A orgia humana – parte 2

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A natureza é muitas vezes um recurso argumentativo para defender um modelo ideal de comportamento humano. A Etologia pode ser fonte para justificar, por exemplo, um dado tipo de conduta sexual e de formação de laços entre as pessoas. Porém, vemos que os comportamentos animais são tão diversos que não é possível basear nosso ideal de comportamento humano numa suposta “natureza” imutável.

Quando não adianta recorrer à “natureza” para defender a tradição familiar cristã (que na verdade é tão diversa e muito mais ideal do que real), recorre-se a argumentos de cunho “sociológico”. Um exemplo, dado na primeira parte deste ensaio, é a defesa do suposto significado “correto” da palavra “casal”.

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Pai e mãe não têm sexo

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A luta daqueles que desejam ter filhos ainda tem um árduo caminho a ser percorrido no nosso homofóbico Brasil. Vejam, por exemplo, que o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) quer modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir homossexuais de adotarem crianças.

A primeira coisa que deveria ser considerada na contra-argumentação à proposta de proibir alguém de um direito com base em seu comportamento ou orientação sexual é que, fazendo isso, incorre-se em inconstitucionalidade, pois implica em discriminar as pessoas por um critério antidemocrático. Perguntar se um candidato à adoção é homossexual equivaleria a perguntar qual é sua raça, religião, partido político ou time de futebol.

Marinho faz parte de impertinente grupo de políticos cristãos (católicos e evangélicos) que confundem suas convicções pessoais com política, e desconsideram que estão num país democrático. O deputado diz:

Como uma criança adotada se sentirá na escola, na rua, na sociedade, tendo o pai igual a mãe ou a mãe igual ao pai?

Nenhuma pessoa é igual a outra. E o que se observa em qualquer relacionamento, seja heterossexual ou homossexual, é uma tendência a haver complementaridade na relação, ou seja, cada um dos parceiros tem traços pessoais que compensam os traços pessoais do outro, mesmo que haja muitas coisas em comum a ambos.

Além disso, há casais heterossexuais que vivem uma relação tão igualitária que, na prática, poderiam ser considerados homossexuais, os parceiros são parecidos demais entre si. E há casais homossexuais que vivem uma relação tão dicotômica que a diferença entre os parceiros é maior do que a da maioria dos pares formados por um homem e uma mulher.

E também não podemos esquecer a multiplicidade de tipos de famílias que existem atualmente e que fogem dos padrões “tradicionais” defendidos pelo conservadorismo do evangélico deputado Marinho: pai solteiro com filho(s), mãe solteira com filho(s), pais separados com filho(s), gays com filho(s), lésbicas com filho(s), trios de pais com filho(s), irmãos mais velhos criando os mais novos, avós criando os netos, tios criando os sobrinhos…

A afirmação do deputado deixa implícita a ideia de que toda criança deveria ser criada por um casal e que, portanto, uma pessoa deveria ser proibida de criar sozinha uma criança, já que se pode inferir que, segundo ele, o “normal” é ter um pai e uma mãe.

A criança encontrará colegas na escola com os mais diversos tipos de pais e responsáveis em sua tutela.  E mesmo quando ela entender que em nossa cultura aquilo que é considerado “normal” é a heterossexualidade e a importância de “pai e mãe”, temos que lembrar que os modelos de feminilidade e masculinidade não são exclusivamente representados por um pai e por uma mãe respectivamente (nem mesmo nos casais heterossexuais, em que, inclusive, o pai pode exercer um papel feminino e a mãe um papel masculino).

Países desenvolvidos como a Holanda estão hoje perdidos sem saber para aonde vão.

Essa afirmação extremamente ilógica se baseia tão-somente no fato de que os holandeses não têm restrição de adoção com base na sexualidade dos pais. Não há nenhuma consequência nefasta na Holanda advinda da adoção de crianças por gays e lésbicas.

É a simples reiteração de que a homossexualidade é um mal em si e, portanto, ser criada por homossexuais é um enorme perigo para uma criança. E até agora não se pôde  demonstrar qualquer efeito negativo na criação por pais homossexuais nem qualquer repercussão maléfica disso tudo para a humanidade.

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Nota sobre a ilustração

Os peixes-palhaços são transexuais.

De pais, filhos e um mundo melhor

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Funny about loveAssisti um dia destes, com minha namorada Inês, ao filme As coisas engraçadas do amor (Funny about love), produzido em 1990 e dirigido por Leonard Nimoy. Protagonizado pelo escalafobético Gene Wilder (cuja incorporação de Willy Wonka, em A fantástica fábrica de chocolate, é um epifenômeno cinematográfico) e por Christine Lahti, é o que se pode enquadrar no estilo comédia romântica.

No entanto, muitas das coisas que se fazem hoje em dia sob o rótulo de comédia romântica são bobagens. Constroem seu humor sobre situações ridículas e de constrangimento, o que, na maioria dos casos, não considero humor. As coisas engraçadas do amor, no entanto, tem seu humor concentrado nos diálogos dos personagens, nas observações que estes fazem dos acontecimentos da trama. É uma comédia no sentido usado pelos gregos e romanos, ou seja, uma narrativa com final feliz, ou, como eu gosto de conceituar, uma história otimista.

Warning: Spoilers!

A história trata, no geral, do conflito entre executar um projeto de vida pessoal e criar um filho. Além disso, o casal protagonista passa boa parte do tempo tentando conceber uma criança, e com muita dificuldade acaba admitindo a possibilidade de se criar um filho adotado.

É muito forte o impulso de querer ter um filho gerado da própria

força fecundante
De [sua] brônzea trama neuronial

(Acho que foi da leitura de Augusto dos Anjos que veio o “neuronial” com “i” de minha Teia. Já a chamaram de “Teia Neuronal”, o que é mais comum, e até “Teia Neural” (!).)

Se as pessoas que querem ajudar uma consciência em estado físico pueril a se desenvolver se preocupassem mais com o bem-estar desse outro ser e com a possibilidade de dar ao mundo um cidadão melhor, pouco lhes importaria quem o pariu. A essa exigência pode subjazer egoísmo (pois muitas pessoa querem um filho que seja uma miniatura de si mesmas), espírito de clã (querem dar continuidade a uma linhagem) e até, em alguns casos, racismo (querem mais uma criança de “raça pura” no mundo).

Os egoístas se esquecem que aquela criança vai um dia ser um adulto, e provavelmente vai demandar para si sua própria identidade. Os que acreditam na linhagem perdem de vista a ancestralidade comum de todos os seres humanos. Os racistas, tristemente, ainda estão achando que alguns humanos são mais iguais do que outros, como os porcos que tomaram conta da fazenda em A Revolução dos Bichos, de George Orwell (cuja adaptação para o cinema é recomendada, embora o desfecho decepcione):

All animals are equal, but some animals are more equal than others.

Homo significa igual. Há muito tempo sabemos que não existe, atualmente, uma subespécie de Homo sapiens sapiens. As diferenças relevantes são individuais ou criadas social e culturalmente. E mesmo nas relações entre espécies distintas deve-se buscar aquilo que há em comum, para que possa haver convivência no universo. Afinal, a comunicação mais elementar exige um mínimo de alguma coisa comum. Nem que seja para que o outro entenda que o estou insultando.

Aprender e assumir uma atitude universalista é o mínimo que os adultos podem fazer por todas as crianças com quem entram em contato. Para muitas sociedades, há apenas um termo para designar os pais e parentes da mesma geração que estes, assim como um só termo para irmãos e primos. Se tomarmos para nós um pouquinho de responsabilidade perante qualquer criança, estas poderão, no mínimo, ter a mente suficientemente aberta para nunca deixar de aprender e evoluir.

Homo familiaris

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CartaCapitalNesta semana, a CartaCapital publicou uma matéria sobre a Lei da Guarda Compratilhada. Apresenta-se ali um debate entre a defesa de que as mulheres deveriam ter mais direitos sobre crianças e a posição segundo a qual os pais deveriam ter direitos iguais aos delas na criação dos filhos.
Mãe de todos os mitosA primeira posição se baseia em idéias preconcebidas da cultura ocidental sobre o papel da mãe, discutidas em obras como Mãe de todos os mitos: como a modela e reprime as mães, de Aminata Forna, e Um amor conquistado: o mito do amor materno, de Élisabeth Badinter. Tendemos a pensar numa predisposição natural que levaria a uma obrigação para com os filhos maior por parte das mães.

Não há determinação natural. Conheço casos de pais mais dedicados e responsáveis do que as mães e vice versa. Além disso, é bom lembrar que dedicação não é sinônimo de boa criação. A superproteção, seja na forma do confinamento, seja por meio de agrados ilimitados, é prejudicial. Embora eu não seja pai, acho que não é suficiente querer “aprender fazendo” o métier paterno. A experiência com filhos de outras pessoas, parentes e/ou amigos, deveria servir como preparo.

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