Catequese no Estado laico

Padrão

O governo de Ilhéus, Bahia, instaurou uma lei municipal que obriga os alunos das escolas públicas do município a rezar o Pai Nosso antes das aulas. Os 13 vereadores da cidade aprovaram a “Lei do Pai Nosso” por unanimidade e o prefeito a sancionou no dia 12 de dezembro de 2011. A ideia dessa norma no mínimo controversa saiu da cabeça do Vereador Alzimário Belmonte (PP), evangélico da Igreja Batista que, como tantos políticos incompetentes Brasil afora, não compreende o que é Estado laico.

Essa tentativa de cristianizar o Estado brasileiro não é a primeira nem a mais séria. Felizmente, vivemos numa época em que a imposição teocraticista encontra forte resistência da sociedade civil secularista. Neste sentido, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) ingressou no Ministério Público da Bahia contra a lei, argumentando sua inconstitucionalidade, tendo em vista que viola a liberdade de crença dos estudantes.

Continue lendo

Anticristo

Padrão

De Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier, se diz que é um filme de terror. Não gosto de classificar os filmes em gêneros, “comédia”, “ação”, “ficção científica”. Isso sempre empobrece a apreciação da originalidade de uma obra. Felizmente, Anticristo é tão sui generis que se torna um bom exemplo da impossibilidade de se reduzir uma obra original a um rótulo.

A história é no geral um drama, com elementos de tragédia e, certamente, de terror. O tema principal é a face maléfica do feminino e a misoginia. Mas, se há mérito pela originalidade artística e pela abordagem ao tema, também se pode dizer que a obra como um todo é um exagero de grotesquidão, e a impressão que fica no final é: “o que diabos esse filme diz?”

Continue lendo

Por que divulgar o Ateísmo

Padrão

O livro Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, traz como ideia básica, antes de simplesmente argumentar que a crença em Deus é uma ilusão e justificar o Ateísmo, principalmente encorajar os ateus ou os propensos ao Ateísmo a não terem medo de expressar suas ideias num mundo em que a religião ainda parece possuir um status intocável. Os cristãos parecem perpetuar as palavras atribuídas a Jesus, depois de ressucitar e ser abordado por Maria Madalena: “noli me tangere!”

Conversando com amigos sobre o livro de Dawkins, falamos sobre a postura religiosa de alguns ateus, que pregam a inexistência de Deus como um dogma a ser divulgado e pretendem converter outras pessoas. Mas penso que há um grande benefício em se divulgar ideias do Ateísmo, e digo isso não só porque sou ateu (também por isso), mas pelos motivos que exponho abaixo.

Debate intelectual

A primeira razão, mais óbvia (ao menos para mim), para se divulgar o pensamento ateísta é a abertura para o debate intelectual.

Vivemos numa cultura onde a religião exerce grande influência na vida social, cultural e política, e é muito difícil para aqueles que professam o Ateísmo expressarem o que pensam sobre Deus e deuses sem correrem o risco de sofrerem discriminação e preconceito. Muitas pessoas assumem que falar sobre a possibilidade de não existir Deus é maléfico, e há pouco espaço para que o ateísmo entre de forma justa nos debates sobre religião, crença, moral e temas correlatos.

Sem a divulgação das ideias ateístas, os teístas perdem a oportunidade de pensar sobre os pontos frágeis de suas crenças, o que permitiria rever traços obsoletos e arcaicos de nossa mentalidade e de nossos costumes. Os ateus, por outro lado, perdem a oportunidade de receberem críticas relevantes dos teístas, o que lhes possibilitaria evitar equívocos e contradições na construção do pensamento ateísta.

Ciência

Normalmente o Ateísmo é adotado por cientistas, que, por causa dessa mesma Ciência, fortalecem a convicção de que a existência de Deus é improvável.

Cientistas preocupados com a divulgação do pensamento científico, como Carl Sagan e Richard Dawkins, muitas vezes se deparam com o questionamento (seja de outros, seja a si mesmos) sobre a existência de Deus (tema muito relevante para nossa cultura cristã). E normalmente expressam a visão comum na Ciência mais séria de que é mais provável que Deus não exista do que o contrário.

Assim, geralmente as discussões dos ateístas tocam as razões científicas para se justificar a improbabilidade da existência de Deus. Por isso, a divulgação do Ateísmo tem como consequência e vantagem a divulgação concomitante da Ciência, tanto dos seus conhecimentos atuais quanto, principalmente, do modo científico de abordar a realidade.

É claro que essa vantagem da divulgação do Ateísmo só é apreciada por quem valoriza minimamente a Ciência.

Status epistemológico

É uma falácia o argumento corrente segundo o qual a religião tem o mesmo valor que a Ciência enquanto crença/conhecimento. É como se fosse apenas uma questão de escolha: alguns acreditam na religião, alguns na Ciência, e ambos acham que estão certos. Portanto, não se pode dizer que religiosos estão mais certos do que cientistas e vice versa. Conclui-se, então, que se trata apenas de uma escolha entre opções com valor equivalente.

Mas não é assim. Há diferenças cruciais entre as epistemologias da religião e da Ciência. A começar pelo status do saber veiculado por cada uma das correntes. A religião tende a cristalizar esse saber, assumindo-o como dogma, verdade revelada, imutável. Enquanto a Ciência, por mais evidências que tenha sobre uma teoria que sustenta, está pronta a, no momento em que surgem mais evidências, revisá-la, modificá-la, ajustá-la, reformulá-la ou até refutá-la completamente. Isso está na essência do que é a Ciência.

O que não impede a existência de religiosos mais abertos à mudança ou de cientistas com postura dogmática, mas são exceções aos fundamentos de cada uma destas correntes do saber humano.

A Ciência não tem evidências suficientes para provar a existência/inexistência de Deus. Até onde sabemos, é muito mais provável que ele não exista, pois praticamente qualquer fenômeno que se atribua à sua existência tem explicações alternativas. Assim, pelo princípio científico, uma vez que há mais evidências contra a existência de Deus, é cientificamente plausível assumir sua inexistência.

Antiautoritarismo

Normalmente, a crença em Deus ou em deuses está ligada à ideia de que se deve obedecer à autoridade sacramentada em seu nome, seja a ele mesmo, seja aos sacerdotes de sua religião, seja a governantes. A não ser para os deístas (que, diferente dos teístas, consideram que Deus não intervém na vida humana), a crença em Deus pressupõe limitações à vida humana, mais do que a liberdade. Lembrando Bakunin, “se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Por isso, o Ateísmo é importante no âmbito político da vida humana, pois abraça uma crítica ao autoritarismo e a qualquer forma arbitrária de dominação. Trata-se de um posicionamento ético.

Dessa forma, mesmo que se provasse que existe um Deus onipotente que demanda obediência, uma mente Ateísta questionaria essa obediência cega. Se esse Deus é tão bom, a razão leva a crer que ele queira para suas criaturas tanta liberdade quanto a que ele mesmo tem. Da mesma forma que temos que renunciar à tendência natural humana a não falar e aos impulsos destrutivos, para poder nos comunicar de forma complexa e vivermos solidariamente, precisaríamos, na hipótese de esse Deus existir, renunciar à posição submissa em relação a ele.

Ética

Muita gente usa as palavras Ateísmo, ateu, ateia etc. com conotação negativa. Há quem afirme que a negação da existência e Deus é uma falha de caráter e que os tementes a Deus são naturalmente mais propensos a ser pessoas boas do que os que duvidam da existência da divindade.

Herdamos um conjunto de livros consagrados a que é atribuído status de verdade absoluta revelada e que tem servido, ao longo da história do ocidente desde a Idade Média, como suposta fonte de ensinamentos morais, como manancial de preceitos para toda a moral humana.

Isso leva grande parte das pessoas a crer que a aceitação (ou a negação) da Bíblia deve ser absoluta. Ou seja, aqueles que rejeitam a existência de Deus como algo relevante para a humanidade estariam automaticamente despojados de qualquer tendência a uma mente e um comportamento éticos. Porém, a ética não vem só da Religião, mas está presente no pensamento de muitos filósofos e cientistas, muitos dos quais não-teístas, desde a Antiguidade até a Idade Moderna.

Estamos caminhando para um mundo cada vez mais aberto às diferenças, e entre essas diferenças está a religiosidade, tão diversa e variada. Mas ainda há quem considere que a divulgação do Ateísmo é prejudicial, por supostamente ferir as crenças da pessoas religiosas. Esquece-se que as próprias religiões, cuja divulgação é muito incentivada e quase nunca impedida, são muitas vezes fonte do mesmo tipo de intolerância. Basta assistir a uma missa do canal de TV Canção Nova para ouvir um sermão afrontando o Candomblé ou o Espiritismo.

Também há quem tema que a divulgação do Ateísmo vai fazer mais pessoas se tornarem ateias. É como aquele medo de que os filhos de pais homossexuais tenham mais chance de se tornarem homossexuais. Ou seja, o preconceito justifica o preconceito.

Na Europa, tem havido há algum tempo uma campanha para expor mensagens ateístas em espaços que também são usados para propagandas de igrejas. Muita gente não gostou. É o caso do cartaz para ônibus que ilustra este texto: que diz:

Provavelmente não existe Deus. Agora pare de se preocupar e vá aproveitar sua vida.

Se descobríssemos provas inequívocas e irrefutáveis de que Deus não existe, será que essas pessoas que acreditam tão ferrenhamente na fonte divina da ética passariam a fazer todo tipo de mal sem se preocupar com as consequências? Acho que não. Há muitos cristãos que são bandidos, com santos tatuados no corpo. E há muitos ateus que fazem trabalhos assistenciais altamente altruístas.

A humanidade tem plena capacidade de desenvolver e ajustar seus preceitos éticos para viver em harmonia consigo mesma, como vem tacanhamente fazendo ao longo de sua história.

Cirurgia

Padrão

Nasci com Síndrome de Marfan e com um prolapso na válvula mitral. Algumas das minhas cavidades cardíacas desenvolveram, ao longo de 29 anos, um tamanho anormal. As válvulas mitral e aórtica sofrem um círculo vicioso em que a sua insuficiência faz parte do sangue retornar, o que a dilata e a torna insuficiente. Nisso, o próprio coração cresce e já mal cabe na caixa torácica.

Em muitos casos de Síndrome de Marfan, há o risco de romper-se alguma válvula, devido a um problema no tecido conjuntivo, próprio dessa síndrome. Para evitar que o quadro venha a se agravar e “o pior” aconteça, é importante uma eventual intervenção cirúrgica que corrija a insuficiência cardíaca e prolongue a expectativa de vida de um marfan. Após alguns anos sendo acompanhado por uma cardiologista que já havia me preparado para a eventualidade, finalmnte chegou a ocasião.

Válvulas cardíacas

As válvulas mitral e aórtica estão à direita

Então, na próxima Segunda-feira, dia 23 de agosto de 2010 e.c., passarei pelo procedimento cirúrgico em que terei a válvula aórtica substituída por outra, extraída de um porco francês, e a válvula mitral corrigida (a não ser, disse o cirurgião, dr. Marcelo Cascudo, que não dê para corrigir, sendo necessária também a substituição).

Já brinquei com minha amada, dizendo que terei um coração de porco, mas que não ficarei com “espírito de porco”. Não por causa disso, pelo menos. No máximo, talvez eu passe a detestar bacon e a ter impulsos ocasionais de chafurdar na lama, quem sabe? Pelo menos já tenho alguma noção da língua francesa, o que pode ajudar na adaptação. A propósito, será que os porcos franceses falam “óinc” fazendo biquinho? Na verdade, nem sei se o porco é francês, só sei que as válvulas vêm da França, que pode tê-las importado da China.

Eu me pergunto se esse porco (ou será um boi? Na verdade, o médico disse que a válvula pode ser suína ou bovina, mas a piada do “espírito de porco” ficou tão marcada que acabei esquecendo dessa possbilidade.) ou boi morreu para ter suas entranhas “doadas” a um paciente como eu ou aproveitaram o abate de um animal destinado à indústria alimentícia para atender também esse propósito.

Caso tenha ocorrido a primeira hipótese, será que a perspectiva egoísta é eticamente válida para justificar a troca de uma vida por outra? O porco (ou boi… pode até ter sido uma porca ou uma vaca) não teve escolha, foi abatido por seres humanos treinados para coagir e matar, enquanto eu pude optar (se bem que as circunstâncias também se impuseram sobre mim) por um procedimento cujo objetivo é me manter vivo.

Mas, se eu tiver certeza de que minha existência nesta vida intrafísica poderá ser mais positiva para o conjunto policármico de pessoas no universo do que a vida de um animal irracional que talvez (?) esteja adiantando sua evolução individual ao deixar sua atual vida e ser encaminhado para a próxima, então posso ficar perfeitamente tranquilo quanto à implicação ética.

Tranquila, aliás, é o que se pode dizer de minha disposição diante da abertura de meu tórax, a intrusão de instrumentos cortantes no interior de meu peito e a longa recuperação que me espera. Como Sarek e seu filho Spock, impassíveis vulcanos sob os cuidados do Dr. McCoy, na ilustração que inicia este post (cena do episódio A Caminho de Babel, da 2ª temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas). Não que eu não tenha um pouco de medo e excitação diante de um evento tão contundente em minha vida. Porém, diz-se que a coragem não é ausência de medo, mas a habilidade de enfrentá-lo. Tampouco é sinônimo de bravura e ímpeto destemido. A serenidade perante as vicissitudes da existência é um dos maiores sinais de coragem.

E nada disso tem a ver com qualquer crença religiosa ou recurso a um deus todo-protetor. Certa vez, alguns dias antes de eu me submeter a uma cirurgia ocular (problemas oftalmológicos também são comuns na Síndrome de Marfan), uma amiga me disse que embora eu fosse forte e demonstrasse calma diante de um procedimento invasivo ao meu corpo, eu precisava recorrer a algo externo e mais forte do que eu, e em circunstâncias piores do que aquela seria necessário que eu buscasse conforto em Deus.

Entretanto, não sinto necessidade de recorrrer a uma força misteriosa, mística e oculta para me manter “confortado”. Não vejo necessidade de acreditar que há um ser onipotente e bondoso que “guia a mão do médico” para que tudo dê certo. Afinal, se ele fosse mesmo bondoso, não ajudaria só os que a ele confiam suas vidas, como um chefão da Máfia que protege aqueles que beijam sua mão e o chamam de “padrinho”.

Don Corleone

O padrinho da Máfia. Não é à toa que em inglês o chamem de “godfather”

E o adágio segundo o qual “tudo o que acontece, bom ou mau, é pela vontade de Deus”, é ainda mais ilógico e irracional, pois não é preciso dar uma explicação teológica ao que acontece aparentemente por acaso (não que eu ache que as coisas ocorrem por acaso; vejo sincronicidade e relações de causa e efeito). Além disso, observo que toda essa “teo-lógica” parece não abrandar o sofrimento de ninguém. Há pessoas muito crentes que oram desesperadamente em situações críticas e não apresentam nenhum sinal de que estão “confortadas”. A manutenção da serenidade em situações de crise depende muito mais do autocontrole e de uma força desenvolvida intimamente do que de uma força exterior. Tanto há ateus e agnósticos que se desesperam quanto os que se mantêm calmos. E há crentes tranquilos e outros não tanto.

Tenepes

Há uma complexa conexão entre as consciências e suas energias conscienciais

O único conforto de que preciso é meu próprio otimismo. E a certeza de que tudo ficará bem, seja o que acontecer, é apenas uma tranquilidade advinda de uma visão consciencial das coisas. Posso parecer contraditório ao dizer que confio na ajuda de consciências extrafísicas (que alguns preferem chamar de anjos da guarda ou espíritos de luz) e até solicito a elas essa ajuda. Mas não se tratam de deuses numa relação de poder. São pessoas que conheço e que estão elas mesmas imersas numa imensa rede de relações de causa e efeito, e a quem hei de ajudar quando eu estiver sem este corpo físico e quando elas estiverem vivendo na dimensão intrafísica (como estou agora).

De qualquer forma, pensem positivamente sobre a ocasião. Se alguém quiser orar para que o deus em que acredita faça com que tudo ocorra bem, por favor, ore. Sua energia bem-intencionada será bem vinda. E se alguém preferir torcer com o mero pensamento positivo, só posso agradecer. Quem tiver a disposição de me enviar deliberadamente suas energias conscienciais benfazejas terá minha gratidão. E caso alguns de vocês, por convicção pessoal, não queiram recorrer a nenhum desses meios, só o fato de desejarem o bem-estar de todos os seres existentes (para não dizer que estou pensando só em mim) já me deixa grato.

Espero, como disse uma amiga minha, que a cirurgia signifique um ajuste e uma melhora em minha manifestação nesta vida, para que eu possa dar mais de mim em minha programação existencial e contribuir ainda mais em meus modestos esforços para o bem comum das consciências do universo. Como disse Galadriel a Frodo,

Even the smallest person can change the course of the future.

Até breve.

Fim

I’ll be back!

Coleção de sinapses 4

Padrão

Esta semana uma jornalista negra sofreu uma ofensa racista por um mestre de cerimônias, o que nos remete a uma análise interessante sobre a permanência do racismo no Brasil. A acusação de que os antropólogos brasileiros são parciais em seu trabalho é relativamente desmentida num relatório da Associação Brasileira de Antropologia sobre os índios maxakali.

Dito isso, aprendemos com os portadores da Síndrome de Williams que as pessoas não devem ser julgadas pela “raça”. E vimos numa entrevista não muito recente com Peter Fry que, além da raça, a religião, a sexualidade e a política também não devem ser motivo de preconceito, até porque tudo está misturado. E não é preciso nenhum salto de fé para aceitar alguns preceitos éticos que envolvem todos esses temas…

Jornalista do Hôtelier News é vítima de racismo na Fistur – Hôtelier News

É interessante notarmos como é fácil uma coisa dessas acontecer. E, paradoxalmente, como é fácil ficarmos indignados. Os brasileiros vivem uma tensão entre o racismo latente e a ideologia antirracista. Talvez por haver essas duas forças contrárias atuando sempre é que seja tão complicada a discussão em torno das ações afirmativas no Brasil.

Também é interessante ver, como o fez um amigo meu, que, embora seja perfeitamente legítima a defesa da jornalista contra o preconceito que sofreu, ela mesma não está livre de preconceitos, ao sugerir que uma pessoa ateia ou agnóstica não pode ser moralmente íntegra. Mas aí é outra longa história…

Quem tem medo de raça? A paranóia branca e as ações afirmativas no Brasil – Adital

É fácil confundir o ideal antirracista com a negação do racismo. Essa confusão é feita tanto por quem se opõe à institucionalização das raças quanto por quem a defende. Podemos pensar que há realmente um status quo que uma certa mentalidade elitista e conservadora quer manter, e que passa pela manutenção das desigualdades raciais. Mas nem todos os argumentos que se opõem às ações afirmativas (tais quais as cotas raciais) se baseiam nesse conservadorismo eurocêntrico. Em suma, o texto é interessante e pertinente, mas incorre também em generalizações.

Laudos e Ética – Estadão

Há uma constante acusação aos antropólogos de que seus trabalhos periciais são sempre pautados por um posicionamento unilateral e favorável aos povos estudados por eles, como na confecção de relatórios de identificação e delimitação de seus territórios, para a regularização fundiária. Mas muitas vezes falta quem represente os interesses dos índios e quilombolas, por exemplo, na interlocução com o Estado, e até agora a Antropologia tem sido um dos poucos recursos disponíveis…

Considerações a respeito da situação Maxakali – Associação Brasileira de Antropologia

Nesta nota da ABA, os antropólogos que fazem os relatórios citados no link acima mencionam uma situação em que mostram como se dá a relação entre Antropologia e os povos que são seu objeto de estudo. E entendemos que nem sempre os índios têm razão.

Williams syndrome children show no racial stereotypes or social fear – Discover Magazine – Blog: Not Exaclty Rocket Science

Essa síndrome é interessante. Seus portadores não têm medo de se relacionar com nenhuma pessoa, independentemente do grau de intimidade. A pesquisa sugere que eles não fazem discriminação racial ao julgar as outras pessoas. Porém, serão precisos mais dados para confirmar se isso é uma tendência ou um dado absoluto.

Comment of the Week: The America Christians Want to Return To – Austin’s Atheism Blog

Nesse comentário a um post de Austin Cline em seu blog, vemos que a maioria dos ideais tradicionalistas que os religiosos fundamentalistas querem “de volta” implicariam um retrocesso. Inclusive, os próprios avanços democráticos da contemporaneidade permitem que eles expressem essas ideias sem serem punidos. Mas no mundo que eles querem, alguém que discordasse deles iria para a fogueira.

De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov – Portal ClippingMP

De Washington@edu para Gaspari@jor – Andifes

Esse diálogo em forma de cartas “psicografadas” é pitoresco. Élio Gaspari e Demóstenes Torres estão discutindo ações afirmativas, em especial a proposta de cotas raciais nas universidades. O primeiro é pró-cotas, o segundo é anticotas. Mas o mais interessante é que a incorporação dos personagens serviu para suavizar o debate e deixá-lo um pouco mais civilizado. No entanto, ainda vemos aí a manutenção das posições firmes e maniqueístas no debates sobre cotas raciais, sobre os quais já discuti em Cotas raciais – parte 1.

Religião, política e sexualidade na visão de um antropólogo cosmopolita – Globo Universidade

O cosmopolitismo é muito importante para abstrairmos as ideias com que fomos  criados no restrito ambiente-natal. Peter Fry, antropólogo inglês, mostra que suas viagens pelo mundo não só ajudam a relativizar a visão que temos de nossa própria religião-natal, vida política-natal ou vida sexual-natal, mas também nos faz entender relações imprevistas entre esses vários aspectos da vida humana, tanto numa perspectiva prática quanto epistemológica.

Leap of faith – Wikipedia

Procurei saber sobre a expressão “leap of faith” depois de ver um episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, em que o androide Data diz a Worf que, para considerar a si mesmo uma pessoa, precisou fazer um “salto de fé”, um “leap of faith”. Isso significa deixar em suspenso a falta de provas para algum fato e assumir este fato como verdadeiro, para suprir alguma necessidade existencial. Muitas de nossas assunções são baseadas num “salto de fé”, já que a Ciência e o conhecimento em geral é sempre uma aproximação e não uma descrição exata da realidade. “Se a aparência das coisas coincidisse com sua essência, toda ciência seria supérflua” (Karl Marx).

Coleção de sinapses 3

Padrão

Esta semana vimos uma análise bem-humorada e profunda de Guerra nas Estrelas – Episódio I: A Ameaça Fantasma e também do Episódio II: Ataque dos Clones. Profunda também foi a abordagem de Cafetron ao elucidar porque o Ateísmo não é uma religião, ao mesmo tempo em que passeamos pelos mitos da religião da Grécia Antiga e pela mais antiga ainda existência de um hominídeo descoberto com a ajuda do Google Earth.

O Rio Grande do Norte e seu Maior Cajueiro do Mundo foram desafiados pelo Piauí e seu Cajueiro Rei, enquanto o Exterminador do Futuro desafia o Google. E por falar em viagens no tempo,  Luke Skywalker, Darth Vader e cia. saem de uma antiga galáxia distante para reencarnar no Japão feudal …e nos perguntamos o que significa a recorrência de Google e Star Wars nestes links…

Star Wars: The Phantom Menace Review – YouTube

Descobri as resenhas do Red Letter Media em algum link que encontrei no Twitter. O autor dessas resenhas em forma de vídeos faz um personagem neurótico obcecado por cinema. Neste caso, como fã da trilogia clássica de Guerra nas Estrelas, ele se mostra muitíssimo decepcionado com a trilogia prequel dirigida por George Lucas. Com muitos comentários bem-humorados e sarcásticos, a resenha tem várias passagens profundas sobre o que torna um filme cinematograficamente bem-feito. Um dos exemplos, neste caso, é o fato de o Episódio I: A Ameaça Fantasma não ter um protagonista com o qual nos identificarmos e pelo qual torcermos, como era o caso do Episódio IV: Uma Nova Esperança.

O link acima (e o vídeo abaixo) é da primeira parte desta resenha dividida em 7 partes. Vale a pena conferir tudo.

Avatar Review – YouTube

O mesmo resenhista acima fez uma contundente dissecação de Avatar de James Cameron. Embora eu ache que ele exagera em alguns pontos, em outros ele se mostra um bom entendedor da arte cinematográfica, apontando os defeitos narrativos dessa bela obra, sem negar que se trata de uma ótima  experiência áudio-visual.

Dividida em 2 partes.

Star Wars Episode 2: Attack of the Clones Review – YouTube

Seguindo a nova trilogia de Star Wars, o resenhista louco se aprofunda (bem mais) no Episódio II: Ataque dos Clones. Um destaque para sua crítica à forma com que foi apresentado Yoda, que no Episódio V: O Império Contra-ataca, aprendêramos a ver como um mestre sábio que ensina sobre a Força e não a empunhar um sabre-de-luz a torto e a direito. Enquanto Yoda parecia um mestre zen na trilogia clássica, ele parece um personagem de video game na nova.

Dividida em 9 partes.

Ateísmo é Religião? – Nebulosa Nerd’s Bar

Há temas que são tão polêmicos e difíceis de se abordar que necessitam uma perspectiva extremamente crítica, racional e despessoalizada para serem tratados de maneira produtiva. Quando se trata de religião, os egos da pessoas que estão discutindo ficam tão feridos e expostos que muita besteira é dita. Cafetron soube abdicar do orgulho pessoal e rever uma afirmação sua sobre Religião e Ateísmo, baseado numa réplica de outra pessoa, com a qual, no entanto, não concordou totalmente. Um belíssimo exemplo de como fazer um debate de ideias e não entrar para o embate egoico.

Nerdcast 205a – Teogonia da Mitologia Grega – Jovem Nerd

Mitologia grega é um assunto que me interessa desde a adolescência. O papo dos nerdcasters foi muito interessante e, acima de tudo, engraçadíssimo. Alguns erros aqui e ali, principalmente nos nomes de alguns personagens e lugares, mas valeu.

Star Wars no Tempo dos Samurais! – Blog de Brinquedo

Eu já havia imaginado como seria Guerra nas Estrelas na Idade Média ou num mundo de fantasia como a Terra-Média. Mas essa criação de Sillof é bem criativa e remete aos antigos filmes de Kurosawa. Gostei especialmente das versões de R2D2 (Ryuuto) e de C3P0 (Chipao), sem recorrer a semimáquinas que provavelmente seriam bem toscas.

How Google Earth Led to the Discovery of a New Species of Early Man – The Daily Galaxy

A tecnologia atual nos permite fazer boa parte das pesquisas científicas em casa, através da internet, com fontes confiáveis (eu acho). Não estou dizendo que a pesquisa será feita totalmente no escritório, mas a coleta inicial de dados passa a ser bem mais rápida com ferramentas como o Google Earth, que permite, como no caso desta notícia, encontrar sítios arqueológicos propícios à descoberta de fósseis.

Piauí tem a maior árvore frutífera da terra. O Cajueiero Rei – Canal Vooz

Eu acho que deveriam podar o cajueiro de Pirangi e parar com essa besteira de disputar um título estúpido como esse. Para quem não sabe, o cajueiro está tão grande, e continua crescendo, que já ocupou metade de uma das ruas que o cercam, inutilizando parte das vias de acesso a algumas das praias do litoral potiguar. É claro que não podemos esquecer que há pessoas cuja economia familiar se beneficia muito com o turismo local e as visitas ao (até então?) “Maior Cajueiro do Mundo”. Mas não é preciso ser tão zeloso quanto à diferença de alguns metros quadrados em relação ao Cajueiro Rei piauiense. Os dois poderiam ser considerados juntos “os maiores cajueiros do mundo”, que tal?

Self aware – Nerdson não Vai à Escola

Depois de visitar Jesus Cristo, o Exterminador do Futuro vem procurar ninguém menos do que a maior ferramenta de indexação e buscas da internet…

Reino de ninguém

Padrão

Acordei cerca das 8:45, para escovar meus dentes e tomar sossegado meu café-da-manhã. Alguém bate palmas à porta, e Edilma, a empregada doméstica, está ocupada limpando a casa. Meus pais e meu irmão estão fora, minha irmã e minha prima ainda estão dormindo, e tenho que interromper meu tranquilo café-da-manhã para atender a duas senhoras que se apresentam como “pessoas que decidiram sacrificar um pouco do seu tempo para ler a Bíblia com os moradores da vizinhança”. Por alguma razão que ainda desconheço, vieram fazê-lo, certamente sem sabê-lo, com um ateu.

Bem, naquele momento eu queria mesmo é estar terminando calmamente minha refeição, e procurei atentar para que o encontro fosse o mais breve possível, não só porque eu tinha outras coisas para fazer (além do desjejum) como porque não estava muito disposto a redarguir com minha posição sobre o assunto, devido à hora do dia e às circunstâncias do encontro, duas senhoras, uma com mais idade, com quem seria desgastante trocar uma discussão. Mas me dispus ao menos a dar-lhes a mínima atenção.

Uma delas, a que se apresentou e à outra, começou a conversa dizendo que iam falar sobre segurança:

“Hoje em dia nos preocupamos muito em colocar grades em nossas casas, cercas elétricas, não é?”, disse ela, olhando para as grades da minha casa.

“É.”

“Você já se perguntou se um dia essa necessidade de segurança vai acabar, se vamos viver em paz?”

“Já.”

“E a que conclusão você chegou ao pensar nisso?”

Então, tantando ser o mais sucinto possível para abreviar o mais rápido possível o encontro, eu disse:

“Acho que é muito difícil, mas não impossível. Se depender da postura íntima de cada um, podemos mudar o mundo.”

Ela escutou minhas palavras com um olhar que dizia: “Embora eu não precise prestar atenção ao que você está dizendo, tenho certeza de que você está equivocado, pois tenho a resposta certa bem aqui na minha manga.” Não era exatamente na manga, mas na bolsa, da qual ela retirou um pequeno exemplar da Bíblia, dizendo que a resposta àquela pergunta ali poderia ser encontrada.

“Você tem uma Bíblia em casa?”

“Tenho.”

“Então depois você dá uma lida melhor para entender, tá certo? Aqui o capítulo 37, versículos 10 e 11 de Salmos, diz: ‘Ainda um pouco [ou seja, tendo paciência] e não existirá o ímpio [ou seja, os maus]; examinarás o seu lugar: já não estará ali. Mas os humildes possuirão a terra e desfrutarão de abundante paz.’ E depois, no versículo 29: ‘Os justos possuirão a terra e a habitarão para sempre’. Ou seja, os maus serão exterminados pelo Senhor e os justos viverão num mundo de paz, onde não haverá doenças. Entendeu agora? Quando Jesus vier, nosso mundo será um mundo onde as pessoas não envelhecerão, não haverá morte e, principalmente, não haverá doenças. Entendeu agora?” (Os trechos em colchetes são explicações da mulher sobre a passagem que leu, que aliás, lembro bem, não corresponde exatamente às mesmas palavras aqui escritas, copiadas da tradução que tenho, diferente da que ela tinha em mãos.)

“Ãrrã.”

Ela me entregou um panfleto sobre o novo mundo das Testemunhas de Jeová, dizendo que eu o lesse depois para compreeneder melhor aquele projeto escatológico, e nos despedimos sem mais delongas. Mas depois eu me perguntei se não teria valido a pena ter complementado minhas curtas respostas com observações que lhes mostrassem que suas palavras não foram para mim nenhuma lição. Eu poderia ter dito: “Entendi o que quer dizer, mas, como eu já disse, penso que é um projeto que para ser realizado depende de nosso trabalho, não da espera(nça) em um mito. Além disso, esse seu deus poderia ser mais justo e tentar ensinar os “maus” a serem “bons”, ao invés de excluí-los.”

Essas palavras seriam realmente breves, e não custaria muito para mim pronuciá-las. Mas se o tivesse feito, talvez eu as estivesse convidando a prolongar ainda mais minha espera(nça) de terminar meu café-da-manhã…

Nota

Esta crônica foi publicada originalmente na primeira Teia Neuronial, no dia 20 de janeiro de 2005 e. c., mesmo dia no qual ocorreram esses acontecimentos. Esta versão está atualizada com a nova ortografia da língua portuguesa.

Da onipotência

Padrão

As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).

Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.

Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?

Soube.

Quando você soube?

Fulana me contou semana passada.

Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.

Pois é, o mistério de Deus.

É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento…

É, esse menino era meio alegrinho…

…então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais… mas não sei, só Deus sabe.

É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?

Oro!

Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.

A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no Inferno de Dante, que tem três cabeças.

Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação “crescei e multiplicai-vos” não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.

Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.

“Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino… ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.” Mas ele não poupou o “sofrimento” de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o” sofrimento” daqueles que morreram sem ter esse “problema”.

Essa é a crueldade do “mistério de Deus”. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), “Deus sabe”, “Deus não faz nada em vão”, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.

Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.

Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.

Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.

Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.

É proibido duvidar

Padrão

Há assuntos que o bom senso nos faz evitar a muito custo. Por mais convicção que tenhamos em relação a um assunto, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), ao que a maioria acredita ser verdade, temos receio de colocá-la em questão, especialmente diante de pessoas que defendem de modo aguerrido essa opinião pública. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é falar sobre religião e Deus.

Não é nada fácil ser agnóstico e muito menos ser ateu numa cultura em que predomina o monoteísmo cristão. Dizer que não se tem certeza se existe um deus ou Deus é convidar os teístas mais fanáticos a nos dar um sermão. Afirmar que Deus não existe é despertar pena ou ganhar a desconfiança de algumas pessoas.

Pior ainda é quando sua forma de encarar a existência de Deus é complexa demais para ser denominada pelos termos disponíveis no mercado linguístico. Se alguém me pergunta se acredito em Deus, responder que “não acredito” resume bem minha visão, mas desperta uma série de preconceitos atrelados a essa frase que não correspondem exatamente à minha visão do tema.

Uma colega minha do trabalho não acredita que exista Deus nem afirma sua inexistência. Para mim, ela se encaixa no conceito de agnóstica. Mas ela não se considera agnóstica nem ateia nem teísta. Conversando com ela, sugeri que ela é agnóstica, mas ela discordou, dizendo que não aceita essas denominações.

Desde que comecei a entender bem o que significa ateísmo, agnosticismo e Ciência, comecei a me considerar cientificamente agnóstico e filosoficamente ateu. O primeiro termo se refere à minha ideia de que não é possível, através da investigação científica, averiguar a existência ou a inexistência de um criador onipotente, onisciente e/ou onipresente. Na Ciência, não se tratam de verdades absolutas, mas de aproximações da realidade, e toda afirmação científica é, de certo modo, agnóstica, pois não é revelada e sim o resultado de um esforço cognitivo.

O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade absoluta, humana ou divina. De modo que me reporto ao pensamento de Mikhail Bakunin, para quem a existência do Deus das religiões monoteístas implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltaire (“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”), Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”. O que me faz relacionar filosofia e ateísmo é uma noção ética, moral, ou seja, mesmo que exista algo que se possa chamar de Deus, considero antiético que sua existência implique na servidão humana.

Além disso, algumas de minhas perspectivas de existência são contrárias a grande parte das crenças dos ateus. Considero, por exemplo, que as manifestações da consciência humana extrapolam os 5 sentidos do corpo físico, que podemos nos manifestar fora desse mesmo corpo (o que se conhece como projeção astral, experiência fora do corpo ou projeção da consciência), que faz sentido que cada um de nós tenha tido outras vidas e terá outras no futuro e que nesse processo estamos evoluindo, cada um, para uma condição cada vez mais avançada. Isso não quer dizer que eu não possa me considerar ateu, pois o sentido estrito dessa palavra é a negação (a-) da divindade (théos).

Etiqueta

Certa vez li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais figurava a religião. Ora, quando se diz isso, o que se deixa implícito  é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, não há riscos de haver confusão ao se falar de religião num jantar onde todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Esse risco é até pequeno mesmo quando cristãos de diversas correntes discorrem sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles.

Entretanto, não se considera aceitável deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. Um especialista em etiqueta que recomenda a discrição na hora de se abordar religião pode estar implicitamente assumindo que tem uma religião que acredita ser a correta e não gosta que outros abordem suas crenças de maneira crítica, mesmo que seja para ajudar a entender melhor algum aspecto dessa crença.

A lógica dessa etiqueta se baseia na ideia de que as religiões têm que ser respeitadas (mesmo que seus discursos incluam críticas a outras formas de pensar) e que a crítica às religiões é um erro, pois seria a negação de algo fundamental da natureza humana. É a mesma lógica de quem pensa que os símbolos religiosos têm que estar presentes nas instituições públicas de um Estado laico (mesmo que eles ofendam algumas pessoas) mas se sente ofendido com uma manifestação ateísta ou de outra religião. A tirinha abaixo, de Don Addis, resume extraordinariamente bem o que tenho em mente:

"Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!" "Ei! Que tal mostrar algum respeito?!"

“Idiota cego! Marginal! Pervertido! Comunista! Blasfemador! Verme imoral e escória da terra!” “Ei! Que tal mostrar algum respeito?!”

Porém, é preciso levar em consideração um outro aspecto, que se relaciona à mesma ética a que aludi acima: às vezes uma pessoa tem tão entranhada em si uma convicção que questionar e desconstruir de maneira lógica seu pensamento seria uma violência.

Mas se todos incorporassem verdadeiramente uma postura racional e civilizada, poderiam deixar de lado esses melindres e discutir abertamente seus pontos de vista, flexibilizando-se a novas experiências e novas perspectivas, sem as noções preconcebidas de que “é preciso mostrar ao outro que eu estou certo”. Surgiria então uma nova etiqueta, baseada no discernimento, no abertismo e no universalismo, e toda essa bobagem de discrição na hora de abordar certos temas seria superada.

Notas

Este texto é uma versão ampliada de um post originalmente publicado na primeira Teia Neuronial. Seguindo a ideia que expressei no texto A Morte e o Texto, decidi, ao invés de pegar os textos antigos e republicá-los integralmente, reconstruí-los, atualizando as ideias a respeito dos temas abordados, seja porque mudei minha forma de vê-los, seja porque há algo novo a acrescentar.

Confiram o texto original neste link ou abaixo:

Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é religião e Deus.

Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar cientificamente agnóstico mas filosoficamente ateu. Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: “Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Há algum tempo li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava religião. Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que “não se deve ofender as crenças das pessoas”. Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.

O sexo do cérebro

Padrão

Ontem o texto Resposta a um Comentário foi comentado por alguém que se identificou como Lisandro Hubris. Ele deve ter errado ao digitar o endereço de seu site, mas aparentemente quis deixar registrado http://ateus.net (Ateus.net). Numa busca, constatei que ele é um usuário do fórum do referido site e está escrevendo um livro ateísta.

Resolvi não responder diretamente na seção de comentários por dois motivos: porque ele fugiu do assunto e porque minha resposta ganharia as proporções de um post. Dessa forma, venho escrever uma réplica, tendo em vista que a questão sobre a origem do comportamento sexual é um emaranhado de dúvidas e controvérsias.

Em suma, o comentário de Lisandro é apenas uma afirmação de que a homossexualidade é um comportamento determinado pela biologia, ou seja, é inato. É um comentário que não cabe na discussão iniciada por mim em Homossexuais ainda na mira da Inquisição, onde discorri sobre o casamento homossexual, mas trouxe de volta alguns questionamentos que eu apresentei num dos primeiros posts deste blog: De neurônios, sexo e sexualidade.

Já se nasce homossexual!

Já está provado que, a origem da homossexualidade é biológica…

Pois em 1991, uma pesquisa sobre homossexualidade e neurociência feita por Simon Le Vay, do Instituto Salk da Califórnia, EUA.

O mesmo onde Torsten Wiesel e David Hibel verificaram que a região do cérebro envolvida na regulagem do comportamento sexual é comandada por um substrato biológico da orientação sexual.

E que determinados impulsos sexuais, dos homossexuais são anatomicamente diferentes dos impulsos dos heterossexuais.

Deixou claro que, já se nasce homossexual.

Lê Vay comprovou que o NIHA-3 é grande em homens hetero e em mulheres homo, (ou seja, nos indivíduos que têm uma predisposição sexual para ter relações com mulheres) e pequeno nas mulheres heteros e homens homos (nos indivíduos com alguma orientação sexual para ter relações com homens).

A primeira coisa que Lisandro faz é afirmar que “já se nasce homossexual”. Logo em seguida, faz referência a uma pesquisa de 1991 que mostrou que determinada área do cérebro é semelhante entre pessoas que têm preferência sexual por homens (sejam essas pessoas homens ou mulheres) e entre pessoas com preferência sexual por mulheres (idem). A conclusão precipitada, como em muitas pesquisas desse tipo, é a de que uma característica biológica determinou um comportamento.

A origem do comportamento homossexual é um assunto controverso e há estudos nas mais diversas áreas da Ciência apresentando as teorias mais díspares. A Psicanálise, por exemplo, diz que o indivíduo nasce sem orientação sexual definida, e pode desenvolver qualquer gosto, de acordo com sua história pessoal e com a influência do meio.

O complicado na afirmação de que “a observação do cérebro prova que a homossexualidade é biológica” é assumir de antemão que as pessoas pesquisadas já nasceram com o cérebro assim. Quando o Homo sapiens interage com o ambiente, seu cérebro sofre estímulos e se modifica. Poderíamos supor, por exemplo, que um garoto que desenvolveu atração por outros garotos, devido a alguma particularidade dos episódios de sua infância, desenvolveu um cérebro cujo NIHA-3 é parecido com o das mulheres que gostam de homens. O delas também teria ficado assim pelo mesmo motivo.

De modo que a afirmação de que “orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo” poderia ser invertida: a biologia do indivíduo depende da sua orientação sexual.

Os ateus, em geral, são loucos por Ciência. Para mim, é salutar buscar na Ciência uma compreensão mais aproximada da realidade, e é muito superior nesse sentido do que a Religião. Mas uma cienciomania pode levar a uma um entusiasmo cego.

NIHA-3 significa, Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior.

E no caso em tela, o mesmo é denominado de “03”, porque também existe o NIHA 01,02 e 04. Que são as estruturas do hipotálamo que regulam a fome, a sede, as funções sexuais, a temperatura e certos hormônios.

Lisandro mostra com entusiasmo seus conhecimentos triviais a respeito do cérebro, e acaba caindo em alguns erros muito comuns entre os cienciomaníacos:

  1. Considerar como ciências somente as exatas e/ou naturais, ignorando muitas vezes o que as ciências humanas dizem a respeito desses assuntos;
  2. Fiar-se na Ciência como uma verdade absoluta, o que a Ciência essencialmente não é (em oposição aos dogmas religiosos). Daí decorre uma postura comum na cienciomania, que é expressa em frases do tipo “já está provado que…” ou “a Ciência já provou”.

Esquece-se ou se ignora a epistemologia mais contemporânea, para a qual a Ciência é uma aproximação da realidade e não uma descrição exata, além do que todas a teorias são passíveis de refutação.

Essas pesquisas normalmente deixam uma lacuna: como explicar os bissexuais? Como é o cérebro deles? Como é o cérebro de um pansexual? Como se dá isso em sociedades nas quais o comportamento bissexual é instituído socialmente, como era o caso da Roma antiga? Os romanos já nasciam bissexuais?

Embora Lisandro não tenha deixado claro o que pensa moralmente sobre a homossexualidade, deixou escapar um preconceito:

Lê Vay pesquisou o tecido cerebral de 41 indivíduos.

entre eles haviam 19 homens comprovadamente gays; 16 homens heterossexuais e 06 mulheres normais. [grifo meu]

Não ficou bem entendido, num comentário que buscou ser isento, o que significa uma “mulher normal”.

A conclusão do Dr. Le Vay foi que “O NIHA-03 exibiu dimorfismo”.

Ou seja, o aparecimento de duas formas diferentes, dentro de um mesmo grupo.

Pois o NIHA-03 dos homossexuais era duas vezes mais volumoso do que o dos heteros.

A descoberta de que entre os heterossexuais e os homossexuais, um núcleo difere em tamanho.

E aparece de duas formas características.

Indica que a orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo.

Sendo bem racional, a única coisa certa que se pode tirar da pesquisa e Le Vay é que, aparentemente, certo dimorfismo do cérebro coincide com uma variação e comportamento. Mas a conclusão peremptória de que , obviamente, a biologia (o cérebro) determinou um comportamento é uma postura pseudocientífica.

Além dos genes de gêmeos idênticos, apresentarem uma possibilidade acima da média dos mesmos compartilhar a mesma orientação sexual.

O homossexualismo independe da raça e da origem do individuo.

Pois cerca de 5% da população é homossexual.

A orientação sexual dos recém – nascidos adotados tem pouca relação com a dos seus pais adotivos.

E mais de 90% dos recém-nascidos adotadas por casais gays são heterossexuais.

Como nos gêmeos idênticos, a probabilidade deles compartilharem à mesma orientação homossexual é superior a 50%.

Enquanto, nos pares aleatórios de indivíduos a média está abaixo de 8%.

Algo que fica pouco claro é se essa teoria neurológica considera que o aspecto do cérebro determina ou influencia. Se for considerada a estatística de que os gêmeos tem grande probabilidade de ter a mesma orientação, então não há determinismo, o que nos faz perguntar: o que faz com que dois irmãos gêmeos não compartilhem a mesma orientação sexual?

Pode ser a história pessoal de cada um deles. Mas podemos também considerar outra hipótese: não é a genética idêntica que influencia nessa probabilidade, mas as condições mesológicas parecidas e a nossa tendência a considerar os gêmeos como se fossem a cópia um do outro, o que pode gerar uma confusão identitária em ambos. E aí cabe uma pergunta muito pertinente: como são os cérebros de dois irmãos gêmeos que têm orientação sexual diferente entre si?

Finalmente, chegamos ao trecho que tem alguma pertinência na discussão sobre o casamento homossexual: a orientação sexual dos filhos de um casal homossexual. Talvez seja esse o ponto a que Lisandro quis chegar ao introduzir o tema da origem biológica da sexualidade.

E acho que toda essa argumentação biologista é sofisma. Primeiro, porque as estatísticas mostram que a orientação sexual de um indivíduo independe daquela dos adultos que o criaram; se isso se dá por fatores genéticos ou sociais ou psíquicos ou físicos pouco importa, e é uma resposta que ainda não foi respondida.

Em segundo lugar, dar tanta importância a esses dados é admitir que a homossexualidade e as famílias diferentes da tradicionais são problemáticas, ou seja, é se manter ainda numa mentalidade conservadora que não se alinha com uma postura libertária, que, penso eu, a Ciência e o ateísmo buscam.

As evidencias indicam que a orientação sexual tem uma base genética.

E demonstram que o caráter e as características individualizadas de uma pessoa não são enraizados pelo meio ambientes em que a mesma vive.

Ademais, é preciso separar ainda algumas coisas dentro da própria Biologia: não é tão forçosa assim a relação entre cérebro (órgão biológico) e genes. Afinal, no âmbito biológico, não é só a genética que influencia nas características físicas de um indivíduo. Os hábitos da mãe durante a gravidez precisam ser considerados, o clima no qual se vive e as reações do organismo àquele. Há inúmeros aspectos fisiológicos que são adquiridos durante a gestação do novo ser vivo e não são determinados pelas cadeias de DNA.

Não quero levantar a bandeira do sociologismo e afirmar que tudo é social, contra o biologismo que afirma que tudo é biológico. Deve haver influências de vários tipos no comportamento das pessoas. A própria dificuldade de as ciências dialogarem abertamente entre si impede que tenhamos claro o que realmente está em jogo na constituição de cada indivíduo. Porém, é importante levantar questionamentos acerca de cada argumento apresentado, propondo outras interpretações dos mesmos fatos.