Filmes para crianças – parte 2

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As histórias sobre extraterrestres são ótimas oportunidades para se refletir sobre diferença e igualdade. Nelas vemos metáforas das próprias diferenças entre os indivíduos e povos humanos e o desafio do convívio pacífico entre eles, além do aprendizado mútuo. Essas histórias são, assim, um meio de ampliar as perspectivas sobre o mundo e o universo, fazendo-nos refletir sobre o respeito à diferença e à possibilidade de nos considerarmos todos parte de um mesmo mundo.

Nesta segunda parte da série Filmes para crianças, abordarei três obras de ficção científica que tratam do contato entre seres alienígenas entre si, e de como esse contato é importante para mudar a maneira como vemos o outro. Para mim e para as pessoas que me ajudaram a escolher os itens desta lista, assistir a eles na infância foi um marco importante em nosso desenvolvimento como seres humanos e como consciências universalistas.

Dedicatória e agradecimentos

A Inês Mota, a Diego Leite, a Alan Hiramoto, a Paulinho Mota, a Rúbio Medeiros, a Betânia Monteiro, a Werner Soares, a Amanda Cavalcante e a Hermann Cavalcante (não são parentes).

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial)

E.T.: O ExtraterrestreDireção: Steven Spielberg

País: Estados Unidos

Ano: 1982

Certa noite, um pequeno extraterrestre se perde da nave espacial que o trouxe à Terra, enquanto agentes policiais o buscam após perceberem um certo tumulto nos arredores despovoados da cidade. O pequeno alienígena se esconde num depósito de uma casa próxima, onde vive um garoto humano chamado Elliott.

Naquela mesma noite, o menino humano percebe a presença de algo estranho e tenta avisar a mãe e o irmão mais velho, mas todos acham que se trata ou da imaginação do garoto ou de algum animal selvagem que entrou no depósito. Mas Elliott não desiste e no dia seguinte tenta atrair o ser misterioso com doces, até que finalmente, sob a luz da lua crescente, eles se deparam um com o outro e ambos se assustam. Mas Elliott leva seu novo amigo para casa e o esconde em seu quarto.

Elliott revela a presença do alienígena ao seu irmão mais velho, exigindo ser tratado com mais respeito, e acidentalmente sua irmã mais nova o descobre também. Os três empreendem esforços para não permitir que a mãe descubra o extraterrestre, e passam grande parte do tempo no quarto de Elliott brincando com E.T., como passam a chamá-lo, e descobrindo algumas habilidades incríveis do pequeno visitante do espaço. Ele consegue mover objetos com a força da mente e curar pequenas feridas com a ponta do dedo.

Mas o poder mais interessante de E.T. é a conexão empática e telepática que ele estabelece com Elliott, fazendo com que cada um deles sinta o que o outro sente e até pense o que o outro pensa. Dessa forma, eles compartilham uma amizade visceral em que um se confunde com o outro, quase como a ideia de amizade defendida por Michel de Montaigne em seu famoso ensaio.

E.T. consegue elaborar um plano para enviar uma mensagem ao seu povo solicitando um resgate, e constrói uma máquina, usando vário objetos como um computador de brinquedo e um guarda-chuva. Durante a tarde de Halloween, Ele e Elliott vão à floresta, lenando a máquina para ativá-la a céu aberto e enviar a mensagem. Ambos dormem ao relento e, pela manhã, Elliott percebe que E.T. não está por perto. O menino volta para casa com um terrível resfriado e seu irmão encontra E.T. à beira de um riacho, muito pálido e fraco.

Enquanto todos retornam à casa, uma larga equipe do governo, comporta de policiais e cientistas, começa uma operação de isolamento do local, para estudar o extraterrestre, mas este está tão doente que não resiste. a conexão com Elliott se rompe e este volta a ficar bem, mas se mostra intensamente triste com a morte de seu amigo. No entanto, E.T. retorna à vida e, com a ajuda do irmão e dos amigos deste, leva o pequeno ser do espaço ao campo, onde uma nave espacial aparece. Após uma tocante cena de despedida, E.T. parte em sua nave.

Os eventos da história não foram importantes só para Elliott, que passa a conhecer uma amizade que nunca vivera antes. A aparição de E.T. também provoca mudanças em Michael, o irmão mais velho, que passa a ser menos arrogante, e em Gertie, a irmã mais nova, que no início tinha alguma repulsa por E.T., mas passa a vê-lo com outros olhos.

A amizade de Elliott e E.T. simboliza uma relação desprovida de preconceitos e baseada numa total confiança mútua. Eles ficam tão ligados um ao outro que têm dificuldade de se despedir ao final. E.T. diz “Venha”, e Elliott responde “Fique”. O alienígena então lhe fala, apontando para a testa de seu amigo, “Estarei bem aqui”. Ambos aprendem a se desapegar diante da necessidade de cada um ir para onde pertence, mas, depois da experiência que tiveram juntos, a lembrança e o sentimento de amizade permanecerão em ambos.

A obra aborda

  • amizade,
  • diferença,
  • respeito,
  • aprendizado,
  • humildade e
  • desapego.

Viagem ao Mundo dos Sonhos (Explorers)

Viagem ao Mundo dos SonhosDireção: Joe Dante

País: Estados Unidos

Ano: 1985

Ben certa vez sonhou que sobrevoava um imenso circuito. Assim que despertou, desenhou o que conseguiu lembrar do circuito e ligou para seu amigo Wolfgang para contar. Como Ben era um garoto sonhador e fascinado por ficção científica, não foi difícil para seu amigo imaginar que se tratava de um típico sonho de sua cabeça avoada. Mas quando Wolfgang, um cientista-mirim filho de cientistas, vê o desenho do circuito, percebe que se trata mesmo de algo que pode ser construído e funcionar de alguma forma.

Então Ben, o sonhador, junto com Darren, o realista, e Wolfgang, o intelectual, se juntam para experimentar a descoberta, e através de um computador Wolfgang consegue criar uma esfera azul indestrutível que flutua no ar e atravessa qualquer coisa. Mais tarde, eles conseguem criar uma esfera maior e descobrem que ela é oca e pode carregar objetos dentro de si. Os três amigos decidem criar uma cápsula para voar pelo céu de sua cidade.

Depois de uma tentativa frustrada de subir ao espaço, os três amigos têm o mesmo sonho e ambos veem o circuito, o que lhes possibilita completá-lo e tentar de novo. Ao voarem outra vez naquela noite, são fisgados por um raio trator e levados a uma gigantesca nave espacial.

Eles imaginam estar presos numa típica nave alienígena do mal que aparece em tantos filmes de ficção científica. Mas logo descobrem que os tripulantes são um casal de irmãos extraterrestres gentis, Wak e Neek, que captam todas as ondas eletromagnéticas da Terra, incluindo as trasmissões de rádio e TV. Eles são fascinados por tudo o que ouvem e veem da Terra, e se divertem numa pequena festa com os jovens terráqueos.

Então Ben os convida para irem à Terra, mas Wak se recusa veementemente, tendo em vista tantas imagens do cinema da Terra que representam a forma violenta como os alienígenas são recebidos pelos humanos. Wak explica que só trouxe os três porque eles são diferentes do resto da humanidade. Ben fica desolado com o reconhecimento de que provavelmente seria perigoso para qualquer estrangeiro do espaço visitar um planeta beligerante como a Terra.

Finalmente, os três garotos descobrem que a nave em que estão foi surrupiada do pai dos dois alienígenas, que são jovens como seus hóspedes. O pai alienígena irrompe no salão em que estão e dá um sermão em Wak e Neek, acabando com a festa. Os novos amigos se despedem e o trio terráqueo fica marcado para sempre com a imressão de um mundo muito mais vasto do que jamais imaginaram.

É importante perceber como três crianças tão diferentes, um muito sonhador (sentimento), outro muito realista (corpo) e o terceiro muito intelectual (pensamento), superam essas mesmas diferenças e juntam suas qualidades para entrar numa aventura que mudará suas vidas para sempre.

A irrelevância das diferenças também é encarada no contato com uma espécie alienígena, que, apesar da aparência exótica, têm sentimentos e anseios parecidos com os dos humanos. A aparência é tão relevada que Wolfgang e Neek ensaiam um romance.

Finalmente, os garotos visionários têm que reconhecer que sua facilidade para ver através das diferenças não é compartilhada por toda a humanidade, que ainda percorrerá um longo caminho antes de superar suas diferenças internas e, a longo prazo, as diferenças mais marcantes entre humanos e extraterrestres.

A obra aborda

  • a busca pela realização dos sonhos,
  • amizade,
  • aprendizado mútuo,
  • amadurecimento,
  • tolerância e
  • pacifismo.

Inimigo Meu (Enemy Mine)

Inimigo MeuDireção: Wolfgang Petersen

País: Alemanha e Estados Unidos

Ano: 1985

Willis Davidge é um piloto de caça espacial terráqueo que luta contra os dracs, uma espécie alienígena em guerra contra a Terra, pela reivindicação de uma região da galáxia.

Durante uma batalha, Davidge se perde num planeta inóspito. Perto de onde sua nave caiu, também naufragou um piloto drac, chamado Jeriba Shigan. Após a tentativa mútua de assassinato, ambos percebem que precisarão um do outro para sobreviver nesse planeta selvagem, e “Jerry”, apelido que Davidge dá ao drac, aprisiona o humano para evitar que este o mate.

Numa busca pelo ambiente que os rodeia, os dois vão aos poucos encontrando alimento e formas de se proteger das intempéries da natureza local, mas, apesar de cooperarem, eles ainda se veem como rivais e inimigos de guerra.

Certa vez, quando buscava alimento, Davidge foi capturado por um predador, uma criatura que se escondia embaixo da terra e que agarrava suas presas com um tentáculo. Ela segurou Davidge pela perna e o puxou para baixo. Ele só se salvou graças a “Jerry”, que matou o animal (numa cena que lembra Han Solo salvando Lando Calrissian do Sarlacc).

A partir daí Davidge passa a cooperar mais com “Jerry”, e eles passam a se aproximar mais. Constroem juntos um abrigo contra as tempestades de pedra e fogo e começam a se conhecer melhor.

Com o tempo, eles aprendem o idioma um do outro e compartilham suas respectivas culturas. Seu relacionamento se aprofunda até o ponto de se tornarem amigos. O drac, através da leitura de um livro considerado sagrado por seu povo, entende que o conflito entre eles deve cessar. Ao iniciar Davidge nos ensinamentos de sua cultura, “Jerry” consegue fazer seu amigo entender melhor os dracs, enquanto ele passa a compreender melhor os humanos.

“Jerry” fica grávido (pois os dracs são hermafroditas e concebem seus filhos sem relações sexuais) e passa a se comportar como uma mulher. Davidge encara o desafio de cuidar de seu amigo e de criar seu filho, pois “Jerry” morre no parto.

Zammis, filho de Jeriba, é criado por Davidge, e cresce bem mais rápido do que um humano. O garoto começa a perceber as diferenças entre ele e seu “tio”, estranhando que sua ascendência (com um só progenitor) seja diversa da de Davidge (que teve um pai e uma mãe).

O jovem drac é raptado por mineradores humanos, que escravizam os de sua espécie para o trabalho braçal. Ao tentar salvá-lo, Davidge é resgatado por uma nave militar humana, que o leva para uma estação. Desmaiado, ele balbucia frases na língua dos dracs, o que os médicos e os soldados da estação estranham. Depois de acordar, Davidge encontra um meio de escapar e resgatar Zammis.

Após todos esses acontecimentos, a paz entre os dois povos é finalmente alcançada, e Davidge leva Zammis para o planeta dos dracs. No devido tempo, Zammis dá à luz a uma criança que batizou de Davidge, inserindo em sua descendência um nome humano.

A experiência dos dois antagonistas os levou da inimizade cega, passando pela necessidade de sobreviver juntos, até uma profunda amizade. Se no início eles consideravam um ao outro “feios” (cada um deles nunca havia visto um indivíduo da espécie do outro), Davidge aprendeu a achar Zammis uma bela criança. A biologia e a sexualidade das duas espécies (uma assexuada e outra bissexuada) é compreendida apesar do exotismo mútuo. Ambos aprendem a respeitar a cultura um do outro, o que lhes permite aprender um com o outro.

Se no início Davidge estava disposto a matar Jeriba, ao final arriscou a própria vida para salvar Zammis. A irracionalidade da guerra impedia que os antagonistas se conhecessem e alimentava fortes preconceitos e uma espécie de racismo que os opunha de maneira cega. Ao se conhecerem e se tornarem grandes amigos, eles provam que as diferenças superficiais (espécie, planeta de origem, cultura) são irrelevantes quando percebemos que temos em comum algo mais fundamental, e podemos nos relacionar de maneira significativa com qualquer pessoa do Universo. Como me disse um amigo, resumindo bem o filme:

Como criança, achei a ideia de dois inimigos mortais se conhecerem e se tornarem amigos muito bonita,  superarem diferenças que na verdade nem eles entendiam bem.

A obra aborda

  • preconceito,
  • cooperação,
  • relativismo cultural,
  • respeito,
  • amizade e
  • pacifismo.

Para adquirir os filmes

Contatos imediatos – parte 3

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Na primeira e na segunda parte de Contatos Imediatos, fiz extensos comentários sobre algumas observações de Stephen Hawking a respeito da possibilidade de vida extraterrestre (trechos retirados do site The Daily Galaxy). Discorri sobre as possibilidades advindas da mera especulação sobre as naturezas dos seres vivos extraterrestres, pensando nas inúmeras possibilidades cósmicas.

Em seguida, explorei as probabilidades e improbabilidades de encontrarmos outros seres vivos fora da Terra, de reconhecermos que são mesmo seres vivos (ou de sermos reconhecidos), de eles terem inteligência como a nossa (ou diferente da nossa) e das possíveis  dificuldades na comunicação e compreensão entre espécies de planetas diferentes. Mas, e se nosso primeiro contato for uma catástrofe?…

Considerando a possibilidade de o surgimento da vida inteligente ser bastante provável, Hawking especula que, em algum ponto de seu desenvolvimento tecnológico,

the system becomes unstable, and the intelligent life destroys itself. This would be a very pessimistic conclusion. I very much hope it isn’t true.

[o sistema se torna instável, e a vida inteligente destrói a si mesma. Esta seria uma conclusão muito pessimista. Eu espero que não seja verdadeira.]

Essa é uma preocupação que concerne aos próprios seres humanos. Se o ponto ambiental crítico a que chegamos for uma constante para outras espécies inteligentes em outros astros, é possível que muitas delas já tenham se extinguido e se destruam antes de realizar viagens interplanetárias.

O tema da autodestruição tem uma ligação com o pensamento escatológico cristão (que herdamos do Zoroastrismo). A crença num fim do mundo, compartilhada pelo Cristianismo (com seu Apocalipse), pelo Islamismo e até pela religião escandinava (com seu Ragnarok), entre outras, chega a nossos dias modificada pelas preocupações com a guerra (o horror nuclear que ameaçava explodir o planeta) e com o meio ambiente (muitos cientistas consideram que o ser humano tem a capacidade de causar uma destruição em larga escala do ecossistema e de sua própria espécie.

No novo mito apocalíptico (que recentemente recebeu contribuições da mitologia maia, com a má interpretação sobre um final de uma era, interpretada pelos ocidentais como sinônimo do fim do mundo), o fim da humanidade, ou o fim da biosfera terrestre, ou até o fim do planeta Terra, serão causados pela própria irresponsabilidade humana.

Dois filmes recentes sobre extraterrestres tematizam essa preocupação com a autodestruição, de duas formas diversas e um tanto opostas.

Em Distrito 9 (District 9, 2009) (veja minha resenha aqui), uma raça extraterrestre apelidada pelos humanos de “camarões” chega à Terra numa nave espacial, sobrevoando Johannesburgo (no país onde está ocorrendo a Copa do Mundo). Não se sabe bem o que ocorreu com os alienígenas, que chegam famélicos à Terra, desamparados e sem rumo. Uma das interpretações possíveis é que eles exauriram seu planeta-natal e não tiveram opção senão ir embora, à procura de um novo lar.

Distrito 9

Em Distrito 9, alienígenas high-tech depauperados são acolhidos e explorados pelos seres humanos da África do Sul, à maneira de estrangeiros indesejáveis, tais quais os judeus e os ciganos

Já em Avatar (2009) (veja minha resenha aqui) são os próprios humanos que exauriram seu mundo e saem à procura de outra fonte de energia (no caso, o satélite Pandora, do planeta Polifemo, numa das estrelas de Alfa Centauro). Há um conflito com os na’vi, nativos de Pandora, que vivem em harmonia com a natureza de seu mundo e cujo modo de vida se choca com os interesses exploratórios dos humanos.

Isso nos leva à observação mais polêmica de Hawking sobre esse tema. Ele considera que é possível que a existência dos humanos tenha sido ignorada por outras espécies inteligentes. Segundo ele, se nós viermos a captar sinais de vida inteligente vinda do espaço,

we should have be wary of answering back, until we have evolved [a bit further].

[deveríamos ter cautela ao responder, até que evoluamos [um pouco mais].]

Um encontro entre os atuais humanos e uma civilização mais avançada

might be a bit like the original inhabitants of America meeting Columbus. I don’t think they were better off for it.

[poderia ser mais ou menos como os habitantes originais da América encontrando Colombo. Não acho que eles tenham tirado bom proveito disso.]

A história humana está recheada de episódios e e narrativas épicas encenadas por grandes impérios e povos subjugados. Os relatos dos vencedores são geralmente imbuídos de um caráter heroico e grandioso, enfatizando a prevalência da civilização e seus valores morais “superiores” sobre a barbárie com sua vida degenerada.

O Império Egípcio unificou os povos nilóticos, desde o delta do Nilo até sua nascente. Alexandre foi aclamado por fundar várias Alexandrias ao redor do mediterrâneo. O Império Romano latinizou quase tudo aquilo que conhecemos hoje como Europa. Gêngis Khan saiu da extremidade leste da Ásia e conquistou tudo até parar em Viena. O Império Britânico ensinou inglês ao “Oriente”, à África e à América. Os Estados Unidos da América vestiram o mundo com jeans, viciaram-no com MacDonald’s e balançaram a terra com o rock and roll.

A história contemporânea mostrou a situação dos povos subjgugados, massacrados, mortos às centenas, aos milhares, obrigados a servir uma autoridade estrangeira, a reverenciar deuses estranhos, a enrolar a língua para falar idiomas alienígenas. Os projetos imperialistas da história humana foram sempre pautados no etnocentrismo, na supervalorização da cultura daqueles que os empreenderam e no desfalque da cultura e vida dos povos espoliados.

A colonização se faz de pelo menos duas formas: 1) a destruição da população local para a exploração dos recursos naturais e 2) a imposição da obediência e/ou de uma cultura nova aos nativos. Normalmente, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo e representam de duas formas a anulação e o desrespeito à diferença.

Os destruidores de mundos

Guerra dos Mundos

O veículo dos invasores do espaço em Guerra dos Mundos; ilustração de Alvim Corréa

Essas duas formas de se tratar os povos conquistados são a fonte básica para a fantasia que criamos sobre os alienígenas vindos do espaço. Em alguns casos (como em Independence Day (1996) e Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005)), os extraterrestres high-tech pretendem destruir completamente o planeta invadido, neste caso a Terra, seja por mera crueldade, seja para habitá-lo e/ou explorá-lo.

A destruição de uma espécie alienígena, seja qual for o motivo, só é justificada por uma moral que desconsidera o direito à vida daqueles que são diferentes de nós, ou por serem um empecilho ao desenvolvimento de uma civilização com valores superiores, seja por se os considerar animais inferiores que só servem como matéria-prima (como gado para se comer ou para dar couro).

Será que uma espécie que alcance a tecnologia necessária para viajar a outros planetas não desenvolve também uma ética mais evoluída? Se olharmos para nós mesmos, que tanto erramos em nosso passado, não estamos na iminência de uma decisão global para manter nosso próprio planeta vivo? E essa decisão não depende de uma ética mais universalista? Essa ética deverá ser herdada por nossos descendentes da aldeia global, o que talvez aconteça em outros planetas que passam ou passaram por um processo semelhante.

Talvez a conduta dos humanos em Distrito 9 e Avatar seja condizente com a forma de a humanidade reagir hoje em dia, e talvez a abordagem de alguns grupos e indivíduos humanos seja antiética mesmo num contexto social em que domine uma ética mais desenvolvida. Mas penso que, se os humanos viajassem a outros planetas, estariam já num estágio social e cultural que os levariam a tomar muito cuidado no contato com outros mundos habitados.

Os colonizadores de planetas

Cor e Kirk

O representante do Império Klingon e o da Federação, num conflito de interesses sobre o destino do planeta Organia

Em outros casos, como no episódio Missão de Misericórdia (Errand of Mercy, 1967), de Jornada nas Estrelas, a espécie invasora quer apenas anexar o planeta invadido ao “território” de seu império, obrigando aquele a servir este (neste caso, o Império Klingon, cujos interesses se chocam com os da Federação Unida de Planetas, que deseja a aliança do planeta Organia).

Essa situação é explicitamente baseada na Guerra Fria, em que duas superpotências planetárias disputam o mundo e vivem na expectativa paranoica de que o rival pode tomar o primeiro passo numa guerra de proporções hercúleas, o que justificaria a estocagem preventiva de armas. Essa paranoia belicista sempre existiu desde que há povos falando idiomas diferentes, líderes acumulando poder e terra com recursos naturais sendo disputada. E não é difícil imaginar de onde vem a inspiração para as histórias que descrevem uma inevitável guerra entre espécies de planetas distintos.

Os humanos seriam um risco para os extraterrestres?

Se de repente tivéssemos à nossa disposição, hoje, uma tecnologia capaz de nos levar a outro planeta, uma pequeníssima parte da humanidade participaria dos projetos de exploração espacial, pelos seguintes motivos:

  1. Alguns povos e países não têm condições nem interesse em participar de projetos científicos internacionais;
  2. Os povos e países que têm essas condições têm um contingente da população socialmente excluído;
  3. Nem todos os indivíduos da população não-excluída são interessados nesses projetos, e alguns até se oporiam a eles.

Ou seja, a humanidade ainda não é coesa o suficiente para que concebamos um “projeto humano” de exploração espacial, e qualquer delegação humana que viesse a entrar em contato com extraterrestres não representaria a humanidade como um todo.

Porém, na ficção científica, às vezes se vislumbra a unificação da humanidade a partir do desenvolvimento tecnológico. Em Contato, de Carl Sagan, por exemplo, a construção de uma máquina (cujo projeto foi enviado por uma mensagem alienígena), envolvendo esforços de vários países da Terra, aproxima povos que costumavam ser rivais. Em outro momento, o autor narra que várias pessoas abastadas passaram a viver em estações espaciais, o que tem um efeito interessante sobre suas mentes: elas passam a ser menos nacionalistas e a se considerar pertencentes a uma espécie planetária. Ao ver a Terra de longe,

As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os Trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real.

No filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato, entende-se que a descoberta de uma tecnologia que permite viajar mais rápido do que a luz e o consequente contato com uma espécie alienígena significariam o início da resolução de todos os problemas sociais do mundo terráqueo, com a união de toda a humanidade frente à vastidão do espaço sideral.

Space Invaders

A ideia de invasores do espaço se baseia no belicismo da própria espécie humana

Se soubéssemos que é grande a probabilidade de tudo vir a ocorrer dessa forma para nós, teríamos bons motivos para ser otimistas em relação a espécies alienígenas mais avançadas tecnologicamente do que nós, pois seria provável que quaisquer problemas sociais, econômicos, étnicos etc. estariam resolvidos em qualquer planeta que viesse a viajar a outros mundos. Ou seja, neste sentido, seria muito provável que uma espécie na era das viagens interplanetárias já tivesse uma ética mais desenvolvida do que a que atualmente temos na Terra, o que quereria dizer que os riscos de sermos vítimas de uma invasão aniquiladora ou colonizadora seriam pequenos.

Praticamente toda especulação que se pode fazer sobre os possíveis riscos de um contato entre humanos e uma espécie extraterrestre inteligente é baseada em nossa própria experiência passada. As guerras entre povos, o etnocentrismo, a intolerância, a segregação, o racismo, a opressão imperialista, tudo isso nos faz pensar em extraterrestres invasores e numa inevitável guerra contra eles.

Mas um vislumbre utópico de nosso futuro, baseado nas mudanças que já houve desde há muito tempo em nossa história até os dias de hoje, podem nos dar uma perspectiva otimista sobre os possíveis alienígenas ultra-tech que venham a se encontrar conosco. A única coisasensata que podemos fazer a respeito disso tudo é nos tornarmos uma espécie melhor, mais integrada e unida, mais respeitosa perante a diversidade biológica cósmica.

Continua

Continua…

Contatos imediatos – parte 2

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Em Contatos imediatos – parte 1, comentei algumas observações de Stephen Hawking a respeito da probabilidade da existência de seres vivos extraterrestres e das possibilidades de sua natureza. É improvável que a Terra seja o único astro da galáxia a ter vida, e é possível que esta se manifeste de várias formas.

Dando continuidade aos meus comentários ensaísticos sobre as observações de Hawking (retiradas diretamente de um post do site The Daily Galaxy), faço mais algumas especulações sobre as probabilidades e possibilidades da vida extraterrestre, de esta vida vir a desenvolver inteligência e de esta inteligência assumir várias naturezas, reportando-me a referências da Ficção Científica e da Antropologia.

Hawking certa vez questionou:

What are the chances that we will encounter some alien form of life, as we explore the galaxy?

[…] there ought to be many other stars, whose planets have life on them. Some of these stellar systems could have formed 5 billion years before the Earth. So why is the galaxy not crawling with self-designing mechanical or biological life forms?

[Quais são as chances de nós encontrarmos alguma forma de vida alienígena quando estivermos explorando a galáxia?

[…] deve haver muitas outras estrelas cujos planetas tenham vida. Alguns desses sistemas estelares podem ter se formado 5 bilhões de anos antes da Terra. Então por que a galáxia não está infestada por formas de vida mecânicas ou biológicas autoprojetadas?]

Boa pergunta. Mas uma coisa que me vem à mente é o tamanho dos seres vivos da Terra, minúsculos em comparação com o tamanho dos astros. Já os astros são minúsculos em comparação com a quantidade de espaço vazio que existe na Via Láctea. Se houver um planeta habitado em cada constelação, destes apenas alguns teriam forma de vida inteligente, e destes apenas alguns teriam alcançado a Era Espacial, e destes só uns poucos conseguiriam viajar a uma velocidade com que valesse a pena explorar outras constelações.

Outra variável a ser considerada no “cálculo” acima é a sobrevivência dos extraterrestres antes de poderem fazer viagens interplanetárias. Se seres inteligentes chegarem a um ponto semelhante ao que chegamos na Terra, arriscando-se a exaurir os recursos naturais de seu planeta, eles podem vir a destruir seu mundo, e provavelmente não os encontraremos vivos.

Assim, a probabilidade de criaturas minúsculas vagando em tanto espaço vazio se encontrarem é também bem reduzida. E nós nem sabemos com certeza ainda se iremos um dia realmente viajar na velocidade da luz ou dobrando o espaço.

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala - eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão)

A pequenina nave espacial Discovery perdida na imensidão do espaço; análogo a um átomo, o Sistema Solar é, na maior parte, espaço vazio (a distância entre o Sol e os planetas está fora de escala – eles são bem mais espaçados -, mas os tamanhos estão na escala correta)

Apenas com uma tecnologia capaz de detectar numa determinada seção tridimensional do espaço qualquer objeto do tamanho de um ônibus espacial ou maior poderia resolver esse problema (afinal, detectar com radar um jato no céu é uma coisa, mas detectar uma nave espacial no espaço sideral é bem diferente… ou não?). Como não sei se essa tecnologia existe, não sei se seria tão fácil assim ver uma nave se aproximando da Terra, se ela tiver o tamanho, por exemplo, da Discovery.

I discount suggestions that UFO’s contain beings from outer space. I think any visits by aliens, would be much more obvious, and probably also, much more unpleasant.

[Eu descarto as sugestões de que os ÓVNIs contenham seres do espaço sideral. Acho que quaisquer visitas de alienígenas seriam muito mais óbvias e, provavelmente, muito mais desagradáveis.]

Talvez sim, talvez não. Talvez nós precisássemos de muito tempo observando e avaliando um planeta habitado antes de aterrissar, se chegássemos a encontrar um. Há muitos possíveis riscos, como doenças desconhecidas que podem ser mortais (que foi a causa da ruína dos marcianos em A Guerra dos Mundos), plantas e/ou animais cujos corpos são venenosos para certos visitantes do espaço, ou até mesmo uma reação violenta e intolerante por parte dos nativos.

Dito isso, podemos imaginar que, se alguns dos ÓVNIs avistados da Terra são naves extraterrestres, seus tripulantes tomariam essas mesmas precauções antes de pousar na superfície terráquea. Isso sem considerar uma ou outra espécie com tendências mais arredias ou paranoicas. Isso tudo explicaria porque é tão difícil ver ETs na superfície terrestre.

Por outro lado, possíveis problemas técnicos por parte dos tripulantes extraterrestres já deveriam ter ocasionado alguma aparição mais evidente, no meio de uma cidade populosa, por exemplo. No entanto, essas aparições, se em alguns casos forem mesmo alienígenas do espaço, acontecem na zona rural ou em locais ermos, sem grande concentração populacional humana, e as testemunhas sempre são escassas.

Porém, quase todos os relatos impactantes conhecidos de pessoas que dizem que viram e/ou encontraram extraterrestres são envoltos em mistério e confusão, além de serem abafados pelas autoridades militares. O ET de Varginha foi visto por um militar, que deu um depoimento à mídia, mas pouco tempo depois desmentiu tudo o que disse à mesma mídia.

Uma outra possibilidade para a dificuldade da obviedade de um encontro com uma espécie extraterrestre é ela ser composta de matéria num estado sutil ou em outra dimensão, ou ainda serem muito pequenos. Pode ser até que nem consideremos os alienígenas como seres vivos, e os confundamos com robôs (como no filme O Milagre Veio do Espaço) ou até com naves espaciais (como no primeiro episódio de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração).

 

O Milagre veio do Espaço

No filme O Milagre veio do Espaço, humanos conhecem uma forma de vida não-orgânica, que mais nos parecem robôs

What is the explanation of why we have not been visited? One possibility is that the argument, about the appearance of life on Earth, is wrong. Maybe the probability of life spontaneously appearing is so low, that Earth is the only planet in the galaxy, or in the observable universe, in which it happened. Another possibility is that there was a reasonable probability of forming self reproducing systems, like cells, but that most of these forms of life did not evolve intelligence.

[Qual é a explicação para nós não termos sido visitados? Uma possibilidade é que o argumento sobre a aparição da vida na Terra está errado. Talvez a probabilidade de a vida aparecer espontaneamente seja tão baixa que a Terra é o único planeta na galáxia, ou no Universo visível, no qual isso aconteceu. Outra possibilidade é que houve uma razoável probabilidade de se formarem sistemas autorreprodutivos, como células, mas que a maioria dessas formas de vida não desenvolveu inteligência.]

Essa é uma possibilidade que temos que considerar. Porém, em termos puramente físicos, astronômicos e bioquímicos, alguns cientistas, como Carl Sagan, concordam que é improvável, pelas dimensões do Universo, que não exista vida fora da Terra. Mas que essa vida tenha evoluído para um estágio de inteligência como a conhecemos na Terra, ou até superior a ela, é uma outra possibilidade.

It took a very long time, two and a half billion years, to go from single cells to multi-cell beings, which are a necessary precursor to intelligence. This is a good fraction of the total time available, before the Sun blows up. So it would be consistent with the hypothesis, that the probability for life to develop intelligence, is low. In this case, we might expect to find many other life forms in the galaxy, but we are unlikely to find intelligent life.

[Levou muito tempo, dois e meio bilhões de anos, para células simples evoluírem para seres pluricelulares, que é um precursor necessário para a inteligência. Esta é uma boa fração do tempo total disponível antes que o Sol exploda. Então isso seria consistente com a hipótese de que a probabilidade da vida desenvolver inteligência é baixa. Neste caso, deveríamos esperar encontrar muitas outras formas de vida na galáxia, mas é improvável que encontremos vida inteligente.]

Nós temos um conceito de vida muito restrito aos parâmetros terráqueos, àquilo que conhecemos na superfície do terceiro planeta do Sistema Solar. E temos padrões mais restritos ainda para o que concebemos como vida inteligente.

A vida celular foi o que vingou na Terra, e talvez não houvesse muitas outras possibilidades neste ambiente. Mas o vírus é uma forma de vida não-celular, que talvez tivesse mais possibilidades de diferenciação num planeta diferente, e talvez até viesse a evoluir e alcançar o status de vida inteligente em outras paragens do Cosmos.

A vida pluricelular também deve ter sido o mais adequado para as condições deste planeta. Mas  não seria possível que, em determinadas condições, uma espécie unicelular evoluísse de modo a crescer mais e mais, se diferenciando cada vez mais em suas organelas e assumindo uma forma macroscópica com um sistema interno próprio ao desenvolvimento da inteligência? O sistema neurológico é a única estrutura que a natureza poderia ter encontrado para desenvolver cérebros?

Toda essa especulação vai no sentido de vislumbrar uma forma de vida com inteligência da maneira como entendemos esta. Por mais que façamos abstrações, a cognição humana pode ser apenas uma de inúmeras possibilidades.

A organização do pensamento humano tem uma especificidade que advém da peculiaridade da experiência do Homo sapiens. Grande parte da forma como o ser humano representa o mundo, o compreende e o interpreta é resultado de um modo peculiar de percebê-lo e de interagir com ele. É o que mostra Gilbert Durand no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário: aprender a se erguer e caminhar nos faz valorizar e desvalorizar de uma certa forma as noções de cima e baixo, de subida e descida; o impulso e o ato de comer e a sexualidade nos fazem entender de uma certa maneira nossa animalidade e os conceitos de dentro e fora. A especificidade dos sentidos humanos também influenciam essas valorizações, de modo que, por exemplo, a luz se torna um conceito/imagem extremamente importante nas metáforas sobre o conhecimento do mundo, já que a visão é um dos, se não o mais, sentidos mais importantes do Homo sapiens.

Uma espécie sem visão, que pautasse a maior parte de suas percepções do mundo na audição, por exemplo, da forma como um morcego “enxerga” (e da forma como o super-herói Demolidor (Daredevil), da Marvel, “vê”, usando uma audição aguçadíssima), poderia construir o entendimento (interessantemente, o verbo entender é cognato do francês entendre, que significa “ouvir”) do mundo com base em metáforas que incluem a ideia de voz, de música, de melodia, e poderia, ao invés de textos para serem lidos, gravarem seus conhecimentos em meios auditivos. Como deve ser a cognição de um rapaz cego que se localiza no espaço através de ecolocalização, se a compararmos com o pensar de uma uma pessoa vidente?

Além disso, se buscarmos as variações da própria espécie humana, veremos como às vezes é difícil traduzir os modos de pensar de povos com cultura diferente da nossa. Essa tentativa de compreender a linguagem, o pensamento, a cosmologia e a cultura do outro é o principal esforço das obras etnográficas de autores como Bronislaw Malinowski, Ruth Benedict, Claude Lévi-Strauss e todos os antropólogos que viveram entre alienígenas e escreveram sobre suas experiências.

Se muitas vezes é preciso ficar imerso na cultura do outro humano por um bom período até se entender seu modo de viver e pensar, imaginemos como seria hercúleo o esforço para compreender a cultura de uma espécie nascida num planeta diferente, com composição química diferente, aparência diferente, modos de se comunicar diferentes.

Ora, demoramos tanto tempo para descobrir uma fração da inteligência dos golfinhos, uma das espécies mais inteligentes no planeta Terra. Douglas Adams, em O Guia do Mochileiro das Galáxias, mostra de forma bem-humorada como é difícil uma espécie chegar a compreender a inteligência de outra. Na história, os golfinhos, a segunda espécie mais inteligente da Terra (antes dos humanos,a terceira, e depois dos ratos), sabiam que a Terra estava prestes a ser destruída, mas não conseguiram avisar os humanos, que interpretaram sua mensagem como piruetas divertidas. Vejam o trecho inicial do filme inspirado no livro:

Podemos então vislumbrar espécies extraterrestres tão díspares daquilo que consideramos vida inteligente que teríamos dificuldade até de reconhecer que são inteligentes, como a criatura de silício encontrada por Kirk e Spock, descrita na primeira parte deste texto. Assim, qualquer primeiro contato entre duas espécies inteligentes está sujeita a muitos mal-entendidos.

Esse foi o tema de um episódio da série televisiva Babylon 5, em que a origem da guerra entre humanos e minbari é explicada: em seu primeiro contato, uma nave humana encontrou uma nave minbari, cujos tripulantes ativaram as armas da nave, que para eles é um sinal de respeito (algo como tirar a espada da bainha e pô-la no chão, significando a intenção de não entrar em conflito). Os humanos interpretaram o gesto como uma ofensiva, e teve início um longo conflito.

Há assim muitos motivos para ter cautela nos contatos com extraterrestres, e sobre isso me delongarei na próxima parte de Contatos Imediatos.

Continua...

Continua…

Contatos imediatos – parte 1

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Stephen Hawking disse recentemente que é no mínimo bastante improvável que a Terra seja o único planeta onde tenha surgido vida, já que estamos num Universo com 100 bilhões de galáxias, cada uma com centenas de milhões de estrelas. De fato, a pretensão de que somos o ápice da “Criação” só se justifica na ignorância sobre os atuais conhecimentos da Astronomia.

Em certa época, não se sabia que as estrelas eram corpos celestes gigantescos com astros menores ao redor de si, nem se tinha ideia da quantidade de estrelas da nossa galáxia e tampouco que Andrômeda era uma outra galáxia como a nossa e que havia muitíssimo mais delas no Universo.

Hawking disse ao jornal britânico The Sunday Times:

To my mathematical brain, the numbers alone make thinking about aliens perfectly rational, The real challenge is working out what aliens might actually be like.

[Para o meu cérebro matemático, os números por si mesmos tornam perfeitamente racional pensar na existência de alienígenas. O verdadeiro desafio é imaginar qual seria a real natureza dos alienígenas.]

Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock

Capitão Kirk no planeta Vulcano, durante o pon farr de Spock

Tendo em vista o escassíssimo conhecimento sobre vida extraterrestre, não dá para ir muito mais longe do que a especulação. Apenas sabemos um pouco sobre as condições materiais e climáticas de alguns corpos celestes. Naqueles raros que possuem características semelhantes às da Terra (que na ficção científica de Jornada nas Estrelas são chamados de “Classe M”), pode-se imaginar um tipo de vida baseado em água e carbono que talvez se assemelhe às espécies do planeta azul. Ou talvez sejam parecidas com estas apenas microscopicamente.

Em planetas com composição, tamanho, órbita e/ou clima diferentes dos da Terra, poderia haver espécies vivas extremamente diversas, quem sabe feitas de metal, como os metalianos de Marcelo Cassaro (Espada da Galáxia), de silício, como as grandes lesmas de Janus VI (Jornada nas Estrelas), ou compostos de matéria mais densa do que a nossa ou até mais rarefeita.

Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI

Sr. Spock fazendo uma conexão mental com a criatura de silício de Janus VI

XenomorfoMuitas histórias de ficção científica descreveram uma enorme variedade de espécies vivas com características que, para os padrões humanos, seriam consideradas bizarras. Um exemplo é a xenomorfo, que apareceu pela primeira vez no filme Alien: O Oitavo Passageiro. Ele possui um ciclo reprodutivo bastante complexo, além de ser resistente aos extremos calor e frio e ter sangue altamente corrosivo.

Muitas pessoas relatam contatos com seres de outros planetas. Esses contatos podem ser de dois tipos (considerando a possibilidade ou probabilidade de sua veracidade, excluindo-se mentiras e alucinações):

  1. Contato imediato intrafísico, em que os alienígenas em questão se fazem presentes na dimensão material, com seus corpos físicos;
  2. Contato imediato ou não extrafísico, em que a testemunha vê uma imagem ou encontra, numa projeção da consciência para fora do corpo, um ou mais indivíduos que habitam outro planeta e se apresentam, na dimensão extrafísica, com a forma que possui seu corpo físico (no caso de ainda estar vivo; pode acontecer de ele ter morrido e estar se manifestando apenas extrafisicamente).

Esses encontros de ambos os tipos podem ter inspirado grande parte dos personagens fictícios que encontramos em livros, filmes e séries de TV. De qualquer forma, há muitas especulações, mais ou menos verossímeis, sobre as diversas possibilidades de formas de vida no Universo. Elas podem ter atingido ou não um grau avançado de complexidade mental, social e cultural, podem ser mais animalescas do que nós ou muito mais sofisticadas psiquicamente.

We only have to look at ourselves to see how intelligent life might develop into something we wouldn’t want to meet. I imagine they might exist in massive ships, having used up all the resources from their home planet. Such advanced aliens would perhaps become nomads, looking to conquer and colonise whatever planets they can reach.

[Só precisamos olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente poderia se desenvolver em algo que nós não gostaríamos de encontrar. Imagino que eles devam existir em naves gigantes, tendo esgotado todos os recursos de seu planeta-natal. Esses alienígenas avançados poderia talvez se tornar nômades, procurando conquistar e colonizar qualquer planeta que eles encontrem.]

Se a vida em outro planeta se desenvolver num caminho parecido com o que trilharam os seres vivos da Terra, é razoável pensar que uma espécie alienígena inteligente venha a possuir uma psique parecida com a nossa e desenvolver anseios parecidos com os humanos.

Gilbert Durand, no livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, argumenta que os esquemas básicos do imaginário humano e, portanto, de sua psicologia, apresentam certos elementos fundantes universais (universais no âmbito da espécie humana, claro), baseados na experiência básica comum a todos os indivíduos da espécie, especialmente o impulso e a experiência de se alimentar, o aprendizado de se elevar na postura ereta e andar, e o impulso e a vida sexuais.

Assim, muitas das características que nos tornam humanos deverão estar presentes numa espécie que possui morfologia e fisiologia parecidas com as nossas e um ciclo reprodutivo semelhante. Por outro lado, é verossímil imaginar que espécies possuidoras de uma biologia alienígena para os nossos padrões tenha uma fisiologia psicológica bem diversa, talvez chegando a desenvolver uma cognição equivalente em alguns pontos, mas com processos mentais que funcionam de outra maneira, com desejos e repulsas diferentes dos nossos.

Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles

Os klingons gritam quando um dos seus morre, para avisar aos espíritos que um guerreiro terrível agora ronda entre eles

Essas prováveis diferenças na “natureza” mental, cultural, moral e psíquica das espécies alienígenas é muito explorada na série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. É comum, na série, que cada espécie com que os humanos entram em contato estranhe as emoções, os valores, o modus vivendi, a visão de mundo do Homo sapiens, e este age de modo recíproco.

No entanto, toda essa abordagem tem sérias controvérsias. Em Jornada nas Estrelas, cada espécie, inclusive a humana, é tratada de modo extremamente homogêneo, como se não houvesse variações culturais. Dessa forma, a caracterização dos humanos é grandemente baseada nos valores ocidentais, perdendo-se de vista que, por exemplo, existem povos humanos que têm uma cultura parecida com a dos klingons. Estes, por sua vez, compartilham todos o mesmo modo de viver, sem variações análogas à real condição multímoda do Homo sapiens.

Outra controvérsia é a própria visão hominocêntrica de Hawking, que imagina que a forma de encarar o universo de seres inteligentes de outros planetas deva ser a mesma do ser humano. Pode ser que alguma espécie tenha desenvolvido uma ética universalista que os impede de se aproveitar de uma espécie menos ou mais avançada (como a Primeira Diretriz da Federação, em Jornada nas Estrelas). Embora a história humana tenha sido marcada por guerras, espoliações, genocídios e violentas conquistas, é razoável imaginarmos uma situação futura em que essas coisas terão diminuído significativamente. E isso pode acontecer com outras espécies algures, nesta ou em outra galáxia.

Continua...

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Fonte

Avatar [Resenha – Parte 3]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009) é um filme que, se dividiu muita gente na opinião quanto à trama e aos temas tratados na narrativa, encantou a maioria em seus aspectos estéticos. Toda a criação virtual deu um aspecto muito real ao mundo imaginário de Pandora, com fauna e flora críveis e um ecossistema simbiótico envolvente.

Na primeira parte desta resenha, fiz um resumo comentado do filme e discorri sobre os nomes usados na história. Na segunda parte, analisei algumas questões antropológicas. Nesta terceira e última parte, trato dos aspectos estéticos de Avatar, do mundo áudio-visual criado por Cameron, da ficção científica misturada com fantasia mítica (e um pouco mística) e de como tudo isso se relaciona com um dos temas mais contundentes do filme: Ecologia e meio ambiente.

Sinestesia fantástica

(Não pude ver o filme na versão 3D, pois tenho visão monocular (mas, se pudesse, não hesitaria experimentar essa nova tecnologia cinematográfica). Mas alguns comentaristas constam que a obra não foi inicialmente concebida para ser vista em 3D, então penso que este recurso é só um extra interessante. No entanto, mesmo em 2D o visual é espetacular.)

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

O clima penumbroso do laboratório é frio e deprimente. Ao fazer a conexão com seu avatar, Jake Sully faz uma viagem neuronial, apresentada em primeira pessoa, que leva o próprio espectador a sentir que saiu de um lugar cinzento para uma sala bem iluminada. A cor do corpo na’vi se destaca, e o amarelo dos olhos compõe, sobre a pele azul, a imagem do amanhecer, dois sóis que se destacam contra o céu.

Mas a luz reconfortante desta antessala é só uma transição para o que está do lado e fora: uma atmosfera diferente, com um brilhante sol a esquentar o chão que há muito Jake Sully não sentia; agora ele corre para aproveitar ao máximo a sensação que perdera com seu paralítico corpo humano. Mas isso não é suficiente para ele, pois em seus melhores sonhos ele voa.

Passamos então para a floresta fechada, onde há plantas um tanto diferentes do que se viu na Terra (se é que esses personagens viram muitas plantas na devastada Terra) e animais exóticos mas nada muito alienígenas. Fauna e flora pandorianas são ao mesmo tempo surpreendentes e familiares, tudo sob uma luz/sombra florestal que nos faz sentir aconchego e apreensão.

A noite traz perigo e mistério. Luzes se acendem no céu, nas plantas e na pele, como velas numa caverna. Os na’vi recebem Jake Sully com receio, mas tanto o forasteiro quanto a tribo nativa dão uma chance um ao outro. Já a manhã traz um cenário aberto com planícies a cavalgar e cânions a sobrevoar. Subimos as Montanhas Aleluia, grandes pedras flutuantes, e estamos quase voando. Mas é só quando as belas aves pterossáuricas são montadas que o destino de Jake Sully começa a se concretizar.

Um destino que se alcança às custas de várias viagens de ida e volta, entre o sonho aborrecido que experimenta entre humanos e a realidade vívida que vive entre os na’vi. Nesta realidade, Jake Sully encontra um amor construído com aprendizado e afeição, e entendemos junto com ele e Neytiri que os seres que habitam o universo têm todos algo em comum.

A Árvore das Almas e a bioluminescência de tudo em volta é uma imagem brilhante e envolvente, e nos faz quase sentir nossos cabelos se arrepiando e se envolvendo na mente dos seres vivos que formam todos uma só consciência. E quando fazem amor, Jake Sully e Neytiri expressam em poucos gestos e palavras uma afeição que não precisa ser mostrada de outra forma.

Mas toda essa benevolente realidade é ameaçada pelo pesadelo de escorpiões voadores e grandes fantoches de metal. Ou será o contrário, o onírico mundo regido por Eywa ameaçado pela terrível realidade destrutiva humana? Se o sonho é ruim ou bom, se a realidade física é negativa ou não, se uma coisa é a outra ou vice versa, depende da experiência de cada um. Para Augusto dos Anjos, a ilusão era doença:

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimento rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Grifo meu.

No filme, seres construídos por computadores lutam contra humanos feitos pela natureza. Porém, são as criaturas virtuais que representam as forças naturais, enquanto os seres de carne e osso se apresentam como ícones da tecnologia empregada para fins inescrupulosos. Toda a imagem é digna de um épico ilustrado em paredes esculpidas por antigas civilizações.

Batalha aérea em Pandora

Jake Sully completa seu destino nas costas de um Toruk, “última sombra”, e voa com os na’vi, uma corte de guerreiros alados. Ele se reconcilia com seu rival Tsu’Tey, atual líder na’vi, assim como um predador gigante renuncia sua ferocidade para que Neytiri monte em suas costas. Toda a natureza toma partido e luta contra a ameaça tecnológica, não para vencer uma guerra, não para matar um inimigo, mas para preservar algo muito maior, às tristes custas da morte de alguns.

Neytiri sente que Jake Sully está morrendo em seu corpo humano, ela o vê à distância. Ao alcançar o frágil corpo humano, ela o acolhe em seus braços, reconhecendo a alma forte que ela enxerga no fundo dos olhos que a enxerga da mesma forma. Numa das cenas de  amor romântico mais belas que já vi, dois indivíduos, de espécies alienígenas um para o outro, se acariciam depois e abraçarem a alma um do outro.

Avatar é um universo mágico, uma aventura de Fantasia que remonta às histórias de viagens a mundos idealizados, como a Terra do Nunca a que Peter Pan leva Wendy e seus irmãos, como o País das Maravilhas a que Alice é conduzida por um coelho branco, ou Oz em que Dorothy se perde. Sempre se viaja para um mundo de maiores possibilidades que a realidade, de libertação, normalmente se vai para mais perto da natureza, em busca de algo perdido e sufocado pela civilização.

Mas não só a Fantasia oferece essas viagens reveladoras. Na Ficção Científica, Neo viaja da Matrix para o mundo real; o Planeta dos Macacos também é destino de uma viagem que ensina muito sobre a natureza humana; o arqueólogo Daniel Jackson faz uma jornada no espaço e na história para descobrir os segredos do Antigo Egito. E Avatar também se envereda a Ficção Científica.

Ficção científica

Avatar não é um filme de ficção científica, pelo menos não uma hard science fiction. É uma história romântica (não só no vulgarizado sentido do romance amoroso, que também está presente, mas especialmente no aspecto que envolve a autodescoberta e a fantasia do retorno à natureza selvagem) que tem elementos de ficção científica.

Mas não é como Guerra nas Estrelas, uma aventura épica cujos elementos de ficção científica são mais fantásticos do que científicos. Avatar tem uma ficção científica verossímil, pertinente e bem encaixada na narrativa.

Qualquer história de ficção se inicia com uma pergunta, que normalmente está implícita, um problema cuja solução se tenta resolver através da narrativa. “E se um fantoche criasse vida?” Resposta: Pinóquio, de Carlo Collodi. “Como seria a história de um homem atormentado pela dúvida se sua mulher o traiu ou não?” Resposta: Dom Casmurro, de Machado de Assis.”E se uma pequena e fleumática criatura se envolvesse numa aventura épica?” Resposta: O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Na ficção científica, essa pergunta necessariamente se dá no campo da especulação científica e normalmente envolve uma preocupação social em relação ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. “E se houvesse um planeta habitado por macacos inteligentes e humanos bestiais?” Resposta: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. “Se uma espécie alienígena avançada e pacifista olhasse para a Terra da Guera Fria, que partido ela tomaria?” Resposta: O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise.”Quais seriam as implicações da criação artificial de um ser humano?” Resposta: Frankenstein, de Mary Shelley. (É claro que essas perguntas estão muito resumidas. Cada uma dessas histórias tem um conjunto complexo de questões encadeadas.)

“E se a Terra ficar exaurida de recursos naturais? E se o mundo que tem os recursos que queremos explorar é habitado por criaturas inteligentes que vivem em cima do metal precioso que queremos? E se essas criaturas respiram um ar tóxico para nós? E se a lua em que vivem tem gravidade maior do que a da Terra? E se esses nativos têm 3 metros de altura e se locomovem com agilidade num ambiente que para humanos é difícil de ser explorado?” Resposta: Avatar.

Imagine então uma tecnologia que permita a um ser humano assumir a forma de um nativo, respirar o mesmo ar que ele, resistir à forte gravidade, percorrer com desenvoltura, força e agilidade o ambiente local e, da mesma forma que os alienígenas, fazer conexões neuroniais com animais e plantas desse mundo. É uma tecnologia muito complexa, avançada e, portanto, cara. E é empregada como um pesado investimento para a obtenção do valiosíssimo unobtânio.

Jake Sully e seu avatar

A humanidade chegou a um avanço tecnológico gigantesco: viagens intergalácticas, robôs humanoides bélicos que obedecem aos movimentos de seus pilotos, transmissão da mente para outro corpo. Mas não conseguiu avançar sua ética, e repetem com os na’vi os mesmos erros que os colonizadores (humanos) cometeram com povos (humanos) nativos no escopo do planeta Terra.

Dessa forma, Avatar repete e inverte a fórmula clássica de filmes sobre alienígenas que invadem a Terra com ultratecnologia e ultradestrutividade. Mas desta vez os invadidos são os alienígenas, os humanos são os invasores. “Como seria se os humanos detivessem tecnologia suficiente para visitar outro planeta com tecnologia menos avançada?” Resposta de James Cameron: seria o mesmo que se viu em Independence Day, de Roland Emmerich, só que os humanos é que estão nas naves estelares.

O ecossistema de Pandora também parece verossímil ao espectador médio, principalmente pelo realismo das imagens, e menos por causa de alguma verossimilhança sistêmica na relação entre animais e plantas. Mas o detalhismo deste âmbito não é tão importante neste filme. A parte da natureza sai da ficção científica e entra mais no fantástico, sobre que discorri acima.

Assim, James Cameron concebeu Eywa como um sinônimo de mãe-natureza, como uma referência à divindade grega Gaia, que representa a Terra, a biosfera, o ecossistema terráqueo. Eywa é essa mesma divindade, mas representada pelos na’vi no planeta Pandora. Ela tem uma grande importância para a questão ambiental tratada no filme.

Questão ambiental

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

De acordo com a hipótese (ou teoria) de Gaia, a biosfera da Terra constitui um sistema autorregulador, quase como um ser vivo composto pelos  animais, plantas e outras criaturas e pelo meio ambiente ocupado e formado por esses seres. Fugindo da polêmica em torno do real significado metafórico ou não de Gaia (não sou versado em Geologia, Ecologia nem qualquer área pertinente), uma coisa parece ser unânime entre os cientistas: um ser vivo mantém uma relação direta ou indireta com todo o ecossistema terrestre, e qualquer grande mudança de uma de suas partes  acarreta uma reação do todo.

Os seres vivos de Pandora vivem uma conexão extrema. Os na’vi, inteligentes, conectam suas mentes (através de fios de cabelos que transmitem impulsos bioquímicos/sinápticos) às de montarias nativas, cavalos hexápodes, para fazê-los obedecer ordens de movimento, ou a grandes aves para que estas os carreguem voando. Os na’vi também se conectam assim à Árvore das Vozes, para escutar seus ancestrais. A interconexão entre os seres de Pandora é tão interdependente que qualquer interferência séria como a derrubada de uma grande árvore põe em risco todo o biossistema.

O ecossistema fictício de Pandora é assim uma metáfora hiperbólica de uma realidade existente em nosso próprio mundo, o planeta Terra. A extinção de uma espécie terráquea, a derrubada ou queimada de florestas, a poluição de um rio ou de um mar e a infestação do ar com fumaça são exemplos de interferências humanas que têm consequências sérias sobre todo o conjunto.

Avatar é, portanto, bem atual ao tocar num tema que está na pauta contemporânea e que tem preocupado diversos setores das sociedades ocidentais. Na base de todas as controvérsias sobre as causas mais contundentes e do real escopo das mudanças climáticas (especialmente as controvérsias sobre se há ou não um aquecimento global catastrófico provocado pelos seres humanos), é unânime a exortação de que devemos cuidar do meio ambiente.

A mensagem ecológica do filme é sintetizada na frase dita a Jake Sully por Neytiri: “Tudo o que Eywa dá é emprestado e será preciso devolver”. É uma exortação à nossa responsabilidade enquanto parte integrante de um mesmo meio ambiente. E enquanto seres humanos, capazes de transformar esse meio de formas muito impactantes, é preciso lembrar do que Carl Sagan disse no livro Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre Vida e Morte na Virada do Milênio:

Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante [p. 85].

Que completa, reiterando:

Se os humanos criam problemas, os humanos podem encontrar soluções [p. 86].

Numa resenha muito pertinente publicada na Folha de S. Paulo, o físico Marcelo Gleiser nota que Avatar pode ser visto como um aviso dos atuais perigos ambientais na Terra. Esta, no filme, está esgotada de recursos naturais, o que obriga os humanos a buscarem energia fora do Sistema Solar. Precisamos cuidar da Terra para que não se repita a farsa histórica na qual os nativos de um paraíso natural são dizimados pela ganância e pelo desespero. Gleiser conclui assim seu artigo:

somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Comentários sobre as notas

Trama 4: a história é bem conhecida, e a falta de originalidade faz com que a trama seja previsível. Mas ela é bem construída e agradável, suas partes se encaixam bem, com início, meio e fim, com harmonia e sem excessos.

Montagem 5: As cenas se encaixam com perfeição. Cada corte diz muita coisa sobre os sentimentos dos personagens e sobre o clima geral da trama. A exemplo o momento em que Jake Sully acorda em seu corpo humano logo após fazer amor com Neytiri. A música silencia, os olhos desolados de Jake se abrem dentro da tubo de conexão e ele se pergunta: “O que diabos você está fazendo, Jake?”, sem saber mais qual é sua missão ali.

Atuação 3: os atores fazem bem o seu trabalho, sem nada excepcional. Alguns personagens são marcantes, como o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e a doutora Grace Augustine (Sigourney Weaver), mas no geral as dramatis personae são secundárias diante do espetáculo visual e da sucessão de eventos.

Diálogo 3: as falas são bem simples e não contribuem muito para o show. Mas não se percebe nenhuma pretensão de se criar algo impactante e original nos diálogos, e eles não atrapalham em nada.

Visual 5: o visual é simplesmente perfeito. Toda a beleza selvagem que se pretendeu criar está presente nas imagens e os seres artificiais que aparecem na tela são muito realistas.

Trilha sonora 4: a música é linda e apropriada, fazendo com que os cenários se enriqueçam e sejam facilmente acessíveis ao espectador. No entanto, há momentos em que o som fica discrepante com a cena, mas isso ocorre pouco.

Reflexão 4: os temas são muito instigantes para quem nunca viu Dança com Lobos, O Último Samurai ou Distrito 9. Mas a maioria deles é batida. No entanto, soma-se aí o detalhe de o estrangeiro ser de outra espécie, o que faz com que o protagonista mude de corpo, se tornando realmente um outro, e a questão ambiental tão em voga e ainda pouco (e mal) explorada no cinema.

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Avatar [Resenha – Parte 2]

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O filme Avatar (2009), de James Cameron, apesar de sua trama simples e previsível, apresenta muitos temas relevantes para a humanidade do século XXI. Com uma montagem de cenas perfeita e imagens arrebatadoramente belas e envolventes, consegue sensibilizar para muitas questões pertinentes.

Na primeira parte desta resenha, fiz uma sinopse comentada e uma análise dos nomes de lugares e personagens da trama. Nesta segunda parte, discorrerei sobre temas antropológicos: observação participante, choque cultural, etnocentrismo, relativismo, imperialismo; e, imiscuídas nestes tópicos, questões filosóficas: ética e universalismo.

Choque cultural

Avatar é uma história de choque cultural. Extrapandorianos, humanos, com tecnologia superavançada pousam no mundo dos na’vi e começam um trabalho de exploração capitalista que vai de encontro ao modo de vida dos nativos. Os alienígenas terráqueos consideram importante para os na’vi aprender a língua da Terra (o inglês) e ter acesso a novíssimas e complexas tecnologias que mudarão suas vidas. É a velha anedota do colonizador que traz bugigangas para os índios em troca de pau-brasil e ouro.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Mas os nativos não precisam de nada que os humanos oferecem. Porém, estes estão ávidos por três coisas: a riqueza material que poderiam extrair do unobtânio, minério caríssimo (Parker Selfridge e sua equipe); a oportunidade belicosa de viver uma batalha (Miles Quaritch e seu batalhão); e a oportunidade científica de descobrir novas realidades geológicas, botânicas, zoológicas e antropológicas. Apenas esta última se justifica racionalmente.

They missed the point, of course. A motivação de um homem que cai ali de paraquedas, o paraplégico Jake Sully, é retomar suas pernas e viver uma aventura. O resultado é que ele conseguiu algo muito mais valioso do que dinheiro, adrenalina guerreira ou descobertas científicas. Ele descobre a importância do equilíbrio natural do universo, através de sua iniciação na sociedade dos na’vi do clã Omaticaya.

Observação participante

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Antes de tudo, e repetirei isso adiante, Jake Sully não empreendeu a observação participante propriamente dita, ou seja, o método científico desenvolvido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski em seus estudos etnográficos nas Ilhas Trobriand. Ele não usou uma abordagem científica nem estava preocupado com elaborar teorias a respeito da vida dos na’vi. Afinal, ele não era cientista, era um “bebê”.

No entanto (relevando a impossibilidade de se tornar um nativo em qualquer cultura diferente daquela que nos criou desde criança até a idade adulta em apenas 3 meses), podemos ver a experiência de Jake como uma ilustração de como se dá a observação participante, essa que é talvez uma das mais sofisticadas metodologias na Antropologia.

O pouco tempo que Jake leva para se iniciar na vida dos na’vi poderia se justificar (em parte) pelo fato de que terráqueos e pandorianos já tinham bastante experiência uns com os outros, o que não é mostrado no filme. A história começa com uma tentativa de retomada de contato, ou seja, cada uma das duas culturas já sabe bastante sobre a outra. Neste sentido, penso que foi uma perda grande não ter explorado mais o choque cultural, metaforizando as reais dificuldades advindas de um encontro entre alienígenas que nunca haviam ouvido falar uns dos outros (o que a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração faz bem melhor).

Repetindo, Jake não é antropólogo e não empreende a observação participante malinowskiana. Mas ele entra no clã dos omaticaya de coração e cabeça vazios, o que permite que ele se abra à completa experiência de se mover pelas árvores com agilidade, domar montarias, dominar o arco e flecha e sentir-se conectado à natureza como qualquer na’vi.

Por ser um “bebê” para Neytiri, Jake começa do zero sua imersão. Como nenhum outro cientista conseguiu, por terem as cabeças cheias de expectativas, o ex-fuzileiro está pronto para começar uma nova vida, e somente incorporando a identidade e os costumes na’vi ele consegue entender a mentalidade, a vida e os anseios do outro. Pode-se dizer que ele realizou uma observação participante visceral e não-etnográafica.

Antropologia imperialista

Os maiores desenvolvimentos da Antropologia se deram, paradoxalmente, em situações neocolonialistas. A Grã-Bretanha enviou Malinowski às Ilhas Trobriand porque estas eram colônia inglesa, e conhecer melhor os nativos era importante para uma melhor administração.

Uma crítica que li algures à história de Avatar foi que o escolhido para salvar os nativos era um “civilizado”, ou seja, um humano branco norte-americano, e isso seria propaganda ideológica norte-americana, mostrando quão virtuoso é o povo salvador do mundo. Porém, lembremo-nos que esses norte-americanos do filme são na maioria favoráveis à exploração dos na’vi e de Pandora.

Além disso, Jake deixa aos poucos de ser humano e incorpora a identidade na’vi, tanto que a vida em seu corpo paraplégico passa a ser um sonho ruim e a vida com os na’vi vai se tornando cada vez mais real. Ele realmente renasce como na’vi, e a única coisa que lhe permite ajudar seus novos irmãos é seu conhecimento profundo do inimigo e uma audácia que ele deve mais ao seu temperamento individual e a sua história particular do que ao fato de ser humano branco norte-americano.

Depois de audaciosamente domar um Toruk (“última sombra”, uma espécie de ave extremamente feroz que apenas 5 na’vi conseguiram cavalgar na história dos omaticaya) a nobreza de Jake finalmente se manifesta no ato humilde de oferecer ajuda ao novo chefe do clã, Tsu’tey (que herdou o posto de Eytucan, recém-morto pelos humanos), seu ex-rival, sem clamar para si nenhum posto importante, mesmo sabendo que, ao se tornar Toruk Macto (“cavaleiro da última sombra”), será respeitado por todos os na’vi.

Guerra preventiva ou Pax Romana

A guerra é muitas vezes (irracionalmente) justificada por motivos preventivos, especialmente em situações imperialistas. O que está por trás é na verdade um interesse escuso, normalmente garantir uma posição dominante na relação com o outro.

Foi o que empreendeu o Império Romano com a chamada Pax Romana. Foi o que repetiu o império norte-americano na Guerra do Iraque. E há uma claríssima referência, em Avatar, à política beligerante de George “Warrior” Bush, quando o coronel Miles Quaritch brada que “vamos combater o terror com terror”.

Júlio César, imperador de SPQR; George "Warrior" Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. "Si vis pacem para bellum" é a ideologia belicista.

Júlio César, imperador de SPQR; George “Warrior” Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. “Si vis pacem para bellum” é a ideologia belicista.

O conhecimento sobre os na’vi tinha o único objetivo de melhor explorar sua lua-natal. Essa abordagem se assemelha muito ao conhecimento do Oriente elaborado pelas nações imperialistas ocidentais. Esse conjunto de saberes, que incluíam vários preconceitos, generalizações e menosprezo, foi chamado por Edward W. Said de Orientalismo e servia de justificativa (irracional) para a dominação.

Esse tipo de atitude preconceituosa é visto durante todo o filme em afirmações que representam os na’vi como animalescos, primitivos, ignorantes, drogados. A conexão bioquímica entre a fauna e flora de Pandora, explicada por Grace Augustine, é ridicularizada por Parker Selfridge: “o que diabos vocês andaram fumando lá embaixo?”

Os exploradores não se permitem a experiência de aprender a cultura local e tirar algum proveito nobre e evolutivo. Talvez a troca tivesse se efetivado se os humanos mostrassem boa vontade de compartilhar uma experiência e não insistissem que são só eles quem têm o que oferecer aos nativos, sendo o unobtânio a moeda e o preço pelo “progresso” trazido da Terra (que, pelo que consta em algumas falas do filme, está com seus recursos naturais esgotados).

A subestimação do “selvagem”

Ewoks

O colunista Jorge Coli, da Folha de S. Paulo, escreveu uma resenha interessante sobre Avatar, na qual ele faz uma referência a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Durante os preparativos de um ataque aos revoltosos liderados por Antônio Conselheiro, o coronel Moreira César afirmou: “Vamos almoçar em Canudos”. Ele não esperava que seria tão difícil combater os “brutos” sertanejos, da mesma forma que o coronel Miles Quaritch não esperava perder a batalha contra os na’vi, antes da qual afirmara: “vamos jantar em casa”.

Este é um tema comum em épicos, e se trata de um interessante tema antropológico, pois que toca no relativismo cultural. As grandes civilizações levam seu etnocentrismo a uma escala imperial, considerando que aqueles povos não-assimilados e cuja cultura é considerada inferior não têm condições de resistir a uma guerra (pois, pensam os conquistadores, não têm tecnologia tão avançada nem táticas eficazes) nem à assimilação (pois a cultura do conquistador é considerada melhor e mais desejável).

Porém, a Guerra do Vietnã serve de exemplo real para o equívoco imperialista. Os norte-americanos não esperavam que os vietcongues tivessem a capacidade de, em seu próprio território, resistir e ludibriar os inimigos. O exército norte-americano, por exemplo, se surpreendeu com o uso complexo de túneis, que permitiu aos nativos promover ataques surpresa.

Voltando à ficção, em Guerra nas Estrelas: Episódio VI – O Retorno de Jedi, o Império Galáctico se utiliza dos típicos recursos de um governo expansionista, especialmente a violência física. Mas, com sua avançada tecnologia, não consegue vencer a batalha contra os pequeninos ewoks da lua de Endor, com suas lanças de madeira e pedra, fundas e asas-delta de couro.

Exploração dos recursos naturais e o obstáculo humano

O etnocentrismo imperialista está longe de deixar de ser um problema atual. Se tomarmos o exemplo da influência cultural dos EUA em todas as partes do mundo, vemos que uma relação de dominação ainda se mantém, em que se supervaloriza acriticamente tudo o que é produzido pelos gringos e se subestimas os modos de pensar, viver e até de falar dos povos que vivem em sociedades subordinadas.

A arrogância do conquistador (que age hoje mais no âmbito cultural do que no bélico) o faz tomar a liberdade de assumir a liderança da história de povos “menos civilizados”, como se estes não tivessem a capacidade de “descobrir” o melhor caminho para sua evolução e como se a intervenção externa fosse a melhor das bençãos.

Às vezes essas intervenções podem trazer, a longo prazo, melhorias para os conquistados (que restarem). Mas nem sempre, e sempre é ao custo de muitas mortes e de enormes prejuízos para ambos os lados. Especialmente quando se consideram os produtos naturais cultivados para o bem-estar de uma população (e que poderiam servir para toda a humanidade) como mercadorias a entrar no mundo capitalista, para benefício de uns e prejuízo de outros. E é exatamente o que ocorre na corrida pelo unobtânio (Pandora é uma espécie e Eldorado, onde o ouro é substituído pelo unobtânio): para a RDA, os nativos de Pandora são obstáculos e não parceiros.

Apesar disso, é corrente atualmente o ideário que valoriza a diversidade cultural, e que tem origem no Romantismo alemão de Johann Gottfried von Herder (Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade). Paradoxalmente, esse ideário pode ter efeitos interessantes para o imperialismo cultural, pois pode dificultar a mudança histórica e o intercâmbio cultural ao cristalizar nichos sociais e valorizar a manutenção das tradições (com a ideia de autenticidade, analisada por Charles Taylor em The Ethics of Authenticity).

É esse ideário que permite a aparição de uma história onde a cultura local de um povo tribal é vista como mais importante do que os interesses egoicos de um empreendimento capitalista. Porém, para ser mais real, a trama deveria deixar mais claro que o contato entre humanos e na’vi deveria trazer grandes mudanças para todos os envolvidos, mas o desfecho dá a entender que tudo só pode terminar bem se tudo continuar como era.

[Continua…]

Avatar [Resenha – Parte 1]

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009), de James Cameron, era um filme cujos trailer e pré-resenhas me deixaram com um pouco de vontade de assistir. Não havia entendido bem a ideia, mas gostara do visual dos personagens alienígenas, esbeltos e azuis, e dos cenários selváticos da lua Pandora.

Mas foi depois de ver algumas pós-resenhas que realmente me motivei a ir ao cinema. Havia, segundo li, uma questão antropológica de grande interesse meu. Antevi uma semelhança com Dança com Lobos (1990), mas, tendo em mente que eu veria clichês e uma trama mais ou menos previsível, preparei-me para as novidades que o filme oferecesse. Ademais, histórias com alienígenas são uma preferência pessoal.

Sinopse estendida

No século XXII, Pandora, um satélite natural do planeta Polifemo (que gira ao redor de uma estrela da constelação Alfa Centauro) constitui uma atração para os humanos, pois é habitada por uma espécie inteligente chamada na’vi. Sobretudo, é uma atração para a economia humana porque essa lua contém um minério valiosíssimo chamado unobtânio. Na realidade, os na’vi podem ser considerados mais um obstáculo do que uma atração, pois a região com maior concentração de unobtânio é protegida por eles como um santuário.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Pandora é  uma boa alegoria para a expressão Inferno Verde (com que os exploradores europeus apelidaram a Amazônia), pois é uma biosfera densa e bela, mas ao mesmo tempo hostil aos humanos, pois possui grandes animais perigosos e é envolta por uma atmosfera tóxica para pulmões terráqueos.

Ela é habitada por exóticos seres inteligentes chamados na’vi, humanoides esquios e azuiss, com 3 metros de altura, cabelos pretos, lisos e longos (como os dos ameríndios), pescoços e membros compridos e caudas preênseis. Possuem grande força, resistência e agilidade e se movem com facilidade pelas florestas em que vivem, portando armas simples como arcos e flechas, cavalgando grandes montarias parecidas com cavalos e animais alados semelhantes a grandes aves com asas coriáceas.

Para explorar o local em busca do unobtânio, que não está em nossa tabela periódica dos elementos, a empresa RDA instala uma base em Pandora, com um programa dividido em duas partes.

A primeira parte desse programa é o Projeto Avatar: corpos de na’vi capazes de portar a consciência de alguns indivíduos humanos selecionados (o DNA desses corpos é uma mistura do DNA na’vi com o do indivíduo humano que o vai controlar), para que estes possam interagir na atmosfera de Pandora e, especialmente, para interagir com os na’vi e negociar a exploração do unobtânio.

Jake Sully, ex-fuzileiro naval paraplégico, entra em cena para substituir seu falecido irmão gêmeo univitelino. Ele assume a responsabilidade sobre o avatar do seu irmão, pois tem o mesmo DNA deste. Grace Augustine, a cientista que lidera as atividades dos avatares, duvida que ele seja capaz de substituir o irmão. Jake fica maravilhado ao redescobrir as sensações e movimentos dos pés e pernas em seu corpo na’vi.

Diferente de seu irmão, Jake não passou por um processo de preparação para incorporar um avatar nem para se comunicar e interagir com os na’vi. Neytiri, a filha do líder dos Omaticaya, clã na’vi com que Sully entra em contato, o considera uma criança, e é sua mente fresca, com muito poucas expectativas, que o permite ser aceito no clã e ser ensinado a ser um nativo. Contra as expectativas de Augustine, Sully consegue melhor do que ninguém incorporar um na’vi.

Ele se torna assim a maior esperança de Parker Selfridge, o diretor maquiavélico da ação exploratória, mostrado como um homem obcecado pelo unobtânio; e de Miles Quaritch, o coronel que comanda a tropa militar que vai empreender a segunda parte do projeto: defender os humanos de possíveis perigos e atacar aqueles que servirem de obstáculo. Quaritch promete a Sully, em troca do sucesso da operação, um tratamento para retomar o movimento das pernas.

A cientista, o empresário e o militar

Augustine, a cientista; Selfridge, o empresário; Quaritch, o militar. O capitalismo desconsiderou a vida dos nativos, enquanto o militarismo os viu como inimigos. A Ciência, felizmente, compreendeu e passou para o lado dos na’vi.

Sully acaba por frustrar os planos da RDA, tornando-se um na’vi de corpo e alma, domando sua própria montaria alada, entendendo e adotando o modo de vida dos na’vi (aprendendo a viver em harmonia e conexão com a natureza, chamada de Eywa pelos na’vi) e tornando-se parceiro amoroso de Neytiri. A vida como na’vi passa a ser mais real para ele do que a vida como humano, e ele se torna incapaz de trair seus irmãos na’vi e, embora tenha fornecido informações cruciais à RDA sobre o acesso ao unobtânio, tenta de tudo para impedir Selfridge e Quaritch de tomar a terra dos nativos à força.

O híbrido Sully, meio-humano meio-na’vi, encontra-se então no limbo, traidor da empresa que o contratou, pois vai impedi-la a todo custo de violar a liberdade dos nativos; traidor dos que o acolheram como irmão, pois desde sempre não confidenciou o plano original por trás de sua imersão em Pandora.

Em contrapartida, Sully empreende um passo decisivo para retomar a confiança dos na’vi, domando uma fera alada que só grandes heróis do passado conseguiram. Finalmente, tendo informações valiosas sobre seus ex-aliados, que estão em vias de destruir a árvore sagrada sob a qual jaz o unobtânio, ele lidera uma defensiva que livra os na’vi do perigo humano.

Sully completa sua transformação com a transferência definitiva de sua consciência para o corpo na’vi, ganhando de Eywa as pernas prometidas por Quaritch. O selvagem primitivo se torna seu próximo passo evolutivo, mais avançado na superação dos preconceitos inter-raciais e interespécies, na compreensão da interconexão dos seres e da natureza e no entendimento do equilíbrio das forças e energias naturais.

A trama através da nomenclatura

Muitas dos nomes do cenário de Avatar são simbólicos e ajudam a contar a história, pois revelam o destino da trama e a índole de personagens. A começar com o nome do mundo em que tem palco a narrativa: Pandora.

Pandora é uma personagem da mitologia grega, que em algumas versões do mito é considerada a primeira mulher criada pelos deuses. Prometeu havia dado aos humanos o fogo divino, que lhes permitiu sair da barbárie. Após puni-lo, Zeus mandou que Hefesto criasse uma mulher, Pandora, que enganaria Epimeteu, irmão de Prometeu, para que este abrisse a caixa com todos os males que afligiriam a humanidade. Mas ela a fechou antes que a esperança escapasse.

A lua Pandora pode ser vista então como um terreno com valor polivalente para os humanos que ali descem: é ao mesmo a fonte de enormes riquezas materiais, uma selva perigosa que pode matar quem nela se aventura ou uma chance de aprender lições valiosas sobre a alteridade, a natureza e a esperança.

O unobtânio, um aportuguesamento livre da palavra unobtainium, é um metal cujo nome já prediz o resultado da história, pois é um trocadilho com unobtainable, que significa em inglês “inobtenível”,  “que não se pode obter”. Esse minério está no solo em que se enraíza uma árvore sagrada para os na’vi, que a protegerão com suas vidas. A natureza, Eywa, também não deixará que os humanos coletem o valioso metal.

Na’vi, o nome inventado dos habitantes de Pandora, pode ser entendido como uma mistura de nativo (native, em inglês) com o sânscrito Devi. Eles são o símbolo da alteridade na história, o outro que pode ser visto como antagonista não-humano ou, como vem a ser no final, o não-humano humanizado, compreendido como igual. Eles são os nativos colonizados ou que se pretendem colonizar, simbolizando todo os povos exóticos.

KaliMas ao mesmo tempo são entendidos como seres míticos, como deuses e, talvez, como aquilo a que o humano aspira ser. Eles são Devi, que na mitologia hindu designa as divindades femininas, ou as manifestações femininas da divindade, ou ainda as manifestações divinas do feminino. Os na’vi até lembram, com suas peles azuis, algumas imagens sacras de deuses hindus.

Neste sentido, os na’vi são incorporações da natureza de Pandora, ou Eywa, e representam o antagonista-natureza de caráter feminino, que se opõe à tecnologia bélica de caráter masculino levada pela RDA. Esse antagonismo entre selva e tecnologia, natureza e cultura, feminino e masculino, é instigante como tema de narrativas como Alien: O Oitavo Passageiro, também dirigido por James Cameron.

Também do sânscrito, avatar denomina as encarnações terrenas da divindade, como Krsna e, dependendo da interpretação teológica, Cristo (Deus feito carne). (Essa palavra nomeia, por derivação, as imagens que na internet servem para identificar uma pessoa (seja em bate-papo, em redes sociais, em RPGs online ou em comentários de blog).)

Os humanos que encarnam na’vi no mundo destes são como os avatares hindus, deuses encarnados na Terra. Neste sentido, a lição do filme chega a ser ateísta e humanista, pois esses avatares se deparam com o fato de que são iguais aos na’vi “comuns”. Ao mesmo tempo, é salvacionista, pois é o avatar de Jake Sully quem lidera e salva o clã que o acolhe.

Eywa é a divindade suprema nas crenças dos nas’vi, e poderia ser entendida como a imagem que nós humanos nomeamos de Mãe-Natureza. Eywa lembra Eva, a primeira mulher, e como entidade feminina primordial, Eywa simboliza o mundo dos na’vi, uma interconexão natural.

Segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário), o imaginário se divide basicemente em dois regimes: o diurno e o noturno. Este último é onde as imagens são regidas pela ideia de acolhimento, de aconchego, do abraço, da rede que embala e, envolvendo, protege. Se para o regime diurno a rede é uma teia de aranha que tolhe a liberdade, para o regime noturno, que poderia ser entendido como regido por uma mãe, é acalentamento. Eywa, Eva, princípio feminino, é maternal.

Jake Sully, à primeira vista, é um homem cujo principal objetivo é se ocupar depois que perdeu as pernas e, se possível, tê-las de volta com uma cirurgia. O que muda bastante depois que ele se empolga com o Projeto Avatar, que lhe dá a oportunidade de andar e de conhecer um mundo novo e fascinante. A reviravolta completa acontece quando ele se torna um na’vi, é aceito pelo clã e se une amorosamente a Neytiri.

Sully é um verbo inglês que reporta à ideia de suspeita, ou seja, Jake Sully está todo o tempo sendo vigiado para que suas intenções fiquem claras e se saiba como ele vai agir. Em certo momento, ele se torna traidor em ambos os lados e precisa tomar uma atitude para agir da maneira mais justa.

Grace Augustine, a botânica que escreveu um tratado sobre a flora de Pandora, é Graça Augusta. Se sua importância faz a primeira impressão dela parecer arrogante, ela se mostra uma valiosa aliada para os na’vi em sua luta pela proteção de Pandora, sendo permitida sua entrada na vila dos Omaticaya, que, mais tarde, tentarão salvar sua vida ameaçada por um tiro de Quaritch.

Parker Selfridge está pouquíssimo interessado em entender os outros. A única coisa que ocupa suas preocupações é o self, sua própria trincheira. Os outros ou são ferramentas para ele conseguir o que quer ou são obstáculos a ser derrubados. O estereótipo do empreendedor egoísta e maquiavélico.

Miles Quaritch só tem um objetivo: quarrel, peleja. Ele está a serviço da RDA apenas para combater os na’vi com armas. Ele vai matar quantos nativos forem necessários para executar a meta de Selfridge. Sua índole bélica será decisiva para frustrar qualquer plano diplomático e para criar uma guerra na selva que remonta o sonho guerreiro dos norte-americanos.

[Continua…]

Distrito 9 [Resenha]

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Imagine uma gigantesca nave espacial parada no ar sobre sua cidade. Nada sai lá de dentro durante algum tempo e não sabemos o que a nave trouxe. As Forças Armadas, após algum período de ansiedade geral, decidem penetrar a nave e descobre uma população alienígena, com uma aparência mais ou menos de artrópodes bípedes, desnutrida e desamparada.

O que seria mais adequado fazermos com esses extraterrestres que pedem asilo na Terra? Onde devemos alocá-los? O que podemos lhes oferecer? O que eles podem nos dar em troca? Devemos integrá-los à nossa sociedade? Devemos tratá-los como humanos, como não-humanos com alma ou como animais sem alma (animais sem alma, agora eu me toco, é uma contradição; alma vem do latim: anima)?

O filme Distrito 9, de Neill Blomkamp, produzido por Peter Jackson, assume que uma nave extraterrestre pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul, e apresenta essa história na forma de um semidocumentário. Nele vemos que as Forças Armadas decidiram abrir a nave e encontraram alienígenas desnutridos e desamparados em busca de asilo.

Não sabemos o que ocorreu com eles nem porque vieram até a Terra; especula-se que seus líderes morreram ou que os recursos naturais de seu planeta-natal se exauriram. O fato é que: ei-los, não têm para onde ir.

Começam os conflitos. Os não-humanos, apelidados de “camarões” pelos humanos, são alocados numa região inabitada do município, próxima ao centro urbano, chamada de Distrito 9. Assim como os ex-escravos negros construíram o que hoje são as favelas, os “camarões” passam a viver uma vida degenerada, habitações apertadas envoltas por lixo, convívio com humanos da Nigéria que traficam armas e drogas. O resultado é que o Distrito 9 se tornou um depósito de “camarões” e de lixo.

Aliás, mais do que um depósito, um criadouro. A população não-humana vai crescendo e os “camarões”, segregados da população humana, começam a ser vistos como um perigo. As autoridades decidem realocar os “camarões” e autorizam a MNU (Multinational United), uma empresa militar privada, a empreender uma ação de despejo liderada pelo funcionário Wikus van der Merwe. Os residentes do Distrito 9 deverão ser realojados no Distrito 10, fora das imediações de Joanesburgo.

Por acidente, Wikus é infectado por uma substância que o faz passar por uma gradativa metamorfose, tornando-o genética e fenotipicamente um híbrido de humano e alienígena. Ele se torna cobaia de testes da MNU e depois foragido, nem humano nem “camarão”. Estabelece uma relação ambígua com Christopher, um alienígena que está tentando fugir da Terra. No final, Wikus ajuda Christopher a escapar na nave, em troca da promessa de trazer, em alguns anos, a cura para sua metamorfose.

O navio negreiro e o banzo interplanetário

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

A nave espacial repleta de extraterrestres desamparados pode ser entendida como uma metáfora de um navio negreiro ou uma embarcação repleta de imigrantes. A nave simboliza o degredo e nos faz perguntar qual é a origem desse povo degenerado que se encontra sem rumo no espaço, sem líderes e sem saber para onde ir.

Podemos inferir, pelo conjunto de analogias com a relação colonialista e escravocrata da qual a África foi vítima, que os alienígenas que pairam no céu de Joanesburgo são uma carga de escravos, e que a tripulação da nave morreu de alguma forma, talvez assassinada pelos “camarões”.

Entretanto, os equipamentos que eles trazem só podem ser usados por eles, ou seja, foram construídos para sua espécie e provavelmente pela sua espécie. Se eles era escravos, os escravizadores eram muito provavelmente outros “camarões”. Os especialistas entrevistados no “documentário” dizem que os “camarões” encontrados na nave eram operários incapazes de tomar decisões.

Nessa condição, semelhante à dos negros trazidos em navios para a América, seria muito difícil encontrar para eles um abrigo melhor do que uma favela. Não só porque os extraterrestres provocam medo e ninguém sabe que perigo eles podem representar, mas porque a humanidade não se preparou para ampliar os Direitos Humanos ao nível interplanetário.

Esse é o ponto em que a história pode se tornar polêmica. O fato de serem criaturas conscientes (sentient beings) não deveria lhes conceder os mesmos direitos que aqueles concedidos aos humanos?

Humanos não-humanos

Quando as nações  europeias expandiram seu domínio ao Leste, construíram um conjunto de representações racistas (o Orientalismo, segundo Edward W. Said; leia aqui minha resenha do seu livro sobre este tema) que rebaixaram os humanos orientais a uma condição menos evoluída. Para muitos, sua “situação” era irreparável: árabes, indianos e judeus sempre seriam dependentes do domínio do europeu civilizado.

Quando navegantes europeus chegaram à África ocidental e à América, algo semelhante se constituiu. As biologias e as culturas de ameríndios e africanos foram consideradas sub-humanas pela ideologia imperialista, e mais tarde se desenvolveria o racismo científico que naturalizaria a inferioridade e a não-humanidade de povos não-europeus.

O próximo capítulo dessa história, e que se aproxima mais da trama de Distrito 9, é o processo de imigração, especialmente de imigrantes considerados de “raças” diferentes, e que ainda são vistos com o mesmo racismo imperialista e colonialista. É nesse contexto que se desenvolve a xenofobia na forma como a vulgarizamos hoje, ou seja, o medo dos estrangeiros.

Não-humanos humanos

Atualmente, o processo de mundialização da história da humanidade já vislumbra uma nova ética planetária, ainda não colocada plenamente em prática, mas em princípio já esboçada, segundo a qual todos os seres humanos têm os mesmos direitos básicos. Há também uma tendência a ampliar esses direitos aos animais não-humanos (um exemplo pode ser visto no documentário Terráqueos (Earthlings), sobre o qual você pode saber mais neste link).

Como já escrevi em algum lugar desta Teia, esses direitos deverão se expandir quando os humanos tiverem contato e começarem relações com espécies alienígenas. Assim como a crença nas diferenças fundamentais entre “raças” humanas (que justificavam conflitos violentos) foi revista, qualquer crença que justifique desigualdades baseadas nas diferenças interespécies deverá ser superada tanto por parte dos humanos quanto de qualquer outro povo extraterrestre.

Brasão da Federação Unida de Planetas

Brasão da Federação Unida de Planetas, do universo de Jornada nas Estrelas

Essa utopia é prevista em obras como a franquia Jornada nas Estrelas, onde se concebe a Federação Unida de Planetas, que rege vários planetas e vários povos que entre si são alienígenas, tanto biológica como culturalmente. Na série Babylon 5, também há a ideia de que os vários povos interplanetários devem tratar uns aos outros como detentores dos mesmos direitos básicos.

A situação criada em Joanesburgo e no Distrito 9 dificultou grandemente a aplicação de qualquer ideal universalista pós-humanista. Os alienígenas estavam em situação tão precária e doente que passaram a viver no lixo, viciados em ração de gato, traficando armas hi-tech e sem controle populacional.

Ou seja, sem condições de reconstruir uma vida organizada, os “camarões” passam a ser monstros ou, no mínimo, animais, uma praga com que ninguém sabe como lidar. Os Direitos Humanos, portanto, não têm condições de evoluir nessas circunstâncias. Talvez, se nós um dia tivermos condições de acolher um povo desamparado com as melhores condições para sua recuperação, poderemos começar a revisar os Direitos Humanos e constituir os Direitos Universalistas.

O híbrido no limbo

Wikus van der Merwe é um personagem que à primeira vista dá a impressão de poder ser resumido numa palavra: pateta. É arrogante, simplório, preconceituoso e bobo. Porém, enquanto figura central da narrativa, ele se revela e revela a complexidade humana, em seus sentimentos e ações, diante do inusitado, diante do outro e do diferente.

A operação de despejo ocorre através de duas forças antagônicas e complementares: a abordagem pseudoconciliatória de Wikus e a abordagem destrutiva dos soldados que o acompanham. Wikus arrefece os ânimos dos militares (ansiosos para descarregar suas tensões e balas nos “camarões” cuja existência é uma afronta a sua xenofobia) enquanto estes asseguram a eficiência da ação e a segurança de Wikus.

A complexidade subjetiva de sua ação de despejo se revela primeiramente quando ele não consegue convencer um dos alienígenas, Christopher, a deixar sua casa, pois este, inadvertidamente, sabe ler o mandado de despejo e encontra uma contradição. Para se safar, Wikus apela para os sentimentos de Christopher, ameaçando levar embora seu filho.

Em segundo lugar, Wikus se vê sofrendo uma mutação que transforma seu corpo, primeiro um dos braços, no de um “camarão”. Ele é forçado a testar uma arma alienígena, que só funciona quando em contato com um “camarão”, e a matar um não-humano, o que ele recusa insistentemente.

Ao fugir do cativeiro, Wikus passa a protagonizar um dos principais temas do filme: o dilema do híbrido. Ele se torna pária entre os humanos, e aquele que deveria ter salvo Joanesburgo da praga dos “camarões” se encontra no caminho não só de se tornar um destes como de minar a operação de despejo. Isso por que ele passa a trabalhar com um dos alienígenas, em busca de uma troca de favores: Christopher quer voltar para casa e Wikus quer uma cura para a transformação.

Mas é graças à transformação que Wikus consegue salvar a própria pele e a de seu amigo. Para todos os efeitos, Wikus passa a ser um “camarão”, mesmo que neste ponto do filme ele ainda seja bem reconhecível como humano. Sua esposa não o quer mais (primeiro por insistência do pai, mas depois pelo escândalo que os acontecimentos causaram) e ele perde toda os laços com Joanesburgo.

Quando o “branco” se misturou com um “negro” (ou um “camarão”), a ideologia segregacionista da colonização anglo-saxã não cogitou a identidade mestiça. O resultado da mistura é que a parte “branca” foi sujada pela parte “negra”. Como nos EUA, em que uma gota de sangue negro é suficiente para tornar um indivíduo “negro”, Wikus se tornou um “camarão” ao entrar em contato com uma gota do elixir preto de Christopher.

(O dilema do híbrido

Spock, Worf e Arwen

Esse problema trazido pelo ineditismo da identidade híbrida aparece em outras histórias em que a mistura é tematizada. Spock é exemplar, pois, por mais claro que seja, para ele e para os que o rodeiam, o fato de que sua mãe é humana e seu pai é vulcano, ele insistentemente declara sua identidade vulcana, e é muitas vezes questionado sobre essa identidade. Ele é exortado pelo pai, em Star Trek (2009), a escolher entre sua natureza vulcana e humana, e não a assumir uma terceira opção, ou seja, a de que ele é um mestiço.

Ainda no universo de Jornada nas Estrelas, Worf nasceu klingon mas foi criado por humanos. Embora tivesse pouquíssimo contato com outros klingons, ele insistiu que os pais só lhe fizessem comida de sua cultura-natal, e foi muito exigente consigo mesmo quanto à manutenção da tradição de seus ancestrais biológicos e não a dos seus pais adotivos. “I’m a Klingon” é uma expressão que ele repete em muitos momentos da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. O encontro de culturas poderia ter feito nascer uma mentalidade amálgama em Worf, mas ele parece não ter herdado nada dos pais humanos.

Na Terra-Média criada por J. R. R. Tolkien, várias raças se encontram e se misturam. Arwen, por exemplo, é uma meio-elfa, resultado de uma genealogia em que se encontram elfos e humanos. Mas ela é considerada elfa, e portanto imortal, durante quase toda a história de sua vida, até que decide se tornar mortal (humana) por amor ao seu marido, Aragorn, que é humano. Ela não poderia ser um híbrido (como aliás existe no universo do RPG Dungeons & Dragons), com características de ambas as ascendências?

(Pretendo escrever em breve um post mais elaborado sobre este tema.))

O herói

Despretensiosamente, Wikus se tornou um herói para os “camarões”, e talvez sua metamorfose seja considerada uma benção pelos não-humanos. O fato é que, com o tempo, ele completou essa metamorfose e se tornou fisicamente um “camarão”, vivendo no lixo do Distrito 10, à espera do retorno de Christopher.

Porém, fica implícito que a promessa de Christopher de trazer uma cura pode ser uma mentira. De certa forma, Wikus só foi importante para que se abrisse a oportunidade de os “camarões” fugirem e voltarem para casa. Ele é o Judas sem cuja traição Cristo(pher) não poderia ter cumprido sua promessa (talvez a analogia religiosa tenha um certo apelo nos espectadores).

No entanto, é bem provável que Wikus não tenha mais perspectiva de retornar à humanidade. Ele se tornou um anátema em Joanesburgo, por muitos é tido como morto (para sua ex-epossa, ele é um fantasma que deixa flores de metal na porta de sua casa).

Se Christopher retornar com mais não-humanos, possivelmente tentará resgatar os “camarões” que ficaram (e que se multiplicam velozmente) e é bem provável que ocorra um conflito violento com os humanos. Neste conflito, só haverá duas opções razoáveis para Wikus: abster-se ou ficar do lado dos alienígenas. Se a oportunidade de ajudar os humanos surgir (baseada na larga experiência de como vivem e pensam os “camarões”), ele não terá nada a ganhar.

Um cinema híbrido

Distrito 9 me causou sentimentos ambíguos. Se por um lado suscitou uma reflexão interessante (exposta acima) e se inicia de forma criativa, como um documentário realístico, passa depois a conter elementos de ação heroicista e belicista. Se em alguns momentos aborda os temas de modo crítico, em outros cai no apelo emotivo.

No entanto, essa mistura de cinema sul-africano com Hollywood gerou uma obra multifacetada, que pode ser admirada de várias formas e gerar diversas interpretações e apreciações. A introdução do filme cria uma tensão muito grande e uma expectativa de tragédia iminente que, se não fosse contornada pela ação da segunda parte da história, a faria terminar como Dançando no Escuro de Lars von Trier. Pensando  bem, o final de Wikus, transformado em alienígena, é trágico.

Essa mesma ação, que se opõe à primeira parte, contribui para manter a tensão e o espectador na cadeira. Neste aspecto, o cineasta foi bem-sucedido, criando uma obra que prende a atenção até o fim e proporciona a oportunidade de não nos perdermos enquanto acompanhamos uma trajetória repleta de elementos que nos levam à reflexão sobre humanidade, Direitos Humanos e Universalismo.

O dia em que a Terra parou [Resenha]

Padrão

Em plena Guerra Fria, um extraterrestre vem à Terra convocar uma reunião com todos os líderes do planeta, para discutir a ameaça nuclear que as briguinhas da raça humana representa para a humanidade e para povos de outros planetas. Mal-interpretado, ele sofre as consequências daquilo que veio erradicar: a imaturidade belicista do Homo sapiens belicosus.

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951), dirigido por Robert Wise, roteiro de Edmund H. North, conta a história de uma missão de paz no planeta Terra, confiada ao extraterrestre Klaatu, que pousa com seu disco voador em Washington, DC, EUA, e, ao descer da nave demonstrando intenções pacíficas e um estranho instrumento confundido com uma arma por um soldado humano, é baleado. Ao sinal de perigo, um robô sai da nave e assiste seu mestre, destruindo as armas dos soldados.

Como se o governo tentasse esconder a besteira que fez, leva Klaatu para um hospital do exército, onde ele mostra ter uma saúde e constituição físicas sobre-humanas, recuperando-se rapidamente da ferida da bala. Além disso, possuindo a aparência de um homem humano de uns 35 a 40 anos de idade, revela ter na verdade 78.

Trama 4
Atuação 3
Diálogo 4
Visual 3
Trilha sonora 4
Reflexão 5

Mas não só seu corpo tem a perfeição divina em relação aos padrões humanos. Seus valores morais também são superiores, tanto que ele ordena que o robô Gort pare de destriur as armas dos soldados que tentaram matá-lo. No interesse da harmonia cósmica, ele é integrante de uma raça alienígena superavançada que teme o mal uso da energia nuclear pelos seres humanos, em seus conflitos egoístas e bairristas. Por isso é lógico, para ele, que sua mensagem seja transmitida numa reunião com os líderes de todas as nações da Terra.

Mas o governo norte-americano não pode aceitar essa proposta. Os líderes da Terra estão ocupadíssimos com interesses bélicos que dificultam ou impedem o diálogo. O que para o assessor do presidente dos EUA é um conflito entre o bem e o mal, no qual seu país é o bem e a URSS é o mal, para Klaatu o mal permeira o próprio conflito, o mal está nos dois lados da guerra. O diplomata extraterrestre sente que sua missão tem grandes chances de fracassar.

Felizmente, ele recebe ajuda de uma criança e de um cientista. A pureza do menino o ajuda a entender melhor os seres humanos e a racionalidade ética do prof. Barnhardt permite que ele arranje uma reunião com pensadores de todo o mundo. Infelizmente, seus planos não terminam como esperado. Klaatu é morto pela polícia, ressucitado por Gort, seu robô indestrutível, e deixa para um grupo atônito de cientistas e soldados a mensagem de que o futuro da Terra dependerá de uma escolha que supere os mesquinhos interesses que movem a humanidade a uma guerra iminente.

O que Robert Wise e Edmund H. North trouxeram do espaço?

É animador ver que um diretor norte-americano fez uma história na qual os interesses oficiais de seu próprio país são vistos como algo secundário e a mensagem trazida pelo alienígena, de que há algo muito mais relevante do que pequenos conflitos internos, sobressai.

Já aí, na década de 50, vemos que sempre houve quem vislumbrasse a possibilidade de conseguirmos construir um mundo no qual os interesses da humanidade (e, a posteriori, de todos os povos do Cosmos) seriam unificados. Ao privilegiar uma forma mais universalista, racional e desinteressada de conhecimento, no caso a Ciência, que é o meio de contato inicial entre Klaatu e o prof. Bernhardt, afastamo-nos da Política, forma mais sectarista e interessada de lidar com as relações interconscienciais.

Podemos apreender dessa história a compreensão de que a humanidade ainda está extremamente apegada aos seus valores sectários e à necessidade de defendê-los com a guerra. A ordem coordenada pelas elites das diversas sociedades terráqueas é defendida por quem dela mais se beneficia, mas também por aqueles que estão na base da pirâmide social e que não veem outra realidade possível. A paz oferecida pelos alienígenas é uma ameaça à ordem vigente na Terra.

O contexto em que foi produzido o filme enfatizou a ameaça real da Guerra Fria, o conflito entre EUA e URSS, entre Capitalismo e Socialismo. Mas quando Klaatu fala sobre as infantis brigas que os seres humanos mantêm entre si, podemos levar e trazer essa observação para o passado e o presente da humanidade, de modo que, embora tenham surgido outros tipos de conflitos no planeta desde 1951, a mensagem do filme ainda é a mesma.

“Klaatu barada nikto”

O Dia em que a Terra Parou é um dos grandes marcos da ficção científica, sendo influência significativa para as histórias sobre extraterrestres criadas posteriormente, tanto no cinema quanto na televisão e nos video games.

The Lost Vikings II #copy; BlizzardNo hilário Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, 1992), Ash precisa recitar as palavras “klaatu verata niktu” para evitar que a maldição do Necronomicon caia sobre a terra. No entanto, ele se atrapalha com as palavras. Parodiando a paródia, a Blizzard, no jogo The Lost Vikings II, para Super Nintendo, uma bruxa recita palavras parecidas para enviar os vikings por teletransporte, e se atrapalha da mesma forma.

No seriado Mission Hill, um dos personagens descobre que seu vizinho foi o diretor de um pouco conhecido filme de ficção científica no qual um estranho extraterrestre, que lembra muito Gort, desce num disco voador e ameaça a Terra. Quando o garoto resolve exibir o filme no cinema local, todos riem dos efeitos especiais e da interpretação do ator, que era o atual marido do ex-cineasta e que só estrelou porque era namorado do diretor.

Mas a importância maior dessa obra foi quebrar com a tendência de se pensar os extraterrestres como portadores de más intenções, sempre querendo invadir a Terra para colonizá-la ou destruí-la. Neste caso, quem agiu de forma violenta e brutal foram os seres humanos, primitivos demais para entender os propósitos nobres do “homem do espaço”.

Vemos esse tipo de abordagem repetido 15 anos depois na série Jornada nas Estrelas, em que se valorizam as relações diplomáticas entre os povos de planetas diferentes. No seriado Babylon 5, também há uma referência ao filme de Wise: no primeiro contato dos humanos com os minbari, habitantes do planeta Minbar, um gesto de boas intenções do tripulante da nave minbari foi mal interpretado pelos humanos, que iniciaram um ataque que culminou numa guerra. Esta só terminaria quando os minbari, moralmente mais evoluídos do que os humanos, perceberam a inutilidade do conflito.

Também é herdeiro dessa forma de lidar com extraterrestres o cineasta Steven Spielberg, em flmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extra-terrestrial, 1982). É preciso perceber que, da mesma forma que diferentes grupos humanos têm diferentes modos de ver o mundo, espécies alienígenas teriam formas ainda mais díspares de conceber o universo.

Talvez não pudéssemos parodiar a velha história dos aliens invasores, como no filme Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996) e no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy), se não fosse o rompimento com essa visão etnocêntrica que coloca o ser humano (e, em certa medida, os seres humanos ocidentais) como o modelo de vida inteligente no universo.