O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

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o-hobbit-jornada-inesperada-poster-13-anoesTítulo original: The Hobbit: An Unexpected Journey

Direção: Peter Jackson

Ano: 2012

País: EUA e Nova Zelândia

Uma jornada muito esperada

Houve uma enorme expectativa, com uma pitada de receio, pois o filme prometia muito e, se não fosse bom, seria altamente decepcionante. Mas não foi.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), nova incursão cinematográfica do diretor Peter Jackson no mundo imaginado por J. R. R. Tolkien, trouxe à vida a primeira terça parte de O Hobbit, a grande aventura de Bilbo Bolseiro para o Leste, ajudando os anões a reaver seu antigo lar. (Leia o artigo O Hobbit para saber mais sobre o livro.)

O filme começa a partir de onde se inicia a narrativa do primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis, do mesmo Peter Jackson, ou seja, com Bilbo se preparando para seu onzentésimo primeiro aniversário e sua fuga do Condado. É então que ele decide escrever sua história, dando início ao que seria depois chamado O Livro Vermelho, que contém os relatos de sua aventura e da missão de seu sobrinho Frodo (ou seja, todo o texto de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis).

Ele conta a Frodo os antecedentes da histótia do anão Thorin Escudo de Carvalho, de como seu avô foi destronado pelo dragão Smaug, que tomou a Montanha Solitária dos anões, e de como estes ficaram desamparados, sem poder contar com os humanos expropriados pelo mesmo monstro e sem receber auxílio dos elfos, que se recusaram a ajudar.

“Numa toca no chão vivia um hobbit”, começa Bilbo (ecoando a frase que apareceu na cabeça de Tolkien e que lhe rendeu uma das mais interessantes aventuras de fantasia do século XX), e conta como o mago Gandalf apareceu numa certa manhã, convidando-o para uma aventura, e a chegada dos 13 anões não convidados a sua casa, vindos para jantar, discutir planos e contratar um ladrão, ou seja,  o próprio relutante Bilbo, cuja participação na missão viria a ser muito mais interessante e significativa do que todos (exceto Gandalf) imaginaram desde o início.

Uma análise do filme através dos personagens

Bilbo, o hobbit

Eu havia dito em minha resenha do livro que provavelmente Bilbo, o hobbit do título da obra, ficaria meio apagado no meio de 13 anões. Mas isso felizmente não aconteceu. Assim como no livro, o protagonista do filme está no centro de tudo e a trama gira em torno de seu desenvolvimento. Um pacato e típico hobbit, Bilbo chega a desmaiar ao saber dos possíveis perigos que enfrentaria em sua jornada. Mas algo dentro dele ansiava por uma aventura, e caberia somente a ele a decisão de seguir os anões.

Neste sentido, há uma diferença significativa em relação ao romance, no qual Bilbo só segue os anões ao ser pressionado por Gandalf. No livro, ficam bem claros os motivos profundos para o hobbit realmente querer viajar, conhecer outras raças e lugares, mas isso não fica tão claro no filme, e seu “salto de fé” para a aventura pareceu um tanto inverossímil. Porém, a cena em que ele enrola os trolls para ganhar tempo (no livro é Gandalf quem engana os monstros) foi importante para mostrar que, desde o início, Bilbo tinha habilidades importantes para o sucesso da missão.

E seu papel se mostra crucial no decorrer dos eventos, ao demonstrar coragem (ajudando Thorin a lutar contra os orcs), compaixão (ao poupar a vida de Gollum, colocando em prática uma importante lição ensinada por Gandalf) e empatia (ao se comprometer a ajudar os anões a retomar aquilo que Bilbo mais preza: o lar). Ele se destaca como o pequeno indivíduo dotado de um grande espírito, em conformidade com a proposta original de Tolkien. Por isso tudo o considero muito mais marcante do que Frodo, pois este, especialmente nos filmes, se mostra muito melancólico, fraco e resignado, sendo um protagonista bem menos interessante do que Bilbo, este sim o hobbit.

Gandalf

O mago errante continua o mesmo de sempre, e sua imagem é agora mais do que nunca associada com o grande ator Ian McKellen. Sábio, bem-humorado, pontual, assertivo e prevenido, ele funciona na história como articulador dos eventos e intermediador dos conflitos que podem atrapalhar a execução da missão. Gandalf é a perfeita figura do guia, orientador e mestre, ajudando os indivíduos a encontrar seu rumo e seu lugar no mundo.

Está sempre um passo à frente e sempre está no lugar certo na hora certa. Não dá para imaginar a história sem ele, e seriam plenamente dispensáveis as aparições de Galadriel e Saruman, nas deliberações sobre o futuro da Terra-Média, embora tenham sido bem mais pertinentes do que Radagast.

Thorin

Thorin Escudo de Carvalho é um grande herói entre os anões. Ele é neto de Thrór, o Rei sob a Montanha destronado por Smaug. Tendo morrido seu avô e seu pai Thráin, Thorin é o herdeiro do trono de Erebor, a Montanha Solitária. Ele busca retomar o antigo lar dos anões e o grande tesouro guardado pelo dragão. Principal representante de todos os anões do filme, ele praticamente ofusca sua comitiva de 12 companheiros, que estão ali como coadjuvantes (excetuando-se Balin, que é o mais importante da comitiva depois de Thorin e serve como mediador em alguns momentos).

Depois de ser exilado de Erebor como todos os anões que lá habitavam, o nobre príncipe Thorin teve que se sujeitar a diversos trabalhos braçais até conseguir recursos suficientes para reunir um grupo com a coragem de tentar retomar a Montanha. Nesse ínterim, também esteve envolvido numa sangrenta batalha contra orcs, cujo líder, Azog, se tornou seu arqui-inimigo.

Thorin é um personagem que ecoa o mesmo papel de Aragorn em O Senhor dos Anéis, ou seja, é o legítimo herdeiro de uma linhagem de nobres governantes, buscando retomar seu lugar de direito. Tanto sua herança quanto seus feitos inspiram seus companheiros e são admirados por Bilbo. No entanto, sua arrogância provoca algum conflito com o hobbit e com Elrond, o elfo sem cuja ajuda ele jamais conseguiria executar sua missão.

Radagast

O mago Radagast,  o Castanho,  merece apenas uma breve consideração. A presença dele no filme só se justifica pela relação com O Senhor dos Anéis, servindo de ponte para explicar o surgimento do vilão daquela trilogia. O ponto positivo dessa presença foi mostrar as diferenças entre os magos (ao lado de Gandalf e Saruman), bem como trazer à tona o fato de que na Terra-Média os animais costumavam se comunicar com as raças humanoides.

Nesse sentido, sua presença foi importante para evidenciar o caráter mágico desse mundo fantástico, que às vezes fica esquecido. Mas suas cenas são meio enfadonhas e fogem demais do ritmo e clima da trama principal, e ele poderia ter sido dispensado. Considero o personagem até interessante, mas pelo menos poderiam ter deixado para lá aquele trenó de coelhos, que ressoa uma fantasia muito à Disney, bem diferente do estilo de Tolkien.

Gollum

Talvez o personagem mais esperado pelos fãs de Tolkien e da trilogia anterior, Gollum fez uma ótima aparição, extremamente real na renovada tecnologia de captação de movimento e ainda mais carismático do que antes. Mais uma vez Andy Serkis faz um excelente trabalho incorporando um personagem virtual, mas muito crível em suas expressões, suas flutuações esquizofrênicas e especialmente no semblante de desamparo e desespero que provocam a compaixão de Bilbo e freiam a espada deste (numa perfeita cena sem palavras).

Mas achei seu capítulo um tanto curto, o engajamento e a resolução meio bruscas. Porém, mesmo assim todo o essencial estava ali, revelando apenas o necessário, sem se estender desnecessariamente em seu passado e sua história (que já está toda contada em O Senhor dos Anéis).

Considerações finais

Durante a divulgação do filme e enquanto o assistia, encontrei uma forma interessante de relacionar os livros ao filmes (de ambas as trilogias). Nos filmes, as adaptações, ou seja, as supressões e/ou os acréscimos, podem ser entendidas como disparidades de versões. Os filmes seriam uma suposta aproximação maior do que realmente aconteceu, enquanto os livros apresentam os mesmos eventos recontados pelos seus protagonistas (Bilbo, Frodo e Sam), ou seja, com um olhar enviesado, recriando episódios, retirando eventos considerados não muito importantes e enfeitando outros para parecerem mais coloridos do que realmente foram. Por isso, e tendo em vista as observações acima, penso que, para se apreciar esse universo fantástico ao máximo, vale muito a pena conhecer a literatura tolkieniana.

Pensando bem sobre todas as cenas do filme, não me recordo de ter havido supressões significativas em relação ao livro. É como se tudo o que acontece nos seis primeiros capítulos do livro estivesse ali na tela, e ainda com a inclusão de vários outros elementos que enriquecem (ou, em alguns raros casos, só tomam tempo desnecessário) a trama, dando um significado mais profundo à trajetória de Bilbo, de Thorin e de Gandalf. A inclusão, por exemplo, de um arqui-inimigo de Thorin, o orc Azog, torna as ameaças da viagem mais verossímeis e significativas.

Comparando a extensão deste filme (e consequentemente dos dois próximos filmes) com a da outra trilogia, percebo um aproveitamento maior da história de O Hobbit na tela, tendo em vista que há muito mais supressões na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, devido à longa extensão do livro. A aventura de Bilbo tem um terço do tamanho da de Frodo e bastaria um filme para apresentá-lo da forma como o foi a outra trilogia. Dessa forma, para os fãs, a escolha pelo formato de uma trilogia mantém quase intacta a riqueza da obra literária original.

Algumas pequenas mudanças e acréscimos em cenas-chave também não foram despropositadas. Um ótimo exemplo é o encontro de Bilbo com Gollum, contado de modo diferente. No filme, ao invés de encontrar o anel antes de Gollum, este aparece primeiro, para mostrar quem ele é, seus hábitos alimentares e o que costuma fazer com orcs fracos que encontra. Logo em seguida, quando Gollum mata o orc, a espada de Bilbo, que sempre se acende à proximidade dessas criaturas, se apaga, indicando que Gollum não é um orc, embora de longe se pareça com um.

Alguns criticaram os elementos cômicos do filme, vendo-os como pontos negativos. Porém, penso que esses elementos fizeram jus a um dos aspectos mais marcantes de O Hobbit, o humor que permeia toda a narrativa. Considere-se também o fato de o livro ter sido destinado originalmente a um público infantil. Jackson conseguiu dosar um caráter mais sério com boas pitadas de comicidade, que no geral não me pareceram exageradas. Vibrei especialmente com a cena dos pratos e a canção debochada dos anões ao arrumar a louça de Bilbo. Afinal, a música e a poesia fazem parte das histórias na Terra-Média, inclusive com peças mais sombrias, como a famigerada “canção do exílio” dos anões, cena que foi divulgada na internet antes da estreia do filme e representou um bom presságio para aqueles que aguardavam essa jornada tão esperada.

O Hobbit na televisão e no cinema

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Hoje, 21 de setembro de 2012, O Hobbit completa 75 anos desde sua primeira edição. Foi o primeiro livro de J. R. R. Tolkien sobre a Terra-Média, cujos acontecimentos antecedem e preparam o cenário para O Senhor dos Anéis, bastante conhecido hoje em dia pelo público em geral devido à primorosa adaptação cinematográfica de Peter Jackson. O Hobbit é muito menos conhecido do que O Senhor dos Anéis, mas vai se tornar muito popular com um novo trabalho de Jackson, que estreia em dezembro deste ano (2012).

No entanto, não é a primeira vez que alguém teve a ideia de adaptar a obra de Tolkien para as telas (seja a televisão, seja o cinema). Houve alguns trabalhos na década de 1970 em cima de O Senhor dos Anéis. Mas mesmo bem antes disso já haviam começado as adaptações do primeiro livro, considerado por muitos uma obra voltada para crianças (Tolkien a escreveu tendo em vista um público infantil), mas ainda hoje aclamado como um belo exemplo de literatura fantástica.

A primeira transposição oficial de O Hobbit para o cinema foi realizada em 1966, pelo animador Gene Deitch, num curta metragem que, para aqueles que conhecem bem a obra de Tolkien, resultou em algo bem estranho, formalmente deturpado e ligeiramente diferente em sua essência. Os gráficos foram feitos num estilo de ilustração de histórias infantis. A animação é pobre, mantendo o filme com a aparência de um livro ilustrado, e há apenas a voz do narrador, como se estivesse lendo o livro. Veja abaixo o filme na íntegra.

O diretor se deu a liberdade de modificar vários elementos importantes da obra de Tolkien. Ele reduziu o grupo de aventureiros, que no livro contava com 13 anões, 1 hobbit e 1 mago, para um general e seu ajudante, uma princesa e o nosso pequeno protagonista. Essa adaptação mostra de forma interessante como O Hobbit pode ser visto, por certos leitores, como uma história mágica e fabulosa, que pode ser recontada de maneira simples e sem a preocupação com detalhes, mas mantendo certos elementos cruciais da narrativa, como o herói, a partida de um lar confortável para uma grande aventura, a presença de aliados, os encontros com inimigos e outros perigos, a transformação do herói, a execução da tarefa e o retorno ao aconchego da toca de hobbit.

No entanto, para muitos apreciadores do livro original, uma adaptação mais fiel e detalhada sempre agrada, pois a história não se resume a uma fábula, está repleta de elementos que extrapolam para um universo mais complexo, com seus personagens pitorescos, situações interessantes e diálogos dramáticos. Onze anos depois do curta de Deitch, Jules Bass e Arthur Rankin Jr. apresentaram um longa metragem animado para a televisão. Não existe trailer oficial desse filme, portanto segue abaixo um trailer feito por um fã:

Nesse filme foi possível explorar melhor quase toda a trama do livro, com a presença de praticamente todos os personagens importantes e a encenação com poucas perdas das cenas mais dramáticas, como os encontros de Bilbo com Gollum e com o dragão Smaug, além da tragédia do rei anão Thorin, que quase deixou a ganância corrompê-lo e quase levou os heróis à derrota.

O estilo de Bass/Rankin, que também produziram o célebre desenho animado O Último Unicórnio, mantém um aspecto de contos de fadas, as caricaturas infantis e exageradas. Além disso, conserva o espírito dos anos 70, notadamente na trilha sonora, bem feita e divertida. Mas ainda pode ser considerada uma excelente adaptação da narrativa de Tolkien, inclusive aproveitando várias das letras das canções do livro nas músicas feitas para o filme.

Este ano (2012), O Hobbit retorna às telas, desta vez com as novidades técnicas do cinema contemporâneo. Peter Jackson retoma o que iniciou (ou concluiu?) com O Senhor dos Anéis , trazendo ao público que nunca leu Tolkien os acontecimentos que antecedem e culminam na aventura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, apresentados em três filmes (Uma Jornada Inesperada, A Desolação de Smaug e Lá e de Volta Outra Vez). Eis o trailer oficial da primeira parte, que estreia no próximo dezembro:

A expectativa é de que a história seja recontada num tom mais “realista”, mais complexo e profundo, até mesmo mais sombrio, como se a narrativa do livro representasse uma versão atenuada da história, enviesada pelo olhar de seu suposto autor e protagonista (o próprio hobbit Bilbo Bolseiro). A trilogia também explorará eventos paralelos, ausentes de O Hobbit, mas desenvolvidos pelo próprio Tolkien em outros escritos, criando uma conexão maior com O Senhor dos Anéis

Referências

Distrito 9 [Resenha]

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Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Imagine uma gigantesca nave espacial parada no ar sobre sua cidade. Nada sai lá de dentro durante algum tempo e não sabemos o que a nave trouxe. As Forças Armadas, após algum período de ansiedade geral, decidem penetrar a nave e descobre uma população alienígena, com uma aparência mais ou menos de artrópodes bípedes, desnutrida e desamparada.

O que seria mais adequado fazermos com esses extraterrestres que pedem asilo na Terra? Onde devemos alocá-los? O que podemos lhes oferecer? O que eles podem nos dar em troca? Devemos integrá-los à nossa sociedade? Devemos tratá-los como humanos, como não-humanos com alma ou como animais sem alma (animais sem alma, agora eu me toco, é uma contradição; alma vem do latim: anima)?

O filme Distrito 9, de Neill Blomkamp, produzido por Peter Jackson, assume que uma nave extraterrestre pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul, e apresenta essa história na forma de um semidocumentário. Nele vemos que as Forças Armadas decidiram abrir a nave e encontraram alienígenas desnutridos e desamparados em busca de asilo.

Não sabemos o que ocorreu com eles nem porque vieram até a Terra; especula-se que seus líderes morreram ou que os recursos naturais de seu planeta-natal se exauriram. O fato é que: ei-los, não têm para onde ir.

Começam os conflitos. Os não-humanos, apelidados de “camarões” pelos humanos, são alocados numa região inabitada do município, próxima ao centro urbano, chamada de Distrito 9. Assim como os ex-escravos negros construíram o que hoje são as favelas, os “camarões” passam a viver uma vida degenerada, habitações apertadas envoltas por lixo, convívio com humanos da Nigéria que traficam armas e drogas. O resultado é que o Distrito 9 se tornou um depósito de “camarões” e de lixo.

Aliás, mais do que um depósito, um criadouro. A população não-humana vai crescendo e os “camarões”, segregados da população humana, começam a ser vistos como um perigo. As autoridades decidem realocar os “camarões” e autorizam a MNU (Multinational United), uma empresa militar privada, a empreender uma ação de despejo liderada pelo funcionário Wikus van der Merwe. Os residentes do Distrito 9 deverão ser realojados no Distrito 10, fora das imediações de Joanesburgo.

Por acidente, Wikus é infectado por uma substância que o faz passar por uma gradativa metamorfose, tornando-o genética e fenotipicamente um híbrido de humano e alienígena. Ele se torna cobaia de testes da MNU e depois foragido, nem humano nem “camarão”. Estabelece uma relação ambígua com Christopher, um alienígena que está tentando fugir da Terra. No final, Wikus ajuda Christopher a escapar na nave, em troca da promessa de trazer, em alguns anos, a cura para sua metamorfose.

O navio negreiro e o banzo interplanetário

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

A nave espacial repleta de extraterrestres desamparados pode ser entendida como uma metáfora de um navio negreiro ou uma embarcação repleta de imigrantes. A nave simboliza o degredo e nos faz perguntar qual é a origem desse povo degenerado que se encontra sem rumo no espaço, sem líderes e sem saber para onde ir.

Podemos inferir, pelo conjunto de analogias com a relação colonialista e escravocrata da qual a África foi vítima, que os alienígenas que pairam no céu de Joanesburgo são uma carga de escravos, e que a tripulação da nave morreu de alguma forma, talvez assassinada pelos “camarões”.

Entretanto, os equipamentos que eles trazem só podem ser usados por eles, ou seja, foram construídos para sua espécie e provavelmente pela sua espécie. Se eles era escravos, os escravizadores eram muito provavelmente outros “camarões”. Os especialistas entrevistados no “documentário” dizem que os “camarões” encontrados na nave eram operários incapazes de tomar decisões.

Nessa condição, semelhante à dos negros trazidos em navios para a América, seria muito difícil encontrar para eles um abrigo melhor do que uma favela. Não só porque os extraterrestres provocam medo e ninguém sabe que perigo eles podem representar, mas porque a humanidade não se preparou para ampliar os Direitos Humanos ao nível interplanetário.

Esse é o ponto em que a história pode se tornar polêmica. O fato de serem criaturas conscientes (sentient beings) não deveria lhes conceder os mesmos direitos que aqueles concedidos aos humanos?

Humanos não-humanos

Quando as nações  europeias expandiram seu domínio ao Leste, construíram um conjunto de representações racistas (o Orientalismo, segundo Edward W. Said; leia aqui minha resenha do seu livro sobre este tema) que rebaixaram os humanos orientais a uma condição menos evoluída. Para muitos, sua “situação” era irreparável: árabes, indianos e judeus sempre seriam dependentes do domínio do europeu civilizado.

Quando navegantes europeus chegaram à África ocidental e à América, algo semelhante se constituiu. As biologias e as culturas de ameríndios e africanos foram consideradas sub-humanas pela ideologia imperialista, e mais tarde se desenvolveria o racismo científico que naturalizaria a inferioridade e a não-humanidade de povos não-europeus.

O próximo capítulo dessa história, e que se aproxima mais da trama de Distrito 9, é o processo de imigração, especialmente de imigrantes considerados de “raças” diferentes, e que ainda são vistos com o mesmo racismo imperialista e colonialista. É nesse contexto que se desenvolve a xenofobia na forma como a vulgarizamos hoje, ou seja, o medo dos estrangeiros.

Não-humanos humanos

Atualmente, o processo de mundialização da história da humanidade já vislumbra uma nova ética planetária, ainda não colocada plenamente em prática, mas em princípio já esboçada, segundo a qual todos os seres humanos têm os mesmos direitos básicos. Há também uma tendência a ampliar esses direitos aos animais não-humanos (um exemplo pode ser visto no documentário Terráqueos (Earthlings), sobre o qual você pode saber mais neste link).

Como já escrevi em algum lugar desta Teia, esses direitos deverão se expandir quando os humanos tiverem contato e começarem relações com espécies alienígenas. Assim como a crença nas diferenças fundamentais entre “raças” humanas (que justificavam conflitos violentos) foi revista, qualquer crença que justifique desigualdades baseadas nas diferenças interespécies deverá ser superada tanto por parte dos humanos quanto de qualquer outro povo extraterrestre.

Brasão da Federação Unida de Planetas

Brasão da Federação Unida de Planetas, do universo de Jornada nas Estrelas

Essa utopia é prevista em obras como a franquia Jornada nas Estrelas, onde se concebe a Federação Unida de Planetas, que rege vários planetas e vários povos que entre si são alienígenas, tanto biológica como culturalmente. Na série Babylon 5, também há a ideia de que os vários povos interplanetários devem tratar uns aos outros como detentores dos mesmos direitos básicos.

A situação criada em Joanesburgo e no Distrito 9 dificultou grandemente a aplicação de qualquer ideal universalista pós-humanista. Os alienígenas estavam em situação tão precária e doente que passaram a viver no lixo, viciados em ração de gato, traficando armas hi-tech e sem controle populacional.

Ou seja, sem condições de reconstruir uma vida organizada, os “camarões” passam a ser monstros ou, no mínimo, animais, uma praga com que ninguém sabe como lidar. Os Direitos Humanos, portanto, não têm condições de evoluir nessas circunstâncias. Talvez, se nós um dia tivermos condições de acolher um povo desamparado com as melhores condições para sua recuperação, poderemos começar a revisar os Direitos Humanos e constituir os Direitos Universalistas.

O híbrido no limbo

Wikus van der Merwe é um personagem que à primeira vista dá a impressão de poder ser resumido numa palavra: pateta. É arrogante, simplório, preconceituoso e bobo. Porém, enquanto figura central da narrativa, ele se revela e revela a complexidade humana, em seus sentimentos e ações, diante do inusitado, diante do outro e do diferente.

A operação de despejo ocorre através de duas forças antagônicas e complementares: a abordagem pseudoconciliatória de Wikus e a abordagem destrutiva dos soldados que o acompanham. Wikus arrefece os ânimos dos militares (ansiosos para descarregar suas tensões e balas nos “camarões” cuja existência é uma afronta a sua xenofobia) enquanto estes asseguram a eficiência da ação e a segurança de Wikus.

A complexidade subjetiva de sua ação de despejo se revela primeiramente quando ele não consegue convencer um dos alienígenas, Christopher, a deixar sua casa, pois este, inadvertidamente, sabe ler o mandado de despejo e encontra uma contradição. Para se safar, Wikus apela para os sentimentos de Christopher, ameaçando levar embora seu filho.

Em segundo lugar, Wikus se vê sofrendo uma mutação que transforma seu corpo, primeiro um dos braços, no de um “camarão”. Ele é forçado a testar uma arma alienígena, que só funciona quando em contato com um “camarão”, e a matar um não-humano, o que ele recusa insistentemente.

Ao fugir do cativeiro, Wikus passa a protagonizar um dos principais temas do filme: o dilema do híbrido. Ele se torna pária entre os humanos, e aquele que deveria ter salvo Joanesburgo da praga dos “camarões” se encontra no caminho não só de se tornar um destes como de minar a operação de despejo. Isso por que ele passa a trabalhar com um dos alienígenas, em busca de uma troca de favores: Christopher quer voltar para casa e Wikus quer uma cura para a transformação.

Mas é graças à transformação que Wikus consegue salvar a própria pele e a de seu amigo. Para todos os efeitos, Wikus passa a ser um “camarão”, mesmo que neste ponto do filme ele ainda seja bem reconhecível como humano. Sua esposa não o quer mais (primeiro por insistência do pai, mas depois pelo escândalo que os acontecimentos causaram) e ele perde toda os laços com Joanesburgo.

Quando o “branco” se misturou com um “negro” (ou um “camarão”), a ideologia segregacionista da colonização anglo-saxã não cogitou a identidade mestiça. O resultado da mistura é que a parte “branca” foi sujada pela parte “negra”. Como nos EUA, em que uma gota de sangue negro é suficiente para tornar um indivíduo “negro”, Wikus se tornou um “camarão” ao entrar em contato com uma gota do elixir preto de Christopher.

(O dilema do híbrido

Spock, Worf e Arwen

Esse problema trazido pelo ineditismo da identidade híbrida aparece em outras histórias em que a mistura é tematizada. Spock é exemplar, pois, por mais claro que seja, para ele e para os que o rodeiam, o fato de que sua mãe é humana e seu pai é vulcano, ele insistentemente declara sua identidade vulcana, e é muitas vezes questionado sobre essa identidade. Ele é exortado pelo pai, em Star Trek (2009), a escolher entre sua natureza vulcana e humana, e não a assumir uma terceira opção, ou seja, a de que ele é um mestiço.

Ainda no universo de Jornada nas Estrelas, Worf nasceu klingon mas foi criado por humanos. Embora tivesse pouquíssimo contato com outros klingons, ele insistiu que os pais só lhe fizessem comida de sua cultura-natal, e foi muito exigente consigo mesmo quanto à manutenção da tradição de seus ancestrais biológicos e não a dos seus pais adotivos. “I’m a Klingon” é uma expressão que ele repete em muitos momentos da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. O encontro de culturas poderia ter feito nascer uma mentalidade amálgama em Worf, mas ele parece não ter herdado nada dos pais humanos.

Na Terra-Média criada por J. R. R. Tolkien, várias raças se encontram e se misturam. Arwen, por exemplo, é uma meio-elfa, resultado de uma genealogia em que se encontram elfos e humanos. Mas ela é considerada elfa, e portanto imortal, durante quase toda a história de sua vida, até que decide se tornar mortal (humana) por amor ao seu marido, Aragorn, que é humano. Ela não poderia ser um híbrido (como aliás existe no universo do RPG Dungeons & Dragons), com características de ambas as ascendências?

(Pretendo escrever em breve um post mais elaborado sobre este tema.))

O herói

Despretensiosamente, Wikus se tornou um herói para os “camarões”, e talvez sua metamorfose seja considerada uma benção pelos não-humanos. O fato é que, com o tempo, ele completou essa metamorfose e se tornou fisicamente um “camarão”, vivendo no lixo do Distrito 10, à espera do retorno de Christopher.

Porém, fica implícito que a promessa de Christopher de trazer uma cura pode ser uma mentira. De certa forma, Wikus só foi importante para que se abrisse a oportunidade de os “camarões” fugirem e voltarem para casa. Ele é o Judas sem cuja traição Cristo(pher) não poderia ter cumprido sua promessa (talvez a analogia religiosa tenha um certo apelo nos espectadores).

No entanto, é bem provável que Wikus não tenha mais perspectiva de retornar à humanidade. Ele se tornou um anátema em Joanesburgo, por muitos é tido como morto (para sua ex-epossa, ele é um fantasma que deixa flores de metal na porta de sua casa).

Se Christopher retornar com mais não-humanos, possivelmente tentará resgatar os “camarões” que ficaram (e que se multiplicam velozmente) e é bem provável que ocorra um conflito violento com os humanos. Neste conflito, só haverá duas opções razoáveis para Wikus: abster-se ou ficar do lado dos alienígenas. Se a oportunidade de ajudar os humanos surgir (baseada na larga experiência de como vivem e pensam os “camarões”), ele não terá nada a ganhar.

Um cinema híbrido

Distrito 9 me causou sentimentos ambíguos. Se por um lado suscitou uma reflexão interessante (exposta acima) e se inicia de forma criativa, como um documentário realístico, passa depois a conter elementos de ação heroicista e belicista. Se em alguns momentos aborda os temas de modo crítico, em outros cai no apelo emotivo.

No entanto, essa mistura de cinema sul-africano com Hollywood gerou uma obra multifacetada, que pode ser admirada de várias formas e gerar diversas interpretações e apreciações. A introdução do filme cria uma tensão muito grande e uma expectativa de tragédia iminente que, se não fosse contornada pela ação da segunda parte da história, a faria terminar como Dançando no Escuro de Lars von Trier. Pensando  bem, o final de Wikus, transformado em alienígena, é trágico.

Essa mesma ação, que se opõe à primeira parte, contribui para manter a tensão e o espectador na cadeira. Neste aspecto, o cineasta foi bem-sucedido, criando uma obra que prende a atenção até o fim e proporciona a oportunidade de não nos perdermos enquanto acompanhamos uma trajetória repleta de elementos que nos levam à reflexão sobre humanidade, Direitos Humanos e Universalismo.