Coronelismo virtual

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Os leitores da Teia sabem que tive um texto plagiado. Em resumo, descobri o plágio de um texto meu no site Star Trek Brasil (www.jornadanasestrelas.com), enviei mensagem, pediram provas de que o texto é de minha autoria, enviei provas e não recebi mais nenhuma manifestação do site. Nesse ínterim, muita gente denunciou e enviou reclamações, diretamente ao site ou no Twitter.

Paralelamente, outro blogueiro, Hugo Cardoso, também alertado para um plágio no mesmo site e pela mesma colunista, Jéssica Esteves, escreveu sobre o caso e enviou uma mensagem pelo Twitter para o site. Diferentemente do que aconteceu comigo, a resposta do site foi uma demonstração de baixaria, típica de quem não tem argumentos para se defender.

As respostas cretinas a Hugo podem ser vistas aqui e aqui. A primeira é um insulto direto e demonstra tanto que o pessoal do site sabe que a denúncia de plágio tem fundamentos quanto está disposto a não tomar providências a respeito disso.

A segunda foi uma forma de dizer que não têm medo de terem sua podridão exposta, e ao acusar Hugo de querer ser “dono do mundo”, estão eles mesmos afirmando que o são. É uma mensagem tão sem noção que veicula um disparate ao pretender que Hugo não tem nada a ver com o assunto. Mas ele está diretamente envolvido, pois foi espoliado por Jéssica Esteves. Como se não bastasse tanta brutalidade, ainda escrevem muito mal.

Toda essa manifestação é bizarra e contraditória, tendo em vista que Jornada nas Estrelas é uma franquia de histórias que procuram veicular elevados valores éticos, representados pela fictícia e utópica Federação dos Planetas Unidos. Mas qualquer código moral pode ser usado para justificar atos de violência, como a Inquisição promovida pelos seguidores do mítico pacifista Jesus Cristo.

Também achei estranho que essas ofensas, dispensadas a Hugo e também a meu irmão Diego e a meu amigo Léo Rodrigues, não tenham sido endereçadas a mim. Pelo que Hugo disse em seu próprio blog, dei-me conta de que o fato de o site ser brasileiro e Hugo ser português é um obstáculo para qualquer tipo de ação judicial, que seria muito difícil levar adiante devido às diferenças de jurisdição e de leis.

Quanto aos outros injuriados, não estão diretamente envolvidos, o que é visto pelo pessoal do site como uma oportunidade para jogar sua raiva em alguma direção sem correr muitos riscos de ser processado. Ou seja, são várias manifesações de covardia. Mas errar é humano, e as pessoas que fazem esse site não são vulcanos, ferengi nem trills.

Talvez eles quisessem deixar implícito que os erros da colunista não são culpa do site. Eles realmente podem ter agregado a moça sem saber que ela recorreria ao plágio para alimentar o site. Mas, ao perceber isso, deveriam ter sido mais sérios, tirando os textos do ar ou lhes dando os devidos créditos (além do meu e o de Hugo, havia vários outros textos plagiados). E nem precisava pedir desculpas.

Hoje eles tomaram, finalmente, uma providência razoável. Tiraram do ar a coluna e os artigos assinados por Jéssica Esteves. O que enfim poderia ser considerado um ato de humildade parece mais ter sido motivado por covardia. Ora, o @startrek_brasil continuou enviando insultos e demonstrando imensa arrogância (agradecendo a visibilidade que os tweets de reclamação têm dado ao site, por exemplo – francamente, não me importo se o site está fazendo sucesso ou não, mas me incomoda que enganem cada vez mais leitores).

Coronelismo virtual

Eis uma das lições que se podem tirar disso tudo: na internet, as estruturas de dominação se reproduzem, mesmo que virtualmente. Na história humana, temos vários exemplos de povos e pessoas que usaram algum tipo de poder para se apoderar dos bens alheios (dinheiro, terras, pessoas – que se tornavam escravos ou súditos). Esses espólios eram usados para aumentar ainda mais seu poder e para manter a ilusão de que a dominação assim criada era legítima, vontade dos deuses, prova de uma suposta superioridade de um povo ou de seu destino glorioso.

Um exemplo mais próximo da realidade da maioria dos leitores da Teia é a história fundiária do Brasil. Desde a Abolição da escravidão até hoje, pratica-se o chamado coronelismo, o monopólio realizado por indivíduos e famílias que possuem capital econômico e político para manter uma posição de poder, estabelecendo suas próprias regras na região em que atuam, espoliando terras ocupadas por pequenos agricultores (e se arrogando a propriedade legítima), submetendo pessoas à obediência forçada, usando meios criminosos para silenciar e matar aqueles que ameaçam seu poder.

O que pode ser visto como uma versão em miniatura dos impérios, como o Romano e o Mongol. No universo de Jornada nas Estrelas (já que estamos falando nisso), o Império Klingon utiliza esses mesmos meios para estender e ampliar seu poder na galáxia. Sua primeira aparição na série (Missão de MisericórdiaErrand of Mercy -, 27º episódio, 1ª temporada, TOS) é emblemática daquilo que os caracteriza como um povo conquistador, belicoso, orgulhoso e imperialista. Kor, agente do Império Klingon, aporta no planeta Organia declarando que este está automaticamente anexado ao Império e que toda manifestação contrária será reprimida.

O site Star Trek Brasil agiu como um coronel que se pensa intocável e não assume como crimes os atos de roubo que comete. Ao contrário, deixa bem claro que a visibilidade que possui na internet, a quantidade de leitores e de seguidores no Twitter, lhe serve como capital para justificar sua impunidade, e ainda envia ofensas aos injuriados, como demonstração de uma suposta imunidade.

Os autores cujos nomes foram mascarados pelo nome de Jéssica Esteves não têm tantos leitores nem tantos seguidores no Twitter para promover uma mobilização de tamanho significativo. Mas eles têm provas a apresentar e têm registrada a publicidade de todo o episódio na internet. Provavelmente nem Jéssica Esteves (se é que ela existe) nem o Star Trek Brasil pedirão desculpas, mas agora eles sabem que, se incorrerem novamente no erro, estão suscetíveis a novas denúncias. Não da minha parte, pois me cansei disso, tenho minha vida para viver e meus posts para escrever. Mas basta ter amigos menos pacientes e mais dispostos a nos defender para que certas falcatruas venham à tona.

Cotas raciais – parte 1

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O Brasil está num impasse. A depender do resultado de discussões e votos nas instâncias governamentais brasileiras, poderemos ter mudanças radicais na forma como encaramos nossa identidade nacional, étnica, racial e cultural. Isso por que estamos às voltas de uma difícil polêmica sobre a proposta de se implementar as cotas raciais nas universidades do Brasil.

A recente audiência no Supremo Tribunal Federal trouxe à baila um discurso controverso, proferido pelo senador Demóstenes Torres, em que defende as cotas sociais (voltadas aos pobres de qualquer identidade racial) temporárias e em que fez duas afirmações armadas de dinamite: que a escravidão foi corresponsabilidade dos africanos; e que as relações sexuais entre senhores brancos e escravas pretas foi mais consensual do que se pensa. A dinamite explodiu em todos os lados…

Guerra discursiva

As duas reações básicas opostas que se viram nos meios de comunicação, jornais impressos e televisivos, blogs etc. são emblemáticas de uma postura maniqueísta adotada por quase qualquer um que se meta no debate sobre as cotas raciais no Brasil.

De um lado, os defensores das cotas argumentam que os negros precisam de uma compensação por uma desvantagem histórica. Outro argumento é que o racismo dificulta o acesso de negros à universidade, o que explicaria o número reduzido de “afro-descendentes” na Academia. Para os defensores das cotas, é preciso distribuir as pessoas na universidade numa proporção equivalente à distribuição racial do Brasil.

De outro lado, aqueles que são contrários às cotas raciais argumentam que no Brasil não existe impedimento do acesso de pessoas negras às universidades. Se há menos negros na Academia, é porque a maioria dos negros é pobre e só tem acesso ao ensino público, que é de má qualidade, e portanto não consegue se qualificar para o vestibular. Segundo os contrários às cotas, estas seriam uma forma de instaurar uma segregação racial que o Brasil não conhece.

Enquanto os primeiros acusam os segundos de ser “negacionistas”, de negarem que existe racismo no Brasil, a contra-acusação é de que os defensores das cotas são “racialistas”, ou seja, pretendem institucionalizar a divisão da população em raças. Ambos os lados acusam o outro de racismo.

Além disso, em geral se representa a defesa das cotas raciais como atrelada à esquerda política, enquanto a oposição a elas é pensada como tendo uma ligação com a direita. Em geral, as manifestações dos pró-cotas sobre os anticotas se imbui da acusação de direitismo, conservadorismo e elitismo. Os anticotas muitas vezes acusam os pró-cotas de radicalismo e atribuem esta característica a uma cumplicidade entre os movimentos sociais, predominantemente de esquerda.

A configuração desse conflito discursivo é tal que os dois lados se posicionam de maneira extremamente maniqueísta (e a própria existência de “dois lados” e não três ou mais é já uma consequência desse maniqueísmo).

De modo que, voltando ao pronunciamento de Demóstenes, vimos que a maioria dos que são pró-cotas demonizaram sem meios-tons o senador do DEM, enquanto a maioria dos anticotas louvaram a perspicácia e relevância de suas observações para combater a ideia das cotas raciais.

Em suma, numa cena típica desse embate épico, mais uma batalha repete o mesmo esquema de todas as outras: um dos lados se recusa a ver os elementos racionais e relevantes do pronunciamento de Torres e o outro lado não consegue ver os elementos absurdos e preconceituosos desse discurso.

Vítimas e algozes

Qual o sentido de se trazer à discussão, como o fez Demóstenes Torres, o fato histórico segundo o qual a escravidão negra começou na África e foram os africanos escravizadores quem venderam mão-de-obra também africana aos europeus que iam colonizar as Américas?

Alguns rechaçaram a afirmação de que os africanos foram corresponsáveis pela escravidão negra na América. Outros consideraram essa questão irrelevante para a discussão sobre as cotas raciais, pois entendem que o fato de negros terem vendido negros não diminui em nada o estado de sofrimento daqueles que vieram nos porões dos navios negreiros e seus descendentes.

É bem provável que Torres tenha se equivocado em sua intenção de relacionar o mercado africano de escravos com a questão racial no Brasil. No entanto, lembrar que havia africanos escravizadores e africanos escravos é importante para mantermos em mente que não devemos naturalizar a condição de vítima dos negros nem a condição de algoz dos brancos.

Entretanto, Torres foi realmente infeliz quando disse que as relações sexuais entre senhores brancos e escravas negras eram mais consensuais do que pensamos. Ele deixou de considerar que a violência pode ocorrer mesmo sem o uso da força física. Qual é a mulher que vai se negar a se deitar com seu dono, se ela sabe que será castigada se não obedecer? Ou que verá seus filhos castigados? A única escolha que ela teria para não sofrer (tanto o estupro quanto o castigo lhe trariam sofrimento) seria fugir e se aquilombar. Mas talvez os riscos fossem maiores (e é possível que, mesmo a maioria dos escravos querendo se libertar, a minoria o tentasse, por medo das consequências).

Mas o senador não errou somente por deixar de ver que há violência no aparente consentimento do dominado. Ele errou também porque sugeriu, talvez sem ter essa intenção, que os negros se resignaram à condição de escravos, deixando implícita a ideia de que eles são naturalmente servis, naturalmente menos independentes do que os brancos, naturalmente inferiores. E tudo isso ressoa o imperialismo europeu que construiu uma elaborada imagem dos orientais (ver o livro Orientalismo, de Edward W. Said), dos negros africanos e dos índio americanos, segundo a qual eles necessitam da tutela dos brancos civilizados para darem o melhor de si (não para si, mas para a civilização branca).

Cotas raciais vs. cotas sociais: um falso dilema

O pronunciamento de Demóstenes Torres não se resumiu a isso, claro. Ele apresentou argumentos a favor da cotas sociais nas universidades, enfatizando também que elas seriam temporárias. Isso tendo em vista a necessidade de melhoria do ensino público, esta sim a melhor forma de se distribuir equitativamente a população nos corredores das faculdades.

Porém, Torres se coloca uma questão que cria uma falácia lógica que a maioria das pessoas não percebe. Ele pergunta qual é a melhor opção: beneficiar os negros ou beneficiar os pobres de qualquer identidade racial? Colocando essa pergunta, ele força a audiência a se limitar a duas opções, e escapa do seguinte questionamento: será que as cotas, sejam de que tipo forem, são uma boa ideia?

(Em alguns casos são, quando o critério das cotas é um obstáculo direto ao acesso. Por exemplo, se nas entrevistas para um emprego há uma clara discriminação daqueles que têm pele escura, independentemente de suas qualificações profissionais, as cotas são uma forma de forçar os empregadores a abolirem a discriminação racial dessa seleção.)

Mas, enquanto os pró-cotas insistem na necessidade das cotas raciais, os anticotas não apresentam ao governo nenhuma proposta mais ousada para erradicar o racismo. Continuam defendendo a bandeira (com a qual concordo) do ensino público como a solução desse problema, sem no entanto vermos uma proposta concreta para implementar essa mudança.

Problemas do “negacionismo”

O título do livre de Ali Kamel poderia ter sido melhor escolhido: Não somos Racistas. No miolo, ele afirma que existe racismo no Brasil, mas nega que exista segregacionismo e defende que há um traço em nossa cultura que se caracteriza pela condenação do racismo e a aceitação da mestiçagem. Porém, o título do livro acaba refletindo a acusação do lado oposto, ou seja, dos pró-cotas, aos anticotas, de que estes negam que existe discriminação e preconceito raciais no Brasil.

Miriam Leitão, defensora das cotas raciais (o que me surpreendeu, pois esperava que na Globo todos fossem contra as cotas raciais, o que além disso mostra que a dicotomia pró e contra cotas não coincide necessariamente com a dicotomia “esquerda/revolucionário” e “direita/conservador”), faz uma crítica bem interessante aos “negacionistas”, em seu artigo Destruir a Obra, publicado no site d’O Globo:

Diante de qualquer proposta para reduzir as desigualdades raciais, principal obra da escravidão, aparece alguém para declamar: “Todos são iguais perante a lei.” E são. Mas o tratamento diferenciado aos discriminados existe exatamente para igualar oportunidades e garantir o princípio constitucional.

Ou seja, os “negacionistas” apelam para uma suposta “democracia racial” ou “harmonia entre as raças”. Clamam para que nos lembremos que somos uma nação mestiça, que temos uma cultura de misturas. Realmente temos uma cultura miscigenada e também costumamos nos orgulhar disso, mas clamar esse ideal em alto e bom som é uma forma de abafar a verdade de que se trata ainda de um ideal não totalmente incorporado. Vivemos num país racista e ainda representamos os não-brancos como tipos exóticos em meio aos caucasianos “normais”.

Além disso, quando exclamam que nossa Constituição é universalista, esquecem-se de se perguntar se esse universalismo realmente se aplica na prática de uma população que mal sabe ler e interpretar a Carta Magna e que sofre a exploração de quem sabe lê-la e manipulá-la. Embora sejamos iguais perante a Lei (isso quando conseguimos chegar diante dela, que o diga Franz Kafka), há muitas situações cotidianas que mostram a discriminação racial (é só prestar atenção).

Dessa forma, embora apresentem argumentos consistentes para se opor às cotas raciais nas universidades, colocando em questão o obstáculo da desigualdade social, falta aos “negacionistas” uma ousadia maior na crítica ao racismo e na busca de melhores soluções para sua erradicação, que vão além da necessária reforma do ensino público, e que passa por questões relativas à autoestima de uma população que tem como modelo de beleza e inteligência um tipo europeu.

Problemas do “racialismo”

As cotas raciais pressupõem que os candidatos ao vestibular deverão se identificar quanto à sua “raça”. Isso implica em:

  1. Contrariar a lei democrática segundo a qual todos os cidadãos têm os mesmos direitos, sem discriminação de qualquer tipo, inclusive a racial. Acaba-se ignorando que a pressuposição de que existem raças humanas é o principal sustentáculo do racismo;
  2. Contrariar a tendência brasileira a diluir as identidades raciais, o que ocorre de diversas formas, seja na criação de uma miríade de identidades mestiças (mulatos, caboclos, moreninhos, sararás, cafuzos, japas), seja na representação segundo a qual o “negro rico” é “branco”. Nisso, a discriminação racial se manifesta de muitas formas, com várias nuances e graus, não só na mera dicotomia branco vs. negro;
  3. Tender a esquecer que as desigualdades no Brasil têm mais a ver com questões sócio-econômicas do que raciais. Um pobre branco é muito mais discriminado do que um rico negro. (Porém, temos que admitir que, provavelmente, um pobre negro é mais discriminado do que um pobre branco.)

Outro problema dos argumentos pró-cotas é a noção de “dívida histórica”. Esse conceito encontra raízes na Lei de Talião, que é a epítome da ideia de justiça, ou seja, qualquer perda deve ser paga por alguém na mesma moeda e na mesma medida, um olho arrancado por um olho arrancado, o sangue do assassino (nem que seja de alguém de sua família) pelo sangue que ele derramou.

Essa ideia antiga é retomada por cristãos que esquecem de uma revisão trazida por Jesus de Nazaré sobre a Lei de Talião: o perdão. Uma sábia frase atribuída a Mohandas Gandhi mostra o absurdo de se clamar porjustiça:

Olho por olho e o mundo acabará cego.

O que não significa se resignar com os crimes cometidos. Há desigualdades sociais que devem ser reparadas sim, mas não em nome de uma “dívida histórica”, não se entre os que devem pagar estejam brancos tão carentes quanto os negros pobres.

É preciso olhar para o presente, conhecer a atual situação de desigualdade social em nossa sociedade, para tomar uma decisão tão importante quanto é a implantação de cotas raciais, que poderá provocar outros tipos de prejuízos além do racismo que já existe. Luís Fernando Dias Duarte me inspira neste sentido:

toda política compensatória por reservas étnicas é antiuniversalista e apunhala no coração as esperanças de implantação de um regime verdadeira e amplamente democrático em nossa nação. […] Certamente seria rico, por exemplo, discutir a falácia de uma compensação “histórica” (se considerarmos que o argumento central é o da real e continuada exclusão social sofrida pelos escravos africanos e seus descendentes) que acaba, no entanto, centrada num critério fenotípico e não de “descendência” histórica efetiva.

En garde… touché !

Sou contra as cotas raciais. Mas isso não me impede de tentar ver as falhas dos argumentos dos anticotas e não concordar com tudo o que vem deles. Nem de procurar os pontos acertados do discurso pró-cotas.

Vi essa atitude desaguerrida em poucos lugares. Um deles foi num artigo bem ponderado de Gilson Rodrigues, em seu blog recém-nascido Meritocriticando. Gilson é a favcr das cotas raciais temporárias, mas isso não o impede de tecer críticas aos dois lados do debate, e com bastante cuidado, ao meu ver.

Porém, o que apresento aqui é um resumo rasteiro da questão das cotas raciais, com ênfase na análise (também muito resumida)  do debate e da guerra discursiva que se forma em torno dela.

Na próxima parte, discorrerei mais sobre porque sou contra cotas raciais nas universidades e sobre problemas relativos ao vestibular e à própria função social da Academia.

[Continua…]

Links

Debate entre colegas no Blog do Edmilson Lopes

Seguem abaixo alguns links, em ordem cronológica, de um debate entre alguns colegas do curso de Ciências Sociais da UFRN. Este meu artigo foi inspirado em parte por essa discussão (não deixem de ver os comentários):

Outros links atuais

Avatar [Resenha – Parte 2]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

O filme Avatar (2009), de James Cameron, apesar de sua trama simples e previsível, apresenta muitos temas relevantes para a humanidade do século XXI. Com uma montagem de cenas perfeita e imagens arrebatadoramente belas e envolventes, consegue sensibilizar para muitas questões pertinentes.

Na primeira parte desta resenha, fiz uma sinopse comentada e uma análise dos nomes de lugares e personagens da trama. Nesta segunda parte, discorrerei sobre temas antropológicos: observação participante, choque cultural, etnocentrismo, relativismo, imperialismo; e, imiscuídas nestes tópicos, questões filosóficas: ética e universalismo.

Choque cultural

Avatar é uma história de choque cultural. Extrapandorianos, humanos, com tecnologia superavançada pousam no mundo dos na’vi e começam um trabalho de exploração capitalista que vai de encontro ao modo de vida dos nativos. Os alienígenas terráqueos consideram importante para os na’vi aprender a língua da Terra (o inglês) e ter acesso a novíssimas e complexas tecnologias que mudarão suas vidas. É a velha anedota do colonizador que traz bugigangas para os índios em troca de pau-brasil e ouro.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Mas os nativos não precisam de nada que os humanos oferecem. Porém, estes estão ávidos por três coisas: a riqueza material que poderiam extrair do unobtânio, minério caríssimo (Parker Selfridge e sua equipe); a oportunidade belicosa de viver uma batalha (Miles Quaritch e seu batalhão); e a oportunidade científica de descobrir novas realidades geológicas, botânicas, zoológicas e antropológicas. Apenas esta última se justifica racionalmente.

They missed the point, of course. A motivação de um homem que cai ali de paraquedas, o paraplégico Jake Sully, é retomar suas pernas e viver uma aventura. O resultado é que ele conseguiu algo muito mais valioso do que dinheiro, adrenalina guerreira ou descobertas científicas. Ele descobre a importância do equilíbrio natural do universo, através de sua iniciação na sociedade dos na’vi do clã Omaticaya.

Observação participante

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Bronislaw Malinowski, antropólogo inglês, com ilhéus das Ilhas Trobriand, em 1918.

Antes de tudo, e repetirei isso adiante, Jake Sully não empreendeu a observação participante propriamente dita, ou seja, o método científico desenvolvido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski em seus estudos etnográficos nas Ilhas Trobriand. Ele não usou uma abordagem científica nem estava preocupado com elaborar teorias a respeito da vida dos na’vi. Afinal, ele não era cientista, era um “bebê”.

No entanto (relevando a impossibilidade de se tornar um nativo em qualquer cultura diferente daquela que nos criou desde criança até a idade adulta em apenas 3 meses), podemos ver a experiência de Jake como uma ilustração de como se dá a observação participante, essa que é talvez uma das mais sofisticadas metodologias na Antropologia.

O pouco tempo que Jake leva para se iniciar na vida dos na’vi poderia se justificar (em parte) pelo fato de que terráqueos e pandorianos já tinham bastante experiência uns com os outros, o que não é mostrado no filme. A história começa com uma tentativa de retomada de contato, ou seja, cada uma das duas culturas já sabe bastante sobre a outra. Neste sentido, penso que foi uma perda grande não ter explorado mais o choque cultural, metaforizando as reais dificuldades advindas de um encontro entre alienígenas que nunca haviam ouvido falar uns dos outros (o que a série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração faz bem melhor).

Repetindo, Jake não é antropólogo e não empreende a observação participante malinowskiana. Mas ele entra no clã dos omaticaya de coração e cabeça vazios, o que permite que ele se abra à completa experiência de se mover pelas árvores com agilidade, domar montarias, dominar o arco e flecha e sentir-se conectado à natureza como qualquer na’vi.

Por ser um “bebê” para Neytiri, Jake começa do zero sua imersão. Como nenhum outro cientista conseguiu, por terem as cabeças cheias de expectativas, o ex-fuzileiro está pronto para começar uma nova vida, e somente incorporando a identidade e os costumes na’vi ele consegue entender a mentalidade, a vida e os anseios do outro. Pode-se dizer que ele realizou uma observação participante visceral e não-etnográafica.

Antropologia imperialista

Os maiores desenvolvimentos da Antropologia se deram, paradoxalmente, em situações neocolonialistas. A Grã-Bretanha enviou Malinowski às Ilhas Trobriand porque estas eram colônia inglesa, e conhecer melhor os nativos era importante para uma melhor administração.

Uma crítica que li algures à história de Avatar foi que o escolhido para salvar os nativos era um “civilizado”, ou seja, um humano branco norte-americano, e isso seria propaganda ideológica norte-americana, mostrando quão virtuoso é o povo salvador do mundo. Porém, lembremo-nos que esses norte-americanos do filme são na maioria favoráveis à exploração dos na’vi e de Pandora.

Além disso, Jake deixa aos poucos de ser humano e incorpora a identidade na’vi, tanto que a vida em seu corpo paraplégico passa a ser um sonho ruim e a vida com os na’vi vai se tornando cada vez mais real. Ele realmente renasce como na’vi, e a única coisa que lhe permite ajudar seus novos irmãos é seu conhecimento profundo do inimigo e uma audácia que ele deve mais ao seu temperamento individual e a sua história particular do que ao fato de ser humano branco norte-americano.

Depois de audaciosamente domar um Toruk (“última sombra”, uma espécie de ave extremamente feroz que apenas 5 na’vi conseguiram cavalgar na história dos omaticaya) a nobreza de Jake finalmente se manifesta no ato humilde de oferecer ajuda ao novo chefe do clã, Tsu’tey (que herdou o posto de Eytucan, recém-morto pelos humanos), seu ex-rival, sem clamar para si nenhum posto importante, mesmo sabendo que, ao se tornar Toruk Macto (“cavaleiro da última sombra”), será respeitado por todos os na’vi.

Guerra preventiva ou Pax Romana

A guerra é muitas vezes (irracionalmente) justificada por motivos preventivos, especialmente em situações imperialistas. O que está por trás é na verdade um interesse escuso, normalmente garantir uma posição dominante na relação com o outro.

Foi o que empreendeu o Império Romano com a chamada Pax Romana. Foi o que repetiu o império norte-americano na Guerra do Iraque. E há uma claríssima referência, em Avatar, à política beligerante de George “Warrior” Bush, quando o coronel Miles Quaritch brada que “vamos combater o terror com terror”.

Júlio César, imperador de SPQR; George "Warrior" Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. "Si vis pacem para bellum" é a ideologia belicista.

Júlio César, imperador de SPQR; George “Warrior” Bush, presidente dos EUA; Miles Quaritch, coronel da RDA. “Si vis pacem para bellum” é a ideologia belicista.

O conhecimento sobre os na’vi tinha o único objetivo de melhor explorar sua lua-natal. Essa abordagem se assemelha muito ao conhecimento do Oriente elaborado pelas nações imperialistas ocidentais. Esse conjunto de saberes, que incluíam vários preconceitos, generalizações e menosprezo, foi chamado por Edward W. Said de Orientalismo e servia de justificativa (irracional) para a dominação.

Esse tipo de atitude preconceituosa é visto durante todo o filme em afirmações que representam os na’vi como animalescos, primitivos, ignorantes, drogados. A conexão bioquímica entre a fauna e flora de Pandora, explicada por Grace Augustine, é ridicularizada por Parker Selfridge: “o que diabos vocês andaram fumando lá embaixo?”

Os exploradores não se permitem a experiência de aprender a cultura local e tirar algum proveito nobre e evolutivo. Talvez a troca tivesse se efetivado se os humanos mostrassem boa vontade de compartilhar uma experiência e não insistissem que são só eles quem têm o que oferecer aos nativos, sendo o unobtânio a moeda e o preço pelo “progresso” trazido da Terra (que, pelo que consta em algumas falas do filme, está com seus recursos naturais esgotados).

A subestimação do “selvagem”

Ewoks

O colunista Jorge Coli, da Folha de S. Paulo, escreveu uma resenha interessante sobre Avatar, na qual ele faz uma referência a Os Sertões, de Euclides da Cunha. Durante os preparativos de um ataque aos revoltosos liderados por Antônio Conselheiro, o coronel Moreira César afirmou: “Vamos almoçar em Canudos”. Ele não esperava que seria tão difícil combater os “brutos” sertanejos, da mesma forma que o coronel Miles Quaritch não esperava perder a batalha contra os na’vi, antes da qual afirmara: “vamos jantar em casa”.

Este é um tema comum em épicos, e se trata de um interessante tema antropológico, pois que toca no relativismo cultural. As grandes civilizações levam seu etnocentrismo a uma escala imperial, considerando que aqueles povos não-assimilados e cuja cultura é considerada inferior não têm condições de resistir a uma guerra (pois, pensam os conquistadores, não têm tecnologia tão avançada nem táticas eficazes) nem à assimilação (pois a cultura do conquistador é considerada melhor e mais desejável).

Porém, a Guerra do Vietnã serve de exemplo real para o equívoco imperialista. Os norte-americanos não esperavam que os vietcongues tivessem a capacidade de, em seu próprio território, resistir e ludibriar os inimigos. O exército norte-americano, por exemplo, se surpreendeu com o uso complexo de túneis, que permitiu aos nativos promover ataques surpresa.

Voltando à ficção, em Guerra nas Estrelas: Episódio VI – O Retorno de Jedi, o Império Galáctico se utiliza dos típicos recursos de um governo expansionista, especialmente a violência física. Mas, com sua avançada tecnologia, não consegue vencer a batalha contra os pequeninos ewoks da lua de Endor, com suas lanças de madeira e pedra, fundas e asas-delta de couro.

Exploração dos recursos naturais e o obstáculo humano

O etnocentrismo imperialista está longe de deixar de ser um problema atual. Se tomarmos o exemplo da influência cultural dos EUA em todas as partes do mundo, vemos que uma relação de dominação ainda se mantém, em que se supervaloriza acriticamente tudo o que é produzido pelos gringos e se subestimas os modos de pensar, viver e até de falar dos povos que vivem em sociedades subordinadas.

A arrogância do conquistador (que age hoje mais no âmbito cultural do que no bélico) o faz tomar a liberdade de assumir a liderança da história de povos “menos civilizados”, como se estes não tivessem a capacidade de “descobrir” o melhor caminho para sua evolução e como se a intervenção externa fosse a melhor das bençãos.

Às vezes essas intervenções podem trazer, a longo prazo, melhorias para os conquistados (que restarem). Mas nem sempre, e sempre é ao custo de muitas mortes e de enormes prejuízos para ambos os lados. Especialmente quando se consideram os produtos naturais cultivados para o bem-estar de uma população (e que poderiam servir para toda a humanidade) como mercadorias a entrar no mundo capitalista, para benefício de uns e prejuízo de outros. E é exatamente o que ocorre na corrida pelo unobtânio (Pandora é uma espécie e Eldorado, onde o ouro é substituído pelo unobtânio): para a RDA, os nativos de Pandora são obstáculos e não parceiros.

Apesar disso, é corrente atualmente o ideário que valoriza a diversidade cultural, e que tem origem no Romantismo alemão de Johann Gottfried von Herder (Também uma Filosofia da História para a Formação da Humanidade). Paradoxalmente, esse ideário pode ter efeitos interessantes para o imperialismo cultural, pois pode dificultar a mudança histórica e o intercâmbio cultural ao cristalizar nichos sociais e valorizar a manutenção das tradições (com a ideia de autenticidade, analisada por Charles Taylor em The Ethics of Authenticity).

É esse ideário que permite a aparição de uma história onde a cultura local de um povo tribal é vista como mais importante do que os interesses egoicos de um empreendimento capitalista. Porém, para ser mais real, a trama deveria deixar mais claro que o contato entre humanos e na’vi deveria trazer grandes mudanças para todos os envolvidos, mas o desfecho dá a entender que tudo só pode terminar bem se tudo continuar como era.

[Continua…]

Obama cumprimenta Akihito

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Em visita ao Japão, parte de um conjunto de visitas a países asiáticos, o presidente norte-americano Barack Obama cumprimentou o imperador nipônico Akihito, com um aperto de mão e uma reverência bem à japonesa, ou seja, curvando-se diante do cumprimentado.

O que deveria ser uma simples formalidade diplomática, de respeito (antes um respeito à cultura do anfitrião do que um respeito à figura de autoridade do imperador) se tornou motivo de críticas conservadoras por parte de alguns norte-americanos. Segunda essas críticas, o presidente dos EUA não deveria se curvar diante do monarca do sol nascente.

A relação histórica dos EUA com as outras nações e, neste caso, com o Japão talvez explique porque muitos americanos repudiam e consideram humilhante o gesto de Obama perante a autoridade japonesa.

À direita, a Estátua da Liberdade; à esquerda, A Liberdade Liderando o Povo, de Eugène Delacroix

À esquerda, a Estátua da Liberdade; à direita, A Liberdade Liderando o Povo, de Eugène Delacroix

Ora, os arrogantes EUA têm agido há muito tempo como os líderes da humanidade. Veem-se na figura da estátua da Liberdade, transposta para a pintura de Eugène Delacroix, A Liberdade guiando o Povo, ou A América guiando o Mundo… Os valores ocidentais consideram que curvar-se é o gesto de quem se submete. O chefe do Estado mais poderoso do mundo não deveria, portanto, se curvar diante de ninguém.

Mas há ainda outras peças no jogo. Os EUA são hoje o que a Europa foi na Idade Moderna. O mundo é atualmente colonizado pela América: “american way of life”, dollar, McDonald’s, comics, rock and roll, Microsoft and everything. Assim como, na Idade Média, a Igreja Católica continuou o legado do antigo Império Romano, os EUA continuaram a obra europeia de conquistar o resto da América, a África a Ásia…

A relação da Europa/EUA com a Ásia, desde os primórdios do imperialismo europeu, se caracteriza pelo que Edward W. Said chamava de Orientalismo (leia minha resenha do livro Orientalismo). A postura dos EUA para com o Oriente é a de um tutor para com uma criança: “Os orientais são atrasados, supersticiosos, vivem sob regimes antiquados e despóticos, precisam ser trazidos à civilização pelos civilizados”.

As intervenções dos EUA em países “pré-democráticos”, levando “justiça” e “implantando os avanços da democracia” (Afeganistão, Vietnã, Iraque etc.) colocam a nação norte-americana numa posição arrogante: “Não devemos nada a ninguém, o mundo é que nos deve”.

Em especial, a história do Japão foi marcada por episódios que o colocaram numa situação frágil em relação aos EUA. A 2ª Guerra Mundial foi decisiva para isso, pois a vitória dos Aliados sobre o Eixo, com a ocupação do Japão pelo exército norte-americano, houve a “reconstrução” do país, tutelada pelos EUA. Para estes, o Japão não só foi salvo como foi modernizado com o desenvolvimento econômico e a implantação de um regime democrático.

Além disso, o general MacArthur, que liderou a diplomacia e a interface com o imperador Hirohito, resolveu que não seria boa ideia dissolver a hierarquia monástica do Japão, para que os EUA pudessem agir sem resistência dos nipônicos. Dessa forma, Hirohito não só foi um fantoche para iludir os japoneses como teve a ficha limpa por MacArthur, para não ser acusado de crimes de guerra.

Ou seja, para os EUA, o Japão lhes devem muito pelo que têm hoje. Pior, o Japão ainda é, para os norte-americanos, um país que ainda não se modernizou completamente, pois mantém muitos costumes milenares, na culinária, nas relações sociais, nas artes. E na política. Embora Hirohito e a família imperial tenham tido sua natureza divina questionada depois da derrota do Japão na Guerra, ainda há quem acredite que a família tem ascendência de Amaterasu (um lugar mítico parecido com o Céu ocidental).

Dessa forma, para os EUA, é absurdo que um presidente moderno faça uma reverência, como se estivesse reconhecendo que o saudado é um deus. Porém, não é assim que os japoneses se cumprimentam? Não sabemos se a intenção de Obama era realmente saudar um monarca ou saudar um japonês. Na primeira hipótese, ele está sendo diplomático, talvez em excesso, com o objetivo de agradar o anfitrião (o imperador nunca se curva). Na segunda hipótese, ele está respeitando a cultura local, para ser melhor recebido.

A julgar por sua linguagem corporal, fazendo o gesto sem nenhuma hesitação, ele podia até estar se divertindo naquele momento e certamente o gesto não implica que Obama reconheça Akihito como um deus, e não se pode concluir que haja uma relação desfavorável para os EUA no encontro entre os dois governantes. Seja o que for, é um ótimo sinal de que os EUA estão se apresentando para o mundo com mais humildade (foi muito positivo, por exemplo, que Obama tenha dito que Lula é o presidente mais popular do mundo). Se compararmos a postura dos representantes norte-americanos da fotos abaixo, veremos uma mudança gradual.

General MacArthur ao lado do imperador Hirohito, ex-vice-presidente Dick Cheney cumprimentando Akihito e o presidente Barack Obama saudando o mesmo. Mudança gradual...

General MacArthur ao lado do imperador Hirohito, ex-vice-presidente Dick Cheney cumprimentando Akihito e o presidente Barack Obama saudando o mesmo. Mudança gradual…

Porém, alguns norte-americanos, especialmente republicanos, estão se esforçando para comparar a atitude de Obama à de outros representantes de vários países, numa tentativa de mostrar que o atual presidente dos EUA está equivocado. Veja fotos no site Politico neste link.

Mas… se a história moderna permitiu que desmitificássemos a divindade do imperador do Japão, por que os norte-americanos não podem aprender também a tirar de seu presidente a aura divina? No mínimo, a saudação foi um pedido de desculpas pelo estrago da 2ª Guerra.

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Homo familiaris

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CartaCapitalNesta semana, a CartaCapital publicou uma matéria sobre a Lei da Guarda Compratilhada. Apresenta-se ali um debate entre a defesa de que as mulheres deveriam ter mais direitos sobre crianças e a posição segundo a qual os pais deveriam ter direitos iguais aos delas na criação dos filhos.
Mãe de todos os mitosA primeira posição se baseia em idéias preconcebidas da cultura ocidental sobre o papel da mãe, discutidas em obras como Mãe de todos os mitos: como a modela e reprime as mães, de Aminata Forna, e Um amor conquistado: o mito do amor materno, de Élisabeth Badinter. Tendemos a pensar numa predisposição natural que levaria a uma obrigação para com os filhos maior por parte das mães.

Não há determinação natural. Conheço casos de pais mais dedicados e responsáveis do que as mães e vice versa. Além disso, é bom lembrar que dedicação não é sinônimo de boa criação. A superproteção, seja na forma do confinamento, seja por meio de agrados ilimitados, é prejudicial. Embora eu não seja pai, acho que não é suficiente querer “aprender fazendo” o métier paterno. A experiência com filhos de outras pessoas, parentes e/ou amigos, deveria servir como preparo.

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