Merida, seus pretendentes e o transgenerismo

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Depois de uma séria e enriquecedora contribuição de Nivea Melo, percebo que minha afirmação de que a protagonista de Valente é transexual pode ter sido mais o resultado da vontade de ver um conteúdo muito mais subversivo do que aquele que o filme realmente tem. Há uma mensagem subversiva sim, mas vai em outra direção.

De qualquer forma, essa discussão leva a pensar em várias outros elementos do filme que trazem muito mais questões à problemática do gênero e da identidade sexual, e isso envolve não só a princesa Merida, mas todos os outros personagens de destaque na trama.

Esclarecimentos conceituais

Antes de mais nada, quero deixar claro o uso de alguns conceitos neste texto.

Sexo e gênero

Fêmea-mulher-feminina e macho-homem-masculino, os dois modelos ideais de identidade sexual

“Homem” não equivale a “macho” assim como “mulher” não equivale a “fêmea”. Mulher e homem são identidades construídas e reconhecidas socialmente, representando o gênero da pessoa, enquanto fêmea e macho são dados biológicos, o sexo do indivíduo. No esquema ao lado, o sexo é representado pelo círculo central, enquanto a identidade de gênero é representada pelos símbolos de Vênus (mulher) e Marte (homem).

Via de regra, na maioria absoluta das sociedades humanas, existe uma identidade de gênero correspondente a cada um dos sexos, ou seja, dificilmente se encontra uma fêmea humana que não tenha sido ensinada a ser mulher ou um macho humano que não tenha sido criado para ser homem. As noções do que significa ser homem ou mulher e dos papéis socialmente atribuídos a cada gênero variam infinitamente ao redor do universo humano, e o que uma sociedade considera “coisa de homem” pode ser considerado “coisa de mulher” por outra cultura. Normalmente, as representações sociais não veem uma descontinuidade entre macho e homem nem entre fêmea e mulher, e os caracteres socialmente construídos são vistos como aspectos naturais de cada sexo-gênero.

Existem pessoas nascidas macho que assumem uma identidade de mulher, feminina; assim como existem crianças nascidas fêmeas que acabam se constituindo com uma identidade masculina, ou seja, de homen. Isso ocorre principalmente em pelo menos dois contextos:

  1. Algumas sociedades imputam a certos indivíduos nascidos em circunstâncias especiais a identidade do gênero “oposto”. Se forem do sexo masculino, recebem um nome feminino e são tratados como mulheres, e o contrário ocorre se forem do sexo feminino.
  2. Há casos em que existe uma identificação precoce do indivíduo pelo universo do outro sexo/gênero, e a criança acaba por assumir a identidade e os papéis do gênero oposto, não tendo necessariamente vontade de mudar de corpo, mas em alguns casos sim (transexualidade).

Seja em um ou outro caso, há uma força social que obriga os indivíduos a assumir impreterivelmente todos os aspectos relacionados a uma identidade/papel de gênero, raramente se admitindo uma mistura ou uma terceira alternativa.

Feminilidade e masculinidade

feminilidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata da mulher ideal. A masculinidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata do homem ideal. Essas duas noções, na prática, classificam não somente os traços tangíveis e intangíveis da identidade sexual de um indivíduo, mas também abarcam as atividades desempenhadas socialmente, ou seja, seu papel de gênero. No esquema acima, a feminilidade e a masculinidade são representadas pelos círculos envolventes maiores.

Assim, se numa determinada sociedade o cabelo comprido é apanágio da mulher, ele é considerado um traço feminino e os homens dessa cultura que usam cabelos compridos têm, portanto, um traço de feminilidade, embora possam perfeitamente manter intocada sua identidade de gênero de homem. Uma mulher que usa calças numa sociedade que considera seu uso como adstrito aos homens, ou seja, que as considera uma indumentária masculina, tem um traço de masculinidade, mesmo que ela mantenha inexorável sua identidade de gênero de mulher.

Isso se aplica também a ocupações ou profissões. Antigamente, uma mulher que se ocupasse da Ciência poderia ser considerada “masculinizada”, pois essa era uma atividade tipicamente exercida por homens. Um homem que trabalhasse com enfermagem era tido como “feminilizado”, por ser essa profissão tradicionalmente ocupada por mulheres.

No processo evolutivo de uma sociedade, podem ocorrer mudanças nessas noções, e aquilo que era considerado “coisa de homem” passa a ser tido como uma característica unissex ou até ir para o lado oposto da dicotomia sexual, tornando-se tipicamente “coisa de mulher”. Assim, se uma cultura passa a considerar que cabelos compridos não são mais atributo exclusivo das mulheres, os homens de cabelos compridos não têm mais nesse traço uma característica feminina. Se as calças passarem a ser uma vestimenta universal, as mulheres que usam calças não serão mais masculinas do que as que usam saias.

Hoje em dia, no Ocidente, o salto alto é um acessório visto unanimamente como feminino. Porém, sua forma moderna teve sua gênese como peça do vestuário masculino, popularizada pelo famigerado Luís XV.

Transgenerismo e transexualidade

Um indivíduo que não se encaixe em nenhum dos dois modelos “macho-homem-masculino” e “fêmea-mulher-feminina” é chamado, em algumas abordagens da questão de gênero, de transgênero. O transgenerismo seria a inadequação, maior ou menor, de uma pessoa quanto às expectativas sociais sobre seu sexo biológico.

O termo transgênero muitas vezes é usado como sinônimo de transexual, tanto por estudiosos das questões de gênero quanto por militantes LGBT e até por psicólogos numa abordagem clínica. Porém, transexual parece ser um termo mais usado quando se refere à condição de uma pessoa que não se identifica com o sexo imposto a si pela natureza nem com o gênero imposto socialmente e procura se assumir e se transformar no outro sexo-gênero. Tendo em vista que os dois termos utilizam, respectivamente, os radicais que remetem a gênero e a sexo, assumo aqui que transgênero é uma condição mais geral, que pode abarcar desde um homem que gosta de colecionar bonecas Barbie, passando por uma mulher crossdresser de identidade andrógina até um travesti nascido homem que se assume mulher, se veste de mulher, modifica o corpo para parecer com o de uma mulher mas não quer fazer vaginoplastia, mantendo o pênis com o qual nasceu.

(A rigor, é difícil acreditar que haja algum indivíduo humano que não seja minimamente transgênero.)

Por outro lado, em consonância com o conceito mais aceito na psicologia em relação ao termo transexual (e especialmente à forma como foi abordado por Nivea Melo no texto Princesa, heroína e guerreira: Valente), considero que este significa o indivíduo que se entende como pertencente ao universo do sexo-gênero “oposto”, ou seja, pessoas nascidas machos que desejam ser fêmeas-mulheres-femininas e pessoas nascidas fêmeas que querem ser machos-homens-masculinos. A transexualidade poderia ser entendida como uma possibilidade extrema de transgenerismo.

Merida – yin e yang

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

A menina Merida, por circunstâncias especiais, acabou recebendo uma herança mista na constituição de sua identidade de gênero. O arco é um símbolo de masculinidade, a herança de seu pai Fergus, enquanto a visão mágica do mundo aparece como dom de sua mãe, que lhe ensina sobre os fogos-fátuos. A magia, como se vê num outro momento do filme, está mais ligada à feminilidade, especialmente representada pela figura de uma simpática bruxa.

Merida foge de quase todos os padrões e expectativas socialmente impostos ao seu sexo e gênero, e o principal fator para isso é seu pai, despreocupado de qualquer imposição de características femininas à personalidade da filha. Ele aceita numa boa as escolhas dela, e quase todas as suas opções fazem parte do universo masculino, das coisas que em sua cultura são consideradas “de homem” e não “de mulher”.

É importante nos determos sobre a influência do pai. Sendo este muito atencioso e próximo dos filhos, inclusive dos travessos trigêmeos mais novos, ele foi um modelo para sua primogênita, que para ele não importava ser menino ou menina nem se enquadrar totalmente naquilo que se espera de seu sexo e gênero. Essa influência não é simplesmente a filha imitar os aspectos masculinos do pai, mas é especialmente a visão menos tradicional que este possui sobre a identidade e os papéis de gênero, inclusive admitindo a mistura de aspectos masculinos com femininos (numa certa androginia).

(É possível que ele até se incomodasse se seu primogênito fosse um menino com traços de feminilidade, tendo em vista seu deboche ao filho de Macintosh, mas isso não se pode afirmar com certeza. Talvez ele tenha encontrado em Merida um “filho” com quem passar o tempo e a quem ensinar o que sabe, e ela certamente se sentiu muito mais à vontade para realizar seus desejos individuais, que em grande parte não condizem com o que sua sociedade espera de uma fêmea-mulher.)

Merida

Merida – yin e yang

A noção do que é feminino e masculino, embora seja construída socialmente, pode variar segundo o ponto de vista e os valores de cada indivíduo. No olhar da mãe Elinor, Merida está fazendo tudo errado, sendo uma fêmea-mulher-masculina, enquanto que para o pai Fergus ela está simplesmente sendo quem é, e aquilo que é considerado masculino em sua cultura não é visto por ele como tal. A seus olhos, sua filha é fêmea-mulher-feminina. No balanço dos olhares enviesados, podemos considerar que Merida é uma transgênera, pois, se pertence ao sexo feminino e tem identidade de mulher, ela possui um misto de feminilidade com masculinidade. Se, por um lado, ela usa arco e flecha, por outro, usa vestido; ela não age segundo a etiqueta do recato feminino, mas acredita em magia e nas lendas.

Embora Merida seja subversiva e, nos temos da antropóloga Margaret Mead (autora de Sexo e Temperamento), uma “inadaptada”, ela não foge à imposição cultural de uma identidade de gênero, que força cada indivíduo humano a se encaixar em apenas uma de duas opções: homem ou mulher. A identidade de gênero de Merida é mulher, e isso em nenhum momento é posto em dúvida ou problematizado. Porém, fugindo do ideal fêmea-mulher-feminina, ela pode ser considerada um exemplo explícito de transgenerismo, não chegando nem perto da condição transexual.

Os pretendentes

O jovem Macintosh na visão de seu pai e na visão de Fergus, respectivamente

A problemática do gênero é um tema recorrente em Valente, e não se resume apenas ao drama de Merida. Importa atentar para os três pretendentes da princesa, representantes de três tipos de masculinidade. O jovem MacGuffin, o jovem Macintosh e o jovem Dingwall, primogênitos dos chefes de seus respectivos clãs, apresentam diferenças explícitas quanto à aparência física, os atributos e as atitudes. No entanto, os três são apresentados como modelos de masculinidade.

No artigo intitulado “Rúgbi e Judô: Esporte e Masculinidade”, presente no livro Masculino, Feminino, Plural: Gênero na Interdisciplinaridade (organizado por Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi) a antropóloga Carmen Silvia Rial apresenta, num estudo sobre a trajetória no esporte de dois jovens brasileiros, a constituição de dois ideais diferentes de masculinidade, um representado pela disciplina física e mental de uma arte marcial japonesa (o judô) e outro pelo cultivo de um corpo preparado para os violentos choques de um esporte inglês (o rúgbi). Rial mostra que a noção de uma identidade masculina (o que, por extensão, pode se aplicar à identidade feminina) não é unânime nem mesmo dentro de uma mesma cultura.

No contexto geral dessa sociedade policlânica, os guerreiros que disputam no torneio de arco-e-flecha são considerados perfeitos machos-homens-masculinos. Porém, embora o plano de Merida seja desbancá-los simplesmente derrotando-os com sua exímia habilidade de arqueira, para os pais e mães que acompanham os jogos a questão é: quem dos pretendentes é o mais “homem”?

Entre os diversos clãs, cada um entende a masculinidade de uma forma ligeiramente diferente. Os chefes dos clãs Macintosh, MacGuffin e Dingwall consideram seus respectivos filhos como perfeitos exemplos de machos-homens-masculinos. Entretanto, se prestarmos atenção ao que Fergus sussurra a sua filha sobre o jovem Macintosh, vemos que o índice de masculinidade deste é posto em dúvida. Podemos extrapolar e considerar que cada um dos chefes considera os primogênitos dos outros clãs menos masculinos do que os seus próprios.

Dentro do grupo étnico que envolve os três clãs, há algumas unanimidades quanto ao que é masculinidade, mas cada clã tem ideais específicos que variam esse modelo sutilmente.

Cabeleiras escocesas

Um detalhe interessante para se explorar essa problemática são os cabelos dos personagens e o que eles significam em termos de identidade de gênero, masculinidade e feminilidade. No universo de Valente, percebemos que os cabelos não são arranjados de forma aleatória, segundo algum gosto pessoal dos personagens. Há uma diferença entre o recato da mãe de Merida, a rainha Elinor, que sempre usa seus longos cabelos presos, e sua filha Merida, que rompe com essa regra e, embora não corte suas mechas ruivas, deixa-as soltas, contrariando o decoro que se espera de uma dama.

Não existe, no universo do filme, uma unanimidade em relação ao significado dos cabelos quanto à identidade de gênero. Cada clã (cada cultura, cada etnia) tem uma noção própria daquilo que é a indumentária e a cosmética adequadas aos homens e aquela adequada às mulheres. Em comunidades tradicionais, existe pouca opção de variação, e quase sempre todos os detalhes estéticos têm um significado relacionado ao gênero.

Não é à toa que os penteados dos homens de cada clã é o mesmo. Dingwall e seu filho têm os mesmos cabelos curtos e arrepiados. Macintosh e seu primogênito ostentam mechas longas e soltas. MacGuffin sênior e júnior usam cabelos presos. As roupas também são as mesmas, bem como o porte físico (que não é apenas uma questão de hereditariedade genética, mas da valorização de um tipo ideal, capaz de realizar as atividades “dignas de um homem”).

No decorrer da história, vemos que essas diferenças são aos poucos suplantadas em situações críticas, especialmente o “debate” e, depois, a luta contra o urso Mor’du. No primeiro momento, em que os clãs quase chegam a declarar guerra, todos os homens se encontram frente a frente como homens-masculinos, desaparecendo as diferenças próprias a cada grupo. Quando Merida intervém no debate, ocorre uma crise ainda maior, pois a moça se coloca de igual para igual com os homens, e a noção daquilo que diferencia homens e mulheres sofre uma mudança. O estilo “masculino” de Merida ao impor sua presença passa a ser visto como um aspecto neutro, nem masculino nem feminino.

Na luta contra Mor’du, da qual Merida e a própria Elinor participam, essa quebra de paradigma se acentua, pois sem a participação das mulheres como guerreiras nesse conflito não teria havido vitória contra a fera, e a própria arte da luta passa a ser admitida como uma atividade unissex.

Por outro lado e complementarmente, as diferenças entre os diversos modelos de masculinidade passam a ser entendidos mais como idiossincrasias e particularidades pessoais do que como moldes no quais se encaixar os indivíduos. O rompimento com a tradição do casamento arranjado traz consigo um rompimento com a obrigação de os homens se provarem enquanto tais, seguindo carreiras diferentes daquelas esperadas por seus pais. O jovem Dingwall, por exemplo, talvez quisesse ser músico, tendo em vista que ele prefere usar o arco para tirar notas de suas cordas e não tem o menor jeito para atirar flechas.

Pós-generismo

Valente é uma ótima alegoria para se discutir o relativismo das identidades de sexo e de gênero. Aquilo que entendemos como identidades masculina e feminina não estão dados pela natureza, e essas noções estão sempre variando no tempo, no espaço e no contexto.

Merida antes e depois

A história de Merida e seu drama familiar pode ser lida como uma alegoria das revoluções sociais. A princesa guerreira promove uma situação de crise em sua sociedade e nos valores de sua cultura. Ela não apenas apresenta uma alternativa para a tradição que obriga jovens a se casar contra seu desejo pessoal. Ela também explicita a violência da imposição de identidades/papéis de gênero. No final, ela consegue fazer sua sociedade mudar a ideia do que é feminino e masculino, e Merida, que podia ser entendida como sendo híbrida, passa a ser aceita como uma possibilidade de fêmea-mulher-feminina. Até sua mão, outrora ferrenha defensora dos papéis tradicionais de gênero, passa a realizar atividades que provavelmente sempre teve vontade de fazer, como cavalgar livremente pelos campos. A sociedade humana evolui.

Entretanto, se as mudanças que vemos ocorrer nesse processo evolutivo mostram, por um lado, a capacidade das instituições humanas de se reinventarem, elas mostram, em contrapartida, os mecanismos pelos quais as novas configurações se adequam às mesmas estruturas antigas. Ou seja, ao invés de se passar a considerar Merida como um novo tipo de identidade/papel de gênero, ela continua a ser entendida como pertencente ao lugar supostamente reservado às fêmeas humanas. Ao invés de se admitir uma androginia de sua personalidade, a cultura cria uma nova feminilidade socialmente aceita.

(É o que acontece com qualquer tipo de acessório tradicionalmente masculino que passa a ser usado por mulheres, ou acessórios femininos que passam a ser usados por homens. As roupas que passam a ser unissex, como as calças, sofrem modificações para se adequar ao corpo das mulheres e para não parecerem “masculinas”. As bolsas, tidas como objeto exclusivo das mulheres, são modificadas para não deixar os homens “feminilizados”. Perpetua-se assim a cisão entre os dois universos, e qualquer pessoa que não adote a variação socialmente aceita de um objeto para o seu sexo-gênero entra no mundo do transgenerismo e causa estranheza.)

Assim, Merida não é uma transexual, pois ela não sofre agonia por pertencer ao sexo feminino e ter a identidade de mulher. Porém, ela é num primeiro momento uma transgênera, e suas atitudes, bem como os eventos decorrentes de sua história, fazem vislumbrar uma nova sociedade, em que as imposições ligadas ao sexo e ao gênero são mais frouxas e talvez venha, num futuro mais distante, dissolver a dicotomia e possibilitar o aparecimento de identidades totalmente inesperadas e inauditas. A visibilidade do transgenerismo, cada vez maior, pode nos levar aos poucos a um pós-generismo, em que não haja mais a imposição de identidades e papéis de gênero, tolhedoras das individualidades.

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Princesa, heroína e guerreira: Valente

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A respeito da resenha de Thiago Leite sobre o filme Valente, considero que houve um equívoco crasso quando se categorizou a Valente princesa Mérida como transexual, “guerreiro em corpo de mulher / herói em corpo de princesa”, pois existe uma diferença abissal entre ser transexual, ou seja, pessoa com transtorno de identidade de gênero, que não aceita o próprio sexo biológico e sofre com isso, e ser uma pessoa simplesmente inconformada com seu papel social de gênero. E sinto que este tipo de confusão, se perpetuada, seja um desserviço tanto para as mulheres inconformadas com um papel social que as oprime e reprime, quanto para os transexuais, que sofrem muito pela não aceitação de seu sexo biológico.

Mérida se ressente de seu papel social opressivo de mulher, de não poder correr livre em seu cavalo, de não poder usar seu talento como arqueira em competições, de não poder lutar por si mesma. Não vemos a Valente princesinha Mérida exibir sofrimento intenso por seu sexo biológico de mulher, nem mesmo quando o filme a mostra sozinha e livre para fazer o que deseja. Pelo contrário, não a vemos tentando extirpar seus seios ou mesmo disfarçá-los com faixas apertadas, leva seus cabelos vermelhos revoltos ao vento sem cortá-los ou trançá-los, não usa calças, usa vestidos longos e sente-se confortável com eles, usando-os até para escalar montanhas. Vale lembrar que cabelos longos, principalmente vermelhos, são forte símbolo de feminilidade e que cabelos longos, brilhantes e saudáveis são sinais de fertilidade e saúde, logo a feminilidade de Mérida é pontuada através destes símbolos adequados à cultura ocidental, principal público-alvo da Pixar, desde as primeiras cenas do filme. Mérida é menina e moça, guerreira, heroína e princesa.

Eis algumas definições tiradas do ótimo artigo “Transexualismo Masculino”, de Amanda V. Luna de Athayde , artigo este que recomendo fortemente ler:

Gênero: é o que o ser humano se torna sexualmente, seja homem ou mulher.

Identidade de gênero: é a convicção interna de feminilidade ou masculinidade.

Papel de Gênero (gender role): é o estereótipo social do que é masculino e o que é feminino.

Desordens [transtornos] de Identidade de Gênero: é quando existe uma discordância entre o sexo biológico e sua identidade de gênero, entre as quais se encontra o transexualismo.

O transexual não se opõe apenas ao papel social que lhe é imposto como homem ou mulher, ele realmente sofre desesperadamente por ter o sexo biológico que tem e em muitos casos tenta até se mutilar para tentar fazer seu corpo se parecer mais com o sexo com o qual se identifica. Moças biológicas, mas transexuais masculinos, podem tentar arrancar os seios e meninos biológicos, mas transexuais femininos, podem tentar arrancar o pênis, por isso é tão importante diagnosticá-los cedo e encaminhar para cirurgia de mudança de sexo, para evitar que sofram desnecessariamente e até possam se mutilar…

O transexual geralmente tem extrema antipatia, aversão mesmo, ao próprio genital e aos caracteres sexuais secundários, como seios, barba, músculos ou a falta deles etc. Às vezes o transexual prefere ficar sem atividade sexual, extirpando o pênis, por exemplo, para se parecer com o sexo com que se identifica, do que ter alguma atividade sexual com seu genital. A atração sexual para eles é secundária, várias vezes muito baixa, o problema real é o desgosto com o próprio sexo.

Eis a definição do CID-10 sobre Trasexualismo:

F64.0 Transexualismo
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.

Sugiro o excelente documentário Meu Eu Secreto, sobre crianças transexuais, para melhor compreensão do transexualismo, que quase nada tem a ver com atração sexual:

Também sugiro assistir ao ótimo filme Transamerica, com a excelente Felicity Huffman, onde podemos ver, entre outros casos, um transexual masculino e um transexual feminino apaixonados depois da cirurgia para troca de sexo.

Sobre Mérida ser heterossexual ou homossexual, também não é este o ponto central da história e não vemos a princesa exibir atração, seja pelo sexo oposto, seja pelo sexo similar ao seu, nem por rapazes, nem por moças, pois é muito jovem, aparenta ter entre 14 e 15 anos, não a vemos suspirar por ninguém e o foco do filme foi a relação entre Mérida e sua família, principalmente sua mãe, a rainha reprimida e submissa ao seu papel social de gênero e que, apesar de amar e ser muito carinhosa com Mérida, tentava impor a ela sua própria repressão e submissão ao papel social de princesa e mulher. Mérida diz que ainda não está pronta para casar e podemos apenas ver que despreza as bravatas do primogênito Macintosh, mostra uma pontinha de interesse pela força do primogênito de MacGuffin e junto com toda sua familia mostra surpresa e admiração com o “guerreirão” que à primeira vista parece ser o primogênito do Clã Dingwall, e que se desaponta com o verdadeiro filho de Dingwall, como pode ser visto neste trecho do filme disponibilizado no Youtube:

A rainha era uma mulher extremamente forte, poderosa, porém rigidamente reprimida e resignada ao seu papel social, usando o poder que tinha somente dentro das limitações deste papel, sendo emblemática a conversa que tem com o pai de Mérida quando este tenta lhe ajudar a falar com a filha e se espanta quando ela deixa escapar, como se falando com Mérida, que ela também, apesar de estar agora bem casada, teve seus receios ao ser obrigada a casar, mas acabou casando e ficou tudo bem.

A jornada desta mãe e desta filha para a desrepressão é o foco do filme, Mérida aproveita as lições da mãe quando necessário, usando sua presença feminina e porte ao cruzar o pátio cheio de guerreiros brigões, fazendo-os parar de brigar com sua majestosa presença, impostando sua voz ao fazer seu discurso, como sua mãe lhe ensinou e, divertidamente, usando a técnica do pai, gritando para fazê-los parar de falar quando quer. Mérida aceita e utiliza tanto as lições da mãe quanto as do pai para conseguir seus objetivos.

Interessante notar que o pai de Mérida a apoia e, naqueles tempos tão perigosos, diz que “lutar é fundamental, não importa se ela é uma lady ou não”.

Vemos este paizão apoiando Mérida ao longo de todo filme e neste clip da Pixar, disponível no Youtube, vemos como ele dá a Mérida lições de esgrima, escondido da mãe.

Os irmãos de Mérida a admiram, como pode ser visto no trecho onde ela conta que bebeu água na Cascata de Fogo e a ajudam ao longo da história.

Também é interessante ver que Mérida não se amedronta frente aos outros guerreiros e ao pai, enfrentando-os e até cruzando espadas com o pai e impedindo-o de machucar a mãe-ursa. Quantas meninas, héteros perfeitamente identificadas com seu sexo biológico, não sonham a mesma coisa ao serem ameaçadas e/ou verem seus entes queridos, inclusive suas mães submissas sendo ameaçadas/espancadas por este mundo afora?

Mulheres inconformadas com a imposição social de seu papel de gênero não são necessariamente homossexuais e muito menos transexuais, muitas de nós somos mulheres heterossexuais e gostamos muito de nosso próprio sexo biológico – e mais ainda de nossa capacidade de termos orgasmos múltiplos, só quem já sentiu sabe como é bom – e nos sentimos atraídas pelo sexo oposto. “Cheiro de homem” nos encanta e excita. Queremos ter a liberdade de, além de fazer sexo com nosso “príncipe encantado”, poder viver, trabalhar e até lutar ao lado dele. Queremos ter os mesmos direitos e deveres de nossos parceiros, não sermos nossos parceiros.

Não dá para saber se a Valente Mérida é heterosexual ou homosexual, pois isso não fica claro no filme, o foco é a relação dela com a mãe e a sociedade machista e repressora, mas dá para saber que ela é uma mulher, não um transexual, e que está inconformada com seu papel social de gênero, não quer ser reprimida e resignada a seu papel social de mulher, como a mãe, mas livre para cavalgar e usar arco e flecha ou espadas, subir em montanhas e o que mais quiser.

Para pensar: geralmente quando uma mulher heterossexual tenta se insurgir contra o seu papel de gênero socialmente imposto (redundância proposital), uma das violências que sofre é a tentativa de lhe atribuírem estigmas que não lhe são realistas, como ser homossexual ou transexual. Ela não quer se submeter a seu papel de mulherzinha, então tentam lhe roubar a própria feminilidade, caluniando-a com o estigma homossexual / transexual que não lhe pertence.

É nesse ponto que identifico o desserviço a nós mulheres e aos transexuais, pois a resenha inicial sobre Valente reduz o sofrimento destes ao simples inconformismo com o papel de gênero e nos rouba a possibilidade de sermos mulheres héteros, femininas e valentes inconformadas ao papel de gênero.

Várias mulheres ao longo da história mereceram o título de “guerreira” e não “guerreiro”, como por exemplo: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Joana Angélica, e mais diversas, entre as quais uma lista pode ser vista aqui, o de “heroína” e não “herói”, como Amélia Earhart, Rosa Parks, Eva Perón, Aung San Suu Kyi e tantas outras. Além disso, também existem os termos “pioneira” para designar mulheres como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Ada Lovelace, Florence Nightingale etc., sem contar as mulheres identificadas ao longo da história com os termos “lutadora”, “desbravadora”, “escritora”, “autora”, “professora”, “astrônoma” etc. Interessante notar que “Valente” admite ambos os gêneros.

Repetindo-me propositalmente: Mérida não tem problemas com seu corpo, até quando escala montanhas e está sozinha ela não dá qualquer demonstração de não aceitá-lo. Ao contrário, sua feminilidade é enfatizada por usar vestidos longos sempre, até cavalgando e escalando, e ter seus longos cabelos esvoaçando ao vento. O filme é muito feliz na sutileza com que aborda o não conformismo, tanto de Mérida com seu papel social, quanto de sua mãe, com o corpo de ursa. Penso que é um filme que ajudará gerações de crianças, tanto héteros quanto homo e transexuais a serem mais assertivas em suas vidas e terem a noção de que podem sim serem diferentes, que não precisam se submeter ao que a sociedade lhes impõe.

O prêmio de Mérida ao final do filme não é o príncipe encantado, é a liberdade de ser quem ela é.

Eis mais algumas definições, a grosso modo, só para esclarecer um pouco mais as diferenças e semelhanças sobre a diversidade sexual e de comportamento que há por aí:

  • Heterossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo sexo oposto ao seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Homossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Bissexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional tanto pelo sexo oposto quanto pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Transexual é a pessoa que não se identifica com seu sexo biológico, desejando ter o genital do sexo oposto e ser do sexo oposto, não importa o tipo de atração sexual que sente, ou se sente. Seu sofrimento é muito maior do que a simples inconformação com um papel social de gênero ou do que simplesmente sentir-se atraído por pessoas do próprio sexo.
  • Travesti é a pessoa que veste roupas do sexo oposto, seja temporariamente, seja por longo tempo, o objetivo é a excitação sexual. O travesti pode gostar muito do próprio genital, de ter um pênis, sendo atraído por homens ou por homens e mulheres. Não confundir com travestismo transexual, quando o transexual veste roupas do outro sexo por identificar-se com ele. O travesti tem forte impulso sexual, o transexual geralmente não tem impulso sexual forte.
  • Crossdresser é a pessoa que se veste como o sexo oposto, seja por que motivo for, apenas por brincadeira, por profissão, por gostarem etc. O rapaz que usa saia como curiosidade e protesto social, mas é homem hétero e gosta de mulher, é/está crossdresser. Mulan, outra forte princesa Disney, foi crossdresser por necessidade, para proteger o pai disfarçou-se de homem e entrou no exército, mas nunca deixou de ser mulher e, no caso, bem mostrado no filme, heterossexual.

Sugiro ver este link da Wikipédia para entender mais sobre travestismo, pois há muito mais diversidade do que imaginamos e esta página tem alguns exemplos e definições ótimos.

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Valente

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Valente (Brave, 2012), produção da incorruptível Pixar, traz um conto de fadas com mais uma princesa em busca da realização do seu destino. A diferença é que, contrariamente a todas as princesas Disney (distribuidora da obra), Merida não é uma mera donzela passiva e seu destino é incerto durante toda a narrativa.

Sinopse (com spoilers)

Filha de Fergus, chefe do clã escocês DunBroch, e de Elinor, a primogênita Merida é desde criança incentivada pelo pai a usar o arco, instrumento tradicionalmente reservado aos homens, e ela desenvolve o gosto pela aventura e por tudo o que se relaciona ao mundo masculino, desprezando as lições da mãe sobre feminilidade e a boa conduta de uma princesa.

A impertinência de Merida chega ao cúmulo quando ela se recusa a escolher um pretendente entre os primogênitos dos outros clãs (Dingwall, MacGuffin e Macintosh – este último nome faz parte da homenagem da obra a Steve Jobs), o que quase dá início a uma guerra. Depois de brigar com a mãe e simbolicamente rasgar uma manta costurada por Elinor, Merida segue fogos fátuos na floresta, que sua mãe dizia serem mágicos e levarem ao destino de quem os seguisse, e encontra uma bruxa, que lhe vende um feitiço para “mudar minha mãe e meu destino”.

O feitiço transforma Elinor num urso, o que obriga mãe e filha a fugirem do castelo (especialmente pelo fato de Fergus estar esperando há anos por se vingar de Mor’du, um urso que lhe arrancou uma perna). Merida descobre que o feitiço só pode ser quebrado se ela decifrar um enigma que envolve a reconstituição de algo que foi alterado. Após viver algum tempo com a mãe (em forma de urso) na floresta, elas retornam ao castelo, onde Merida (com o auxílio da mãe) consegue convencer os chefes dos quatro clãs de que a tradição deveria ser alterada e os jovens deveriam poder decidir com quem vão se casar.

Enquanto Merida costura a manta que ela rasgara, pensando que assim poderia quebrar o feitiço, Fergus encontra e enfrenta a própria esposa, achando que é Mor’du, e conclama seus guerreiros para executá-la. O verdadeiro Mor’du aparece, e Elinor consegue matá-lo numa luta. Com todos reconciliados, a rainha volta à sua forma humana e o equilíbrio é restabelecido numa nova ordem.

A jornada da heroína

A trama de Valente em si mesma é um simples conto de fadas como qualquer outro. Segue toda a estrutura narrativa campbelliana (a jornada do herói) e acrescenta pouca novidade em comparação com as histórias folclóricas consagradas, especialmente aquelas imortalizadas na telona pela Disney. Porém, a Pixar sabe, mais do que adaptar contos de fadas para o cinema, inventar novas fábulas (quase todos, senão todos, os roteiros do estúdio são originais). E mesmo pisando em terreno conhecido, Valente traz uma novidade óbvia, que é uma heroína do sexo feminino.

Logo no começo da história, vemos que Merida está destinada ao conflito entre a liberalidade do pai e as exigências tradicionais da mãe. E é bom salientar que a jovem não se torna pura e simplesmente uma guerreira obtusa como Fergus. Diferente deste, ela acredita em magia e em lendas, e deve isso à sua mãe. Sem esse elemento fantástico, a trama não se desenvolveria como o fez.

No início deste texto eu disse que Merida não é como as outras princesas Disney. E o principal elemento que lhe falta para ser uma é um interesse amoroso, um príncipe para chamar de seu (ou para que ele a chame assim). Nenhum dos pretendentes desperta o menor interesse nela, e durante toda a história não aparece a menor menção sub-reptícia de um possível amor romântico. Merida é uma amazona como as das lendas gregas, condensa em si mesma os dois papéis, o de princesa e o de guerreiro, assumindo a responsabilidade pelo próprio destino.

Todo a resolução do conflito é resolvida pelas duas mulheres protagonistas, Merida e Elinor. Não que nas lendas e contos as mulheres não resolvam conflitos (vide Psiquê na mitologia grega), mas é raro que o façam como guerreiras e não utilizando a psique. Normalmente, o feminino, nos contos de fadas, se encarrega da parte mágica e psíquica dessa resolução, enquanto os conflitos físicos são tarefa dos homens. Em Valente, vemos uma mudança nesse paradigma, pois as duas metades, o yin e o yang do drama, são empreendidos pela mulher.

A fábula poderá ter um efeito positivo em meninos, acostumados com heróis masculinos, e em meninas, que praticamente só conhecem nas histórias garotas que são princesas. A quebra do paradigma sexual dualista, embora ainda não radical, possibilita a reflexão sobre a liberdade individual perante as exigências sociais quanto à identidade de gênero.

Herói em corpo de princesa

O filme tem uma mensagem oculta, que a maioria das crianças e grande parte dos adultos não vão perceber. Merida é uma transexual. Ela não assume a identidade feminina exigida pela sua cultura, tendo uma personalidade e hábitos de um homem. Participa ativamente de atividades esportivas/bélicas, caminha com uma postura masculina, não se importa quase nada com vestidos e maquiagem e não segue a etiqueta ensinada por sua mãe à mesa.

É importante fazer uma referência a Mulan, uma das principais princesas da Disney. É inevitável que se façam comparações entre as duas, mas Mulan não nasceu no corpo errado, digamos assim. Ela não é uma amazona, e só assume a identidade de homem para evitar uma desonra familiar e a destruição do Império Chinês. Quando termina sua missão, ela volta a ser a moça prendada que sempre foi e até se casa com um galante general ao qual serviu em batalha.

Merida continua a ser, de certa forma, um rapaz em corpo de moça ao final da história, e mesmo mantendo uma identidade feminina, pode-se ler nas entrelinhas uma tímida mensagem destinada às pessoas que, por alguma razão, sentem-se como se não pertencessem ao sexo com o qual nasceram.

Corrobora essa interpretação a necessidade de sua mãe assumir outro corpo para vir a compreender a filha. O feitiço ajudou Elinor a entender o drama de Merida, ou seja, a falta de identificação com o próprio gênero. Sendo assim, embora seja muito sutil, a mensagem do filme é bem subversiva para os padrões do cinema infanto-juvenil. A pequenos passos, o cinema está evoluindo.

Adendo importante (10/08/2012 e.c.) (editado em 28/11/2013 e.c.)

Vejo agora que a afirmação acima de que Merida é “transexual” é uma forçação de barra que teria sido melhor evitar.

Leiam com atenção o post Princesa, heroína e guerreira: Valente de Nívea Melo, uma crítica muito boa ao meu texto, que traz outras questões pertinentes para a compreensão da mensagem do filme. Leiam também o texto que escrevi posteriormente, Merida, seus pretendentes e o transgenerismo.