Os Mortos-Vivos – The Walking Dead e a cultura contra a natureza

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the-walking-dead-os-mortos-vivos-hqm-editora-novo_MLB-F-4282197153_052013Depois que comecei a ler há algum tempo a série de quadrinhos Os Mortos-Vivos (The Walking Dead), roteirizada por Robert Kirkman e com desenhos de Tony Moore (edições 1 a 6) e Charlie Adlard (edições seguintes), não consegui resistir a seguir continuamente capítulo por capítulo dos 10 encardernados que já haviam saído no Brasil. Publicada no Brasil pela HQM, atualmente a série tem 11 encadernados publicados, reunindo 6 edições cada um, perfazendo 66 números de um total de mais de 100 da publicação original pela Image Comics. Esta teve início em 2003 e continua sendo publicada até hoje, e deve continuar sendo paulatinamente traduzida e lançada no Brasil.

Essa obra gráfica, que deu origem a uma famosa série de TV, possui qualidades narrativas e estéticas excepcionais. Longe de ser uma mera fábula de terror sobre zumbis, Os Mortos-Vivos é uma história sobre seres humanos vivos. Ela dá medo em alguns momentos, nunca por causa das criaturas que lhe dão título, mas porque nos pegamos torcendo para que tudo dê certo num mundo incerto em que o caos ameaça a todo momento. Mas ainda mais do que isso, a obra nos faz pensar sobre as profundas implicações da relação entre o ser humano e a natureza.

Sinopse

A história de Rick Grimes, policial que acorda de um coma para encontrar tudo ao seu redor deserto e infestado por zumbis, é repleta de perdas, reencontros, encontros e novas perdas, mudanças, amadurecimento, adaptação e desmoronamentos psicológicos. Ao acompanhar sua trajetória, deparamo-nos com pessoas muito diferentes entre si e que, numa situação normal, jamais andariam juntas. Mas, na presente circunstância apocalíptica, o fazem para aumentar suas chances de sobrevivência.

Rick cria novas amizades, se apega a algumas pessoas, aprende a tolerar outras, mas também desenvolve desafetos, sempre se colocando à frente do instável grupo que o acolhe como líder. Seu constante aprendizado o põe em situações-limite; qualquer decisão terá fortes consequências para o pequeno grupo de sobreviventes, afinal, qualquer coisa que signifique o risco de um companheiro morrer é a possibilidade de uma perda inestimável. Às vezes, no entanto, a presença de certos indivíduos pode ser mais prejudicial do que benéfica, e nosso protagonista pouco hesita em fazer sacrifícios. Porém, a longo prazo, as coisas ficam cada vez mais difíceis e o sentimento de culpa e fracasso como líder atormenta Rick constantemente.

Estado de natureza e contrato social

Toda essa trama familiar e esse drama psicológico se apresentam como especulações sobre uma pergunta: “O que a humanidade realmente faria se se visse novamente em estado de natureza?” O que leva a outra pergunta: “O que uma situação distópica como um apocalipse zumbi poderia nos ensinar sobre os esforços humanos para sair do estado de natureza até o estado de cultura e civilização?”

A reflexão conduzida por Kirkman nas páginas de Os Mortos-Vivos parte do pressuposto de que os seres humanos adotariam comportamentos extremos quando colocados em situações-limite. A necessidade de lutar para sobreviver se reflete em rivalidades, brigas e até mortes quando dois ou mais indivíduos discordam quanto ao melhor curso de ação para o grupo. As emoções vêm à tona com intensidade e as neuroses pessoais se agravam. As pessoas endurecem, se brutalizam e começam a temer a perda de sua humanidade e seu caráter humano racional. As regras morais e os valores éticos precisam ser recriados do zero e só se ajustam com a experiência, com erros e sacrifícios.

A premissa, portanto, é a de que os sobreviventes do desastre retornaram a um estágio anterior ao da cultura e precisam reinventar o contrato social. Dessa forma, outra pergunta que a história tenta responder é: “Quem estava certo, Hobbes ou Rousseau? O homem é o lobo do homem ou somos naturalmente bons selvagens?” A resposta é circunstancial, e podemos ver duas respostas opostas no confronto entre o grupo que vive na prisão e a cidade de Woodbury, liderada pelo Governador.

Na prisão quase abandonada é onde as coisas começam a ficar realmente melhores para Rick, sua família e seus novos amigos. Ali, vemos cada indivíduo assumindo um papel segundo suas capacidades e talentos; um cultiva uma horta, outra costura roupas, outros se encarregam da segurança e há quem se detenha cuidando das crianças. Com o tempo, a liderança de Rick e seu braço direito, Tyresse, é substituída por uma espécie de conselho, e as decisões do grupo são tomadas em assembleias. Esboça-se, assim, uma sociedade participativa e protodemocrática, em que todos têm voz e cuidam uns dos outros.

Por outro lado, o Governador de Woodbury se assemelha à imagem do Leviatã hobbesiano, ou seja, do déspota sem cuja condução e proteção uma sociedade se desagregaria. Todos os habitantes de Woodbury se sentem seguros sob sua liderança, mas todas as decisões que afetam o coletivo são centralizadas no Governador. Supostamente, o medo gerado pelo ambiente distópico torna a todos vulneráveis, e a massa procura uma figura forte que se atenha a cuidar do bem comum.

Curiosamente, as duas sociedades se desfazem completamente ao entrarem em conflito. O grupo da prisão se desagrega e perde toda a infraestrutura que os protegia, enquanto um membro da sociedade de Woodbury, ao se dar conta da insanidade do Governador, o mata sem hesitar. Fica clara a mensagem do autor de que este não é o momento para definir o melhor rumo para uma humanidade em estado de reconstrução e de que provavelmente não existe só um melhor caminho.

Mas eu proponho uma pergunta que considero mais pertinente e profunda: “Um desastre como esses realmente colocaria os seres humanos em situação de plena natureza?” E é claro que a resposta é negativa, pois os sobreviventes não são seres desprovidos de cultura e trazem em si uma história complexa que se reflete em seu comportamento e na relação com os outros membros do grupo. Tudo o que tentam fazer pode até se parecer com algum modelo ideal de protossociedade humana, mas eles não partem do zero, estão todos viciados com a cultura e com diferentes trajetórias de vida que refletem os conflitos étnico-raciais, de gênero, de classe e de geração que se mantêm vivos apesar de tudo, mas que são mais ou menos relativizados por causa da situação-limite em que todos se encontram.

Mortos-vivos: uma força da natureza

Porém, os mortos-vivos representam um elemento importante na trama por fazerem os seres humanos perceberem que, por trás de todo o mundo que construíram à sua volta, existe uma gigantesca força impessoal que persiste e que resistirá ao poder domesticadoe e destruidor do Homo sapiens.

Em geral, as histórias sobre zumbis lidam com um terror subjacente à cultura ocidental: o de perder sua humanidade e se ver despojado de sua própria identidade. A possibilidade de morrer e ter nossos corpos ressucitados sem consciência por alguma força estranha pode ser aterradora para alguns de nós. É uma fantasia análoga à de se tornar um lobisomem, um animal irracional que não se dá conta das próprias ações.

Esse terror é explorado em Os Mortos-Vivos, mas de forma bem mais profunda do que na maioria das histórias de zumbis. Na situação-limite representada nessa fantasia escatológica, morrer significa se tornar um zumbi, passar a fazer parte de um organismo impessoal, de uma força implacável e infinita, e assim todos os vivos são mortos-vivos em potencial, ou seja, possíveis inimigos.

Essa força da natureza, representando metaforicamente a própria natureza com que o ser humano e sua cultura se defrontam na vida real, pode ser, no máximo, domesticada. Essa imagem da domesticação é representada, por exemplo, pelos zumbis desmembrados e sem mandíbulas, trazidos por Michonne em coleiras, e pela filha morta-viva do Governador, criada como um animal de estimação. Mas também pela imagem da cerca rodeada por zumbis que não param nunca de se aproximar e se aglomerar como um enxame. Tais quais um jardim que cresce e ameaça espalhar ramos pela casa, os zumbis têm que ser constantemente podados.

Anticristo

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De Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier, se diz que é um filme de terror. Não gosto de classificar os filmes em gêneros, “comédia”, “ação”, “ficção científica”. Isso sempre empobrece a apreciação da originalidade de uma obra. Felizmente, Anticristo é tão sui generis que se torna um bom exemplo da impossibilidade de se reduzir uma obra original a um rótulo.

A história é no geral um drama, com elementos de tragédia e, certamente, de terror. O tema principal é a face maléfica do feminino e a misoginia. Mas, se há mérito pela originalidade artística e pela abordagem ao tema, também se pode dizer que a obra como um todo é um exagero de grotesquidão, e a impressão que fica no final é: “o que diabos esse filme diz?”

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A orgia humana – parte 1

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Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. “Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois homens conquistarem a união civil, mas é um crime eles adotarem uma criança”.

Muitas vezes esse discurso se acompanha de frases do tipo: “Isso é uma afronta contra Deus”. De certo modo, equivale a dizer que a homossexualidade é antinatural, ou seja, vai de encontro aos ditames da natureza. Dentro dessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a pessoa que se relaciona com um parceiro do mesmo sexo escolhe sua orientação sexual, escolhe “pecar”, e poderia facilmente seguir o caminho “natural”, se quisesse.

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Dersu Uzala – Resenha

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Spoilers: Esta resenha contém revelações sobre a obra. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Dersu Uzala (1975) é um filme dirigido por Akira Kurosawa, que se inspirou num livro homônimo, escrito por Vladimir Arseniev. Este narrou em sua obra o encontro real com a figura do caçador Dersu Uzala, habitante solitário da floresta, pertencente à etnia nanai (referida no filme como goldi, que é como os russos os chamavam), que serviu a Arseniev e a seus soldados como guia numa expedição topográfica por uma região da Sibéria.

Dersu surpreende seus companheiros russos com um profundo senso de ética, um fascinante conhecimento da floresta e a habilidade de rastrear qualquer coisa através de sinais. O caçador desenvolve uma significativa amizade com Arseniev, que ele se acostumou a chamar de “Capitão”, o que leva a um cuidado especial por parte de cada um deles para com o outro.

Dersu e o “Capitão”

O verdadeiro Dersu Uzala

O verdadeiro Dersu Uzala

Dersu é um sujeito exótico para os soldados que guia pela floresta. A primeira impressão que temos dele, logo quando aparece pela primeira vez, é a de um homem excêntrico perdido na selva. Mas logo vamos descobrindo que ele é um exímio rastreador, interpretando pegadas e rastros, o que lhe permite saber que em determinada direção e a certa distância se encontra a cabana de um velho chinês, por exemplo.

Essa habilidade impressiona seus companheiros russos, que aos poucos vão deixando de vê-lo como alvo de risos e começam a confiar em suas instruções de como sobreviver melhor em sua missão pela floresta.

A forma de representar o mundo de Dersu também impressiona a expedição. Suas crenças animistas envolvem a representação dos elementos naturais como pessoas que devem ser respeitadas. Essas crenças são uma forma de ele justificar seus hábitos, que lhe permitem viver integrado ao ambiente selvagem, sem desperdiçar nada e compartilhando com quem precisa.

Surpreende, por exemplo, seu gesto de deixar comida na cabana desabitada em que pernoitam, para que outros viajantes não passem fome. Quando os soldados se propõem ao desafio de ver quem consegue atirar numa garrafa pendurada numa corda que se move como um pêndulo, o que nenhum deles consegue, Dersu atira na corda para não desperdiçar a garrafa, em mais um exemplo de seu senso ecológico.

Esse senso natural de ética cativa o líder da expedição, Vladimir Arseniev, que desenvolve uma profunda amizade com Dersu. Ambos têm, à sua maneira, um perfil de líder que os aproxima como iguais. Arseniev é líder do grupo que capitaneia, enquanto Dersu é o guardião da floresta, que cuida do equilíbrio do ambiente em que vive.

Essa amizade e confiança mútua chega ao ponto de, numa ocasião em que os dois se perdem, Arseniev obedecer cegamente às instruções de Dersu para cortar o máximo de capim que puder e amontoá-lo o mais rápido possível. Arseniev adormece no meio da intensa labuta, vêm a noite e o ar gélido e ele acorda numa cabana improvisada feita do capim que ele e Dersu cortaram e que salvou suas vidas. Arseniev se deixa cativar de tal forma por Dersu que o chama para ir morar com ele. Mas o lugar de Dersu é na floresta, e ele recusa.

Numa segunda expedição, em que Arseniev não está na posição de comando dos soldados, o grupo encontra Dersu novamente, que se dispõe outra vez a ajudar Arseniev em sua missão.  De certa forma, a importância de Arseniev nessa segunda demanda acaba se tornando maior, pois é a confiança mútua entre ele e Dersu que assegura seu sucesso.

No terceiro encontro dos dois amigos, Dersu mostra sinais de que está envelhecendo, os sentidos antes muito aguçados começam a embotar. Assombrado por suas crenças nas forças da natureza, ele se desespera depois que atira num tigre, pois tem certeza que a morte do animal significa que a floresta mandará outro tigre para matá-lo. Enfim, ele cede ao pedido de Arseniev para ir morar com ele na cidade.

Dersu não se adapta à vida urbana e, embora venha a cativar o filho de Arseniev com histórias sobre suas andanças, pede a seu anfitrião que o deixe partir, pois não consegue se desfazer de seus antigos hábitos. Arseniev o presenteia com um novo rifle e munição. Porém, mal tenta voltar à sua antiga vida, é assassinado na fronteira entre a cidade e a selva.

O favor que Arseniev tenta conceder a Dersu em troca de tudo o que este fez se mostra insensato, pois o caçador não sabe viver segundo os hábitos da cidade. O russo não compreendeu que, para Dersu, a ajuda às expedições não era um favor, mas fazia parte de seu trabalho de guardião da floresta, ao mesmo tempo auxiliando os soldados e impedindo que estes cometessem algum erro ecológico. Quando Dersu previu sua própria morte, ele estava certo, e sua crença sobre o tigre era uma racionalização de algo que ele já previra. Sua tentativa de retornar à floresta era na verdade um meio de assegurar sua morte, importante para o ciclo natural do ambiente do qual ele era uma parte vital. Mas sua morte também simboliza o trágico confronto entre a urbanização humana e a natureza selvagem.

O filme e o personagem

A primeira cena do filme se passa anos após a morte de Dersu e mostra Arseniev procurando o túmulo de seu amigo, cujo corpo havia sido enterrado sob as árvores da floresta. Mas ele encontra o local devastado para a ampliação da cidade, e não consegue mais achar a árvore que marcava a cova.

O filme então recua para a expedição em que Arseniev encontra Dersu pela primeira vez, e ao longo da história e ao final dela entendemos que a urbanização destruiu até a memória material daquele sujeito que incorporava o espírito da natureza.

Dersu Uzala

Embora o filme se estenda por quase 2 horas e meia, a trama é simples, com cenas longas e monótonas. Porém, não se trata de amadorismo cinematográfico. Muito pelo contrário, Kurosawa cria uma tensão em cenas que representam o estresse dos personagens, além de nos fazer imergir nas belas paisagens siberianas e no sentimento de quem se imiscui na natureza selvagem, como o faz Dersu.

Maxim Munzuk, que interpreta Dersu, consegue criar um personagem profundamente cativante, com sua simplicidade e sua ética, e cada um de seus gestos, palavras e ações chamam atenção do espectador. Dersu quase se torna ao longo da história aquele tipo de personagem que é o nativo servindo ao colonizador para que este explore melhor seu ambiente. Mas Arseniev impede que isso ocorra, deixando Dersu livre para mostrar a importância de manter o equilíbrio com seus costumes que se integram com a selva.

O caçador e o ranger

O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann

O ranger Faramir, retratado por Anke Eißmann

Ao final do filme, Arseniev declara, para fins de obituário, que a profissão de Dersu era “caçador”. Não sei qual é o sentido do nome usado no original em russo, mas talvez a denominação melhor para o ofício de Dersu seja a palavra inglesa ranger. Esta palavra pode ser traduzida para o português como “guarda florestal”, mas ela diz respeito a uma figura quase mítica encontrada em histórias de fantasia.

Em O Senhor dos Anéis, por exemplo, o personagem Faramir é o líder de um grupo de rangers que têm completa percepção do que acontece ao redor de seu refúgio no meio da floresta. Ele e seus companheiros conseguem, por exemplo, espreitar sem ser percebidos. Além disso, os elfos que moram nas florestas da Terra-Média também têm habilidades que lhes permitem se integrar com o ambiente selvagem.

O ranger se tornou, no RPG Dungeons & Dragons, uma subclasse de personagem derivada da classe guerreiro. É um tipo de soldado da natureza que trabalha, em conjunto com a figura do druida, para assegurar o equilíbrio natural. Ele pode interpretar rastros com precisão, andar pela floresta sem deixar rastros e consegue lidar facilmente com animais selvagens e domésticos.

Entretanto, por mais fantástica que seja a figura do ranger, ele é baseado em pessoas reais, que conseguem extrapolar os sentidos humanos. Alguns povos silvícolas da América e da África são exemplos de um sentido ecológico e ético baseado na experiência direta e que deveriam servir de modelo para as atuais tendências ecologistas da modernidade.

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Avatar [Resenha – Parte 3]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009) é um filme que, se dividiu muita gente na opinião quanto à trama e aos temas tratados na narrativa, encantou a maioria em seus aspectos estéticos. Toda a criação virtual deu um aspecto muito real ao mundo imaginário de Pandora, com fauna e flora críveis e um ecossistema simbiótico envolvente.

Na primeira parte desta resenha, fiz um resumo comentado do filme e discorri sobre os nomes usados na história. Na segunda parte, analisei algumas questões antropológicas. Nesta terceira e última parte, trato dos aspectos estéticos de Avatar, do mundo áudio-visual criado por Cameron, da ficção científica misturada com fantasia mítica (e um pouco mística) e de como tudo isso se relaciona com um dos temas mais contundentes do filme: Ecologia e meio ambiente.

Sinestesia fantástica

(Não pude ver o filme na versão 3D, pois tenho visão monocular (mas, se pudesse, não hesitaria experimentar essa nova tecnologia cinematográfica). Mas alguns comentaristas constam que a obra não foi inicialmente concebida para ser vista em 3D, então penso que este recurso é só um extra interessante. No entanto, mesmo em 2D o visual é espetacular.)

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

O clima penumbroso do laboratório é frio e deprimente. Ao fazer a conexão com seu avatar, Jake Sully faz uma viagem neuronial, apresentada em primeira pessoa, que leva o próprio espectador a sentir que saiu de um lugar cinzento para uma sala bem iluminada. A cor do corpo na’vi se destaca, e o amarelo dos olhos compõe, sobre a pele azul, a imagem do amanhecer, dois sóis que se destacam contra o céu.

Mas a luz reconfortante desta antessala é só uma transição para o que está do lado e fora: uma atmosfera diferente, com um brilhante sol a esquentar o chão que há muito Jake Sully não sentia; agora ele corre para aproveitar ao máximo a sensação que perdera com seu paralítico corpo humano. Mas isso não é suficiente para ele, pois em seus melhores sonhos ele voa.

Passamos então para a floresta fechada, onde há plantas um tanto diferentes do que se viu na Terra (se é que esses personagens viram muitas plantas na devastada Terra) e animais exóticos mas nada muito alienígenas. Fauna e flora pandorianas são ao mesmo tempo surpreendentes e familiares, tudo sob uma luz/sombra florestal que nos faz sentir aconchego e apreensão.

A noite traz perigo e mistério. Luzes se acendem no céu, nas plantas e na pele, como velas numa caverna. Os na’vi recebem Jake Sully com receio, mas tanto o forasteiro quanto a tribo nativa dão uma chance um ao outro. Já a manhã traz um cenário aberto com planícies a cavalgar e cânions a sobrevoar. Subimos as Montanhas Aleluia, grandes pedras flutuantes, e estamos quase voando. Mas é só quando as belas aves pterossáuricas são montadas que o destino de Jake Sully começa a se concretizar.

Um destino que se alcança às custas de várias viagens de ida e volta, entre o sonho aborrecido que experimenta entre humanos e a realidade vívida que vive entre os na’vi. Nesta realidade, Jake Sully encontra um amor construído com aprendizado e afeição, e entendemos junto com ele e Neytiri que os seres que habitam o universo têm todos algo em comum.

A Árvore das Almas e a bioluminescência de tudo em volta é uma imagem brilhante e envolvente, e nos faz quase sentir nossos cabelos se arrepiando e se envolvendo na mente dos seres vivos que formam todos uma só consciência. E quando fazem amor, Jake Sully e Neytiri expressam em poucos gestos e palavras uma afeição que não precisa ser mostrada de outra forma.

Mas toda essa benevolente realidade é ameaçada pelo pesadelo de escorpiões voadores e grandes fantoches de metal. Ou será o contrário, o onírico mundo regido por Eywa ameaçado pela terrível realidade destrutiva humana? Se o sonho é ruim ou bom, se a realidade física é negativa ou não, se uma coisa é a outra ou vice versa, depende da experiência de cada um. Para Augusto dos Anjos, a ilusão era doença:

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimento rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Grifo meu.

No filme, seres construídos por computadores lutam contra humanos feitos pela natureza. Porém, são as criaturas virtuais que representam as forças naturais, enquanto os seres de carne e osso se apresentam como ícones da tecnologia empregada para fins inescrupulosos. Toda a imagem é digna de um épico ilustrado em paredes esculpidas por antigas civilizações.

Batalha aérea em Pandora

Jake Sully completa seu destino nas costas de um Toruk, “última sombra”, e voa com os na’vi, uma corte de guerreiros alados. Ele se reconcilia com seu rival Tsu’Tey, atual líder na’vi, assim como um predador gigante renuncia sua ferocidade para que Neytiri monte em suas costas. Toda a natureza toma partido e luta contra a ameaça tecnológica, não para vencer uma guerra, não para matar um inimigo, mas para preservar algo muito maior, às tristes custas da morte de alguns.

Neytiri sente que Jake Sully está morrendo em seu corpo humano, ela o vê à distância. Ao alcançar o frágil corpo humano, ela o acolhe em seus braços, reconhecendo a alma forte que ela enxerga no fundo dos olhos que a enxerga da mesma forma. Numa das cenas de  amor romântico mais belas que já vi, dois indivíduos, de espécies alienígenas um para o outro, se acariciam depois e abraçarem a alma um do outro.

Avatar é um universo mágico, uma aventura de Fantasia que remonta às histórias de viagens a mundos idealizados, como a Terra do Nunca a que Peter Pan leva Wendy e seus irmãos, como o País das Maravilhas a que Alice é conduzida por um coelho branco, ou Oz em que Dorothy se perde. Sempre se viaja para um mundo de maiores possibilidades que a realidade, de libertação, normalmente se vai para mais perto da natureza, em busca de algo perdido e sufocado pela civilização.

Mas não só a Fantasia oferece essas viagens reveladoras. Na Ficção Científica, Neo viaja da Matrix para o mundo real; o Planeta dos Macacos também é destino de uma viagem que ensina muito sobre a natureza humana; o arqueólogo Daniel Jackson faz uma jornada no espaço e na história para descobrir os segredos do Antigo Egito. E Avatar também se envereda a Ficção Científica.

Ficção científica

Avatar não é um filme de ficção científica, pelo menos não uma hard science fiction. É uma história romântica (não só no vulgarizado sentido do romance amoroso, que também está presente, mas especialmente no aspecto que envolve a autodescoberta e a fantasia do retorno à natureza selvagem) que tem elementos de ficção científica.

Mas não é como Guerra nas Estrelas, uma aventura épica cujos elementos de ficção científica são mais fantásticos do que científicos. Avatar tem uma ficção científica verossímil, pertinente e bem encaixada na narrativa.

Qualquer história de ficção se inicia com uma pergunta, que normalmente está implícita, um problema cuja solução se tenta resolver através da narrativa. “E se um fantoche criasse vida?” Resposta: Pinóquio, de Carlo Collodi. “Como seria a história de um homem atormentado pela dúvida se sua mulher o traiu ou não?” Resposta: Dom Casmurro, de Machado de Assis.”E se uma pequena e fleumática criatura se envolvesse numa aventura épica?” Resposta: O Hobbit, de J. R. R. Tolkien.

Na ficção científica, essa pergunta necessariamente se dá no campo da especulação científica e normalmente envolve uma preocupação social em relação ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia. “E se houvesse um planeta habitado por macacos inteligentes e humanos bestiais?” Resposta: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. “Se uma espécie alienígena avançada e pacifista olhasse para a Terra da Guera Fria, que partido ela tomaria?” Resposta: O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise.”Quais seriam as implicações da criação artificial de um ser humano?” Resposta: Frankenstein, de Mary Shelley. (É claro que essas perguntas estão muito resumidas. Cada uma dessas histórias tem um conjunto complexo de questões encadeadas.)

“E se a Terra ficar exaurida de recursos naturais? E se o mundo que tem os recursos que queremos explorar é habitado por criaturas inteligentes que vivem em cima do metal precioso que queremos? E se essas criaturas respiram um ar tóxico para nós? E se a lua em que vivem tem gravidade maior do que a da Terra? E se esses nativos têm 3 metros de altura e se locomovem com agilidade num ambiente que para humanos é difícil de ser explorado?” Resposta: Avatar.

Imagine então uma tecnologia que permita a um ser humano assumir a forma de um nativo, respirar o mesmo ar que ele, resistir à forte gravidade, percorrer com desenvoltura, força e agilidade o ambiente local e, da mesma forma que os alienígenas, fazer conexões neuroniais com animais e plantas desse mundo. É uma tecnologia muito complexa, avançada e, portanto, cara. E é empregada como um pesado investimento para a obtenção do valiosíssimo unobtânio.

Jake Sully e seu avatar

A humanidade chegou a um avanço tecnológico gigantesco: viagens intergalácticas, robôs humanoides bélicos que obedecem aos movimentos de seus pilotos, transmissão da mente para outro corpo. Mas não conseguiu avançar sua ética, e repetem com os na’vi os mesmos erros que os colonizadores (humanos) cometeram com povos (humanos) nativos no escopo do planeta Terra.

Dessa forma, Avatar repete e inverte a fórmula clássica de filmes sobre alienígenas que invadem a Terra com ultratecnologia e ultradestrutividade. Mas desta vez os invadidos são os alienígenas, os humanos são os invasores. “Como seria se os humanos detivessem tecnologia suficiente para visitar outro planeta com tecnologia menos avançada?” Resposta de James Cameron: seria o mesmo que se viu em Independence Day, de Roland Emmerich, só que os humanos é que estão nas naves estelares.

O ecossistema de Pandora também parece verossímil ao espectador médio, principalmente pelo realismo das imagens, e menos por causa de alguma verossimilhança sistêmica na relação entre animais e plantas. Mas o detalhismo deste âmbito não é tão importante neste filme. A parte da natureza sai da ficção científica e entra mais no fantástico, sobre que discorri acima.

Assim, James Cameron concebeu Eywa como um sinônimo de mãe-natureza, como uma referência à divindade grega Gaia, que representa a Terra, a biosfera, o ecossistema terráqueo. Eywa é essa mesma divindade, mas representada pelos na’vi no planeta Pandora. Ela tem uma grande importância para a questão ambiental tratada no filme.

Questão ambiental

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

Este pequeno planeta precisa de cuidados.

De acordo com a hipótese (ou teoria) de Gaia, a biosfera da Terra constitui um sistema autorregulador, quase como um ser vivo composto pelos  animais, plantas e outras criaturas e pelo meio ambiente ocupado e formado por esses seres. Fugindo da polêmica em torno do real significado metafórico ou não de Gaia (não sou versado em Geologia, Ecologia nem qualquer área pertinente), uma coisa parece ser unânime entre os cientistas: um ser vivo mantém uma relação direta ou indireta com todo o ecossistema terrestre, e qualquer grande mudança de uma de suas partes  acarreta uma reação do todo.

Os seres vivos de Pandora vivem uma conexão extrema. Os na’vi, inteligentes, conectam suas mentes (através de fios de cabelos que transmitem impulsos bioquímicos/sinápticos) às de montarias nativas, cavalos hexápodes, para fazê-los obedecer ordens de movimento, ou a grandes aves para que estas os carreguem voando. Os na’vi também se conectam assim à Árvore das Vozes, para escutar seus ancestrais. A interconexão entre os seres de Pandora é tão interdependente que qualquer interferência séria como a derrubada de uma grande árvore põe em risco todo o biossistema.

O ecossistema fictício de Pandora é assim uma metáfora hiperbólica de uma realidade existente em nosso próprio mundo, o planeta Terra. A extinção de uma espécie terráquea, a derrubada ou queimada de florestas, a poluição de um rio ou de um mar e a infestação do ar com fumaça são exemplos de interferências humanas que têm consequências sérias sobre todo o conjunto.

Avatar é, portanto, bem atual ao tocar num tema que está na pauta contemporânea e que tem preocupado diversos setores das sociedades ocidentais. Na base de todas as controvérsias sobre as causas mais contundentes e do real escopo das mudanças climáticas (especialmente as controvérsias sobre se há ou não um aquecimento global catastrófico provocado pelos seres humanos), é unânime a exortação de que devemos cuidar do meio ambiente.

A mensagem ecológica do filme é sintetizada na frase dita a Jake Sully por Neytiri: “Tudo o que Eywa dá é emprestado e será preciso devolver”. É uma exortação à nossa responsabilidade enquanto parte integrante de um mesmo meio ambiente. E enquanto seres humanos, capazes de transformar esse meio de formas muito impactantes, é preciso lembrar do que Carl Sagan disse no livro Bilhões e Bilhões: Reflexões sobre Vida e Morte na Virada do Milênio:

Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante [p. 85].

Que completa, reiterando:

Se os humanos criam problemas, os humanos podem encontrar soluções [p. 86].

Numa resenha muito pertinente publicada na Folha de S. Paulo, o físico Marcelo Gleiser nota que Avatar pode ser visto como um aviso dos atuais perigos ambientais na Terra. Esta, no filme, está esgotada de recursos naturais, o que obriga os humanos a buscarem energia fora do Sistema Solar. Precisamos cuidar da Terra para que não se repita a farsa histórica na qual os nativos de um paraíso natural são dizimados pela ganância e pelo desespero. Gleiser conclui assim seu artigo:

somos nossos piores inimigos e nossa única esperança. A natureza não vai nos ajudar.

Comentários sobre as notas

Trama 4: a história é bem conhecida, e a falta de originalidade faz com que a trama seja previsível. Mas ela é bem construída e agradável, suas partes se encaixam bem, com início, meio e fim, com harmonia e sem excessos.

Montagem 5: As cenas se encaixam com perfeição. Cada corte diz muita coisa sobre os sentimentos dos personagens e sobre o clima geral da trama. A exemplo o momento em que Jake Sully acorda em seu corpo humano logo após fazer amor com Neytiri. A música silencia, os olhos desolados de Jake se abrem dentro da tubo de conexão e ele se pergunta: “O que diabos você está fazendo, Jake?”, sem saber mais qual é sua missão ali.

Atuação 3: os atores fazem bem o seu trabalho, sem nada excepcional. Alguns personagens são marcantes, como o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e a doutora Grace Augustine (Sigourney Weaver), mas no geral as dramatis personae são secundárias diante do espetáculo visual e da sucessão de eventos.

Diálogo 3: as falas são bem simples e não contribuem muito para o show. Mas não se percebe nenhuma pretensão de se criar algo impactante e original nos diálogos, e eles não atrapalham em nada.

Visual 5: o visual é simplesmente perfeito. Toda a beleza selvagem que se pretendeu criar está presente nas imagens e os seres artificiais que aparecem na tela são muito realistas.

Trilha sonora 4: a música é linda e apropriada, fazendo com que os cenários se enriqueçam e sejam facilmente acessíveis ao espectador. No entanto, há momentos em que o som fica discrepante com a cena, mas isso ocorre pouco.

Reflexão 4: os temas são muito instigantes para quem nunca viu Dança com Lobos, O Último Samurai ou Distrito 9. Mas a maioria deles é batida. No entanto, soma-se aí o detalhe de o estrangeiro ser de outra espécie, o que faz com que o protagonista mude de corpo, se tornando realmente um outro, e a questão ambiental tão em voga e ainda pouco (e mal) explorada no cinema.

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Avatar [Resenha – Parte 1]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Avatar (2009), de James Cameron, era um filme cujos trailer e pré-resenhas me deixaram com um pouco de vontade de assistir. Não havia entendido bem a ideia, mas gostara do visual dos personagens alienígenas, esbeltos e azuis, e dos cenários selváticos da lua Pandora.

Mas foi depois de ver algumas pós-resenhas que realmente me motivei a ir ao cinema. Havia, segundo li, uma questão antropológica de grande interesse meu. Antevi uma semelhança com Dança com Lobos (1990), mas, tendo em mente que eu veria clichês e uma trama mais ou menos previsível, preparei-me para as novidades que o filme oferecesse. Ademais, histórias com alienígenas são uma preferência pessoal.

Sinopse estendida

No século XXII, Pandora, um satélite natural do planeta Polifemo (que gira ao redor de uma estrela da constelação Alfa Centauro) constitui uma atração para os humanos, pois é habitada por uma espécie inteligente chamada na’vi. Sobretudo, é uma atração para a economia humana porque essa lua contém um minério valiosíssimo chamado unobtânio. Na realidade, os na’vi podem ser considerados mais um obstáculo do que uma atração, pois a região com maior concentração de unobtânio é protegida por eles como um santuário.

Trama 4
Montagem 5
Atuação 3
Diálogo 3
Visual 5
Trilha sonora 4
Reflexão 4

Pandora é  uma boa alegoria para a expressão Inferno Verde (com que os exploradores europeus apelidaram a Amazônia), pois é uma biosfera densa e bela, mas ao mesmo tempo hostil aos humanos, pois possui grandes animais perigosos e é envolta por uma atmosfera tóxica para pulmões terráqueos.

Ela é habitada por exóticos seres inteligentes chamados na’vi, humanoides esquios e azuiss, com 3 metros de altura, cabelos pretos, lisos e longos (como os dos ameríndios), pescoços e membros compridos e caudas preênseis. Possuem grande força, resistência e agilidade e se movem com facilidade pelas florestas em que vivem, portando armas simples como arcos e flechas, cavalgando grandes montarias parecidas com cavalos e animais alados semelhantes a grandes aves com asas coriáceas.

Para explorar o local em busca do unobtânio, que não está em nossa tabela periódica dos elementos, a empresa RDA instala uma base em Pandora, com um programa dividido em duas partes.

A primeira parte desse programa é o Projeto Avatar: corpos de na’vi capazes de portar a consciência de alguns indivíduos humanos selecionados (o DNA desses corpos é uma mistura do DNA na’vi com o do indivíduo humano que o vai controlar), para que estes possam interagir na atmosfera de Pandora e, especialmente, para interagir com os na’vi e negociar a exploração do unobtânio.

Jake Sully, ex-fuzileiro naval paraplégico, entra em cena para substituir seu falecido irmão gêmeo univitelino. Ele assume a responsabilidade sobre o avatar do seu irmão, pois tem o mesmo DNA deste. Grace Augustine, a cientista que lidera as atividades dos avatares, duvida que ele seja capaz de substituir o irmão. Jake fica maravilhado ao redescobrir as sensações e movimentos dos pés e pernas em seu corpo na’vi.

Diferente de seu irmão, Jake não passou por um processo de preparação para incorporar um avatar nem para se comunicar e interagir com os na’vi. Neytiri, a filha do líder dos Omaticaya, clã na’vi com que Sully entra em contato, o considera uma criança, e é sua mente fresca, com muito poucas expectativas, que o permite ser aceito no clã e ser ensinado a ser um nativo. Contra as expectativas de Augustine, Sully consegue melhor do que ninguém incorporar um na’vi.

Ele se torna assim a maior esperança de Parker Selfridge, o diretor maquiavélico da ação exploratória, mostrado como um homem obcecado pelo unobtânio; e de Miles Quaritch, o coronel que comanda a tropa militar que vai empreender a segunda parte do projeto: defender os humanos de possíveis perigos e atacar aqueles que servirem de obstáculo. Quaritch promete a Sully, em troca do sucesso da operação, um tratamento para retomar o movimento das pernas.

A cientista, o empresário e o militar

Augustine, a cientista; Selfridge, o empresário; Quaritch, o militar. O capitalismo desconsiderou a vida dos nativos, enquanto o militarismo os viu como inimigos. A Ciência, felizmente, compreendeu e passou para o lado dos na’vi.

Sully acaba por frustrar os planos da RDA, tornando-se um na’vi de corpo e alma, domando sua própria montaria alada, entendendo e adotando o modo de vida dos na’vi (aprendendo a viver em harmonia e conexão com a natureza, chamada de Eywa pelos na’vi) e tornando-se parceiro amoroso de Neytiri. A vida como na’vi passa a ser mais real para ele do que a vida como humano, e ele se torna incapaz de trair seus irmãos na’vi e, embora tenha fornecido informações cruciais à RDA sobre o acesso ao unobtânio, tenta de tudo para impedir Selfridge e Quaritch de tomar a terra dos nativos à força.

O híbrido Sully, meio-humano meio-na’vi, encontra-se então no limbo, traidor da empresa que o contratou, pois vai impedi-la a todo custo de violar a liberdade dos nativos; traidor dos que o acolheram como irmão, pois desde sempre não confidenciou o plano original por trás de sua imersão em Pandora.

Em contrapartida, Sully empreende um passo decisivo para retomar a confiança dos na’vi, domando uma fera alada que só grandes heróis do passado conseguiram. Finalmente, tendo informações valiosas sobre seus ex-aliados, que estão em vias de destruir a árvore sagrada sob a qual jaz o unobtânio, ele lidera uma defensiva que livra os na’vi do perigo humano.

Sully completa sua transformação com a transferência definitiva de sua consciência para o corpo na’vi, ganhando de Eywa as pernas prometidas por Quaritch. O selvagem primitivo se torna seu próximo passo evolutivo, mais avançado na superação dos preconceitos inter-raciais e interespécies, na compreensão da interconexão dos seres e da natureza e no entendimento do equilíbrio das forças e energias naturais.

A trama através da nomenclatura

Muitas dos nomes do cenário de Avatar são simbólicos e ajudam a contar a história, pois revelam o destino da trama e a índole de personagens. A começar com o nome do mundo em que tem palco a narrativa: Pandora.

Pandora é uma personagem da mitologia grega, que em algumas versões do mito é considerada a primeira mulher criada pelos deuses. Prometeu havia dado aos humanos o fogo divino, que lhes permitiu sair da barbárie. Após puni-lo, Zeus mandou que Hefesto criasse uma mulher, Pandora, que enganaria Epimeteu, irmão de Prometeu, para que este abrisse a caixa com todos os males que afligiriam a humanidade. Mas ela a fechou antes que a esperança escapasse.

A lua Pandora pode ser vista então como um terreno com valor polivalente para os humanos que ali descem: é ao mesmo a fonte de enormes riquezas materiais, uma selva perigosa que pode matar quem nela se aventura ou uma chance de aprender lições valiosas sobre a alteridade, a natureza e a esperança.

O unobtânio, um aportuguesamento livre da palavra unobtainium, é um metal cujo nome já prediz o resultado da história, pois é um trocadilho com unobtainable, que significa em inglês “inobtenível”,  “que não se pode obter”. Esse minério está no solo em que se enraíza uma árvore sagrada para os na’vi, que a protegerão com suas vidas. A natureza, Eywa, também não deixará que os humanos coletem o valioso metal.

Na’vi, o nome inventado dos habitantes de Pandora, pode ser entendido como uma mistura de nativo (native, em inglês) com o sânscrito Devi. Eles são o símbolo da alteridade na história, o outro que pode ser visto como antagonista não-humano ou, como vem a ser no final, o não-humano humanizado, compreendido como igual. Eles são os nativos colonizados ou que se pretendem colonizar, simbolizando todo os povos exóticos.

KaliMas ao mesmo tempo são entendidos como seres míticos, como deuses e, talvez, como aquilo a que o humano aspira ser. Eles são Devi, que na mitologia hindu designa as divindades femininas, ou as manifestações femininas da divindade, ou ainda as manifestações divinas do feminino. Os na’vi até lembram, com suas peles azuis, algumas imagens sacras de deuses hindus.

Neste sentido, os na’vi são incorporações da natureza de Pandora, ou Eywa, e representam o antagonista-natureza de caráter feminino, que se opõe à tecnologia bélica de caráter masculino levada pela RDA. Esse antagonismo entre selva e tecnologia, natureza e cultura, feminino e masculino, é instigante como tema de narrativas como Alien: O Oitavo Passageiro, também dirigido por James Cameron.

Também do sânscrito, avatar denomina as encarnações terrenas da divindade, como Krsna e, dependendo da interpretação teológica, Cristo (Deus feito carne). (Essa palavra nomeia, por derivação, as imagens que na internet servem para identificar uma pessoa (seja em bate-papo, em redes sociais, em RPGs online ou em comentários de blog).)

Os humanos que encarnam na’vi no mundo destes são como os avatares hindus, deuses encarnados na Terra. Neste sentido, a lição do filme chega a ser ateísta e humanista, pois esses avatares se deparam com o fato de que são iguais aos na’vi “comuns”. Ao mesmo tempo, é salvacionista, pois é o avatar de Jake Sully quem lidera e salva o clã que o acolhe.

Eywa é a divindade suprema nas crenças dos nas’vi, e poderia ser entendida como a imagem que nós humanos nomeamos de Mãe-Natureza. Eywa lembra Eva, a primeira mulher, e como entidade feminina primordial, Eywa simboliza o mundo dos na’vi, uma interconexão natural.

Segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário), o imaginário se divide basicemente em dois regimes: o diurno e o noturno. Este último é onde as imagens são regidas pela ideia de acolhimento, de aconchego, do abraço, da rede que embala e, envolvendo, protege. Se para o regime diurno a rede é uma teia de aranha que tolhe a liberdade, para o regime noturno, que poderia ser entendido como regido por uma mãe, é acalentamento. Eywa, Eva, princípio feminino, é maternal.

Jake Sully, à primeira vista, é um homem cujo principal objetivo é se ocupar depois que perdeu as pernas e, se possível, tê-las de volta com uma cirurgia. O que muda bastante depois que ele se empolga com o Projeto Avatar, que lhe dá a oportunidade de andar e de conhecer um mundo novo e fascinante. A reviravolta completa acontece quando ele se torna um na’vi, é aceito pelo clã e se une amorosamente a Neytiri.

Sully é um verbo inglês que reporta à ideia de suspeita, ou seja, Jake Sully está todo o tempo sendo vigiado para que suas intenções fiquem claras e se saiba como ele vai agir. Em certo momento, ele se torna traidor em ambos os lados e precisa tomar uma atitude para agir da maneira mais justa.

Grace Augustine, a botânica que escreveu um tratado sobre a flora de Pandora, é Graça Augusta. Se sua importância faz a primeira impressão dela parecer arrogante, ela se mostra uma valiosa aliada para os na’vi em sua luta pela proteção de Pandora, sendo permitida sua entrada na vila dos Omaticaya, que, mais tarde, tentarão salvar sua vida ameaçada por um tiro de Quaritch.

Parker Selfridge está pouquíssimo interessado em entender os outros. A única coisa que ocupa suas preocupações é o self, sua própria trincheira. Os outros ou são ferramentas para ele conseguir o que quer ou são obstáculos a ser derrubados. O estereótipo do empreendedor egoísta e maquiavélico.

Miles Quaritch só tem um objetivo: quarrel, peleja. Ele está a serviço da RDA apenas para combater os na’vi com armas. Ele vai matar quantos nativos forem necessários para executar a meta de Selfridge. Sua índole bélica será decisiva para frustrar qualquer plano diplomático e para criar uma guerra na selva que remonta o sonho guerreiro dos norte-americanos.

[Continua…]

Babies

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Está previsto para estrear em 2010 o filme Babies (Bebês), um documentário dirigido por Thomas Balmes, não muito conhecido, mas suspeito que esteja prestes a dar uma (no mínimo pequena) guinada em sua carreira cinematográfica com esse que promete ser um belo filme e que já está fazendo algum sucesso na internet.

A premissa do filme é simples e muito interessante: acompanhar o desenvolvimento de quatro bebês recém-nascidos, desde o nascimento até o primeiro aniversário; cada criança nasce e vive num lugar diferente da Terra: Ponijao é de Opuwo, na Namíbia; Mari é de Tóquio, Japão; Bayar é de Bayanchandmani, Mongólia; e Hattie é de San Francisco, EUA.

Embora haja muito poucos detalhes disponíveis sobre essa obra, basicamente detalhes de produção e um trailer divertido, podemos adiantar alguns pensamentos a respeito, pelo menos, da ideia de se fazer um documentário com essa criativa premissa.

O trailer já deixa evidentes os dois aspectos opostos e complementares que apreendemos da visão de quatro crianças de diferentes culturas: as semelhanças e as diferenças.

A cena de dois bebês africanos brigando é muito familiar para nós do Ocidente. Quando brincam com animais, todos os bebês têm algo em comum, uma mão desajeitada explorando com audácia a parte animada do mundo. Ao rastejar, engatinhar e enfim caminhar, qualquer bebê mostra que todos nós temos um início de trajetória parecido na vida (além de nos ensinar a origem comum da espécie humana, descendente de vertebrados reptilianos que se tornaram mamíferos quadrúpedes e enfim primatas).

Mas ao mesmo tempo vemos que os seres humanos têm que ser reconhecidos pela singularidade dos grupos e indivíduos. No trailer, podemos vislumbrar, neste aspecto, apenas detalhes que diferenciam o ambiente em que vive cada criança, coisas que em cada lugar servem aos mesmos propósitos básicos da vida humana. Certamente, vendo o filme completo, poderemos enxergar melhor os aspectos locais que determinam o desenvolvimento de um caráter cultural específico, e essa será a parte mais interessante, pois tocará num ponto antropológico fundamental.

Para concluir, gostaria de apresentar uma preocupação epistemológica que pretendo levar comigo para a sala de cinema (ou para minha TV, quando tiver o DVD), que diz respeito a uma abordagem corrente segundo a qual, observando bebês, poderíamos perceber aquilo que é cultural e distingui-lo daquilo que é biológico no Homo sapiens, como se um recém-nascido estivesse na condição de tabula rasa.

Em condições normais, todo ser humano anda, mas não aprende a andar sozinho; todo ser humano fala, mas não aprende a falar sozinho; todo ser humano estabelece relações com outros seres, mas essas relações estão regidas por regras culturais específicas que só podem ser aprendidas através dessas próprias relações. Enfim, observar bebês nos primeiros estágios de vida não nos permite apreender de forma óbvia aquilo que é universal (que tanto pode ser biológico como cultural) daquilo que é específico (tanto em relação à cultura específica que identifica os conterrâneos quanto às experiências pessoais que tornam cada indivíduo único).

Estou inclinado a considerar que aquilo que há de comum em todos os seres humanos é um amálgama entre condições biológicas e condições culturais. A cultura é a natureza humana e a natureza humana é resultado da cultura. As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand, ajuda a vislumbrar como uma coisa mexe na outra. O que quero dizer com isso tudo é que o documentário Babies provavelmente servirá mais para nos trazer insights sobre essas questões do que evidências para uma teoria.

Anyway, há alguma coisa em nós, seres humanos (talvez o haja em outras espécies), que nos faz ficar encantados com as feições infantis de um filhote de Homo sapiens (e de outros filhotes também). Só isso já proporcionará uma experiência agradável para os espectadores desse documentário. Bebezinhos fofos…

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