Coleção de sinapses 7

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Nesta semana, vimos que a questão das cotas raciais se complexifica com os argumentos de um militante negro anticotas, e jogamos um joguinho de uma fase só que se complexifica a cada etapa, enquanto assistimos a um belo e complexo filme concebido por Dalí e Disney e os filmes da série Guerra nas Estrelas foram lembrados no seu próprio dia comemorativo,

Acompanhamos a discussão sobre mídia hegemônica e políticas de reconhecimento, vimos uma crítica gráfica aos que são contra as políticas que defendem o casamento entre homossexuais, encontramos indícios de que humanos e neandertais se casaram antes de estes se extinguirem (ou não) e vimos que ainda não se extinguiu a teoria de que Jesus veio do espaço.

O Estado deve incluir, jamais discriminar – CartaCapital

Nessa entrevista com José Roberto Militão, vemos que nem todo o Movimento Negro é a favor das cotas raciais, o que pode enriquecer muito o debate sobre a real função e conseguências de uma política de reservas de vagas baseadas em critérios raciais.

This Is The Only Level – Armor Games

Neste joguinho simples para relaxar no trabalho, cada fase se passa no mesmo lugar, com pequenas variações que vão deixando o jogo mais difícil. Às vezes a gravidade e/ou os controles se invertem, às vezes os obstáculos são diferentes… enfim, um jogo casual.

O “Destino” uniu Salvador Dalí e Walt Disney – Design on the Rocks

Em 1946, o mágico da animação Walt Disney se encontrou com o mágico da pintura Salvador Dalí e ambos conceberam a ideia de um filme chamado Destino. Infelizmente, o projeto foi arquivado. Felizmente, um funcionário dos Estúdios Disney retomou o projeto e criou um curta que combina o caráter fantástico da animação disneyiana e as extrapolações sensoriais do gênio surrealista.

Star Wars Day – Wikipedia

Descobri que 4 de maio é o Dia de Guerra nas Estrelas, ou Star Wars Day. Tudo por causa da sonoridade de May the 4th, que lembra “May the Force…”, primeiras palavras da icônica frase “May the Force be with you”, proferida pelos jedi da galáxia concebida por George Lucas.

A Veja e as Políticas de Reconhecimento – Núcleo de Análises em Políticas Públicas – UFRRJ

A revista Veja é conhecida por manipular informações em nome do status quo da sociedade brasileira, além de privilegiar matérias direcionadas à elite, pouco representando os interesses das minorias. Na matéria A farsa da antropologia oportunista, Veja publicou dados incorretos sobre as áreas indígenas, de preservação e quilombolas,  truncou e inventou citações de dois estudiosos das Ciências Sociais e proferiu expressões preconceituosas e pouco compreensivas da realidade antropológica brasileira. O dossiê linkado acima mostra a matéria e diversas respostas e contrarrespostas, evidenciando as contradições da mídia que se pretende imparcial mas veicula sutilmente sua posição política.

Tradukka

Ainda não se criou um tradutor automático perfeito e, se Umberto Eco estiver correto, nunca aparecerá um. Mas o Tradukka até que acerta bastante. Porém, sigam meu conselho: nunca confiem cegamente num tradutor automático. Ao invés disso, participem dos Wordreference Language Forums, onde é possível conversar com nativos dos idiomas estudados e entender nuances de significado que escapam aos tradutores automáticos.

Consequences of gay marriage – Flickr

Há ainda quem pense que o casamento entre homossexuais, por ser contrário a uma tradição milenar, vai trazer grande sofrimento aos seres humanos, talvez advindo de uma punição de um poderoso deus que nos confunde com ideias como “livre arbítrio” e “pecado”.

Farinha do mesmo neandertal – Xis Xis

Seria improvável que, no contato dos humanos modernos com os neandertais, não tivesse ficado nenhum resquício.  E agora sabemos que alguns de nós têm herança genética do Homo sapiens neanderthalensis. Assim, talvez não seja tão acurado dizer que os neandertais estão extintos…

“Jesus Cristo era um ET” – CartaCapital

As pessoas que têm contatos imediatos dos mais variados graus com extraterrestres normalmente são figuras notáveis. Lourival Navarro não é exceção, mostrando-se um polímata que conserta bolsas, administra um estúdio de gravação, faz música e conhece todas as supostas referências bíblicas aos assuntos da Ufologia. Um potencial intelectual que poderia ter sido melhor aproveitado, talvez…

Cotas raciais – parte 3

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A raça é uma construção social. A maioria dos cientistas sociais e biólogos vão concordar com essa afirmação. Isso não quer dizer que ela não tenha efeitos nocivos sobre nós. A ideia de que existem raças baseia a discriminação racial. Mas, justamente por isso. a ideia de que uma “raça” possui aspectos intrínsecos que a diferenciam das outras deveria ser desconstruída. No entanto, há muito mais coisas a ser consideradas na discussão sobre cotas raciais…

Nesta terceira parte da Série Cotas Raciais, dou continuidade à análise dos comentários que foram deixados na primeira parte. Retomo aqui um comentário de Eduardo Prado, autor do blog Conversa de Bar, e um de AmBar Amarelo. O tema vai se complexificando ainda mais e, pessoalmente, vou ficando com grandes dúvidas sobre o posicionamento anticotas que eu costumava defender…

Comentário de Eduardo Prado

Concordo, por exemplo, que na raiz do problema está o acesso à uma educação de qualidade.

É interessante notar que a questão educacional parece ser a única unanimidade. A diferença é que os pró-cotas defendem ações emergenciais antes que a (certamente demorada) reforma educacional seja realizada, enquanto os anticotas geralmente alardeiam a imediata melhoria do ensino público, mas ninguém faz nada para mudá-lo. Neste sentido, eu tendo a concordar com cotas que atendam minorias, como forma de pressionar a implementação dessas mudanças.

Discordo, no entanto, dos que acreditam que as cotas vão servir para racializar as relações sociais no Brasil, talvez por que eu não entenda raça como uma determinação biológica. A palavra raça, que provavelmete tem origem comum a palavra raíz, é muito mais antiga que o conceito biológico de raça inventado no século XIX, talvez um pouco antes, no XVIII. Eu entendo raça como uma construção cultural e dinâmica, cujos sentidos e significados variam e se transformam ao longo do tempo. Sob o meu ponto de vista, o Brasil já é um país racializado, sempre foi.

Sim, raças são construções sociais. E, sim, existem relações raciais no Brasil, existem identidades raciais e existe racismo aqui. Mas justamente por ser uma construção social é que a raça deve ser desconstruídas, por um ideal antirracista. O racismo se baseia na ideia de que existem raças.

É claro que se pode conceber a existência de raças como meras identidades superficiais, sem que se pense em diferenças intrínsecas a elas. Como se fossem “tribos” (algo parecido com a ideia de “tribos urbanas”). Outra forma comum (embora em desuso) e com implicações bem menos sérias de se usar o termo “raça” é quando ela é sinônimo de família ou estirpe. “Fulano é da raça dos Araújo”.

Só através do reconhecimento de raças e de que as relações sociais sofrem interferência do racismo é que se poderiam criar políticas destinadas à mitigação dessa discriminação. Afinal, é preciso identificar de alguma forma quem é a população discriminada.

Eu também discordo que a implementação de cotas raciais criariam um racismo no Brasil. O racismo já existe. Mas eu tenho uma grande suspeita de que elas poderiam intensificar, em alguns contextos, o racismo já existente. Por outro lado, ao dar uma chance a pessoas que não têm condições de competir em igualdade no vestibular, abrir-se-ia a possibilidade de melhorar a vida dessas pessoas e, a longo prazo, melhorar sua autoestima, o que, por tabela, diminuiria até certo ponto o menosprezo e a subestimação dos negros, o que, por fim, diminuiria um pouco o racismo.

Mas, neste sentido, penso que seriam melhor as cotas sociais, que atuariam em cima do fator mais relevante na exclusão da Academia. O vestibular não discrimina a raça do candidato, mas a capacidade de resolver uma prova. O fato de uma pessoa ser negra não diminuiu a possibilidade de ela passar na prova, mas o fato de ela ter estudado em escola pública diminui. Mas as cotas sociais poderiam trazer um complicado dilema: será que elas 1) pressionariam o Estado a melhorar o Ensino Público ou, pelo contrário, 2) fariam o Estado relaxar nesse âmbito? Acho mais provável o primeiro caminho, e seria uma vantagem a longo prazo das cotas sociais.

Dito tudo isso, eu acho sim que poderiam haver cotas raciais em determinados contextos, mas não na Universidade. Existe racismo. Este precisa ser combatido. Mas há muitas outras formas, diretas e indiretas, de se fazer isso que não o acesso à Academia.

É comum ouvir comparações com os EUA, que teve uma história de escravidão em comum com o Brasil em muitos aspectos. Em geral compara-se a especificidade das relações “raciais” no Brasil a dos estados do Sul dos EUA, onde a discriminação contra o negro foi legal até o fim dos anso 50. São poucos os que lembram que a situação do negro nos estados do Norte, que assim como o Brasil, não conheceu leis raciais. Lá, como aqui, a discriminação se dá a partir das praticas sociais, na seleção para uma vaga de emprego, na recusa a alugar um imóvel, entre outras. Não foram as leis raciais, já que elas não existiam no Norte, que induziram a formação de bairros negros em Nova Iorque ou Boston, e sim a precária situação econômica dos negros, que os impedia de morar em bairros melhores. Nas grandes cidades brasileiras também existem bairros de negros e bairros de brancos. Só não existe a placa.

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

Bebedouros segregados na Carolina do Norte em 1950

É preciso averiguarmos a real/atual situação brasileira, bem diferente da norte-americana. Não só pelas histórias diferentes das duas nações, mas principalmente porque não podemos generalizar o “racismo norte-americano” ou o “racismo brasileiro”. As manifestações do racismo no Brasil variam de região para região, de estado para estado, de cidade para cidade, de classe social para classe social, entre a zona urbana e a rural, e muitos outros recortes possíveis.

Provavelmente a violência simbólica e não-simbólica contra negros motivada por racismo na Bahia, onde há uma população negra muito numerosa, seja proporcionalmente menor do que no Rio Grande do Norte, onde há poucos negros, a maioria pobres da zona urbana ou agricultores da zona rural (uma minoria mesmo, no sentido político-social da palavra). E as formas como o racismo afeta as pessoas também vai variar com a região. Não posso apresentar nenhum dado específico, só estou especulando, mas penso que não estou dizendo nenhuma besteira. O fato é que, para situações diferentes de racismo, deveria haver soluções diferentes.

Quanto à comparação com os EUA, é preciso lembrar o trabalho de Bourdieu e Wacquant, “Sobre as Artimanhas da Razão Imperialista”, onde os autores apontam para a importação de modelos de ação afirmativa, de países como os EUA por países como o Brasil. Não devemos esquecer isso, para construirmos políticas antirracistas que se adéquem a nossa realidade.

Muitas pessoas defendem a adoção de cotas sociais, com toda razão, mas as cotas para quem se declara negro ou indígena tem um significado diferente. Não deixa de ser social, evidentemente, mas tem por objetivo acelerar a ascenção de mais brasileiros negros à classe média e a formação de negros em áreas onde sua presença é muito pequena ou quase insignificante, como a Medicina, a Engenharia, e tantas outras. O que aqueles que defendem as cotas pretendem é que o Brasil tenha uma classe média tão “colorida” como suas ruas. Claro que só garantir o acesso à Universidade não basta, é preciso dar condições para que o aluno continue no curso até o fim. Para isso, aprovar ajuda financeira ao estudante com dificuldades para se manter é fundamental.

Um outro problema que vejo na “colorização” das classes mais favorecidas é que ela se faz numa perspectiva que não critica a própria estrutura de poder de nossa sociedade. Há uma estrutura social, econômica, cultural e política baseada na desigualdade de grupos (sociais, raciais, seja lá o que for, o fato é que há desigualdade), e as cotas não atuam na mitigação ou erradicação dessa desigualdade, mas a mantém, só mudando a composição de cada grupo. (Não adianta colocar um mendigo no trono do príncipe; a monarquia continua existindo.)

Mas as cotas, embora mantenham a ordem social vigente, poderiam ter resultados positivos a longo prazo. Como disse acima, o menosprezo a e a baixa autoestima dos negros e pobres poderiam diminuir e os preconceitos raciais e/ou sociais também diminuiriam.

No entanto, repetindo o que disse acima, a “raça” não dificulta a entrada de alguém na Universidade, o que dificulta é sua formação. Se devemos dar uma chance a um grupo, deveria ser aos pobres que frequentam a escola pública. Acho que seria negativo criar uma situação tal em que seja possível a um branco pobre que conseguiu, por esforço próprio, tirar uma ótima nota perder a vaga para um negro rico que não estudou e tirou uma nota medíocre.

Quanto ao ensino público brasileiro, bem, é uma tragédia. Apesar das melhorias significativas apontadas pelos índices do MEC em quase todos níveis, ele vai precisar melhorar muito, mas muito mesmo, para ser considerado ruim. É lembrar que só recentemente alcançamos a universalização do acesso ao Ensino Fundamental. Hoje, segundo estatisticas do MEC, 97% das crianças dentre 6 e 12 anos estão na escola. Mas esses números não são motivo de comemoração. Metade dos estudantes brasileitos deixa a escola antes de terminar o 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série), e só uma minoria,entre 20% e 30% conclue o Ensino Médio. Estes são os privilegiados, que apesar das dificuldades, da precariedade da escola pública (e de suas próprias condições de vida), dos professores sobrecarregados e mal pagos, podem concorrer a uma vaga no Ensino Supeior. Se a realidade fosse outra não precisaríamos estar aqui discutindo sobre cotas.

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Criança sergipana trabalhando (www.jornaldacidade.net/)

Pois é, ainda há muito o que melhorar. E é necessário sanar o problema da impermanência na escola, para que mais e mais crianças pobres, negras, indígenas, ciganas etc. tenham mais chances de chegar à Universidade… agora estou me dando conta de um outro problema relacionado ao acesso à Universidade: boa parte das crianças negras/pobres nem chegam a fazer o vestibular, pois nem chegam ao final do segundo grau.

Um fato que pouco se discute é que a formação fundamental formal não é um índice totalmente confiável da vocação acadêmica. Há muitos graduandos que, embora tenham tirado boas notas no vestibular, são universitários medíocres. E há aqueles que não têm condições de resolver a prova do vestibular com eficácia mas, tendo a chance, se mostram excelentes acadêmicos. Esse é um tema que devo retomar em outro post.

Esse é um tema que não se esgota. Na verdade, teria muito ainda pra escrever, mas já precisei cortar várias partes desse comentário para deixá-lo um pouco menor.

Sem problema. Sempre haverá oportunidades para pincelarmos alguma coisa sobre esse extenso tema.

Comentário de AmBar Amarelo

Thiago, sou CONTRA as cotas RACIAIS, e vou além: sou contra a identidade racial no Brasil (que não seja a brasileira).

Também sou contra a manutenção das identidades raciais. O ideal antirracista que eu defendo é a ideia de que só existe uma identidade humana. Neste sentido, vou ainda mais além de você, pois uma “identidade brasileira” não deixa de ser um tipo de identidade racial. Ainda neste caminho, sou favorável a um cosmopolitismo e um antiufanismo.

Gostaria de adicionar a discussão (por mais lenha na fogueira) que a própria idéia de “LIBERDADE-ANTE-ESCRAVISTA” é Européia (corrija-me se eu estiver errado). Tanto Europeus quanto Africanos possuíam seus próprios escravos. Porém estudos sugerem que até nos Quilombos havia escravidão entre Africanos de diferentes etnias.

Não que o senso de LIBERDADE , IGUALDADE e FRATERNIDADE seja exclusivamente europeu. Qualquer um que esteja preso terá senso de liberdade. Porém quem implantou isso no mundo foram eles!

Já que me pediu para corrigi-lo, o correto é antiescravista :P. Sim, os europeus impuseram, motivados por seus próprios interesses mercantis, o fim da comercialização de pessoas e, por tabela, o fim da escravidão. Mas isso não foi necessariamente inspirado por ideais humanistas (liberdade, igualdade, fraternidade).

Os negros ainda foram durante muito tempo considerados inferiores e com menos direitos do que os brancos (ainda há pessoas que pensam assim, nos EUA, no Brasil e muitos outros países da América). Embora estes não pudessem mais transformar aqueles em mercadorias, continuavam tendo que “aturar” sua presença.

Se hoje consideramos a escravidão como algo brutal é porque os europeus impuseram isso ao mundo (não que no desenrolar a História outra civilização não pudesse fazer isso).

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Amistad (1997), de Steven Spielberg

Dito isso, eu pergunto: e daí se foram os europeus que impuseram o antiescravismo? Por que lembrar isso com tanta ênfase? Por que insistir em que os africanos praticavam escravidão? Por que lembrar que os quilombolas tinham escravos?

Talvez se faça isso para relativizar a acusação de que os brancos são sempre algozes e de que os negros são sempre vítimas (o que fiz na primeira parte deste texto). Mas daí eu também me pergunto: isso é tão relevante assim? Dar crédito aos brancos que desenvolveram os ideais humanistas não diminui a gravidade da escravidão de negros por brancos. Lembrar que os negros tinham escravos não diminui o sofrimento sofrido por aqueles que estiveram no cativeiro.

Enfim, essas informações só são importantes para compreendermos como se deu a História humana e para evitarmos os erros cometidos no passado. Mas o importante em relação ao racismo na atualidade é entendermos como se dão hoje as relações raciais, de preconceito étnico, de desigualdade social etc. Procurarmos formas de resolver essas desigualdades entre os seres humanos contemporâneos. Afinal, há brancos pobres que descendem de famílias nobres e não sofrem menos por causa dessa ascendência. E há negros ricos que descendem de escravos e não necessitam de ações afirmativas para viver na liberdade de seus direitos.

Quanto ao fato das relações sexuais que desencadearam a miscigenação: Será que foram apenas estupros? Então todos os mestiços do Pará são frutos de índios estuprados? CLARO QUE NÃO!

Lembremos de um ditado popular: “A pobreza aproxima as pessoas”. Agora imagine um sertanejo “português” esquecido nos desertos do nordeste, junto a ele uma negra “africana” compartilha de seu sofrimento (FOME, SEDE). Ambos não podem se apaixonar?

A grande pergunta: TODA MESTIÇAGEM BRASILEIRA FOI FRUTO DA VIOLÊNCIA?

É difícil de crer.

Você tem toda razão, AmBar. A mestiçagem não foi fruto só da violência. Aliás, duvido que a maior parte dela tenha sido gerada por meios violentos. É um exagero dizer que toda a mistura se deu pela violência sexual dos colonizadores sobre as colonizadas e escravizadas, e é exagero afirmar que as relações entre senhores brancos e escravas negras era, em larga escala, consensual.

As cotas sociais teriam o mesmo impacto positivo que as raciais, com a vantagem de não promover a identidade racial, que, ao meu ver, é um negro se achar africano e um branco se achar europeu.

Eu discordo em alguns pontos. Como expus acima, penso atualmente que as cotas sociais seriam mais vantajosas do que as raciais no acesso à Universidade.

Quanto à identidade racial, ela não se dá necessariamente com a assunção de uma identidade africana ou europeia. As identidades raciais já existem sem essas referências geográficas de origem ancestral. É só olharmos ao nosso redor e percebermos com que facilidade nós identificamos os brasileiros como “negro”, “branco”, “japa”, “alemão”, simplesmente em referência ao fenótipo e sem nem pensar em quem eram seus ancestrais  de além-mar. É uma identidade racial que muitas vezes pode não ter grandes implicações. Às vezes pode.

Repetindo o que eu disse acima, tenho um ideal cosmopolita. Ser brasileiro não é mais importante do que ser alemão ou nigeriano ou coreano ou argentino. Seres humanos não têm raízes (e nem deveriam se dividir em raças, Eduardo). Se alguém quer se considerar “africano de alma” ou “europeu de coração”, por afinidade, acho que ela tem total liberdade.

Mas (e nisso concordo em certo sentido com AmBar) a intenção de se impor uma identidade em termos de uma origem extracontinental (o que se reflete em expressões como afro-brasileiro, ítalo-brasileiro, nipo-brasileiro etc.) é justamente uma violação da liberdade individual de cada um escolher sua própria identidade, baseada em suas próprias experiências e afinidades particulares.

Quanto a dívida histórica eu pergunto: Mostrem-me os culpados!!

Negrinho da beija-flor é 80% europeu!!!! ele é 80% CULPADO!!

Todos os mestiços brancos são culpados? então a culpa é um fator aleatório.

Como já disse na primeira parte, procurar culpados é uma tarefa improfícua e irracional. Precisamos superar a mentalidade antiquada de justiça, segundo a qual uma compensação para alguém tem que implicar necessariamente na privação de outro. Acho que é possível para o Brasil conceder compensações sem precisar prejudicar alguém. Há recursos suficientes para promover uma revolução da sociedade brasileira, mas… o dinheiro se concentra nas mãos de quem governa, de quem trabalha para manter seus exorbitantes salários e, se possível, aumentá-los.

Devemos buscar o ideal de um país onde a mistura seja algo positivo e a negação à mistura seja algo terrivelmente negativo. E para que isso ocorra devemos acabar com essa mentira de identidade racial em um país mestiço.

O ideal da identidade mestiça contém um paradoxo: a mistura pressupõe que há pelo menos duas coisas diferentes que deram origem a um híbrido, ou seja, se baseia na pré-noção de que há raças e de que o mestiço é uma interseção dessas raças. O ideal que defendo é a desconstrução de qualquer conceito de raça. Portanto, acho que ainda é limitado o ideal mestiço.

Assumir a mistura e viver segundo a ideia de que somos todos mestiços seria bem melhor do que vivermos sob a égide da segregação identitária. Mas acho que seria ainda mais evoluído considerarmos que não existe mistura por que não existe diferença. Um humano de pele escura e uma humana de pele clara dão origem a um humano.

Todos os indivíduos humanos são mestiços porque são resultado do cruzamento entre dois indivíduos, e nenhum indivíduo é igual a outro. Cada um de nós é uma raça, o que nos torna todos iguais.

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O sexo do cérebro

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Ontem o texto Resposta a um Comentário foi comentado por alguém que se identificou como Lisandro Hubris. Ele deve ter errado ao digitar o endereço de seu site, mas aparentemente quis deixar registrado http://ateus.net (Ateus.net). Numa busca, constatei que ele é um usuário do fórum do referido site e está escrevendo um livro ateísta.

Resolvi não responder diretamente na seção de comentários por dois motivos: porque ele fugiu do assunto e porque minha resposta ganharia as proporções de um post. Dessa forma, venho escrever uma réplica, tendo em vista que a questão sobre a origem do comportamento sexual é um emaranhado de dúvidas e controvérsias.

Em suma, o comentário de Lisandro é apenas uma afirmação de que a homossexualidade é um comportamento determinado pela biologia, ou seja, é inato. É um comentário que não cabe na discussão iniciada por mim em Homossexuais ainda na mira da Inquisição, onde discorri sobre o casamento homossexual, mas trouxe de volta alguns questionamentos que eu apresentei num dos primeiros posts deste blog: De neurônios, sexo e sexualidade.

Já se nasce homossexual!

Já está provado que, a origem da homossexualidade é biológica…

Pois em 1991, uma pesquisa sobre homossexualidade e neurociência feita por Simon Le Vay, do Instituto Salk da Califórnia, EUA.

O mesmo onde Torsten Wiesel e David Hibel verificaram que a região do cérebro envolvida na regulagem do comportamento sexual é comandada por um substrato biológico da orientação sexual.

E que determinados impulsos sexuais, dos homossexuais são anatomicamente diferentes dos impulsos dos heterossexuais.

Deixou claro que, já se nasce homossexual.

Lê Vay comprovou que o NIHA-3 é grande em homens hetero e em mulheres homo, (ou seja, nos indivíduos que têm uma predisposição sexual para ter relações com mulheres) e pequeno nas mulheres heteros e homens homos (nos indivíduos com alguma orientação sexual para ter relações com homens).

A primeira coisa que Lisandro faz é afirmar que “já se nasce homossexual”. Logo em seguida, faz referência a uma pesquisa de 1991 que mostrou que determinada área do cérebro é semelhante entre pessoas que têm preferência sexual por homens (sejam essas pessoas homens ou mulheres) e entre pessoas com preferência sexual por mulheres (idem). A conclusão precipitada, como em muitas pesquisas desse tipo, é a de que uma característica biológica determinou um comportamento.

A origem do comportamento homossexual é um assunto controverso e há estudos nas mais diversas áreas da Ciência apresentando as teorias mais díspares. A Psicanálise, por exemplo, diz que o indivíduo nasce sem orientação sexual definida, e pode desenvolver qualquer gosto, de acordo com sua história pessoal e com a influência do meio.

O complicado na afirmação de que “a observação do cérebro prova que a homossexualidade é biológica” é assumir de antemão que as pessoas pesquisadas já nasceram com o cérebro assim. Quando o Homo sapiens interage com o ambiente, seu cérebro sofre estímulos e se modifica. Poderíamos supor, por exemplo, que um garoto que desenvolveu atração por outros garotos, devido a alguma particularidade dos episódios de sua infância, desenvolveu um cérebro cujo NIHA-3 é parecido com o das mulheres que gostam de homens. O delas também teria ficado assim pelo mesmo motivo.

De modo que a afirmação de que “orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo” poderia ser invertida: a biologia do indivíduo depende da sua orientação sexual.

Os ateus, em geral, são loucos por Ciência. Para mim, é salutar buscar na Ciência uma compreensão mais aproximada da realidade, e é muito superior nesse sentido do que a Religião. Mas uma cienciomania pode levar a uma um entusiasmo cego.

NIHA-3 significa, Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior.

E no caso em tela, o mesmo é denominado de “03”, porque também existe o NIHA 01,02 e 04. Que são as estruturas do hipotálamo que regulam a fome, a sede, as funções sexuais, a temperatura e certos hormônios.

Lisandro mostra com entusiasmo seus conhecimentos triviais a respeito do cérebro, e acaba caindo em alguns erros muito comuns entre os cienciomaníacos:

  1. Considerar como ciências somente as exatas e/ou naturais, ignorando muitas vezes o que as ciências humanas dizem a respeito desses assuntos;
  2. Fiar-se na Ciência como uma verdade absoluta, o que a Ciência essencialmente não é (em oposição aos dogmas religiosos). Daí decorre uma postura comum na cienciomania, que é expressa em frases do tipo “já está provado que…” ou “a Ciência já provou”.

Esquece-se ou se ignora a epistemologia mais contemporânea, para a qual a Ciência é uma aproximação da realidade e não uma descrição exata, além do que todas a teorias são passíveis de refutação.

Essas pesquisas normalmente deixam uma lacuna: como explicar os bissexuais? Como é o cérebro deles? Como é o cérebro de um pansexual? Como se dá isso em sociedades nas quais o comportamento bissexual é instituído socialmente, como era o caso da Roma antiga? Os romanos já nasciam bissexuais?

Embora Lisandro não tenha deixado claro o que pensa moralmente sobre a homossexualidade, deixou escapar um preconceito:

Lê Vay pesquisou o tecido cerebral de 41 indivíduos.

entre eles haviam 19 homens comprovadamente gays; 16 homens heterossexuais e 06 mulheres normais. [grifo meu]

Não ficou bem entendido, num comentário que buscou ser isento, o que significa uma “mulher normal”.

A conclusão do Dr. Le Vay foi que “O NIHA-03 exibiu dimorfismo”.

Ou seja, o aparecimento de duas formas diferentes, dentro de um mesmo grupo.

Pois o NIHA-03 dos homossexuais era duas vezes mais volumoso do que o dos heteros.

A descoberta de que entre os heterossexuais e os homossexuais, um núcleo difere em tamanho.

E aparece de duas formas características.

Indica que a orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo.

Sendo bem racional, a única coisa certa que se pode tirar da pesquisa e Le Vay é que, aparentemente, certo dimorfismo do cérebro coincide com uma variação e comportamento. Mas a conclusão peremptória de que , obviamente, a biologia (o cérebro) determinou um comportamento é uma postura pseudocientífica.

Além dos genes de gêmeos idênticos, apresentarem uma possibilidade acima da média dos mesmos compartilhar a mesma orientação sexual.

O homossexualismo independe da raça e da origem do individuo.

Pois cerca de 5% da população é homossexual.

A orientação sexual dos recém – nascidos adotados tem pouca relação com a dos seus pais adotivos.

E mais de 90% dos recém-nascidos adotadas por casais gays são heterossexuais.

Como nos gêmeos idênticos, a probabilidade deles compartilharem à mesma orientação homossexual é superior a 50%.

Enquanto, nos pares aleatórios de indivíduos a média está abaixo de 8%.

Algo que fica pouco claro é se essa teoria neurológica considera que o aspecto do cérebro determina ou influencia. Se for considerada a estatística de que os gêmeos tem grande probabilidade de ter a mesma orientação, então não há determinismo, o que nos faz perguntar: o que faz com que dois irmãos gêmeos não compartilhem a mesma orientação sexual?

Pode ser a história pessoal de cada um deles. Mas podemos também considerar outra hipótese: não é a genética idêntica que influencia nessa probabilidade, mas as condições mesológicas parecidas e a nossa tendência a considerar os gêmeos como se fossem a cópia um do outro, o que pode gerar uma confusão identitária em ambos. E aí cabe uma pergunta muito pertinente: como são os cérebros de dois irmãos gêmeos que têm orientação sexual diferente entre si?

Finalmente, chegamos ao trecho que tem alguma pertinência na discussão sobre o casamento homossexual: a orientação sexual dos filhos de um casal homossexual. Talvez seja esse o ponto a que Lisandro quis chegar ao introduzir o tema da origem biológica da sexualidade.

E acho que toda essa argumentação biologista é sofisma. Primeiro, porque as estatísticas mostram que a orientação sexual de um indivíduo independe daquela dos adultos que o criaram; se isso se dá por fatores genéticos ou sociais ou psíquicos ou físicos pouco importa, e é uma resposta que ainda não foi respondida.

Em segundo lugar, dar tanta importância a esses dados é admitir que a homossexualidade e as famílias diferentes da tradicionais são problemáticas, ou seja, é se manter ainda numa mentalidade conservadora que não se alinha com uma postura libertária, que, penso eu, a Ciência e o ateísmo buscam.

As evidencias indicam que a orientação sexual tem uma base genética.

E demonstram que o caráter e as características individualizadas de uma pessoa não são enraizados pelo meio ambientes em que a mesma vive.

Ademais, é preciso separar ainda algumas coisas dentro da própria Biologia: não é tão forçosa assim a relação entre cérebro (órgão biológico) e genes. Afinal, no âmbito biológico, não é só a genética que influencia nas características físicas de um indivíduo. Os hábitos da mãe durante a gravidez precisam ser considerados, o clima no qual se vive e as reações do organismo àquele. Há inúmeros aspectos fisiológicos que são adquiridos durante a gestação do novo ser vivo e não são determinados pelas cadeias de DNA.

Não quero levantar a bandeira do sociologismo e afirmar que tudo é social, contra o biologismo que afirma que tudo é biológico. Deve haver influências de vários tipos no comportamento das pessoas. A própria dificuldade de as ciências dialogarem abertamente entre si impede que tenhamos claro o que realmente está em jogo na constituição de cada indivíduo. Porém, é importante levantar questionamentos acerca de cada argumento apresentado, propondo outras interpretações dos mesmos fatos.