Sexualidade alienígena – parte 1

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O ser humano tende a antropomorfizar a natureza, ou seja, representar a realidade ao seu redor segundo parâmetros construídos a partir de sua própria experiência. Um dos exemplos mais marcantes em nossa cultura e idioma é a classificação de coisas inanimadas em gêneros masculino e feminino e a representação dessas coisas segundo o que se entende como características masculinas e femininas.

Extrapolando tudo isso, é comum imaginarmos, em histórias de ficção científica, que as espécies alienígenas que porventura possamos encontrar universo afora tenham características muito parecidas com as humanas, como a divisão em dois sexos/gêneros e a procriação sexuada. Até mesmo a existência de algo que possamos identificar como sexualidade é resultado do antropomorfismo.

Mas sabemos quase nada sobre a fisiologia de espécies extraterrestres e só podemos especular, segundo alguns exobiólogos, imaginando que, se uma determinada forma de funcionar deu certo para nós, deve ter se desenvolvido também em outros lugares do Cosmos.

Porém, é provável que a variedade das formas de vida no universo seja muito maior do que tendemos a imaginar, e a forma humanoide dimórfica pode não ser o modelo mais comum. Mas a grande maioria dos alienígenas inteligentes da ficção científica é humanoide e dimórfica, o que pode se dar pelos seguintes motivos:

  • os limites da imaginação humana;
  • o antropomorfismo nas representações do Cosmos;
  • o fato de, no cinema e na televisão, ser mais fácil fantasiar atores humanos para interpretar personagens alienígenas e
  • o fato de muitas histórias com extraterrestres serem alegorias dos problemas enfrentados nas relações entre seres humanos, sendo as espécies alienígenas representações da diversidade humana.

O dimorfismo sexual de espécies humanoides na ficção científica não se resume apenas a uma funcionalidade procriativa, mas envolve o estabelecimento de uniões e alianças entre os indivíduos, diversas formas de afetividade e regras tácitas de como machos e fêmeas se comportam no sexo. Tudo isso pode ser justificado por uma necessidade evolutiva, pois podemos presumir que uma espécie inteligente tenha seguido um caminho parecido ao dos humanos, ou seja:

  • tenha substituído a natureza pela cultura como principal institucionalizador de comportamentos, o que permitiria a complexificação do pensamento, e
  • tenha desenvolvido a necessidade do social (o que inclui a sexualidade, entendida não só como o sexo que pode servir para a procriação, mas como o conjunto das formas de se trocar afeto e prazer) para a manutenção dos costumes, linguagem e saberes sem os quais o espécime não se completa como membro de seu grupo.

Mesmo assim, toda a sexualidade alienígena é imaginada com base nas práticas humanas. Vejamos a descrição de algumas das espécies alienígenas da ficção científica televisiva e cinematográfica que reproduzem o modelo humanoide dimórfico, juntamente com algumas reflexões sobre a influência do antropomorfismo em sua concepção e até onde os autores conseguem chegar na extrapolação da realidade que conhecemos mais de perto.

Vulcanos

Spock e T'Pring

Spock e T’Pring no ritual vulcano do pon farr

Os vulcanos são uma das raças mais notáveis no universo de Jornada nas Estrelas, sendo uma das mais presentes ao longo das cinco séries da franquia. São fisicamente muito aprecidos com os humanos, sendo as únicas diferenças perceptíveis a olho nu as orelhas pontiagudas, as sobrancelhas arqueadas e uma quase imperceptível tonalidade verde na pele. As outras poucas características morfológicas diferentes das humanas incluem o coração localizado na altura do plexo solar e hemoglobina baseada em cobalto ao invés de ferro (o que dá a cor verde ao seu sangue).

Psico-biologicamente, eles são muito parecidos com os seres humanos, porém são mais propensos, geneticamente, a emoções fortes. Sócio-culturalmente, são criados segundo os rígidos ditames de uma ética baseada na Lógica, o que dá a aparência de que não têm emoções, mas a verdade é que estas ficam reprimidas.

Tanto que, quando completam um ciclo de 7 anos, são arrebatados por uma condição fisiológica chamada pon farr, na qual têm a premente necessidade de voltar ao planeta-natal (Vulcano) e se unir ao parceiro ou pretendente. Nisso, precisam se entregar a um elaborado ritual em que se determina a união ou rejeição dos parceiros. O ritual pode envolver até mesmo um combate, que a mulher pode determinar como condição para a consecução do acasalamento.

Embora se diferenciem significativamente dos humanos em alguns aspectos, como o fato de costumarem fazer sexo a cada 7 anos (diferentemente dos humanos, que não têm cio e podem copular em quaisquer dias do ano), a sexualidade vulcana ainda é, no quadro geral, inspirada na humana.

Klingons

Worf e Jadzia

Worf, um klingon, flerta furiosamente com Jadzia, uma trill que sabe como se comportar como uma klingon

Os klingons surgem na série de Jornada nas Estrelas como uma raça praticamente igual à humana, tanto que no episódio Problemas aos Pingos (The Trouble with Tribbles, 15º episódio da 2ª temporada da Série Clássica) um klingon se passa facilmente por humano, só tendo sua identidade descoberta com a ajuda de um tricorder médico.

As maiores diferenças culturais e biológicas entre klingons e humanos só foram melhor exploradas a partir de A Nova Geração, em que desobrimos que os klingons costumam grunhir e morder em suas relações sexuais, sendo escoriações e hematomas os sinais de que um indivíduo praticou sexo recentemente.

Fora isso, não parece haver diferenças fundamentais entre a sexualidade klingon e a humana, pois da possibilidade de intercruzamento se infere que os órgãos sexuais e a cópula são no mínimo semelhantes. Porém, há pequenas peculiaridades na escolha dos parceiros, na corte e no ato sexual. A atração e o amor, em muitos indivíduos dessa espécie, é atiçada pela força, altivez e coragem do pretendente. Os flertes às vezes incluem trocas de grunhidos, e o ato sexual em si parece se misturar com elementos de uma renhida luta.

A diferença entre a sexualidade humana e a klingon, portanto, parece ser mais o resultado de uma diferença cultural, visto que é verossímil que uma sociedade humana desenvolva os mesmos valores e práticas dessa raça de honrados guerreiros. No entanto, os klingons são representados como naturalmente mais fortes e resistentes fisicamente do que os humanos, o que levou Worf, em certa ocasião, a recusar a troca de afetos com uma humana. “Preciso me conter demais. As mulheres humanas são muito frágeis.”

O problema da fertilidade inter-espécies

Mas é notável a presença de um elemento extremamente improvável no quadro geral das espécies alienígenas no universo de Jornada nas Estrelas, que é o fato de praticamente todas as raças serem férteis entre si. O próprio Spock, vulcano mais notável da franquia, é na verdade um meio-vulcano/meio-humano, pois tem pai vulcano e mãe humana.

A própria possibilidade de indivíduos de espécies diferentes formarem casais é um pouco inverossímil (embora não impossível, tendo em vista que os sentimentos comuns podem, em teoria, transcender as formas físicas). Porém, essa possibilidade só se realizaria com a compatibilidade das formas de se trocar afeto e formar uniões. Na ficção científica, é muito comum que os alienígenas sejam, além de sexualmente dimórficos, monogâmicos e quase estritamente heterossexuais (o que, além de representar um antropomorfismo, representa um etnocentrismo de viés euro-ocidental – veja o ensaio Homossexualidade em Star Trek). De fato, aparecem ao longo das séries da franquia muios casais inter-espécies:

  • Sarek (vulcano) e Amanda (humana),
  • Comandante Riker (humano) e Deanna Troi (meio-betazoide),
  • Rom (ferengi) e Leeta (bajoriana),
  • Quark (ferengi) e Grilka (klingon)
  • Jadzia Dax (trill) e Worf (klingon),
  • Odo (transmorfo) e Kira (bajoriana),
  • Ezri Dax (trill) e Dr. Bashir (humano),
  • Neelix (talaxiano) e Kes (ocampa), entre outros.

A necessidade de se criar pretextos para roteiros interessantes permeia as histórias de ficção científica. Em Jornada nas Estrelas, não só os vulcanos e os humanos podem procriar entre si (como no caso dos pais de Spock). Já apareceram híbridos de

  • humano e betazoide (Deanna Troi),
  • humano e klingon (K’ehleyr e B’elanna),
  • humano e romulano (Sela),
  • klingon e romulano (Ba’el) e
  • cardassiano e bajoriano (Ziyal), entre outros.

Essa possibilidade de interfecundidade só é relevante para a criação de enredos pertinentes à reflexão sobre a relação entre os povos (humanos), os problemas advindos do contato intercultural, os conflitos de identidade e situações diplomáticas.

Porém, biologicamente, é improvável que espécies desenvolvidas em dois planetas diferentes e com histórias evolutivas tão díspares possam se unir sexualmente (como é tão comum em todas as histórias de Jornada nas Estrelas). Muito mais improvável, portanto, é que essas uniões possam produzir frutos férteis.

No universo de Babylon 5, série que tem Jornada nas Estrelas como uma de suas principais fontes de inspiração, a situação é um pouco mais verossímil, como veremos no exemplo em seguida.

Centauri

Adira e Londo

Adira Tyree e Londo Mollari, dois centauri

Os centauri são externamente a espécie mais parecida com os humanos na série Babylon 5, ao menos quando estão vestidos. Seus órgãos sexuais são um pouco diferentes dos humanos: os homens têm seis tentáculos em suas costas, três em cada lado, e as fêmeas possuem seis orifícios distribuídos da mesma forma. A cópula acontece numa gradação, começando com a penetração de um dos tentáculos, que provoca prazer em menor intensidade, e este vai aumentando de acordo com a introdução dos tentáculos seguintes, cada um mais intenso do que o anterior.

Um diferencial de Babylon 5 em relação a Jornada nas Estrelas é que o intercruzamento não acontece tão facilmente. Os centauri e os humanos, por exemplo, não têm como cruzar entre si e tampouco produzir filhos (tanto por causa da morfologia como pela incompatibilidade de DNA). O que se vê na série, no máximo, são homens centauri (e de outras raças) apreciando a beleza das fêmeas de outras espécies, inclusive das humanas. O único casamento fértil inter-espécies que se vê na série se dá entre um humano e uma minbari, que teve o próprio DNA misturado com o DNA humano.

Entretanto, por mais diferente que pareça, a sexualidade centauri tem dois resquícios da sexualidade humana. O primeiro é o próprio fato de a espécie ser dividida em dois sexos, com praticamente as mesmas características de seus equivalentes humanos. O segundo é a forma pela qual se dá a cópula, ou seja, a penetração de uma protuberância do macho num orifício da fêmea.

Entre os alienígenas na’vi, do filme Avatar, isso muda um pouco mais significativamente.

Na’vi

Jake e Neytiri

Jake e Neytiri, um meio-na’vi e uma na’vi

Os na’vi são humanoides com diversas características parecidas com os humanos. Têm cabeça, tronco, braços e pernas, rosto com olhos, nariz, boca, cabeça com orelhas e cabelos. Têm algumas diferenças, como cauda, pescoço comprido, orelhas longas, pele azul e olhos amarelos, além de medirem cerca de 3 metros de altura. Seus traços lembram os felinos, como se eles tivessem evoluído a partir de gatos e não de símios.

Eles são tão parecidos com os seres humanos que era de se esperar que seus órgãos reprodutivos fossem praticamente iguais aos do Homo sapiens. Porém, eles fazem sexo através de conexões presentes em filamentos que ficam em meio aos seus cabelos. Não fica claro, no filme, se essa mesma conexão é responsável pela fecundação e reprodução da espécie, mas isso fica subentendido de nossa própria autorrepresentação humana.

Um detalhe curioso e um pouco bizarro é que a conexão usada para a cópula é também usada para se domar animais de montaria, como cavalos e pássaros. Para um olhar humano, é como se eles tivessem institucionalizado o bestialismo como prática aceitável e corriqueira. Isso poderia significar também que o amor, para essa espécie, é um conceito muito mais amplo do que aquele que temos. Ou eles podem sentir algo diferente dependendo de a quem eles se conectam, assim como o afeto trocado com um parente próximo (geralmente) não nos deixa sexualmente excitados, enquanto o mesmo contato físico com um parceiro afetivo-sexual traz essa excitação em menor ou maior grau.

Mas o que é mais problemático nessa espécie fictícia é que eles são criados propositalmente com uma aparência bela, explorando e extrapolando a estética dos modelos de beleza ocidentais e hollywoodianos (altura e magreza), misturada a um exotismo alienígena. É fácil para muita gente se afeiçoar pelos na’vi (muitos até gostariam de pertencer a essa espécie). Aliado a isso, por mais diferentes que eles sejam dos humanos, são quase iguais no comportamento, na forma de expressar emoções e, mais pertinente para este ensaio, na forma de trocar afeto, com carícias, beijos e abraços, de modo que não foi nada difícil para Jake Sully (humano travestido de na’vi) entender como proceder nas preliminares com Neytiri.

[Continua na próxima semana]

Imagens

Quatro amores

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O homem parece que leva chifre depois que começa a raparigar. Quando eu comecei a raparigar, comecei a levar chifre [V. C. P.].

Toma lá, dá cá. Os homens desta região do Brasil (no mínimo, mas em outras regiões deve ser a mesma coisa) tratam duas formas de infidelidade de duas formas diferentes. Se um homem está saindo com outras mulheres que não sua esposa, ele está raparigando ou se divertindo sem compromisso, o que não é motivo para conflito. Se uma mulher comete adultério, enseja a chacota e o título de corno ao marido e pode levar a briga e separação. Claro que em alguns contextos há mais simetria, mas parece que esta ainda não é completa.

Vênus e Marte, de Botticelli

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A outra primeira jornada

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Star Trek, dirigido por J. J. Abrams, estreou dia 8 de maio de 2009. Vi o filme com amigos no dia 9. Éramos um grupo heterogêneo em termos de sua relação com Jornada nas Estrelas. Alguns não sabiam quase nada sobre a série. Um casal só conhecia os 10 filmes anteriores. Alguns já tinham assistido muitos episódios de uma ou outras séries da franquia. Eu, por exemplo, só conheço (toda) a série clássica e o primeiro filme, Jornada nas Estrelas: o Filme.

Mas todos curtiram muito a obra. De fato, como disse Alottoni, no site Jovem Nerd, não é preciso ter assistido nada de Jornada para apreciar o filme. Este serve, inclusive, como introdução a quem quer começar a se inteirar desse intrigante universo de ficção científica. E, para quem já conhece, há muitas referências à série antiga, abordadas de forma bem humorada e coerente.

Aviso: Spoilers!

A história é uma revisita às origens dos protagonistas da Enterprise, especialmente o humano James T. Kirk e o mestiço vulcano/humano Spock. Alguns aspectos de suas personalidades aparecem em estágio de formação, na infância e no início da fase adulta. Entendemos, por exemplo, que a impusividade de Kirk e sua tendência a quebrar os protocolos existem desde que ele era menino e seu caráter mulherengo na série original aparece em cenas da Academia da Frota Estelar. De Spock, por sua vez, são enfatizados seus conflitos advindos de sua ascendência mestiça, pai vulcano e mãe humana. Mas sobre Spock me deterei mais adiante.

Entretanto, a história se passa numa realidade alternativa àquela da série original. Os eventos começam a mudar no momento em que uma nave romulana volta ao passado e ataca uma nave da Frota Estelar, cujo segundo em comando é o pai de James T. Kirk. Este está prestes a nascer, enquanto George Kirk, que assumiu o comando da U.S.S. Kelvin, enfrenta a morte e a destruição da nave.

A espaçonave romulana fará um novo salto no tempo, para o futuro, para destruir o planeta Vulcano, na época em que a equipe que fará parte da famigerada tripulação da Enterprise está se formando na Academia. Então encontramos Uhura, a futura oficial de comunicações da Enterprise, sendo flertada por Kirk, que não consegue descobrir seu primeiro nome (na série, nunca sabemos o primeiro nome de Uhura). Eventualmente, devido às circunstâncias alternatias da trama, as tentativas frustradas de Uhura de flertar com Spock na série original se tornam um romance entre os dois, e finalmente descobrimos o nome dela!

Também vemos o sarcasmo de Leonard McCoy e sua criatividade para resolver situações utilizando sua autoridade e conhecimentos médicos. Sulu aparece mostrando suas habilidades em artes marciais e no uso de armas brancas. Chekov, com 17 anos de idade (que na série só passaria a fazer parte da Enterprise aos 22 anos), se atrapalha com seu sotaque russo, trocando o v pelo u, e se mostrando um menino prodígio (o que, na série, faria Kirk lhe dizer que Spock estava formando um bom discípulo).

Scott tem a mesma personalidade e repete, como sempre, as hilárias cenas em que faz o possível e o quase impossível na sala de máquinas da nave para que a Enterprise viaje em velocidade de dobra da forma mais eficiente. Como a equipe iniciou suas atividades de forma precipitada em relação à realidade “normal” do universo de Jornada, eles ainda vão sob o comando do capitão Christopher Pike, que na série original precedeu Kirk.

Sobre Spock

Certamente o personagem que teve o destino mais radicalmente transformado foi Spock. Enquanto Kirk, Uhura, McCoy, Scott, Sulu e companhia entraram mais ou menos nos eixos da realidade original de Star Trek, Spock foi atingido em cheio por acontecimentos que podem vir a originar um personagem bem diverso daquele da televisão da década de 60.

O evento-chave das mudanças de destino que ocasionaram o Spock alternativo foi a destruição do seu planeta-natal, Vulcano. A perda do próprio mundo de origem e de uma enorme parte dos da raça de seu pai o fizeram afirmar que só lhe restou a Terra, planeta-natal de sua mãe. Por isso (além, é claro, de seu dever para com um planeta da Federação) ele vai dar tudo de si, inclusive de seu lado humano, para evitar que a Terra seja destruída pelos romulanos.

Spock em três fases da vida

Porém, um outro acontecimento fará com que sua personalidade seja vincada para sempre: a morte de sua mãe quando tentou salvar sua família do holocausto de Vulcano. No último instante em que o grupo de vulcanos era teletransportado para a Enterprise, Spock ainda tentou segurar a mão de sua mãe, que caiu numa avalanche. Seria inevitável, aí, que ele tivesse que lidar com um sentimento de culpa que talvez nunca tenha encarado antes nem depois em sua vida.

Originalmente, Spock assumia uma identidade vulcana e reprimia suas emoções com toda a força de sua lógica. Seu lado humano aparecia de vez em quando e era importante para resolver certos problemas e para dar um tom cômico às histórias. Mas não marcava significativamente sua personalidade.

Após os eventos da história deste novo filme, Spock será muito mais humanos do que antes, e talvez consiga um equilíbrio maior entre as duas partes que compõem sua ascendência. Ao se encontrar com sua própria versão mais velha do futuro alternativo, ele ouve do Spock velho que as emoções serão muito importantes em sua vida, e que ele deverá evitar desde cedo reprimir seu lado humano, pois este lhe poderá ser muito útil (muito mais do que o que, em outra realidade, ele poderia admitir).

Até seu pai, que na primeira realidade disse certa vez que a o casamento com a mãe de Spock se fizera por uma razão lógica, admitiu, sob as circunstâncias fatídicas, que se casara com Amanda (que significa “digna de ser amada”) por que a amava. Isso atinge Spock de maneira muito contundente, pois seu pai deveria ser para ele o modelo vulcano de lógica e racionalidade. De certa forma, a ausência da mãe humana talvez tenha obrigado  Sarek a assumir as emoções que Amanda demonstraria a Spock.

“Steady as she goes”

A meu ver, pode-se dizer que o tema central do filme é o destino. Cada membro da equipe da nave estelar Enterprise tinha um papel a cumprir numa tarefa maior, e cada um deles sentia dentro de si a urgência de se enveredar por um determinado caminho.

Independentemente dos acontecimentos que levaram a uma realidade alternativa, todos os principais componentes do grupo acabaram assumindo os mesmos papéis. Uhura se tornou oficial de comunicações, Sulu permaneceu sendo o timoneiro, McCoy assumiu a chefia da ala médica e Scott o setor de engenharia da nave.

Scott, McCoy, Chekov, Chapel, Kirk, Uhura, Spock, Sulu

Mesmo aqueles cujas vidas foram mais diretamente afetadas se ajustaram aos eixos de suas programações existenciais. Kirk, por exemplo, apesar da morte do pai e de ter se metido numa grande confusão que quase o impediu de se tornar capitão da Enterprise, terminou no comando da nave. Até Spock, com todas as circunstâncias expostas acima, manteve-se como segundo em comando e como chefe de ciências.Tudo voltando ao normal, como no final de qualquer episódio de Jornada nas Estrelas, após cujos eventos críticos a Enterprise retorna à sua rota original e a normalidade se mantém até o episódio seguinte. Steady as she goes.

O final do filme remete de forma interessante à fórmula original da série clássica. A última cena de Star Trek, assim, mostra a tripulação da Enterprise seguindo seu rumo na missão de “explorar estranhos novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo aonde ninguém jamais foi”, o mesmo texto da abertura original, narrado aí por Leonard Nimoy, a voz do Spock ancião. E então os créditos são acompanhados pela saudosa música tema de Jornada nas Estrelas, anunciando a possibilidade da vinda de um novo filme, que talvez responda às questões deixadas em aberto neste texto.