Frozen: Pesado como o frio e Leve como um floco de neve

Padrão

Atenção: o artigo contém SPOILERS sobre o filme Frozen, da Disney, de 2013.


Então explore o coração, frio e límpido
Que pulsa por amor e por medo
Veja a beleza pura e simples
Separe o gelo!
E quebre o coração gelado

(…)

Belo!
Poderoso!
Perigoso!
Frio!

O gelo tem uma magia, não pode ser controlado
Mais forte que um, mais forte que dez!
Mais forte que cem homens!

(…)

Nascida do frio e dor ar invernal
E da chuva da montanha juntos!
A força gélida, desleal e justa
Tem um coração a ser minerado!

(…)

Cuidado com o coração congelado

(Trechos da música “Frozen Heart”, que abrem o filme.)

Frozen (Disney, 2013) é um filme belíssimo, com passagens muito engraçadas e roteiro bem amarrado que fez e ainda faz pessoas no mundo inteiro chorarem e simpatizarem com seus personagens, tornando-se hoje uma das franquias mais lucrativas da empresa. Em uma análise mais profunda, Frozen pode ser considerada uma Tragédia (no sentido clássico da palavra) nos primeiros 3/4 do filme e finalizando uma Comédia (também no sentido aristotélico), como será explicado daqui a pouco. A animação é uma história sobre a Leveza vencendo o Peso*, sendo os dois representados de diversas formas. O uso da Leveza é tão poderoso que faz com que o sofrimento daquelas duas meninas seja concebível para os espectadores, crianças, em sua imensa maioria, e é exatamente por isso que o filme merece todos os méritos de ser uma obra inteira dedicada à Leveza. Em termos de comparação e exemplificação, vemos “momentos de Leveza” em grandes obras de arte e, selecionando apenas filmes pra comparar, temos em Up a forma em que é contado o processo de derrota pelo câncer e a morte da esposa de Frederikssen no início do filme; nas conversas infantis entre o protagonista e um garoto judeu em O Menino do Pijama Listrado; na performance do pai do garoto judeu em A Vida é Bela ao contar-lhe que o campo de concentração era uma gincana; na metalinguagem que o filme Dancer in the Dark de Lars Von Trier faz com as músicas entre uma desgraça e outra durante o filme; isso só pra citar alguns exemplos. Já Frozen, como disse lá em cima, é uma Tragédia contada de forma que crianças reconheçam sua existência, porém apenas adultos poderão fazer ideia do nível desse horror.

Como nos mitos infantis clássicos, não sabemos como Elsa adquire seus poderes e qual sua magnitude, o espectador cai de “paraquedas” na história e esse fator dá um tom Fantástico ao filme.

Começamos acompanhando a brincadeira entre as irmãs, ainda crianças, e é nessa hora que o filme nos apresenta o Peso do poder quando Elsa atinge a irmã com um raio. Anna: Leve e descompromissada; Elsa: Pesada pelo medo, pela maldição e pelo dever de cuidar da irmã. Anna está ferida e é levada para os trolls da floresta, quando um deles diz:

Têm sorte de não ter sido o coração dela.

Mais direto impossível: o frio que atingiu o cabelo de Anna e sua mente, na mitologia do filme, significa a apatia, a dor, a tristeza ou até mesmo a melancolia. De Anna, toda a lembrança do Peso é extraída, todo o sofrimento; uma magia poderosa que nos faz pensar quem somos como humanos: uma reação à dor passada, almas endurecidas que aos poucos vão perdendo a magia, a Leveza. Os traumas do passado forçando nosso subconsciente a agir mais defensivamente ou até a evitar situações que nos remetem a eles, mudando o rumo de nossas vidas. Anna a partir de agora é uma pessoa sem memória, sem traumas ou frustrações: Uma pessoa Leve.

E é aí que a Tragédia começa: Elsa sabe do Peso desse poder, que é belo e ao mesmo tempo terrível. A exclusão dela do mundo e da própria irmã é um absurdo: uma vida miserável dentro de um quarto em contato apenas e por pouco tempo com seus pais, e essa dor é cantada por Anna em “Do You Want to Build a Snowman?” (“Você Quer Fazer um Boneco de Neve?”) – um artifício humano para aplacar a dor: a música, o som ritmado e melodioso que vem de tempos imemoriais desde os épicos, passando pelo teatro e chegando ao audiovisual. As canções vêm sendo usadas em musicais há muitos anos para esse fim: diminuir o Peso da história, e esse é um dos (vários) artifícios de que Frozen vai se utilizar. A canção vai encobrir o Peso dos anos de terror que as duas meninas vão passando pela separação – duas irmãs sofrendo juntas e completamente separadas por uma parede apenas: a solidão, o tédio, a perda dos pais e da amizade, não consigo pensar em maior sofrimento pra aquelas crianças!

Daqui por diante vou selecionar os personagens e seus símbolos, além de momentos-chave de dualismo Leveza x Peso que, claro, são interpretações minhas e que podem haver falhas, porém espero que fique clara a ideia que quero passar aqui, escrita no primeiro parágrafo:

Anna: a pura Leveza: uma menina estabanada, engraçada, ingênua, que quer sair, mesmo que por um dia (o da coroação da irmã) – “for the first time in forever” daquela eternidade de privações e viver como uma “princesa” pela primeira vez – Anna quer amar! Anna quer tudo que lhe foi tirado e nem sabe por quê! Ela sente um Peso que nunca mereceu ou entendeu – por anos! Anna procura um amor Romântico, como uma típica garota do século XV, XVI e XVII, inundada de Romances em que as princesas eram mulheres virgens e cheias de virtudes esperando pelo príncipe encantado que irá lhe propor em casamento e ser “feliz para sempre”, e o filme será feliz em desconstruir essa imagem, como será analisado mais à frente.

Agora vamos à Elsa: o Peso a possui – o frio, que é retratado em várias culturas como a época de se resguardar e racionar a comida estocada durante o verão e outono; o Inferno é gelado na Divina Comédia – enfim, esse poder é o Mal e Elsa tem que “conceal, don’t feel” (“reprimir, não sentir”), porém agora eles (o povo) já sabem, então “let it go!” (“deixe ir!”). Elsa libera todo seu poder e nós vamos com ela, pois sabemos de toda sua história de privações e sofrimento; essa é a verdadeira Elsa, uma mulher livre do Peso da majestade, das obrigações para com os outros e do medo do seu poder (“o mal”). Elsa em “the cold never bothered me anyway” (“o frio nunca me incomodou mesmo”) deixa escapar uma falha de caráter que raramente se vê em filmes infantis onde os protagonistas são seres perfeitos aos olhos da Moral: Elsa permite-se dizer que o poder é a sua Natureza – ela é Pesada por si e faz pirraça como que dissesse: “e daí, se eu sou o Mal, que seja”. Esse momento eu chamo de A Primeira Catarse: o filme nos induz, pela primeira vez ao “erro” e esse apoio à Elsa nos faz esquecer que todos na cidade podem morrer de frio por causa desse súbito egoísmo da garota.

O castelo de gelo: Construído por Elsa, o castelo, belíssimo, traz consigo uma dúvida a respeito do julgamento dessa “maldição” – como é possível algo tão “ruim” como o inverno proporcionar algo tão belo? Seria esta a forma de o filme mostrar que a dor e a melancolia são capazes de proporcionar obras-de-arte belas, que o Peso faz parte da vida e não é tão ruim assim tê-lo de vez em quando?

Elsa x Anna no castelo de gelo: o Peso volta à vida de Elsa quando Anna revela que a cidade entrou num “eterno inverno”, ou seja: (na concepção dela) o “Mal” tomou conta do lugar e Elsa precisa resolver isso, porém Elsa diz à irmã que é impossível reverter a magia, uma metáfora para “essa tristeza é da minha natureza e não há como tirá-la de mim”. Com isso, a dona do castelo expulsa a todos com um monstro de gelo que se contrapõe ao…

Olaf: representante da Leveza dos anos da infância: ingênuo e engraçado, Olaf é um outro artifício utilizado pela arte, conhecido como “alívio cômico”, “bobo” ou “fonzie”(nos sitcoms), ele serve como “redutor de Peso”; já o Monstro de gelo é Elsa assumindo o seu lado Pesado e Mau: “o frio nunca me incomodou mesmo”.

Os Trolls: Kristoff declara em alto e bom som: “eles são como família / (…) eles podem ser inapropriados, barulhentos, autoritários e PESADOS, BEM PESADOS.” Quando Anna replica: “Kristoff, eles são MARAVILHOSOS”, temos aí uma mensagem bela sobre a família: eles podem ser Pesados, mas são sua família, como Elsa é para Anna, e nem isso os faz menos maravilhosos: o Peso pode ser contornado com o amor verdadeiro, e isso com certeza será um ponto a ser dedicado agora!

O Amor Romântico x o Amor “verdadeiro” e a verdadeira Leveza: “O amor! O amor! É isso!”, grita Elsa depois de ver Anna morrer congelada na sua frente. Elsa e Anna concluem que a única forma de se salvarem mutuamente e ao mundo que lhes rodeia é através do amor verdadeiro; o Peso do mundo real só pode ser sobrepujado pela Leveza do amor, não do amor Romântico criado com fins controladores e mercadológicos da Idade Média: o amor entre irmãos, família e amigos. Esse amor está espalhado no filme inteiro como a resolução de um crime em um livro policial, esfregando em nossa cara a amizade do Kristoff e sua rena; dos pais de Anna e Elsa para com elas; do ato de Kristoff em levar sua amada para outro homem para que ela seja salva; do amor dos Trolls para com seu “filho humano” e o amor entre as irmãs princesas. A desconstrução que o filme faz de toda uma cultura Romântica é poderosa e catártica, assim como a total vitória da Leveza sobre o Peso; da tragédia à comédia (também no sentido original da palavra).

O filme Frozen pode ser uma metáfora sobre como o Peso pode deixar as pessoas mais responsáveis, reflexivas e contemplativas, bem como isoladas e depressivas. Desse Peso pode-se extrair coisas belíssimas como o castelo de gelo de Elsa – belo e Leve – e da arte como forma de expressão. A Leveza, na figura de Anna, em contraponto, poderá reduzir esse Peso tomando para si parte dele através de um ato de amor verdadeiro – um sacrifício que os heróis cometem. E essa é a terceira Catarse, a quebra do paradigma do herói macho e único, que resolve tudo sozinho: Frozen, no final das contas, tem duas heroínas.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.

Elsa, nos segundos finais do filme: deslizando pelo gelo, alegre e decidida, em contraponto com a Elsa séria e sem coragem de sequer tocar as pessoas e Pesada, andando na neve. Ítalo Calvino iria pular da cadeira com essa cena.


*A “Leveza”, como descrito por Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Companhia das Letras, 1990) era (é), bem resumidamente, um artifício artístico que visa reduzir o “Peso”, que pode ser desde o peso do mundo real, de uma situação qualquer, e trazer um mínimo que seja de fuga, de beleza ou esperança. São imagens, metáforas, alegorias em grande parte.

Star Wars VII: uma renovada esperança

Padrão

28 de novembro de 2014 e.c. foi marcado pelo lançamento do primeiro teaser trailer de Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força. O curto vídeo provocou comoção geral na internet e muitas especulações sobre o papel de cada personagem que aparece em tela e os lugares/planetas onde eles se apresentam.

Pessoalmente, fiquei bastante empolgado com o trailer, graças em parte, talvez, por ter mantido as expectativas bem baixas, tendo em vista o retrocesso que foi a nova trilogia, o fato de a franquia agora pertencer à Disney e o filme ser dirigido por J. J. Abrams, que, na minha opinião, dilapidou Star Trek em seus dois últimos filmes. Mas o trailer traz uma renovada esperança, talvez aquela outra sobre a qual disse Yoda a Obi-Wan.

Comentando cena por cena, começo dizendo que a súbita aparição de um personagem negro logo no início do vídeo é muito significativa, já que Star Wars é tradicionalmente dominada por figuras brancas. Se John Boyega é o primeiro a aparecer, isso provavelmente quer dizer que ele não é um coadjuvante como Lando Calrissian (Billy Dee Williams) ou Mace Windu (Samuel L. Jackson). Não conheço Boyega de nome nem lembro dele em outro filme, mas não se pode negar a importância da representatividade que se vislumbra no destaque dado a ele no trailer. (Ademais, uma das qualidades de Abrams como diretor é seu tato o quesito elenco.)

O fato de o homem estar vestindo uma armadura de stormtrooper provoca o espectador que conhece o universo de Star Wars, pois ficamos imaginando se esse indivíduo é um soldado desertor do derrocado Império ou se ele repete a memorável cena em que Luke e Han se disfarçam com as armaduras brancas para resgatar Leia. Seja como for, temos à vista um provável cliffhanger digno de Abrams.

A inusitada entrada em cena de um robozinho de design curioso, lembrando R2-D2 e outros droides astromecânicos da franquia, anuncia com veemência a renovação visual da nova proposta (é possível que a esfera sobre a qual roda o pequeno robô se encaixe de maneira inteligente na respectiva entrada da nave da qual é copiloto). Diferente de Star Trek, que teve todo o design remodelado (pelo próprio Abrams) mesmo se passado numa época já superexplorada nas séries de TV, aqui temos uma justificativa plausível e verossímil, tendo em vista que o Episódio VII se passa décadas depois da trilogia original, o que implica evolução da tecnologia.

Porém, essa evolução, felizmente, não quer dizer que o aspecto “sujo” característico de Star Wars esteja ausente. O próprio cenário desértico em que se passa a maior parte das cenas do vídeo garante o espalhamento de poeira sobre droides, indumentárias e veículos. Não sabemos ainda se o planeta aqui é Tatooine, mas mesmo que não seja, ele é certamente uma reminiscência intencional do mundo-natal de Luke e Anakin.

Como sempre, os empoeirados rebeldes (se é que ainda existe razão para haver uma Aliança Rebelde) são contrastados pelos stormtroopers reluzentes e limpos que mostram o sempiterno caráter frio e robotizante dos vilões de Star Wars. A renovação do design dos “soldados brancos” faz sentido pela supracitada evolução e pode simbolizar a renovação dos recursos dos reminiscentes do Império.

w51cbn4gh0qcwfcv1kag

Alterando novamente para o lado da luz do conflito, a personagem de Daisy Ridley (que também não sei quem é) se mostra como uma provável sucessora de Leia e Padmé, seguindo a boa tradição de colocar no grupo de protagonistas uma mulher forte e proativa, como atestam seus gestos e sua atitude ao conduzir um arrojado speeder pelo deserto tatooinesco. Mas se a representatividade feminina entre os papéis de destaque do filme não passar disso, será uma pena (ainda estou aguardando esperançoso para saber quais serão os papéis de Lupita Nyong’o e Gwendoline Christie, duas mulheres que escapam do padrão das atrizes hollywoodianas).

À corredora do speeder se segue a cena de um piloto de X-Wing, interpretado por Oscar Isaac (outro desconhecido para mim). Teremos, portanto, provavelmente, mais um elemento recorrente dos filmes, que é a figura do piloto prodígio, um descendente de Anakin e Luke Skywalker (será ele um novo membro da família), e aparentemente continuaremos vendo mais batalhas espaciais entre rebeldes (ou aquilo em que eles se tornaram) e Império (idem).

Adentramos então uma floresta escura e nevada, por onde anda uma figura misteriosa de capuz negro carregando um “sabre-de-luz” vermelho, ou seja, provavelmente se trata de um ou uma Sith, ou pelo menos alguém ligado ao lado sombrio da Força. Não dá para ter certeza sobre quem interpreta esse personagem, mas eu quero acreditar que é Gwendoline Christie, pois até achei seu porte parecido com o da atriz, e o fato de ela ser bem conhecida por fazer o papel de uma exímia espadachim em Game of Thrones reforça esse meu palpite talvez sem noção.

O “sabre”, aliás, é um elemento digno de nota. Ele parece ter sido feito para se parecer mais com uma espada longa medieval do que com um sabre propriamente dito, inclusive possuindo um guarda-mão característico feito da mesma matéria da lâmina. Isso pode estar ligado à possível identidade do personagem como um “inquisidor” Sith, corroborando uma das hipóteses levantadas por internautas. A espada medieval poderia ser uma referência simbólica aos cavaleiros da Idade das Trevas ou até mesmo aos Templários, ambos defensores do poder da Igreja e agentes da Santa Inquisição (não deixo de notar o simbolismo cristão da forma da espada, que lembra uma cruz, o que pode ou não ser intencional).

(Sobre a própria utilidade desses guarda-mão de luz, vale ressaltar que ele seria um elemento inteligente de defesa da espada-de-luz, pois sabe-se que essas lâminas repelem os ataques de outras armas do mesmo tipo, e ele serviria para impedir que o oponente deslizasse uma lâmina pela outra para ferir sua mão.)

A cena final do vídeo é uma batalha entre naves espaciais, notadamente a célebre Millenium Falcon, enfrentando TIE Fighters. Esse é o primeiro e único elemento pertencente aos filmes antigos a aparecer no trailer, e pode ser um sinal de que não veremos somente os rostos novos que se mostraram antes, mas que a antiga trupe estará de volta para ajudar a nova geração de heróis.

O trailer, assim, faz um favor para os fãs de Star Wars ao pontuar alguns dos ingredientes imprescindíveis para a receita de um filme da franquia: pessoas comuns procurando seu lugar na galáxia, droides, soldados inimigos sem rosto, tecnologia velha e empoeirada ao lado de tecnologia nova e limpa, vilões misterioros, sabres-de-luz e batalhas de naves espaciais. Tudo sem exageros visuais, para que se destaque o que realmente importa: os personagens. (A paródia deste link mostra uma “versão editada por George Lucas”, com acréscimos como os que ele inseriu nas versões remasterizadas dos filmes antigos, e evidencia justamente essa qualidade do trailer de Abrams.)

Considerando tudo isso, eu tenho a esperança de que essa nova obra cinematográfica corrija um erro crasso cometido por J. J. Abrams aos tomar as rédeas da franquia Star Trek: a sub-representação da alteridade não-branca, não-masculina, não-heterossexista. A diversidade fazia parte da alma de Star Trek, mesmo que ela só tenha se realizado gradativamente e tenha despencado depois de seu ápice em Voyager. O que Abrams não fez em Star Trek talvez seja concretizado em Star Wars (talvez não…), se levarmos em conta o elenco do filme, e essa pode, ironicamente, ser sua redenção perante os trekkies (ou não!). Isso seria, ademais, um bem-vindo e grande avanço para o fantástico universo criado por George Lucas. Que a Força esteja conosco.

O Rei Leão e o Patriarcado

Padrão

lion_king_ver1É bem conhecido o viés sexista da maioria das animações dos Estúdios Disney. Via de regra, os protagonistas dos contos de fadas transformados em longas metragens pela empresa se encontram na camisa-de-força dos papéis de gênero. Homens são guerreiros, heróis, príncipes; mulheres são donzelas, damas, princesas. Com louváveis exceções trazidas pela Pixar e por obras mais recentes da Disney, o androcentrismo, a subjugação da mulher, o patriarcalismo e até mesmo a homofobia (personagens homens afeminados ou mulheres masculinizadas em geral são vilões ou, no mínimo, coadjuvantes que servem como alívio cômico) estão marcantemente presentes em filmes como Branca-de-Neve e os Sete Anões, A Bela e a Fera e Aladdin, para citar só alguns.

No entanto, essa ideologia sexista pode passar despercebida para a maioria dos expectadores e pode até ser posta em dúvida, quando se traz à tona a exceção do exemplo de Mulan como uma possível transgressão. Porém, a heroína chinesa empreende sua luta contra os invasores hunos para que no final tudo volte ao status quo em que mulheres são fêmeas e homens são machos.

A alegoria zoomórfica de O Rei Leão torna mais difícil perceber sua mensagem androcentrista, já que se tratam de animais vivendo, teoricamente, só pelo instinto, sem as regras sociais artificiais da cultura humana. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, quando a olhamos como metáfora das relações humanas, a história deixa bem evidente, por baixo da bela fábula de reconciliação e assunção da responsabilidade, uma mensagem mais sinistra: uma defesa do Patriarcado.

A dinastia patrilinear

MufasaSarabiSimba

O rei, o herdeiro varão e a consorte tornada rainha.

A linda cena inicial do conto, ao som de uma bela música africana, cheia de cores da savana africana com sua fauna despertando ao nascer do sol para ver o recém-nascido herdeiro do trono como símbolo do próximo passo no ciclo da vida, é uma metáfora de uma monarquia humana em que o imponente rei celebra junto a seus súditos o nascimento de seu primeiro filho varão.

Por enquanto, a ideia de que o herdeiro tem que ser necessariamente um macho não fica tão explícita, pois Simba é a primeira cria de Mufasa com sua companheira Sarabi, presumidamente a rainha da savana, e podemos imaginar a possibilidade de que qualquer que fosse o sexo da criança ela seria considerada herdeira do reino. Mas a figura materna e feminina de Sarabi é secundária nessa cena, pois quem se destaca aqui são o pai masculino e o filho. A mãe mal aparece, como se seu papel se resumisse a dar à luz o pequeno leão.

Um dos cuidados que os Estúdios Disney costumam ter ao representar animais é a relativa fidedignidade e verossimilhança dos personagens zoomórficos com as respectivas espécies a que fazem referência no mundo real. Os leões, na natureza, vivem em grupos dominados por um macho e compostos na maior parte por fêmeas e filhotes. Estes são crias do macho dominantes com todas as outras fêmeas.

É interessante observar uma cena instigante do filme, em que Simba acorda seu pai para sair e brincar. Uma criança talvez não se dê conta disso, mas um adulto mais atento verá que a “corte” dormindo no “palácio” só tem um macho adulto (Mufasa) e várias fêmeas, incluindo Sarabi. Esta é somente uma das consortes do rei. Posteriormente veremos que no mesmo grupo há outros filhotes, dos quais só conhecemos Nala, a amiga de Simba, provavelmente da mesma idade que ele.

Dessas observações podemos presumir o seguinte: Mufasa tem um harém com várias esposas e/ou concubinas, e todas elas provavelmente têm filhotes dele; é provável que Simba tenha sido o primeiro filhote macho de Mufasa, e Sarabi se tornou “rainha” justamente por ter sido a primeira fêmea do grupo a lhe dar um varão; Nala é meio-irmã de Simba e tem a mesma idade que ele, mas sua importância no grupo é muito menor do que a dele, por ela ser fêmea (é até possível que ela seja um pouco mais velha que ele, tendo em vista que ela parece ser mais sábia e mais habilidosa, mas ela é preterida na sucessão do trono, já que não pode ser um rei).

Scar, o macho desviante

Mufasa, o macho reconhecido, e Scar, o macho desviante.

No entanto, há outro elemento que reforça a predominância não apenas do macho, mas sobretudo do masculino, da masculinidade e, ligada a isso, a heteronormatividade nessa sociedade patriarcal. É o que se vê na preterência de Scar, irmão de Mufasa, como herdeiro do reino. Ele não se encontra em segundo lugar apenas por não ser primogênito, mas porque não representa um ideal de masculinidade e sexualidade encontrado no exemplo de seu irmão. Além de aparentemente ser mais fraco fisicamente, Scar tem uma personalidade covarde e maliciosa, o que se opõe à bravura e honradez que se espera de um grande leão macho. A fraqueza, a covardia e a malícia estão ligadas, no imaginário conservador do sexismo ocidental, ao feminino.

Tradicionalmente, no Ocidente, a masculinidade se confunde com heterossexualidade. Um homem “verdadeiro” é capaz de passar sua semente adiante, e isso implica que ele seja heterossexual, que saiba lidar com, ou melhor, tenha poder para dominar as mulheres e impregná-las. Já vimos que Mufasa possui um harém e filhos com mais de uma fêmea. Porém, Scar não parece se interessar nas fêmeas, o que se torna ainda mais evidente na segunda parte do filme, quando ele se torna rei após matar seu irmão. Diferente de Mufasa, o usurpador não se cerca de leoas em seu decadente palácio, apenas as envia para caçar. Sua relação afetiva maior é com as hienas, suas lacaias. A anti-heterossexualidade de Scar (não há como afirmar com certeza que ele é homossexual, embora alegoricamente possa ser considerado assim) é reforçada pelo estereótipo afeminado de seu comportamento. Ele tem trejeitos que podem ser considerados como emasculados, vilipendiados numa sociedade machista e heteronormativa como a nossa.

É preciso enfatizar que o personagem do irmão traidor é concebido explicitamente como um mau caráter, o que em si mesmo pode não estar relacionado diretamente a sua identidade de gênero. Ele realmente se mostra um líder inepto e sua inabilidade para governar traz a penúria e a fome para seus súditos. Mas importa observá-lo como integrante de uma estrutura imagética ligada ao sexismo de nossa cultura. Scar é apenas um exemplo ente outros semelhantes em que coincide uma masculinidade desviante com o mau caráter vilanesco. Jafar, por exemplo, em Aladdin, é muito semelhante a Scar em quase todos os aspectos aqui tratados, bem como Hades em Hércules. Não é mera coincidência que em várias histórias de heróis masculinos da Disney a virtude do protagonista esteja atrelada a uma masculinidade idealizada e o vício do vilão a um desvio dessa masculinidade.

As hienas e o Matriarcado

Hyenas

Banzai, Shenzi e Ed. A fêmea no meio é a líder.

Mas é no antagonismo mais explícito encontrado na figura das hienas que vemos uma evidência ainda mais forte da defesa do Patriarcado. Neste caso, as hienas são um contraexemplo da sociedade dominada pelos machos.

Assim como os leões de O Rei Leão são apresentados com certa fidedignidade em relação aos Panthera leo reais, as hienas caricaturais são mostradas com características semelhantes às da espécie verdadeira, sendo a mais pertinente sua estrutura social matriarcal. Os membros da espécie Crocuta crocuta se organizam através da dominação de uma fêmea alfa e das outras fêmeas do grupo sobre os machos. Isso está evidente no trio principal de hienas do filme, liderado por Shenzi, a única fêmea do grupo.

Elas são vilãs no filme, e representam covardia, ardil e traição. Dessa forma, é por uma questão de estrutura narrativa que, uma vez que leões e hienas são retratados como antagonistas entre si, seus modos de vida se oponham um ao outro. O Matriarcado das hienas é condenado pelo viés patriarcalista da fábula, e isso se reforça pela forma desprezível por que elas são retratadas. A sociedade leonina, liderada por um leão macho reconhecido (e que domina inclusive outras espécies, tidas como súditos da família real dos leões), é defendida como a organização social legítima e desejável para todos.

Hakuna Matata e a irresponsabilidade

Simba, Timão e Pumbaa vivendo uma eterna infância.

Um dos momentos cruciais da vida de Simba é o período em que ele passa vivendo com a dupla Timão e Pumbaa, um suricato e um javali, respectivamente. Levando a vida segundo a filosofia do Hakuna Matata (expressão suaíle que significa “sem problemas”), os três passam seus dias se divertindo, imersos em total hedonismo. Com Timão e Pumbaa, Simba esquece quase completamente sua origem.

Seu modo de vida guarda analogias com o das hienas, sempre buscando a maneira mais fácil de sobreviver e sem assumir nenhuma responsabilidade ética por seus atos (no caso das hienas, delegando essa responsabilidade a alguém mais forte que elas – Scar -; no caso dos três amigos, anarquicamente desvinculados de qualquer relação de poder).

É interessante resgatar o que a antropóloga francesa Élisabeth Badinter escreve sobre a analogia que muitas culturas humanas fazem entre a infância e a condição feminina. Muitos povos consideram que a mulher é uma criança que não amadureceu, enquanto o homem é visto como uma criança que completou seu desenvolvimento, o que é uma forma de justificar a dominação masculina. O infantilismo de Timão e Pumbaa é um reflexo da sociedade matriarcal (feminina) das hienas, e a mensagem aí é a de que ambas são indesejadas para um domínio masculino ditado pelas regras patriarcais.

Essa fase de exílio é criticada duramente pelo fantasma de Mufasa, que adverte seu filho a assumir seu papel como legítimo herdeiro do reino. Contrapõe-se, assim, a irresponsabilidade do modo de vida infantil de Timão e Pumbaa à necessidade da assunção das responsabilidades de “homem” adulto formado, da adequação a um modelo de masculinidade idealizado.

O ciclo da vida

O Rei Leão é uma de minhas animações preferidas da Disney. Gosto do visual, da música e dos personagens, e admiro a história de reconciliação e amadurecimento do protagonista. Porém, como costumo dizer, apreciar uma obra não impede de enxergar vieses com os quais discordamos. A trajetória de Simba é repleta de símbolos pró-patriarcado, machistas e heteronormativistas, e é importante apontar para isso, especialmente quando levamos esse e outros filmes para as crianças, capazes de reproduzir as ideias e valores culturais sub-reptícias com as quais mantêm contato. Por isso outras obras devem ser vistas pela geração mais nova, especialmente os filmes da Pixar (sendo Valente um dos melhores exemplos) e os do Estúdio Ghibli, para citar dois ótimos exemplos, repletos de desconstrução dos papéis tradicionais de gênero e sexualidade. Assim o cinéfilo em formação pode perceber desde cedo que não existe apenas uma forma de se viver em sociedade e que os diversos meios de as pessoas se associarem afetivamente são válidos para aqueles que livremente optam por adotá-los.

Princesa, heroína e guerreira: Valente

Padrão

A respeito da resenha de Thiago Leite sobre o filme Valente, considero que houve um equívoco crasso quando se categorizou a Valente princesa Mérida como transexual, “guerreiro em corpo de mulher / herói em corpo de princesa”, pois existe uma diferença abissal entre ser transexual, ou seja, pessoa com transtorno de identidade de gênero, que não aceita o próprio sexo biológico e sofre com isso, e ser uma pessoa simplesmente inconformada com seu papel social de gênero. E sinto que este tipo de confusão, se perpetuada, seja um desserviço tanto para as mulheres inconformadas com um papel social que as oprime e reprime, quanto para os transexuais, que sofrem muito pela não aceitação de seu sexo biológico.

Mérida se ressente de seu papel social opressivo de mulher, de não poder correr livre em seu cavalo, de não poder usar seu talento como arqueira em competições, de não poder lutar por si mesma. Não vemos a Valente princesinha Mérida exibir sofrimento intenso por seu sexo biológico de mulher, nem mesmo quando o filme a mostra sozinha e livre para fazer o que deseja. Pelo contrário, não a vemos tentando extirpar seus seios ou mesmo disfarçá-los com faixas apertadas, leva seus cabelos vermelhos revoltos ao vento sem cortá-los ou trançá-los, não usa calças, usa vestidos longos e sente-se confortável com eles, usando-os até para escalar montanhas. Vale lembrar que cabelos longos, principalmente vermelhos, são forte símbolo de feminilidade e que cabelos longos, brilhantes e saudáveis são sinais de fertilidade e saúde, logo a feminilidade de Mérida é pontuada através destes símbolos adequados à cultura ocidental, principal público-alvo da Pixar, desde as primeiras cenas do filme. Mérida é menina e moça, guerreira, heroína e princesa.

Eis algumas definições tiradas do ótimo artigo “Transexualismo Masculino”, de Amanda V. Luna de Athayde , artigo este que recomendo fortemente ler:

Gênero: é o que o ser humano se torna sexualmente, seja homem ou mulher.

Identidade de gênero: é a convicção interna de feminilidade ou masculinidade.

Papel de Gênero (gender role): é o estereótipo social do que é masculino e o que é feminino.

Desordens [transtornos] de Identidade de Gênero: é quando existe uma discordância entre o sexo biológico e sua identidade de gênero, entre as quais se encontra o transexualismo.

O transexual não se opõe apenas ao papel social que lhe é imposto como homem ou mulher, ele realmente sofre desesperadamente por ter o sexo biológico que tem e em muitos casos tenta até se mutilar para tentar fazer seu corpo se parecer mais com o sexo com o qual se identifica. Moças biológicas, mas transexuais masculinos, podem tentar arrancar os seios e meninos biológicos, mas transexuais femininos, podem tentar arrancar o pênis, por isso é tão importante diagnosticá-los cedo e encaminhar para cirurgia de mudança de sexo, para evitar que sofram desnecessariamente e até possam se mutilar…

O transexual geralmente tem extrema antipatia, aversão mesmo, ao próprio genital e aos caracteres sexuais secundários, como seios, barba, músculos ou a falta deles etc. Às vezes o transexual prefere ficar sem atividade sexual, extirpando o pênis, por exemplo, para se parecer com o sexo com que se identifica, do que ter alguma atividade sexual com seu genital. A atração sexual para eles é secundária, várias vezes muito baixa, o problema real é o desgosto com o próprio sexo.

Eis a definição do CID-10 sobre Trasexualismo:

F64.0 Transexualismo
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.

Sugiro o excelente documentário Meu Eu Secreto, sobre crianças transexuais, para melhor compreensão do transexualismo, que quase nada tem a ver com atração sexual:

Também sugiro assistir ao ótimo filme Transamerica, com a excelente Felicity Huffman, onde podemos ver, entre outros casos, um transexual masculino e um transexual feminino apaixonados depois da cirurgia para troca de sexo.

Sobre Mérida ser heterossexual ou homossexual, também não é este o ponto central da história e não vemos a princesa exibir atração, seja pelo sexo oposto, seja pelo sexo similar ao seu, nem por rapazes, nem por moças, pois é muito jovem, aparenta ter entre 14 e 15 anos, não a vemos suspirar por ninguém e o foco do filme foi a relação entre Mérida e sua família, principalmente sua mãe, a rainha reprimida e submissa ao seu papel social de gênero e que, apesar de amar e ser muito carinhosa com Mérida, tentava impor a ela sua própria repressão e submissão ao papel social de princesa e mulher. Mérida diz que ainda não está pronta para casar e podemos apenas ver que despreza as bravatas do primogênito Macintosh, mostra uma pontinha de interesse pela força do primogênito de MacGuffin e junto com toda sua familia mostra surpresa e admiração com o “guerreirão” que à primeira vista parece ser o primogênito do Clã Dingwall, e que se desaponta com o verdadeiro filho de Dingwall, como pode ser visto neste trecho do filme disponibilizado no Youtube:

A rainha era uma mulher extremamente forte, poderosa, porém rigidamente reprimida e resignada ao seu papel social, usando o poder que tinha somente dentro das limitações deste papel, sendo emblemática a conversa que tem com o pai de Mérida quando este tenta lhe ajudar a falar com a filha e se espanta quando ela deixa escapar, como se falando com Mérida, que ela também, apesar de estar agora bem casada, teve seus receios ao ser obrigada a casar, mas acabou casando e ficou tudo bem.

A jornada desta mãe e desta filha para a desrepressão é o foco do filme, Mérida aproveita as lições da mãe quando necessário, usando sua presença feminina e porte ao cruzar o pátio cheio de guerreiros brigões, fazendo-os parar de brigar com sua majestosa presença, impostando sua voz ao fazer seu discurso, como sua mãe lhe ensinou e, divertidamente, usando a técnica do pai, gritando para fazê-los parar de falar quando quer. Mérida aceita e utiliza tanto as lições da mãe quanto as do pai para conseguir seus objetivos.

Interessante notar que o pai de Mérida a apoia e, naqueles tempos tão perigosos, diz que “lutar é fundamental, não importa se ela é uma lady ou não”.

Vemos este paizão apoiando Mérida ao longo de todo filme e neste clip da Pixar, disponível no Youtube, vemos como ele dá a Mérida lições de esgrima, escondido da mãe.

Os irmãos de Mérida a admiram, como pode ser visto no trecho onde ela conta que bebeu água na Cascata de Fogo e a ajudam ao longo da história.

Também é interessante ver que Mérida não se amedronta frente aos outros guerreiros e ao pai, enfrentando-os e até cruzando espadas com o pai e impedindo-o de machucar a mãe-ursa. Quantas meninas, héteros perfeitamente identificadas com seu sexo biológico, não sonham a mesma coisa ao serem ameaçadas e/ou verem seus entes queridos, inclusive suas mães submissas sendo ameaçadas/espancadas por este mundo afora?

Mulheres inconformadas com a imposição social de seu papel de gênero não são necessariamente homossexuais e muito menos transexuais, muitas de nós somos mulheres heterossexuais e gostamos muito de nosso próprio sexo biológico – e mais ainda de nossa capacidade de termos orgasmos múltiplos, só quem já sentiu sabe como é bom – e nos sentimos atraídas pelo sexo oposto. “Cheiro de homem” nos encanta e excita. Queremos ter a liberdade de, além de fazer sexo com nosso “príncipe encantado”, poder viver, trabalhar e até lutar ao lado dele. Queremos ter os mesmos direitos e deveres de nossos parceiros, não sermos nossos parceiros.

Não dá para saber se a Valente Mérida é heterosexual ou homosexual, pois isso não fica claro no filme, o foco é a relação dela com a mãe e a sociedade machista e repressora, mas dá para saber que ela é uma mulher, não um transexual, e que está inconformada com seu papel social de gênero, não quer ser reprimida e resignada a seu papel social de mulher, como a mãe, mas livre para cavalgar e usar arco e flecha ou espadas, subir em montanhas e o que mais quiser.

Para pensar: geralmente quando uma mulher heterossexual tenta se insurgir contra o seu papel de gênero socialmente imposto (redundância proposital), uma das violências que sofre é a tentativa de lhe atribuírem estigmas que não lhe são realistas, como ser homossexual ou transexual. Ela não quer se submeter a seu papel de mulherzinha, então tentam lhe roubar a própria feminilidade, caluniando-a com o estigma homossexual / transexual que não lhe pertence.

É nesse ponto que identifico o desserviço a nós mulheres e aos transexuais, pois a resenha inicial sobre Valente reduz o sofrimento destes ao simples inconformismo com o papel de gênero e nos rouba a possibilidade de sermos mulheres héteros, femininas e valentes inconformadas ao papel de gênero.

Várias mulheres ao longo da história mereceram o título de “guerreira” e não “guerreiro”, como por exemplo: Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Joana Angélica, e mais diversas, entre as quais uma lista pode ser vista aqui, o de “heroína” e não “herói”, como Amélia Earhart, Rosa Parks, Eva Perón, Aung San Suu Kyi e tantas outras. Além disso, também existem os termos “pioneira” para designar mulheres como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Ada Lovelace, Florence Nightingale etc., sem contar as mulheres identificadas ao longo da história com os termos “lutadora”, “desbravadora”, “escritora”, “autora”, “professora”, “astrônoma” etc. Interessante notar que “Valente” admite ambos os gêneros.

Repetindo-me propositalmente: Mérida não tem problemas com seu corpo, até quando escala montanhas e está sozinha ela não dá qualquer demonstração de não aceitá-lo. Ao contrário, sua feminilidade é enfatizada por usar vestidos longos sempre, até cavalgando e escalando, e ter seus longos cabelos esvoaçando ao vento. O filme é muito feliz na sutileza com que aborda o não conformismo, tanto de Mérida com seu papel social, quanto de sua mãe, com o corpo de ursa. Penso que é um filme que ajudará gerações de crianças, tanto héteros quanto homo e transexuais a serem mais assertivas em suas vidas e terem a noção de que podem sim serem diferentes, que não precisam se submeter ao que a sociedade lhes impõe.

O prêmio de Mérida ao final do filme não é o príncipe encantado, é a liberdade de ser quem ela é.

Eis mais algumas definições, a grosso modo, só para esclarecer um pouco mais as diferenças e semelhanças sobre a diversidade sexual e de comportamento que há por aí:

  • Heterossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo sexo oposto ao seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Homossexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Bissexual é a pessoa que se identifica com o próprio sexo biológico, gosta de ser homem ou mulher, gosta de ter o próprio genital, gosta de seus caracteres secundários (barba, seios etc.) e sente atração sexual e emocional tanto pelo sexo oposto quanto pelo mesmo sexo que o seu. Pode ou não se conformar com seu papel de gênero e, no caso de não se conformar, participar de movimentos feministas, por exemplo.
  • Transexual é a pessoa que não se identifica com seu sexo biológico, desejando ter o genital do sexo oposto e ser do sexo oposto, não importa o tipo de atração sexual que sente, ou se sente. Seu sofrimento é muito maior do que a simples inconformação com um papel social de gênero ou do que simplesmente sentir-se atraído por pessoas do próprio sexo.
  • Travesti é a pessoa que veste roupas do sexo oposto, seja temporariamente, seja por longo tempo, o objetivo é a excitação sexual. O travesti pode gostar muito do próprio genital, de ter um pênis, sendo atraído por homens ou por homens e mulheres. Não confundir com travestismo transexual, quando o transexual veste roupas do outro sexo por identificar-se com ele. O travesti tem forte impulso sexual, o transexual geralmente não tem impulso sexual forte.
  • Crossdresser é a pessoa que se veste como o sexo oposto, seja por que motivo for, apenas por brincadeira, por profissão, por gostarem etc. O rapaz que usa saia como curiosidade e protesto social, mas é homem hétero e gosta de mulher, é/está crossdresser. Mulan, outra forte princesa Disney, foi crossdresser por necessidade, para proteger o pai disfarçou-se de homem e entrou no exército, mas nunca deixou de ser mulher e, no caso, bem mostrado no filme, heterossexual.

Sugiro ver este link da Wikipédia para entender mais sobre travestismo, pois há muito mais diversidade do que imaginamos e esta página tem alguns exemplos e definições ótimos.

Links

Valente

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Valente (Brave, 2012), produção da incorruptível Pixar, traz um conto de fadas com mais uma princesa em busca da realização do seu destino. A diferença é que, contrariamente a todas as princesas Disney (distribuidora da obra), Merida não é uma mera donzela passiva e seu destino é incerto durante toda a narrativa.

Sinopse (com spoilers)

Filha de Fergus, chefe do clã escocês DunBroch, e de Elinor, a primogênita Merida é desde criança incentivada pelo pai a usar o arco, instrumento tradicionalmente reservado aos homens, e ela desenvolve o gosto pela aventura e por tudo o que se relaciona ao mundo masculino, desprezando as lições da mãe sobre feminilidade e a boa conduta de uma princesa.

A impertinência de Merida chega ao cúmulo quando ela se recusa a escolher um pretendente entre os primogênitos dos outros clãs (Dingwall, MacGuffin e Macintosh – este último nome faz parte da homenagem da obra a Steve Jobs), o que quase dá início a uma guerra. Depois de brigar com a mãe e simbolicamente rasgar uma manta costurada por Elinor, Merida segue fogos fátuos na floresta, que sua mãe dizia serem mágicos e levarem ao destino de quem os seguisse, e encontra uma bruxa, que lhe vende um feitiço para “mudar minha mãe e meu destino”.

O feitiço transforma Elinor num urso, o que obriga mãe e filha a fugirem do castelo (especialmente pelo fato de Fergus estar esperando há anos por se vingar de Mor’du, um urso que lhe arrancou uma perna). Merida descobre que o feitiço só pode ser quebrado se ela decifrar um enigma que envolve a reconstituição de algo que foi alterado. Após viver algum tempo com a mãe (em forma de urso) na floresta, elas retornam ao castelo, onde Merida (com o auxílio da mãe) consegue convencer os chefes dos quatro clãs de que a tradição deveria ser alterada e os jovens deveriam poder decidir com quem vão se casar.

Enquanto Merida costura a manta que ela rasgara, pensando que assim poderia quebrar o feitiço, Fergus encontra e enfrenta a própria esposa, achando que é Mor’du, e conclama seus guerreiros para executá-la. O verdadeiro Mor’du aparece, e Elinor consegue matá-lo numa luta. Com todos reconciliados, a rainha volta à sua forma humana e o equilíbrio é restabelecido numa nova ordem.

A jornada da heroína

A trama de Valente em si mesma é um simples conto de fadas como qualquer outro. Segue toda a estrutura narrativa campbelliana (a jornada do herói) e acrescenta pouca novidade em comparação com as histórias folclóricas consagradas, especialmente aquelas imortalizadas na telona pela Disney. Porém, a Pixar sabe, mais do que adaptar contos de fadas para o cinema, inventar novas fábulas (quase todos, senão todos, os roteiros do estúdio são originais). E mesmo pisando em terreno conhecido, Valente traz uma novidade óbvia, que é uma heroína do sexo feminino.

Logo no começo da história, vemos que Merida está destinada ao conflito entre a liberalidade do pai e as exigências tradicionais da mãe. E é bom salientar que a jovem não se torna pura e simplesmente uma guerreira obtusa como Fergus. Diferente deste, ela acredita em magia e em lendas, e deve isso à sua mãe. Sem esse elemento fantástico, a trama não se desenvolveria como o fez.

No início deste texto eu disse que Merida não é como as outras princesas Disney. E o principal elemento que lhe falta para ser uma é um interesse amoroso, um príncipe para chamar de seu (ou para que ele a chame assim). Nenhum dos pretendentes desperta o menor interesse nela, e durante toda a história não aparece a menor menção sub-reptícia de um possível amor romântico. Merida é uma amazona como as das lendas gregas, condensa em si mesma os dois papéis, o de princesa e o de guerreiro, assumindo a responsabilidade pelo próprio destino.

Todo a resolução do conflito é resolvida pelas duas mulheres protagonistas, Merida e Elinor. Não que nas lendas e contos as mulheres não resolvam conflitos (vide Psiquê na mitologia grega), mas é raro que o façam como guerreiras e não utilizando a psique. Normalmente, o feminino, nos contos de fadas, se encarrega da parte mágica e psíquica dessa resolução, enquanto os conflitos físicos são tarefa dos homens. Em Valente, vemos uma mudança nesse paradigma, pois as duas metades, o yin e o yang do drama, são empreendidos pela mulher.

A fábula poderá ter um efeito positivo em meninos, acostumados com heróis masculinos, e em meninas, que praticamente só conhecem nas histórias garotas que são princesas. A quebra do paradigma sexual dualista, embora ainda não radical, possibilita a reflexão sobre a liberdade individual perante as exigências sociais quanto à identidade de gênero.

Herói em corpo de princesa

O filme tem uma mensagem oculta, que a maioria das crianças e grande parte dos adultos não vão perceber. Merida é uma transexual. Ela não assume a identidade feminina exigida pela sua cultura, tendo uma personalidade e hábitos de um homem. Participa ativamente de atividades esportivas/bélicas, caminha com uma postura masculina, não se importa quase nada com vestidos e maquiagem e não segue a etiqueta ensinada por sua mãe à mesa.

É importante fazer uma referência a Mulan, uma das principais princesas da Disney. É inevitável que se façam comparações entre as duas, mas Mulan não nasceu no corpo errado, digamos assim. Ela não é uma amazona, e só assume a identidade de homem para evitar uma desonra familiar e a destruição do Império Chinês. Quando termina sua missão, ela volta a ser a moça prendada que sempre foi e até se casa com um galante general ao qual serviu em batalha.

Merida continua a ser, de certa forma, um rapaz em corpo de moça ao final da história, e mesmo mantendo uma identidade feminina, pode-se ler nas entrelinhas uma tímida mensagem destinada às pessoas que, por alguma razão, sentem-se como se não pertencessem ao sexo com o qual nasceram.

Corrobora essa interpretação a necessidade de sua mãe assumir outro corpo para vir a compreender a filha. O feitiço ajudou Elinor a entender o drama de Merida, ou seja, a falta de identificação com o próprio gênero. Sendo assim, embora seja muito sutil, a mensagem do filme é bem subversiva para os padrões do cinema infanto-juvenil. A pequenos passos, o cinema está evoluindo.

Adendo importante (10/08/2012 e.c.) (editado em 28/11/2013 e.c.)

Vejo agora que a afirmação acima de que Merida é “transexual” é uma forçação de barra que teria sido melhor evitar.

Leiam com atenção o post Princesa, heroína e guerreira: Valente de Nívea Melo, uma crítica muito boa ao meu texto, que traz outras questões pertinentes para a compreensão da mensagem do filme. Leiam também o texto que escrevi posteriormente, Merida, seus pretendentes e o transgenerismo.

O mundo fantástico do Oriente – parte 2

Padrão

No texto anterior, escrevi uma resenha sobre Orientalismo, livro de Edward W. Said. Havia tantas coisas para escrever que tive que cortar o texto em duas postagens. Pretendo aqui dar continuidade às considerações que iniciei anteriormente, dando mais ênfase a alguns exemplos que tenho observado e que se aplicam bem, na prática, ao que Said nos apresenta em teoria.

VImos anteriormente que o orientalismo é um corpus de saberes que criam no nosso imaginário uma entidade chamada “Oriente”, que generaliza características que acabamos atibuindo a uma variedade enorme de povos, culturas, religiões, modos de produção e meios e modos  de viver. Além disso, costumamos atribuir a esses povos o aspecto de serem atrasados em relação ao “Ocidente”, e acabamos justificando uma “necessidade” de este colonizar aquele.

Esse conjunto de ideias pré-concebidas, que também existem em relação a outros povos do mundo, ainda hoje nos faz ouvir, de pessoas que conhecem pouquíssimo da cultura de um país asiático, uma afirmação do tipo:

Nessa novela eles caracterizaram direitinho a cultura indiana.

Como se não fosse necessária nenhuma averiguação empírica a respeito da “cultura indiana”, bastando apenas que a caracterização se pareça com aquilo que temos em nossas mentes quando pensamos em Índia, e que tem mais a ver com como os indianos têm sido representados na literatura, na pintura, no cinema e na televisão ocidentais do que com a representação que eles fazem de si mesmos ou como eles realmente são.

Encantador de serptentes de JaipurA visão do “Oriente” como culturalmente arcaico aparece, por exemplo, num episódio do desenho animado Pica-Pau, em que o protagonista, ao visitar um país oriental não-identificado e genérico, se depara com vários vigaristas, como um faquir que se deita em pregos de borracha e um encantador de serpentes fajuto (a serpentedentro de um cesto de vime na verdade era um homem com um fantoche).

Quando surgem personagens “orientais” em obras de ficção, demonstrando habilidades incomuns, como encantar serpentes, ficar enterrado em estado de animação suspensa autoinduzido durante dias ou levitar, há duas possibilidades. Ou eles são de fato “mágicos” (o que os pode caracterizar como bruxos, que, na mentalidade cristã, estão ligados ao Diabo, ou seja, a uma religião falsa) ou como charlatães e impostores. Raramente há uma explicação racional.

Sabemos que os encantadores de serpentes lidam com animais de verdade, que ludibriam pelo movimento da flauta e não pela música. Basta ver um documentário do Animal Planet para verificar isso. Sabemos que os faquires que se deitam em pregos não são tapeadores, mas apenas se aproveitam de um fenômeno físico segundo o qual um corpo repousado em centenas de pregos próximos uns aos outros distrubui seu peso sem riscos de ser perfurado. Quem assistiu a O Mundo de Beakman sabe disso.

Aladdin © DisneyA homogeneização do “mundo oriental”, que integra povos muito diferentes entre si, nos faz referir ao “Oriente” de forma indistinta, como se qualquer coisa que acontece na China fosse também um aspecto cultural do Sri Lanka. No desenho animado referido acima, por exemplo, que parece se passar na Índia, aparece um vendedor de lâmpadas mágicas falsas, que é uma figura de uma história árabe.

Às vezes fazemos essa generalização em expressões como “dança oriental” (quando queremos nos referir à dança do ventre, por exemplo), “comida oriental” (normalmente nos referindo à cozinha chinesa ou japonesa) ou “misticismo oriental” (notadamente quando se fala de religião indiana).

Mas o “Oriente” é amplíssimo. “Dança oriental” também poderia ser um estilo coreográfico chinês (ou até mesmo o techno dançado por chineses). “Comida oriental” também envolveria comida árabe (ou, quem sabe, pizza feita num restaurante na Arábia Saudita). “Misticismo oriental” certamente não exclui o zen-budismo japonês (e por que não o catolicismo em sua versão nipônica?). Mas a vaguidão dessas representações parece ser proposital, e nos inclina a pensar que uma tal “cultura oriental” tem traços semelhantes em toda a extensão do “Oriente”.

Gabriel von Doscht, autor do blog Dequejeito, satirizou essa confusão ocidental num texto chamado Rala ralando o Tchan aê, em que conta sua ida a um restaurante que servia comida árabe, onde ele teria cometido uma gafe ao confundir o “mundo árabe” com a Índia.

Pintura japonesaIsso tudo me inspirou a ver um episódio de uma telennovela da Globo que está fazendo muito sucesso atualmente. Ontem assisti a um trecho de Caminho das Índias, para averiguar o que eu já desconfiava. Os indianos são representados como pertencentes a uma cultura de valores arcaicos, usam a violência física para admoestar os filhos e praticam o casamento arranjado, contra os anseios dos jovens que não querem se casar se não for por amor.

Não vou dizer que na Índia não se pratiquem esses costumes. Também não defendo a violência física nem o casamento arranjado, e acho que uma educação pelo exemplo e a liberdade na escolha do parceiro amoroso devem ser cultivados. Mas esse tipo de obra mostra esses costumes com o propósito de alertar para o suposto atraso da cultura “oriental”, ao invés de se focar na construção de uma trama interessante (que não posso dizer que essa novela não tem, pois não a acompanho). Além disso, carregam-se as tintas no sentido de generalizar os costumes dos indianos, como se fosse muito pouco comum a transgressão de suas regras sociais.

(Conflitos envolvendo o amor podem servir de base para histórias bem contadas. Romeu e Julieta, por exemplo, é bem sucedida pelo mesmo motivo que O Segredo de Brokeback Mountain. Ambas tratam do amor proibido, o que é um tabu que apela para o sentimento de muitas pessoas, que muitas vezes têm dificuldades de realizar seus desejos devido a valores como o heterossexismo, o racismo e o etnocentrismo. Mas a preocupação dessas histórias é mostrar a resolução de um conflito e não uma visão preconceituosa a respeito de um povo.)

Concluo com um poema e um vídeo. O poema é um soneto que escrevi para minha esposa e no qual cometi uma injustiça para com os árabes, ou seja, retratei uma romântica Arábia voluptuosa que só existe na imaginação e não tem nada a ver com o mundo árabe real. Eis um exemplo daquilo que a mentalidade orientalista faria:

Noite Árabe

Pulsantes corações de fogo brando
Ardendo chamejantes labaredas,
Reverberando lindas luzes ledas,
No espaço infindo risos ribombando…

Estrelas nessas tenras trevas tredas
Dos teus olhos brilhantes rutilando,
Abóbadas noturnas salpicando
Luzentes grânulos nas horas quedas…

Seduz-me, Xerazade, a quieta lábia
Do olhar que me entroniza como rei,
Servo e aprendiz da lei que reina sábia…

Na alcova de teus olhos penetrei,
Onde anoitece ebâneo céu da Arábia,
Sob cuja égide a volúpia é lei…

O vídeo, dividido em 4 partes, é um excelente resumo de Edward Said sobre seu livro, acompanhado de comentários do Prof. Sut Jhally, da Universidade de Massachusetts.