Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista

Padrão

A Ficção Científica, como outros tantos gêneros da Literatura, do Cinema e das série de TV, está impregnada dos valores arraigados na cultura em que prolifera. E isso implica na reprodução de etnocentrismo, racismo, sexismo e heteronormatividade.

Pensando nisso, as escritoras Lady Sybylla e Aline Valek organizaram uma coletânea de contos que fogem desse padrão. Focando especialmente na desconstrução dos papéis de gênero tradicionais tão presentes na ficção científica (e também tocando em outros temas relacionados à diversidade humana), as autoras e autores que participaram da coletânea exploram os limites libertadores dessa literatura, que em essência pode extrapolar a realidade e imaginar um mundo melhor, um universo livre de discriminação e preconceito, ou que pode servir para explorar alegorias fantásticas da nossa realidade ainda androcêntrica e misógina.

O livro é distribuído gratuitamente através do site oficial (http://universodesconstruido.com/), em formatos EPUB (Kobo), MOBI (Kindle) e PDF,  e pode ser comprado em formato físico no Clube dos Autores.

A seguir, faço uma apreciação de cada um dos contos presentes na coletânea, tentando não revelar pontos importantes da trama (spoilers), ao mesmo tempo trazendo minha interpretação para quem já leu e procurando instigar a leitura para quem ainda vai ler.

“Codinome Electra”

O conto que abre a coletânea, escrito por Lady Sybylla, narra eventos de um futuro distante. Há uma guerra entre dois povos, os humanos e os magojins, e a sucessão de eventos da trama é desencadeada pela captura de um magojin por uma mulher chamada Electra. Quando surge enfim a oportunidade de os humanos, que habitam o planeta Klaten, entenderem quem são seus inimigos, o governo de Klaten decide acobertar qualquer informação que tivesse sido coletada e impedir a continuidade desse plano.

Major Electra é dispensada pela coronel Vieira, sua superiora, e decide descobrir a verdade sobre os magojins, mesmo que isso represente um risco para si mesma. As revelações que se seguem mostram que há uma relação entre humanos e magojins mais significativa do que se acreditava, e passamos a entender uma série de elementos do conto até então.

O trio de personagens que protagonizam o primeiro ato do conto é muito significativo para se entender o caráter subversivo de “Codinome Electra” e Universo Desconstruído. São três mulheres, uma guerreira (Electra), uma líder (Vieira) e uma médica (Alvarez). A princípio, a “insistência” da autora em apresentar de cara três mulheres em papel importante pode ser um incômodo para muitos leitores homens (e é bom que seja), e essa escolha tende a ser vista como típica de “histórias para mulheres”. Mas é uma escolha proposital e acertada, que nos informa do que realmente se trata o livro: uma quebra de paradigmas. Afinal, não é nada incomum encontrarmos dezenas e centenas de histórias de ficção científica cujo grupo de protagonistas é todo formado por homens.

Vide o emblemático triunvirato de Star Trek, Kirk, Spock e McCoy, três homens (que, na minha leitura, parecem ter inspirado as três mulheres do conto). Mesmo a grande capitã Kathryn Janeway, de Star Trek: Voyager, possui um imediato homem, e é muito difícil encontrar space operas que tenham apenas mulheres como protagonistas (embora seja fácil encontrar grupos exclusivamente masculinos ou nos quais as mulheres, quando presentes, ocupam papel secundário).

Ao longo do conto, vamos nos deparando com mulheres em posições de poder, negros e brancos convivendo em igualdade, bissexuais vivendo sua sexualidade em paz e transexuais plenamente aceitos como iguais em suas identidades, e nos perguntamos como essa sociedade futurista conseguiu se transformar em tudo o que as histórias de ficção científica negaram fazer. “Codinome Electra” é um ponto alto e importante da literatura brasileira de ficção científica.

“Quem sabe um dia, no futuro”

Neste instigante monólogo, da autoria de Alex Luna, somos apresentados a um futuro em que a humanidade resolveu diversos problemas sociais com o uso de robôs, que passaram a realizar todas as atividades braçais. Tornaram-se, enfim, escravos (que é, a propósito, o sentido próprio da palavra robô).

Nas reflexões que a protagonista faz, compreendemos o que sente o ser oprimido diante da impossibilidade de se rebelar. Embora na sociedade pseudoutópica que é o cenário do conto não haja mais desigualdade de gêneros, na nova ordem as angústias das mulheres se repete nas mentes do novo contingente dominado.

A forma como se desencadeia o monólogo vai revelando aos poucos do que se trata essa realidade, fictícia quanto aos fatos, realista quanto à mensagem: não importa quanto tentemos mudar as sociedades humanas, só haverá uma verdadeira revolução quando a estrutura de dominação for desconstruída, quando as mudanças deixarem de ser apenas a dos atores que ocupam os papéis pré-estabelecidos. Estes é que devem ser reconstruídos.

Apreender esta mensagem é importante para se compreender a proposta feminista da coletânea. Não se trata da caricatura propagada pelo discurso tradicionalista, a das feministas que querem inverter os papéis da dominação sexista. Trata-se, isso sim, de construir uma estrutura social em que não haja desigualdade baseada no sexo/gênero dos indivíduos (tampouco sua etnia, “raça” ou orientação sexual).

“Uma terra de reis”

Confesso que tive que ler duas vezes o conto de Dana Martins para entender a trama. É como se tivesse sido escrito num jargão futurista, com abreviações de palavras (especialmente dos nomes próprios, alguns dos quais remetem à mitologia hindu) e de frases, e exigiu de mim muita atenção para compreender o que não estava dito explicitamente. O ritmo frenético de história de ação também demandou paciência, pois não estou acostumado com esse tipo de literatura. Mas depois da segunda leitura entendi melhor a proposta e achei bastante interessante.

Num mundo controlado por grandes corporações, uma epidemia fora de controle se torna fonte de enriquecimento para uma indústria, que comercializa a cura apenas para quem pode pagar por seu caro preço. Um grupo de rebeldes está tentando roubar o remédio para distribuí-lo entre a população excluída. Ou seja, a história é de forma geral uma crítica sócio-econômica.

Sua inserção na coletânea de contos feministas se justifica, em primeiro lugar, pelo fato de Maya, a protagonista e narradora, ser feminina. Além disso, ela não é humana, mas um ser artificial, parecido com os replicantes de Blade Runner. Sua condição de coisa, num mundo que relega os UROs ao papel de escravos, é motivo de constantes queixas por parte dela. Seus sentimentos são, metaforicamente (às vezes literalmente), um reflexo da opressão sofrida pelas mulheres num mundo androcêntrico.

Embora Maya participe ativamente do planejamento e execução das operações de espionagem e guerrilha, ao lado de seu companheiro humano Dev, ela é encarada por muitos como uma ferramenta e um objeto de disputa por parte das diversas forças que se opõem na história. Sua perspectiva reflete a angústia das mulheres reais, que aprendem, da cultura em que estão inseridas, a cultivar anseios e desejos, mas são tratadas como coisas sem autonomia.

Eu me concentro em respirar enquanto eles continuam a falar de mim. As palavras vindo de longe. Os dois continuam combinando o meu futuro.

Vale também mencionar o destaque para a ambivalência do personagem masculino que acompanha Maya. Dev é apresentado como uma espécie de super-herói, muito autoconfiante, destemido, ágil e forte. Mas essa aparente imagem de modelo masculino ideal é contrastada com momentos de dúvida, insegurança e ansiedade, quebrando o estereótipo do machão inquebrável das histórias de ação, mostrando um ser humano com virtudes e fraquezas.

“Meu nome é Karina”

Nesta história de Ben Hazrael, um empreendimento científico que envolve a comunicação com uma realidade alternativa coopta a personagem-título para ser uma “sonda” na outra realidade, assumindo a identidade de sua contraparte para iniciar o processo de transferência das consciências de todo o mundo para seus alter-egos naquela realidade, onde a história seguiu um caminho um pouco diferente da nossa. Porém, a motivação de Karina para ir à outra realidade não coincide com os planos dos cientistas envolvidos no “Projeto Sonda”. Ela anseia por viver uma vida em que é aceita como é, especialmente por seu pai.

Presa desde o nascimento num corpo que não reconhece como seu, Karina não aceita a identidade imposta pela sociedade e por seu pai, com quem sempre teve um profundo conflito. Nesta fábula, a figura paterna aparece como um símbolo que condensa o patriarcado, a ordem androcêntrica controlada pelos homens, o sexismo da rígida divisão sexual do trabalho, a heteronormatividade que mata os “desvios” e a cisnormatividade que castra a autenticidade individual. O pai é ainda um cientista, representando o fato de que o pensamento científico, pensado como libertador, não implica necessariamente em melhor aceitação das diferenças.

Somos capazes, hoje em dia, de enviar astronautas para Marte para construir colônias, mas somos incapazes de apagar preconceitos.

A frase acima é muito significativa pelo fato de não ser apenas uma constatação da personagem-narradora a respeito de seu universo, nem somente uma mensagem do autor sobre o que vivemos na nossa própria realidade. A sentença condensa toda a ideia de Universo Desconstruído, de que por mais imaginativa que seja a ficção científica, em geral ela ainda se mantém presa a valores tradicionais com que só a um grande custo consegue romper.

E esse conto rompe com a tradição, explorando o drama psicológico de uma transexual, uma viagem intimista por seus pesadelos, suas fantasias, os questionamentos sobre seu nascimento num “corpo errado” e seu ingresso resoluto num arriscado projeto científico pelo qual ela tem a possibilidade de ser quem é. Karina, na verdade, coloca a perder o referido “Projeto Sonda” ao dormir – nos braços do pai – na outra realidade, contrariando as recomendações da Dra. Mariza. Assim, ressoando O Homem-Elefante e A.I.: Inteligência Artificial, a protagonista morre se sentindo plena, em paz, tendo finalmente conquistado sua identidade e a aceitação, tão negadas em nossa cultura cisnormativa.

“Eu, incubadora”

Aline Valek nos traz uma história de tribunal e suspense em que duas personagens femininas se encontram no papel de rés. Num cenário pós-apocalíptico e distópico, após sobreviver a um imenso desastre que dizimou grande parte da população,  a humanidade instituiu que os embriões e fetos humanos são pessoas com direitos iguais aos de indivíduos adultos. Isso implica na completa criminalização do aborto, considerado equivalente ao assassinato.

Esse futuro socialmente catastrófico é uma extrapolação prognóstica da atual influência do perigoso discurso “pró-vida” e antiaborto, fomentado por igrejas cristãs e bancadas políticas evangélicas hodiernas. Esse discurso, profundamente atrelado à ideologia da submissão das mulheres e da domesticação de seus corpos, se torna, na ficção de Valek, uma realidade extremamente opressora para as pessoas do sexo feminino e especialmente para todas as mulheres grávidas.

Nessa sociedade, uma rígida hierarquia entre androides (ou Coisas) e seres humanos coloca estes como deuses aos olhos daqueles. As Coisas estão no grau mais baixo da hierarquia social, e veneram a capacidade de gerar vida dos seus deuses. Porém, a vida embrionária é considerada a tal ponto sagrada nessa sociedade que chega a ser mais importante do que a vida da mulher que a carrega no ventre.

Essa realidade constitui um paradoxo existente em nossa própria sociedade patriarcal e misógina: as mulheres se sentem privilegiadas quando estão grávidas e se dedicam à maternidade como a uma carreira que, em princípio, deveria significar a máxima realização individual. As mulheres são supervalorizadas e são bem tratadas nessa condição. Porém, não podem escolher quando engravidar, não se lhes permite abdicar de ser mães e elas têm que assumir todo o trabalho de cuidar dos filhos. Em suma, as mulheres são valorizadas enquanto forem submissas ao restringidor papel imposto a elas socialmente.

Neste cenário, Diana decide abdicar de ser mãe, transferindo seu filho não nascido para o ventre de uma Coisa. A partir daí, uma série de questionamentos é suscitada num grande julgamento, trazendo uma crise para as concepções sobre vida, aborto, liberdade individual e hierarquia social e de gênero – o conto é praticamente todo ele uma reflexão filosófica, aberta e irônica sobre estes temas. Os líderes que impõem e executam as leis dessa sociedade são todos homens, evidenciando a manutenção do controle masculino e a pouca empatia da autoridade sobre a condição feminina em situação de maternidade e de aborto. O título se refere diretamente à condição da Coisa grávida, mas também é uma metáfora para a condição de Diana e todas as mulheres reais que sofrem a violência simbólica desumanizadora de se ver como instrumentos para a procriação, meras incubadoras sem domínio de seus próprios corpos.

(De quebra, a história ainda nos apresenta uma abordagem crítica a respeito das crenças religiosas. Diferente de muitos ateus que consideram que as crenças são mero capricho sem motivação aparente, Valek cria uma fábula em que percebemos que uma religião não surge à toa e tem todo motivo para existir, mesmo que as crenças que a fundamentam sejam arbitrárias, ilusórias e possam servir à dominação de certos grupos por outros.)

“Um jogo difícil”

Leandro Leite nos apresenta Maria, ou 002-b, mais conhecida como Zero Dois, uma mulher estivadora, forte, em posição de chefia em seu setor. Ela chama atenção por ser uma heroína “feia”, diferente de grande parte das supermoças das histórias de ação, mais parecidas com romantizadas supermodelos do que com as mulheres da realidade, tão diversas em suas formas físicas.

Eticamente correta com os indigentes que buscam abrigo nos contêineres de seu setor, ela sofre o preconceito de seus colegas por não seguir o procedimento padrão, que é encaminhar esses invasores à execução. Ela é desprezada por ser “coração mole”, acusação que esconde e revela a misoginia no desprezo à empatia e à compaixão, consideradas uma “fraqueza” feminina. Essa misoginia acaba por demovê-la do cargo de chefia.

Porém, Maria descobrirá que foi demovida do cargo por muito mais do que sua “fraqueza” moral. Num mundo controlado por megacorporações, onde cada cidade é praticamente um conglomerado de empresas, intrigas, conspirações e guerras levam a desaparecimentos e mortes misteriosas. Maria se encontra na condição de bode expiatório e precisa fugir para não ser punida (com a morte) por suposto terrorismo.

Neste futuro distópico, a dominação pelo capital criou uma sociedade controlada por empresas interessadas apenas em enriquecer. A educação se esfacelou em favor de uma cultura consumista. A falta de uma estrutura educacional consistente leva à ignorância sobre conhecimentos científicos e filosóficos. Nesse contexto, todo o avanço que havia sido alcançado pelo pensamento e lutas feministas (e provavelmente de outras correntes libertárias) se perde quase totalmente. A narrativa é, portanto, um pretexto para o autor argumentar a favor da educação como meio de se cultivar mudanças sociais significativas.

Nesta sociedade que regrediu a um machismo violento, uma das únicas formas de Maria se defender do assédio dos homens é pelo uso da força bruta. Mas a violência contra as mulheres é aí bem mais séria do que a violência simbólica e física cotidianas. As mulheres são sistematicamente manejadas como coisas. A mensagem presente nos pensamento e falas de Maria reflete todo o sentido da mobilização da causa feminista, a união organizada daquelas que são as maiores vítimas do machismo.

“Memória sintética”

O conto de Camila Mateus traz as figuras de Marla, Gilvana e Kaira numa São Paulo futurista em que é comum, para os moribundos que têm dinheiro para pagar o serviço, transferir a própria mente para robôs e continuar “vivendo” depois que o corpo biológico deixa de funcionar. Esse conto, à primeira vista, não é sobre temas feministas. As protagonistas são mulheres, mas além disso é uma história policial. Porém, as diversas situações trazem à tona o tema da misoginia e revelam a que veio a autora.

Neste cenário, dois tipos de pessoa sofrem discriminação: transfers (os robôs) e as milenarmente menosprezadas mulheres. Gilvana, funcionária da empresa Skymed, contratada para jogar cadáveres num incinerador, mulher gorda, sabe bem o que é ser alvo de deboches machistas de seus colegas homens.

E não há nada mais cansativo do que essa eterna insatisfação, essa necessidade de agradar aos outros e a si mesma. Escolher entre costurar o ombro de um baleado ou usar o tempo fazendo academia. Ir a pé para o trabalho com o único tênis decente do armário, pra economizar e ajudar os pais ou gastar tudo numa cirurgia a laser para retirar as varizes e secar a barriga.

Também sabe o que sofre uma mulher pobre com poucas chances de realizar seus anseios pessoais, por ser mulher e por ser pobre.

[…] Gilvana Mara já foi mais ambiciosa, queria ser astronauta. Subir lá pros planetas pra procurar algum alien pacífico que queira trocar ideias e não aniquilar a humanidade.

Marla, por outro lado, era engenheira chefe de produção robótica da Skymed. morreu em circunstâncias misteriosas e seu transfer, ainda em processo de recomposição das memórias de sua dona, fugiu adotando o nome Kaira. Sob o ponto de vista de um transfer, Kaira vai passar por situações de preconceito e exclusão que remontam às discriminações sofridas pelas minorias humanas, tendo inclusive sua natureza senciente questionada, ou seja, sendo desumanizada. Esse é um tema crucial no conto, o questionamento sobre a natureza da consciência, a pergunta sobre se um clone com as mesmíssimas memórias que o indivíduo original pode ser considerado uma cópia de sua individualidade.

O conto nos descree um cenário em processo de mudança, tendo em vista que aos poucos os transfers vão mudando seu comportamento, exigindo autonomia e independência em relação aos donos de quem são clones. Essa gradual mudança pode ser entendida como uma metáfora do empoderamento das mulheres, que se esforçam para terem sua individualidade reconhecida e desatrelada da autoridade de um homem que a possua.

“Réquiem para a humanidade”

Este é meu conto preferido de toda a coletânea. Thabata Borine nos apresenta um pequeno drama épico, com referências (propositais ou não) a Star Trek (lembrei do episódio O Demônio na Escuridão), ao jogo The Dig, ao filme Independence Day e ao universo de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tudo se encaixa bem na complexa trama, e a miríade de referências não torna cansativa nem confusa a narrativa.

O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem misterioso. Não sabemos detalhes sobre sua identidade e ficamos apenas imaginando qual é a cara dessa pessoa, até que uma sutil reviravolta na trama nos faz perceber a razão de vários dos acontecimentos que se passaram ao longo da história. Essa revelação na verdade fica relativamente fácil de adivinhar pelo fato de o conto ser um dos últimos do livro. Penso que a experiência mind-blowing desse conto seria mais eficaz se ele fosse o primeiro ou um dos primeiros da coletânea, pois a leitura dos contos anteriores já prepara o leitor antecipadamente.

Numa missão a outro planeta, descobrem-se evidências de uma forma de vida inteligente extraterrestre. Com muitas dificuldades, a pessoa responsável por essa pesquisa consegue recursos do governo para prolongar a investigação a outros planetas, onde provavelmente há mais evidências arqueológicas que levarão à descoberta da identidade e da história desse povo misterioso que não deixou mais do que alguns vestígios de sua existência. O motivo do desaparecimento dessa espécie, apelidada de glieseanos, leva a crer que, se a humanidade não mudar certas coisas em sua conduta ética e sua estrutura social, especialmente no que tange à discriminação das minorias sociais, ela terá o mesmo fim.

A mensagem secreta dos glieseanos há muito desaparecidos e do conto de Borine é que, se permanecer a estrutura de dominação baseada em diferenças de gênero, identidade racial, classe econômica e sexualidade, acabaremos por minar nossos esforços evolutivos enquanto espécie em busca de um futuro melhor.

“Cidadela”

Duas personagens femininas protagonizam esse conto escrito por Lyra Libero. Irina trabalha numa cozinha industrial do governo, é pobre e vive numa das cidades satélites ligadas à Cidadela. Luísa é uma rebelde que trabalha fora da lei, uma espécie de espiã e gatuna. Ambas vivem num mundo distópico controlado por uma junção de Estado e Igreja, uma teocracia que se fundou a partir da reconstrução de uma sociedade destruída por uma praga. Nessa reconstrução, o papel das mulheres foi relegado ao de receptáculos de fetos, e elas perderam totalmente o poder sobre seus corpos, sendo a gravidez uma decisão dos homens e todos os filhos são criados pelo Estado para servir à Coletividade, que mais parece uma colmeia de abelhas do que uma sociedade humana.

Neste cenário pós-apocalíptico, constituiu-se um forte patriarcalismo, em que praticamente todos os líderes são homens e no qual as mulheres desempenham papéis subalternos. É notório, por exemplo, que na cozinha onde Irina trabalha só haja funcionárias mulheres. Vem à tona uma crítica à forma como se têm feito as revoluções ao longo da história humana, sempre se desviando de seus ideais originais e mantendo alguma forma de opressão. Neste caso, a opressão às mulheres.

Outra consequência nefasta desse neopatriarcalismo é constituição de uma literal cultura do estupro, em que qualquer violência masculina contra mulheres é friamente tolerada e qualquer gravidez advinda dessa violência é protegida pelo Estado, sendo o aborto proibido. Há uma séria crítica ao modelo democrático vigente na atualidade, quado a autora enfatiza que na Cidadela qualquer tipo de privilégio é proibido por Lei, mas isso não impede que aqueles que já detêm os privilégios os mantenham sem receber quaisquer punições.

A história lembra muito o conto de Valek, “Eu, Incubadora”, dessa mesma coletânea. Mas aqui vemos fortes elementos orwellianos, especialmente em duas figuras vigilantes, dois big brothers, o Ministro e o Pastor (a descrição deste é uma referência ao infame Marco Feliciano). Há uma forte crítica à atual ameaça contra a laicidade do Estado. Neste cenário hipotético, ressurgem inclusive práticas inquisitoriais, tendo como principais vítimas as mulheres, ressoando a medieval caça às bruxas. Tendo em seu cerno o tema do estupro, da gravidez não consentida e do aborto, Libero traz ao leitor uma reflexão sobre os sentimentos de uma vítima:

Como poder amar um fruto de violência, uma lembrança brutal de violação, patrocinada por um governo que dizia que mulheres eram inferiores e incapazes de decidir sobre seus corpos? Quem poderia culpar aquela pobre moça do Satélite 5 por não querer o fruto do seu ventre?

“Projeto Áquila”

Temos aqui um relato de Isabel Andrade, uma mulher duplamente aprisionada. A autora, Gabriela Ventura, fazendo uma referência ao saudoso filme O Feitiço de Áquila (Ladyhawk), conta a história de um casal que, por circunstâncias trágicas, passa a não conseguir se encontrar, pois uma só está desperta quando o outro está dormindo.

Isabel decidiu ser cientista ainda quando era criança, e acabou por se formar em Neurociências e se tornar uma grande referência na área. Em seu trabalho, contratou o colega Ricardo Oeiras, com quem formou uma parceria profissional e posteriormente conjugal. Os dois juntos se empenharam na pesquisa de Isabel, que visava encontrar uma forma de reverter a perda de memória dos pacientes do Mal de Alzheimer, sofrido pela falecida mãe da cientista. Porém, discordâncias entre Isabel e Ricardo, além de um acidente, colocam-na numa prisão, para que ela o ajude em outra pesquisa chamada Projeto Áquila.

Isabel consegue denunciar os atos de Ricardo, mas ela não se resume apenas a delatar seu crime e assegurar sua punição. É importante para ela fazer ouvir sua voz, se visibilizar enquanto indivíduo. Neste sentido, podemos entender sua necessidade como uma metáfora da urgência de as mulheres serem reconhecidas enquanto dotadas de individualidade e independência, e não meras sombras invisibilizadas pelos homens.

Além disso, a situação de Isabel ecoa metafórica e indiretamente dois outros temas importantes dentro das questões de gênero: o reconhecimento da feminilidade (ou seja, dos traços que nossa cultura identifica como femininos mas que podem estar presentes em qualquer indivíduo de qualquer sexo e/ou gênero) nos homens por eles mesmos; e a transexualidade, com o drama daqueles que se sentem descolados, num corpo errado e numa identidade de gênero inadequada.

Fundamentalmente, Ricardo é a figura do homem manipulador que coloca seus próprios interesses acima daqueles de sua companheira, seguindo a lógica androcêntrica tradicional pela qual o casal heterossexual se foca na realização dos planos do marido enquanto a esposa é uma reles coadjuvante. Neste contexto, predomina o sentimento de possessividade do homem sobre a mulher, disfarçado de romantismo, e o cativeiro doméstico da esposa, tido como obrigação conjugal. A mulher que desobedece essas obrigações é demonizada pela misoginia. Assim, os esforços de Isabel para inviabilizar o Projeto Áquila representam os esforços para se acabar com os instrumentos que servem à dominação das mulheres pelo machismo, objetivando o empoderamento e a autonomia feminina.

Aonde nenhuma mulher jamais esteve

Apesar de toda a admiração que pude aqui manifestar, penso ser oportuno mencionar uma pequena crítica de caráter puramente técnico. A versão para Kindle, que foi a que li, poderia ter sido melhor diagramada. Há uma linha em branco entre cada parágrafo, o que me incomodou um pouco, tendo em vista que os parágrafos já estão marcados pelo recuo na primeira linha. Teria ficado mais elegante e agradável em termos de design a exclusão dessas linhas em branco. Ademais, com a exceção de três ou quatro dos dez contos, em geral faltou uma ostensiva revisão do texto. Acho que a obra se valorizaria bastante se se atentasse para esses dois detalhes, embora não sejam nenhum impedimento para a leitora e o leitor apreciarem a coletânea. Fica a sugestão para uma possível reedição e para os próximos volumes da série.

Mas, em suma, a coletânea representa um novo fôlego para os esforços de se constituir uma ficção científica socialmente mais crítica, trazendo uma perspectiva feminista e libertária ao evidenciar protagonistas mulheres, bastante diversas entre si e bem diferentes dos usuais padrões homogeneizantes que as confinam a papéis decorativos ou que apenas servem de objeto motivador para heróis masculinos heterossexuais. É também uma tentativa de apresentar histórias mais inteligente e menos blockbuster do que a média. Representa ainda o fortalecimento e a valorização da soft sci-fi brasileira, que fomenta muita reflexão sobre nosso universo presente, desconstruindo-o para reconstruir o futuro.

Transfobia, homofobia e o fim do mundo

Padrão

Entrou uma pessoa transgênera no ônibus. Entenda-se transgênera no sentido de alguém que não se encaixa nos esquemas tradicionais pré-concebidos de identidade de sexo e gênero, alguém que não assume, total ou parcialmente, a identidade de gênero socialmente esperada para seu sexo biológico. Não sei se era uma travesti ou uma mulher transexual. Depois que ela saiu do ônibus, dois homens trocaram impressões sobre aquela pessoa.

Eles querem ser iguais a mulher, mas não conseguem.

Era travesti mesmo? Eu fiquei olhando assim, fiquei em dúvida, mas…

Depois o segundo homem interpelou uma mulher que se sentava ao seu lado.

São as coisas do fim do mundo. Como é que ficam as crianças na escola quando perguntam “quem é seu pai, quem é sua mãe?”

A flagrante transfobia (impregnada quase indistintamente de homofobia) da primeira fala revela algo interessante sobre a imposição de identidades de gênero aos indivíduos em nossa cultura. As pessoas que nascem com sexo masculino não apenas são obrigadas a se constituir como homens e assumir a identidade e os papéis masculinos pré-estabelecidos, sendo severamente desencorajados a flertar com a identidade feminina, mas também têm suas “intenções” deslegitimadas quando abraçam totalmente ou quase totalmente uma identidade e papel femininos. Porém, a transexualidade geralmente se manifesta a partir de uma identificação muito precoce do indivíduo com o sexo/gênero “oposto”.

Não posso afirmar se a pessoa que entrou e saiu do ônibus “queria ser mulher”, mas é quase certo que assume uma identidade feminina (travesti ou transexual). A afirmação de que essa pessoa “não consegue ser mulher” é uma forma de violência simbólica que procura desqualificar sua individualidade. É também a manifestação de um machismo que trata as mulheres como objetos de consumo do desejo masculino heterossexual. Nessa visão, um “homem que tenta ser mulher” é considerado uma mercadoria falsa, e daí há toda uma representação de travestis e transexuais como pessoas maliciosas que “fingem ser o que não são e enganam os incautos”.

Ser homem e ser mulher são performances sociais, não são dados biológicos ou naturais. A satisfação pessoal de alguém que assume uma ou outra dessas performances diz respeito apenas a essa pessoa, e ela não deve se enquadrar na expectativa social só porque os homens heterossexuais esperam não se decepcionar ao “descobrir” que “ela é ele”. Ao dizer que “um homem não consegue ser mulher”, está-se afirmando implicitamente que “ele deveria tomar vergonha na cara”, “desistir” e “voltar a ser quem é realmente”.

O segundo homem a falar disse que ficou “em dúvida” sobre a identidade da pessoa em questão. O que está sub-reptício a toda essa conversa é que aqueles homens viram um possível objeto de desejo, alguém que eles possivelmente teriam prazer em cortejar e que em certas circunstâncias poderiam querer levar para a cama, se não “descobrissem a verdade” antes. Mas sabe-se que há homens (pode ou não ser o caso dos personagens dessa história) para quem a travesti e/ou o transexual é um fetiche sexual e que raramente declararão esse gosto em público.

Quando demonstram sua decepção ao constatar que “não é mulher”, estão dizendo implicitamente que gostariam que ela fosse mulher, para não se sentir culpados por nutrirem um sentimento proibido (homossexual). E precisam proferir essa “constatação” para convencer aos outros e principalmente a si mesmos de que “não foram enganados”, que “não aprovam esse tipo de coisa” e que “não gostam de homem”.

É claro que não se pode afirmar com toda a certeza que todo esse discurso sub-reptício estava presente no consciente e/ou no inconsciente desses homens. Porém, tudo isso faz parte de um discurso mais amplo que está disseminado em nossa cultura machista, heteronormativa e cisnormativa. E não foi à toa que o segundo homem fez uma tremenda digressão, puxando o tema do reconhecimento da legitimidade do casamento homossexual. O desprezo ao casamento igualitário é uma manifestação de homofobia e não de transfobia.

Porém, na ideologia heteronormativa, identidade de gênero (homem, mulher etc.) se confunde com sexualidade (hétero, homo, bi etc.). Por não reconhecer a identidade feminina de uma pessoa que nasceu com o sexo masculino, a transfobia só reconhece essa pessoa como um homem homossexual e imagina que, se ela “quer ser mulher”, necessariamente “gosta de homem”. Ignora assim que as duas coisas não estão necessariamente atreladas.

Esse discurso, em suma, mantém ideias conservadoras a respeito de uma suposta natureza ditada pelos genes e pelos genitais. Homofobia e transfobia andam juntas, de acordo com a expectativa de que cada indivíduo deve se enquadrar em uma camisa-de-força que estabelece um comportamento de gênero e uma sexualidade necessariamente voltada para a reprodução sexuada. Qualquer mínimo desvio desses ditames é temido como um sinal de desagregação da sociedade, do “fim do mundo”, e normalmente não se percebe que cada lugar e cada época tem sua própria noção de normalidade e que, segundo essa lógica, o mundo já se acabou milhares de vezes e sempre se reconstruiu.

Imagem

A imagem que ilustra essa postagem é da personagem Poison, do universo de jogos de luta da Capcom, que inclui as franquias Street Fighter e Final Fight. Poison é uma mulher transexual.

A Metamorfose

Padrão

ArquivoExibirFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883, quando a cidade fazia parte do Império Austro-Húngaro (e posteriormente faria parte da Tchecoslováquia). Ele nasceu numa família judia e sua língua materna era o alemão. Sua carreira literária começou com a publicação de contos, mas ele ficaria mais conhecido por seus romances, especialmente O Processo, e suas novelas, com destaque absoluto para A Metamorfose (Die Verwandlung), escrita em 1912 ao longo de apenas 20 dias.

Kafka pretendia publicar A Metamorfose, junto com outros dois textos, numa coletânea chamada Filhos (Söhne). Posteriormente, tentou juntá-la com outras duas obras, chamando o conjunto de Punições ou Castigos (Strafen). “Filho” e “castigo” servem como pistas para se entender o tema central dessa obra, pois, como veremos adiante, trata-se de um personagem carregado de culpa e numa relação conflituosa com a família, especialmente o pai. Este conflito era marcante na própria vida de Kafka e inspiraria quase toda sua obra.

Sinopse

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Essa transformação de um jovem caixeiro viajante num inseto asqueroso implicará na metamorfose de sua família e da rotina da casa onde mora. Por não conseguir se virar para sair da cama, Gregor se atrasa para pegar o trem e ir ao trabalho, fazendo com que o gerente venha buscá-lo. No entanto, o estado de Gregor é repugnante demais para que ele volte a trabalhar. Sua irmã, muito dedicada, passa a arrumar o quarto de Gregor e a deixar comida para ele, mas o irmão fica confinado a seus aposentos e não interage mais com ninguém (nem sequer consegue falar mais).

O resultado dessa desgraça é que a mãe, o pai e até a adolescente irmã passam a trabalhar para sustentar a família, o que antes era obrigação apenas de Gregor. Nesse processo, o pai Samsa deixa de ser um inválido que mal podia andar e passa a ser um empregado exemplar. Gregor se torna um fardo moral para a família, e em determinado momento abdica de ser aceito pelos outros e aceita sua nova condição, comendo pão estragado (que é a única coisa que lhe apetece o paladar agora) e subindo pelas paredes de seu quarto.

Quando a mãe decide ajudar a irmã a retirar os móveis, agora inúteis, do quarto de Gregor, para que este fique mais à vontade, a sra. Samsa, que até então não havia visto a nova forma do filho, se depara com este na parede, escondendo uma moldura com a imagem de uma mulher, que ele havia recortado de uma revista, único objeto que ele não admitia ser retirado do recinto.

Essa situação desencadeia a chegada do pai ao quarto, que inicia um bombardeio de maçãs sobre o filho e acaba encravando uma fruta atrás da cabeça de Gregor. Este evento representa o clímax da tragédia de Gregor Samsa, fazendo-o retirar-se a um canto de seu quarto e eventualmente desistir da vida e morrer em paz consigo mesmo. Para a família, o fim de Gregor é um alívio e o começo de um próspero futuro, no qual a filha, irmã de Gregor, passará a ser o centro de tudo.

Moralidade familiar, Capitalismo e contradições modernas

A Metamorfose pode ser lida como uma alegoria de diversas angústias humanas recorrentes na vida de qualquer indivíduo. De modo geral, podemos entender a transformação de Gregor como a estigmatização da pessoa que foge das expectativas de seu entorno social. Quando alguém extrapola os limites morais aceitáveis para sua condição socialmente pré-determinada, ele se transforma num monstro e nunca mais será visto da mesma forma pelos outros ao se redor.

Entretanto, os detalhes da fábula de Kafka podem nos remeter mais fortemente a uma crítica das transformações sociais, culturais e econômicas da modernidade industrial. Nesse momento de transição, os valores familiares tradicionais ainda são muito fortes, mas esbarram com as exigências de uma economia implacável cujo objetivo é o enriquecimento dos empresários, às custas do sacrifício de corpos e mentes dos trabalhadores. Neste âmbito, a felicidade da família é atestada pelo sucesso econômico de seus membros.

A relação de Gregor com sua família se constitui numa espécie de parasitismo em que o filho provê tudo à família. Pai e mãe estão desempregados e sem perspectiva de voltar a trabalhar. A irmã adolescente, ainda em formação, se acomoda nessa situação e procrastina sua carreira pessoal. Os valores familiares tradicionais (“tudo à família”) obrigam Gregor a se manter trabalhando para sustentar seus parentes, e ele pouco reclama, reprimindo sua frustração.

Nesse capitalismo emergente, as exigências do mercado são prementes. Um trabalhador não pode se dar ao luxo de se distrair com futilidades que o desviem dos esforços para conseguir lucro, e Gregor comete esse erro ao alimentar, mesmo que apenas por uma noite, pensamentos libidinosos. Ele recorta a foto de uma mulher e a emoldura, tem sonhos intranquilos (talvez tenha dormido pouco por ter se masturbado e sofrido com pesadelos de culpa) e acorda mal, atrasando-se para o trabalho.

Como se já não bastasse a acusação de preguiçoso que viria de seus empregadores, Gregor sofre também o estigma de desnaturado, pois sua indolência representa um prejuízo para a família. As duas máculas promovem sua transformação num pária completo, um inseto monstruoso, proscrito tanto pela moralidade familiar tradicional (seus pensamentos libidinosos também são tidos como uma traição) quanto pela nova ética capitalista.

A superexigência das minorias

Extrapolando a interpretação mais direta apresentada acima, podemos entender a metamorfose de Gregor Samsa como uma metáfora da estigmatização das minorias que tentam se inserir em posições tradicionalmente ocupadas pelos grupos hegemônicos. Se Gregor fosse um negro numa sociedade branca pós-escravocrata, por exemplo, poderíamos imaginar o quanto ele é cobrado pela empresa e pela sociedade, além do tamanho esforço que ele precisa fazer para não incorrer na mínima falta em seu trabalho.

Se por um lado os seus colegas brancos se demoram tomando café da manhã na estação de trem e nem por isso recebem admoestações do contínuo ou do gerente da empresa, Gregor é instado a explicar seu atraso de 15 minutos (na única vez em que ele se atrasou), sob pena de ser acusado de todos os estigmas relacionados aos negros: vagabundo, preguiçoso, inepto, estúpido, depravado etc. Para a família e para a empresa, Gregor cometer um deslize é uma prova de todos os preconceitos atribuídos aos negros, e serve para evidenciar seu status social de “inseto”.

Gregor poderia também ser um homossexual, “praticante” de uma preferência sexual “desviada”, “não-natural”. São marcantes os momentos em que as testemunhas ressaltam a imoralidade da condição do protagonista, a “depravação”, a “vergonha”. Da mesma forma que os negros, os homossexuais numa sociedade homofóbica sofrem com as exigências da heteronormatividade e todas as suas falhas profissionais são atribuídas a sua “escolha” sexual.

Qualquer que seja o grupo minoritário a que pertença Gregor, qualquer que seja a etnia marginalizada, identidade sexual ou de gênero discriminada, sexualidade fora do padrão ou deficiência física menosprezada, ele é vítima de uma cultura que sacrifica seu corpo e sua alma, mumificando-o numa carapaça de quitina e confinando-o a um cubículo-túmulo que permita a sua família esconder, até certo ponto, o motivo de sua vergonha.

Trajetória de um fracassado

O caminho de Gregor através da narrativa de A Metamorfose o leva a um trágico fracasso. Sua condição de inseto é relativamente aceita por ele logo de início, resigna-se como se já estivesse esperando acontecer. Passando por todo o processo de demissão, desprezo pelas empregadas da casa e assunção pela família de que Gregor é um fardo, ele recebe a desaprovação dos três inquilinos que vêm morar na casa, símbolos da conciliação entre sucesso e família (infere-se que são irmãos), o que a família Samsa jamais conseguiria senão depois da morte de Gregor.

A queda de Gregor abala a estrutura de parasitismo na qual ele era sugado e este se torna o parasita. A irmã, a mãe e o pai até há pouco tempo inválido passam a trabalhar, e este último se torna uma figura imponente, o arquétipo do pai poderoso que toma para si as mulheres da casa, a esposa (mãe de Gregor) e a filha (irmã de Gregor), antes sujeitas ao filho. Num simbólico conflito edipiano, Gregor é enfrentado pelo pai, que reivindica o papel de provedor e a “posse” das duas mulheres. Diferente de Édipo e da maioria das histórias que seguem este esquema freudiano, Gregor fracassa diante do pai. A mãe, ao ver o filho ferido, se abraça ao vencedor vestida em trajes sumários.

Samsa remete a Sansão, o nazireu superpoderoso que se tornou um fracassado ao se deixar levar pelo amor de uma mulher. Assim como aconteceu com Gregor, os desejos pessoais de Sansão o levaram à desgraça. O herói hebreu se tornou um escravo dos filisteus, numa condição de total derrota. Mas tanto Gregor quanto Sansão se redimem em suas mortes. Enquanto este se mata junto com seus captores (derrubando as colunas do palácio em que estava e o fazendo ruir sobre todos), aquele renuncia a tudo para que a família se reconstrua feliz, unida como uma família tradicional e bem-sucedida nas modernas relações econômicas.

Escute

Marco Feliciano não nos representa?

Padrão

(Aviso: este texto não é nenhum pouco uma defesa de Marco Feliciano.)

A eleição pelo PSC do pastor-deputado Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias tem causado grande repercussão por todos os extratos da sociedade brasileira. Raramente se viu algo assim na História recente do Brasil, uma manifestação tão grande nas redes sociais, na mídia e nas conversas, os brasileiros demonstrando seu repúdio a uma figura frontalmente contra os princípios que deveria defender no cargo que ocupa.

O meme mais difundido agora são fotos de internautas segurando um cartaz dizendo: “Marco Feliciano NÃO me representa”, frase geralmente precedida da identificação do fotografado (“Sou gay, sou negro, sou mulher…”). A sociedade está revelando abertamente que não quer um declarado homofóbico, racista, machista e simpatizante da teocracia representando seus direitos.

Mas a verdade é que Marco Feliciano não é um corpo totalmente estranho na sociedade brasileira, que se vê idealmente como inclusiva, multiétnica, antirracista, antissexista, anti-homofóbica etc. Embora estejamos testemunhando uma positiva manifestação contrária à ideologia discriminatória personificada em Feliciano, incluindo até muitos adeptos da religião do referido pastor, o fato é que a maioria de nós ainda não resolveu plenamente seus preconceitos de raça, sexo e gênero.

Nesse sentido, se por um lado Marco Feliciano é o contrário do que queremos para representar a luta pelos direitos humanos e pela igualdade das minorias, ele nos representa sim quanto aos preconceitos e valores que estão sendo tão combatidos por todos nós.

O problema não é ele ser homofóbico, racista e machista. Eu sou homofóbico, racista e machista, a maioria de nós é. O problema real é Feliciano se manifestar publicamente como defensor de uma tradição homofóbica, racista e machista. Ao dizer que a condição de miséria dos negros é resultado de uma maldição milenar, Feliciano deixa implícito que uma política a favor da população negra é dispensável, pois só quem poderia mudar isso é uma força divina. Ao se declarar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e ser frontalmente contra o PL 122, ele entra em contradição com o ideal materializado na Comissão em questão. Ao atribuir publicamente as “mazelas” contemporâneas à emancipação das mulheres, parece querer reverter conquistas sociais que não deveriam mais ser questionadas.

Entretanto, na verdade Feliciano é a figura de um monstro que ainda existe entre nós e dentro de nós, um reflexo ampliado de algo que ainda não conseguimos extirpar de nossa sociedade nem de nossos âmagos. Mas, enquanto a sociedade em geral está se esforçando para destruir a homofobia, o racismo e o machismo, pessoas como Feliciano estão defendendo ideias homofóbicas, racistas e machistas, trabalhando para difundi-las e tentando evitar que os direitos humanos alcancem sua plenitude.

E não são poucas as pessoas que o apoiam, como revelou uma recente enquete do UOL. Marco Feliciano representa os interesses de uma grande parcela da população brasileira, preocupada em garantir a manutenção de valores conservadores e colocar as crenças bíblicas (próprias de apenas uma parte dos cidadãos brasileiros) acima dos preceitos democráticos constitucionais laicos.

Por esses motivos, faço coro com a sociedade manifestamente contrária à escolha de Feliciano para o papel político que está (ou não) exercendo. Ele é a pessoa errada para presidir a Comissão. Mas ele o é não porque seja preconceituoso, e sim porque é um defensor desses preconceitos. Precisamos de alguém que esteja lutando para superar esses preconceitos (mesmo que essa pessoa os tenha, mas, como eu disse acima, poucos de nós não os têm) e para ajudar a sociedade brasileira a se reeducar, a desconstruir o pior que temos em nós.

O problema é que Marco Feliciano nos representa em nossos valores atávicos e em nossa hipocrisia diária, na negação de nossa herança não-europeia, tanto em nossa biologia (vide a acusação de que Feliciano faz chapinha, não assumindo o crespor de seus cabelos, prática amplamente difundida) quanto principalmente em nossa cultura, nos hábitos alimentares, na língua e, com grande força, na religiosidade. Temos muito de africano em nós, mas boa parte dos cristãos não aceita a presença de terreiros de Candomblé e Umbanda no país.

É justamente porque Feliciano me representa naquilo que eu tenho de pior que eu não o quero na Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Isso não quer dizer que ele me represente em outro sentido mais relevante, pois diferente dele eu estou constantemente tentando vencer meus preconceitos e não sustentá-los. O presidente da Comissão deveria nos representar em nossos anseios democráticos para o futuro, que ainda estamos tentando construir.

Não estou de maneira alguma justificando Feliciano na Comissão. Mas não adianta somente retirá-lo de lá, é preciso também que a sociedade se modifique. E não quero dizer com isso tudo que é bom ter na presidência da Comissão uma pessoa homofóbica, machista e/ou racista. O que não podemos permitir é que esse cargo seja ocupado por um hipócrita estagnado na tradição medieval.

Ameaça à Psicologia laica

Padrão

O Conselho Federal de Psicologia proíbe os psicólogos de emitir opiniões ou tratar a homossexualidade como transtorno. Mas o deputado João Campos (PSDB-GO) apresentou um projeto legislativo que visa a permitir que psicólogos tentem curar a homossexualidade dos pacientes que assim desejarem. O Conselho criticou esse projeto, lembrando que suas normas éticas procuram combater a intolerância.

Essa questão veio à tona motivada pela recente polêmica protagonizada pela “psicóloga cristã” Marisa Lobo, que usava sua profissão para aplicar conceitos religiosos contrários à perspectiva hegemônica na ciência Psicologia, tentando curar homossexuais de sua “doença” e contrariando a ética do Conselho Federal de Psicologia.

Continue lendo

A orgia humana – parte 2

Padrão

A natureza é muitas vezes um recurso argumentativo para defender um modelo ideal de comportamento humano. A Etologia pode ser fonte para justificar, por exemplo, um dado tipo de conduta sexual e de formação de laços entre as pessoas. Porém, vemos que os comportamentos animais são tão diversos que não é possível basear nosso ideal de comportamento humano numa suposta “natureza” imutável.

Quando não adianta recorrer à “natureza” para defender a tradição familiar cristã (que na verdade é tão diversa e muito mais ideal do que real), recorre-se a argumentos de cunho “sociológico”. Um exemplo, dado na primeira parte deste ensaio, é a defesa do suposto significado “correto” da palavra “casal”.

Continue lendo

A orgia humana – parte 1

Padrão

Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. “Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois homens conquistarem a união civil, mas é um crime eles adotarem uma criança”.

Muitas vezes esse discurso se acompanha de frases do tipo: “Isso é uma afronta contra Deus”. De certo modo, equivale a dizer que a homossexualidade é antinatural, ou seja, vai de encontro aos ditames da natureza. Dentro dessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a pessoa que se relaciona com um parceiro do mesmo sexo escolhe sua orientação sexual, escolhe “pecar”, e poderia facilmente seguir o caminho “natural”, se quisesse.

Continue lendo

Um fantasma ronda o Brasil?

Padrão

As recentes tentativas de se organizar manifestações em Brasília a favor da descriminalização da maconha têm esbarrado em impedimentos. Depois de ter sido proibida pela Justiça, será objeto de discussão no Supremo Tribunal Federal, que decidirá sobre a legalidade das manifestações.

A decisão de se discutir a legalidade de uma manifestação como essa se justifica pelo preconceito. O comércio de maconha é proibido no Brasil (e este é o tema das manifestações), mas a liberdade de expressão é garantida pela Lei brasileira. Porém, a mente conservadora, temerosa da desagregação dos costumes, associa a liberdade de expressão de ideias subversivas ao incentivo do crime e do pecado.

Talvez tenha havido bons motivos para a proibição da manifestação (talvez não), mas eles não ficaram claros. A suspeita de que os efeitos da manifestação são prejudiciais à sociedade se sobrepôs à investigação, e o que mais interessa, que é a discussão sobre o tema, fica adiado indefinidamente. Nem sabemos se a manifestação incentiva o tráfico nem temos ideia sobre se a legalização da maconha realmente criará um problema de dependência maior do que o (pouco) que já existe.

A censura e o cerceamento da democracia têm transformado a cena política brasileira numa luta em que a liberdade segue perdendo feio. A reação conservadora a uma inofensiva manifestação que só demanda uma mudança na legislação (que equivale, por exemplo, a uma manifestação de cidadãos que exigem a legalização do sufrágio universal ou o fim da escravidão) está em consonância com a recente vitória da corrente evangélica que forçou o veto de uma política educacional para combater a homofobia.

Também está relacionada à conivência com crimes ambientais, grande risco a ser corrido com o Código Florestal e com a insistência em construir uma barragem na bacia amazônica, cuja existência significaria a ruína de milhares de indígenas e ribeirinhos.

Infelizmente, o governo que, por princípios, deveria agir no sentido da democratização da sociedade brasileira vem decepcionando os eleitores que precisam de direitos ainda não contemplados. Um Código Florestal que pode punir agricultores pobres, a morosidade no avanço de políticas de combate aos preconceitos e a repressão da liberdade de expressão mostram que a “erradicação da pobreza” terá que esperar até que o governo Dilma pague suas dívidas com os poderes que a ajudaram a vestir a faixa verde-loura.

O “temor” da oposição de que a dinastia Lula/Dilma venha a instaurar uma ditadura no Brasil começa a se justificar. Ironicamente, essa possível ditadura tem mais a ver com os anseios dessa mesma oposição, especialmente de sua ala ultraconservadora, do que com as maracutaias megalomaníacas dos “companheiros”.

Ilustração:

Imagem do filme 1984 (1984), dirigido por Michael Redford, inspirado no livro homônimo de George Orwell.

PL 122 – #diacontrahomofobia

Padrão

No dia 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde excluiu a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde. A data foi escolhida para se celebrar o Dia Internacional de Combate à Homofobia e à Transfobia, e serve para a realização de eventos que tragam à tona o problema da intolerância.

Entretanto, o medo da homossexualidade ainda é tamanho que, quando surge uma proposta de criminalizar a violência contra os homossexuais, grassam reações reacionárias por parte dos porta-vozes dos “bons costumes”. Da mesma forma, as mulheres que reinvidicaram direitos iguais foram ridicularizadas. Da mesma forma, os abolicionistas não foram levados a sério.

De modo geral, as pessoas que se posicionam a respeito do Projeto de Lei da Câmara Nº 122/2006 não o leram e apenas baseiam suas opiniões (quando não absorvem a opinião dos outros) na leitura de terceiros. A maior crítica ao PL vem de pastores evangélicos preocupados com o cerceamento da liberdade de expressão. No entanto, o projeto não criminaliza a expressão de ideias homofóbicas, mas os atos de discriminação que prejudiquem as pessoas vítimas do preconceito.

Em primeiro lugar, não se trata de uma lei nova. Basicamente, o PL 122 simplesmente altera a Lei Nº 7.716/1989, que define os crimes motivados por preconceito racial, dá nova redação ao Código Penal e ao CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

A principal mudança, aplicada aos três instrumentos legais citados, é acrescentar, entre as motivações de crimes por discriminação, os termos sexo, gênero, orientação sexualidentidade sexual. Ou seja, amplia o escopo de casos de discriminação passíveis de punição.

Fora isso, também acrescenta vários atos de discriminação (por qualquer motivo) passíveis de punição, especialmente os relacionados ao ingresso em entidades de ensino, seleção para emprego, acesso a locais públicos e privados e proibição da livre manifestação pública das diversas formas de afetividade. As sanções por estes crimes não sofrem quase nenhuma mudança.

Um dos argumentos contra o PL é que, com ou sem ele, mantêm-se as sanções em casos de violência., ou seja, “para que mudar a lei se ela já pune atos de violência?”

Mas não é à toa que existe uma lei contra violência motivada por discriminação. Bater em alguém por motivos racistas é diferente de bater em alguém por lhe ter roubado um bem. Na realidade, nenhum desses atos de violência se justifica. Mas a discriminação precisa ser considerada um crime, para que as liberdades de pessoas e grupos e sua participação como cidadãos de uma mesma sociedade sejam garantidas, apurando-se também a violência simbólica além da física.

Mas esta é a leitura que algumas pessoas fazem, e que acho ser a mais correta: opor-se à criminalização da homofobia é ser cúmplice da violência simbólica e física motivada pela intolerância. Tendo em vista esta interpretação do projeto, o que justifica as vozes conservadoras e evangélicas em seus clamores contra o PL 122? Afinal, a lei apenas contribui para a aceitação de uma diversidade que já existe e que muitas vezes é velada para não se expor à ira da voz do povo (ou seja, em alguns casos, da voz de Deus).

Os pastores que representam as poderosas igrejas evangélicas brasileiras acusam o PL 122 de censurar a liberdade de expressão dos seguidores das religiões que condenam a homossexualidade. Em casos extremos, os inimigos do PL afirmam temer que a criminalização da homofobia pode incentivar o comportamento homossexual.

Os desejos sexuais das pessoas não sofrem influência da presença ou da ausência de homofobia. Sempre houve (mesmo antes de existir seres humanos) diversidade nos comportamentos sexuais e sempre haverá. Mas a discriminação baseada em sexo, gênero, orientação sexual e identidade sexual (assim como a racial, étnica, a motivada por idade e por motivos religiosos) pode mudar, como o tem feito ao longo da história humana e variando de acordo com a cultura.

Pensar que o combate ao preconceito incentiva os comportamentos sexuais é fruto de ignorância a respeito da realidade da afetividade humana. Se ele pode influenciar de alguma forma, influencia ao incentivar os “desviantes” a assumir o que já são e serem mais felizes.

Mas, para esse discurso homofóbico, a homossexualidade é entendida como uma “opção pelo mal”, como a negação de uma suposta natureza (“Deus fez Adão e Eva…”) e até como a assunção de impulsos proibidos. Todas essas ideias são propagadas nas igrejas (e inapropriadamente nas câmaras dos governantes) e a liberdade de expressá-las não é prejudicada pelo projeto de lei em questão.

Com a criminalização da homofobia (e, por que não lembrar?, da fobia aos bissexuais, aos transexuais e aos travestis), certas práticas ficam sujeitas a sanção, como levar em conta a sexualidade de uma pessoa numa seleção para ingressar em estabelecimento de ensino ou num emprego.

Algumas vozes evangélicas se preocupam em ter que contratar funcionários (faxineira ou zelador, por exemplo) homossexuais para trabalhar em seus templos ou em suas residências, o que para eles pode ser “má influência” para fiéis e filhos. Normalmente esse discurso ignora o fato de que a sexualidade de uma pessoa não tem relação com a eficiência de seu trabalho.

A preocupação com a presença indesejável de homossexuais nos templos, infelizmente para os evangélicos, deve e deverá ser tolerada. Se por um lado o direito de ir e vir das pessoas não deve ser tolhido, por outro lado os pastores continuam tendo o direito de expressar suas crenças sobre o comportamento sexual humano. A lésbica ou o gay que frequentam uma igreja devem ir ao templo sabendo o que vão ouvir. Mas todos ali nesse ambiente devem saber que, se palavras agressivas forem dirigidas a quem quer que seja e se resultar dessas palavras qualquer tipo de intolerância, esta pode ser considerada um crime passível de punição.

Lembremos sempre que a lei de discriminação a ser modificada pelo PL 122 também envolve discriminação religiosa. Qualquer abuso no sentido de imputar a pastores ou padres uma discriminação que não cometeram também pode ser punido. Além disso, a senadora Marta Suplicy fez o favor de acrescentar ao PL um artigo que deixa bem claro que as manifestações pacíficas de caráter religioso não se enquadram na discriminação. Afinal, se dois homens podem se beijar em público livremente sem medo de serem felizes, pastores também têm liberdade de dizerem o que pensam sobre esse mesmo beijo, mesmo que sua crença represente uma tradição anacrônica a ser superada.

Link

Foto

A imagem que compõe a ilustração é uma cena de O Segredo de Brokeback Mountain.

O que é homofobia?

Padrão

Recentemente o Bule Voador divulgou uma matéria da APA (American Psychological Association) sobre uma pesquisa que reforçou uma suspeita que a Psicanálise já tinha há muito tempo: a homofobia advém da repressão dos próprios desejos homossexuais do homófobo.

Basicamente, a pesquisa foi feita com um grupo de jovens homens heterossexuais (divididos em dois grupos, um homofóbico e outro não-homofóbico), que assistiram a três vídeos com cenas de sexo, uma mostrando um casal heterossexual, outra mostrando um casal gay e um terceiro apresentando um casal lésbico. A ereção dos jovens foi medida através do uso de um aparelho, e constataram-se diferenças no entumescimento do pênis, de acordo com a homofobia (ou sua ausência) e o tipo de vídeo visto pelo sujeito.

Os resultados foram interesantes (embora se possa criticar o fato de o grupo pesquisado ser pequeno, 35 homens homofóbicos e 29 não-homofóbicos, e seria necessário um grupo maior para os resultados serem mais confiáveis). Quando aos sujeitos se expunham vídeos de sexo heterossexual ou lésbico, não havia diferença significativa entre os dois grupos. Mas os homofóbicos tiveram um grau de ereção maior do que os não-homofóbicos quando assistiram ao vídeo de sexo gay.

Isso tudo faz sentido e é muito lógico. Uma vez que em nossa cultura a homossexualidade ainda é vista como um comportamento indesejável, especialmente a homossexualidade masculina, os impulsos homossexuais de homens que se assumem como heterossexuais tendem a ser reprimidos, e o ódio e aversão aos homossexuais ou aos comportamentos que remetem à identidade gay são uma forma de projetar essa repressão.

Cena do filme Beleza Americana (1999), em que um homem ultraconservador e homofóbico, num momento de angústia, dá um beijo no seu vizinho

La Lengua de las MariposasNo conto A Língua das Borboletas (La Lengua de las Mariposas), de Manuel Rivas (transformado num excelente filme por José Luis Cuerda), que se passa à época da instauração da ditadura franquista na Espanha, o pai do protagonista, simpatizante do ateísmo e do comunismo, é aquele que grita mais alto contra os presos políticos que passam em fileira à sua frente: “Ateus! Comuunistas!”

A fobia extrema se justifica quando seu agente precisa deixar bem claro, para si e para os outros, que não se enquadra no comportamento indesejável. A exaltação é uma manifestação da insegurança. Afirmar com veemência que, por exemplo, “eu não tenho nada de gay!” ou “meu lado feminino é lésbico!” ou ainda “não consigo me imaginar com outro homem” é uma forma de tentar ocultar alguma coisa que há dentro de si.

Relativizando

Porém, é preciso relativizar. Como os próprios autores da pesquisa afirmam, a ereção também pode ser resultado de ansiedade. Ao ver imagens que consideram desagradáveis e desconfortáveis, os homofóbicos têm respostas fisiológicas que incluem a ereção, não necessariamente relacionada à excitação sexual. No entanto, se a ansiedade está relacionada à homofobia, esta não se explica por si só. O homófobo se sente desconfortável diante da cena por algum motivo, e este pode ser justamente o fato de o sujeito ter que enfrentar os próprios desejos homossexuais.

Além disso, temos que considerar também, para que essa pesquisa se constitua como boa ciência, as condições em que foram feitas. O próprio fato de saber que está passando por um experimento já deve ter algum efeito na psico-fisiologia do sujeito, que talvez não estivesse prevista nem seja ainda compreendida pelos pesquisadores. Além disso, a ereção advinda da ansiedade de ver uma cena desagradável também pode vir da ansiedade de estar sendo observado. Entretanto, se este fosse o único aspecto relevante, os não-homofóbicos apresentariam os mesmos níveis de ereção que os homofóbicos.

Outro aspecto que pode ser considerado controverso é o enquadramento dos sujeitos da pesquisa no perfil “heterossexual” e “homofóbico”/”não-homofóbico”, feito através de questionários que estabelecem o lugar dos sujeitos dentro de uma escala. Esses questionários são baseados em ideias pré-concebidas a respeito do que é heterossexual (em oposição a uma pré-noção do que é homossexual) e numa ideia estabelecida do que é homofobia. Mesmo que eles possam atestar com segurança a adequação nesses perfis institucionalizados pela cultura à qual pertencem os pesquisadores e os sujeitos, é preciso cuidado para não naturalizar de maneira absoluta as identidades e comportamentos humanos.

Porém, a explicação dos impulsos homossexuais reprimidos é lógica, e a pesquisa ajuda a reconhecer a realidade bissexual de nossa psique. De fato, os não-homofóbicos também apresentaram alguma excitação frente às imagens de sexo gay, embora bem menor. Como disse minha amiga Nivea Melo, psicóloga, a respeito dessa mesma pesquisa:

a ansiedade e o medo comumente desencadeiam ereção em homens e lubrificação vaginal em mulheres, efeitos do sistema nervoso simpático. […] O medo de se excitar pode ter deixado estes jovens homofóbicos excitados… agora imagine: ter medo de homossexual e excitar-se com eles, ficando ainda com maior medo de ser homossexual… Reação de luta e fuga desencadeada, agressões homofóbicas mais prováveis…

Humanizando

Porém, a constatação de que a homofobia está ligada a desejos sexuais homoeróticos não explica por si só a violência e o bullying homofóbicos. Deve-se encarar esse fenômeno como uma resposta fisiológica a algo mais complexo e que tem origem na história e na cultura.

Para nossa sociedade, a homossexualidade representa um desvio em relação aos papéis sexuais estabelecidos como ideais. Dos homens se espera que tenham certos caracteres de personalidade e comportamento, assim como das mulheres. Uma dessas características é a preferência exclusiva, no desejo sexual, por mulheres. Um homem que deseja sexualmente outros homens é considerado um deslocado ou um ser ambíguo, não completamente homem nem exatamente mulher.

Para nossa cultura, as pessoas só se encaixam em dois gêneros possíveis, sem intermediários: masculino-homem e feminino-mulher. Temos toda uma parafernália pedagógica, comportamental e material para garantir que o sexo de uma pessoa seja iconfundível: maneirismos característicos de cada sexo, tipos específicos de roupas, cabelos e penduricalhos, além de gostos artísticos ou preferências por certas manifestações culturais de nossa sociedade.

Qualquer tipo de desvio desse ideal provoca inquietação. Uma vez que esse enquadramento nos obriga a acatar certas coisas e renunciar outras (coisas que nem sempre correspondem, respectivamente, àquilo que intimamente desejamos e ao que repudiamos), tendemos a jogar os desviantes ao leito de Procrusto e, ao mesmo tempo, reprimir uma parte de nós mesmos, aquela parte que nos faria sair de um dos polos sexuais para uma identidade ambígua e inquietante, segundo os valores da maioria de nós.

Concluindo

Se o homossexual é a pessoa que  prefere parceiros sexuais semelhantes (em geral, homens que preferem homens e mulheres que preferem mulheres), pois homo significa “igual”, a homofobia então poderia abranger também o sentido de: medo ou aversão das pessoas semelhantes a nós (já que a aversão ao desejo homossexual do outro corresponde à repressão do próprio desejo homossexual).

Mas toda cautela é pouca ao se usar essas descobertas para militar a favor (ou contra) da erradicação da homofobia. Por um lado, algumas pessoas podem começar a acusar os homofóbicos de “gays enrustidos”, caindo na mesma homofobia que percebe os homossexuais como pessoas problemáticas.

Por outro lado, os movimentos homossexuais podem ver nessa “constatação” um suporte para uma frase comum e emblemática entre alguns de seus membros: “todo mundo é gay!” Dessa forma, pode-se reforçar uma postura que não reconhece a diversidade humana, mas tenta enquadrá-la toda num só modelo hegemônico.

Links

Ilustração:

Quadrinho de Krazy Kat, por George Harriman (1880-1944). (Krazy Kat é um personagem desconcertante, pois não se sabe se é macho ou fêmea, e vive recebendo tijoladas do rato Ignatz, por quem é apaixonado.)