Deleite condensado

Padrão

Erguia-se dos degraus transpostos. Como se do alto pudesse possuir mais que o horizonte. Desejava ser único em ponto mais elevado: valia-se da circunferência de suas búfalas narinas. Abertas as cartilagens, todo corpo – feminino – fazia-se carne. O seu: abismo de anseios. Bastava que milímetro de flâmula penetrasse nas pífias cavidades para fazer vibrar os músculos: dos menores e ingênuos aos engrandecidos de vontade.

Por vezes tão forte a vibração, de fazer estremecer todos os degraus, de ameaçar a apoteose. Em estado quase convulso – saliva crespa acumulando na quina da boca, malha viscosa de suor em segunda pele – o homem sequer pensava em percorrer o caminho do chão. Investia energicamente na conquista, lançando do alto o melhor de si sobre o corpo desejado: jatos robustos de urina alaranjada, malcheirosa e quente; gomos salgados de suor e saliva; fezes pastosas; consummé de espermatozoides em alvoroço.

Rebaixadas a alvo, as mulheres se desviavam, quando podiam, dos mísseis-excrementos. Entrincheiravam-se em buracos, arbustos. Apagavam a imagem de seus corpos já perfumados de adrenalina e quase sempre aguardavam o cessar-fogo. Acumulados instantes frustrados, o homem recolhia-se em torno de seu próprio ventre, adormecendo pensamentos e músculos. Deste ponto, quase sempre acontecia: dos corpos vitimados escaparem e de urubus e decompositores surgirem em volumosas esquadrarias.

Os bichos se alimentavam de toda feiúra malcheirosa. Consumidos os minutos, nem réstia de fezes, de urina, de esperma. Até as espessas camadas de suor e saliva eram meticulosamente removidas. Depois partiam sobreavisados de iminente retorno. Aquele era local de passagem. De outro modo as mulheres, uma vez ovacionadas pelo homem – na dicromática visão do bufalino – não mais regressavam: não as mesmas.

Por não permitir a mortal hipótese de descer os degraus custosamente vencidos, alimentava-se de seres vivos: com asas. Aquele que por tolice se aproximasse de sua cabeça imediatamente era capturado por voluptuosa língua e ensacado no estômago: borboleta, gafanhoto, esperança, cavalo-do-cão, mutuca, abelha, marimbondo, muriçoca, pardal, anu (branco ou preto), morcego, coruja, pombo, ziguezague, cigarra, percevejo, vagalume, rola-bosta, bicho-pau.

Em dia de pouco movimento, sem legitimar seus próprios pensamentos, sentia discreta alegria – mas desconhecia a razão. Por certo – dele não partira a especulação – alegrava-se pela ausência de obrigação: sem mulheres, sem investimentos, sem excrementos, sem frustração, sem dor, sem sono, sem recomeço: sem comida, sem vigília, sem flâmula.

Em dia como esse, dessentiu a presença de ser mitológico: metade menina, metade mulher. O corpo-potencial-aperitivo aproximou-se da escadaria, sentou-se no primeiro batente. Tão macio seus movimentos, que sequer um joule foi transferido dos quadris aos degraus. Em sequências de gestos antigravitacionais, recolheu miudezas no chão: partiu com as mãos abarrotadas de coisinhas.

Tantos artefatos surgiram da primeira jardinagem, que resolveu voltar. E voltar. E voltar. Dia-após-dia. Sua presença naquelas paragens inibia outras presenças: mulher nenhuma fazia-se transeunte.  Sem mulheres: sem vigília, sem flâmula, sem investimentos, sem excrementos, sem frustração, sem dor, sem sono, sem recomeço: sem comida.

Tão forte a ausência de matéria viva ensacada, que pela primeira vez – desde alcançado o ponto mais elevado da escadaria – desfez-se da discreta alegria do recesso, desgostou de olhar distante e com carga elevada de sofrimento, angulou o pescoço para baixo. As carnes enfraquecidas quase despencaram ao registrar a presença do corpo-aperitivo.

Concentrou sua energia na face, de onde surgiram dois colossais buracos enegrecidos. Sorveram toda matéria volátil. Daquele corpo não sentiu nem migalha de cheiro. Uma vez mais reuniu suas forças e aspirou o invisível com tanto vigor, que o chão foi seu único alento. Nada. O corpo aperitivo era estéril de odores. Respiração ofegante, coração à galopes, o homem, ainda assim, ergueu-se. Orgulhoso de sua tenacidade, investiu no galanteio. Mas não houve urina, suor, fezes, esperma: estava fraco.

O corpo-alvo resistia aos apelos. Distraída apenas pensava em encher outra vez mais as mãozinhas. É então que o resquício de homem lança-se ao derradeiro ato: doa seu último e mais íntimo excremento: as células mortas acumuladas nas frestas do umbigo. Com as mãos alquebradas, remove a massa, lhe dá forma de círculo e lança na escada: rola enérgica até ao encontro dos descarnados tornozelos.

Naquele mesmo instante as mãozinhas seguem os quadris de uma barata requebrante. Recolhe o inseto e satisfeita ensaia a retirada. Coloca-se de pé e de costas para a escada. Seus ouvidos apreendem o vigoroso mugido em escala ascendente. Mira o corpo no alto em trêmulos e lentos movimentos, deseja recolhê-lo.

Sobe os degraus abafando o som das pegadas. O de cima não reage. Aproxima-se e deposita o conteúdo encarcerado por seus dedos na superfície das narinas.  Baratas, formigas, besouros. O corpo transmutado – agora feminino – inerte de repúdio e nojo reaviva: o homem não homem de desejo se consome, lança-se para dentro de si. Some.

A menina-mulher, indiferente, senta-se no ponto mais alto e põe a balançar as perninhas mirando o horizonte. Deixa cair – cheia de propósito – o sapatinho nas têmporas de um homem: desavisado.