Etnocentrismo em LittleBigPlanet

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Certamente um dos mais divertidos video games exclusivos da plataforma Playstation 3, da Sony, LittleBigPlanet segue uma diretriz interessante: jogar, criar, compartilhar. Não só proporciona horas de incursão em mundos coloridos e dinâmicos, com centenas de itens para coletar, como permite a criação de novas fases pelos jogadores e o compartilhamento delas com a comunidade do Playstation Network, que tem à disposição milhares de possibilidades de diversão. Apesar de ser um dos meus jogos preferidos, no entanto, desde que comecei a jogá-lo percebi que os diversos “mundos”, que se passam em versões em miniatura de várias partes da Terra, carregam certa ideologia etnocêntrica em suas concepções visuais e musicais, tendo como centro a Europa e retratando de forma caricatural os outros continentes.

No jogo, em resumo, o jogador interpreta uma “Sackperson” (uma pessoazinha feita de pano) e viaja através de um mundo fantástico construído com materiais do cotidiano, como pano, papel e madeira, e objetos comuns como sapatos, penas e carrinhos de brinquedo. Cada fase se passa em uma parte estilizada de um miniplaneta Terra. Tudo é muito colorido e bem feito, e imergimos em uma espécie de brincadeira infantil e divertida, com desafios interessantes. Porém, há uma série de estereótipos culturais que embasam a concepção de cada um dos mundos visitados pelo protagonista.

Europa – “Os Jardins”

O primeiro mundo se chama “Os Jardins” e se encontra na própria Europa, com motivos medievais e personagens humanos, num ambiente com poucos perigos e com uma arquitetura “civilizada”. O líder desse mundo é um rei bondoso, que tem a companhia de uma rainha. Há por toda parte objetos familiares às sociedades ocidentais urbanas, como sapatos, iô-iôs e skates, compondo o cenário como se este fosse uma brincadeira de criança, que improvisa suas fantasias a partir de itens que encontra no ambiente. É a partir dessa autocaricatura (a equipe que produziu o jogo é britânica) que todos os outros “mundos” são concebidos.

África – “A Savana”

O segundo mundo se encontra no continente africano, e é conhecido como “A Savana”. Vista desde há muito pelos colonizadores brancos como um meio selvagem e incivilizado, não se vê nessa África imaginária nenhum ser humano. O único sinal de Homo sapiens que está presente pode ser ouvido numa das músicas, que tem vozes africanas entoando notas encantadoras. Mas todos os habitantes desse local são animais: macacos, búfalos, crocodilos, suricatos, girafas e reinando sobre todos, um leão.

A África e outros locais que sofreram a colonização europeia são muitas vezes vistos pelos europeus como destino de turistas que querem explorar as atrações “naturais”, quase ignorando a presença humana nativa ou considerando-a inferior ou como parte da “natureza” local. Mesmo que a África de LittleBigPlanet possa ser considerada um lugar divertido e desafiador para os gamers, não se deve ignorar a influência do euocentrismo (etnocentrismo europeu) em sua concepção, retratando a população nativa como selvagem. É uma visão que lembra o universo do personagem Babar, em cujas histórias elefantes, rinocerontes e macacos são os habitantes sencientes da África, sendo os europeus humanos os que vêm “ensinar” os animais a falar, andar sobre duas patas e vestir roupas.

América do Sul – “O Casamento”

O terceiro mundo fica na América do Sul. Para minha surpresa, na primeira vez em que joguei essa parte do game, não encontrei ali uma floresta tropical, com araras, onças e talvez índios. O cenário é habitado por esqueletos mortos-vivos, num ambiente com túmulos e velas. Há referências ao mundo dos mortos, na visão de algumas religiões sincréticas sul-americanas e meso-americanas, e à relação do cristianismo popular com a morte.

Mas, neste cenário conhecido como “O Casamento”, chama atenção o disparate que é ver um conjunto de imagens que remetem muito fortemente ao Día de los Muertos mexicano, ou seja, de um país que se localiza na América do Norte, apesar de fazer parte de um universo bastante heterogêneo chamado América Latina, que inclui toda a América do Sul com sua ampla diversidade cultural. É como se toda a parte sul do continente americano girasse em torno dessa religiosidade necromântica, que não representa, na realidade, nem sequer uma parte significativa da diversidade religiosa dos diversos países e regiões do subcontinente.

América Central/do Norte – “Os Cânions”

Seguindo para o Norte, chegamos a “Os Cânions”, um mundo inspirado no México dos faroestes e das ruínas pré-colombianas. Os seres humanos vivos aparecem novamente, e tudo gira em torno de fogo e explosões. Há um vilão que assaltou um banco, há motivos inspirados na arte asteca e há uma mina com carros e trilhos. A ideia de um recanto bárbaro, sem leis e marcado por um certo abandono, um deserto inexplorado, é a tônica de uma região que foi por muito tempo considerada fonte de riquezas a ser exploradas pelo colonizador, primeiro os povos originários conquistados pelos europeus, depois o “Oeste selvagem” invadido e anexado pelos norte-americanos.

América do Norte – “A Metrópole”

Mais ainda para o Norte, chegamos à América do Norte (ou só América, para os nativos, a “verdadeira América”), o único ambiente propriamente urbano do jogo. Condensando basicamente a cultura dos EUA, modelo contemporâneo para o mundo, “A Metrópole” tem tecnologia avançada em relação a todos os outros lugares do PequenoGrandePlaneta. É habitada somente por seres humanos, que vestem roupas e andam de carro, como se fosse o ambiente mais “desenvolvido” do mundo, onde os personagens têm dinheiro e posses caras.

Essa cidade grande é como que uma continuação do mundo dos “Jardins” europeus, fazendo parte do mesmo mundo “civilizado”, mas com sotaque yankee. A representação dessa parte do mundo ressoa o etnocentrismo que parte da visão dos povos com base étnica na Europa. Dessa forma, a própria mistura cultural que resultou nos EUA é vista nesse jogo eurocêntrico como um lugar com certa malandragem, habitado por gângsteres e pessoas de maneirismos informais.

Japão/Extremo Oriente – “As Ilhas”

Viajando ao Oeste para chegar ao Extremo Oriente, a fase “As Ilhas” remete ao Japão, especialmente ao Japão medieval. Um lugar onde predominam testes de coragem e de habilidade para se enfrentar um mal diabólico e perigoso. Com uma deusa japonesa fantasiosa como guia, adentramos um mundo que tem certo misticismo no ar. Os inimigos são ninjas, sumocas e samurais malignos, com ar misterioso e exótico. São seres humanos que perdem toda aparência humana, o que representa a visão ocidental que quase considera os extremo-orientais como uma outra espécie. Os perigos e obstáculos que desafiam o jogador representa uma forma ardilosa de se usar a tecnologia, que também aparece em robôs, símbolos do Japão contemporâneo.

Índia – “Os Templos”

Ainda no âmbito do que se considera o Oriente, deixamos as ilhas do Sol nascente e vamos à península onde, no mundo real, fica a Índia. Semelhantemente à fase anterior, impera um misticismo e, mais ainda, um mistério e uma magia. Os humanos presentes são iogues, dançarinos e feiticeiros, e encontramos também uma divindade com vários braços (como nas imagens dos deuses hindus), todos com pele azulada, como em imagens sacras indianas (de Kali e Krishna, por exemplo). Essas pessoas têm um ar exótico e parecem pertencer a uma raça não-humana e sobrenatural, como aquelas das “Ilhas”, o que se casa com a visão orientalista (segundo os termos de Edward Said), que homogeneíza os povos do vasto “Oriente”.

Objetos mágicos e magos fazem com que tudo pareça nebuloso e ilusório, como na ideia ocidental que imagina os orientais como ludibriosos e cheios de truques que dão a ilusão de magia e sobrenaturalidade. Aparecem animais como a serpente, evocando encantadores de cobras (e simbolizando as danças indianas estereotipadas), e os elefantes, reduzindo o sagrado “oriental” a um bicho reverenciado pelos indianos em geral.

Rússia – “O Ermo”

A penúltima fase se chama interessantemente “O Ermo” (“The Wilderness”, o que remete à natureza selvagem), e se encontra aparentemente na Sibéria. É onde mora o vilão, “O Colecionador”, que ao longo do jogo vai capturando os habitantes do LittleBigPlanet. Um urso recebe o protagonista nesse ambiente gélido, e representa a natureza/fauno ameaçada pelo explorador. Mas os habitantes são predominantemente soldados e veículos militares (é bom frisar que, na fantasia desse jogo, há seres animados que são coisas).

O urso mostra a visão de uma Sibéria selvagem e incivilizada, enquanto os soldados representam uma Rússiaf belicista e socialisticamente repressora. De qualquer forma, mesmo os ursos, mesmo os ursos e soldados passando para o lado do Sackboy, o vilão tem seu covil escondido em algum lugar da Rússia soviética, o que ressoa uma obsoleta rivalidade entre Ocidente e Oriente, herdada da Guerra Fria.

Fantasia e diversão

Não considero que nenhuma das observações acima estrague o jogo de maneira alguma. Mesmo tendo consciência dos vestígios de etnocentrismo que perpassam LittleBigPlanet e tantos outros video games, consigo encará-lo como o que ele é essencialmente: um jogo. Ademais, mesmo os motivos que servem para construir as diversas fases da trama podem ser vistos como mundos totalmente fantásticos baseados vagamente em coisas ou ideias reais.

LittleBigPlanet 2, felizmente, conseguiu corrigir isso, trazendo várias fases cujos cenários são praticamente desvinculados de estereótipos regionais, e mesmo os personagens com características étnicas não representam imagens preconceituosas ou jocosas sobre os respectivos povos que lhes servem de inspiração. Talvez a equipe da Molecule tenha se dado conta de que a Fantasia é muito mais interessante quando liberta dos vínculos que a ligam à realidade, que é muito mais subjetiva do que costumamos pensar.

Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

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Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (Shōgun), escrito em 1975 pelo autor inglês James Clavell, é uma semificção que conta a história do daimio Toranaga em sua escalada ao xogunato, na transição entre os séculos XVI e XVII. Este personagem é na verdade uma ficcionalização de uma figura história do Japão, Tokugawa Ieyasu. Ao mesmo tempo, a história acompanha a trajetória do navegador  Blackthorne (uma referência ao explorador inglês William Adams) em sua viagem às terras nipônicas.

Sinopse

John Blackthorne, piloto de uma embarcação chamada Erasmus, desembarca (depois de quase naufragar) numa vila costeira ao sul do Japão. Junto com uma tripulação de holandeses, ele é feito cativo pelo líder da aldeia e tem o navio confiscado, com tudo o que há dentro dele. O senhor daquela província, Kasigi Yabu, pretende utilizar o navio e as armas de fogo dos navegantes numa guerra para dominar o Japão e se tornar xógum, ou seja, um regente secular subjugado apenas ao imperador (este, considerado descendente dos deuses, tem apenas poder simbólico).

Blackthorne é usado por Yabu para ajudá-lo a utilizar os instrumentos de guerra ocidentais que agora tem à disposição, mas seus planos são frustrados pela intervenção de seu suserano, o daimio (espécie de senhor feudal no Japão medieval) Yoshi Toranaga, que toma para si a embarcação e todo o armamento dos holandeses, assumindo ele mesmo os planos de guerrear contra o Conselho de Regentes, com o fim de se tornar xógum e garantir a segurança do herdeiro do trono, que ainda é uma criança.

Na trajetória dessa trama repleta de intrigas, traições e manipulações, Blackthorne acaba se tornando conselheiro de guerra de Toranaga, adquirindo o título de hatamoto (e, por definição, também samurai). O inglês aproveita essa chance para ganhar os favores do daimio e conseguir uma tripulação japonesa para atacar o Navio Negro português daquele ano (uma espécie de navio comercial de carga), frustrar os planos mercantis dos lusitanos e espanhóis e ao mesmo tempo diminuir a influência dos ibéricos sobre o comércio japonês. Este é apenas um detalhe de um tenso conflito entre, por um lado, ingleses e holandeses (protestantes) e, por outro, portugueses e espanhóis (católicos), que permeia a narrativa.

Mas nesse caminho Blackthorne se apaixona por sua intérprete, a samurai Toda Mariko, que fala idiomas ocidentais e é uma convertida ao Catolicismo. A relação entre os dois se intensifica com as lições de língua japonesa e sobre a cultura japonesa, e Blackthorne cada vez mais se acultura, acostumando-se com banhos frequentes, quimonos, chás e a comida frugal dos nativos. Ele e Mariko acabam tendo um envolvimento romântico intenso, e é a partir dessa relação íntima que várias reviravoltas ocorrerão na trama, tanto para Toranaga e seus vassalos quanto para o navegador inglês.

Aspectos literários

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

William Adams, fonte de inspiração para John Blackthorne

Este romance possui uma narrativa envolvente. Um dos motivos para isso é a complexidade com que Clavell constrói seus personagens. Ele é genial quando se trata de apresentar cada uma das figuras que compõem o palco dessa história, e é sempre possível antever como aquele personagem vai se encaixar e se comportar na história. Um exemplo é a apresentação de Toranaga. Em sua primeira aparição, ele está cuidando de um machucado na pata de um de seus falcões de caça, com extremo zelo e atenção, enquanto seu falcoeiro, em cuja mão enluvada repousa a ave, a segura. Com o tempo, descobrimos que o papel de Toranaga na trama é de um exímio falcoeiro de pessoas, manipulando cada uma das peças do seu lado do tabuleiro de xadrez.

Isso torna os personagens extremamente coerentes e verossímeis. Além disso, o narrador sempre apresenta ao mesmo tempo seus comportamentos e seus pensamentos, bem como a atitude mental de cada um deles ao escrutinar seus interlocutores. Esse escrutínio mútuo e constante caracteriza o denso clima de intriga da obra, em que muitas vezes, mesmo tendo uma relativa onisciência sobre a intimidade dos personagens, ocorrem reviravoltas, decisões inesperadas e resultados surpreendentes.

Essa facilidade de sabermos o que um personagem pensa se contradiz com a dificuldade de sabermos suas reais intenções, mas há um aspecto da cultura japonesa explorado na obra que explica porque isso ocorre. Aquilo que Mariko chama de “cerca óctupla” é uma disciplina mental, baseada nos ensinamentos budistas, pela qual a pessoa separa seus pensamentos e memórias em compartimentos mentais. As diferentes situações exigem que o indivíduo acesse compartimentos específicos, o que leva, por exemplo, Toranaga a quase acreditar na sua autorrendição forjada, que é na verdade um engodo para executar um plano de ataque e um golpe de estado.

Uma das qualidades mais reconhecidas de Xógum é o nível de detalhamento com que Clavell descreve a cultura material japonesa, bem como os costumes, hábitos e valores da hierarquizada sociedade nipônica medieval. Ele se aprofunda de tal maneira nessa espécie de etnografia literária que consegue brincar com possíveis choques culturais, mal-entendidos e ruídos de comunicação advindos das diferenças entre, por um lado, o inglês e seus tripulantes holandeses e, por outro, os japoneses. No meio de toda essa intriga, também têm papel de relativo destaque os portugueses e espanhóis católicos, cujos interesses são contrários aos dos representantes das nações protestantes.

Uma obra relativista

É justamente nesse encontro de culturas que vemos aquilo que considero o aspecto mais interessante da obra de Clavell: sua capacidade de tratar com relativismo as diferenças culturais dos personagens e povos que encenam as páginas do livro. A noção de barbarismo x civilização, por exemplo, não tem sentido absoluto em Xógum. Ocidentais consideram os japoneses fedorentos assim como estes não suportam o cheiro daqueles. De um ponto de vista ocidental contemporâneo higienista, isso parece estranho, já que os europeus da época em que se passa a história não costumam tomar banho, enquanto os japoneses são extremamente asseados, banhando-se constantemente.

Criam-se situações de constrangimento utilizando as diferenças alimentícias, como o fato de o inglês gostar de carne vermelha preparada com fogo enquanto os japonese praticamente só comem peixe cru. Chega-se ao limite quando um cozinheiro, designado para servir Blackthorne, considera inviável suportar ver uma carcaça de ave apodrecendo, que o inglês esquecera pendurada para cozinhar depois, e não consegue evitar sentir vergonha por ter jogado a carcaça fora e falhar com seu senhor, o que o leva a se suicidar.

Mas talvez não tenha havido constrangimento maior do que o sentido por Blackthorne quando Mariko pediu que ele lhe contasse sobre os hábitos de “travesseiro” dos ocidentais. Para ela e para outras duas mulheres que estavam presentes, não havia nenhum pudor em falar publicamente sobre sexo, mas o puritanismo dele o fez se sentir desconfortável. Sem entender a razão dessa timidez, Mariko disse a ele que, se ele quisesse “travesseirar”, poderia arranjar uma mulher disposta. Diante da recusa, ela o deixa ainda mais transtornado, fazendo-o se enfurecer, ao perguntar se ele preferiria um garoto. E então é ela quem se enraivece (embora sua disciplina lhe permita não demonstrar isso) diante da forma rude com que ele responde.

Mas eventualmente o inglês e sua intérprete têm um caso amoroso, no qual cada um ensina e aprende muito sobre o outro e sobre sua cultura. Mariko aprende a noção de amor romântico (o que não pode ser visto aqui como uma típica história eurocêntrica colonialista em que o ocidental “ensina” a nativa que a relação conjugal não precisa se dar através de um casamento arranjado), mas continua valorizando a importância do casamento como acordo entre famílias, como meio de se estabelecer alianças. Mas, se ela não deixa de se sentir feliz por compartilhar sua paixão com o inglês, de um modo como nunca havia sentido por outro homem, ele também aprende uma lição valiosa com ela, o desapego quanto à vida, permitindo-o aceitar a morte dela como necessária para o bem de todos.

O tema da intimidade revela também muito das diferenças entre as duas culturas sobre as relações entre homens e mulheres. Para Blackthorne, a princípio, parecia que as japonesas tinham sua liberdade extremamente  restringida. Mas Mariko entendia o contrário, que elas tinham tanta liberdade quanto os homens, embora cada gênero tivesse deveres diferentes. O fato é que tanto as situações que Blackthorne presencia ali quanto as lembranças sobre sua própria esposa na Inglaterra revelam as desigualdades sexistas em ambas as sociedades.

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Gravura ukiyo-e de um guerreiro prestes a cometer seppuku

Particularmente incompreensível ao piloto inglês é a noção de honra que perpassa todas as castas da sociedade nipônica. Para ele é difícil entender a importância que os japoneses dão à ordem hierárquica e ao conjunto social. Qualquer ameaça a essa ordem, mesmo que seja uma pequena insubordinação, deve ser severamente punida, às vezes com a morte, para que o grupo não se  desagregue. E daí advém uma postura profundamente resignada diante da morte, que os japoneses encaram com uma tranquilidade trágica. Se em determinado momento Blackthorne fazia de tudo para evitar a morte, sua, de seus companheiros e de sua amada, em sua transformação em samurai ele passa a aceitar tudo como contingência do carma.

As crenças de todos também são relativizadas, não colocando o autor nenhum dos credos em posição privilegiada em relação aos outros. Se em um momento o Protestantismo, encarnado na figura de Blackthorne, parece se sobrepor ao Catolicismo dos inimigos do piloto inglês, em outro vemos a bela cena de uma missa católica ao ar livre, ministrada por um padre a apenas uma mulher. O xintoísmo e o budismo japoneses também aparecem como formas significativas de interpretar, ver e viver o mundo. A noção de carma, extremamente valorizada pelos japoneses, é absorvida por Blackthorne em sua transformação em nativo, e a expressão “Carma, né?”, repetida exaustivamente por ele, imitando seus anfitriões, quase substitui completamente qualquer menção à vontade do deus cristão do qual é devoto.

O sagrado, na forma como é encarado por cada um dos personagens, é respeitado por Clavell em sua importância subjetiva e transcendente em relação ao mundo profano das maquinações e politicagens. Enquanto toda a trama é permeada por interesses políticos, econômicos e carnais, que atingem todos os personagens sem exceção, a última esperança de harmonia (ua) é depositada no carma budista, na vontade dos deuses xintoístas ou na providência do Deus cristão.

Seja quanto à higiene, aos hábitos alimentares, à sexualidade, à religião, aos valores ou a qualquer outro aspecto cultural, todas as culturas no romance são tratados friamente por Clavell, que deixa os julgamentos etnocêntricos apenas nos pensamentos e bocas dos personagens, o que revela mais ainda de suas respectivas culturas. Cada cultura tem significado completo para seus respectivos membros, e podemos entender os motivos de cada um se comportar segundo a moral de seu próprio povo, sem necessariamente concordar com ela.

No entanto, talvez um dos maiores méritos de Clavell dentro de sua postura relativista seja a quebra de paradigma quanto ao papel do europeu estrangeiro em terras extraeuropeias. Diferente da figura colonizadora que se intromete em assuntos “indígenas” para tutelar os nativos e ajudá-los em suas lutas (nem uma aventura interplanetária como Avatar escapou desse esquema), Blackthorne é quem é usado pelo chefe nativo Toranaga para executar seus planos, e no final a história, “a gloriosa saga do Japão”, inicialmente centrada no navegador europeu, é realizada pelos japoneses e para os japoneses.

Links

  • Xógum (livro) – Wikipédia

Nota pós-texto

Existe uma minissérie homônima de 1980, baseada no livro, Confiram o trailer.

Babies – Resenha

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Babies (2010), filme dirigido por Thomas Balmès, é um documentário que testemunha, sem narração, o 1º ano de vida de quatro pequenos seres humanos, cada um de uma parte distinta da Terra. Ponijao é um menino namibiano, Mari é uma menina japonesa, Bayar é um menino mongólico e Hattie é uma menina norte-americana.

Acompanhamos diversos momentos da vida das pequenas crianças, desde o nascimento, passando pelas primeiras palavras até os primeiros passos. Os quatro bebês comovem o espectador, como é comum com adultos contemplando infantes dessa tamanho e idade. O cineasta escolhe momentos pitorescos e os encaixa com cenas que mostram especificidades culturais, de hábitos e costumes.

Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

BabiesTítulo: Babies

Diretor: Thomas Balmès

País: França

Ano: 2010

A câmera do europeu adulto

A presença dos pais e de outros coadjuvantes é sempre notada, mas os ângulos das câmeras privilegiam a ação dos pequeninos em sua aventura de descoberta do mundo. Essa abordagem nos aproxima da experiência dos bebês e da vivência dos cuidados dos pais.

Como o filme é dirigido por um ocidental, percebe-se que o documentário tem um viés voltado para o registro da alteridade. Dessa forma, a pequena Hattie tem pouco destaque, enquanto Ponijao e Bayar parecem brilhar mais. Isso parece ter a ver com o fato de serem os mais “estranhos” para a câmera de Balmès, com costumes e ambientes mais exóticos para os olhos de um europeu.

Entretanto, pode ser que essa tenha sido a minha impressão enquanto compartilhando, ou seja, a vida da bebê norte-americana não era muita novidade para mim, acostumado com hábitos um pouco parecidos na sociedade em que vivo e conhecendo um pouco da vida norte-americana através da mídia.

Diferenças e semelhanças

As situações díspares a que assistimos durante o filme nos mostram a diversidade de condições em que os seres humanos podem se criar e viver, sem deixar de se constituírem como plenas criaturas da mesma espécie.

Se, por um lado, ao bebê namibiano é permitido engatinhar na terra nua e brincar com ossos de animais, por outro, a menina norte-americana é cercada de cuidadosa obsessão com a higiene esterilizadora. Os ambientes em que vivem, respectivamente, Bayar e Mari são bem diferentes também. O menino mongólico está o tempo todo rodeado de animais domésticos e em constante contato com bois, cabras, gatos e galinhas, enquanto o cenário em que vive a japonesinha é completamente urbano (os únicos animais, além do gato doméstico, com que tem contato estão atrás das janelas de vidro do zoológico).

De modo geral, a obra nos mostra quão semelhantes são os seres humanos, independentemente da cultura e das superficiais características físicas. Vemos todos os bebês rindo, chorando e com medo. Cada um deles busca com curiosidade conhecer o mundo ao seu redor, os objetos e os animais. Cada um, em seu tempo, aprende a balbuciar e imitar a fala dos adultos. Todos eles experimentam os primeiros passos e as primeiras quedas.

Ao mesmo tempo, vemos como são diversas as culturas humanas. As mães e pais têm técnicas e modos diferentes de lidar com os mesmos problemas. A mãe namibiana limpa os olhos de seu bebê com a língua, enquanto a mãe mongólica lava os do seu com o leite do próprio seio. As diferenças entre o ambiente urbano (Japão e EUA) o rural (Mongólia e Namíbia) implica em uma socialização diferente também. Na cidade, o contato familiar quase se restringe ao convívio com os pais (os dois bebês urbanos são filhos únicos) e com adultos que fazem parte do círculo de amizades dos pais ou de grupos dos quais estes participam. Já as crianças do mundo rural têm relação mais próxima com a família extensa, irmãos, primos, tios e avós.

Desde muito cedo em sua vida, o ser humano está rodeado de estímulos, imerso nos hábitos e costumes dos adultos. Isso nos ajuda a perceber o processo pelo qual uma cultura fica tão entranhada no indivíduo, acostumado com os padrões de comportamento que presencia e replicador desse mesmo modo de viver e ver o mundo.

Mas ficamos com o registro de quatro mundos diferentes, sem comunicação entre si. Embora tenha sido uma proposta válida em si mesma, seria muito interessante que Balmès, talvez posteriormente, promovesse um encontro com os quatro pequenos astros e enriquecesse a experiência, mostrando a estranheza que cada um demonstraria diante de seus companheiros de enredo.

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Trailer

Babies

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Está previsto para estrear em 2010 o filme Babies (Bebês), um documentário dirigido por Thomas Balmes, não muito conhecido, mas suspeito que esteja prestes a dar uma (no mínimo pequena) guinada em sua carreira cinematográfica com esse que promete ser um belo filme e que já está fazendo algum sucesso na internet.

A premissa do filme é simples e muito interessante: acompanhar o desenvolvimento de quatro bebês recém-nascidos, desde o nascimento até o primeiro aniversário; cada criança nasce e vive num lugar diferente da Terra: Ponijao é de Opuwo, na Namíbia; Mari é de Tóquio, Japão; Bayar é de Bayanchandmani, Mongólia; e Hattie é de San Francisco, EUA.

Embora haja muito poucos detalhes disponíveis sobre essa obra, basicamente detalhes de produção e um trailer divertido, podemos adiantar alguns pensamentos a respeito, pelo menos, da ideia de se fazer um documentário com essa criativa premissa.

O trailer já deixa evidentes os dois aspectos opostos e complementares que apreendemos da visão de quatro crianças de diferentes culturas: as semelhanças e as diferenças.

A cena de dois bebês africanos brigando é muito familiar para nós do Ocidente. Quando brincam com animais, todos os bebês têm algo em comum, uma mão desajeitada explorando com audácia a parte animada do mundo. Ao rastejar, engatinhar e enfim caminhar, qualquer bebê mostra que todos nós temos um início de trajetória parecido na vida (além de nos ensinar a origem comum da espécie humana, descendente de vertebrados reptilianos que se tornaram mamíferos quadrúpedes e enfim primatas).

Mas ao mesmo tempo vemos que os seres humanos têm que ser reconhecidos pela singularidade dos grupos e indivíduos. No trailer, podemos vislumbrar, neste aspecto, apenas detalhes que diferenciam o ambiente em que vive cada criança, coisas que em cada lugar servem aos mesmos propósitos básicos da vida humana. Certamente, vendo o filme completo, poderemos enxergar melhor os aspectos locais que determinam o desenvolvimento de um caráter cultural específico, e essa será a parte mais interessante, pois tocará num ponto antropológico fundamental.

Para concluir, gostaria de apresentar uma preocupação epistemológica que pretendo levar comigo para a sala de cinema (ou para minha TV, quando tiver o DVD), que diz respeito a uma abordagem corrente segundo a qual, observando bebês, poderíamos perceber aquilo que é cultural e distingui-lo daquilo que é biológico no Homo sapiens, como se um recém-nascido estivesse na condição de tabula rasa.

Em condições normais, todo ser humano anda, mas não aprende a andar sozinho; todo ser humano fala, mas não aprende a falar sozinho; todo ser humano estabelece relações com outros seres, mas essas relações estão regidas por regras culturais específicas que só podem ser aprendidas através dessas próprias relações. Enfim, observar bebês nos primeiros estágios de vida não nos permite apreender de forma óbvia aquilo que é universal (que tanto pode ser biológico como cultural) daquilo que é específico (tanto em relação à cultura específica que identifica os conterrâneos quanto às experiências pessoais que tornam cada indivíduo único).

Estou inclinado a considerar que aquilo que há de comum em todos os seres humanos é um amálgama entre condições biológicas e condições culturais. A cultura é a natureza humana e a natureza humana é resultado da cultura. As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand, ajuda a vislumbrar como uma coisa mexe na outra. O que quero dizer com isso tudo é que o documentário Babies provavelmente servirá mais para nos trazer insights sobre essas questões do que evidências para uma teoria.

Anyway, há alguma coisa em nós, seres humanos (talvez o haja em outras espécies), que nos faz ficar encantados com as feições infantis de um filhote de Homo sapiens (e de outros filhotes também). Só isso já proporcionará uma experiência agradável para os espectadores desse documentário. Bebezinhos fofos…

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Obama cumprimenta Akihito

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Em visita ao Japão, parte de um conjunto de visitas a países asiáticos, o presidente norte-americano Barack Obama cumprimentou o imperador nipônico Akihito, com um aperto de mão e uma reverência bem à japonesa, ou seja, curvando-se diante do cumprimentado.

O que deveria ser uma simples formalidade diplomática, de respeito (antes um respeito à cultura do anfitrião do que um respeito à figura de autoridade do imperador) se tornou motivo de críticas conservadoras por parte de alguns norte-americanos. Segunda essas críticas, o presidente dos EUA não deveria se curvar diante do monarca do sol nascente.

A relação histórica dos EUA com as outras nações e, neste caso, com o Japão talvez explique porque muitos americanos repudiam e consideram humilhante o gesto de Obama perante a autoridade japonesa.

À direita, a Estátua da Liberdade; à esquerda, A Liberdade Liderando o Povo, de Eugène Delacroix

À esquerda, a Estátua da Liberdade; à direita, A Liberdade Liderando o Povo, de Eugène Delacroix

Ora, os arrogantes EUA têm agido há muito tempo como os líderes da humanidade. Veem-se na figura da estátua da Liberdade, transposta para a pintura de Eugène Delacroix, A Liberdade guiando o Povo, ou A América guiando o Mundo… Os valores ocidentais consideram que curvar-se é o gesto de quem se submete. O chefe do Estado mais poderoso do mundo não deveria, portanto, se curvar diante de ninguém.

Mas há ainda outras peças no jogo. Os EUA são hoje o que a Europa foi na Idade Moderna. O mundo é atualmente colonizado pela América: “american way of life”, dollar, McDonald’s, comics, rock and roll, Microsoft and everything. Assim como, na Idade Média, a Igreja Católica continuou o legado do antigo Império Romano, os EUA continuaram a obra europeia de conquistar o resto da América, a África a Ásia…

A relação da Europa/EUA com a Ásia, desde os primórdios do imperialismo europeu, se caracteriza pelo que Edward W. Said chamava de Orientalismo (leia minha resenha do livro Orientalismo). A postura dos EUA para com o Oriente é a de um tutor para com uma criança: “Os orientais são atrasados, supersticiosos, vivem sob regimes antiquados e despóticos, precisam ser trazidos à civilização pelos civilizados”.

As intervenções dos EUA em países “pré-democráticos”, levando “justiça” e “implantando os avanços da democracia” (Afeganistão, Vietnã, Iraque etc.) colocam a nação norte-americana numa posição arrogante: “Não devemos nada a ninguém, o mundo é que nos deve”.

Em especial, a história do Japão foi marcada por episódios que o colocaram numa situação frágil em relação aos EUA. A 2ª Guerra Mundial foi decisiva para isso, pois a vitória dos Aliados sobre o Eixo, com a ocupação do Japão pelo exército norte-americano, houve a “reconstrução” do país, tutelada pelos EUA. Para estes, o Japão não só foi salvo como foi modernizado com o desenvolvimento econômico e a implantação de um regime democrático.

Além disso, o general MacArthur, que liderou a diplomacia e a interface com o imperador Hirohito, resolveu que não seria boa ideia dissolver a hierarquia monástica do Japão, para que os EUA pudessem agir sem resistência dos nipônicos. Dessa forma, Hirohito não só foi um fantoche para iludir os japoneses como teve a ficha limpa por MacArthur, para não ser acusado de crimes de guerra.

Ou seja, para os EUA, o Japão lhes devem muito pelo que têm hoje. Pior, o Japão ainda é, para os norte-americanos, um país que ainda não se modernizou completamente, pois mantém muitos costumes milenares, na culinária, nas relações sociais, nas artes. E na política. Embora Hirohito e a família imperial tenham tido sua natureza divina questionada depois da derrota do Japão na Guerra, ainda há quem acredite que a família tem ascendência de Amaterasu (um lugar mítico parecido com o Céu ocidental).

Dessa forma, para os EUA, é absurdo que um presidente moderno faça uma reverência, como se estivesse reconhecendo que o saudado é um deus. Porém, não é assim que os japoneses se cumprimentam? Não sabemos se a intenção de Obama era realmente saudar um monarca ou saudar um japonês. Na primeira hipótese, ele está sendo diplomático, talvez em excesso, com o objetivo de agradar o anfitrião (o imperador nunca se curva). Na segunda hipótese, ele está respeitando a cultura local, para ser melhor recebido.

A julgar por sua linguagem corporal, fazendo o gesto sem nenhuma hesitação, ele podia até estar se divertindo naquele momento e certamente o gesto não implica que Obama reconheça Akihito como um deus, e não se pode concluir que haja uma relação desfavorável para os EUA no encontro entre os dois governantes. Seja o que for, é um ótimo sinal de que os EUA estão se apresentando para o mundo com mais humildade (foi muito positivo, por exemplo, que Obama tenha dito que Lula é o presidente mais popular do mundo). Se compararmos a postura dos representantes norte-americanos da fotos abaixo, veremos uma mudança gradual.

General MacArthur ao lado do imperador Hirohito, ex-vice-presidente Dick Cheney cumprimentando Akihito e o presidente Barack Obama saudando o mesmo. Mudança gradual...

General MacArthur ao lado do imperador Hirohito, ex-vice-presidente Dick Cheney cumprimentando Akihito e o presidente Barack Obama saudando o mesmo. Mudança gradual…

Porém, alguns norte-americanos, especialmente republicanos, estão se esforçando para comparar a atitude de Obama à de outros representantes de vários países, numa tentativa de mostrar que o atual presidente dos EUA está equivocado. Veja fotos no site Politico neste link.

Mas… se a história moderna permitiu que desmitificássemos a divindade do imperador do Japão, por que os norte-americanos não podem aprender também a tirar de seu presidente a aura divina? No mínimo, a saudação foi um pedido de desculpas pelo estrago da 2ª Guerra.

Veja também

O Chinês Americano [Resenha]

Padrão

O Chinês AmericanoHá uma lenda chinesa que conta a história de Sun Wukong, o Rei Macaco. Nascido de uma pedra, ele empreende uma busca de autoaprimoramento, pela qual tenta se tornar cada vez mais poderoso e provar que pode se igualar aos deuses, mas acaba se obrigando a negar sua natureza, o que o leva à necessidade de uma busca espiritual.

Jin Wang é um menino de ascendência chinesa nascido nos EUA. Neste contexto, ele é estigmatizado e luta entre a necessidade de ser feliz e a urgência de se adaptar a um meio no qual ele é pária. O contrário acontece com Danny, que é americano e se vê às voltas do embaraço causado pela visita do primo chinês Chin-Kee. As três histórias estão mais interligadas entre si do que parece à primeira vista.

O Chinês Americano é uma história em quadrinhos escrita e desenhada pelo norte-americano de origem chinesa Gene Luen Yang. Trata, numa linguagem simples, singela e profunda, de racismo, xenofobia, bullying, autoaceitação, crises de identidade e outros temas. Tendo, aparentemente, aspectos autobiográficos, possui um viés infanto-juvenil que, no entanto, não tira o interesse do público adulto.

Recontando uma lenda antiga

Pintura do Palácio do Verão em Beijing, mostrando cena da Jornada ao Oeste

Gene Yang reconta a Jornada ao Oeste, clássico épico chinês cujo protagonista é Sun Wukong, o Rei Macaco. Este personagem é tão importante no imaginário do Extremo Oriente que serviu de inspiração para Akira Toriyama e seu Son Goku, protagonista de Dragon Ball.

O Rei Macaco buscando aprimoramentoA história do Rei Macaco é uma alegoria da busca pela própria natureza. Ele inicia sua jornada tornando-se um mestre em várias técnicas espirituais, como voar em cima de uma nuvem e lutar com grande força e habilidade. Para a desgraça dos deuses, ele dá uma surra em todo o panteão depois de ser recusado a entrar numa festa.

Sua busca por aprimoramento continua, mas agora com outra motivação. Ele quer ser indestrutível como o deuses e ser aceito como um. Passa a calçar sapatos e, dominando a técnica da metamorfose, assume aspecto humano. Apesar disso, nunca consegue esconder que é um macaco, pois seu rosto ainda é de símio.

Quando finalmente se depara com a entidade mais poderosa do universo, o criador de tudo, este o ensina algumas coisas sobre autoaceitação e arrogância. Só depois de muitos séculos é que o Rei Macaco vai perceber que poderia ter saído debaixo da montanha de pedras simplesmente assumindo sua forma original e pequena de macaco. Ao ser chamado como discípulo de um monge, este lhe diz que não precisará dos sapatos em sua nova jornada.

Os outros entre nós

Jin Wang é um menino norte-americano cujos pais são chineses. Suzy Nakamura é sua colega de classe, cuja origem é japonesa. Wei-Chen é seu melhor amigo, e veio de Taiwan. Todos eles são “orientais” para os colegas de escola e, portanto, são todos iguais. Pior, são culturalmente atrasados e têm sorte de estar vivendo na América.

Danny recebe Chin-KeeMas têm o enorme azar de ainda serem “orientais” e, portanto, diferentes, e não podem participar da vida comum aos alunos “brancos”. Por mais que dominem o inglês, por mais que incorporem o american way of life, por mais adaptados que estejam, não conseguem realizar os desejos comuns a todo jovem norte-americano de sua idade sem que renunciem à própria liberdade de serem quem são.

Para Danny, norte-americano, o maior embaraço é ter que acolher todos os anos seu primo chinês Chin-Kee, que mal sabe pronunciar a língua inglesa, que é extremamente estudioso e sempre responde certo às perguntas dos professores, que é bastante desengonçado quando tenta dançar músicas ocidentais, que tem modos bizarros ao se alimentar e, talvez o pior de tudo, tem costumes bárbaros quando se trata de cortejar as meninas.

Abrindo a obra

O interessante na história do Rei Macaco não é “aprender a aceitar quem nós somos e nos manter fiéis a isso pela eternidade”. Afinal, todos nós mudamos com o passar do tempo e das experiências. Porém, precisamos aprender os limites dos autossacrifícios, que podem muitas vezes nos fazer sofrer mais do que a situação em que somos párias. Por que querer ser humano, se o que me faz realente feliz não pode ser apreciado por um ser humano?

Da mesma forma, o drama de Jin Wang é enfrentar o racismo. Ele chega ao ponto de achar que só se tornando um norte-americano (ou seja, um branco, já que, na ideologia norte-americana, nem índios nem negros nem imigrantes se enquadram nessa categoria) poderá ser feliz.

A lição de que temos que aceitar nossas origens é previsível e um tanto simplória. Como disse acima, podemos mudar se isso for melhor para nós. Mas a profundidade filosófica do conto é a de que o mundo (formado ao mesmo tempo pelo espaço e pelas pessoas que o habitam) precisa aceitar as diferenças idiossincráticas como singularidades e não como defeitos.

E temos surpresas quando nos deparamos com as diferentes facetas dos personagens. Nennhum deles pode ser critalizado pela primeira impressão que temos deles. No final, não se os pode classificar simploriamente como bons nem maus.

Amarrando a trança

As três tramas têm elementos em comum, relativos ao tema do preconceito, da autoestima e da autoaceitação. Mas também elas se entrelaçam, e cada uma das três passa a ter um significado diferente depois que percebemos essa ligação. Três peças bem construídas passam a formar uma obra maior e bem-feita.

Crash: no LimiteOutra proeza  de Yang é abordar as três histórias com três estilos narrativos diferentes. A primeira tem um aspecto épico e poético, com elementos de ação e emoção que remontam ao mesmo tempo a um drama e a uma história de super-herói. A segunda se apresenta como um drama, quase um melodrama com aspectos trágicos. E a terceira é uma comédia, uma paródia dos sitcoms televisivos norte-americanos, que satiriza a forma como os meios de comunicação de massa utilizam os estereótipos étnicos para fazer humor.

Tanto o entrelaçar de histórias como a quebra de expectativa em relação aos personagens lembram o excelente filme Crash (2004), de Paul Haggis, cujo principal tema é racismo e xenofobia. O mérito de O Chinês Americano, como o de Crash, é iludir o expectador e fazê-lo experimentar, na própria degustação da obra, os sentimentos dos personagens ao descobrir as consciências pensantes por trás das máscaras das etnias, das raças ou das espécies.

O mundo fantástico do Oriente – parte 2

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No texto anterior, escrevi uma resenha sobre Orientalismo, livro de Edward W. Said. Havia tantas coisas para escrever que tive que cortar o texto em duas postagens. Pretendo aqui dar continuidade às considerações que iniciei anteriormente, dando mais ênfase a alguns exemplos que tenho observado e que se aplicam bem, na prática, ao que Said nos apresenta em teoria.

VImos anteriormente que o orientalismo é um corpus de saberes que criam no nosso imaginário uma entidade chamada “Oriente”, que generaliza características que acabamos atibuindo a uma variedade enorme de povos, culturas, religiões, modos de produção e meios e modos  de viver. Além disso, costumamos atribuir a esses povos o aspecto de serem atrasados em relação ao “Ocidente”, e acabamos justificando uma “necessidade” de este colonizar aquele.

Esse conjunto de ideias pré-concebidas, que também existem em relação a outros povos do mundo, ainda hoje nos faz ouvir, de pessoas que conhecem pouquíssimo da cultura de um país asiático, uma afirmação do tipo:

Nessa novela eles caracterizaram direitinho a cultura indiana.

Como se não fosse necessária nenhuma averiguação empírica a respeito da “cultura indiana”, bastando apenas que a caracterização se pareça com aquilo que temos em nossas mentes quando pensamos em Índia, e que tem mais a ver com como os indianos têm sido representados na literatura, na pintura, no cinema e na televisão ocidentais do que com a representação que eles fazem de si mesmos ou como eles realmente são.

Encantador de serptentes de JaipurA visão do “Oriente” como culturalmente arcaico aparece, por exemplo, num episódio do desenho animado Pica-Pau, em que o protagonista, ao visitar um país oriental não-identificado e genérico, se depara com vários vigaristas, como um faquir que se deita em pregos de borracha e um encantador de serpentes fajuto (a serpentedentro de um cesto de vime na verdade era um homem com um fantoche).

Quando surgem personagens “orientais” em obras de ficção, demonstrando habilidades incomuns, como encantar serpentes, ficar enterrado em estado de animação suspensa autoinduzido durante dias ou levitar, há duas possibilidades. Ou eles são de fato “mágicos” (o que os pode caracterizar como bruxos, que, na mentalidade cristã, estão ligados ao Diabo, ou seja, a uma religião falsa) ou como charlatães e impostores. Raramente há uma explicação racional.

Sabemos que os encantadores de serpentes lidam com animais de verdade, que ludibriam pelo movimento da flauta e não pela música. Basta ver um documentário do Animal Planet para verificar isso. Sabemos que os faquires que se deitam em pregos não são tapeadores, mas apenas se aproveitam de um fenômeno físico segundo o qual um corpo repousado em centenas de pregos próximos uns aos outros distrubui seu peso sem riscos de ser perfurado. Quem assistiu a O Mundo de Beakman sabe disso.

Aladdin © DisneyA homogeneização do “mundo oriental”, que integra povos muito diferentes entre si, nos faz referir ao “Oriente” de forma indistinta, como se qualquer coisa que acontece na China fosse também um aspecto cultural do Sri Lanka. No desenho animado referido acima, por exemplo, que parece se passar na Índia, aparece um vendedor de lâmpadas mágicas falsas, que é uma figura de uma história árabe.

Às vezes fazemos essa generalização em expressões como “dança oriental” (quando queremos nos referir à dança do ventre, por exemplo), “comida oriental” (normalmente nos referindo à cozinha chinesa ou japonesa) ou “misticismo oriental” (notadamente quando se fala de religião indiana).

Mas o “Oriente” é amplíssimo. “Dança oriental” também poderia ser um estilo coreográfico chinês (ou até mesmo o techno dançado por chineses). “Comida oriental” também envolveria comida árabe (ou, quem sabe, pizza feita num restaurante na Arábia Saudita). “Misticismo oriental” certamente não exclui o zen-budismo japonês (e por que não o catolicismo em sua versão nipônica?). Mas a vaguidão dessas representações parece ser proposital, e nos inclina a pensar que uma tal “cultura oriental” tem traços semelhantes em toda a extensão do “Oriente”.

Gabriel von Doscht, autor do blog Dequejeito, satirizou essa confusão ocidental num texto chamado Rala ralando o Tchan aê, em que conta sua ida a um restaurante que servia comida árabe, onde ele teria cometido uma gafe ao confundir o “mundo árabe” com a Índia.

Pintura japonesaIsso tudo me inspirou a ver um episódio de uma telennovela da Globo que está fazendo muito sucesso atualmente. Ontem assisti a um trecho de Caminho das Índias, para averiguar o que eu já desconfiava. Os indianos são representados como pertencentes a uma cultura de valores arcaicos, usam a violência física para admoestar os filhos e praticam o casamento arranjado, contra os anseios dos jovens que não querem se casar se não for por amor.

Não vou dizer que na Índia não se pratiquem esses costumes. Também não defendo a violência física nem o casamento arranjado, e acho que uma educação pelo exemplo e a liberdade na escolha do parceiro amoroso devem ser cultivados. Mas esse tipo de obra mostra esses costumes com o propósito de alertar para o suposto atraso da cultura “oriental”, ao invés de se focar na construção de uma trama interessante (que não posso dizer que essa novela não tem, pois não a acompanho). Além disso, carregam-se as tintas no sentido de generalizar os costumes dos indianos, como se fosse muito pouco comum a transgressão de suas regras sociais.

(Conflitos envolvendo o amor podem servir de base para histórias bem contadas. Romeu e Julieta, por exemplo, é bem sucedida pelo mesmo motivo que O Segredo de Brokeback Mountain. Ambas tratam do amor proibido, o que é um tabu que apela para o sentimento de muitas pessoas, que muitas vezes têm dificuldades de realizar seus desejos devido a valores como o heterossexismo, o racismo e o etnocentrismo. Mas a preocupação dessas histórias é mostrar a resolução de um conflito e não uma visão preconceituosa a respeito de um povo.)

Concluo com um poema e um vídeo. O poema é um soneto que escrevi para minha esposa e no qual cometi uma injustiça para com os árabes, ou seja, retratei uma romântica Arábia voluptuosa que só existe na imaginação e não tem nada a ver com o mundo árabe real. Eis um exemplo daquilo que a mentalidade orientalista faria:

Noite Árabe

Pulsantes corações de fogo brando
Ardendo chamejantes labaredas,
Reverberando lindas luzes ledas,
No espaço infindo risos ribombando…

Estrelas nessas tenras trevas tredas
Dos teus olhos brilhantes rutilando,
Abóbadas noturnas salpicando
Luzentes grânulos nas horas quedas…

Seduz-me, Xerazade, a quieta lábia
Do olhar que me entroniza como rei,
Servo e aprendiz da lei que reina sábia…

Na alcova de teus olhos penetrei,
Onde anoitece ebâneo céu da Arábia,
Sob cuja égide a volúpia é lei…

O vídeo, dividido em 4 partes, é um excelente resumo de Edward Said sobre seu livro, acompanhado de comentários do Prof. Sut Jhally, da Universidade de Massachusetts.