Afrofuturismo em cinco pequenos gestos

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Pode-se dizer que o Afrofuturismo é uma reinvenção do futuro das pessoas negras vivendo na cultura racista ocidental. Seja concebendo a presença dos descendentes de africanos nas narrativas fictícias futuristas, seja representando-os como pertencentes ao mundo da alta tecnologia (e não só de uma certa cultura pautada num passado “primitivo”), seja os negros se apropriando da Ficção Científica para contar histórias pertinentes a sua existência enquanto minoria, o Afrofuturismo se compõe de uma gama de manifestações que atualizam a cultura pop/nerd/geek/futurista segundo um ideal igualitário ainda difícil de ser concretizado, tanto na vida cotidiana quanto nas artes e na ficção.

Em artigo anterior, eu discorri sobre potenciais releituras afrofuturistas de temas recorrentes da Ficção Científica, baseando-me nas ideias de Ytasha Womack em seu livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, mostrando como os diversos temas e tropos do gênero podem ser reinterpretados como metáforas da tragédia dos afrodescendentes no Atlântico Negro. Mas essas releituras não resultam necessariamente em produtos afrofuturistas e podem não radicalizar suficientemente a proposta. Para que isso seja feito, penso, é preciso que as manifestações de reinvenção afrofuturista da cultura seja protagonizada por negros. Aliás, esse é necessariamente um pré-requisito para se considerar certas iniciativas como autenticamente afrofuturistas.

Isso foi feito por seus principais expoentes, como Sun Ra, na música, Octavia Butler, na literatura, e Spike Lee, no cinema. As grandes obras desses artistas são por si só instrumentos de inspiração. Mas há alguns pequenos gestos, iniciativas e atitudes que fizeram e fazem grande diferença e cujo significado é bastante contundente, não só por terem sido empreendidos por pessoas negras, mas porque ajudaram a mudar certos paradigmas ou, no mínimo, chamaram atenção para certas falhas na representatividade negra na mídia.

1. Nichelle Nichols: where no black woman has gone before

1966 testemunhou o advento de uma grande franquia de Ficção Científica na televisão estadounidense. Em Jornada nas Estrelas (Star Trek), Gene Roddenberry visualizou um futuro de alta tecnologia onde estava presente uma significativa diversidade humana. E entre os principais componentes da ponte de comando da nave estelar Enterprise estava Uhura, oficial de comunicações, uma mulher negra.

Embora a concepção da personagem em si não tenha sido feita pela própria Nichelle Nichols, atriz que a interpretou, há um detalhe interessante a respeito do seu nome. Uhura é derivado de uhuru, palavra suaíli que significa “liberdade”. De acordo com Nichols, o nome da personagem foi concebido por ela junto a Gene Roddenberry, que se basearam no nome de um romance popular na época (Uhuru, de Robert Ruark).

Isso é significativo porque representa a participação de uma atriz negra na construção de uma personagem que viria a ser um ícone muito significativo na cultura pop, além de trazer uma óbvia referência à luta contra a escravidão e à emancipação dos negros como um ideal a ser perseguido e plenamente realizado num futuro utópico.

Podemos perceber que a própria personalidade de Nichols influenciou Uhura, muito notadamente em sua caracterização como uma cantora e dançarina apaixonada que canta e dança por um ímpeto pessoal e não por demanda de uma plateia branca.

A mera presença Nichols/Uhura na tripulação principal de uma série de televisão popular foi tão influente que inspirou muitas crianças negras a seguir carreiras de difícil acesso à população racialmente discriminada. Mae Jemison é uma física e astronauta da NASA que se sentiu encorajada pela atriz/personagem a realizar seu sonho e foi a primeira mulher negra a viajar ao espaço (ela também viria a fazer uma ponta na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração). Whoopi Goldberg relembra que em sua infância, ao ver Uhura pela primeira vez, correu para avisar sua família:

Acabei de ver uma mulher negra na televisão, e ela não é uma empregada!

Goldberg não apenas veio a ser uma renomada e versátil atriz como fez um papel semirrecorrente em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, a misteriosa Guinan.

2. Martin Luther King aposta em Uhura

A história contada acima não estaria completa se deixássemos de mencionar o gesto de encorajamento que manteve Nichelle Nichols na franquia Star Trek. A atriz, por considerar seu papel na série como de pouca importância, havia decidido não renovar o contrato para a segunda temporada.

Nichols conta que um dos principais motivadores para que ela se mantivesse na série foi uma rápida conversa com ninguém menos do que Martin Luther King, grande ativista negro que, segundo ela, fez questão de lhe pedir pessoalmente que não abandonasse Star Trek, pois a presença dela na televisão representava um grande incentivo para jovens negras e negros dos EUA, em plena luta pelos direitos civis e contra o segregacionismo racial.

O gesto de Martin Luther King pode ser dividido em duas atitudes encorajadoras. Primeiro, ele se declarou fã de Star Trek e de Uhura, quebrando de forma contundente a ideia preconceituosa de que os negros não se interessam por Ficção Científica ou por ideias futuristas. Puro Afrofuturismo. Segundo, ele foi corresponsável por manter na televisão uma das grandes referências e influências da representatividade negra (e feminina) da cultura pop. Nichelle Nichols não apenas ficaria nas duas temporadas seguintes da série original, como participaria da Série Animada e de todos os seis filmes com a tripulação clássica.

3. Michael Jackson caminha na Lua

Michael Jackson pode ser considerado uma das grandes figuras do Afrofuturismo na música. Ele era um verdadeiro nerd, gostava de quadrinhos e video games. Parte de suas maiores composições musicais, performances coreográficas e videoclipes tem referências a temas da Ficção Científica, do Fantástico e do Terror.

Em 1983, no festival Motown 25: Yesterday, Today, Forever, Jackson executou em público pela primeira vez e de forma espetacular o passo de dança que ele batizou de moonwalk, “caminhada na Lua”. Veja no vídeo abaixo, em 3’37”.

Embora muitos pensem que o dançarino inventou o gesto, na verdade ele aprendeu de outro artista, e a bem da verdade, desde pelo menos 1932 esse passo já era realizado por dançarinos e cantores nos Estados Unidos. Mas o que há de interessante nisso em termos de Afrofuturismo, já que o passo não foi invenção de Michael Jackson?

O que importa neste gesto é o fato de ele ter sido reimaginado por Jackson como uma referência aos avanços científicos. O dançarino que executa o moonwalk parece estar livre da influência da gravidade terrestre, como se estivesse caminhando na Lua. Ou seja, o artista trouxe para a música e a dança negras um conceito futurista. Se faltava representatividade negra na Astronomia em termos de pessoas que já pisaram na Lua ou que já haviam no mínimo ido ao espaço, o cantor e dançarino negro Michael Jackson trouxe para a Terra uma forma de sonhar com a ida de pessoas negras ao satélite natural da Terra.

É interessante lembrar que a primeira pessoa negra a viajar ao espaço foi o cubano Arnaldo Tamayo Méndez, em 1980, na missão soviética Soyuz 38, três anos antes da apresentação de Michael Jackson. Em 1983, deu-se a primeira ida de uma pessoa afro-americana ao espaço, Guion Bluford. Desde então, houve algumas pessoas negras em missões espaciais, entre as quais a primeira mulher negra, Mae Jamison, citada acima, em 1992. Porém, até hoje não houve uma negra ou um negro na Lua.

4. Samuel L. Jackson: o negro é o último a morrer

Star Wars é uma das mais lucrativas e populares franquias de Fantasia Científica de todos os tempos. Mas desde seu início tem sido um tanto pobre em termos de representatividade da diversidade. No elenco original, Leia Organa (Carrie Fisher) cumpria seu papel como elemento do Princípio da Smurfette e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) marcava presença num papel coadjuvante.

Mesmo a segunda trilogia continuou fraca em termos de presença de personagens negros, mas melhorou um pouquinho ao colocar Samuel L. Jackson no papel de Mace Windu, um dos mais poderosos mestres da Ordem Jedi e também um dos mais populares personagens dos novos filmes. Sua popularidade se deve em parte por causa de certas características ligadas ao ator que o interpreta. Jackson, sendo careca, costuma incorporar personagens com cabelos extravagantes, e Mace Windu foi uma exceção que chamou atenção do público. Além disso, o sabre-de-luz deste mestre jedi é o único que tem a cor roxa em todos os filmes da franquia (todos os outros jedi têm lâminas que variam entre azul, verde, vermelho e amarelo), e é uma marca da intervenção do próprio ator na concepção visual do personagem.

Como se não bastasse o versátil ator negro ter construído a figura de Mace Windu como um tipo afrofuturista durão e de grande força presencial, ele ainda contribuiu para transgredir um tropo muito comum no cinema, conhecido como “o cara negro morre primeiro“. Segundo este tropo, se há uma pessoa negra num grupo de personagens que vão morrer durante a trama, a probabilidade de ela ser a primeira a ser eliminada é altíssima, e muitas vezes de forma estúpida. O personagem aparece ali, talvez, no máximo para cumprir uma cota de diversidade e é logo descartado quando não se precisa mais dele.

Porém, Samuel L. Jackson solicitou pessoalmente a George Lucas que seu personagem, fadado a morrer no roteiro, não fosse eliminado “como um marginal qualquer” (“like some punk”). Assim, Mace Windu subverteu o tropo ao ser o último de seu grupo a morrer na luta contra o Senador Palpatine e ao fazê-lo de maneira heroica, tendo a vida do inimigo em suas mãos e só sucumbindo porque foi traído por Anakin Skywalker.

5. Janelle Monáe e os androides

Janelle Monáe é uma musicista, compositora, cantora e dançarina estadounidense que tem na versatilidade de estilos uma de suas marcas. Sua música é temática e envolve uma elaborada história de Ficção Científica com temas como viagens no tempo, distopia e inteligência artificial (androides). É considerada, na música contemporânea, como um expoente do Afrofuturismo, não só por misturar música negra com Ficção Científica, mas também por subverter, em suas performances musicais, videoclípicas e de palco, as identidades raciais estabelecidas e as tradicionais camisas-de-força do gênero. Eu a vejo como uma herdeira espiritual de Michael Jackson, uma figura excêntrica que constrói sua imagem pública como uma obra de arte viva e inspiradora.

Na mitologia narrativa criada por Monáe em sua música, a figura dos androides é uma constante, usada como metáfora da alteridade, das minorias oprimidas, dos grupos discriminados e objetificados, especialmente os povos escravizados, como os africanos e seus descendentes na América. E foi usando essa metáfora que a artista, num pequeno gesto afrofuturista, respondeu de maneira magnífica a uma pergunta da imprensa sobre sua sexualidade, sobre se ela é lésbica:

I only date androids. That’s great, they can claim me as well as the straight community, as well as androids. I speak about androids because I think the android represents the new ‘other’. You can compare it to being a lesbian or being a gay man or being a black woman … What I want is for people who feel oppressed or feel like the ‘other’ to connect with the music and to feel like, ‘She represents who I am’.

[Eu só me relaciono com androides. Isso é ótimo, elas [as lésbicas] podem se identificar comigo assim como a comunidade hétero, assim como os androides. Eu falo sobre androides porque penso que o androide representa o novo ‘outro’. Você pode enxergá-lo como representando uma lésbica ou um gay ou uma mulher negra… O que eu quero é que as pessoas que se sentem oprimidas ou se sentem como o ‘outro’ se conectem com a música e pensem: ‘Ela representa quem eu sou’.]

Dessa forma, Janelle Monáe explicita a metáfora do indivíduo coisificado, explorado, expropriado de sua autonomia, presente na figura dos androides, especialmente aqueles que, em histórias como as que ela conta, se rebelam contra a sujeição sob a qual vivem. Seja qual for a orientação sexual de Monáe, o fato é que a forma como ela se apresenta publicamente aciona os preconceitos da cultura em que vive, que assume que certa forma de se vestir e se comportar é supostamente típica de uma mulher homossexual. Neste sentido, identificar-se como androide é jogar para o público uma dúvida que representa a impossibilidade de se inferir, sem algum grau de preconceito, qualquer coisa a respeito da identidade individual de outra pessoa.

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Releituras afrofuturistas da Ficção Científica

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Ytasha L Womack e seu livro “Afrofuturism”.

O Afrofuturismo é um conjunto de manifestações culturais que mistura elementos da cultura negra (ou daquilo que é representado como cultura negra, de matriz africana ou afrodescendente) com aspectos da cultura pop que dizem respeito a noções de futuro e progresso tecnológico, notadamente as ideias da ficção científica futurista, e envolve literatura, música, estética e moda, artes visuais, cinema e televisão. Acima de tudo, o Afrofuturismo é uma filosofia, uma forma de revisar o modo como os negros veem a si mesmos na mídia, valorizando elementos culturais do passado e do presente e construindo uma visão de futuro com base em seus próprios anseios e não nos tradicionais estereótipos racistas (e também de identidade de gênero e sexualidade).

O livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, da escritora norte-americana Ytasha L. Womack, apresenta um panorama das diversas vertentes do Afrofuturismo, seus diversos artistas e pensadores. O que mais me interessou no livro foram as diversas referências a temas da Ficção Científica (literatura, cinema e televisão) e como eles são reconstruídos na perspectiva da experiência negra no Ocidente e também na África. Há não apenas uma forma alternativa de ver a ficção científica clássica, mas uma produção de literatura negra que remonta a W. E. B. Du Bois e tem em Octavia Butler uma de suas principais referências.

Há algum tempo venho me interessando por essa parte ainda marginalizada da Ficção Científica, da qual aos poucos estou me inteirando. Mas ainda não li muita coisa da produção afrofuturista propriamente dita. No entanto, na apropriação desse gênero literário pelos negros, uma vez que o Afrofuturismo abrange também uma forma alternativa de interpretar a produção eurocêntrica mais consagrada, é muito interessante a forma pela qual ele ressignifica temas clássicos como a abdução alienígena e a inteligência artificial, usados como metáforas para a história dos africanos e seus descendentes no Atlântico Negro.

Naves e abduções alienígenas

Ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de "A Guerra dos Mundos"

Invasores alienígenas na ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de “A Guerra dos Mundos”

A diáspora negra resultante do comércio de escravos africanos por europeus pode ser colocada nestes exatos termos:

Alienígenas chegaram em naves e abduziram pessoas.

Com essas palavras, é impossível não pensar numa história de ficção científica sobre seres extraterrestres que chegam à Terra em espaçonaves e raptam seres humanos. Mas se explorarmos outros sentidos dos termos da expressão acima destacada, podemos pensar no significado próprio de alienígena como “estrangeiro”, nave como “embarcação” (navio) e abdução como “captura”.

Os autores Mark Dery, Mark Sinker e Reynaldo Anderson, citados por Womack, escreveram sobre essa pungente metáfora. Assim, se por um lado as histórias de invasão e abdução extraterrestres representam o medo europeu e norte-americano de sofrer na pele o mesmo processo de dominação colonial que esses povos empreenderam e ainda empreendem, elas falam sobre a história real daqueles que sofreram e sofrem essa mesma dominação, em especial os africanos.

Mas a abdução é apenas uma parte desse processo de contato com alienígenas. Os contos sobre invasão de grandes naves espaciais prontas para subjugar e, em alguns casos, exterminar a humanidade são exatamente uma representação do que os “conquistadores” fizeram em suas viagens de “descoberta”. Os enredos de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, de Independece Day e o histriônico Marte Ataca! são ótimas analogias da invasão, escravização e dominação dos africanos pelos europeus imperialistas.

Distopias pós-apocalípticas

O apocalipse zumbi de "The Walking Dead", ilustrado por Charlie Adlard

O apocalipse zumbi de “The Walking Dead”, ilustrado por Charlie Adlard

Se continuarmos a sequência dessa história e falarmos sobre a diáspora negra, o pesadelo dos africanos e seus descendentes, tanto na África colonizada quanto nos países para os quais foram levados em navios negreiros, a desolação de viver subjugados a alienígenas de cara pálida num mundo desagregado, podemos extrapolar a interpretação das histórias distópicas de teor pós-apocalíptico.

Estas histórias retratam uma humanidade vivendo à beira de um colapso, geralmente ameaçada por seres perigosos, como robôs, monstros, zumbis ou ditaduras totalitárias. 1984, de George Orwell, com sua metáfora da bota militar esmagando um rosto, é a síntese perfeita da opressão absoluta de uma classe sobre uma minoria social (mesmo que esta seja maioria em quantidade), o que é visto nos regimes de apartheid e nas nações escravocratas.

A alegoria do apocalipse zumbi também pode ter repercussões imagéticas interessantes na descrição da vida dos escravos vivendo entre seres que são semelhantes a eles (como o são os mortos-vivos) mas que carregam diferenças consideradas inconciliáveis. Zumbis se assemelham a vampiros em sua natureza parasítica, sempre em busca dos cérebros ou do sangue dos vivos, e é como parasitas vampíricos que podem ser vistos os senhores de escravos, explorando a energia dos cativos. Além disso, a metáfora encontrada na série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), que foi adaptada para a TV, também é muito pertinente, pois nessa história os “mortos caminhantes” não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes que estão à beira da morte. Os escravos negros também eram mortos-vivos neste sentido, pois suas vidas estavam à mercê dos implacáveis senhores, não eram donos de suas vidas, sempre à beira da morte ou, em certo sentido, mortos em vida.

Robôs

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

As histórias sobre robôs trazem diversos temas antropológicos interessantes. Um deles está ligado diretamente à etimologia da palavra robô, que pode ser entendida como sinônimo de “escravo”.

As máquinas que servem como substitutos do trabalho humano são entendidas por seus criadores e usuários como autômatos desprovidos de vontade própria, utensílios sem alma que apenas se assemelham vagamente a seres humanos. Essa forma de ver os robôs resume o que era a ideologia defendida para justificar a subjugação de seres humanos escravizados, representando-os como indivíduos dotados de menos humanidade que seus escravizadores, máquinas de carne negra sem alma.

O estigma que atrela a noção de escravo à de pessoa negra é tão forte hoje em dia que temos dificuldade de pensar em escravidão que não envolva pessoas negras. A escravidão existiu em toda parte ao redor do mundo, e povos de várias origens étnicas e diversos matizes já se encontraram sob o jugo da servidão forçada. Mas as consequências sócio-culturais dessa forma de trabalho não são tão sentidas na contemporaneidade quanto pelos negros descendentes de africanos, ainda tentando, em diversos contextos, provar seu status de humanos pensantes, do mesmo modo que robôs como Johnny 5 (Um Robô em Curto-circuito), Andrew (O Homem Bicentenário) e Data (Star Trek) tentam.

Essa metáfora que compara os afrodescendentes a androides foi explorada pela musicista Janelle Monáe em sua obra. A sinfonia The ArchAndroid, uma ficção científica em forma de música, conta sobre a profetizada vinda de uma Arquiandroide que libertará todos os androides.

Fábulas com robôs que querem ser humanos são excelentes metáforas do processo de humanização dos indivíduos de nossa espécie: estamos o tempo todo nos esforçando para nos aproximar de um ideal de humanidade, condicionado pela cultura em que vivemos. Minorias discriminadas, seja por racismo, sexismo ou outras normatividades, se vêem numa luta ainda mais hercúlea. Aliadas a isso, as fantasias de revolta contra os opressores e de tomada do poder encontram nas histórias com robôs um interessante paralelo. A revolta das máquinas em Matrix e O Exterminador do Futuro é uma alegoria do levante de escravos contra os portadores do látego. O Quilombo dos Palmares é uma sociedade de robôs libertos que provaram sua humanidade.

Hibridismos

O xenomorfo híbrido em “Alien: O Oitavo Passageiro”

Um tema da Ficção Científica que se relaciona com nossa dificuldade de lidar com sentimentos racistas é o hibridismo, seja entre duas ou mais espécies orgânicas, seja entre ser vivo e máquina. O exemplo mais clássico do parasita alienígena do cinema talvez seja a franquia Alien, onde a contaminação de seres humanos (e de outros animais) pelos xenomorfos produz criaturas que são amálgamas monstruosos, belos e mortais.

A história começa com a chegada de exploradores numa terra estranha e seu contato com uma espécie nativa, da qual resulta um ser mestiço, o “alien”. Esta criatura surge do estupro de um dos tripulantes, um homem branco, por parte da criatura feminina que eclode de um ovo e que pode ser vista como uma reminiscência simbólica de uma mulher africana. Há portanto a inversão da relação da violência sexual. Porém, tendo em vista a representação, por parte do colonizador, dessa relação como prejudicial a este – inclusive com a ideia de contaminação de DSTs supostamente originárias da África -, a metáfora invertida cumpre seu papel de remontar ao processo de exploração do continente africano e da consequente “contaminação” da cultura e biologia europeias pelas africanas. De acordo com Célia Magalhães, no livro Os Monstros e a Questão Racial na Narrativa Modernista Brasileira, a alegoria do parasitismo pode ser uma referência à mestiçagem colonial, em que os elementos culturais dos dominados são vistos como indesejados pelos defensores de uma idealizada pureza da cultura dominante.

O ser estranho que assim surge, mesmo tendo metade do DNA do conquistador, é visto como totalmente alienígena. E bastante emblemático que o xenomorfo tenha a cor negra e é bastante interessante o fato de, no primeiro filme da franquia, ele ser interpretado por um ator africano, escolhido justamente pelo exotismo de seu corpo. A parcela africana da herança das culturas ocidentais é ainda hoje vista como algo exótico e não propriamente normal, e ainda existem pessoas e grupos que defendem a extirpação dessa herança, como se o elemento negro de nossa cultura e de nossa população fosse uma monstruosidade incômoda. Nosso racismo velado ainda percebe a presença negra como um elemento intruso em nossa sociedade, ainda sentido como alienígena e passível de ocultamento ou até mesmo extirpação.

Embora um pouco diferente, o hibridismo cibernético também se presta à mesma alegoria. Como vimos, os robôs podem ser vistos como metáforas da minoria escravizada e desumanizada. Quando a máquina é integrada ao humano, dando origem aos ciborgues, temos toda sorte de enredos admoestando-nos sobre os perigos dessa união, o medo de que a parte máquina tome conta da parte orgânica e até mesmo oprima seu livre-arbítrio. É o que acontece com o policial Alex Murphy em Robocop, que precisa lutar internamente para não deixar que a máquina sem alma assuma o controle de suas ações. Também é o drama do Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, que perde quase totalmente sua vontade ao ser seduzido pela frieza ambiciosa do implante que colocou em si mesmo, e dos Borgs em Star Trek, cuja parte mecânica embota completamente a liberdade do ser orgânico animado.

Representatividade

Depois que uma obra é publicada, ela não pertence mais ao autor. Seus leitores se apropriam dela como bem entendem e lhe imprimem os significados que consideram mais pertinentes. Dessa forma, é muito importante que as obras clássicas tradicionalmente carregadas de eurocentrismo, androcentrismo e heteronormatividade sejam relidas pelo olhar das minorias pouco ou nada representadas nessas obras. Além de ser um meio de enriquecer o cânone com mais possibilidades de leitura, é uma forma de os leitores se constituírem como ativos construtores de significado, fomentando a criação de novas obras carregadas de mais representatividade, especialmente uma representatividade de autoras e autores.

Prometheus

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Prometheus (2012)Título original: Prometheus

Direção: Ridley Scott

País: EUA

Ano: 2012

Sinopse

O muito esperado Prometheus (2012), de Ridley Scott, prometida “prequência” de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) – embora Scott tenha declarado que o filme não deve ser encarado como uma “prequência” -, trouxe a história de uma busca pelas origens da humanidade, tendo como mote as ideias que tornaram célebre o escritor Erich von Däniken.

Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) são dois cientistas em busca dos “Engenheiros” que criaram a vida na Terra e que supostamente deixaram mensagens sobre sua localização, em diversos locais do planeta que à época do filme são sítios arqueológicos. Suas teorias chamam a atenção de Peter Weyland (Guy Pearce), empresário ancião e bilionário, e este financia uma expedição ao local indicado pelos antigos “mapas”, na esperança de descobrir uma tecnologia que o permita prolongar sua vida.

No processo de exploração das ruínas alienígenas, os humanos da nave Prometheus (Prometeu, o deus grego que deu o fogo – e consequentemente o poder –  aos humanos e foi punido por Zeus) se deparam com estranhas formas de vida alienígena e com contágios que quase acabam com a missão. Esta tem fim apenas quando um dos “Engenheiros” é reanimado e, aparentemente, tenta viajar à Terra para destruí-la. De uma tripulação de mais de sete pessoas, só sobrevivem Shaw e o androide David (Michael Fassbender), que partem ainda em busca da origem dos supostos criadores da vida na Terra.

Abrindo a obra

Esse resumo da trama não explicita os elementos interessantes nem os pontos fracos da obra. O filme está impregnadíssimo da carga genética herdada de Alien e suas sequências, por mais que Scott tenha tentado ou negado. Isso implica tanto num apelo aos admiradores da “outra” franquia quanto numa previsibilidade advinda de uma fórmula não-original. Vamos aos detalhes.

Em primeiro lugar, Prometheus é uma história sobre a curiosidade humana, a busca científica pela verdade, a perscrutação filosófica das origens. O caráter mítico e místico de ideias fantásticas como as de Däniken em seu Eram os Deuses Astronautas? seduz o espectador com a promessa de uma descoberta fundamental.

Não é à toa que a nave da expedição se chama Prometeu, um dos símbolos ocidentais do humanismo e da autonomia humana perante o poder opressor dos deuses. Porém, nisso reside ao mesmo tempo a esperança e a danação da tripulação. Ou seja: por um lado, a presunção de “brincar” com a vida traz consequências drásticas; por outro lado, a busca revela (ou insinua) certas verdades inconvenientes sobre os supostos “criadores”, que não são os deuses bondosos que se imaginava.

Há então uma mensagem filosófica ambígua. Aparecem, sub-repticiamente, ideias ateístas, quando se observa que o “Criador” não é necessariamente bom, e talvez não haja um Criador absoluto. Weyland, que trouxe à vida David, é inescrupuloso, mas o androide o obedece cegamente, como os profetas fazem, sem questionar as razões ou os métodos daquele que lhe dá ordens. É assim que cristãos, por exemplo, justificam as atitudes antiéticas de Deus pelo argumento de que há um motivo justo por trás de tudo.

Da mesma forma, o “Engenheiro”, imaginado como um ser virtuoso e moralmente evoluído, não é mais do que um humanoide com seus próprios interesses. E, apesar de tudo, vemos a doutora Shaw, movida pela fé, voar atrás de uma resposta mais reconfortante, mesmo com a probabilidade de se arrepender amargamente. Não fica claro, assim, se Scott pretendia exaltar a fé num ideal ou apontar os riscos de uma ideologia míope.

David

Os melhores momentos do filme são encenados por David, o androide a serviço de Weyland. O personagem lembra todo o drama de outros robôs da ficção, como seu xará de A.I.: Inteligência Artificial, WALL-E e Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

David aprende variados conhecimentos em sua viagem solitária (enquanto os humanos dormem em hibernação induzida), como Super-homem em sua Fortaleza da Solidão, aprendendo com os pais virtuais. Quando a tripulação acorda à chegada ao destino da missão, o androide precisa o tempo todo suportar o desprezo dos humanos que o consideram uma coisa. Este é sempre o problema, em histórias sobre robôs, de se programar um ser artificial para simular perfeitamente um ser humano, pois ele sempre será percebido como um arremedo de pessoa, mas, por outro lado, também está programado para agir como uma pessoa agiria diante de atitudes discriminatórias e vilipendiosas.

Entretanto, tendo características humanas, David se sente superior pelo que é capaz de fazer além do que um ser humano faz. Além disso, ele se orgulha de empreender a missão de que foi incumbido por seu criador, e essa talvez seja sua pequena vingança pelo desprezo e desconfiança dos tripulantes de carne e osso. Além de ser o único no qual Weyland confia (mais até do que na própria filha), ele tem o privilégio de já conhecer seu deus, enquanto os humanos estão perdidos atrás do seu.

Prometheus e Alien

  • Em toda a quadrilogia Alien, o principal vilão/antagonista é sempre a companhia Weyland. Ou seja, a ganância exploratória cujos intentos passam por cima de qualquer ética.
  • Como em Alien, há um androide representando os interesses desumanos da companhia. Como em Alien e Aliens, o androide é destroçado mas continua funcionado, servindo ainda a algum propósito na narrativa.
  • A heroína é a única sobrevivente humana e a que mais sofre com a tensão e o terror dos monstros a bordo. Ela até tem uma cena seminua que muito lembra Ripley no final de Alien.
  • A visão do salão com os cilindros dentro da nave alienígena remete inevitavelmente à câmara de ovos/casulos de Alien, e é de onde sai o contágio que dá origem ao monstro.
  • Uma equipe de “figuras”, com suas idiossincrasias e diferenças. No entanto, os personagens das trupes de Alien, Aliens, Alien 3 e até Alien: A Ressurreição são bem mais marcantes e redondos do que os de Prometheus.

É claro que nem tudo é clonagem. Há elementos novos, especialmente o tema central do filme, a busca pelos primórdios, pelas origens, pela criação da humanidade, e a presença de uma raça alienígena inteligente como um dos antagonistas (os xenomorfos da série Alien são mais instintivos e animalescos).

Porém, algumas novidades deturparam um pouco a temática suscitada pela espécie alienígena dos filmes anteriores. Minha perspectiva a respeito dos xenomorfos, que estrelou os 4 filmes da franquia Alien e da sequência de 2 Alien vs. Predador, sempre foi a de que se tratava de um ser vivo pertencente a um ecossistema alienígena, muito diferente do nosso. Um predador-parasita (cujo complexo ciclo reprodutivo-vital se justificaria pelo equilíbrio, afinal, os predadores são sempre menos numerosos do que as presas) que, em contato com o Homo sapiens, trouxe um sério problema de incompatibilidade ecológica.

O “alien” da franquia anterior a Prometheus não é um monstro maligno, mas um animal fora de seu habitat (ou seria o próprio humano o alienígena deslocado de seu ambiente natural), como os coelhos levados à Austrália por colonizadores, resultando numa praga e na devastação da vegetação local.

Prometheus destrói toda essa ideia, sugerindo que os xenomorfos são na verdade originários de um espermatozoide humano mutante, resultado de um experimento genético, que extraordinariamente já nasceu com toda a complexidade fisiológica, morfológica e filogenética que vemos nas histórias protagonizadas por Ellen Ripley.

Enfim, ao desconstruir a premissa interessante de Alien, Prometheus traz mais do mesmo estereótipo do alienígena que só pode assumir um de dois papéis opostos: o de deuses astronautas bondosos, inspirados nas mitologias em que seres superiores são um reflexo das virtudes que queríamos ter, ou bárbaros invasores frutos de um imaginário xenofóbico e belicista.