Cogumelos e koopas

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"Toad" (um cogumelo "plebeu"), Mario (o herói) e a Princesa Cogumelo

“Toad”, um cogumelo “plebeu”, Mario, o herói, e a Princesa Cogumelo (tela de abertura do jogo Super Mario 2)

Na série de video games Super Mario, o Reino dos Cogumelos  (Mushroom Kingdom) é habitado principalmente por uma raça de cogumelos antropomórficos, conhecidos simplesmente como cogumelos (toads). Na trama das histórias desses jogos, o Reino dos Cogumelos é geralmente alvo de invasão dos koopas, cujo líder é o Rei Bowser Koopa.

A relação entre os cogumelos e os koopas se caracteriza como um conflito político, mas assume também um aspecto étnico-racial. Enquanto os cogumelos são caracterizados normalmente como homenzinhos cuja cabeça lembra a coroa de um cogumelo, os koopas são retratados como criaturas reptilianas, semelhantes a tartarugas.

Percebemos, no jogo Super Mario World, por exemplo, que os koopas se organizam como um clã ou uma família. Se por um lado há a tropa koopa composta por uma classe inferior de koopas, de aparência simples e sem grandes poderes especiais, há os koopas de elite, como uma classe nobre, cujos membros possuem espinhos nas carapaças e poderes especiais, como cuspir fogo e subir paredes. Koopa aparece como um sobrenome dessa classe nobre: Bowser Koopa, Ludwig von Koopa, Wendy Koopa e outros mais. A relação entre esses membros de elite não é apenas política, mas de parentesco, como se eles fossem uma família real, com direitos naturais para dominar as outras. É uma visão tradicional comum que legitima e justifica a dominação de alguns grupos por outros.

A família "nobre" dos koopas, no jogo Super Mario World

A família “nobre” dos koopas, no jogo Super Mario World

Temos, de um lado, os koopas como um povo conquistador e tirano, cuja organização se assemelha à de um império. Do outro lado, os cogumelos se organizam numa pacata monarquia que mal consegue se defender dos invasores e que dependem de um herói (o encanador Mario e, por vezes, seu irmão Luigi) para libertá-los.

Vemos aí uma representação comum da oposição entre um regime de poder legítimo e outro ilegítimo. Abordando o tema politicamente, os cogumelos “vivem em paz” sob uma monarquia cujo regente é bondoso e cuja herdeira, a Princesa Cogumelo (Princess Peach ou Princess Toadstool) é louvada por sua fragilidade e bondade. Já os koopas vivem sob o despotismo do cruel Bowser Koopa, poderoso e temido.

Mas a política se confunde com racismo. Isso fica mais claro na analogia entre a relação de cogumelos e koopas e a relação entre uma sociedade ultracapitalista (como os EUA) e uma nação ditatorial (como o Iraque sob Saddam Hussein, por exemplo). De modo geral, o Ocidente branco se considera mais civilizado do que o Oriente árabe, e, na fantasia ocidental, um regime muçulmano seria imposto pelo terror totalitário.

No entanto, uma observação atenta das relações de dominação revela que qualquer tipo de sociedade com Estado é a subjugação de uma classe por outra. No caso do Reino dos Cogumelos, vemos ainda mais racismo no fato de os regentes serem humanos, como se os cogumelos fossem uma raça colonizada por outra, considera superior, mais virtuosa e capaz de organizar uma sociedade avançada. Também não é à toa que o herói do Reino dos Cogumelos seja um ser humano (Mario).