Mitose Neural 6 – Inimigo Meu

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Saudações! Bem-vindos a nossa espaçonave Mitose Neural! Neste episódio 6 do podcast da Teia Neuronial, Thiago Tecelão, Diego Misantropo, Dyego Wally (Alter-Egos) e Werner Gnomo (Joy’s Tip) conversam sobre o livro de ficção científica Inimigo Meu (Enemy Mine), de Barry B. Longyear, bem como o clássico filme homônimo dirigido por Wolfgang Petersen, de 1985.
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Filmes para crianças – parte 2

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As histórias sobre extraterrestres são ótimas oportunidades para se refletir sobre diferença e igualdade. Nelas vemos metáforas das próprias diferenças entre os indivíduos e povos humanos e o desafio do convívio pacífico entre eles, além do aprendizado mútuo. Essas histórias são, assim, um meio de ampliar as perspectivas sobre o mundo e o universo, fazendo-nos refletir sobre o respeito à diferença e à possibilidade de nos considerarmos todos parte de um mesmo mundo.

Nesta segunda parte da série Filmes para crianças, abordarei três obras de ficção científica que tratam do contato entre seres alienígenas entre si, e de como esse contato é importante para mudar a maneira como vemos o outro. Para mim e para as pessoas que me ajudaram a escolher os itens desta lista, assistir a eles na infância foi um marco importante em nosso desenvolvimento como seres humanos e como consciências universalistas.

Dedicatória e agradecimentos

A Inês Mota, a Diego Leite, a Alan Hiramoto, a Paulinho Mota, a Rúbio Medeiros, a Betânia Monteiro, a Werner Soares, a Amanda Cavalcante e a Hermann Cavalcante (não são parentes).

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial)

E.T.: O ExtraterrestreDireção: Steven Spielberg

País: Estados Unidos

Ano: 1982

Certa noite, um pequeno extraterrestre se perde da nave espacial que o trouxe à Terra, enquanto agentes policiais o buscam após perceberem um certo tumulto nos arredores despovoados da cidade. O pequeno alienígena se esconde num depósito de uma casa próxima, onde vive um garoto humano chamado Elliott.

Naquela mesma noite, o menino humano percebe a presença de algo estranho e tenta avisar a mãe e o irmão mais velho, mas todos acham que se trata ou da imaginação do garoto ou de algum animal selvagem que entrou no depósito. Mas Elliott não desiste e no dia seguinte tenta atrair o ser misterioso com doces, até que finalmente, sob a luz da lua crescente, eles se deparam um com o outro e ambos se assustam. Mas Elliott leva seu novo amigo para casa e o esconde em seu quarto.

Elliott revela a presença do alienígena ao seu irmão mais velho, exigindo ser tratado com mais respeito, e acidentalmente sua irmã mais nova o descobre também. Os três empreendem esforços para não permitir que a mãe descubra o extraterrestre, e passam grande parte do tempo no quarto de Elliott brincando com E.T., como passam a chamá-lo, e descobrindo algumas habilidades incríveis do pequeno visitante do espaço. Ele consegue mover objetos com a força da mente e curar pequenas feridas com a ponta do dedo.

Mas o poder mais interessante de E.T. é a conexão empática e telepática que ele estabelece com Elliott, fazendo com que cada um deles sinta o que o outro sente e até pense o que o outro pensa. Dessa forma, eles compartilham uma amizade visceral em que um se confunde com o outro, quase como a ideia de amizade defendida por Michel de Montaigne em seu famoso ensaio.

E.T. consegue elaborar um plano para enviar uma mensagem ao seu povo solicitando um resgate, e constrói uma máquina, usando vário objetos como um computador de brinquedo e um guarda-chuva. Durante a tarde de Halloween, Ele e Elliott vão à floresta, lenando a máquina para ativá-la a céu aberto e enviar a mensagem. Ambos dormem ao relento e, pela manhã, Elliott percebe que E.T. não está por perto. O menino volta para casa com um terrível resfriado e seu irmão encontra E.T. à beira de um riacho, muito pálido e fraco.

Enquanto todos retornam à casa, uma larga equipe do governo, comporta de policiais e cientistas, começa uma operação de isolamento do local, para estudar o extraterrestre, mas este está tão doente que não resiste. a conexão com Elliott se rompe e este volta a ficar bem, mas se mostra intensamente triste com a morte de seu amigo. No entanto, E.T. retorna à vida e, com a ajuda do irmão e dos amigos deste, leva o pequeno ser do espaço ao campo, onde uma nave espacial aparece. Após uma tocante cena de despedida, E.T. parte em sua nave.

Os eventos da história não foram importantes só para Elliott, que passa a conhecer uma amizade que nunca vivera antes. A aparição de E.T. também provoca mudanças em Michael, o irmão mais velho, que passa a ser menos arrogante, e em Gertie, a irmã mais nova, que no início tinha alguma repulsa por E.T., mas passa a vê-lo com outros olhos.

A amizade de Elliott e E.T. simboliza uma relação desprovida de preconceitos e baseada numa total confiança mútua. Eles ficam tão ligados um ao outro que têm dificuldade de se despedir ao final. E.T. diz “Venha”, e Elliott responde “Fique”. O alienígena então lhe fala, apontando para a testa de seu amigo, “Estarei bem aqui”. Ambos aprendem a se desapegar diante da necessidade de cada um ir para onde pertence, mas, depois da experiência que tiveram juntos, a lembrança e o sentimento de amizade permanecerão em ambos.

A obra aborda

  • amizade,
  • diferença,
  • respeito,
  • aprendizado,
  • humildade e
  • desapego.

Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers)

Viagem ao Mundo dos SonhosDireção: Joe Dante

País: Estados Unidos

Ano: 1985

Ben certa vez sonhou que sobrevoava um imenso circuito. Assim que despertou, desenhou o que conseguiu lembrar do circuito e ligou para seu amigo Wolfgang para contar. Como Ben era um garoto sonhador e fascinado por ficção científica, não foi difícil para seu amigo imaginar que se tratava de um típico sonho de sua cabeça avoada. Mas quando Wolfgang, um cientista-mirim filho de cientistas, vê o desenho do circuito, percebe que se trata mesmo de algo que pode ser construído e funcionar de alguma forma.

Então Ben, o sonhador, junto com Darren, o realista, e Wolfgang, o intelectual, se juntam para experimentar a descoberta, e através de um computador Wolfgang consegue criar uma esfera azul indestrutível que flutua no ar e atravessa qualquer coisa. Mais tarde, eles conseguem criar uma esfera maior e descobrem que ela é oca e pode carregar objetos dentro de si. Os três amigos decidem criar uma cápsula para voar pelo céu de sua cidade.

Depois de uma tentativa frustrada de subir ao espaço, os três amigos têm o mesmo sonho e ambos veem o circuito, o que lhes possibilita completá-lo e tentar de novo. Ao voarem outra vez naquela noite, são fisgados por um raio trator e levados a uma gigantesca nave espacial.

Eles imaginam estar presos numa típica nave alienígena do mal que aparece em tantos filmes de ficção científica. Mas logo descobrem que os tripulantes são um casal de irmãos extraterrestres gentis, Wak e Neek, que captam todas as ondas eletromagnéticas da Terra, incluindo as trasmissões de rádio e TV. Eles são fascinados por tudo o que ouvem e veem da Terra, e se divertem numa pequena festa com os jovens terráqueos.

Então Ben os convida para irem à Terra, mas Wak se recusa veementemente, tendo em vista tantas imagens do cinema da Terra que representam a forma violenta como os alienígenas são recebidos pelos humanos. Wak explica que só trouxe os três porque eles são diferentes do resto da humanidade. Ben fica desolado com o reconhecimento de que provavelmente seria perigoso para qualquer estrangeiro do espaço visitar um planeta beligerante como a Terra.

Finalmente, os três garotos descobrem que a nave em que estão foi surrupiada do pai dos dois alienígenas, que são jovens como seus hóspedes. O pai alienígena irrompe no salão em que estão e dá um sermão em Wak e Neek, acabando com a festa. Os novos amigos se despedem e o trio terráqueo fica marcado para sempre com a imressão de um mundo muito mais vasto do que jamais imaginaram.

É importante perceber como três crianças tão diferentes, um muito sonhador (sentimento), outro muito realista (corpo) e o terceiro muito intelectual (pensamento), superam essas mesmas diferenças e juntam suas qualidades para entrar numa aventura que mudará suas vidas para sempre.

A irrelevância das diferenças também é encarada no contato com uma espécie alienígena, que, apesar da aparência exótica, têm sentimentos e anseios parecidos com os dos humanos. A aparência é tão relevada que Wolfgang e Neek ensaiam um romance.

Finalmente, os garotos visionários têm que reconhecer que sua facilidade para ver através das diferenças não é compartilhada por toda a humanidade, que ainda percorrerá um longo caminho antes de superar suas diferenças internas e, a longo prazo, as diferenças mais marcantes entre humanos e extraterrestres.

A obra aborda

  • a busca pela realização dos sonhos,
  • amizade,
  • aprendizado mútuo,
  • amadurecimento,
  • tolerância e
  • pacifismo.

Inimigo Meu (Enemy Mine)

Inimigo MeuDireção: Wolfgang Petersen

País: Alemanha e Estados Unidos

Ano: 1985

Willis Davidge é um piloto de caça espacial terráqueo que luta contra os dracs, uma espécie alienígena em guerra contra a Terra, pela reivindicação de uma região da galáxia.

Durante uma batalha, Davidge se perde num planeta inóspito. Perto de onde sua nave caiu, também naufragou um piloto drac, chamado Jeriba Shigan. Após a tentativa mútua de assassinato, ambos percebem que precisarão um do outro para sobreviver nesse planeta selvagem, e “Jerry”, apelido que Davidge dá ao drac, aprisiona o humano para evitar que este o mate.

Numa busca pelo ambiente que os rodeia, os dois vão aos poucos encontrando alimento e formas de se proteger das intempéries da natureza local, mas, apesar de cooperarem, eles ainda se veem como rivais e inimigos de guerra.

Certa vez, quando buscava alimento, Davidge foi capturado por um predador, uma criatura que se escondia embaixo da terra e que agarrava suas presas com um tentáculo. Ela segurou Davidge pela perna e o puxou para baixo. Ele só se salvou graças a “Jerry”, que matou o animal (numa cena que lembra Han Solo salvando Lando Calrissian do Sarlacc).

A partir daí Davidge passa a cooperar mais com “Jerry”, e eles passam a se aproximar mais. Constroem juntos um abrigo contra as tempestades de pedra e fogo e começam a se conhecer melhor.

Com o tempo, eles aprendem o idioma um do outro e compartilham suas respectivas culturas. Seu relacionamento se aprofunda até o ponto de se tornarem amigos. O drac, através da leitura de um livro considerado sagrado por seu povo, entende que o conflito entre eles deve cessar. Ao iniciar Davidge nos ensinamentos de sua cultura, “Jerry” consegue fazer seu amigo entender melhor os dracs, enquanto ele passa a compreender melhor os humanos.

“Jerry” fica grávido (pois os dracs são hermafroditas e concebem seus filhos sem relações sexuais) e passa a se comportar como uma mulher. Davidge encara o desafio de cuidar de seu amigo e de criar seu filho, pois “Jerry” morre no parto.

Zammis, filho de Jeriba, é criado por Davidge, e cresce bem mais rápido do que um humano. O garoto começa a perceber as diferenças entre ele e seu “tio”, estranhando que sua ascendência (com um só progenitor) seja diversa da de Davidge (que teve um pai e uma mãe).

O jovem drac é raptado por mineradores humanos, que escravizam os de sua espécie para o trabalho braçal. Ao tentar salvá-lo, Davidge é resgatado por uma nave militar humana, que o leva para uma estação. Desmaiado, ele balbucia frases na língua dos dracs, o que os médicos e os soldados da estação estranham. Depois de acordar, Davidge encontra um meio de escapar e resgatar Zammis.

Após todos esses acontecimentos, a paz entre os dois povos é finalmente alcançada, e Davidge leva Zammis para o planeta dos dracs. No devido tempo, Zammis dá à luz a uma criança que batizou de Davidge, inserindo em sua descendência um nome humano.

A experiência dos dois antagonistas os levou da inimizade cega, passando pela necessidade de sobreviver juntos, até uma profunda amizade. Se no início eles consideravam um ao outro “feios” (cada um deles nunca havia visto um indivíduo da espécie do outro), Davidge aprendeu a achar Zammis uma bela criança. A biologia e a sexualidade das duas espécies (uma assexuada e outra bissexuada) é compreendida apesar do exotismo mútuo. Ambos aprendem a respeitar a cultura um do outro, o que lhes permite aprender um com o outro.

Se no início Davidge estava disposto a matar Jeriba, ao final arriscou a própria vida para salvar Zammis. A irracionalidade da guerra impedia que os antagonistas se conhecessem e alimentava fortes preconceitos e uma espécie de racismo que os opunha de maneira cega. Ao se conhecerem e se tornarem grandes amigos, eles provam que as diferenças superficiais (espécie, planeta de origem, cultura) são irrelevantes quando percebemos que temos em comum algo mais fundamental, e podemos nos relacionar de maneira significativa com qualquer pessoa do Universo. Como me disse um amigo, resumindo bem o filme:

Como criança, achei a ideia de dois inimigos mortais se conhecerem e se tornarem amigos muito bonita,  superarem diferenças que na verdade nem eles entendiam bem.

A obra aborda

  • preconceito,
  • cooperação,
  • relativismo cultural,
  • respeito,
  • amizade e
  • pacifismo.

Para adquirir os filmes

Filmes para crianças – parte 1

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Há algum tempo, recebi uma sugestão da leitora Roseana da Penha Oliveira de apresentar sugestões de filmes para ser usados em sala de aula, para um público infanto-juvenil, crianças e adolescentes, e resolvi pensar numa relação de obras cinematográficas que foram importantes para minha infância, adolescência e mesmo adultidade, que possam servir para instigar a mente de estudantes jovens.

Este post é direcionado especialmente para adultos que estejam buscando filmes para seus filhos, sobrinhos, netos, filhos de amigos etc., e pretendo que seja encarado como um miniguia. As crianças e adolescentes que se sentirem à vontade para ler as resenhas (de preferência depois de ter visto os filmes, para não estragar a surpresa), estão convidados à leitura e a comentar, se quiserem.

Nessa primeira parte, abordarei alguns filmes de fantasia, que levam o espectador a um outro mundo distante e diferente, de modo a seduzi-lo e levá-lo a pensar em situações de sua própria realidade. A alegoria fantástica serve para refletirmos sobre o mundo real.

A título de esclarecimento, não considero que estes filmes sejam exclusivamente para crianças e/ou adolescentes. Eles são uma boa diversão para os adultos despojados do preconceito de que há uma barreira inquebrável entre filmes “maduros” e “infantis”. Aliás, sugiro que os filmes sejam vistos pelas crianças na companhia do adulto responsável. Isso torna a experiência ainda melhor.

Agradeço a colaboração de Rúbio Medeiros e Betânia Monteiro na elaboração deste texto. Seus insights e sugestões sobre os filmes foram imprescindíveis para tornar estas resenhas mais significativas.

Finalmente, dedico a série de posts Filmes para Crianças aos seguintes infantes (em ordem decrescente de idade): Diego Leite, já não tão infante, irmão com quem compartilhei alguns filmes na tenra idade; Naninha Leite, irmã mais nova, a quem acompanhei na apreciação de algumas obras cinematográficas significativas; Arthur Medeiros e Brunna Monteiro, filhos de amigos, cinéfilos que me ajudam a corroborar a qualidade de alguns filmes; e Paulinho Mota, “neto-enteado”, pequenino cuja trajetória na cinefilia tenho observado de perto.

Em Busca do Vale Encantado (The Land Before Time)

Em Busca do Vale EncantadoDireção: Don Bluth

País de origem: Estados Unidos

Ano: 1988

Littlefoot (Pé Pequeno) é um um filhote de dinossauro pescoçudo (apatossauro), nascido durante uma grande escassez de alimento, quando diversas manadas de várias espécies de dinossauros empreendenram uma marcha conjunta em busca de um mítico lugar chamado Vale Encantado.

Ele aprende desde cedo que as espécies não se misturam, e é proibido de brincar com Saura, uma filhote de tricorne (tricerátops). No entanto, a caminhada é tragicamente afetada por um choque de placas tectônicas, que separa vários filhotes de suas famílias.

Littlefoot assiste à morte de sua mãe, ferida numa luta contra um tiranossauro, e se encontra sozinho, desolado e desamparado. No entanto, o encontro com outros filhotes perdidos o reanima a continuar a busca pelo Vale Encantado. Ele se junta a Saura, Patassaura (uma saurolofo), Petrúcio (um pteranodonte) e Espora (um bebê estegossauro) para formar uma pequena manada mista em busca do destino antes almejado por seus pais. Eles contrariam assim a sabedoria aprendida dos dinossauros adultos de que as espécies diferentes não fazem nada juntas.

Apenas quando trabalham juntos, os pequenos dinossauros conseguem vencer o tiranossauro e encontrar o Vale Encantado, onde todos se reúnem a suas famílias novamente.

Os pequenos dinossauros são muito bem representados e agem como crianças verossímeis, com sua curiosidade, distração, conflito com a geração dos pais, solidão e necessidade do outro, frustração,  impotência, ressentimentos, culpa e perdão. Fica muito fácil se identificar com qualquer um deles e aprender com sua experiência, mesmo que fictícia.

Esse filme inspira o universalismo ao propor que as barreiras identitárias (de espécie, de raça, de nacionalidade, de gênero) sejam rompidas em prol de um bem maior, que abranja a todos os envolvidos. A amizade é mostrada como um valor que transcende essas pequenas diferenças.

A obra aborda

  • autossuperação,
  • tolerância,
  • perdão,
  • amizade,
  • cooperação e
  • perseverança.

 

A Viagem de Chihiro (千と千尋の神隠し Sen to Chihiro no Kamikakushi)

A Viagem de ChihiroDireção: Hayao Miyazaki

País de origem: Japão

Ano: 2001

Chihiro é uma garota mimada, sempre reclamando das vicissitudes de sua vida. Enquanto viaja com seus pais para um novo domicílio em outra cidade, eles descobrem a entrada de um estranho santuário que mais parece um parque de diversões temático abandonado.

Os pais de Chihiro entram num restaurante aparentemente deserto e se sentam a uma mesa servida com farta comida, refestelando-se à vontade até se transformarem em porcos. À medida que anoitece, Chihiro vê espíritos (kami) aparecer por toda parte e os diversos prédios começarem a funcionar, como se o dia estivesse amanhecendo para os deuses e entidades que ali habitam.

Ela recebe ajuda de alguns dos espíritos da casa de banhos da bruxa Yubaba, entre eles Kamaji, um velho que aquece as caldeiras das banheiras, Lin, uma mulher que trabalha na limpeza da casa, e Haku, um menino-dragão, aprendiz de Yubaba. Com essa ajuda, ela começa a trabalhar na casa de banhos, tendo seu nome aprisionado por Yubaba e passando a se chamar Sen. Muito atrapalhada, ela se envolve em vários problemas que vai tentando resolver no decorrer de sua trajetória.

Seu primeiro grande êxito é limpar um deus-rio, que está tão poluído com lixo que é confundido de início com um espírito do mau cheiro. Ela percebe isso e consegue, com a ajuda dos outros empregados e da própria Yubaba, “arrancar” toda a sujeira, revelando a face límpida do deus, que recompensa a todos com ouro.

O segundo desafio é enfrentar o Sem-Face, um espírito desamparado que, para chamar atenção de Chihiro, começa a oferecer ouro falso a todo mundo, e começa a engolir alguns dos empregados, tornando-se maior e mais poderoso. Ela consegue reverter tudo e levá-lo consigo para a casa de Zeniba, a irmã gêmea bondosa de Yubaba, junto com mais dois amigos, o bebê de Yubaba e uma ave espiã da bruxa.

Quase todos os personagens que vêm a ser seus amigos provocaram medo nela no primeiro contato, mas ela consegue enxergar o ponto de vista de cada um deles, compreendê-los e superar seu medo. A amizade que Chihiro constrói com todos esses personagens, Haku, Kamaji, Lin, Sem-Face, o bebê e a ave, é importante para que ela supere todos os desafios e finalmente consiga se libertar de Yubaba e ter seus pais de volta. Ao final, ela está bem mais madura do que a menina chata do início.

A obra aborda

  • responsabilidade,
  • maturidade,
  • ecologia,
  • amizade e
  • superação do medo.

 

A História sem Fim (The Neverending Story)

A História sem FimDireção: Wolfgang Petersen

País de origem: Estados Unidos e Alemanha

Ano: 1984

Baseado num livro alemão do autor Michael Ende, o filme conta a história de Bastian, um garoto que, para fugir dos colegas encrenqueiros e da angústia de ter perdido a mãe, se refugia na literatura fantástica. Certo dia, ele descobre na mesa de um livreiro um misterioso volume com o título A História sem Fim, e o “pega emprestado” para ler no porão da escola no horário da aula.

A história que Bastian lê passa para o primeiro plano, mostrando o poder da imaginação do menino e convidando o espectador a fazer o mesmo. É a história de um mundo mágico chamado Fantasia, cuja imperatriz, que é uma menina, está doente. Seu estado afeta todo o reino de Fantasia, e sua morte significaria o fim desse mundo. O responsável por essa situação é um monstro chamado Nada, que está aos poucos destruindo Fantasia.

A primeira cena mostra alguns personagens pitorescos, como um gigante de pedra amedrontador que se mostra bondoso e pacato e uma lesma que corre como um cavalo de corrida. Essas surpresas dão início a um tema recorrente na história: ninguém é o que parece à primeira vista.

O herói da história é Atreyu, um menino indígena guerreiro cuja missão é enfrentar o Nada. Ele empreende uma longa viagem em que conhece vários personagens que o ajudam no caminho. Sua pior vicissitude é a perda de seu amado cavalo. No entanto, ele encontra um dragão que passa a ser seu companheiro. Ao final, enfrenta o Nada, mas este termina por devorar toda a Fantasia.

Em alguns momentos da história, Bastian percebe que sua leitura interfere no andamento da narrativa. Quando enfim Fantasia é destruída, ele dá um nome à Imperatriz Menina, única forma de salvá-la a ao seu reino. Ele então se depara com ela e com a recém-restaurada Fantasia.

O Nada representa o crescente abandono da imaginação pela contemporaneidade, a racionalidade extrema que aos poucos a destrói. Ao mesmo tempo, ao se depararem com o fim de seu mundo, os habitantes de Fantasia mostram quão importante é zelar pelas coisas ao nosso redor.

O filme tem uma estrutura em camadas recorrentes. Em outras palavras, a criança que a ele assiste se identifica com Bastian, que por sua vez se identifica com o herói do livro que lê, Atreyu. Assim, o espectador experimenta sutilmente a identificação com diferentes aspectos de sua personalidade, alguns mais profundos do que outros.

Este filme é especialmente indicado para crianças que já começaram a ler, pois mostra a relação entre leitura, imaginação, especulação, reflexão, criação (Bastian é ao mesmo tempo leitor e autor da História sem Fim) e, enfim, o prazer da leitura.

A obra aborda

  • preconceito,
  • bibliofilia,
  • imaginação,
  • destino,
  • missão de vida,
  • superação e
  • coragem.

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Oroboro

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No filme A História sem Fim (The NeverEnding Story, 1984), de Wolfgang Petersen, o garoto Bastian encontra um livro cuja trama é afetada pela leitura de quem o tem em mãos. A terra de Fantasia, cenário da história lida por Bastian, está em declínio, e cabe a Bastian salvar a Imperatriz Menina, dando-lhe um nome e assegurando a continuidade das história de Fantasia.

Mas a obra de Michael Ende, Die Unendliche Geschichte (A História sem Fim), que inspirou o filme, tem um apelo maior (infelizmente ainda não o pude ler), pois na própria trama de A História sem Fim acompanhamos Bastian encontrar um livro com esse mesmo nome, e temos a impressão de que nossa própria leitura afeta a história na qual há um livro cuja leitura afeta uma outra história, que no final é a mesma.

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