A alma dos robôs – parte 2

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Desde as histórias de estátuas que ganham vida, passando por bonecos de madeira e robôs que desenvolvem consciência e sentimentos, a fantasia da passagem do inanimado para o animado está muito presente nos mitos, na literatura e no cinema. Por que os seres humanos são fascinados por personagens robóticos que buscam se tornar humanos? O que há neles com que nos identificamos tanto?

Além disso, por que essa fantasia do robô tornado humano extrapola para histórias em que as máquinas se tornam uma ameaça à humanidade, subjugando-a e invertendo os papéis do dominante e do dominado? Porque, enfim, sentimos um misto de medo e simpatia pelos robôs revoltosos, que são apenas máquinas inanimadas que deveriam servir aos seus criadores?

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O Big Brother está de olho em você…

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O programa Big Brother Brasil (BBB) chega à sua 11ª edição, e quase todo mundo está de olho nele. Grande parte dessas pessoas assiste ao “reality show” 1 mas diz que não gosta. Afinal, quem não vê o BBB não consegue acompanhar grande parte das conversas nos intervalos do trabalho, da escola ou da universidade, não tem condições de participar das fofocas cotidianas.

Todo mundo sabe que o título desse infame e adorado programa é baseado num livro. “É de Admirável Mundo Novo, né?” 2 Chegou perto, mas não, não é do famigerado romance de Aldous Huxley. Ele vem de outra ficção científica distópica: 1984, de George Orwell. E ironicamente o programa e o livro não têm nada e ao mesmo tempo têm tudo a ver um com o outro.

O programa de TV monta uma situação em que várias pessoas se confinam numa casa para disputar um prêmio, que será recebido pelo participante que não for eliminado pela audiência. O Grande Irmão (Big Brother), que vigia, pune e recompensa, não é representado apenas pela figura antipática de Pedro Bial, única pessoa que conversa diretamente com os ocupantes da casa. Se no livro de Orwell os vigilantes por trás das câmeras são uma equipe pertencente ao Núcleo do Partido único, no programa da Rede Globo quem vigia e julga são seus milhões de telespectadores.

1984, de George Orwell (Companhia das Letras)

1984, de George Orwell (Companhia das Letras)

A grande diferença é, portanto, que em 1984 toda uma sociedade é autovigiada e qualquer pessoa, mesmo um parente ou amigo seu, pode denunciá-lo por pensar e/ou agir de modo subversivo, entregando-o à Polícia das Ideias para a adequada punição, segundo regras rígidas e estabelecidas pelo Governo. No BBB, as pessoas que são julgadas, recompensadas e punidas estão num jogo “inofensivo” e é o povão quem decide que comportamentos são reprováveis e quais merecem recompensa, o que pode, por exemplo fugir totalmente das regras morais pregadas explicitamente pela maioria das pessoas.

O Grande Irmão de 1984 é o símbolo do totalitarismo, do poder e controle absolutos sobre uma população (em toda a parte da Oceânia se encontram cartazes com a foto do Grande Irmão e os dizeres: “O Grande Irmão está de olho em você”), 3 que serve para manter uma ordem social rígida. O socing (socialismo inglês), regime da sociedade retratada em 1984, não pode prescindir de pessoas obedientes que trabalhem pelo e para o Partido, com o objetivo de manter o poder deste e de manter todo o resto da sociedade amarrada por grilhões. O objetivo maior desse regime é integrar ao máximo toda a população, evitando como puder qualquer desvio e garantindo total obediência.

O Grande Irmão do BBB está ali apenas para classificar o vencedor de um jogo e eliminar todos os outros. Os “brothers” não servem para nada no contexto da casa e do show em si, e o objetivo da brincadeira é esvaziar a casa. Não há ordem nenhuma a ser mantida nessa casa, tendo em vista que as regras podem mudar a cada dia, com a eleição periódica de um líder entre os participantes.

Dito isso, vemos que o Big Brother Brasil não tem nada a ver com o Grande Irmão desenhado por Orwell. Mas, se olharmos de outra forma…

Toda a população da Oceânia, em 1984, vive diariamente os Dois Minutos de Ódio. Como as teletelas (aparelhos que são ao mesmo tempo televisores e câmeras) estão por toda a parte, todo mundo se posta diante de uma delas num horário pré-estabelecido, para ouvir sobre Goldstein, o traidor da Revolução, e proferir impropérios contra ele ao mesmo tempo em que se louva o Grande Irmão. Isso também serve como cultivador de uma mente coletiva, com a repressão de qualquer individualidade.

Se o BBB não faz isso com os vigiados que estão dentro da casa, o faz com os telespectadores. Todos os dias, milhões de pessoas param diante de televisores para ver o programa, escarnecer dos “brothers” mais impopulares e louvar os seus favoritos. Cria-se assim um conjunto de assuntos para discutir com os familiares e amigos, e durante toda a duração do programa o BBB desponta como o assunto da moda, sobre o qual todos conversam, seja para atualizar a situação dos “habitantes” da casa, seja para falar mal deles.

Outro efeito parecido é representado em 1984 pelo conceito de duplipensamento. Trata-se de uma forma de pensar paradoxal, pelo qual as pessoas controlam seus próprios pensamentos de acordo com os ditames do Partido. Ao duplipensar, você sabe que tudo piora a cada dia, mas é forçado a crer que as coisas nunca estiveram melhores. Você sabe que a história é modificada o tempo todo pelo Grande Irmão, mas sua mente se esquece disso. Você é ao mesmo tempo consciente e inconsciente da dominação que sofre no seio dessa sociedade autoritária. Você sabe que as coisas poderiam ser diferentes, mas acredita que elas são imutáveis. Ou seja, os mecanismos de controle usados sobre você para criar obediência cega são internalizados por você mesmo para que você se esqueça que foi adestrado.

Há um paradoxo semelhante na conduta dos telespectadores do BBB. Muitas pessoas consideram o Big Brother Brasil um programa fútil, mas não deixam de assistir a ele. O próprio programa parece provocar, de propósito, os pudores dos telespectadores, fazendo-os taxar esse programa de “indecente”, “perda de tempo”, “bobagem”, “coisa sem futuro”… Mas eles só dizem essas coisas porque conhecem o programa, e justificam de várias formas essa contradição, ou alegando que precisam conhecer para criticar (sem se perguntar se é realmente preciso criticá-lo), ou dizendo que “não há mais nada para ver na TV mesmo…”

Cria-se assim uma necessidade supérflua a que todos aderem, um programa alimentado pela opinião dos que a ele assistem 4 e que, dessa forma, se aprimora de acordo com o que o que pensam que querem ver. A Rede Globo é como o Grande Irmão, observando você, suas opiniões sobre os “brothers” e aquilo que você gostaria de ver no programa. Mas ao mesmo tempo esse Grande Irmão lhe diz o que você quer ver, para desviar sua mente do pensamento crítico e manter sua hegemonia midiática.

Portanto, lembre-se, o Big Brother Brasil está de olho em você.


Notas

  1. Para não citar aquelas pessoas que acham que “Big Brother” é o nome do livro que inspirou o show.
  2. Não existe reality show. A não ser que se colocassem câmeras para acompanhar o dia-a-dia de pessoas que não sabem que estão sendo filmadas. Qualquer pessoa colocada entre as paredes de uma casa isolada e repleta de câmeras não pode agir naturalmente. Winston, protagonista de 1984, sabe muito bem que a teletela montada em seu apartamento não é só um televisor, mas uma câmera, e todos os seus mínimos movimentos e gestos, toda e qualquer palavra murmurada serão vistos e ouvidas pelo Grande Irmão, que espera dele uma obediência baseada não no medo de ser punido, mas numa convicção cega e burra.
  3. No original, “Big Brother is watching you”, frase que tem sentido ambíguo: tanto pode significar que o Grande Irmão está cuidando de você quanto pode querer dizer que ele o está vigiando para punir qualquer desvio. Assim também, o BBB cria a ilusão de estar dando ao público o que ele quer, ao mesmo tempo em que tira desse mesmo público a fonte de sua manutenção, ou seja, a audiência.
  4. Ao menos é o que todos pensam, tendo em vista as suspeitas de manipulação dos resultados dos votos do público. O que torna o BBB ainda mais parecido com 1984, onde se descreve uma manipulação através de notícias falsas e tendenciosas, nas quais todos são forçados a acreditar.

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