

Guerra preventiva ou Pax Romana

A guerra é muitas vezes (irracionalmente) justificada por motivos preventivos, especialmente em situações imperialistas. O que está por trás é na verdade um interesse escuso, normalmente garantir uma posição dominante na relação com o outro.

Foi o que empreendeu o Império Romano com a chamada Pax Romana. Foi o que repetiu o império norte-americano na Guerra do Iraque. E há uma claríssima referência, em Avatar, à política beligerante de George “Warrior” Bush, quando o coronel Miles Quaritch brada que “vamos combater o terror com terror”.

Júlio César, imperador de SPQR; George "Warrior" Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. "Si vis pacem para bellum" é a ideologia belicista.

Júlio César, imperador de SPQR; George “Warrior” Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. “Si vis pacem para bellum” é a ideologia belicista.

O conhecimento sobre os na’vi tinha o único objetivo de melhor explorar sua lua-natal. Essa abordagem se assemelha muito ao conhecimento do Oriente elaborado pelas nações imperialistas ocidentais. Esse conjunto de saberes, que incluíam vários preconceitos, generalizações e menosprezo, foi chamado por Edward W. Said de Orientalismo e servia de justificativa (irracional) para a dominação.

Esse tipo de atitude preconceituosa é visto durante todo o filme em afirmações que representam os na’vi como animalescos, primitivos, ignorantes, drogados. A conexão bioquímica entre a fauna e flora de Pandora, explicada por Grace Augustine, é ridicularizada por Parker Selfridge: “o que diabos vocês andaram fumando lá embaixo?”

Os exploradores não se permitem a experiência de aprender a cultura local e tirar algum proveito nobre e evolutivo. Talvez a troca tivesse se efetivado se os humanos mostrassem boa vontade de compartilhar uma experiência e não insistissem que são só eles quem têm o que oferecer aos nativos, sendo o unobtânio a moeda e o preço pelo “progresso” trazido da Terra (que, pelo que consta em algumas falas do filme, está com seus recursos naturais esgotados).

A subestimação do “selvagem”

Ewoks

O colunista Jorge Coli, da Folha de S. Paulo, escreveu uma resenha interessante sobre Avatar, na qual ele faz uma referência a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Durante os preparativos de um ataque aos revoltosos liderados por Antônio Conselheiro, o coronel Moreira César afirmou: “Vamos almoçar em Canudos”. Ele não esperava que seria tão difícil combater os “brutos” sertanejos, da mesma forma que o coronel Miles Quaritch não esperava perder a batalha contra os na’vi, antes da qual afirmara: “vamos jantar em casa”.

Este é um tema comum em épicos, e se trata de um interessante tema antropológico, pois que toca no relativismo cultural. As grandes civilizações levam seu etnocentrismo a uma escala imperial, considerando que aqueles povos não-assimilados e cuja cultura é considerada inferior não têm condições de resistir a uma guerra (pois, pensam os conquistadores, não têm tecnologia tão avançada nem táticas eficazes) nem à assimilação (pois a cultura do conquistador é considerada melhor e mais desejável).

Porém, a Guerra do Vietnã serve de exemplo real para o equívoco imperialista. Os norte-americanos não esperavam que os vietcongues tivessem a capacidade de, em seu próprio território, resistir e ludibriar os inimigos. O exército norte-americano, por exemplo, se surpreendeu com o uso complexo de túneis, que permitiu aos nativos promover ataques surpresa.

Voltando à ficção, em Guerra nas Estrelas: Episódio VI – O Retorno de Jedi, o Império Galáctico se utiliza dos típicos recursos de um governo expansionista, especialmente a violência física. Mas, com sua avançada tecnologia, não consegue vencer a batalha contra os pequeninos ewoks da lua de Endor, com suas lanças de madeira e pedra, fundas e asas-delta de couro.

Exploração dos recursos naturais e o obstáculo humano

O etnocentrismo imperialista está longe de deixar de ser um problema atual. Se tomarmos o exemplo da influência cultural dos EUA em todas as partes do mundo, vemos que uma relação de dominação ainda se mantém, em que se supervaloriza acriticamente tudo o que é produzido pelos gringos e se subestimas os modos de pensar, viver e até de falar dos povos que vivem em sociedades subordinadas.

A arrogância do conquistador (que age hoje mais no âmbito cultural do que no bélico) o faz tomar a liberdade de assumir a liderança da história de povos “menos civilizados”, como se estes não tivessem a capacidade de “descobrir” o melhor caminho para sua evolução e como se a intervenção externa fosse a melhor das bençãos.

Às vezes essas intervenções podem trazer, a longo prazo, melhorias para os conquistados (que restarem). Mas nem sempre, e sempre é ao custo de muitas mortes e de enormes prejuízos para ambos os lados. Especialmente quando se consideram os produtos naturais cultivados para o bem-estar de uma população (e que poderiam servir para toda a humanidade) como mercadorias a entrar no mundo capitalista, para benefício de uns e prejuízo de outros. E é exatamente o que ocorre na corrida pelo unobtânio (Pandora é uma espécie e Eldorado, onde o ouro é substituído pelo unobtânio): para a RDA, os nativos de Pandora são obstáculos e não parceiros.

Apesar disso, é corrente atualmente o ideário que valoriza a diversidade cultural, e que tem origem no Romantismo alemão de Johann Gottfried von Herder (Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade). Paradoxalmente, esse ideário pode ter efeitos interessantes para o imperialismo cultural, pois pode dificultar a mudança histórica e o intercâmbio cultural ao cristalizar nichos sociais e valorizar a manutenção das tradições (com a ideia de autenticidade, analisada por Charles Taylor em The Ethics of Authenticity).

É esse ideário que permite a aparição de uma história onde a cultura local de um povo tribal é vista como mais importante do que os interesses egoicos de um empreendimento capitalista. Porém, para ser mais real, a trama deveria deixar mais claro que o contato entre humanos e na’vi deveria trazer grandes mudanças para todos os envolvidos, mas o desfecho dá a entender que tudo só pode terminar bem se tudo continuar como era.

[Continua…]

Avatar [Resenha – Parte 1]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009), de James Cameron, era um filme cujos trailer e pré-resenhas me deixaram com um pouco de vontade de assistir. Não havia entendido bem a ideia, mas gostara do visual dos personagens alienígenas, esbeltos e azuis, e dos cenários selváticos da lua Pandora.

Mas foi depois de ver algumas pós-resenhas que realmente me motivei a ir ao cinema. Havia, segundo li, uma questão antropológica de grande interesse meu. Antevi uma semelhança com Dança com Lobos (1990), mas, tendo em mente que eu veria clichês e uma trama mais ou menos previsível, preparei-me para as novidades que o filme oferecesse. Ademais, histórias com alienígenas são uma preferência pessoal.

Sinopse estendida

No século XXII, Pandora, um satélite natural do planeta Polifemo (que gira ao redor de uma estrela da constelação Alfa Centauro) constitui uma atração para os humanos, pois é habitada por uma espécie inteligente chamada na’vi. Sobretudo, é uma atração para a economia humana porque essa lua contém um minério valiosíssimo chamado unobtânio. Na realidade, os na’vi podem ser considerados mais um obstáculo do que uma atração, pois a região com maior concentração de unobtânio é protegida por eles como um santuário.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Pandora é  uma boa alegoria para a expressão Inferno Verde (com que os exploradores europeus apelidaram a Amazônia), pois é uma biosfera densa e bela, mas ao mesmo tempo hostil aos humanos, pois possui grandes animais perigosos e é envolta por uma atmosfera tóxica para pulmões terráqueos.

Ela é habitada por exóticos seres inteligentes chamados na’vi, humanoides esquios e azuiss, com 3 metros de altura, cabelos pretos, lisos e longos (como os dos ameríndios), pescoços e membros compridos e caudas preênseis. Possuem grande força, resistência e agilidade e se movem com facilidade pelas florestas em que vivem, portando armas simples como arcos e flechas, cavalgando grandes montarias parecidas com cavalos e animais alados semelhantes a grandes aves com asas coriáceas.

Para explorar o local em busca do unobtânio, que não está em nossa tabela periódica dos elementos, a empresa RDA instala uma base em Pandora, com um programa dividido em duas partes.

A primeira parte desse programa é o Projeto Avatar: corpos de na’vi capazes de portar a consciência de alguns indivíduos humanos selecionados (o DNA desses corpos é uma mistura do DNA na’vi com o do indivíduo humano que o vai controlar), para que estes possam interagir na atmosfera de Pandora e, especialmente, para interagir com os na’vi e negociar a exploração do unobtânio.

Jake Sully, ex-fuzileiro naval paraplégico, entra em cena para substituir seu falecido irmão gêmeo univitelino. Ele assume a responsabilidade sobre o avatar do seu irmão, pois tem o mesmo DNA deste. Grace Augustine, a cientista que lidera as atividades dos avatares, duvida que ele seja capaz de substituir o irmão. Jake fica maravilhado ao redescobrir as sensações e movimentos dos pés e pernas em seu corpo na’vi.

Diferente de seu irmão, Jake não passou por um processo de preparação para incorporar um avatar nem para se comunicar e interagir com os na’vi. Neytiri, a filha do líder dos Omaticaya, clã na’vi com que Sully entra em contato, o considera uma criança, e é sua mente fresca, com muito poucas expectativas, que o permite ser aceito no clã e ser ensinado a ser um nativo. Contra as expectativas de Augustine, Sully consegue melhor do que ninguém incorporar um na’vi.

Ele se torna assim a maior esperança de Parker Selfridge, o diretor maquiavélico da ação exploratória, mostrado como um homem obcecado pelo unobtânio; e de Miles Quaritch, o coronel que comanda a tropa militar que vai empreender a segunda parte do projeto: defender os humanos de possíveis perigos e atacar aqueles que servirem de obstáculo. Quaritch promete a Sully, em troca do sucesso da operação, um tratamento para retomar o movimento das pernas.

A cientista, o empresário e o militar

Augustine, a cientista; Selfridge, o empresário; Quaritch, o militar. O capitalismo desconsiderou a vida dos nativos, enquanto o militarismo os viu como inimigos. A Ciência, felizmente, compreendeu e passou para o lado dos na’vi.

Sully acaba por frustrar os planos da RDA, tornando-se um na’vi de corpo e alma, domando sua própria montaria alada, entendendo e adotando o modo de vida dos na’vi (aprendendo a viver em harmonia e conexão com a natureza, chamada de Eywa pelos na’vi) e tornando-se parceiro amoroso de Neytiri. A vida como na’vi passa a ser mais real para ele do que a vida como humano, e ele se torna incapaz de trair seus irmãos na’vi e, embora tenha fornecido informações cruciais à RDA sobre o acesso ao unobtânio, tenta de tudo para impedir Selfridge e Quaritch de tomar a terra dos nativos à força.

O híbrido Sully, meio-humano meio-na’vi, encontra-se então no limbo, traidor da empresa que o contratou, pois vai impedi-la a todo custo de violar a liberdade dos nativos; traidor dos que o acolheram como irmão, pois desde sempre não confidenciou o plano original por trás de sua imersão em Pandora.

Em contrapartida, Sully empreende um passo decisivo para retomar a confiança dos na’vi, domando uma fera alada que só grandes heróis do passado conseguiram. Finalmente, tendo informações valiosas sobre seus ex-aliados, que estão em vias de destruir a árvore sagrada sob a qual jaz o unobtânio, ele lidera uma defensiva que livra os na’vi do perigo humano.

Sully completa sua transformação com a transferência definitiva de sua consciência para o corpo na’vi, ganhando de Eywa as pernas prometidas por Quaritch. O selvagem primitivo se torna seu próximo passo evolutivo, mais avançado na superação dos preconceitos inter-raciais e interespécies, na compreensão da interconexão dos seres e da natureza e no entendimento do equilíbrio das forças e energias naturais.

A trama através da nomenclatura

Muitas dos nomes do cenário de Avatar são simbólicos e ajudam a contar a história, pois revelam o destino da trama e a índole de personagens. A começar com o nome do mundo em que tem palco a narrativa: Pandora.

Pandora é uma personagem da mitologia grega, que em algumas versões do mito é considerada a primeira mulher criada pelos deuses. Prometeu havia dado aos humanos o fogo divino, que lhes permitiu sair da barbárie. Após puni-lo, Zeus mandou que Hefesto criasse uma mulher, Pandora, que enganaria Epimeteu, irmão de Prometeu, para que este abrisse a caixa com todos os males que afligiriam a humanidade. Mas ela a fechou antes que a esperança escapasse.

A lua Pandora pode ser vista então como um terreno com valor polivalente para os humanos que ali descem: é ao mesmo a fonte de enormes riquezas materiais, uma selva perigosa que pode matar quem nela se aventura ou uma chance de aprender lições valiosas sobre a alteridade, a natureza e a esperança.

O unobtânio, um aportuguesamento livre da palavra unobtainium, é um metal cujo nome já prediz o resultado da história, pois é um trocadilho com unobtainable, que significa em inglês “inobtenível”,  “que não se pode obter”. Esse minério está no solo em que se enraíza uma árvore sagrada para os na’vi, que a protegerão com suas vidas. A natureza, Eywa, também não deixará que os humanos coletem o valioso metal.

Na’vi, o nome inventado dos habitantes de Pandora, pode ser entendido como uma mistura de nativo (native, em inglês) com o sânscrito Devi. Eles são o símbolo da alteridade na história, o outro que pode ser visto como antagonista não-humano ou, como vem a ser no final, o não-humano humanizado, compreendido como igual. Eles são os nativos colonizados ou que se pretendem colonizar, simbolizando todo os povos exóticos.

KaliMas ao mesmo tempo são entendidos como seres míticos, como deuses e, talvez, como aquilo a que o humano aspira ser. Eles são Devi, que na mitologia hindu designa as divindades femininas, ou as manifestações femininas da divindade, ou ainda as manifestações divinas do feminino. Os na’vi até lembram, com suas peles azuis, algumas imagens sacras de deuses hindus.

Neste sentido, os na’vi são incorporações da natureza de Pandora, ou Eywa, e representam o antagonista-natureza de caráter feminino, que se opõe à tecnologia bélica de caráter masculino levada pela RDA. Esse antagonismo entre selva e tecnologia, natureza e cultura, feminino e masculino, é instigante como tema de narrativas como Alien: O Oitavo Passageiro, também dirigido por James Cameron.

Também do sânscrito, avatar denomina as encarnações terrenas da divindade, como Krsna e, dependendo da interpretação teológica, Cristo (Deus feito carne). (Essa palavra nomeia, por derivação, as imagens que na internet servem para identificar uma pessoa (seja em bate-papo, em redes sociais, em RPGs online ou em comentários de blog).)

Os humanos que encarnam na’vi no mundo destes são como os avatares hindus, deuses encarnados na Terra. Neste sentido, a lição do filme chega a ser ateísta e humanista, pois esses avatares se deparam com o fato de que são iguais aos na’vi “comuns”. Ao mesmo tempo, é salvacionista, pois é o avatar de Jake Sully quem lidera e salva o clã que o acolhe.

Eywa é a divindade suprema nas crenças dos nas’vi, e poderia ser entendida como a imagem que nós humanos nomeamos de Mãe-Natureza. Eywa lembra Eva, a primeira mulher, e como entidade feminina primordial, Eywa simboliza o mundo dos na’vi, uma interconexão natural.

Segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário), o imaginário se divide basicemente em dois regimes: o diurno e o noturno. Este último é onde as imagens são regidas pela ideia de acolhimento, de aconchego, do abraço, da rede que embala e, envolvendo, protege. Se para o regime diurno a rede é uma teia de aranha que tolhe a liberdade, para o regime noturno, que poderia ser entendido como regido por uma mãe, é acalentamento. Eywa, Eva, princípio feminino, é maternal.

Jake Sully, à primeira vista, é um homem cujo principal objetivo é se ocupar depois que perdeu as pernas e, se possível, tê-las de volta com uma cirurgia. O que muda bastante depois que ele se empolga com o Projeto Avatar, que lhe dá a oportunidade de andar e de conhecer um mundo novo e fascinante. A reviravolta completa acontece quando ele se torna um na’vi, é aceito pelo clã e se une amorosamente a Neytiri.

Sully é um verbo inglês que reporta à ideia de suspeita, ou seja, Jake Sully está todo o tempo sendo vigiado para que suas intenções fiquem claras e se saiba como ele vai agir. Em certo momento, ele se torna traidor em ambos os lados e precisa tomar uma atitude para agir da maneira mais justa.

Grace Augustine, a botânica que escreveu um tratado sobre a flora de Pandora, é Graça Augusta. Se sua importância faz a primeira impressão dela parecer arrogante, ela se mostra uma valiosa aliada para os na’vi em sua luta pela proteção de Pandora, sendo permitida sua entrada na vila dos Omaticaya, que, mais tarde, tentarão salvar sua vida ameaçada por um tiro de Quaritch.

Parker Selfridge está pouquíssimo interessado em entender os outros. A única coisa que ocupa suas preocupações é o self, sua própria trincheira. Os outros ou são ferramentas para ele conseguir o que quer ou são obstáculos a ser derrubados. O estereótipo do empreendedor egoísta e maquiavélico.

Miles Quaritch só tem um objetivo: quarrel, peleja. Ele está a serviço da RDA apenas para combater os na’vi com armas. Ele vai matar quantos nativos forem necessários para executar a meta de Selfridge. Sua índole bélica será decisiva para frustrar qualquer plano diplomático e para criar uma guerra na selva que remonta o sonho guerreiro dos norte-americanos.

[Continua…]