O Hobbit

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Muito antes do grande sucesso mundial da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003), bem antes mesmo da obra literária que inspirou os filmes (publicada entre 1954 e 1955), havia uma toca no chão e lá dentro morava um hobbit.

O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, foi publicado originalmente em 1937, como um livro infantil de aventura. Conta a história de uma grande viagem empreendida por um pequeno ser, o hobbit Bilbo Bolseiro (ou Bilbo Baggins no original em inglês). Dizem que os primeiros leitores do livro foram os filhos pequenos de Tolkien.

Bilbo Bolseiro, o hobbit

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Os hobbits são humanoides com cerca de metade do tamanho de um ser humano (por isso, em inglês eles são chamados também de halflings), parecendo crianças humanas, exceto pelas mãos longas e ágeis e os grandes pés peludos. Vivem em “tocas”, ou seja, constroem suas casas escavadas em colinas, nos flancos das quais despontam janelas e belas portinhas redondas. Eles têm uma predileção pela vida pacata, boa comida e cachimbos. Há um quê de inglês em suas personalidades, inclusive no hábito de tomar chá no final da tarde.

Mas Bilbo tem antepassados heroicos e Gandalf, o mago errante, sabe disso, convidando-o para uma grande missão: ajudar o anão Thorin Escudo de Carvalho e seus 12 companheiros a recuperar a Montanha Solitária e o tesouro tomado pelo dragão Smaug. A princípio, tanto os anões quanto o próprio Bilbo duvidam que o hobbit tenha alguma utilidade na aventura. Mas o pequenino acaba salvando seus companheiros mais de uma vez e assumindo um papel crucial para a resolução da história.

Pessoalmente, considero O Hobbit como uma narrativa de aventura exemplar, por três motivos:

  1. Empolga a criança existente no leitor, ávida por uma grandiosa fábula, e pode ser apreciada por diferentes públicos, das mais diversas idades, gêneros, tradições culturais e interesses pessoais.
  2. É pontuada por humor e elementos pitorescos, que a tornam uma leitura agradável e nos transporta para um mundo da mais pura fantasia e romantismo, mas bastante verossímil. Os elementos fantásticos não precisam de explicação e adentramos o universo tolkeniano naturalmente, com um misto de estranheza e familiaridade.
  3. Ela segue a estrutura clássica e básica de qualquer grande narrativa mítico-literária. Um indivíduo comum que vive uma vida comum recebe inesperadamente um chamado para uma grande missão. Ele nega a princípio, mas acaba sendo levado pelas circunstâncias. Encontra aliados, inimigos e passa por dificuldades. Está sempre se lembrando de sua casa confortável, contrastando-a ao mundo perigoso e imprevisível que enfrenta. Em determinado momento crucial, ele quase morre, e é realmente tido como perdido, mas ressurge da escuridão, renovado e mais forte. Descobre e desenvolve habilidades que utiliza no momento crítico da história, tornando-se o herói de um grande evento, muito maior do que ele poderia conceber no início. Retorna ao lar, mudado, já bem diferente do que costumava ser.

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Encontros com a ganância

Ao longo dos capítulos, os personagens vão encontrando diversas criaturas fantásticas, como trolls que viram pedra à luz do sol, orcs que moram dentro das montanhas, bondosas águias gigantes e elfos desconfiados. Mas os encontros mais significativos são com indivíduos únicos, especialmente Gollum e Smaug. Estes, junto com o anão Thorin, incorporam um dos temas principais da obra, que é a ganância e a avareza.

Gollum

mcbrideGollum, como explicado posteriormente em O Senhor dos Anéis, é um hobbit que há centenas de anos encontrou um anel mágico e se isolou do mundo num pequeno lago na raiz das Montanhas Sombrias. Ele chama o anel de “meu precioso” e de “presente de aniversário”, pois o artefato lhe permite ficar invisível, recurso usado por ele para se proteger dos orcs ou matá-los se estiver com muita fome. Mas Bilbo encontra o anel e, depois de um jogo de adivinhas, acaba levando-o consigo e o utilizando em diversas situações da fábula.

No conjunto narrativo que envolve O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Gollum pode ser visto como uma imagem prospectiva de Bilbo, aquilo em que este poderia se transformar se se mantivesse tempo demais com a posse do anel, cultivando o sentimento de avareza e possessividade que ele traz consigo.

O anel não é apresentado como um item mau nem bom, mas apenas uma ferramenta, que Bilbo utiliza para o bem de sua aventura e de seus companheiros, dando a ele um fim mais nobre do que aquele dado por Gollum. O próprio “roubo” do anel por Bilbo mostra um caráter moralmente ambíguo nas atitudes do hobbit, pois a picaretagem serviu, no conjunto da história, para um bem maior.

Smaug

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O dragão que no passado expulsou os anões da Montanha Solitária, tomando para si todo o tesouro e transformando os arredores em uma grande Desolação, é o símbolo máximo da avareza. Semelhante à figura do Tio Patinhas em sua caixa-forte repleta de moedas, Smaug desenvolveu um extremo zelo e ciúme pelo enorme tesouro roubado dos anões, não admitindo que seja surrupiada sequer uma ínfima peça, e chegando ao ponto de ter encravadas em seu longo ventre inúmeras joias, transformadas numa (quase) impenetrável couraça.

É uma figura imponente, temível e poderosa, dando a impressão de representar um desafio intransponível para anões e hobbit. Porém, na instigante conversa que Bilbo trava com a besta, ele se utiliza da vaidade e arrogância de Smaug para enganá-lo. O duelo entre os dois é puramente psicológico, e o hobbit o vence indiretamente, descobrindo seu ponto fraco e enviando uma mensagem para um exímio arqueiro, que mata o dragão.

O encontro/conversa de Bilbo com Smaug ressoa seu diálogo com Gollum, pois ambos ocorrem no canto mais recôndito de uma montanha, e tanto o desgraçado hobbit quanto o maldito dragão são figuras solitárias, tornadas assim por seus próprios vícios. Gollum serve, de certa forma, como preparação para o o desafio maior que é enfrentar Smaug.

Thorin

Também é bastante dramático o conflito entre Bilbo e Thorin, o próprio indivíduo que o contratou para a aventura. O herdeiro do trono dos anões é movido pela cobiça, sendo sua raça naturalmente propícia a amar o ouro e os artefatos de grande valor. Quando finalmente recuperam a Montanha Solitária, Thorin é tomado por um surto de ganância, e se recusa a dividir o tesouro com os humanos, vítimas de Smaug e, em parte significativa, responsáveis pela destruição do dragão.

Bilbo intervém de forma genial e virtuosa, não só auxiliando na Batalha dos Cinco Exércitos (anões, elfos e humanos contra orcs e wargs), em que os protagonistas saem vitoriosos, como ajudando Thorin a retomar a lucidez e finalmente dividir de forma justa o imenso tesouro.

Bilbo, Frodo e os anões

O Bilbo de O Hobbit é muito mais forte e interessante do que seu sobrinho Frodo de O Senhor dos Anéis. O tio foi muito mais versátil e bravo em sua aventura, fazendo coisas que nunca imaginaria capaz, tomando a iniciativa quando os anões hesitavam e concebendo ideias que significaram o sucesso da empreitada. Frodo, por outro lado, é no geral apenas o encarregado de destruir o artefato mágico maligno, muitas vezes escapando dos perigos por pura sorte, mas principalmente por causa de seu companheiro Sam, seu guarda-costas e o verdadeiro guerreiro da missão.

A partir do sucesso de O Hobbit, os leitores ansiavam por conhecer mais sobre os hobbits, e O Senhor dos Anéis trouxe isso, tanto com informações sobre a origem e os hábitos desse povo quanto colocando 4 personagens de destaque na trama. Por causa disso, talvez haja um efeito inverso para aqueles que só conhecem os filmes/adaptações de Peter Jackson. A trilogia cinematográfica que conta a aventura de Frodo Bolseiro está repleta de informações sobre os hobbits. Por outro lado, O Senhor dos Anéis pouco trata sobre os anões, trazendo apenas Gimli como representante de destaque. Assim, para quem só viu os filmes, O Hobbit de Peter Jackson trará muito ênfase em anões e pouca em hobbits (especialmente considerando que os anões do filme parecem estar muito mais complexos do que no livro), o que pode diminuir a verdadeira importância do papel de Bilbo aos olhos dos espectadores.

Legado

BILBO__O_HOBBIT_1298987128PA moderna literatura de fantasia deve muito à aventura de Bilbo Bolseiro, especialmente aquela ligada ao universo dos RPGs que seguem a linha de Dungeons & Dragons. O Hobbit praticamente estabeleceu as principais raças da maioria dos cenários de role-playing games de fantasia medieval: humanos, elfos, anões e hobbits/halflings. Também montou o cenário de eterna rivalidade entre elfos e anões e a aguerrida inimizade destes com os orcs.

Há uma conhecida adaptação de O Hobbit para os quadrinhos, feita por Charles Dixon (roteiro) e David Wenzel (desenhos), muito bonita e caprichada. A visão pessoal de Dixon e Wenzel evidencia o caráter mágico e fantástico da história, com uma arte que remete ao estilo das ilustrações de livros infanto-juvenis. A imagem de Gollum é uma das melhores que já vi entre todos os ilustradores que já desenharam as histórias de Tolkien.

No cinema/televisão, não só houve adaptações diretas da obra como influência em diversos filmes e cineastas (para mais detalhes sobre as adaptações audiovisuais, confira o artigo O Hobbit na televisão e no cinema). Grande parte dos filmes de fantasia medieval tem alguma coisa que remete a O Hobbit, mas basta lembrar de Willow – Na Terra da Magia (1988), produzido por George Lucas e dirigido por Ron Howard, que conta a grande aventura vivida por um nelwyn (raça pequenina que lembra muito os hobbits e vive em sua própria sociedade). Willow é interpretado por Warwick Davis e todos os nelwyns do filme são  vividos por anões (humanos com nanismo, para ficar bem claro).

Muitos músicos também têm nessa obra uma fonte de inspiração, sendo talvez os mais célebres a banda inglesa Led Zeppelin, que tem referências sutis em suas letras, e os alemães da Blind Guardian, autores de várias canções diretamente inspieradas pela obra de Tolkien, inclusive The Bard’s Song (The Hobbit), cuja letra resume a aventura de Bilbo.

Homo_floresiensisNa Ciência, há alguns casos de cientistas homenageando a obra de Tolkien ao batizar espécies de seres vivos.

Há um gênero de tubarões, por exemplo, que vive nas profundezas do oceano e tem grandes olhos. Pela semelhança com a imagem de Gollum (que tinha grandes olhos brilhantes e vivia na escuridão profunda de uma caverna), ele foi batizado pelo pesquisador Leonard Compagno como Gollum. Há duas espécies conhecidas, Gollum attenuatus, que vive em águas ao redor da Nova Zelândia, e Gollum suluensis, habitante do Mar de Sulu, ao sul das Filipinas.

Outra criatura, neste caso extinta, é um hominídeo que viveu na Ilha de Flores, na Indonésia, cujos vestígios foram descobertos em 2003, o Homo florensiensis (ainda se discute se se trata de uma espécie separada do gênero Homo ou se são Homo sapiens com patologias anatômicas). Pelo seu tamanho diminuto, são apelidados como “hobbits” por arqueólogos, e quase foram batizados como Homo hobbitus na época de sua descoberta.

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O próximo grande  legado de O Hobbit é a vindoura trilogia dirigida por Peter Jackson, cuja primeira parte estreia nesta sexta-feira, dia 14. Não é exagero dizer que todos os admiradores da obra de Tolkien esperam ansiosamente.

Links

Imagens

  • Jogo de Adivinhas, por Tim Kirk (Destaque)
  • Uma Visita Matutina Inesperada, por Ted Nasmith
  • Uma Festa Inesperada, por John Howe
  • Gollum, por Angus McBride
  • Smaug, por Justin Gerard
  • Capa de Bilbo – O Hobbit, de Charles Dixon e David Wenzel
  • Crânio de um Homo florensiensis
  • Foto de um tubarão da espécie Gollum attenuatus

O Hobbit na televisão e no cinema

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Hoje, 21 de setembro de 2012, O Hobbit completa 75 anos desde sua primeira edição. Foi o primeiro livro de J. R. R. Tolkien sobre a Terra-Média, cujos acontecimentos antecedem e preparam o cenário para O Senhor dos Anéis, bastante conhecido hoje em dia pelo público em geral devido à primorosa adaptação cinematográfica de Peter Jackson. O Hobbit é muito menos conhecido do que O Senhor dos Anéis, mas vai se tornar muito popular com um novo trabalho de Jackson, que estreia em dezembro deste ano (2012).

No entanto, não é a primeira vez que alguém teve a ideia de adaptar a obra de Tolkien para as telas (seja a televisão, seja o cinema). Houve alguns trabalhos na década de 1970 em cima de O Senhor dos Anéis. Mas mesmo bem antes disso já haviam começado as adaptações do primeiro livro, considerado por muitos uma obra voltada para crianças (Tolkien a escreveu tendo em vista um público infantil), mas ainda hoje aclamado como um belo exemplo de literatura fantástica.

A primeira transposição oficial de O Hobbit para o cinema foi realizada em 1966, pelo animador Gene Deitch, num curta metragem que, para aqueles que conhecem bem a obra de Tolkien, resultou em algo bem estranho, formalmente deturpado e ligeiramente diferente em sua essência. Os gráficos foram feitos num estilo de ilustração de histórias infantis. A animação é pobre, mantendo o filme com a aparência de um livro ilustrado, e há apenas a voz do narrador, como se estivesse lendo o livro. Veja abaixo o filme na íntegra.

O diretor se deu a liberdade de modificar vários elementos importantes da obra de Tolkien. Ele reduziu o grupo de aventureiros, que no livro contava com 13 anões, 1 hobbit e 1 mago, para um general e seu ajudante, uma princesa e o nosso pequeno protagonista. Essa adaptação mostra de forma interessante como O Hobbit pode ser visto, por certos leitores, como uma história mágica e fabulosa, que pode ser recontada de maneira simples e sem a preocupação com detalhes, mas mantendo certos elementos cruciais da narrativa, como o herói, a partida de um lar confortável para uma grande aventura, a presença de aliados, os encontros com inimigos e outros perigos, a transformação do herói, a execução da tarefa e o retorno ao aconchego da toca de hobbit.

No entanto, para muitos apreciadores do livro original, uma adaptação mais fiel e detalhada sempre agrada, pois a história não se resume a uma fábula, está repleta de elementos que extrapolam para um universo mais complexo, com seus personagens pitorescos, situações interessantes e diálogos dramáticos. Onze anos depois do curta de Deitch, Jules Bass e Arthur Rankin Jr. apresentaram um longa metragem animado para a televisão. Não existe trailer oficial desse filme, portanto segue abaixo um trailer feito por um fã:

Nesse filme foi possível explorar melhor quase toda a trama do livro, com a presença de praticamente todos os personagens importantes e a encenação com poucas perdas das cenas mais dramáticas, como os encontros de Bilbo com Gollum e com o dragão Smaug, além da tragédia do rei anão Thorin, que quase deixou a ganância corrompê-lo e quase levou os heróis à derrota.

O estilo de Bass/Rankin, que também produziram o célebre desenho animado O Último Unicórnio, mantém um aspecto de contos de fadas, as caricaturas infantis e exageradas. Além disso, conserva o espírito dos anos 70, notadamente na trilha sonora, bem feita e divertida. Mas ainda pode ser considerada uma excelente adaptação da narrativa de Tolkien, inclusive aproveitando várias das letras das canções do livro nas músicas feitas para o filme.

Este ano (2012), O Hobbit retorna às telas, desta vez com as novidades técnicas do cinema contemporâneo. Peter Jackson retoma o que iniciou (ou concluiu?) com O Senhor dos Anéis , trazendo ao público que nunca leu Tolkien os acontecimentos que antecedem e culminam na aventura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, apresentados em três filmes (Uma Jornada Inesperada, A Desolação de Smaug e Lá e de Volta Outra Vez). Eis o trailer oficial da primeira parte, que estreia no próximo dezembro:

A expectativa é de que a história seja recontada num tom mais “realista”, mais complexo e profundo, até mesmo mais sombrio, como se a narrativa do livro representasse uma versão atenuada da história, enviesada pelo olhar de seu suposto autor e protagonista (o próprio hobbit Bilbo Bolseiro). A trilogia também explorará eventos paralelos, ausentes de O Hobbit, mas desenvolvidos pelo próprio Tolkien em outros escritos, criando uma conexão maior com O Senhor dos Anéis

Referências