Black Kirby e a Turma da Mônica negra

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John Jennings é professor de Estudos Visuais na Universidade de Buffalo, NY (EUA). Ele e o artista afrofuturista Stacey Robinson idealizaram o projeto Black Kirby, uma homenagem e uma releitura de algumas ilustrações do renomado quadrinista Jack Kirby (cocriador de vários super-heróis da Marvel Comics). Eles produziram diversas capas alternativas de edições clássicas da Marvel, mantendo o traço de Kirby e transformando os personagens em pessoas negras e adornadas com motivos afrofuturistas, partindo da premissa: “Se Jack Kirby fosse negro”. Dessa releitura surgiram personagens como Major Sankofa (Capitão América), O Poderoso Xangô (Thor) e O Indestrutível Buck (Hulk).

Os artistas afrofuturistas como Jennings e Robinson recriam a estética do universo dos Quadrinhos, da Ficção Científica, da Fantasia e outras mídias imaginativas como forma de se sentir representados. É a reapropriação de um espaço tradicionalmente dominado por eurocentrismo. É um modo de expressar seu próprio anseio por representatividade. Num meio como os Quadrinhos, dominado por personagens brancos, do sexo masculino, heterossexuais e cisgêneros, admirados por uma enorme diversidade de leitores e leitoras, reimaginá-los com outra identidade étnica, racial, de gênero ou de sexualidade é um modo de explicitar o desejo por suprir a pouca identificação desse público.

Não se trata, como podem pensar alguns, de mero capricho de artista querendo chamar atenção. Há alguns dias repercutiu nas redes sociais a atitude de uma criança brasileira que fez quase exatamente a mesma coisa que Jennings e Robinson fizeram. Cleidison tinha que colorir a capa da prova ministrada por sua professora da 5ª série, que figurava a Turma da Mônica de Maurício de Sousa. O garoto negro entregou à professora os personagens pintados com sua própria cor e disse a ela que estava cansado de ver personagens que não se pareciam com ele.

A professora divulgou a imagem no Facebook e a repercussão dessa notícia foi muito positiva na internet. O gesto de Cleidison foi iclusive elogiado por Maurício de Sousa. Ironicamente, o quadrinista enfatizou que a diversidade faz parte da linha editorial de suas revistas, lembrando o personagem Jeremias, que é negro. Infelizmente, constatamos que seus esforços para representar os negros em suas histórias ainda são incipientes. Há apenas 4 personagens negros entre as centenas criadas por Maurício: Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. O primeiro não faz parte do escalão principal da Turma, aparecendo como coadjuvante esporadicamente. Os três últimos são de certa forma spin-offs, e são um fiasco de representatividade se considerarmos que foram criados com base em celebridades (não são personagens originais inspirados em “pessoas comuns”) e que são jogadores de futebol. Ou seja, 75% dos personagens negros recaem num lamentável estereótipo racial.

Mas isso não é de estranhar vindo de Maurício de Sousa, que já fez declarações anacrônicas a respeito da representatividade das mulheres nos quadrinhos, tanto como personagens quanto como quadrinistas. Sua obra é sem dúvida uma referência universal e eterna para leitores e artistas de quadrinhos brasileiros, mas é preciso renovar as ideias desse meio.

Há algum tempo conversei com um amigo sobre personagens brancos de quadrinhos que foram interpretados por atores negros no cinema, como o Rei do Crime (Demolidor) e Nick Fury (Vingadores). Nós nos perguntamos na ocasião se isso poderia acontecer, por exemplo, com o Capitão América, e chegamos à conclusão de que um símbolo norte-americano nunca seria outra coisa senão um homem branco, loiro e heterossexual. Felizmente estávamos errados. A própria Marvel já anunciou que Steve Rogers será substituído por Samuel Wilson (que costumava ser o super-herói Falcão), um homem negro. De certa forma, o Major Sankofa de Black Kirby foi abraçado pela Marvel.

Além disso, tendo em vista que o personagem Thor também foi reformulado e agora será uma mulher, a Marvel sinaliza mudanças interessantes no mundo dos quadrinhos, que talvez sejam repercussões de trabalhos como o de Jennings e de Cleidison, com sua perspectiva afrofuturista. Somando-se isso à crescente demanda feminista por representatividade feminina, bem como a maior visibilidade de pessoas LGBT como consumidoras e produtoras de quadrinhos e outras mídias populares, é provável que vejamos cada vez mais uma diversidade autêntica entre super-heroínas e super-heróis fantasiados.

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