A mamushka arqueológica

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O arqueólogo James M. McClay esreveu muito livros sobre suas descobertas a respeito da civilização de Auqitneycna. As ruínas da antiga cidade foram por muito tempo um enigma para os estudiosos do passado, mas McClay conseguiu decifrar grande parte de sua língua e de sua cultura. O que mais chamou atenção da comunidade científica foi o grande avanço a que chegou Auqitneycna no campo da Paleontologia.

Certo dia, a irmã de McClay deixou sua filha, Agnes, na casa do arqueólogo enquanto viajava. Fascinada com tantos livros, relíquias e mapas no escritório do tio, Agnes quis saber se tudo aquilo fazia parte de alguma história fantástica de aventura. Tio James a fez sentar num divã e, reclinado em sua poltrona, lhe contou a seguinte história.

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O julgamento de Salomão

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O rei Salomão tivera um sonho. Seu Senhor Deus estava pronto para lhe conceder qualquer dádiva, e Salomão lhe pediu que se lembrasse de Davi, seu pai e sucessor no trono, tão sábio e correto. Pediu ao Senhor que notasse como era difícil para alguém tão imaturo como ele próprio governar. Portanto, ele desejou que Deus lhe desse um coração com sabedoria para julgar com justiça o povo de Israel, para discernir entre o bem e o mal.

Ora, o que lhe poderia dar Deus senão uma sabedoria de porte divino como a sua própria? Afinal, se desde os tempos da Criação a mulher e o homem haviam comido o fruto que lhes enchera o peito com o poder de perceber (ou inventar, o que é quase a mesma coisa) a diferença entre bem e mal, a eles faltara a capacidade de tomar decisões difíceis, o que era exatamente o que Salomão pedia agora ao Senhor, ou seja, que sanasse essa falta filogenética.

Mas, como sabemos, a capacidade divina de inventar a distinção (ou percebê-la, o que não é muito diferente) entre bem e mal nunca foi suficiente para que as decisões de Deus (difíceis, sim, mas para Deus qualquer dificuldade é facilmente transponível) fossem inteligíveis aos humanos. O velho adágio, “Deus escreve certo por linhas tortas”, certa e tortamente nos mostra que é do feitio de Deus levar a cabo suas sábias decisões desajeitadamente. Longe de nós colocar em dúvida sua onisciência, que lhe permite antever as consequências de seus próprios atos, mas convenhamos que Deus sempre atira primeiro e pensa depois, sendo a divindade tão ocupada que é, tendo que dar conta de todo um planeta habitado por impertinentes criaturas que mal sabem usar suas inteligências.

Deus anteviu rapidamente que o pedido de Salomão o deixaria parecido consigo mesmo, e o que mais pode lisonjear o criador do que reconhecer a si mesmo na criatura? Além do que o rei não pedira coisas mais banais e irritantes, como riqueza e longevidade. Deus estava tão empolgado que concedeu logo as três coisas a Salomão, mesmo sabendo que se arrependeria depois, mas Deus é assim mesmo. E foi assim que o coração de Salomão ficou, parecido com Deus, e era como este que ele agia diante dos súditos.

Então o Destino, que estava observando tudo, a Deus e a Salomão, decidiu, muito ponderadamente, pois costumava pensar antes de agir, testar a sabedoria de Salomão, e fez com que duas prostitutas se pusessem diante do rei. Uma delas lhe falou:

Majestade, tive há poucos dias um filho e minha colega, alguns dias depois, também deu à luz. Mas o bebê dela morreu, pois ela se deitou em cima dele. Porém, não bastando a dor que infligira a si mesma por ter matado o próprio descendente, antes da aurora, eu ainda dormia, ela trocou o cadaverzinho pelo meu bebê, tentando me enganar e me fazendo sofrer uma surpresa amarga pela manhã. Mas eu percebi que não era meu, e exigi minha criança de volta.

A segunda mulher se apressou a contar a mesma história, insistindo, com a mesma energia da primeira, que o cadaverzinho era desta e o bebê vivo era seu.

Diante da confusão, Salomão disse:

Vocês me contam a mesma história, cada uma reclama a mesma criança para si. Mas não sou onisciente e não tenho como saber a verdade, tendo que assumir que ambas dizem a verdade, ou ambas mentem, o que dá no mesmo. Mas não posso ir contra um costume milenar segundo o qual “mãe só há uma”. Não sendo a mim possível dar todo o bebê às duas mulheres, só há uma maneira de resolver justamente o problema. Guarda, traga uma espada. Pegue o bebê e divida-o ao meio. Cada mulher levará uma metade.

Os olhos de uma das mulheres se encheram de lágrimas e ela se pôs à frente:

Senhor, não tenho como provar que sou a mãe verdadeira, mas não posso suportar a morte de meu filho diante de mim. Dê o bebê à minha colega, pois prefiro vê-lo inteiro e vivo a saber que nunca mais ouvirei sua doce voz.

A outra mulher cruzou os braços:

Ah, não! Já que não temos como provar quem é a mãe verdadeira, dividam logo esse bebê e me deem uma metade.

Salomão, antes de todos os presentes, logo percebeu que a primeira era a mãe verdadeira, e em seu julgamento achou por bem que ela tinha o direito à criança. Assim, mandou entregar o bebê inteiro a ela, decisão que lhe valeu o assombro dos súditos, por ter sido o rei tão perspicaz e sábio.

Porém, depois que as prostitutas já haviam deixado o palácio e recebido as bênçãos do rei, um dos escribas, que registrava a história, talvez para que o evento viesse a fazer parte de alguma futura coletânea aleatória de livros sagrados, não pôde se conter:

Majestade, é muito claro que o senhor, para o espanto e admiração de todos nós, conseguiu realizar um prodígio. Com toda a aparência de um louco (perdoe-me esta palavra), que insensatamente decide por matar uma criança cortando-a ao meio (a que serviria a metade morta de um cadaverzinho?), mostrou o senhor que a reação natural da mãe seria defender a vida de seu legítimo filho, o que não sucederia tão facilmente com a mentirosa. Mas (não estou duvidando de sua capacidade de julgar, sou apenas um escriba), mas, dizia eu, não deveria ter o senhor pensado melhor no futuro dessa criança? Não me leve a mal, senhor, mas me pareceu que seu procedimento (não o estou reprovando) visou mais a recompensar uma das mulheres, a que desse a “resposta certa”, a que respondesse da forma esperada pelo senhor, do que a encaminhar o bebê à sua melhor fortuna. Não me pareceu tão sensata a mulher que suplicou pela vida do filho, pois ela pretendeu dá-lo à outra, àquela que é tão descuidada que matou o próprio e provavelmente levaria o filho da primeira ao mesmo funesto destino. Não teria ela agido com melhor senso se tivesse pedido para que o filho fosse para as mãos de alguém mais cuidadosa? Agindo assim, ela põe em dúvida a própria sanidade mental… Ora, as duas mulheres moram juntas e têm o mesmo ofício, são prostitutas. Longe de mim julgá-las por seu ofício (melhor juízo poderia fazer o senhor, que é muito mais sábio que eu), mas considerando que ambas vivem juntas e levam vidas parecidas, não existe a probabilidade de a mãe verdadeira vir a incorrer no mesmo erro da mãe falsa? O que garante, dentro de tudo o que se pôde ver na cena que ambas fizeram, que a mãe verdadeira não teria feito o mesmo que a outra se encontrasse seu filho morto? Até onde podemos vislumbrar (por mais sábio que seja, perdoe-me por lembrá-lo disso, o senhor não é onisciente), é provável que a mãe que perdeu o filho tenha sofrido como qualquer mãe, e por isso tenha querido, em seu desespero, substituir a criança. A outra defendeu a vida do bebê porque era seu filho, mas será que ela defenderia a vida do filho da outra? Enfim, o que estou questionando (não estou questionando o senhor) é o caráter da mãe, que, por mais maternal que seja e por mais que ame seu filho, pode ser uma pessoa de mau caráter. Não quero de maneira nenhuma colocar em dúvida sua decisão, Majestade, mas talvez (só talvez) o senhor devesse ter pensado melhor nas consequências de sua decisão em relação à criança. Não quero pensar e nem quero que ninguém pense que o senhor procedeu de forma a impressionar seus súditos e parecer sábio aos seus olhos, no entanto alguns podem pensar (não estou dizendo que eu penso assim) que sua decisão no julgamento foi muito rápida e que na verdade o senhor é um louco tomado por sábio (não queiramos que ninguém pense assim). Porventura uma investigação mais acurada tivesse elucidado melhor o caso e destruído qualquer dúvida, nem que fosse só para confirmar sua percepção de que o melhor era mesmo entregar o bebê à mulher suplicante, o que teria rendido ainda mais crédito à sua capacidade de julgar, mas… quem sou eu para dizer essas coisas? Sou só um escriba…

Salomão estava fitando impacientemente o escriba:

É isso?

Sim, Majestade, é só isso.

Guarda, traga uma espada.

Baseado em:

  • Bíblia.Primeiro Livro dos Reis; capítulo 3: versículos 16 a 28. Link.

Imagem

  • Trecho de O Julgamento de Salomão, de Giovani Battista Tiepolo