O parto, a mídia, as pessoas e o movimento

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Mídia: a parte de uma visão.

A forma como a grande mídia vem tratando o assunto “parto e nascimento” e a forma como as pessoas vêm interpretando as questões sem o menor discernimento tem me incomodado um pouco. Não só por ser mãe e sensível às lutas pelos direitos da mulher, mas também por ser jornalista e estar dentro da chamada tal mídia. É impressionante como as pessoas aceitam tudo o que é falado sem checarem os assuntos e confrontarem opiniões e evidências. Elas acabam por fazer suas conclusões precipitadas sem o menor respaldo, baseadas, é claro, na visão de outrém.

Para quem (ainda) não sabe, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro se sentiu no direito de proibir que médicos acompanhem partos domiciliares ou deem retaguarda para aquelas mulheres que precisam de remoção de parto em casa para hospital. As resoluções publicadas dão conta ainda da proibição de acompanhantes profissionais (doulas, obstetrizes e parteiras) em ambientes hospitalares.

Então, vamos lá. Vamos desenhar para quem ainda não entendeu: NÃO EXISTE UMA PROIBIÇÃO AO PARTO EM CASA. Existe a punição para médicos que aceitarem fazer parte dessas equipes de assistência domiciliar ao nascimento.

Quem quiser ler as resoluções na íntegra, basta acessar aqui:

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=714&item=1

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=715&item=1

Acontece que os veículos de comunicação têm noticiado que o parto em casa está proibido e que as mulheres têm protestado contra essa decisão. Não, não é isso. A manifestação das mulheres é contra a decisão do Cremerj, que, em outras palavras, cerceia a liberdade de escolha daquela mulher que quer ter uma acompanhante como uma doula, obstetriz ou parteira EM UM HOSPITAL. E ainda retalia (sim, a palavra aqui é retaliação) aquela que decidir por ter seu parto em casa, punindo o médico que atender a alguma que precisar de remoção para hospital. Isso, para mim, se configura como “negar assistência médica”, ou não? A resolução está clara nesse sentido, embora eles agora estejam se contradizendo ao afirmar que nenhuma mulher deixará de ser atendida em hospital (mas não é bem isso que os próprios estão divulgando..)

E ainda fere o próprio Código de Ética Médica que fala do respeito à autonomia. “Capítulo I, inciso XXI – No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes, relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas”.

Ontem (23/07) e hoje (24/07) alguns jornais televisivos, antes de falarem na decisão do Cremerj, mostraram a situação caótica de um hospital de Maceió, em que mulheres esperavam ser atendidas jogadas em corredores em trabalho de parto, parindo ou já com seus bebês.

A demonstração de que hospitais não são exatamente sinônimo de segurança no Brasil.

Achei fantástico por um lado. Eles mostraram que os médicos e o sistema de saúde não têm dado conta da demanda e essas mulheres são maltratadas e violadas em seus direitos humanos, sexuais e reprodutivos das mais variadas formas. Logo depois, vinha matéria do Cremerj “suplicando” que as mulheres não queiram parir em suas casas.

Há duas questões diferentes aqui que quem não está dentro da discussão pode custar a perceber.

A primeira é o fato de que o nosso sistema de saúde é sobrecarregado e que nossos profissionais, em sua maioria, não sabem (e nem podem, às vezes) lidar com essa demanda crescente. Então essa “demanda”, que nada mais é do que seres humanos precisando de assistência e querendo trazer seus filhos ao mundo de uma forma digna, acaba se submetendo a uma série de situações que vão desde piadinhas morais até sequentes e agressivos exames de toque, medicação desnecessária que prejudica a evolução natural do parto e traz ainda mais dor e, muito comumente, fazendo com que as mulheres não dilatem, não contraiam, enfim, não consigam ou “não sejam capazes” de parir seus rebentos. Isso, claro, sem falar na mutilação desnecessária das episiotomias de rotina (aquele cortezinho lá na vagina para aumentar a passagem). Tudo para facilitar o procedimento para quem está atendendo e não para quem está sendo atendido.

Não se iludam: nada ali está levando em consideração o que é melhor para a mulher ou o bebê. E em maternidades privadas não é muito diferente. A diferença em relação aos hospitais privados é que, nesses, geralmente as cesáreas já estão previamente agendadas sob as justificativas mais pífias possíveis, que já foram diversas e comprovadas vezes derrubadas pelos estudos mais recentes na área.

A segunda questão é: os médicos estão exigindo um espaço que eles mesmos não têm dado conta de abarcar. E esse tipo de decisão arbitrária faz cair por terra toda a política de humanização que o próprio sistema de saúde tem, a duras penas, tentado colocar em prática através de políticas públicas como a Rede Cegonha. O próprio Ministério da Saúde reconhece a importância de profissionais como doulas, obstetrizes, enfermeiras obstetras e parteiras nesse processo.

DoulaA participação de obstetrizes (profissionais formadas em curso superior de Obstetrícia) e doulas (acompanhantes profissionais de parto, responsáveis pelo conforto físico e emocional da parturiente durante o pré-parto, nascimento e pós-parto) integra o modelo de assistência obstétrica humanizado e centrado na mulher e tem demonstrado resultados até superiores ao esperado. De acordo com a base de dados em saúde Biblioteca Cochrane, em uma assistência promovida por obstetrizes há maiores chances de partos normais espontâneos e sem anestesia, além de maior sensação de controle durante o nascimento do bebê e mais facilidade para dar início ao aleitamento materno. Em relação às doulas, 21 ensaios clínicos com mais de 15 mil mulheres mostraram que aquelas que receberam esse tipo de suporte relataram maior satisfação com a experiência do parto, tiveram menor duração do trabalho de parto e menor risco de cesariana, entre outras vantagens.

Resumindo: essas profissionais diminuem as intercorrências em um trabalho de parto que possam levar uma mulher a precisar de uma cirurgia. Entenderam onde está o x da questão? O Brasil ocupa a primeira colocação mundial em realização de cesarianas. As taxas desse tipo de cirurgia chegam a 52%, superando os 80% em hospitais privados e em alguns chegando a ultrapassar os 90%, em grande parte, sem indicação clínica – quando o máximo recomendado pela OMS é de 15%.

Parto hospitalar humanizado – A mulher como protagonista.

Passei por quatro ou cinco obstetras quando estive grávida e, quando demonstrava que estava estudando o assunto, eles acabavam assumindo que davam preferência às cesáreas porque eram mal remunerados pelos planos de saúde por cada parto e valia mais à pena fazer 15 cesáreas por dia do que ficar esperando uma mulher parir uma noite ou um dia inteiro (e tem mulher que leva mais tempo que isso). Ou seja: parir não combina com um sistema de saúde mercantilizado e inchado como o nosso. E ainda querem proibir parteiras e enfermeiras obstétricas de atuarem, sendo que elas são, sim, uma mão na roda para o próprio sistema continuar funcionando?

Aí voltamos à questão: as mulheres querem parir em casa? A maioria NÃO. Parir em casa é para todo mundo? Também não. Mas uma coisa todas essas mulheres têm em comum: todas querem respeito. Respeito aos seus corpos, respeito ao seu bebê, respeito ao seu tempo e, sobretudo, respeito ao seu direito de escolha. Até mesmo se essa escolha for por uma cirurgia, contanto que ela esteja sob o poder de avaliar todos os reais riscos conflitando o processo natural com o cirúrgico e, mesmo assim, acredite que essa seja a escolha mais adequada para ela. O que não dá é para ficar passivas, “pacientes”, “mãezinhas”, à mercê da escolha de um Conselho, né? Aliás, como diria minha avó, se Conselho fosse bom… rs

Cesariana – A equipe médica como protagonista.

Nós é que temos que protagonizar a nossa história. A manifestação pela humanização do parto e nascimento é um protesto de mulheres que estão em busca da sua liberdade em todas as instâncias. Liberdade de escolha. A busca por segurança é o que todas essas causas têm em comum. Nós queremos nos sentir seguras, independentemente do local. Queremos ter o PODER e estarmos emPODERadas para fazer nossas escolhas baseadas em evidências científicas e não em ludibriações e terrorismos de cordões assassinos ou corpos defeituosos que não dilatam. Queremos que os profissionais possam nos mostrar todos os caminhos e falar dos reais riscos. Que eles assumam e falem abertamente que há mortalidade e morbidade materna e perinatal em hospitais, e que as estatísticas mostram, inclusive – pasmem – que elas são ligeiramente maior em hospitais, onde estamos cercadas de títulos e aparelhos tecnológicos.

(Um grande estudo holandês publicado em 2011 analisando quase 680 mil mulheres que tiveram a chance de escolher entre parto domiciliar ou hospitalar evidenciou taxas semelhantes de mortalidade perinatal entre os dois tipos de parto – 0,15% nos partos feitos em casa e 0,18% nos partos feitos no hospital. A conclusão foi que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo risco, desde que o sistema de saúde facilite essa opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte.)

Para aquelas mulheres que sempre se sentirão mais seguras em hospitais, é fundamental que o sistema de saúde garanta essa humanização, embora a maioria nem entenda o real significado de humanizar. Aliás, convenhamos, é lamentável termos que falar em “humanizar o atendimento a seres humanos”, quando isso deveria ser uma redundância. Mas, infelizmente, é assim que fica claro. É sermos tratadas como gente e não como número. Basta da mercantilização dos nossos corpos.

Queremos a garantia de que aquela senhora lá do interior tenha a opção de estar na casa dela bem assistida ou de estar em um hospital decente na cidade dela. Ou garantir àquela mulher da cidade grande que tenha seu filho em casa se ela assim quiser. Por que não?  Não sejamos simplistas ou limitados, existem opções e essas opções precisam ser perpetuadas e garantidas a todas – pobres, ricas, esclarecidas ou desavisadas. Hospital, domicílio, casa de parto, água, cama, de cócoras, de quatro, deitada. Médicos deveriam estar ali para ajudar e não para impor. Deveriam saber trabalhar em uma equipe multidisciplinar. Deveriam entender, de uma vez por todas, que o parto é nosso e nós o protagonizamos. E agir quando necessário, para o que eles realmente aprenderam a tratar: DOENÇAS. E gravidez não é doença – não para a maioria dos casos.

A saber, nosso movimento quer:

  • Que a Mulher tenha o direito de escolher como, com quem e onde deve parir;
  • O cumprimento da Lei 11.108, de abril de 2005, que garante que a mulher tenha preservado o direito ao acompanhante que ela desejar na sala de Parto;
  • Que a mulher possa ter o direito de acompanhamento de uma Doula em seu trabalho de parto e parto;
  • Que a mulher, sendo gestante de baixo risco, tenha o direito de optar por um parto domiciliar planejado e seguro, com equipe médica em retaguarda caso necessite ou deseje assistência hospitalar durante o Trabalho de Parto;
  • Que a mulher tenha o direito de se movimentar livremente para encontrar as posições mais apropriadas e confortáveis durante seu trabalho de parto e parto;
  • Que a mulher possa ter acesso a metodos naturais de alívio de dor durante o trabalho de parto, que consistem em: massagens, banho quente, compressa, etc;
  • Um basta em relação à Violência Obstétrica e intervenções desnecessárias que consistem em: comentários agressivos, direcionamento de puxos, exames de toque, episiotomia, litotomia, etc;
  • Que haja fiscalização das altas taxas de cesáreas nas maternidades brasileiras e que as ações cabíveis sejam tomadas no sentido de reduzir essas taxas;
  • Que haja Humanização da Assistência aos Recém-Nascidos, contra as intervenções de rotina;
  • Que a mulher possa optar pelo parto domiciliar tenha direito ao acompanhamento pediátrico caso deseje ou seja necessário.

Há décadas atrás, em Londres, as mulheres lutavam por esses direitos. Hoje, na Inglaterra, elas podem escolher por serem acompanhadas por parteiras ou médicos durante pré-natal, nascimento e pós-parto.

Portanto, mãos à obra.

Os cães ladram, mas a caravana não pode parar.

Serviço:

Marcha pela Humanização do Parto

Data: 05/08/2012

Local: Altura do Posto 9, praia de Ipanema (Rio de Janeiro)

Hora: 14 horas

Fonte da imagem em destaque

O paciente

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Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, o tempo se torna um elemento de preocupação intermitente, como o é o próprio tempo. Ora, todo processo  de cura leva tempo para se concretizar, e a medicina, mais do que a simples aplicação do remédio, é muitas vezes o acompanhamento técnico desse processo de cura, que se dá quase naturalmente, como resposta a algum estímulo químico ou outras terapias adequadas a cada caso.

Numa cena do filme O Outro Lado da Nobreza (Restoration, 1995), o médico Merivel, instado pelo rei a curar a doença de sua cachorrinha, tem a intuição de que a natureza e o tempo deveriam ali fazer seu papel; ele apenas observaria e acompanharia o processo de cura, o que afinal se concretizou e o levou a ser eleito médico real.

 

Para nossas existências humanas, o tempo representa um fator elementar, e a passagem do tempo, sendo um processo natural e, de certa forma, afetando de maneira igualitária toda a matéria existente, (dentro, é claro, das mesmas condições físicas), não é experimentada da mesma forma pelas diferentes mentes que sofrem com ela, sendo, portanto, para nós um fenômeno subjetivo.

O substantivo paciência (do latim patientia, “capacidade de suportar, de resistir”) serve para designar a condição de quem lida mais ou menos bem com a passagem do tempo. O indivíduo paciente é aquele que se deixa abalar o menos possivelmente pela passagem do tempo. Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, usa-se o substantivo paciente, que não por acaso é homônimo e cognato daquele sujeito que suporta a passagem do tempo.

Na cena do filme supracitado, a paciente teve que ser paciente (assim como o médico), suportando as dores até que seu corpo sanasse a si mesmo. E muitas vezes o paciente num hospital precisa exercitar sua paciência, tanto porque se encontra em situação atípica (tendemos a perceber a passagem do tempo mais lenta em situações com que não estamos acostumados) quanto porque fica privado de várias de suas atividades corriqueiras (o que dá a impressão de que o tempo foi “esvaziado”).

Para quem é forçado a se internar na UTI (unidade de tratamento intensivo), há mais razões para que o tempo lhe corra lentamente: a necessidade de se manter por bastante tempo (“bastante tempo” sendo também, ora, uma quantidade subjetiva) numa só posição (deitada ou semideitada), com os movimentos do corpo limitados temporariamente, aliada à dificuldade de os enfermeiros atenderem prontamente aos desconfortos dos vários pacientes (fazendo-os esperar um tempo imprevisível até serem atendidos) e a ausência prolongada de pessoas do convívio cotidiano, que têm um intervalo de tempo muito limitado para efetuar visitas.

A situação é tão reconhecidamente desconfortável que próximo a cada leito da UTI há um televisor, cujo uso, um enfermeiro certa vez me aconselhou, faz “o tempo passar mais rápido”. Mas para que alguém quereria que o tempo passasse mais rápido? Em situações cotidianas e ordinárias, a maioria das pessoas gostaria que o tempo passasse mais lentamente e desejariam ter mais tempo com que se ocupar com atividades mais satisfatórias. Quando estamos na UTI (unidade de tempo infinito) há tempo de sobra com que ocupar a mente, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue conceber esse aproveitamento se não for de uma maneira convencional de “passatempo”, ou seja, ouvindo música, vendo TV ou dormindo (o que, para muita gente, é uma técnica para “apagar” certos intervalos de tempo em que seria preciso esperar).

Albert Einstein

Einstein demonstra que a língua é mais rápida que a luz do flash da câmera

Mas lembremo-nos da Teoria da Relatividade de Einstein e suas aplicações quando o assunto é velocidade x tempo. Uma pessoa que viajasse à velocidade da luz durante 50 anos não sofreria nenhum envelhecimento significativo, o tempo não haveria passado para ela quando a viagem chegasse ao fim, mas as pessoas ao seu redor envelhecerão 50 anos e algumas morrerão. Quando estamos ocupados, o tempo parece passar mais rápido, e mais rápido ainda quando estamos ocupados com algo prazeroso, mas o tempo se arrasta quando estamos ociosos e nos oprime com sua lentidão quando estamos fazendo algo que nos desagrada profundamente.

A primeira noite que passei na UTI (unidade de tortura infernal) depois de uma cirurgia cardíaca foi sentida por mim como uma das mais longas de minha vida. A sensação de passagem do tempo estava alterada em relação à sensação que normalmente experimento, e quando eu achava que haviam passado duas horas, em meio a cochilos e despertares de duração incertíssima, o relógio da enfermeira revelava a passagem de uns 30 minutos. A janela aberta mostrava que o Sol parecia não querer acordar o céu.

Entretanto, o tempo dilatado nesta situação é, à primeira vista, difícil de ser aproveitado com algo menos banal do que a TV (é difícil ficar ouvindo música, pois às vezes as inesperadas interrupções dos enfermeiros e a manipulação do mp3-player – ou equivalente – é complicada pela limitação física; além disso, é difícil dormir devido aos desconfortos). A mente ficará divagando, tal como a avezinha no poema O Devanear de um Cético, de Bernardo Guimarães, sem um caderno para registrar os pensamentos e ajudar a elaborá-los e desenvolvê-los. Se o pa-ciente já estiver ciente do que o espera depois da cirurgia, pode pedir que alguém providencie antecipadamente um gravador a ficar-lhe disponível (se a dificuldade de manipulá-lo não for grande demais).

Civilizações Extraterrenas, de Isaac AsimovNa situação em que escrevo este ensaio (estou pela terceira vez na UTI do mesmo hospital depois da cirurgia), as circunstâncias físicas são mais favoráveis, as limitações corporais são menores e as possibilidades de “passatempo” são mais variadas. Pude facilmente dedicar um bom tempo à escrita num caderno (a falta de um computador se fez sentida, é realmente uma ferramenta muito prática – há quem diga que o PC dificulta a escrita, pois a possibilidade de apagar qualquer resultado momentaneamente insatisfatório supostamente paralisa o escritor, e prefira uma máquina de escrever, na qual o texto vai sendo escrito até o fim e as correções e ajustes são deixadas para depois; discordo disso e não tenho essa dificuldade diante de um teclado e um monitor, tudo depende da desenvoltura desenvolvida pelo escritor), a facilidade de relaxar o corpo me permitiu um bom tempo de expansão da consciência e ainda me foi possível desfrutar a leitura de um bom livro, Civilizações Extraterrenas, de Isaac Asimov, no qual até encontrei uma citação adequada a este texto:

é mais fácil imaginar uma vitória sobre a morte do que uma vitória sobre o tédio.

Asimov afirmou isso num contexto em que discute a possibilidade (improvável) de alcançarmos a imortalidade física enquanto exploramos o espaço em busca de outro sistema planetário, viajando em naves espaciais que não possuem distrações suficientes para”preencher” o tempo dos exploradores. Mas o tédio pode, em algumas circunstâncias, ser até fonte de inspiração para a mente, como o demonstrou Charles Baudelaire num conjunto de poemas denominado Spleen (poemas LXXVIII a LXXXI de As Flores do Mal). O que pode demonstrar que alguma virtude mental permite à pessoa em condição de tédio (predisponente à impaciência) passar bem o tempo.

No filme Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, 2000), cada vez que o personagem do título é privado em sua cela de seus pertences (até ficar plenamente nu), ele encontra alguma forma de escrever e dar vazão à sua imaginação pornográfica, seja rabiscando com sangue suas roupas, seja sussurrando o texto para seus vizinhos de cela, através de pequenas frestas, para que, num telefone-sem-fio, alguém o registre em algum lugar.

Contos Proibidos do Marquês de Sade

O marquês de Sade escreveu em suas próprias roupas, usando sangue como tinta

Em várias partes da Terra, desenvolveram-se técnicas capazes de pacificar a mente, de modo que um indivíduo não precisa de mais do que de si mesmo para “sobreviver” à falta do que fazer. A Ioga (ou o Yôga), as diversas formas do que se generaliza sob o termo meditação, as técnicas para autopromover a experiência fora do corpo e os mantras que induzem o transe são alguns exemplos dessa tecnologia da paciência. Essas técnicas não são simplesmente usadas pontualmente, para “o tempo passar”, mas têm a importância de servir como cultivadoras de uma disposição mental mais permanente, que permite suportar melhor a situação potencialmente estressante.

O que me leva a outras nuances do espectro semântico da paciência.

Faquir

“Um faquir em Benares” (fotografia de Herbert Ponting, 1907)

Uma das coisas que um paciente de hospital precisa aprender desde logo é suportar a dor física. As partes do corpo que foram mexidas durante uma cirurgia doerão quando os efeitos dos sedativos e anestésicos passarem. De vez em quando será preciso puncionar uma(s) ou outra(s) veia(s) para retirar sangue ou para injetar soro e medicamentos (a entrada de alguns dos quais provoca uma extra dor extrema). É preciso seguir o exemplo de um faquir (porém, certa vez Beakman explicou que os faquires não têm que suportar dor nenhuma quando se deitam sobre uma cama de pregos, pois estes estão tão próximos uns dos outros e tão uniformemente espalhados que a pressão do corpo se distribui igualmente sobre eles e nenhum deles chega a perfurar a pele do indivíduo).

A mente, em princípio, pode ser livre e fugir da opressão das urgências do corpo. O Sr. Spock, no episódio Operação: Aniquilar! (Operation: Annihilate!) da série original de Jornada nas Estrelas, consegue, com sua disciplina mental, suspender a sensação de dor excruciante e enfrentar as criaturas que impingem esta sensação em suas vítimas. Os minbari, da série Babylon 5, têm uma disciplina mental parecida e conseguem até controlar a respiração, o que lhes permite  economizar energia (psíquica e física) quando, por exemplo, há pouco oxigênio numa cápsula espacial.

Num dos episódios da história do fundador do Budismo, Sidarta Gautama, em sua busca pela iluminação, ele deliberadamente passou algumas noites numa floresta, com o fim de apaziguar seu medo dos sons noturnos, que a princípio o assustavam, mas que depois passaram a ser encarados com serenidade. Afinal, nas situações em que não se pode evitar um perigo iminente, não adianta perder a calma, o que até pode mais atrapalhar. Pensando bem, nesse tipo de situação é útil um misto de serenidade e atenção, o que ajuda a ativar o foco, e uma mente concentrada pode conseguir agir rapidamente para resolver a ameaça antes que ela piore.

A Temperança

A Temperança, o Arcano Maior de número XIV do Tarô

Neste caso, a paciência tem muito a ver com a virtude da temperança, que é a capacidade de dosar os sentimentos e impulsos da forma mais eficaz possível. Essa noção vem das antigas teorias dos humores, os líquidos que se acreditavam compor nossa fisiologia e cujas dosagens determinavam nossos temperamentos. A fleuma determinava uma personalidade apática, o sangue determinava um caráter sensual, a cólera ou bile amarela determinava um aspecto irascível e a melancolia ou bile negra determinava uma tendência ao abatimento. O ideal buscado era a temperança dos 4 humores.

Talvez daí venha a expressão bom humor, ou seja, o equilíbrio entre os humores formando uma personalidade saudável (tanto física como psiquicamente; na Antiguidade, não havia a rígida separação dualista entre corpo e mente estabelecida por Descartes). E isso tem particularmente a ver com a paciência, pois a mente paciente também tende a desenvolver o bom humor. Um claro sinal de paciência é quando uma pessoa consegue manter um sorriso ou fazer gracejos enquanto passa por uma tribulação.

Aliás, paciência e bom humor estão tão intimamente ligados que se pode dizer também, inversamente, que o bom humor pode predispor à paciência. A pessoa realmente bem-humorada tem a “alma leve”, está quase sempre se sentindo bem e fazendo os outros se sentirem assim. Quando precisa enfrentar uma dificuldade, não permite que as circunstâncias negativas o afetem, mas procura, ao contrário, contagiá-las com seu próprio temperamento.

Passar por uma situação estressante não é sofrimento para o portador de bom humor, que pode encontrar em tudo motivos para sorrir. Porém, isso não quer dizer que se deva contentar com o que poderia ser diferente. É preciso lutar para mudar aquilo que representa um mal às pessoas, mas sempre mantendo a serenidade e a disposição de não sofrer diante do inevitável.

Agora chega dessa chatice e vamos direto à pornografia! “The internet is for porn!”

Obrigado pela paciência