Mais sequelas e consequências

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Meu último texto não esgotou o tema do Acordo Ortográfico. O quiproquó, por exemplo, será sentido no ensino fundamental, especialmente na alfabetização, onde as crianças e, em alguns casos, adultos não saberão mais quando uma nova palavra aprendida na leitura tem o u pronunciado ou não, o que nós sabíamos perfeitamente com a regra do trema.

Aí subjaz outro problema. É que o aprendizado, digamos, natural do idioma começa pela escuta/fala e depois, no caso das sociedades que têm esccrita, a leitura/escrita. A pronúncia das palavras é (ou deveria ser) aprendida primeiro e então conheceríamos a convenção gráfica que representa aquele vocábulo. Se já ouvimos que linguiça tem o u pronunciado e banguela não tem, não teremos grandes problemas ao ver pela primeira vez as duas palavras escritas, e entenderemos que, em alguns casos, qugu são dígrafos e em outros não.

Mas a dinâmica não é bem essa. Em nossa sociedade e em muitas outras, a leitura/escrita é uma parte importante do aprendizado do vocabulário de um idioma. Dessa forma, uma regra de pronúncia como a do trema serviria de guia para que soubéssemos como proferir corretamente uma palavra, ao menos em sua forma culta. Por isso a escrita se adapta à evolução da língua falada, e a grafia serve como um guia importantíssimo para estrangeiros que estão aprendendo um novo idioma.

Quem estudou línguas como o italiano sabe que no idioma de Dante há pouquíssimas variações fonéticas, e com um manual escrito se pode aprender a pronunciar qualquer palavra italiana apenas sabendo como é escrita. Mas quem se aventurou a desvendar os mistérios da língua de Shakespeare tem que aturar o fato de que os ingleses têm um idioma escrito que não obedece a nenhuma regra fonética, e cada palavra tem que ter sua pronúncia e escrita aprendidas separadamente.

O português é relativamente fácil neste aspecto, mas tem algumas variações que são uma dificuldade para os estrangeiros. A nova reforma ortográfica bem que poderia servir para facilitar ainda mais o aprendizado da língua de Camões. Mas, infelizmente, parece que só vai beneficiar dois tipos de pessoas: diplomatas, que só precisarão redigir uma versão de cada documento oficial; e linguistas e gramáticos, que serão chamados a programas de televisão para comentar sobre o assunto.

Porém, se pensarmos bem, perceberemos que há um problema relativo às palavras que mantiveram grafia dupla, uma portuguesa e uma brasileira. O que se vai fazer quando um documento contiver a palavra cômico/cómico? Será privilegiado o brasileiro circunflexo ou o português agudo?

Mas, a propósito, ainda há outro aspecto não muito explorado nas discussões sobre essa reforma. A unificação almejada, que supostamente facilitaria a comunicação entre os países lusófonos, não vai resolver as dicotomias celular/telemóvel, arquivo/ficheiro, fila/bicha, camisinha/durex et coetera et al.

Hoje de manhã escutei na rua uma mulher falando ao telemóvel: “Você vai pu restaurante?” Se ela escrevesse a frase de maneira gramaticalmente correta, seria: “Você vai para o restaurante?” Mas poucos se apercebem que somos um país, no mínimo, bilíngue. Escrevemos “Estou comendo o lanche” mas falamos “Tô cumeno lanche”. Se observarmos bem com nossos ouvidos atentos, percebermos como muitas pessoas articulam formas diferentes de pronunciar o idioma, segundo a situação em que se encontram, se na casa de um amigo conversando sobre um filme de ficção científica do qual gostou muito, ou numa sala de aula da universidade falando sobre o mesmo filme em seus aspectos semióticos, imagéticos e antropológicos (esta segunda é mais parecida com a forma escrita da língua).

Fechem os olhos e imaginem as duas cenas (ou cenas que evoquem a mesma ideia de disparidade linguística) com bastantes detalhes. Não é pitoresco?

Bem, um amigo meu me disse hoje que só vai adotar a nova ortografia quando for fazer algum concurso público. Muita gente não está gostando da reforma, e parece que muitos portugueses se negam a adotá-la. Eis o advento de uma nação trilíngue. Temos agora uma língua falada rica em movimento, uma língua falada/escrita mais formal e uma só escrita, que serve para os documentos sagrados da burocracia. Se antes já tínhamos uma norma de difícil acesso, cujos segredos esotéricos só os mais bem-preparados poderiam desvendar, agora temos um idioma místico e hermético apenas para iniciados.

Nota pós-texto

Texto publicado originalmente em 20 de janeiro de 2010 e.c.

O sequestro do trema

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O ano de número 2009 da era comum começa, para lusófonos, com algumas mudanças de ortografia. Algumas pessoas estão reclamando da dificuldade que será aprender novas regras ortográficas. Algumas críticas, porém, se referem à arbitrariedade das novas regras, principalmente no que toca o uso do hífen.

O Acordo Ortográfico foi realizado com a justificativa de aproximar as culturas dos países falantes do português, mas vai de encontro à tendência normal das reformas ortográficas de se adequar às mudanças da língua falada, ou seja, do uso da língua. Se fosse realizado com esse objetivo, o acordo não seria internacional, pois cada país (e cada região de um mesmo país!) desenvolve sua própria pronúncia.

Se se decidisse por uma reforma ortográfica fonética, aí sim haveria motivos para pânico geral. Teríamos que acrescentar inúmeros acentos para diferenciar a pronúncia de cordeiro (côrdeiro) e corte (córte), e dessa forma a regra geral que preside a tonicidade das sílabas sofreria uma mudança escalafobética (êscalafôbética). Além disso, em algumas regiões do Brasil, cordeiro seria córdeiro e, em Portugal, seria curdairo.

Até há pouco tempo, havia duas ortografias oficiais do português: a lusitana e a brasileira. Os diplomatas estão contentes com a possibilidade agora da não necessidade de se escrever duas versões de um mesmo documento. Mas, esperem aí! É para unificar, não é? É. Então por que permanece a diferença entre o tônico brasileiro e o tónico lusitano? O português lusitano vai sofrer mais mudanças do que o brasileiro, mas ainda vai permanecer essa variação de agudos e circunflexos. Para que então a unificação, se não haverá diferença gráfica entre o presente do indicativo da terceiro pessoa do singular do verbo atear e a denominação da mulher que nega a existência de Deus? Como saber qual tem o e agudo e qual o tem grave?

Ateia

É interessante ter uma gramática e uma ortografia unificadas, mesmo que esta unificação tenha restrições. Afinal, dessa forma, na comunicação entre pessoas de regiões diferentes do mundo lusófono, a escrita é compreensível. Se cada região lusófona tivesse sua ortografia, haveria mais dificuldades na comunicação. Neste aspecto, acho que unificar é, em teoria, uma boa ideia.

Em teoria. Pois, pessoalmente, não vejo nenhuma dificuldade na leitura de textos escritos em português de Portugal. Já ouvi algumas pessoas reclamando por terem que aturar a leitura de um livro de que só encontraram a versão lusitana. Ora, qual a dificuldade de substituir fato por facto, objeto por objecto, econômico poreconómicoidéia por ideia? Tenho dúvidas se os enormes gastos para reimprimir milhares de textos e livros valem uma unificação que muda menos de 1% das palavras de um idioma (até este ponto neste texto, só houve duas palavras escritas segunda a nova ortografia). Será que já houve algum manifesto ambientalista contra essa reforma?

E se vão retirar o hífen de muitas palavras, por que não o extirparam de uma vez? Se pára-quedas agora é paraquedas, por que anti-higiênico não é antigiênico? Ora, se vamos mudar, porque não mudar para melhor e simplificar as coisas? Se subumano continua assim, deveriam estipular circunavegação e não o esdrúxulo circum-navegação.

A línguiça do banquela

A línguiça do banquela

Está-se enfatizando, como se isso representasse algum atenuante, que a reforma não mudará a pronúncia. É claro que não existe a intenção de modificar a pronúncia, mas lembremo-nos que sempre há as consequências (olhe, mais uma!) imprevistas. Se a palavra tóxico, cultamente pronunciadatócsico, se popularizou em grande escala como tóchico, consequência da leitura fonética que naturalmente pensa o x com som de ch, o que impedirá algumas pessoas em processo de alfabetização ou com alfabetização deficitária de difundirem em alguns meios a pronúncia sekestro ou consekência? E o que será da hilária empresa de uns metidos a cultos que pensam que falar cuestão é sinal de erudição? Afinal, agora ninguém mais sabe quais são os os us que tiveram seus tremas sequestrados, e não haverá fiscais em todo lugar para assegurar que a linguiça foi mutilada e o banguela não.


Se ainda não se inteiraram das novas regras ortográficas, confiram este link.

Nota pós-texto

Este texto fora publicado originalmente em 5 de janeiro de 2009.

Obama cumprimenta Akihito

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Em visita ao Japão, parte de um conjunto de visitas a países asiáticos, o presidente norte-americano Barack Obama cumprimentou o imperador nipônico Akihito, com um aperto de mão e uma reverência bem à japonesa, ou seja, curvando-se diante do cumprimentado.

O que deveria ser uma simples formalidade diplomática, de respeito (antes um respeito à cultura do anfitrião do que um respeito à figura de autoridade do imperador) se tornou motivo de críticas conservadoras por parte de alguns norte-americanos. Segunda essas críticas, o presidente dos EUA não deveria se curvar diante do monarca do sol nascente.

A relação histórica dos EUA com as outras nações e, neste caso, com o Japão talvez explique porque muitos americanos repudiam e consideram humilhante o gesto de Obama perante a autoridade japonesa.

À direita, a Estátua da Liberdade; à esquerda, A Liberdade Liderando o Povo, de Eugène Delacroix

À esquerda, a Estátua da Liberdade; à direita, A Liberdade Liderando o Povo, de Eugène Delacroix

Ora, os arrogantes EUA têm agido há muito tempo como os líderes da humanidade. Veem-se na figura da estátua da Liberdade, transposta para a pintura de Eugène Delacroix, A Liberdade guiando o Povo, ou A América guiando o Mundo… Os valores ocidentais consideram que curvar-se é o gesto de quem se submete. O chefe do Estado mais poderoso do mundo não deveria, portanto, se curvar diante de ninguém.

Mas há ainda outras peças no jogo. Os EUA são hoje o que a Europa foi na Idade Moderna. O mundo é atualmente colonizado pela América: “american way of life”, dollar, McDonald’s, comics, rock and roll, Microsoft and everything. Assim como, na Idade Média, a Igreja Católica continuou o legado do antigo Império Romano, os EUA continuaram a obra europeia de conquistar o resto da América, a África a Ásia…

A relação da Europa/EUA com a Ásia, desde os primórdios do imperialismo europeu, se caracteriza pelo que Edward W. Said chamava de Orientalismo (leia minha resenha do livro Orientalismo). A postura dos EUA para com o Oriente é a de um tutor para com uma criança: “Os orientais são atrasados, supersticiosos, vivem sob regimes antiquados e despóticos, precisam ser trazidos à civilização pelos civilizados”.

As intervenções dos EUA em países “pré-democráticos”, levando “justiça” e “implantando os avanços da democracia” (Afeganistão, Vietnã, Iraque etc.) colocam a nação norte-americana numa posição arrogante: “Não devemos nada a ninguém, o mundo é que nos deve”.

Em especial, a história do Japão foi marcada por episódios que o colocaram numa situação frágil em relação aos EUA. A 2ª Guerra Mundial foi decisiva para isso, pois a vitória dos Aliados sobre o Eixo, com a ocupação do Japão pelo exército norte-americano, houve a “reconstrução” do país, tutelada pelos EUA. Para estes, o Japão não só foi salvo como foi modernizado com o desenvolvimento econômico e a implantação de um regime democrático.

Além disso, o general MacArthur, que liderou a diplomacia e a interface com o imperador Hirohito, resolveu que não seria boa ideia dissolver a hierarquia monástica do Japão, para que os EUA pudessem agir sem resistência dos nipônicos. Dessa forma, Hirohito não só foi um fantoche para iludir os japoneses como teve a ficha limpa por MacArthur, para não ser acusado de crimes de guerra.

Ou seja, para os EUA, o Japão lhes devem muito pelo que têm hoje. Pior, o Japão ainda é, para os norte-americanos, um país que ainda não se modernizou completamente, pois mantém muitos costumes milenares, na culinária, nas relações sociais, nas artes. E na política. Embora Hirohito e a família imperial tenham tido sua natureza divina questionada depois da derrota do Japão na Guerra, ainda há quem acredite que a família tem ascendência de Amaterasu (um lugar mítico parecido com o Céu ocidental).

Dessa forma, para os EUA, é absurdo que um presidente moderno faça uma reverência, como se estivesse reconhecendo que o saudado é um deus. Porém, não é assim que os japoneses se cumprimentam? Não sabemos se a intenção de Obama era realmente saudar um monarca ou saudar um japonês. Na primeira hipótese, ele está sendo diplomático, talvez em excesso, com o objetivo de agradar o anfitrião (o imperador nunca se curva). Na segunda hipótese, ele está respeitando a cultura local, para ser melhor recebido.

A julgar por sua linguagem corporal, fazendo o gesto sem nenhuma hesitação, ele podia até estar se divertindo naquele momento e certamente o gesto não implica que Obama reconheça Akihito como um deus, e não se pode concluir que haja uma relação desfavorável para os EUA no encontro entre os dois governantes. Seja o que for, é um ótimo sinal de que os EUA estão se apresentando para o mundo com mais humildade (foi muito positivo, por exemplo, que Obama tenha dito que Lula é o presidente mais popular do mundo). Se compararmos a postura dos representantes norte-americanos da fotos abaixo, veremos uma mudança gradual.

General MacArthur ao lado do imperador Hirohito, ex-vice-presidente Dick Cheney cumprimentando Akihito e o presidente Barack Obama saudando o mesmo. Mudança gradual...

General MacArthur ao lado do imperador Hirohito, ex-vice-presidente Dick Cheney cumprimentando Akihito e o presidente Barack Obama saudando o mesmo. Mudança gradual…

Porém, alguns norte-americanos, especialmente republicanos, estão se esforçando para comparar a atitude de Obama à de outros representantes de vários países, numa tentativa de mostrar que o atual presidente dos EUA está equivocado. Veja fotos no site Politico neste link.

Mas… se a história moderna permitiu que desmitificássemos a divindade do imperador do Japão, por que os norte-americanos não podem aprender também a tirar de seu presidente a aura divina? No mínimo, a saudação foi um pedido de desculpas pelo estrago da 2ª Guerra.

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