De volta ao futuro do passado

Padrão

BTTF2Provavelmente você já sabe que o último dia 21 de outubro foi a data que, num universo paralelo fictício, um jovem e sua namorada do ano de 1985 visitariam com o auxílio da máquina do tempo de um velho cientista extravagante. Em De Volta para o Futuro (1985), Dr. Emmett L. Brown leva Marty McFly e Jennifer Parker em seu DeLorean voador movido a lixo e equipado com o capacitor de fluxo até 30 anos no futuro. Esse é o desfecho do filme. Já na continuação, De Volta para o Futuro II (1989), assistimos ao que os três presenciaram em seu fabuloso futuro e as maravilhas de um tempo vindouro.

Enfim, a vibe pelo fato de essa ter sido a mesma data em que se passa parte dos filmes da trilogia é tamanha que a internet está repleta de matérias, artigos, memes, vídeos e fotomontagens referentes a De Volta para o Futuro, com piadas sobre a estreia de Tubarão 19, listas das “previsões” futurológicas certas e erradas e críticas bem-humoradas sobre o utopismo que sonha com um belo futuro que ainda está longe de se tornar realidade.

Não deveríamos levar tão a sério a perspectiva de futuro dos produtores dos filmes, tendo e vista seu caráter cômico e a necessidade de imaginar certas coisas apenas como meio de dar sentido à trama, mais do que retratar as previsões futurológicas daquela época e daquela cultura (EUA do final da década de 1980). Mesmo assim, é interessante pensar como o filme revelou, mesmo que jocosamente, as noções do que significa o futuro, do que é relevante pensar como tendo um “futuro”, daquilo que épassível de evolução, das coisas que se desejam que mudem e o que pode perfeitamente permanecer do mesmo jeito que está (ou esteve por longo tempo).

É notório, por exemplo, ver duas policiais em ronda resgatando Jennifer (que havia desmaiado e sido deixada num beco enquanto seus companheiros de viagem resolviam sua missão), mostrando a visão de um futuro em que papéis social e tradicionalmente ocupados por homens podem vir a ser também exercidos por mulheres. No entanto, as relações familiares dos McFly parecem repetir a mesma lógica sexista de décadas atrás, com um “pai de família” tentando se manter num emprego para sustentar financeiramente sua mulher e seus filhos, todos estes com o sobrenome de Marty McFly.

tumblr_mf14tkkqyK1s0wshuo1_1280-001

Esta lógica de parentesco patrilinear, tão arraigada em nós, é na maioria das obras de ficção futurista mantida como algo normal, “natural”, não-passível de mudança e irrelevante enquanto questão a ser ponderada (isso acontece até em realidade ultratecnológicas e pretensamente utópicas, como Star Trek). Por outro lado, a luta pela conquista de direitos trabalhistas das mulheres é algo tão gritante que seria uma gafe muito grande não atentar para isso, e as policiais, uma delas negra, representam bem uma visão de futuro desejável para todos.

Quando Marty perambula pela versão futurista de sua cidade, vemos um elemento que representa outra expectativa utópica: a facilidade de se consumir. Numa radicalização do domínio das empresas capitalistas sobre nossas vidas, tudo agora é baseado no autoatendimento, não existem ou pouco existem pessoas de verdade no balcão das lojas. Muitas vezes se enxerga essa condição como um sonho para o cidadão comum, que poderá se beneficiar dos produtos do mercado com o maior conforto e o menor esforço possível. Mas percebamos que esse é também o sonho da ganância dos empresários capitalistas que produzem essas mercadorias: com menos mão-de-obra humana, menos necessidade de se pagar salários e mais lucro para si. Para quem serve essa utopia, afinal?

Poderíamos, para problematizar esta pergunta, considerar o acesso maior ou menor aos recursos que possibilitam desfrutar dos produtos do mercado de consumo. Nos idos de outubro do 2015 real, ainda vivemos uma grande desigualdade econômica, e o sonho consumista de De Volta para o Futuro II só seria aproveitado por aqueles que pertencem a uma classe econômica mais ou menos favorecida. Mas isso nos leva a outro elemento instigante do futuro retratado no filme. Quando o Marty McFly de 1985 encontra o velho Biff Tanen, este o confunde com Marty McFly Jr. Biff diz a ele que seu “pai” (a versão mais velha de Marty McFly) é um fracassado na vida, dando a entender que não conquistou status econômico-social e ficou na classe dos menos favorecidos materialmente.

Porém, quando Jennifer Parker é levada a sua futura casa por engano (onde mora sua versão mais velha, Jennifer McFly), nós nos deparamos com um lar extremamente bem-provido de alta tecnologia e conforto. Tudo é ativado por voz, a casa é praticamente um computador-robô que fala com seus habitantes, temos televisores gigantes, reidratadores que preparam uma pizza semipronta em poucos segundos, sem falar dos acessórios pessoais como aparelhos que lembram o Google Glass, jaquetas com secagem automática e tênis que se amarram sozinhos.

devoltaparaofuturodois9_02082015

Esse cenário dá a entender que até os mais pobres têm acesso a tecnologias que oferecem o necessário à sobrevivência, o mínimo de conforto e até bastante luxo (e talvez um tanto de sedentarismo). Entretanto, ainda existem relações de exploração no mercado de trabalho e desigualdade de acumulação de recursos, o próprio Marty estando à mercê de seu rico patrão, que tem o poder de demiti-lo de forma imediata por se envolver em atividades escusas.

Podemos ainda, por último, apontar para um aspecto considerado bastante relevante pelos protagonistas da história, algo implicitamente tido por eles como uma conquista importante para o bem-estar dos habitantes do futuro utópico: a maior liberdade de ir e vir. Esta é possibilitada, especialmente, por duas novas tecnologias: uma previsão meteorológica precisa e os hovercrafts. A facilidade que o indivíduo tem de programar suas atividades com base na certeza de que a chuva vai parar às 4:31 da manhã e a grande mobilidade oferecida por um carro voador são grandes avanços para uma sociedade cuja cultura coloca a liberdade individual acima de qualquer coisa.

As histórias fictícias sobre viagens no tempo para o futuro são interessantes para refletirmos sobre aquilo que almejamos para um mundo melhor. Quanto estamos preocupados, por exemplo, com a diminuição da desigualdade social, da violência de gênero, do racismo, das guerras, da aceitação da alteridade e de modos de viver que prescindem da noção de progresso tecnológico, como o encontrado em diversos povos ao redor do planeta? Dessa forma, em que grau um futuro tal qual o que se apresenta em filmes como De Volta para o Futuro II é utópico e em que medida ele é distópico? O que, na condição de indivíduo, de comunidade, de conjunto de povos e de humanidade estamos fazendo agora para construir uma utopia para todos? Nós estamos o tempo todo viajando em direção ao futuro, uma viagem no tempo que não tem volta (ao menos por enquanto).

Releituras afrofuturistas da Ficção Científica

Padrão

Ytasha L Womack e seu livro “Afrofuturism”.

O Afrofuturismo é um conjunto de manifestações culturais que mistura elementos da cultura negra (ou daquilo que é representado como cultura negra, de matriz africana ou afrodescendente) com aspectos da cultura pop que dizem respeito a noções de futuro e progresso tecnológico, notadamente as ideias da ficção científica futurista, e envolve literatura, música, estética e moda, artes visuais, cinema e televisão. Acima de tudo, o Afrofuturismo é uma filosofia, uma forma de revisar o modo como os negros veem a si mesmos na mídia, valorizando elementos culturais do passado e do presente e construindo uma visão de futuro com base em seus próprios anseios e não nos tradicionais estereótipos racistas (e também de identidade de gênero e sexualidade).

O livro Afrofuturism: The World of Black Sci Fi and Fantasy Culture, da escritora norte-americana Ytasha L. Womack, apresenta um panorama das diversas vertentes do Afrofuturismo, seus diversos artistas e pensadores. O que mais me interessou no livro foram as diversas referências a temas da Ficção Científica (literatura, cinema e televisão) e como eles são reconstruídos na perspectiva da experiência negra no Ocidente e também na África. Há não apenas uma forma alternativa de ver a ficção científica clássica, mas uma produção de literatura negra que remonta a W. E. B. Du Bois e tem em Octavia Butler uma de suas principais referências.

Há algum tempo venho me interessando por essa parte ainda marginalizada da Ficção Científica, da qual aos poucos estou me inteirando. Mas ainda não li muita coisa da produção afrofuturista propriamente dita. No entanto, na apropriação desse gênero literário pelos negros, uma vez que o Afrofuturismo abrange também uma forma alternativa de interpretar a produção eurocêntrica mais consagrada, é muito interessante a forma pela qual ele ressignifica temas clássicos como a abdução alienígena e a inteligência artificial, usados como metáforas para a história dos africanos e seus descendentes no Atlântico Negro.

Naves e abduções alienígenas

Ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de "A Guerra dos Mundos"

Invasores alienígenas na ilustração de Henrique Alves Corrêa para a edição francesa de 1906 de “A Guerra dos Mundos”

A diáspora negra resultante do comércio de escravos africanos por europeus pode ser colocada nestes exatos termos:

Alienígenas chegaram em naves e abduziram pessoas.

Com essas palavras, é impossível não pensar numa história de ficção científica sobre seres extraterrestres que chegam à Terra em espaçonaves e raptam seres humanos. Mas se explorarmos outros sentidos dos termos da expressão acima destacada, podemos pensar no significado próprio de alienígena como “estrangeiro”, nave como “embarcação” (navio) e abdução como “captura”.

Os autores Mark Dery, Mark Sinker e Reynaldo Anderson, citados por Womack, escreveram sobre essa pungente metáfora. Assim, se por um lado as histórias de invasão e abdução extraterrestres representam o medo europeu e norte-americano de sofrer na pele o mesmo processo de dominação colonial que esses povos empreenderam e ainda empreendem, elas falam sobre a história real daqueles que sofreram e sofrem essa mesma dominação, em especial os africanos.

Mas a abdução é apenas uma parte desse processo de contato com alienígenas. Os contos sobre invasão de grandes naves espaciais prontas para subjugar e, em alguns casos, exterminar a humanidade são exatamente uma representação do que os “conquistadores” fizeram em suas viagens de “descoberta”. Os enredos de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, de Independece Day e o histriônico Marte Ataca! são ótimas analogias da invasão, escravização e dominação dos africanos pelos europeus imperialistas.

Distopias pós-apocalípticas

O apocalipse zumbi de "The Walking Dead", ilustrado por Charlie Adlard

O apocalipse zumbi de “The Walking Dead”, ilustrado por Charlie Adlard

Se continuarmos a sequência dessa história e falarmos sobre a diáspora negra, o pesadelo dos africanos e seus descendentes, tanto na África colonizada quanto nos países para os quais foram levados em navios negreiros, a desolação de viver subjugados a alienígenas de cara pálida num mundo desagregado, podemos extrapolar a interpretação das histórias distópicas de teor pós-apocalíptico.

Estas histórias retratam uma humanidade vivendo à beira de um colapso, geralmente ameaçada por seres perigosos, como robôs, monstros, zumbis ou ditaduras totalitárias. 1984, de George Orwell, com sua metáfora da bota militar esmagando um rosto, é a síntese perfeita da opressão absoluta de uma classe sobre uma minoria social (mesmo que esta seja maioria em quantidade), o que é visto nos regimes de apartheid e nas nações escravocratas.

A alegoria do apocalipse zumbi também pode ter repercussões imagéticas interessantes na descrição da vida dos escravos vivendo entre seres que são semelhantes a eles (como o são os mortos-vivos) mas que carregam diferenças consideradas inconciliáveis. Zumbis se assemelham a vampiros em sua natureza parasítica, sempre em busca dos cérebros ou do sangue dos vivos, e é como parasitas vampíricos que podem ser vistos os senhores de escravos, explorando a energia dos cativos. Além disso, a metáfora encontrada na série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), que foi adaptada para a TV, também é muito pertinente, pois nessa história os “mortos caminhantes” não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes que estão à beira da morte. Os escravos negros também eram mortos-vivos neste sentido, pois suas vidas estavam à mercê dos implacáveis senhores, não eram donos de suas vidas, sempre à beira da morte ou, em certo sentido, mortos em vida.

Robôs

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

Data, o androide em busca de sua humanidade em Star Trek

As histórias sobre robôs trazem diversos temas antropológicos interessantes. Um deles está ligado diretamente à etimologia da palavra robô, que pode ser entendida como sinônimo de “escravo”.

As máquinas que servem como substitutos do trabalho humano são entendidas por seus criadores e usuários como autômatos desprovidos de vontade própria, utensílios sem alma que apenas se assemelham vagamente a seres humanos. Essa forma de ver os robôs resume o que era a ideologia defendida para justificar a subjugação de seres humanos escravizados, representando-os como indivíduos dotados de menos humanidade que seus escravizadores, máquinas de carne negra sem alma.

O estigma que atrela a noção de escravo à de pessoa negra é tão forte hoje em dia que temos dificuldade de pensar em escravidão que não envolva pessoas negras. A escravidão existiu em toda parte ao redor do mundo, e povos de várias origens étnicas e diversos matizes já se encontraram sob o jugo da servidão forçada. Mas as consequências sócio-culturais dessa forma de trabalho não são tão sentidas na contemporaneidade quanto pelos negros descendentes de africanos, ainda tentando, em diversos contextos, provar seu status de humanos pensantes, do mesmo modo que robôs como Johnny 5 (Um Robô em Curto-circuito), Andrew (O Homem Bicentenário) e Data (Star Trek) tentam.

Essa metáfora que compara os afrodescendentes a androides foi explorada pela musicista Janelle Monáe em sua obra. A sinfonia The ArchAndroid, uma ficção científica em forma de música, conta sobre a profetizada vinda de uma Arquiandroide que libertará todos os androides.

Fábulas com robôs que querem ser humanos são excelentes metáforas do processo de humanização dos indivíduos de nossa espécie: estamos o tempo todo nos esforçando para nos aproximar de um ideal de humanidade, condicionado pela cultura em que vivemos. Minorias discriminadas, seja por racismo, sexismo ou outras normatividades, se vêem numa luta ainda mais hercúlea. Aliadas a isso, as fantasias de revolta contra os opressores e de tomada do poder encontram nas histórias com robôs um interessante paralelo. A revolta das máquinas em Matrix e O Exterminador do Futuro é uma alegoria do levante de escravos contra os portadores do látego. O Quilombo dos Palmares é uma sociedade de robôs libertos que provaram sua humanidade.

Hibridismos

O xenomorfo híbrido em “Alien: O Oitavo Passageiro”

Um tema da Ficção Científica que se relaciona com nossa dificuldade de lidar com sentimentos racistas é o hibridismo, seja entre duas ou mais espécies orgânicas, seja entre ser vivo e máquina. O exemplo mais clássico do parasita alienígena do cinema talvez seja a franquia Alien, onde a contaminação de seres humanos (e de outros animais) pelos xenomorfos produz criaturas que são amálgamas monstruosos, belos e mortais.

A história começa com a chegada de exploradores numa terra estranha e seu contato com uma espécie nativa, da qual resulta um ser mestiço, o “alien”. Esta criatura surge do estupro de um dos tripulantes, um homem branco, por parte da criatura feminina que eclode de um ovo e que pode ser vista como uma reminiscência simbólica de uma mulher africana. Há portanto a inversão da relação da violência sexual. Porém, tendo em vista a representação, por parte do colonizador, dessa relação como prejudicial a este – inclusive com a ideia de contaminação de DSTs supostamente originárias da África -, a metáfora invertida cumpre seu papel de remontar ao processo de exploração do continente africano e da consequente “contaminação” da cultura e biologia europeias pelas africanas. De acordo com Célia Magalhães, no livro Os Monstros e a Questão Racial na Narrativa Modernista Brasileira, a alegoria do parasitismo pode ser uma referência à mestiçagem colonial, em que os elementos culturais dos dominados são vistos como indesejados pelos defensores de uma idealizada pureza da cultura dominante.

O ser estranho que assim surge, mesmo tendo metade do DNA do conquistador, é visto como totalmente alienígena. E bastante emblemático que o xenomorfo tenha a cor negra e é bastante interessante o fato de, no primeiro filme da franquia, ele ser interpretado por um ator africano, escolhido justamente pelo exotismo de seu corpo. A parcela africana da herança das culturas ocidentais é ainda hoje vista como algo exótico e não propriamente normal, e ainda existem pessoas e grupos que defendem a extirpação dessa herança, como se o elemento negro de nossa cultura e de nossa população fosse uma monstruosidade incômoda. Nosso racismo velado ainda percebe a presença negra como um elemento intruso em nossa sociedade, ainda sentido como alienígena e passível de ocultamento ou até mesmo extirpação.

Embora um pouco diferente, o hibridismo cibernético também se presta à mesma alegoria. Como vimos, os robôs podem ser vistos como metáforas da minoria escravizada e desumanizada. Quando a máquina é integrada ao humano, dando origem aos ciborgues, temos toda sorte de enredos admoestando-nos sobre os perigos dessa união, o medo de que a parte máquina tome conta da parte orgânica e até mesmo oprima seu livre-arbítrio. É o que acontece com o policial Alex Murphy em Robocop, que precisa lutar internamente para não deixar que a máquina sem alma assuma o controle de suas ações. Também é o drama do Dr. Octopus em Homem-Aranha 2, que perde quase totalmente sua vontade ao ser seduzido pela frieza ambiciosa do implante que colocou em si mesmo, e dos Borgs em Star Trek, cuja parte mecânica embota completamente a liberdade do ser orgânico animado.

Representatividade

Depois que uma obra é publicada, ela não pertence mais ao autor. Seus leitores se apropriam dela como bem entendem e lhe imprimem os significados que consideram mais pertinentes. Dessa forma, é muito importante que as obras clássicas tradicionalmente carregadas de eurocentrismo, androcentrismo e heteronormatividade sejam relidas pelo olhar das minorias pouco ou nada representadas nessas obras. Além de ser um meio de enriquecer o cânone com mais possibilidades de leitura, é uma forma de os leitores se constituírem como ativos construtores de significado, fomentando a criação de novas obras carregadas de mais representatividade, especialmente uma representatividade de autoras e autores.

Fahrenheit 451

Padrão

Fahrenheit 451 é um romance sobre um futuro distópico em que a sociedade (mais especificamente a dos EUA – não aparecem referências a outros países na obra) desenvolveu um desapreço pelo pensamento, pelo conhecimento e pelas relações humanas. O resultado mais gritante desse processo é a queima sistemática de livros apreendidos, feita pelos bombeiros, e uma cultura virtual na qual a relação com personagens fictícios da mídia televisiva passa a ser mais importante do que as relações com outros indivíduos reais.

A narrativa desta clássica ficção científica de Ray Bradbury segue os últimos dias de Guy Montag como bombeiro. Na profissão há 20 anos, ele gosta de queimar livros, como qualquer outro bombeiro, mas possui uma coleção secreta, oculta até de sua própria esposa Mildred. Seu fascínio pelos livros aumenta depois que ele conhece Clarisse McLellan, sua vizinha de quase 17 anos que gosta de pensar, de sentir o mundo à sua volta e conversar com outras pessoas – três coisas que a maioria não costuma mais fazer. E, embora não fique explícito em nenhum momento da narrativa, é provável que ela leia livros também.

Depois de algumas semanas, Clarisse desaparece e Montag começa a sentir sua falta. Algum tempo depois, o bombeiro participa de uma missão na qual as coisas não saem como deveriam. Uma casa repleta de livros está prestes a ser queimada pela equipe da qual ele é membro, mas pelo fato de a polícia não ter prendido a dona da casa com antecedência, como era o protocolo, ela decide morrer junto a sua casa e sua biblioteca, apesar dos protestos de Montag, que se dispôs a salvá-la.

Esses dois acontecimentos o levam a repensar sua carreira e sua vida, e ele revela a Mildred e a duas amigas dela os livros que tem em casa, lendo trechos e arrancando lágrimas. A esperança surge a Montag na forma de Faber, um velho que costumava trabalhar numa editora antes da proibição dos livros. No entanto, o comportamento de Montag faz com que seu chefe, Beatty, desconfie de que ele esteja roubando livros durante as missões, e se preocupa em lhe dar conselhos, para que ele não desperdice a chance de uma promoção, sendo um funcionário tão exemplar como é. Porém, uma denúncia anônima leva o batalhão à casa do protagonista, e este não apenas queima a própria casa como também seu chefe. Na fuga, ele despista a polícia e se refugia num retiro de rebeldes que memorizam os conteúdos dos livros, com o objetivo de ressucitá-los quando a era de obscurantismo terminar.

Os livros não são tão importantes

O tema central de Fahrenheit 451 é a desagregação das relações sociais através do empobrecimento dos meios de comunicação, sejam livros, revistas, televisão, rádio e até mesmo as relações interpessoais diretas. Dessa forma, a importância dos livros é indireta, é simbólica dentro dessa fábula, tendo em visa a possibilidade de se manter a riqueza cultural em condições ágrafas.

O problema indireto da destruição dos livros e do concomitante esvaziamento do conteúdo reflexivo de meios como a televisão é que as pessoas, carentes de informação, não têm assunto para conversar. Essa situação é retroalimentada pela tendência superindividualista da época em que se passa a história, que leva as pessoas a se fecharem em suas intimidades, o que é simbolizado pelos fones de ouvido que isolam Mildred do mundo exterior e quase a levam à morte.

Correção política e felicidade

Segundo Beatty, em um intenso diálogo com Montag, o que levou à proscrição dos livros foi um sistemático esforço da sociedade para deixar as pessoas mais felizes. Tudo aquilo que era incômodo, que trazia desconforto e nos forçava a refletir foi paulatinamente abolido e destruído. Foi assim que os livros se transformaram a princípio em obras mutiladas (sem os trechos incômodos), posteriormente em meros resumos sem substância e finalmente proibidos de uma vez por todas.

Uma das forças apontadas por Beatty para que os livros tivessem trechos cortados é uma certa correção política. Livros com trechos racistas foram podados para agradar as minorias raciais. As partes machistas de uma obra foram retiradas para contentar as leituras do sexo feminino. E assim com obras que tinham trechos antissemitas, xenofóbicos, homofóbicos etc., tudo com o objetivo de acabar com qualquer coisa que causasse infelicidade, até que não sobrasse quase nada dessas obras.

Podemos fazer um paralelo dessa situação fictícia com algumas tentativas reais de se modificar obras clássicas que possuem teor discriminatório, como alguns livros de Mark Twain (que um professor nos EUA republicou após retirar palavras ofensivas como “nigger”); os esforços de algumas organizações italianas para censurar a Divina Comédia; ou ainda a recomendação de se retirar dos currículos escolares no Brasil algumas das obras de Monteiro Lobato, que possuem trechos racistas.

Penso ser salutar pesar com cuidado essa crítica de Bradbury à correção política, pois ela pode resvalar para um viés conservador. É absolutamente acertado ver na censura de obras literárias, sejam quais forem, uma atitude autoritária e contrária à liberdade de expressão. Mas os conteúdos intolerantes e discriminatórios dos clássicos devem ser percebidos, apontados e problematizados, para que não se transformem essas obras em objetos sagrados, intocáveis e inocentes. A crítica ao conteúdo desses livros é tão importante quanto a crítica à censura desses mesmos livros.

Assim, é possível que alguns leitores vejam, por extensão, nessa crítica bradburiana uma crítica a toda preocupação politicamente correta que busca desconstruir os discursos de preconceito, intolerância e ódio. A postura politicamente correta daqueles que criticam esses discursos sem censurá-los, e que defendem seu direito à liberdade de expressar essa crítica, não pode ser confundida, como os “politicamente incorretos” costumam fazer, com uma suposta atitude ditatorial.

A crítica de Bradbury tem validade se igualarmos as censuras “politicamente corretas” àquelas promovidas por regimes autoritários de facto, como o da Igreja Católica medieval, com seu Index librorum prohibitorum, e a condenação de obras artísticas pelo regime nazista. Qualquer queima de livros é um prejuízo para a humanidade e uma forma de minar o pensamento crítico.

Livros e memória

Bradbury era um grande entusiasta da leitura e da escrita. Como indivíduo pertencente à cultura ocidental, é normal que, sendo em primeiro lugar um defensor dos saberes, fosse consequentemente um ferrenho defensor dos livros, uma vez que estes são o repositório padrão do conhecimento nas sociedades ocidentais. Por fazermos parte de um mundo que valoriza o grafismo como a forma mais legítima de registro histórico, mnemônico e cognitivo, o banimento dos livros seria um colapso para o Ocidente eurocêntrico.

Porém, ao enfatizar a manutenção dos livros, pode-se incorrer numa postura etnocêntrica segundo a qual o registro gráfico (a escrita) é a melhor, senão a única, maneira de se não perder o conhecimento acumulado. Pessoalmente, sou um defensor dos livros e do antigo adágio “verba volant, scripta manent” (“as palavras se vão, a escrita permanece”). A quantidade de conhecimento acumulado no mundo, tanto em sociedades ágrafas quanto naquelas que conhecem a escrita, exige que utilizemos um meio externo (ao cérebro) para armazená-la e garantir que estará acessível às gerações futuras.

Mas é preciso cuidado para não incorrermos no possível erro de considerar que as sociedades ágrafas estão numa situação trágica, como se vivessem no mundo distópico de Fahrenheit 451, sem acesso ao conhecimento dos antepassados. Nessas sociedades, encontradas na África, na América e em outros redutos pouco ou nada influenciados pela expansão da cultura ocidental, utilizam-se de maneira bastante complexa as capacidades da memória oral, e os saberes não se perdem da forma como os ocidentais perderíamos se nossos livros fossem queimados.

Embora esses sejam possíveis desdobramentos da premissa do livro, o próprio Bradbury nos apresenta, ao final da história, um extenso grupo de pessoas que mantém o conteúdo dos clássicos intocado em suas memórias. Cada indivíduo desse grupo carrega em sua mente o texto completo de um livro e é capaz de recitá-lo para quem o queira “ler”. Quando um dos indivíduos morre, já tem passado adiante seu texto para um jovem herdeiro, e assim o livro se mantém através das gerações, sem a necessidade de registros escritos. Curiosamente, é nessa condição sem livros que as pessoas mais interagem entre si e subvertem a ordem individualista vigente.

Escute