Coleção de sinapses 8

Padrão

Nesta semana contribuí com um abaixo-assinado contra o trabalho escravo e outro a favor da manutenção da política de regularização de territórios quilombolas. Li sobre cientistas que contribuíram para desfazer a imagem das lulas gigantes como monstros, enquanto a Editora Abril se mostrou um monstro ao demitir um de seus renomados funcionários que fez a besteira de exercer sua liberdade de expressão.

Vi um ovo projetar um pinto numa releitura imagética da natureza e li sobre uma triste tentativa do estado do Arizona de levar uma releitura empobrecida da história americana para as escolas. Vi também uma releitura escultural da fictícia morada de Bilbo Bolseiro e um leitura cultural e histórico do papel dos negros, da escravidão e da Abolição no Brasil, enquanto ouvia uma conversa sobre a ficção científica de Douglas Adams, que aborda a cultura, a história, a vida, o universo e tudo mais.

Abaixo-assinado pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo -PECcravo do Trabalho E

O trabalho escravo foi abolido oficialmente no dia 13 de maio de 1888, mas não o foi de fato. É preciso que o Estado exerça o princípio contido na Lei Áurea, de acabar efetivamente com qualquer situação de alienação dos indivíduos humanos de sua própria integridade e liberdade.

Quilombolas-STF – PetitionOnline

A política de regularização de territórios quilombolas promovida pelo Estado brasileiro tem falhas conceituais e processuais. Mas ela é necessária para que a Reforma Agrária do país seja completa. Há muita gente vivendo há muito tempo em terras sobre as quais não consegue exercer o direito de propriedade, devido à situação marginalizada e à opressão de quem se utiliza de poder político, econômico e social para esbulhar e se apossar do que acha que pode ser seu. Penso que há muito o que mudar na referida política, mas acho que isso deve ser feito sem que os trabalhos já iniciados seja prejudicados e mais gente continue vendo seus direitos humanos negados.

Colossal Squid Is No Monster, Study Finds – LiveScience

A lula gigante provavelmente inspirou o mítico monstro Kraken, do imaginário escandinavo. Mas, se observarmos bem a natureza, muitos dos maiores animais não são caçadores e são os mais dóceis (contanto, claro, que os deixemos em paz). Elefantes, baleias, girafas, hipopótamos; na pré-história, braquiossauros, tricerátopes, mamenquissauros… até porque quanto maior é o animal, mais lento ele é.  Bbiólogos estão descobrindo que as lulas gigantes não são predadores ferozes, mas esperam pela presa para agarrá-la.

Jornalista é demitido da National Geographic por criticar Veja no Twitter – PortalImprensa

Felipe Milanez utilizou sua conta de Twitter pessoal para criticar o racismo e a manipulação de informações da revista Veja. Mas, mesmo tendo tido um papel importante para a consolidação da National Geographic no Brasil, foi demitido. É claro que uma empresa quer que seus empregados zelem pelo nome e a reputação de seus patrões. Mas… ora bolas, a Veja tem uma péssima reputação na visão de muitos jornalistas. A Nat Geo é uma ótima revista, talvez por veicular informações que não tocam tanto em assuntos políticos, que é um dos pontos fracos do Brasil.

Chicken and the Egg – Tim O’Brien

Uma ilustração bonita e original, uma metáfora entre natureza e tecnologia. O que veio primeiro, o ovo, o projetor ou a galinha? Essa imagem, aliás, me remeteu ao estilo de Luigi Serafini, em seu extravagante e surreal livro Codex Seraphinianus.

Estado do Arizona proíbe matérias sobre minorias étnicas nas escolas – G1 Mundo

Os Estados Unidos talvez sejam o país que mais contribui para a visão ocidental (compartilhada pela cultura brasileira também) de que o branco-caucasiano-europeu-dolicocéfalo é o humano normal, sendo os outros povos e etnias considerados variações menos perfeitas e que precisam abandonar a primitividade e adotar o American Way of Life, mais evoluído, mais avançado, mais humano… Negar a diversidade humana é uma forma de negar uma das características mais fundamentais de nossa espécie, e negar a contribuição de múltiplas origens da história dos EUA é dividir desigualmente o prêmio da construção do Império Norte-americano. Agora o Arizona quer ensinar às crianças a se definir como exclusivamente euro-descendentes, negando sua mestiçagem (biológica ou não, mas cultural certamente) e até esquecendo que seu atual presidente é um autodeclarado mestiço.

My Hand Made Hobbit Hole – Bag End from Lord of the Rings – Madshobbithole’s Blog

Uma muito bonita adaptação artesanal da casa de Bilbo Bolseiro (protagonista de O Hobbit, de J. R. R. Tolkien), escavada dentro de uma colina. A morada de Bilbo já é para os humanos medianos uma miniatura, e essa miniatura da miniatura nos remete ao fascínio pelas representações diminuídas da realidade “normal”. É como se , ao nos imaginarmos naquele cenário miniaturizado, simulássemos o desejo de ser pequenos, ou seja, de voltar a ser crianças. O mais interessante, no entanto, é que isso tudo está me inspirando para escrever um texto mais longo sobre o tema… aguardem.

O Negro No Brasil Pós-Abolição – Conversa de Bar

13 de Maio – Conversa de Bar

13 de Maio – Dia Nacional de Luta Contra o Racismo – Conversa de Bar

Eduardo Prado fez em seu blog Conversa de Bar um pequeno dossiê sobre o racismo e a Abolição da escravidão, ensejado pelo 13 de maio. Como já discorri acima, a escravidão é um processo incacabado. Além disso, a Abolição é um fato controverso de nossa história, pois aboliu a condição de escravos dos africanos e seus descendentes, mas não houve nenhuma ação do Estado para que esses recém-libertos passassem a viver como gente livre. Daí toda uma série de desigualdades que se perpetua até hoje.

Nerdcast 209 – Douglas Adams – A Vida, o Universo e Tudo Mais – Jovem Nerd

A “trilogia de 5 livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, é uma ótima fonte de diversão inteligente, humor intelectual ou qualquer coisa parecida. Um belo exemplo do refinado humor britânico, aplicado à ficção científica e às histórias de aventura espacial. Neste episódio do Nerdcast, os locutores faze um apanhado dos de alguns dos aspectos mais interessantes da obra de Adams. Mas eu sugiro veementemente que o ouvinte leia pelo menos o primeiro livro da “trilogia” antes de escutar o episódio. E se prepare para sair com sua toalha no dia 25 deste mês. A propósito… NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Coleção de sinapses 7

Padrão

Nesta semana, vimos que a questão das cotas raciais se complexifica com os argumentos de um militante negro anticotas, e jogamos um joguinho de uma fase só que se complexifica a cada etapa, enquanto assistimos a um belo e complexo filme concebido por Dalí e Disney e os filmes da série Guerra nas Estrelas foram lembrados no seu próprio dia comemorativo,

Acompanhamos a discussão sobre mídia hegemônica e políticas de reconhecimento, vimos uma crítica gráfica aos que são contra as políticas que defendem o casamento entre homossexuais, encontramos indícios de que humanos e neandertais se casaram antes de estes se extinguirem (ou não) e vimos que ainda não se extinguiu a teoria de que Jesus veio do espaço.

O Estado deve incluir, jamais discriminar – CartaCapital

Nessa entrevista com José Roberto Militão, vemos que nem todo o Movimento Negro é a favor das cotas raciais, o que pode enriquecer muito o debate sobre a real função e conseguências de uma política de reservas de vagas baseadas em critérios raciais.

This Is The Only Level – Armor Games

Neste joguinho simples para relaxar no trabalho, cada fase se passa no mesmo lugar, com pequenas variações que vão deixando o jogo mais difícil. Às vezes a gravidade e/ou os controles se invertem, às vezes os obstáculos são diferentes… enfim, um jogo casual.

O “Destino” uniu Salvador Dalí e Walt Disney – Design on the Rocks

Em 1946, o mágico da animação Walt Disney se encontrou com o mágico da pintura Salvador Dalí e ambos conceberam a ideia de um filme chamado Destino. Infelizmente, o projeto foi arquivado. Felizmente, um funcionário dos Estúdios Disney retomou o projeto e criou um curta que combina o caráter fantástico da animação disneyiana e as extrapolações sensoriais do gênio surrealista.

Star Wars Day – Wikipedia

Descobri que 4 de maio é o Dia de Guerra nas Estrelas, ou Star Wars Day. Tudo por causa da sonoridade de May the 4th, que lembra “May the Force…”, primeiras palavras da icônica frase “May the Force be with you”, proferida pelos jedi da galáxia concebida por George Lucas.

A Veja e as Políticas de Reconhecimento – Núcleo de Análises em Políticas Públicas – UFRRJ

A revista Veja é conhecida por manipular informações em nome do status quo da sociedade brasileira, além de privilegiar matérias direcionadas à elite, pouco representando os interesses das minorias. Na matéria A farsa da antropologia oportunista, Veja publicou dados incorretos sobre as áreas indígenas, de preservação e quilombolas,  truncou e inventou citações de dois estudiosos das Ciências Sociais e proferiu expressões preconceituosas e pouco compreensivas da realidade antropológica brasileira. O dossiê linkado acima mostra a matéria e diversas respostas e contrarrespostas, evidenciando as contradições da mídia que se pretende imparcial mas veicula sutilmente sua posição política.

Tradukka

Ainda não se criou um tradutor automático perfeito e, se Umberto Eco estiver correto, nunca aparecerá um. Mas o Tradukka até que acerta bastante. Porém, sigam meu conselho: nunca confiem cegamente num tradutor automático. Ao invés disso, participem dos Wordreference Language Forums, onde é possível conversar com nativos dos idiomas estudados e entender nuances de significado que escapam aos tradutores automáticos.

Consequences of gay marriage – Flickr

Há ainda quem pense que o casamento entre homossexuais, por ser contrário a uma tradição milenar, vai trazer grande sofrimento aos seres humanos, talvez advindo de uma punição de um poderoso deus que nos confunde com ideias como “livre arbítrio” e “pecado”.

Farinha do mesmo neandertal – Xis Xis

Seria improvável que, no contato dos humanos modernos com os neandertais, não tivesse ficado nenhum resquício.  E agora sabemos que alguns de nós têm herança genética do Homo sapiens neanderthalensis. Assim, talvez não seja tão acurado dizer que os neandertais estão extintos…

“Jesus Cristo era um ET” – CartaCapital

As pessoas que têm contatos imediatos dos mais variados graus com extraterrestres normalmente são figuras notáveis. Lourival Navarro não é exceção, mostrando-se um polímata que conserta bolsas, administra um estúdio de gravação, faz música e conhece todas as supostas referências bíblicas aos assuntos da Ufologia. Um potencial intelectual que poderia ter sido melhor aproveitado, talvez…

É proibido duvidar

Padrão

Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo aguerrido essa opinião pública. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é falar sobre religião e Deus.

Não é nada fácil ser agnóstico e muito menos ser ateu numa cultura em que predomina o monoteísmo cristão. Dizer que não se tem certeza se existe um deus ou Deus é convidar os teístas mais fanáticos a nos dar um sermão. Afirmar que Deus não existe é despertar pena ou ganhar a desconfiança de algumas pessoas.

Pior ainda é quando sua forma de encarar a existência de Deus é complexa demais para ser denominada pelos termos disponíveis no mercado linguístico. Se alguém me pergunta se acredito em Deus, responder que “não acredito” resume bem minha visão, mas desperta uma série de preconceitos atrelados a essa frase que não correspondem exatamente à minha visão do tema.

Uma colega minha do trabalho não acredita que exista Deus nem afirma sua inexistência. Para mim, ela se encaixa no conceito de agnóstica. Mas ela não se considera agnóstica nem ateia nem teísta. Conversando com ela, sugeri que ela é agnóstica, mas ela discordou, dizendo que não aceita essas denominações.

Desde que comecei a entender bem o que significa ateísmo, agnosticismo e Ciência, comecei a me considerar cientificamente agnóstico e filosoficamente ateu. O primeiro termo se refere à minha ideia de que não é possível, através da investigação científica, averiguar a existência ou a inexistência de um criador onipotente, onisciente e/ou onipresente. Na Ciência, não se tratam de verdades absolutas, mas de aproximações da realidade, e toda afirmação científica é, de certo modo, agnóstica, pois não é revelada e sim o resultado de um esforço cognitivo.

O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade absoluta, humana ou divina. De modo que me reporto ao pensamento de Mikhail Bakunin, para quem a existência do Deus das religiões monoteístas implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltaire (“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”), Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”. O que me faz relacionar filosofia e ateísmo é uma noção ética, moral, ou seja, mesmo que exista algo que se possa chamar de Deus, considero antiético que sua existência implique na servidão humana.

Além disso, algumas de minhas perspectivas de existência são contrárias a grande parte das crenças dos ateus. Considero, por exemplo, que as manifestações da consciência humana extrapolam os 5 sentidos do corpo físico, que podemos nos manifestar fora desse mesmo corpo (o que se conhece como projeção astral, experiência fora do corpo ou projeção da consciência), que faz sentido que cada um de nós tenha tido outras vidas e terá outras no futuro e que nesse processo estamos evoluindo, cada um, para uma condição cada vez mais avançada. Isso não quer dizer que eu não possa me considerar ateu, pois o sentido estrito dessa palavra é a negação (a-) da divindade (théos).

Etiqueta

Certa vez li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais figurava a religião. Ora, quando se diz isso, o que se deixa implícito  é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, não há riscos de haver confusão ao se falar de religião num jantar onde todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Esse risco é até pequeno mesmo quando cristãos de diversas correntes discorrem sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles.

Entretanto, não se considera aceitável deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. Um especialista em etiqueta que recomenda a discrição na hora de se abordar religião pode estar implicitamente assumindo que tem uma religião que acredita ser a correta e não gosta que outros abordem suas crenças de maneira crítica, mesmo que seja para ajudar a entender melhor algum aspecto dessa crença.

A lógica dessa etiqueta se baseia na ideia de que as religiões têm que ser respeitadas (mesmo que seus discursos incluam críticas a outras formas de pensar) e que a crítica às religiões é um erro, pois seria a negação de algo fundamental da natureza humana. É a mesma lógica de quem pensa que os símbolos religiosos têm que estar presentes nas instituições públicas de um Estado laico (mesmo que eles ofendam algumas pessoas) mas se sente ofendido com uma manifestação ateísta ou de outra religião. A tirinha abaixo, de Don Addis, resume extraordinariamente bem o que tenho em mente:

"Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!" "Ei! Que tal mostrar algum respeito?!"

“Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!” “Ei! Que tal mostrar algum respeito?!”

Porém, é preciso levar em consideração um outro aspecto, que se relaciona à mesma ética a que aludi acima: às vezes uma pessoa tem tão entranhada em si uma convicção que questionar e desconstruir de maneira lógica seu pensamento seria uma violência.

Mas se todos incorporassem verdadeiramente uma postura racional e civilizada, poderiam deixar de lado esses melindres e discutir abertamente seus pontos de vista, flexibilizando-se a novas experiências e novas perspectivas, sem as noções preconcebidas de que “é preciso mostrar ao outro que eu estou certo”. Surgiria então uma nova etiqueta, baseada no discernimento, no abertismo e no universalismo, e toda essa bobagem de discrição na hora de abordar certos temas seria superada.

Notas

Este texto é uma versão ampliada de um post originalmente publicado na primeira Teia Neuronial. Seguindo a ideia que expressei no texto A Morte e o Texto, decidi, ao invés de pegar os textos antigos e republicá-los integralmente, reconstruí-los, atualizando as ideias a respeito dos temas abordados, seja porque mudei minha forma de vê-los, seja porque há algo novo a acrescentar.

Confiram o texto original neste link ou abaixo:

Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é religião e Deus.

Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar cientificamente agnóstico mas filosoficamente ateu. Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Há algum tempo li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava religião. Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.