Animais, inteligência e teimosia

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Certa vez li que os burros são animais inteligentes mas muito teimosos. Daí teria surgido o sentido pejorativo da palavra “burro”, inicialmente se referindo a pessoas teimosas e posteriormente variando de significado para caracterizar pessoas de baixa capacidade intelectual. Ou seja, acabou que o sentido figurado atualmente empregado à palavra contradiz a natureza dos animais citados, mais inteligentes do que vários outros tipos de bichos domésticos.

Mas essas noções de inteligência e teimosia são complicadas de se lidar (é preciso certo nível de inteligência para isso e os conceitos apresentam certa teimosia diante de quem tenta refletir sobre eles). Afinal, o que realmente significa inteligência? O que ela mede exatamente? Não vou nem tentar me debruçar sobre essa definição, mas vou simplificar as coisas da seguinte maneira: Inteligência é a capacidade de um organismo de resolver problemas.

Pensemos em dois dos mais comuns animais domésticos criados pelo ser humano, o gato e o cachorro. Existe certo consenso a respeito da suposta inteligência superior dos cachorros. Concorda-se em geral que eles têm mais facilidade de aprender truques e de se comunicar com os donos. Os gatos, por outro lado, são mais arredios e independentes; são, de certo modo, teimosos.

Voltamos assim à dicotomia inteligência/teimosia. Daí podemos afirmar que há como que uma noção que opõe os dois termos e que se traduz na seguinte afirmação: inteligência implica a capacidade de obedecer. Dessa forma, quando se fala na capacidade de um cachorro realizar truques ensinados por humanos, chamando isso de inteligência, também chegamos a uma afirmação oposta: não obedecer é sinal de baixa inteligência.

Não há como não pensar naquele velho adágio: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A partir disso podemos notar sinais de uma ideologia insidiosa vindo à tona. Percebemos que aquela inocente classificação dos animais em mais ou menos inteligentes está atrelada a uma mentalidade autoritária que preza pela manutenção de uma ordem e de uma hierarquia social. Animal inteligente seria aquele que, obedecendo ao dono, evita ser punido por este. Aí está o orgaismo resolvendo o problema de afastar de si a dor causada por um opressor.

Se pensarmos sob um outro ângulo, seguindo um outro conjunto de valores, poderíamos muito bem pensar que a inteligência está na capacidade de resolver problemas sem a interferência de um agente externo. Se os gatos são desobedientes, eles podem ser considerados, nessa perspectiva, como mais inteligentes que os cachorros, já que conseguem as mesmas regalias dos donos sem agir como bajuladores que colocam a língua para fora e abanam o rabo (ou então encontram fora de casa as fontes para saciar suas necessidades). Gatos seriam mais inteligentes, pois resolvem seus problemas sem se sujeitar a seus “donos” e com criatividade.

A pedagogia tradicional no Ocidente costumava se fazer, e em alguns contextos ainda se faz, pela imposição do conhecimento aos estudantes. A inteligência de um aluno é medida por sua capacidade de reproduzir os saberes repassados pelo professor. Os alunos teimosos, que não seguem as normas de conduta em sala de aula, geralmente coincidem com os alunos “burros”, que não apreendem o conteúdo, administrado pelo docente e sem possibilidade de questionamentos.

Ficando ainda indefinido o conceito de inteligência para nós, considerando inclusive que existem vários tipos de inteligência (burros, cachorros e gatos têm cada um a preponderância de um desses tipos – e cada indivíduo de cada espécie varia em sua própria individualidade), o que podemos perceber com menos incerteza, até onde nossa capacidade de entendimento alcança, é que a ideologia da inteligência preconiza o valor conservador da obediência incondicional. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um dito que implica que não é preciso ser inteligente (ter juízo) para mandar.

Nas sociedades com Estado e com valores tradicionais arraigados, como a nossa, “burro” é quem não abaixa a cabeça diante da Polícia, é quem não disfarça sua sexualidade desviante ou sua identidade de gênero não-convencional, é a mulher que não se sujeita ao marido, é o negro pobre que reclama do baixo salário, é a criança autodidata que procura aprender através de meios não-instituídos. Na revolução dos bichos, são os teimosos que podem acabar com a ditadura dos porcos.

Professor

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Como seres humanos, dependemos por natureza da presença de outros de nossa espécie para realizarmos nosso potencial mínimo, básico. Sem a presença de adultos, as crianças não aprendem a falar e dificilmente conseguirão andar. Sem a intervenção da cultura, personificada nesses adultos, o indivíduo não aprende noções e regras básicas para o convívio social. Sem esse aprendizado, o Homo não se torna sapiens.

Assim, a função de professores e educadores (e da Pedagogia) é fundamental para o desenvolvimento de indivíduos e de uma sociedade ética e democrática. Somente com um sistema (formal ou não) educacional de qualidade e igualitário é que podemos ter a difusão do conhecimento.

Cada um de nós foi acolhido no seio da humanidade ao nascer, foi alimentado com leite, afeto e palavras . Cada um de nós tem o potencial para se tornar um professor, um difusor daquilo que recebemos, dando alguma orientação às gerações seguintes.

A função daqueles que se dedicam profissionalmente à Educação não é apenas ensinar e orientar, mas desenvolver a ciência Pedagogia e explicitar sua importância, servindo de exemplo não só para educandos, mas para aqueles que já o foram e que podem atuar cotidianamente como professores e educadores em situações pontuais. Afinal, conhecimento todos nós temos, mas a arte da Didática é dominada por poucos.

A cor do brinquedo

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A pequena Riley fez um sucesso instantâneo na internet ao demonstrar sua indignação para com o marketing, que manipula os desejos infantis por brinquedos de acordo com o sexo das crianças. Meninas devem querer princesas e brinquedos cor-de-rosa. Meninos devem desejar super-heróis de qualquer outra cor. Afinal, afirma ela, há meninos que querem princesas cor-de-rosa e há meninas que querem super-heróis de outras cores.

Há não muito tempo presenciei uma cena que se repete o tempo todo em nossa sociedade. O pai pede ao garoto que escolha qual a cor do brinquedo ele quer levar; o menino escolhe rosa; o pai responde enfático: “Rosa não, você é doido?! Você é homem! Escolha outra cor.” Há um desejo legítimo da parte de algumas pessoas por objetos que são socialmente proibidos ao seu gênero. Esse desejo é tolhido e moldado para se enquadrar num modelo de masculinidade ou feminilidade.

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