O sexo dos padres

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Estava pretendendo escrever um texto sobre a declaração do cardeal Tarcisio Bertone a respeito da pedofilia na Igreja e sua suposta relação com a homossexualidade. Antecipei o assunto no post anterior, Pai e mãe não têm sexo, e o comentário de AmBar Amarelo suscitou várias questões interessantes que tomaram a forma de um novo post.

A adoção de crianças por homossexuais não é uma prática tão restrita quanto se pensa. Mas ainda há restrições baseadas num preconceito que considera normal apenas um casal de pais heterossexuais (pai e mãe), ou pensa que a conduta sexual dos pais influencia a dos filhos diretamente, ou atrela homossexualidade à pedofilia e acha que os filhos correm risco de ser molestados pelos próprios pais adotivos.

AmBar começa assim seu comentário:

O meu maior medo (e acredito de muitos outros leigos como eu) é que nós não sabemos se existe relação entre homossexualismo e outros desvios do comportamento sexual tal como a pedofilia.

“Outros desvios” denota que você considera a homossexualidade um desvio, ou seja, acredita que há uma conduta normal (a heterossexualidade entre adultos) e que qualquer coisa diferente disso é anormal.

Porém, se nos voltarmos para a Biologia, veremos que a homossexualidade é um comportamento comum entre muitas espécies animais, e isso não implica um obstáculo à sobrevivência da espécie. Estudos mostram que os indivíduos homossexuais aparecem em algumas espécies justamente com a função de ajudar a criar os filhotes dos outros indivíduos.

Mas estamos falando de seres humanos, não é? Então podemos nos voltar para a Psicanálise, segundo a qual a sexualidade humana é difusa e se constrói na trajetória individual de cada espécime.

Um “indivíduo homossexual” não é um dado óbvio, não é indentificável de maneira tão espefícica. Há muitas pessoas que vivem como heterossexuais mas já tiveram em algum(ns) momento(s) atração por alguém do mesmo sexo. Há pessoas que vivem como homossexuais e já sentiram atração por alguém do sexo oposto. Há indivíduos que são bissexuais, sem preferência. Há bissexuais (tanto homens quanto mulheres) que preferem homens, há bissexuais (tanto mulheres quanto homens) que preferem mulheres. Há pansexuais…

Qualquer tentativa de se estabelecer uma relação entre homossexualidade e pedofilia deverá levar em conta toda essa realidade. E deverá considerar todos os casos de “pedofilia heterossexual”, especialmente os inúmeros casos escondidos e abafados de abuso das meninas pelos pais, pelos tios, pelos amigos dos pais…

Por exemplo, atualmente a igreja católica vive um período incômodo pois foram revelados diversos casos de abusos de padres contra crianças. Recentemente o secretário do estado do Vaticano, cardeal Bertone, afirmou que estes casos de pedofilia não estariam ligados ao celibato mas sim ao homossexualismo.

Falar de tabus é complicado, tem que se “pisar em ovos”, mas vamos lá:

Os casos de pedofilia que vemos envolvendo padres em sua maioria envolve o abuso de meninos (sexo masculino) ou seja, eram pedófilos e homossexuais!

O cardeal em questão não tem qualificação para falar sobre isso e nem citou os estudos psicológicos aos quais se referiu. Para entender os casos de pedofilia dos padres, seria preciso considerar muitas outras questões.

Vamos fazer um exercício narrativo-mental para imaginar uma situação em que homossexualidade teria uma relação com a pedofilia:

  1. Um jovem percebe desde cedo que sente atração por outros meninos e não sente por meninas. Seu dilema é: ter que esconder seus relacionamentos homossexuais e viver “no submundo” ou ser infeliz fingindo que é heterossexual… ou ainda sofrer a pressão da família e dos amigos para encontrar uma mulher e se casar.
  2. Ele decide ser padre, condição na qual, ele pensa, vai evitar qualquer uma das infelicidades acima.
  3. Como é um ser humano, o padre não consegue destruir sua sexualidade latente. Ele continua sentindo atração por outros homens. Mas, como não aprendeu a seduzir, não consegue abordar ninguém da sua idade. Pior ainda, nem quer se arriscar a conviver com outros homossexuais, para não ser visto em público e não estragar sua reputação.
  4. No covívio do padre, há várias crianças, como coroinhas e filhos das fiéis. A possibilidade de usar seu poder sobre essas crianças (tanto o poder advindo da autoridade de padre quanto o poder físico vindo do fato de ser um adulto) para satisfazer seus desejos e a possibilidade de fazer isso às escondidas (quem desconfiaria de um padre? – além disso, ele pode usar o medo para ameaçar a criança e obrigá-la a não contar a ninguém) o levam a praticar a pedofilia.

Essa é uma trajetória possível, mas podemos pensar em muitas outras, e podemos imaginar variações em cada etapa. Não há muitas meninas no convívio dos padres. Aqueles que são bissexuais terão mais chances com meninos do que com meninas. E há, claro, padres heterossexuais que molestam meninas, mas pode haver também aqueles que, mesmo com tendência heterossexual, só consigam encontrar a opção homossexual, devido às circunstâncias… mas quem já não ouviu histórias de (ou não conhece) padres em cidades do interior com vários filhos espalhados por aí?

Penso que deveríamos, inclusive, considerar alguns casos de pedofilia não como uma questão de sexualidade, mas de exercício de poder e coerção. O uso do sexo pode ser uma entre muitas ferramentas usadas por adultos que sentem prazer em subjugar crianças, seja espancando, xingando, ameaçando, chantageando ou estuprando.

Além disso, um pai que espanca os filhos com frequência está exercendo uma violência semelhante à que um padre pratica ao estuprar uma criança. A palmatória não era (ou não é) menos violenta. O que nos faz pensar que a violência sexual é pior do que outros tipos de violência? Talvez o grande tabu que gira em torno da sexualidade e que é, em grande parte, fruto do catolicismo medieval (ou seja, da Igreja na qual estão esses padres pedófilos).

Não sou historiador mas se não me engano em algumas sociedades como a romana, era comum homossexualismo e pedofilia misturados em uma relação só.

Então fica a pergunta, até que ponto pode-se saber se essas coisas estão relacionadas ou são fruto de uma coincidência?

A Grécia antiga tinha aspectos bem diferentes daquilo que concebemos como sexualidade em nossa cultura contemporânea. A relação entre “pedofilia” e “homossexualidade” em alguns contextos sócio-históricos da Grécia se dava da seguinte forma: os jovens que atingiam a adolescência eram entregues a um tutor (este era chamado de erasta e aquele de erômena), que tratava da educação integral do jovem, tanto cultural quanto sexual, tanto teórica quanto prática. O erasta era geralmente um pouco mais velho do que o erômena, tendo passado há pouco tempo pela tutelagem. Era um estágio necessário para a transformação de um menino em adulto e cidadão grego.

No entanto, um adulto que mantivesse relações homossexuais era considerado um desviante, já que na vida adulta a sexualidade normal era com mulheres. Outra forma de relação homossexual era no exército, em que os soldados formavam pares com um laço de fidelidade e amizade que incluía relações sexuais, mas não eram relações pedofílicas.

Por isso, ao pensar que pode haver uma relação entre pedofilia e homossexualidade, é preciso usar a razão para ver que se trata, antes, de um preconceito baseado numa falácia lógica. Poderíamos buscar argumentos tão convincentes quanto esses, baseados em fatos, para relacionar a heterossxualidade à pedofilia, assim como um importante estudo certa vez demonstrou a relação entre o crime e a ingestão diária de pão…

É preciso recorrer a ciência nesses casos e esperar alguma análise que venha esclarecer esses possíveis mitos. Enquanto isso não ocorre, o que temos é achismos de ambos os lados (achismos baseados em fatos, porém sem saber se estão relacionados).

Como trata-se de algo tão sério que envolve crianças, acho que o estado não deve tomar nenhuma medida que vise facilitar a adoção desses grupos, antes de se fazer um estudo mais profundo sobre isso.

Muita gente compõe esse alarido de que há ou pode haver ou “é preciso saber” os perigos para crianças adotadas por homossexuais. Mas ninguém pensa, por exemplo, em proibir fumantes de adotar crianças, ou proibir cristãos fundamentalistas, ou proibir pessoas que têm porte de arma. São todas pessoas que apresentam potencial risco para os possíveis filhos que vierem a adotar.

Há uma pessoa em minha família que é casada com outra pessoa do mesmo sexo. O casal tem 3 filhos adotados e eu dificilmente já vi uma família tão harmoniosa quanto essa. As crianças têm personalidades fortes e saudáveis e eu duvido que haja algum tipo de violência séria (a não ser a pedagogia do castigo comum a quase qualquer família) às crianças por parte do casal.

Mas eu negaria a um padre adotar uma criança, pelo mesmo motivo que fez Alfred Hitchcock gritar a uma menina de quem se aproximava um padre na rua: “Corra, salve sua vida!”

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Cotas raciais – parte 2

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No primeiro artigo sobre as cotas raciais, apontei questionamentos sobre a guerra discursiva entre os pró-cotas e os anticotas, tendo como mote o pronunciamento do senador Demóstenes Torres no Supremo Tribunal Federal. Antecipei que na segunda parte eu escreveria sobre minhas razões para ser um anticotas e sobre os problemas relacionados ao vestibular e à Universidade.

Porém, os comentários à primeira parte foram muito extensos e decidi que não valeria a pena respondê-los diretamente na seção específica. Ao invés disso, achei que os comentários mereciam ser respondidos como continuações ao primeiro texto, prolongando-me aos poucos nas respostas e fazendo surgir mais questionamentos, tecendo uma teia neuronial extensa sobre o tema.

Comentário de Duzão

Primeiramente, retomo o comentário de Duzão, que afirma o seguinte:

Na minha visão, está é principalmente uma tentativa de se superar a deficiência clara do ensino fundamental e médio no país, introduzindo a força pessoas de baixa renda social e sem cultura alguma em grandes faculdades. [sic]

Há pelo menos duas coisas a se dizer sobre isso:

  1. As cotas raciais provavelmente incluem mais negros de classe médiado que os de baixa renda. Não só porque aqueles tenderão a estar mais preparados, por terrem estudado em escolas particulares (imagino que um negro que tire uma nota muito ruim provavelmente não conseguirá uma cota), mas também porque muitas pessoas de baixa renda não fazem o vestibular.
  2. Muitos pobres não têm autoconfiança para passar por uma prova tãodisputada quanto o vestibular. Certa vez perguntei a um jovem negro de uma comunidade rural muito pobre se ele iria fazer o vestibular, já que naquele ano ele estava terminando o 2º grau. Ele disse que ia fazer, mas acrescentou: “Mas a gente não tem muita chance de entrar, não”. Ou seja, há uma baixa autoestima que, provavelmente, atrapalha a própria prova.

Neste segundo ponto, penso que jaz um dos problemas reais do racismo no caso do acesso à universidade. Afinal, ainda temos uma herança racista que coloca os negros num patamar inferior quanto às capacidades mentais, e muitos dos próprios negros, especialmente os pobres, tendem a acreditar nessa suposta inferioridade.

Em alguns anos, será fácil de se observar o governo se gabando de uma grande quantidade de bacharelados vindos do ensino público.

Especialmente tendo em vista que um dos principais apelos deste governo, que dificilmente será esquecido nos próximos, é o de termos um presidente semianalfabeto que se orgulha de nunca ter lido um livro.

Dentro desse pacote, o Governo consegue incluir outras milhares de discussões, que nada têm a ver com educação. A principal delas, os problemas raciais. Isso desvia o foco do que realmente devia ser discutido, a qualidade de todo o sistema educacional brasileiro, q é pior que o de governos muito mais pobres que o nosso.

Isso não quer dizer que devemos esquecer o racismo existente em nosso país. Misturar os assuntos confunde o público, aumenta o atrito e não leva nada a lugar nenhum.

Até que há uma relação entre ensino fundamental e racismo. Quantos casos já não ouvimos de professoras do primário ofendendo alunos com depreciações à cor de sua pele ou à textura de seus cabelos? Quanto ainda se representam, inocentemente, ideias racistas nos livros escolares?

Penso que a própria escola deveria reassumir o papel de educar cidadãos com poder de reflexão, e que as crianças deveriam ser instigadas desde cedo a enxergar a humanidade como um só, entendendo desde cedo que há diferenças que são superficiais e não implicam em inferioridade nem superioridade.

Dessa forma, considero importante misturar os assuntos, sim, mas de forma crítica.

Comentário de Gilson

Gilson Rodrigues, a cujo texto sobre cotas raciais eu fiz referência na primeira parte, também comentou, deixando pontos importantes a ser discutidos.

Senti-me, como deveria ser, provocado pelos argumentos que listou sobre os defensores das cotas… Falastes de uma tendência a diluição da identidades racionais através de expressões como as que referi anteriormente – moreninho – Bem, o complicador ai nao está na relação semantica e sim no peso simbólico… Pelo menos em minha experiencia de quase 17 anos em Natal… o uso de tal expressão tem mt mais a ver com “um politicamente correto”, como se fosse mais educado usar “moreninho” do que preto ou negro… Qts vezes chegaram para mim ou meu pai (com a pele bem mais escura que a minha) e ao ouvirem-nos afirmando que somos negros, ou chamando um ao outro de NEGÃO… Dizem: “Voces nao são negros… Olha a cor da sua pele (para mim)” ou “Seus lábios e sei nariza são afilados” (para o meu velho)… O que é isso? Diluição? Creio q não…

Não me referi exatamente a uma diluição, mas a uma multiplicação de tipos raciais. Não acho que o fato de as pessoas se negarem a considerar alguém como negro seja necessariamente um eufemismo. A situação relatada por Gilson mostra um caso específico: duas pessoas que se consideram negros e cuja identidade racial autoatribuída se choca com uma identidade heteroatribuída. Talvez, se Gilson tivesse uma pele mais escura e seu pai tivesse nariz e lábios mais grossos, as mesmas pessoas que disseram que eles não são negros tivessem concordado com o termo que pai e filho usam, “negão”.

Ademais, retomando a questão da multiplicação de tipos raciais, eu procurei dizer que ela implica em diversos tipos de preconceito. Os tipos mestiços que não são considerados negros nem brancos sofrem uma discriminação (eu não disse que não a sofrem) diferente daquela sofrida por indivíduos considerados negros. Já os índios sofrem um outro tipo de discriminação, e por aí vai. Isso deveria ser levado em conta nas propostas de políticas afirmativas, para não se proporem soluções baseadas num quadro irreal.

E ainda há as diferenças de discriminação tendo em vista o status social. Por mais que um rico negro seja de vez em quando alvo de algum constrangimento, ele não tem as mesmas dificuldades de um pobre negro. As roupas, a linguagem corporal, a forma de falar, enfim, o habitus, exercem uma grande influência no tratamento que uma pessoa recebe das outras.

Se eu caísse (ou cair) numa classificação racial, provavelmente serei considerado branco. Apesar disso, em minha certidão de nascimento consta “pele morena”, e já disseram que sou mulato, já disseram que tenho cara de árabe, cara de judeu e cara de francês.

E também já fui muitas vezes chamado de “negão” em tratamentos informais e carinhosos por parte de amigos. Mas meus irmão e irmã são mais mulatos do que eu; enquanto Diego, quando menorzinho, era chamado de “nego lindo” por meu pai, Naninha é chamada de “moreninha”, mesmo que ambos tenham a mesma tonalidade de pele. Já o filho de Diego, que tem a tez branca, herdou do pai o mesmo apelido de “nego lindo”, talvez por ter as feições muito parecidas com a de seu progenitor.

Não há nada homogêneo no Brasil quanto às classificações raciais e suas correspondentes (ou não) discriminações. Em cada região temos “modelos” diferentes de identidade racial e da composição populacional dessas identidades, de discriminação racial etc. Esse seria um bom motivo, bem melhor do que a suposta brandura do racismo brasileiro, para se contrapor a uma discriminação reversa que reduza a população em apenas 2 tipos raciais com uma suposta inequívoca relação de dominante/dominado.

Acho bem complicado a postura de militantes dos movimentos negros que se circunscrevem a discussão, limitando-a, a certa religião (de matiz afro, o que faz com que pessoas que se identifiquem como negras, mas sigam uma “crença de branco” sejam ignoradas, isto é, alvo de preconceitos…), ou tenhe q se vestir com roupas que remtam a um mítico passado africano… Uso dreads (aqueles cabelos rasta)… Claro q isto vai gerar certo impacto e incomodo, mas n estou preocupado simplesmente em afirmar isto como coisa de negro… Basta ver qts “rastas” brancos (mestiços? )vc encontra… (A maioria dos que conheço, por sinal)… Apenas, nas transformações da vida e na reinvenção do meu cotidiano… dentro de determinada trajetória que é social, passei a achar este tipo de cabelo mais bonito esteticamente… Claro q com isso contrario uma antiga “verdade” de que negro por ter “cabelo ruim” nao pode deixá-lo crescer… Incomoda? Sim? Q bom!!!

Com esse tipo de discurso inflamado por parte dos militantes dos MOVIMENTOS NEGROS findam por reproduzir um preconceito… e retomando a citação feita por Thiago… acabaremos, nesse caminho, todos cegos, aprofundando-do-nos mais ainda no “estado de guerra” hobbesiano… do qual tentamos sair, mas nunca conseguimos totalmente…

Há muitos casos desse tipo, e não é uma tendência nova nem é exclusiva do Brasil. Desde que as ideias de Johann Gottfried von Herder se espalharam, em todo lugar vêm aparecendo “ressurgimentos” étnicos. Esse tipo de imposição de aspectos identitários vai de encontro a um dos valores modernos que considero dos mais importantes: a liberdade individual. É pedir para esquecer tudo o que surgiu de bom da mistura cultural, até qualquer coisa que seja considerada positiva por um dado indivíduo.

Isso me lembra o filme A Outra História Americana, em que o líder neonazista proíbe seus amigos de fumar maconha, por ser “coisa de negro”. Fazer esse tipo de comparação entre Movimento Negro e Nazismo sempre incomoda, mas não há como negar que se trata da mesma tentativa de manutenção de uma suposta pureza ou autenticidade de uma suposta raça que ecoa de um suposto passado latente e inequívoco, uma cultura que parece estar nos genes.

Continuo concordando com o fato de que a solução estaria na melhoria profunda da educação pública, muito longe de ser deficitária… Se assim o fosse estaria mt melhor… Porém, como dizia Maquiavel… estou falando da “realidade efetiva das coisas”, da urgencia imposta pela sociedade capitalista, que mesmo n gostando, temos de nos adaptar, em alguma medida… “Facilitar” a entrada na universidade teria esse caráter emergencial gritante…

Por mais que possamos levantar críticas pertinentes ao vestibular (e farei isso num texto vindouro), ele é uma forma muito democrática de acesso à Universidade. Através dele, cria-se uma eleição baseada na capacidade de resolver alguns problemas. Essa capacidade só depende de um preparo intelectual que não tem nada a ver com a cor da pele. É claro que os pobres, em grande parte negros, não têm tantas chances de passar no vestibular sem uma “facilitação”, e as cotas seriam um meio de compensar essa deficiência. Mas, se o raciocínio seguir por aí, seria melhor adotar cotas sociais, já que o problema não é o fenótipo, e sim a qualidade do ensino gratuito.

Notemos um paradoxo: por um lado, os cotistas recebem uma ajuda para compensar uma deficiência; no entanto, o consequente maior número de negros com diplomas pode ajudar a erradicar a ideia de que pessoas negras são menos capazes, e isso poderia melhorar a autoestima da população que sofre preconceito racial (essa poderia ser uma vantagem das cotas, mas ainda acho negativa a classificação racial imposta a toda a população que essa política implicaria).

Mas acho que essa possível vantagem teria muito mais sentido numa seleção de candidatos na qual a “raça” já fosse critério de exclusão. Se os negros fossem discriminados diretamente no vestibular, sendo excluídos por causa de sua “raça”, as cotas seriam uma forma de obrigar a instituição a rever seus critérios: “Se vocês não pararem de excluir os negros, vão ter que aceitá-los na marra”. Mas felizmente a “raça” não é (ou não era) critério de seleção, e as cotas criariam esse critério, tornariam o vestibular racista.

Gritante tb, como já disse em meu blog, é a força do “arbitrário cultural” sobre a auto-estima do preto pobre… Ah, e se a quantidade de dinheiro faz com que o branco pobre sofra mais preconceitos que o negro rico… a força do preconceito contra este último se reafirma, não? Enfim, n tenho respostas fechadas, e n quero mt perto de mim quem as tenha… POr isso, quero proximidade com vc, meu caro… alguem que aprofunda as perguntas… provocando… sempre… Abraços…

Como coloquei acima, não é o simplesmente o dinheiro que nos faz ter menos preconceitos com pessoas ricas. São suas roupas (consideradas mais condizentes com o ideal de civilidade), seus trejeitos (considerados mais finos), sua fala (considerada mais culta). Isso tudo vem de um habitus, que aqueles pertencentes a uma certa “classe social” aprendem por ser criados e/ou conviver em determinado meio social. Tanto é assim que até um pobre que consiga adquirir uma formação erudita pode ser mais respeitado nas interações com outras pessoas do que alguém que esteja desprovido dela. Já vi isso acontecer. E um pobre qualquer, quando “bem vestido”, tem grande chance de ser bem tratado em público.

Mas você tem razão sobre o preconceito racial contra negros ricos. Pensando bem, essa questão é tão complicada que seriam necessárias muitas pesquisas para averiguarmos como ocorrem os preconceitos no cotidiano. Esses preconceitos são uma mistura de muitos elementos, principalmente o preconceito contra pessoas de pele escura e o preconceito contra pobres. Chamam atenção os casos em que uma pessoa negra da elite é “confundida”com uma pessoa pobre e é então maltratada. Como se maltratar um pobre fosse mais legítimo do que maltratar um negro.

O desrespeito contra pobres é tão grande que alguns jovens acham que podem justificar o ato de incendiar um indivíduo que dormia numa praça em Brasília por pensarem que se tratava de um mendigo.

Enfim, à medida que escrevo, surgem mais e mais questionamentos. Tudo vai ficando mais confuso, mas prevejo que o debate ajudar a organizar as ideias rumo a uma conclusão (temporária, espero, e que vai demorar algumas postagens para aparecer).

Aos poucos estou encontrando bons argumentos para me posicionar a favor de uma solução emergencial, contato que sejam em condições bem específicas e sejam bem pensadas. Acho que implantar cotas raciais nos moldes que estão sendo propostos é uma medida precipitada e mais fácil do que a solução profilática, que é o sempre caro e relegado ensino público.

Na próxima parte, continuarei a comentar os comentários postados na primeira. Continuem contribuindo com o debate, a Teia Neuronial não pode parar de ser tecida.

[Continua…]

O sexo do cérebro

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Ontem o texto Resposta a um Comentário foi comentado por alguém que se identificou como Lisandro Hubris. Ele deve ter errado ao digitar o endereço de seu site, mas aparentemente quis deixar registrado http://ateus.net (Ateus.net). Numa busca, constatei que ele é um usuário do fórum do referido site e está escrevendo um livro ateísta.

Resolvi não responder diretamente na seção de comentários por dois motivos: porque ele fugiu do assunto e porque minha resposta ganharia as proporções de um post. Dessa forma, venho escrever uma réplica, tendo em vista que a questão sobre a origem do comportamento sexual é um emaranhado de dúvidas e controvérsias.

Em suma, o comentário de Lisandro é apenas uma afirmação de que a homossexualidade é um comportamento determinado pela biologia, ou seja, é inato. É um comentário que não cabe na discussão iniciada por mim em Homossexuais ainda na mira da Inquisição, onde discorri sobre o casamento homossexual, mas trouxe de volta alguns questionamentos que eu apresentei num dos primeiros posts deste blog: De neurônios, sexo e sexualidade.

Já se nasce homossexual!

Já está provado que, a origem da homossexualidade é biológica…

Pois em 1991, uma pesquisa sobre homossexualidade e neurociência feita por Simon Le Vay, do Instituto Salk da Califórnia, EUA.

O mesmo onde Torsten Wiesel e David Hibel verificaram que a região do cérebro envolvida na regulagem do comportamento sexual é comandada por um substrato biológico da orientação sexual.

E que determinados impulsos sexuais, dos homossexuais são anatomicamente diferentes dos impulsos dos heterossexuais.

Deixou claro que, já se nasce homossexual.

Lê Vay comprovou que o NIHA-3 é grande em homens hetero e em mulheres homo, (ou seja, nos indivíduos que têm uma predisposição sexual para ter relações com mulheres) e pequeno nas mulheres heteros e homens homos (nos indivíduos com alguma orientação sexual para ter relações com homens).

A primeira coisa que Lisandro faz é afirmar que “já se nasce homossexual”. Logo em seguida, faz referência a uma pesquisa de 1991 que mostrou que determinada área do cérebro é semelhante entre pessoas que têm preferência sexual por homens (sejam essas pessoas homens ou mulheres) e entre pessoas com preferência sexual por mulheres (idem). A conclusão precipitada, como em muitas pesquisas desse tipo, é a de que uma característica biológica determinou um comportamento.

A origem do comportamento homossexual é um assunto controverso e há estudos nas mais diversas áreas da Ciência apresentando as teorias mais díspares. A Psicanálise, por exemplo, diz que o indivíduo nasce sem orientação sexual definida, e pode desenvolver qualquer gosto, de acordo com sua história pessoal e com a influência do meio.

O complicado na afirmação de que “a observação do cérebro prova que a homossexualidade é biológica” é assumir de antemão que as pessoas pesquisadas já nasceram com o cérebro assim. Quando o Homo sapiens interage com o ambiente, seu cérebro sofre estímulos e se modifica. Poderíamos supor, por exemplo, que um garoto que desenvolveu atração por outros garotos, devido a alguma particularidade dos episódios de sua infância, desenvolveu um cérebro cujo NIHA-3 é parecido com o das mulheres que gostam de homens. O delas também teria ficado assim pelo mesmo motivo.

De modo que a afirmação de que “orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo” poderia ser invertida: a biologia do indivíduo depende da sua orientação sexual.

Os ateus, em geral, são loucos por Ciência. Para mim, é salutar buscar na Ciência uma compreensão mais aproximada da realidade, e é muito superior nesse sentido do que a Religião. Mas uma cienciomania pode levar a uma um entusiasmo cego.

NIHA-3 significa, Núcleo Intersticial do Hipotálamo Anterior.

E no caso em tela, o mesmo é denominado de “03”, porque também existe o NIHA 01,02 e 04. Que são as estruturas do hipotálamo que regulam a fome, a sede, as funções sexuais, a temperatura e certos hormônios.

Lisandro mostra com entusiasmo seus conhecimentos triviais a respeito do cérebro, e acaba caindo em alguns erros muito comuns entre os cienciomaníacos:

  1. Considerar como ciências somente as exatas e/ou naturais, ignorando muitas vezes o que as ciências humanas dizem a respeito desses assuntos;
  2. Fiar-se na Ciência como uma verdade absoluta, o que a Ciência essencialmente não é (em oposição aos dogmas religiosos). Daí decorre uma postura comum na cienciomania, que é expressa em frases do tipo “já está provado que…” ou “a Ciência já provou”.

Esquece-se ou se ignora a epistemologia mais contemporânea, para a qual a Ciência é uma aproximação da realidade e não uma descrição exata, além do que todas a teorias são passíveis de refutação.

Essas pesquisas normalmente deixam uma lacuna: como explicar os bissexuais? Como é o cérebro deles? Como é o cérebro de um pansexual? Como se dá isso em sociedades nas quais o comportamento bissexual é instituído socialmente, como era o caso da Roma antiga? Os romanos já nasciam bissexuais?

Embora Lisandro não tenha deixado claro o que pensa moralmente sobre a homossexualidade, deixou escapar um preconceito:

Lê Vay pesquisou o tecido cerebral de 41 indivíduos.

entre eles haviam 19 homens comprovadamente gays; 16 homens heterossexuais e 06 mulheres normais. [grifo meu]

Não ficou bem entendido, num comentário que buscou ser isento, o que significa uma “mulher normal”.

A conclusão do Dr. Le Vay foi que “O NIHA-03 exibiu dimorfismo”.

Ou seja, o aparecimento de duas formas diferentes, dentro de um mesmo grupo.

Pois o NIHA-03 dos homossexuais era duas vezes mais volumoso do que o dos heteros.

A descoberta de que entre os heterossexuais e os homossexuais, um núcleo difere em tamanho.

E aparece de duas formas características.

Indica que a orientação sexual dos homossexuais depende da biologia do individuo.

Sendo bem racional, a única coisa certa que se pode tirar da pesquisa e Le Vay é que, aparentemente, certo dimorfismo do cérebro coincide com uma variação e comportamento. Mas a conclusão peremptória de que , obviamente, a biologia (o cérebro) determinou um comportamento é uma postura pseudocientífica.

Além dos genes de gêmeos idênticos, apresentarem uma possibilidade acima da média dos mesmos compartilhar a mesma orientação sexual.

O homossexualismo independe da raça e da origem do individuo.

Pois cerca de 5% da população é homossexual.

A orientação sexual dos recém – nascidos adotados tem pouca relação com a dos seus pais adotivos.

E mais de 90% dos recém-nascidos adotadas por casais gays são heterossexuais.

Como nos gêmeos idênticos, a probabilidade deles compartilharem à mesma orientação homossexual é superior a 50%.

Enquanto, nos pares aleatórios de indivíduos a média está abaixo de 8%.

Algo que fica pouco claro é se essa teoria neurológica considera que o aspecto do cérebro determina ou influencia. Se for considerada a estatística de que os gêmeos tem grande probabilidade de ter a mesma orientação, então não há determinismo, o que nos faz perguntar: o que faz com que dois irmãos gêmeos não compartilhem a mesma orientação sexual?

Pode ser a história pessoal de cada um deles. Mas podemos também considerar outra hipótese: não é a genética idêntica que influencia nessa probabilidade, mas as condições mesológicas parecidas e a nossa tendência a considerar os gêmeos como se fossem a cópia um do outro, o que pode gerar uma confusão identitária em ambos. E aí cabe uma pergunta muito pertinente: como são os cérebros de dois irmãos gêmeos que têm orientação sexual diferente entre si?

Finalmente, chegamos ao trecho que tem alguma pertinência na discussão sobre o casamento homossexual: a orientação sexual dos filhos de um casal homossexual. Talvez seja esse o ponto a que Lisandro quis chegar ao introduzir o tema da origem biológica da sexualidade.

E acho que toda essa argumentação biologista é sofisma. Primeiro, porque as estatísticas mostram que a orientação sexual de um indivíduo independe daquela dos adultos que o criaram; se isso se dá por fatores genéticos ou sociais ou psíquicos ou físicos pouco importa, e é uma resposta que ainda não foi respondida.

Em segundo lugar, dar tanta importância a esses dados é admitir que a homossexualidade e as famílias diferentes da tradicionais são problemáticas, ou seja, é se manter ainda numa mentalidade conservadora que não se alinha com uma postura libertária, que, penso eu, a Ciência e o ateísmo buscam.

As evidencias indicam que a orientação sexual tem uma base genética.

E demonstram que o caráter e as características individualizadas de uma pessoa não são enraizados pelo meio ambientes em que a mesma vive.

Ademais, é preciso separar ainda algumas coisas dentro da própria Biologia: não é tão forçosa assim a relação entre cérebro (órgão biológico) e genes. Afinal, no âmbito biológico, não é só a genética que influencia nas características físicas de um indivíduo. Os hábitos da mãe durante a gravidez precisam ser considerados, o clima no qual se vive e as reações do organismo àquele. Há inúmeros aspectos fisiológicos que são adquiridos durante a gestação do novo ser vivo e não são determinados pelas cadeias de DNA.

Não quero levantar a bandeira do sociologismo e afirmar que tudo é social, contra o biologismo que afirma que tudo é biológico. Deve haver influências de vários tipos no comportamento das pessoas. A própria dificuldade de as ciências dialogarem abertamente entre si impede que tenhamos claro o que realmente está em jogo na constituição de cada indivíduo. Porém, é importante levantar questionamentos acerca de cada argumento apresentado, propondo outras interpretações dos mesmos fatos.

Resposta a um comentário

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Há alguns dias, publiquei um texto sobre casamentos de homossexuais. Analisei, na ocasião, o discurso do padre/deputado José Linhares, que alterou um projeto de lei que regulamenta a união estável, excluindo desta os homossexuais. O que moveu o padre Linhares a fazer isso foi uma visão católica e não uma noção democrática da questão.

Meu texto foi bastante comentado (um dos mais comentados até hoje na Teia). Tive o prazer de, inclusive, receber acréscimos de pessoas que nunca haviam comentado ou que só o haviam feito pouquíssimas vezes. Entre elas, o mais contundente foi AmBar Amarelo, que apresentou uma posição diferente da maioria (inclusive da minha) e suscitou reações de outros comentaristas.

Roy e Silo

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No campo da vida real – parte 2

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Há 3 dias, republiquei na Teia um texto que havia perdido. Meu amigo Cadu, que já o tinha lido, resolveu comentar na forma de um post em seu próprio blog. Sua réplica foi bastante extensa e me ajudou significativamente a rever alguns aspectos da minha reflexão. Portanto, para aprimorar o pensamento e também para rebater algumas observações de Cadu, resolvi apresentar esta tréplica.

Primeiramente, tentei deixar claro no subtítulo do texto que não se tratava de uma análise crítica. De fato, após reler meu próprio texto, vi-o mais como um desabafo repleto de impressões motivadas pelas minhas emoções, pelo meu próprio habitus, do que como um texto crítico-analítico (embora haja alguns elementos deste aspecto).

Escola de Atenas, de Rafael, e um... menino

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