Serviço público

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O serviço público sempre serviu de piada para a sociedade brasileira. O excesso de burocracia, a falta de igualdade no tratamento do público, a ineficiência, a lentidão, os favorecimentos e favorecidos, as manobras inescrupulosas e a corrupção sempre foram elementos facilmente associados às atividades da máquina pública no país. Desde seu surgimento até os dias de hoje.

É verdade que todas essas características não são atribuições esvaziadas de sentido ou puramente míticas: a política brasileira, ponto máximo do serviço público, vive em quase total descrédito diante da população e ilustra perfeitamente a situação.

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Coleção de sinapses 1

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Esta semana a atriz Demi Moore ajudou um twitteiro a desistir do suicídio, mas o CQC não desistiu de desmascarar a corrupção existente na Educação Pública do interior de São Paulo. Quanto à corrupção na Igreja Católica, muitas crianças continuam sendo abusadas sexualmente e sacerdotes continuam impunes.

O que não continuou impune foi a Conjuntura de Poincaré, resolvida por um matemático russo que recusou o prêmio pelo feito. O que ainda não está resolvida é a existência de vida extraterrestre, que poderia haver em Titã, lua de Saturno. Quanto à vida na Terra, biólogos tentam conciliar o Evolucionismo com a visão cristã do mundo. E da vida de Leonard Nimoy, só sei que deveria ser longa e próspera…

Demi Moore evita suicídio de fã pela segunda vez – Jovem Nerd News

O Twitter e tantas outras ferramentas virtuais, redes sociais e afins, têm potencial para servir como meio de as pessoas encontrarem apoio para sua solidão e sofrimento. Não se pode negar que, com mais possibilidade de interação social, há mais chances de encontrar alguém disposto a dar consolo a quem precisa.

CQC – PROTESTE JÁ 22/03 – TV de Barueri – Sem censura (em 5 partes) – YouTube

Se o Jornalismo brasileiro ousasse mais, como o faz o pessoal do Custe o Que Custar – CQC, talvez a vergonha pública de dirigentes corruptos os obrigasse a cumprir com suas obrigações para com a população atendida por seus serviços, pelo que todos nós pagamos.

“X-Woman” Discovered -Shared Ancestry with Neanderthals and Modern Humans – The Daily Galaxy

Não seria de surpreender encontrar outras espécies do gênero Homo convivendo além do sapiens e do neanderthalensis, antes do primeiro ter subsistido ao outro. E também não seria surpresa encontrar muitos casos de híbridos entre as duas raças, pois são geneticamente compatíveis. É bem provável, aliás, que os humanos contemporâneos, que constituem uma só raça, seja resultado da mistura de mais de uma subespécie antiga.

Charge: A Igreja e a Padrefilia – Blog do Joaquim Monteiro

A Igreja e os que fazem parte de sua dirigência têm enorme poder acumulado e muitos recursos para não deixar que seus crimes abalem suas estruturas. A ICAR está aí firme e forte, depois dos horrores das Cruzadas e da Inquisição. Já passou da hora de mudanças radicais, de quebrar o tabu de se mexer com os representantes de Deus na Terra e puni-los como cidadãos com deveres iguais aos de qualquer outro. O problema é que cada país onde há padres pedófilos há uma legislação diferente, mas os Direitos Humanos Universais devem prevalecer para proteger as vítimas.

debaixo da torre eiffel – obvious

Eu me pergunto se monsieur Eiffel já tinha previsto o efeito de se olhar sua Torre de um ângulo não-convencional.

mac vs pc – obvious

Eu sinto essa diferença até entre meu notebook com Windows e meu iPod Touch. As coisas da Microsoft não são fluidas, parecem gambiarras muito bem disfarçadas. Os produtos da Apple, por outro lado, só surpreendem mesmo quando travam, o que, no caso do meu iPod, só aconteceu uma vez até hoje e nem houve prejuízo.

Russo resolve problema de matemática e ganha 1 milhão de dólares – Jovem Nerd News

O engraçado disso tudo é que há um episódio de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração (cuja história se passa no século XXIV) em que o capitão Jean-Luc Picard está tentando resolver a tal Conjuntura de Poincaré, até então insolúvel. Felizmente, podemos tratar o universo de Star Trek como uma realidade alternativa à nossa e não uma previsão do que vai acontecer de fato. Afinal, na storyline da série, a Terra da década de 90 do século XX foi dominada por vários ditadores sobre-humanos nascidos da eugenia, como o famigerado Khan Noonien Singh.

Life on Saturn’s Titan: Could It be Methane Based? – The Daily Galaxy

A ficção científica já especulou muito sobre a possibilidade de vida em condições diferentes da Terra, tanto em termos de temperatura, pressão e clima quanto dos elementos presentes no planeta candidato a fazer brotar vida. Mas uma coisa que me deixa intrigado no caso de um satélite natural é que seu movimento de translação ao redor do planeta combinado com o de revolução ao redor do Sol produz uma órbita que talvez deixe as condições de luz e temperatura instáveis demais. No caso da Terra, temos um ciclo circadiano relativamente contante, que permite a existência de seres vivos que vivem um ritmo estável de atividade e repouso. Entretanto, condições diferentes destas poderiam produzir criaturas com ciclos bem excêntricos em relação aos nossos, porém possíveis.

If ET Calls, Who Speaks For Humanity? – The Daily Galaxy

Muito boa a ideia de mandarmos mensagens explícitas para o espaço ao invés de contar com a captação de transmissões aleatórias de rádio e TV. Evitaríamos, por exemplo, mal-entendidos como no filme Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers, 1985), em que extraterrestres têm medo de vir à Terra, pois viram nos filmes que os forasteiros vindos do espaço sempre são recebidos com fogo. Porém, todo antropólogo sabe que se pode aprender muito mais de uma cultura observando as manifestações espontâneas dos nativos do que lhes pedindo para formular o que pensam da própria sociedade.

Official Adam Hughes Website

Gosto muito desse estilo de desenho. Lembra muito Quinton Hoover, que lembra Michael Kaluta (que influenciou esse último), que lembra Alphonse Mucha (que influenciou esse último). Não por acaso, Hughes tem influência do art nouveau.

ENTREVISTA: FRANCISCO AYALA Biólogo, premio Templeton: “Si el creacionismo fuera verdad, Dios sería un abortista” – El País

Por que as pessoas insistem tanto em louvar um cientista por “conseguir”, ou tentar “conseguir” conciliar Religião e Ciência? São duas coisas completamente separadas. Se um cientista tenta manter-se religioso, precisa abdicar de muitas das verdades proferidas pela religião, para não se contradizer. E fazendo isso acaba criando para si uma religião própria, diferente ou deturpada em relação àquela que costumava seguir. Ademais, é perfeitamente possível desenvolver um “sentido” para o mundo sem recorrer à religião. A própria Ciência, junto com a Filosofia, fazem isso sem precisar recorrer às tradições religiosas, que, via de regra, são rígidas demais em muitos pontos para se adaptar totalmente ao Zeitgeist contemporâneo.

Artistas juntam US$ 9,5 milhões para preservar símbolo de Hollywood – G1

Um letreiro não vale tanto assim. Todo esse dinheiro, conseguido tão facilmente, irá para os bolsos de pessoas que já têm dinheiro demais. Por que não aproveitar essa facilidade de angariar fundos para ajudar pessoas que realmente precisam? Está certo que “Hollywood” tem um valor histórico, mas a prefeitura de Los Angeles não poderia tombá-lo como patrimônio?

Leonard Nimoy, o eterno Spock, completa 79 anos. Veja curiosidades sobre o ator! – Portal Vírgula

Leonard Nimoy me surpreendeu quando descobri que foi ele quem dirigiu As Coisas Engraçadas do Amor (Funny About Love, 1990), um filme que não tem quase nada a ver com o imperturbável Sr. Spock. É um artista bem versátil, e a matéria me deu vontade de conhecer mais dos trabalhos dele fora da nave estelar Enterprise.

peugeot, mobilidade em estilo futurista – obvious

Estamos “chegando no futuro”! Muito legal ver esse veículo e imaginar que talvez daqui a algumas décadas teremos uma nova estética trafegando as ruas (e talvez os ares). Gadgets como Eva, do filme WALL-E, com um design cheio de curvas e abóbadas, nos remetem a uma vindoura era (realmente) espacial. Mas há ainda muitíssimo chão para pisar e nivelar antes que possamos nos dar ao luxo de usufruir de tecnologias limpas e eficientes. E há também muitas desigualdades a se equilibrar antes de concebermos uma sociedade cujos membros possam todos aproveitar os benefícios das tecnologias ecologicamente (e, espero, economicamente) corretas.

Da onipotência

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As conversas sobre religião cristã ou sobre crenças religiosas do Cristianismo podem revelar muitas das contradições e preconceitos inerentes aos discursos teístas, notadamente quando os envolvidos na conversa são evangélicos. Não porque sejam pessoas mais preconceituosas ou contraditórias, mas, talvez, porque as religiões evangélicas, herdeiras de Lutero, encorajam os crentes a elaborar suas convicções (os católicos se contentam mais com um discurso instituído).

Tomem como exemplo o diálogo abaixo, que parafraseio por não ter podido gravá-lo, mas que reproduz a maior parte das ideias expressas pelos interlocutores. As duas personagens são colegas de trabalho que se encontravam na mesma sala que eu no momento da conversa. Eu apenas ouvi e não participei.

Sabe aquele menino que trabalhou no Setor X, que usava touca, umas roupas coloridas? Você soube que ele morreu?

Soube.

Quando você soube?

Fulana me contou semana passada.

Eu soube hoje, pois Beltrano me falou. Era tão novo, só tinha 16 anos! Mas é assim mesmo. Coisa de Deus.

Pois é, o mistério de Deus.

É uma pena, mas Deus sabe o que faz. Essas coisas acontecem, às vezes é até uma forma de evitar um sofrimento…

É, esse menino era meio alegrinho…

…então, isso poderia trazer um sofrimento para os pais… mas não sei, só Deus sabe.

É por isso, irmã, que a gente tem que orar pelos nossos filhos. Você ora pelos seus filhos, irmã?

Oro!

Todo dia eu oro a Deus pelos meus filhos.

A ideia corrente de Deus em nossa cultura se reveste de centenas de aspectos. É um prisma multifacetado que se vê de maneiras diversas e díspares de acordo com o ângulo, tal como o Diabo no Inferno de Dante, que tem três cabeças.

Não é novidade que o discurso cristão, católico, protestante ou evangélico, é homofóbico. A exortação “crescei e multiplicai-vos” não é somente uma ordem para que as pessoas tenham filhos, mas subjaz também a heterossexualidade como orientação sexual padrão. Há ainda outras passagens da Bíblia que condenam o comportamento e a orientação homossexual como crimes que devem ser punidos.

Mas é interessante averiguar as formas que essa homofobia encontra de justificar o preconceito. Na conversa reproduzida acima, entende-se como melhor a precaução de um possível sofrimento por parte dos pais do que a suposta assunção de uma preconcebida homossexualidade.

“Deus é tão bom que poupou o sofrimento dos pais desse menino… ah, e o dele próprio também, não nos esqueçamos do pobre coitado.” Mas ele não poupou o “sofrimento” de cerca de 10% da população humana e seus pais. Também não poupou o” sofrimento” daqueles que morreram sem ter esse “problema”.

Essa é a crueldade do “mistério de Deus”. Tudo o que ocorre, para esses teístas, é vontade de Deus e parte de um plano elaborado para o bem dos mortais. Não adianta argumentar (se você o fizer, é possível que o Diabo esteja lhe cochichando no ouvido), “Deus sabe”, “Deus não faz nada em vão”, é preciso aceitar, por mais que sua liberdade, felicidade e saúde intelectual estejam em risco.

Quando um crente vê frustradas suas preces, ele pode se justificar achando que não foi digno da graça ou considerando que Deus decidiu não concedê-la. Neste caso, ele entende que houve um motivo justo.

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Segundo Maquiavel, para o governante, é melhor ser temido do que amado

Porém, em toda essa situação o crente se vê sujeito às vontades onipotentes de Deus, sem se preocupar em entendê-las, sem se dignar a perguntar, a questionar o motivo de as coisas acontecerem. E, principalmente, sem colocar dúvidas sobre a índole do Deus em que acredita. Não importaria, por exemplo, descobrir que Deus é um safado que brinca com as vidas dos mortais; o importante é ser fiel a uma crença consagrada e ao ser que supostamente lhe deu a vida.

Que grande diferença há entre esse Deus e o príncipe maquiavélico que domina pelo medo em detrimento do amor? É muito mais fácil obedecer e ser fiel a uma divindade que ameaça com punição e recompensa com favores do que se sentir livre para procurar discernir entre o que é melhor e o que é pior para todos, fazendo escolhas segundo o bom senso e não de acordo com leis que serviam para apaziguar povos conflituosos e belicosos na Antiguidade.

Que grande diferença há, enfim, entre esse Deus e um chefe da Máfia? Este recompensa aqueles que beijam sua mão e obedecem suas prerrogativas, enquanto pune aqueles que o decepcionam. Não há aí senão a luta para sobreviver, pouco importando, para a maioria dos envolvidos, o caráter ilícito ou antiético das maquinações do Poderoso Chefão.

Pedir todos os dias a Deus que proteja seus filhos é como implorar para que estes fiquem imunes ao mal que aquele, onipotente, permite que exista. É como participar de uma loteria na qual os que têm mais chance são os que pedem ao dono da Casa Lotérica que dê um jeitinho em troca de um voto nas eleições.

A verdade que a mentira conta

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O filme Mentiras Sinceras (Separate Lies, 2005), dirigido por Julian Fellowes, conta a história de um trio amoroso às voltas com a verdade e a mentira, a honestidade e a traição. Mas não de forma óbvia e previsível, como é o clássico caso de Arthur-Guinevere-Lancelot.

O casal inglês James e Anne Manning vive uma relação estável e morna, quase britanicamente fria. Depois que Anne conhece Bill Bule1, dois acontecimentos começam a esquentar a situação, mas não de forma positiva nem agradável, especialmente para James.

O primeiro é a traição de Anne2, que conhece em Bill uma companhia menos exigente e mais confortável. A reação de James é, essa sim, previsível. Primeiro, ele se revolta (fleumaticamente, é claro, como bom inglês), como quase qualquer homem faria. Depois, como já conhecemos seu temperamento pacato e ordeiro, já antecipamos que ele vai fazer de tudo para que as coisas voltem ao normal, pois ele não suportaria uma separação.

O segundo acontecimento atinge mais diretamente o casal de amantes. Estes atropelam o marido da empregada dos Manning. É então que tem início o amarramento de um nó que aproxima os três e, inclusive, obriga os dois homens rivais a compartilhar de uma intimidade que aborrece muito James.

Se o crime fosse delatado, James poderia até se vingar do homem que seduziu sua esposa, mas se arriscaria a perdê-la para a Lei. Anne se sente duplamente culpada: seu adultério teve como preço manchas de sangue em suas mãos. Porém, ela não consegue abrir mão da felicidade que sente ao lado de Bill, e não sabe viver sem James por perto. (Notemos que William Bule é tratado pelo apelido, Bill, enquanto James não é chamado de Jim, o que denota a personalidade de cada um, o primeiro mais informal, mais irreverente, e o segundo mais formal e sério.)

Pequeno ensaio fleumático sobre corrupção

Na mente de James, ocorre uma confusão de valores. Ele exige que Bill se entregue à polícia, pois considera que é a coisa certa a fazer. Mas quando descobre que sua esposa está envolvida no acidente que matou um homem, suplica a ela que não se entregue.

Os três então selam um pacto de silêncio, um acordo que protege os três das consequências da verdade. E aí nos deparamos com o tema da corrupção e entedemos que, pelo menos na maioria dos casos, o corrupto não tem má intenção, apenas é egoísta o suficiente para não abrir mão do abrigo que a mentira oferece quando cometemos um erro que nos pode ser prejudicial.

A situação se torna insuportável para James, não tanto pela raiva de Bill enquanto seu rival, mas porque este é um sujeito desagradável, talvez por ser sincero demais. Para Anne, o que ela não aguenta carregar é a culpa de um crime contra a vida. Bill é o que melhor suporta tudo, e talvez não se abalasse nem um pouco se a verdade viesse à tona e todos tivessem que assumir suas responsabilidades.

Mas o que torna a situação ainda mais maçante para todos é a descoberta de que o conluio na mentira os faz conhecer melhor a parte podre de cada um, de si mesmo e dos outros. Enquanto mentem para o resto do mundo, são obrigados, para se protegerem, a ser sinceros uns com os outros. Enquanto a mentira os guarda do perigo externo, a verdade os machuca por dentro.

Assim, o filme (que não é uma obra-prima mas pode ser considerada uma obra de arte, especialmente pela fotografia e o belíssimo cenário, com a arquitetura inglesa e flora nativa da Europa insular) nos mostra, através da encenação da corrupção em sua forma mais elementar, que há coisas que, por mais que evitemos conhecer, serão empurradas para fora do porão onde as prendemos.

Mostra também que às vezes é preciso mentir para sermos honestos com nossos próprios desejos, mas é aí que nos deparamos com a liberdade dos outros. Por outro lado, trair nossos impulsos individuais é também uma necessidade quando estamos diante da fidelidade para com outras pessoas.

Avaliação

Trama 3
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 3
Trilha sonora 3
Reflexão 3

Notas extemporâneas

  1. O ator que interpreta Bill Bule é Rubert Everett. Nunca havia visto Everett, mas já havia lido sobre ele num gibi da série Dylan Dog. O personagem principal desse gibi é desenhado segundo a aparência física do referido ator, e foi legal poder finalmente ver como seria Dylan Dog em carne e osso.
  2. Há um tema secundário nessa obra, que é o suposto perigo do adultério feminino. Assim como na história do rei Arthur, traído pela esposa Guinevere e pelo seu melhor cavaleiro e amigo Lancelot, e o filme Infidelidade (Unfaithful, 2002), a traição de Anne é como que o prenúncio de toda a tragédia e drama que se seguem. O adultério masculino é normalmente tratado com mais condescendência em obras de ficção, como um acontecimento que afeta só a mulher traída, e mesmo assim como algo que não a fere verdadeiramente.

Corrupção e coragem

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Assisti a O gângster (American gangster), de Ridley Scott, estrelado por Denzel Washington e Russell Crowe.

Na mesma noite, sonhei que eu estava acampado com vários jovens, como se fossem colegas do trabalho, num gramado de uma praça. A cidade parecia ser Brasília, e no cenário da história muitos jovens costumavam dormir na rua, ou porque o custo da moradia era muito alto ou devido ao fato de o trabalho ser muito longe de casa.

Em certo momento, anunciou-se a chegada de um tipo de bully, que vinha arrecadar dinheiro dos outros jovens, que deveriam fazer fila, eu inclusive. Apareceram alguns jovens com aparência meio cinzenta, carecas, de longe eram como orcs, e agiam como capangas do bully, organizando a fila e recebendo as vítimas à porta de um prédio onde estava seu chefe. Eu já fui me indignando e tomando notas mentais: “Vou pegar os nomes desse pessoal e denunciá-los”.

Os jovens iam adentrando a porta aos poucos, e na minha vez entrei junto com um rapaz baixinho, que ia à minha frente. Imediatamente ele se ajoelhou, com a cabeça baixa, fazendo reverência, mas ainda havia uma escada e uns corredores a percorrer antes de encontrar o figurão. Fiz questão de andar ereto e altivo, sem me submeter àquele aviltamento. Vi uma sala sem parede, como uma reentrância ao lado direito da passagem, onde alguns jovens, comportando-se como travestis, olhavam para mim. Pensei se seria ali o destino da fila, mas vi que eles não tinham nada a ver com a situação em que eu estava. Ao longe, vi um aglomerado de jovens ajoelhados ao redor de alguém, o tal do bully. Eu estava nervoso, pois provavelmente ia ser vítima de retaliações. Acordei.

É interessante como, em vários âmbitos da vida, nos deixamos dominar apenas por causa da tradição ou por medo de que a mudança traga transtornos. Toda mudança traz transtornos, por mínimos que sejam. Por isso a coragem é uma das virtudes mais importantes, como nota André Comte-Sponville. O medo é o pior dos vícios, e há poucas coisas tão aviltantes quanto o medo de ser punido, principalmente o medo de ser jogado no Inferno por um deus sádico.

O filme de Scott mostra essa virtude na figura do policial interpretado por Crowe. Todos os policiais aceitam suborno, e isso acabou se tornando um hábito instituído, de modo que “todo policial deve sempre aceitar suborno” se tornou uma regra tácita. Mas esse policial não o aceita e é punido por fazer a coisa certa.

No ambiente controlado pelo personagem de Washington, também há regras tácitas quanto à conduta das pessoas cuja vida está rodeada pelo crime, pelo tráfico de drogas e pela traição. Estão todos bem enquanto suas vidas estiverem na mediocridade e enquanto o chefão do tráfico de drogas mantiver a “paz” à custa da opressão de qualquer manifestação que fuja ao seu controle.

Talvez a palavra coragem derive do latim cor (“coração”) devido à sensação de opressão no peito e das batidas aceleradas quando estamos com medo. O coração forte enfrenta sem titubear. O corajoso domina seu coração e não se deixa dominar pela instabilidade das emoções.