A orgia humana – parte 1

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Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. “Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois homens conquistarem a união civil, mas é um crime eles adotarem uma criança”.

Muitas vezes esse discurso se acompanha de frases do tipo: “Isso é uma afronta contra Deus”. De certo modo, equivale a dizer que a homossexualidade é antinatural, ou seja, vai de encontro aos ditames da natureza. Dentro dessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a pessoa que se relaciona com um parceiro do mesmo sexo escolhe sua orientação sexual, escolhe “pecar”, e poderia facilmente seguir o caminho “natural”, se quisesse.

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Sobre genéricos, filhos e a Europa

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Quando soube pela primeira vez sobre os medicamentos genéricos, que eles têm a mesma fórmula que os remédios “de laboratório” e que são mais baratos, eu me perguntei: por que então agora alguém vai querer comprar mais caro se tem um igual e mais barato? As fábricas não vão falir? Elas serão obrigadas a baixar os preços? Qual é a vantagem de se comprar mais caro se a fórmula é a mesma?

Com o tempo me dei conta de que as pessoas dificilmente confiam em empresas que não sejam “de marca”, com propagandas que “mostrem” a eficácia dos produtos e estejam há muito tempo no mercado, o que lhe confere, supostamente, pela tradição, um certificado de validade maior. A desconfiança nos genéricos é tal que o termo serve como pejorativo, sinônimo de piratas, para se referir, por exemplo, aos filmes pirateados vendidos por camelôs.

É uma situação geral, mas não tão hegemônica. O oferecimento de produtos mais baratos com a mesma qualidade é uma grande vantagem para a população mais pobre, que não pode se dar ao luxo de pensar que o mais caro é melhor. A população mais rica pode se manter com a crença de que a marca é um diferencial, além de poder usar isso, até inconscientemente, para se distinguir socialmente (como com qualquer outro tipo de produto).

Mas não é só isso. A propaganda reproduzida abaixo, da fábrica de remédios genéricos Germed, mostra que, para os brasileiros, há um outro elemento que prejudica a confiança nos medicamentos “sem marca”.

A primeira contestação da freguesa frente à oferta de um genérico é justamente o que eu tenho dito acima. Ela tem dúvidas se pode confiar nesse tipo de produto. A vendedora argumenta que a qualidade dos genéricos é supervisionada pela Anvisa. Mas isso não é suficiente para convencer a cliente, como se também não fosse possível confiar num serviço do governo brasileiro. A cliente, ainda não convencida, pergunta à farmacêutica se esta daria esses remédios aos seus filhos. A resposta é positiva, mas, antecipando que seu argumento pode ainda não convencer, a vendedora enfatiza que os genéricos Germed, além de baratos, são exportados para a Europa. Finalmente, a cliente se mostra completamente convencida e compra o genérico.

No mercado contemporâneo, como sustenta o sociólogo inglês Anthony Giddens, temos que nos arriscar minimamente, confiando na qualidade e na eficácia daquilo que as indústrias nos oferecem. Mas a garantia da farmacêutica, que deveria ser suficiente para a cliente comprar qualquer outro produto, é questionada. Ela deve se perguntar se um produto que não se sabe onde foi produzido é mesmo equivalente ao “de marca” (porém, ela também não sabe onde os produtos “de marca” são produzidos – a não ser que trabalhe nessa indústria -; por que sua certeza é maior com os produtos “de marca”?), ainda mais considerando que as marcas mais caras são muitas vezes internacionais, enquanto os genéricos são normalmente nacionais.

(Essa desconfiança em relação à procedência, pela qual os produtos importados são supostamente melhores do que os nacionais, pode não ser clara nem óbvia até aqui, e pode até ser considerada uma viagem hipotética de minha cabeça. Mas o que vem em seguida vai reforçar essa teoria.)

Quando a cliente apela para os filhos da farmacêutica, ela quer um reforço emocional por parte da argumentação da vendedora. Mas esta não se delonga nesse assunto, e vai direto ao ponto principal, que é o fato de que os produtos que ela está oferecendo são vendidos na Europa. Para a cliente, o fato de os europeus usarem esses genéricos comprova sua reconhecida qualidade. Mas por quê?

Por causa do complexo de vira-lata ainda presente nos brasileiros. Segundo Nelson Rodrigues, que cunhou a expressão,

por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

Não confiamos no que se produz no Brasil, ao ponto de boicotarmos a economia de nosso próprio país. Enquanto povos de outros países reconhecem a qualidade de nossos produtos agrícolas, recebem profissionais brasileiros que se qualificaram por estas bandas mesmo e até elogiam nossos governantes, tão vilipendiados pela mídia local, nós continuamos cuspindo na própria cara e deixando a bunda exposta na janela para outros passarem a mão.

Talvez o complexo de vira-lata se reforce, hoje em dia, pelo fato de as mercadorias mais valorizadas serem produtos de tecnologia eletrônica avançada, como os computadores e os celulares. O Brasil não tem, por exemplo, uma indústria própria muito forte de telefones celulares, e esta se concentra em países como os EUA (Apple), Finlândia (Nokia) e Japão (Sony). O que nos dá a ilusão de que o Brasil está atrasado em tudo.

Em muitas áreas, o Brasil ainda é uma vergonha: Saúde, Educação, Meio Ambiente, distribuição de riqueza… Mas temos uma democracia que funciona bem, um sistema eleitoral menos sujeito a fraudes, invenções e descobertas científicas importantes para todo o mundo, frutas, verduras e legumes que alimentam pessoas de outros continentes, um mercado de livros bem feitos e com design melhor do que os norte-americanos e europeus (infelizmente, não temos uma cultura de leitura para aproveitar bem esses livros…) e muitas outras coisas. É só prestar atenção para perceber os problemas desta terra. É só prestar atenção para perceber suas virtudes.

Mas, para reconhecer a qualidade de seus próprios produtos, os brasileiros, infelizmente, precisam do aval das antigas metrópoles colonialistas. “Se um sueco dá esse remédio aos seus filhos, por que não dar aos meus próprios filhos? Quem sabe eu não consiga deixar minhas crianças tão saudáveis quanto aqueles belos, fortes e inteligentes escandinavos?” (só enquanto escrevia este texto e pesquisava na internet, eu descobri que a Seleção Brasileira venceu a Suécia na final da Copa do Mundo de 1958; talvez seja interessante a gente sempre se lembrar desse evento…).

Porém, até na mestiçagem, que caracteriza a formação bio-sócio-cultural do Brasil e que várias áreas da Ciência já demonstraram ser positiva para a evolução humana, os brasileiros não conseguem ver uma vantagem…

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