Os negros em Star Trek

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Já é quase um clichê dizer que Jornada nas Estrelas (Star Trek) foi uma franquia revolucionária em vários aspectos. Muita gente sempre se lembra de dizer que a tripulação da nave estelar Enterprise era multiétnica, tendo entre seus principais membros uma africana, um nipo-americano, um russo, um escocês e até um alienígena.

Mas é sempre notória a participação maior de personagens caucasianos nas posições de protagonismo das histórias. Apresentada inicialmente, nos idos dos anos 1960, como uma proposta libertária, era de se esperar que a franquia se desenvolvesse com cada vez mais abertismo em relação a identidades de gênero, de sexualidade e de raça-etnia. Como se deu então, na trajetória das diversas séries de Star Trek, o destaque dos personagens pertencentes à identidade racial mais menosprezada no Ocidente, ou seja, os negros?

Uhura (Nichelle Nichols)

A icônica tenente Uhura, oficial de comunicações da mais clássica das Enterprises, cujo prenome nunca foi conhecido na série clássica e só seria revelado no filme de 2009, foi uma novidade e tanto na televisão norte-americana no ano 1966, quando era extremamente difícil colocar uma atriz/personagem do sexo feminino e/ou negra entre os papéis principais de uma série de TV.

O episódio piloto da série (The Cage) foi recusado pela emissora, entre outras coisas, justamente por ter uma mulher em posição de destaque na trama. Mas Gene Roddenberry conseguiu uma façanha: apresentou uma nova proposta em que uma mulher, Nichelle Nichols, faria parte do elenco principal, se bem que numa posição não tão importante quanto a de um capitão ou de um imediato, mas mesmo assim na ponte de comando. E mais, era uma mulher negra.

O fato de ser uma mulher negra num papel importante (e com um rank de tenente) foi tão impactante que influenciou uma geração de jovens afro-americanos de ambos os sexos. Whoopi Goldberg conta que, quando criança, viu Uhura na televisão e correu para contar para a família:

I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!

[Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!]

Uhura encenou com o Capitão Kirk (William Shatner) aquele que foi considerado o primeiro beijo “inter-racial” da televisão norte-americana. Mesmo sendo uma cena em que os personagens foram forçados telepaticamente ao ato, os produtores e o diretor relutaram muito em concretizá-la, e a repercussão posterior foi grande.

O papel de Nichelle Nichols foi tão importante para o público afro-americano que ninguém menos do que Martin Luther King pediu pessoalmente a ela que não saísse do show, pois ela era um exemplo para os jovens negros em plena era de luta por direitos civis. Porém, a equiparação do destaque de personagens negros com brancos (e também de mulheres com homens) ainda estava em estágio embrionário, pois Uhura ainda era mais um elemento exótico da tripulação do que uma figura de peso.

Geordi Laforge (LeVar Burton)

Enquanto Uhura foi concebida como uma especialista em comunicações e xenoliguística, Geordi Laforge, interpretado por LeVar Burton, era um engenheiro altamente capacitado, que possuía o título de tenente e ocupava o cargo de engenheiro-chefe da Enterprise-D, comandada pelo Capitão Jean-Luc Picard.

Essa caracterização de Laforge manteve a tradição de se colocar um personagem negro que não se limita aos estereótipos racistas que menosprezam suas capacidades mentais. Geordi era um prodígio da engenharia que salvava a Enterprise de colapsar em momentos críticos, mais ou menos como o fazia Scotty na série dos anos 60, mas bem menos falastrão do que o carismático escocês.

É interessante observar que a “raça” dos personagens em Star Trek, especialmente a partir da Nova Geração, não era mais motivo de qualquer menção ou relevância no contexto fictício utópico da série. Laforge nunca teve a cor de sua pele ou a textura de seu cabelo trazidos à tona como justificativa para qualquer tipo de conflito, por menor que fosse, caracterizado o contexto do universo ficcional como um ideal antirracista. Os conflitos raciais, em Star Trek, aparecem metaforicamente em situações de relação entre espécies de planetas diferentes.

Assim como Uhura, Geordi Laforge também encenou flertes inter-raciais, com a colega tripulante Christy Henshaw e com a cientista Leah Brahms. São tão poucas as vezes em que o vemos demonstrar esforços para flertar ou namorar que Geordi também acaba escapando do estereótipo que vê os negros como propensos ao galanteio, e ele se aproxima mais do estereótipo do nerd do que do afro-americano folgazão.

Worf (Michael Dorn)

O klingon mais querido de toda a franquia não é exatamente uma pessoa negra no sentido humano do termo, já que ele é alienígena, mas é interpretado por um ator negro, Michael Dorn, que incorporou Worf, um dos mais instigantes exemplos de hibridismo cultural interespécies em Star Trek.

Entre os klingons não há divisões do tipo “racial”, pelo menos não do tipo que humanos ocidentais fazem entre si, já que eles aparentam ter a mesma cor de pele (tanto atores negros quanto brancos já interpretaram klingons, e eles sempre usam uma maquiagem que colore a pele de um tom bronzeado.

Apesar de não ter trazido grandes contribuições para a discussão de relações raciais humanas para o universo da série, a presença de um excelente ator negro na franquia foi enriquecedora, e Michael Dorn conseguiu trazer à tona uma profunda complexidade nas relações interculturais entre humanos e klingons, encarnada no próprio Worf, com seus conflitos internos entre sua cultura natal e a de seus pais adotivos humanos, e entre os valores da Federação (e da Frota Estelar da qual é oficial) e os da sociedade klingon.

Guinan (Whoopi Goldberg)

Guinan apareceu a partir da segunda temporada de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Interpretada por Whoopi Goldberg, grande fã da franquia e admiradora de Uhura/Nichelle Nichols (como visto acima), a personagem administra o 10-Foward, um bar/restaurante na Enterprise-D.

Uma das figuras mais misteriosas de Star Trek, ninguém sabe exatamente sua origem, mas sabe-se que ela tem pelo menos séculos de idade. Guinan é caracterizada como muito sábia e é capaz de surpreender os tripulantes da Enterprise com habilidades que ninguém imagina que uma estalajadeira possua. Possui alguns poderes cuja natureza não é bem compreendida pelos mortais que a conhecem, e estes tampouco imaginam a verdadeira extensão desses poderes.

Embora tenha caído num papel até certo ponto típico para personagens negros e tenha um forte exotismo normalmente associado à identidade negra, ela não deixa de ser extremamente humana em sua relação com outras pessoas, dotada de uma empatia que a aproxima muito de pessoas comuns e lhe permite atuar quando os esforços da conselheira Deanna Troi falham. Guinan mistura a estranheza de sua condição alienígena e semidivina com uma figura que se confunde com qualquer mortal humano. Além disso, possui um visual muito marcante que remonta ao afrofuturismo, valorizando elementos da identidade negra num contexto dominado pela estética branca.

Benjamin Sisko (Avery Brooks)

Comandante Sisko talvez tenha sido o marco mais importante na inserção dos negros no elenco da franquia, depois de Uhura. Até então, o modelo do líder em Star Trek estava representado por dois homens brancos, um norte-americano (Kirk) e um europeu (Picard), e a maioria dos capitães das naves da Frota Estelar seguem esse modelo. É também ao redor de Sisko que pela primeira vez vemos uma família negra em destaque em Star Trek: Ele tem um filho, Jake, e se encontra com o pai, Joseph, em momentos cruciais de sua trajetória.

A princípio dotado do título de comandante e designado para administrar a estação espacial Deep Space Nine, que deu título à série da qual é protagonista, Benjamin Sisko é promovido a capitão no decorrer da história e assume um papel central de liderança no combate a uma ameaça gigantesca contra a Federação e todo o Quadrante Alfa.

Novamente, as questões raciais humanas não são tema em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, ao menos em sua história principal. No entanto, Sisko possui um alter-ego da década de 1950, chamado Benny Russell, um escritor de ficção científica negro que sofre preconceito e tem dificuldade de publicar suas histórias, a não ser ocultando sua identidade racial. Quando ele concebe escrever uma história sobre um capitão negro que comanda uma estação espacial no futuro distante (ou seja, o próprio Benjamin Sisko), o editor reluta muito, pois considera que um personagem negro em posição de destaque será mal recebido pelo público.

Apesar de tudo, um ponto até certo ponto negativo na inserção de Sisko na história de Deep Space Nine é o fato de ele representar, mais do que todos os outros protagonistas da franquia, a ambiguidade ética da Federação. Por vezes extremamente correto em suas decisões, há momentos importantes na luta contra o Dominion em que o capitão se utiliza de meios escusos para garantir os fins almejados. Em alguns aspectos, ele pode se encaixar no modelo do príncipe maquiavélico, o que ao mesmo tempo pode significar que ele é tão humano quanto qualquer oficial branco, mas também que ele está mais sujeito às falhas humanas do que, por exemplo, o impecável Capitão Picard.

Tuvok (Tim Russ)

Assim como Worf, Tuvok não é um negro humano. Sendo vulcano, ele chama atenção pelo fato de todos os vulcanos que apareceram antes nas séries e nos filmes terem pele clara. Antes de Tuvok, os vulcanos em geral pareciam um estereótipo genérico dos orientais (Spock era interpretado por um judeu, e alguns outros de sua espécie foram interpretados por atores de ascendência asiática ou aparência que remonta a alguns estereótipos orientais – mas no cômputo geral a maioria dos atores que encarnaram vulcanos é branca).

O surgimento de Tuvok, interpretado por Tim Russ, apresentou aos espectadores uma realidade vulcana plurifenotípica, ou seja, deu a entender que a variação fenotípica vulcana é semelhante à humana. Aliás, Tuvok não tem apenas a pele escura, mas cabelos crespos e feições “africanas”.

Além dele, só me lembro de ter visto outros dois vulcanos negros: a esposa de Tuvok, que só apareceu uma vez, e um figurante de um episódio de Deep Space Nine. Isso demonstra a impregnação de uma implícita visão antropocêntrica-eurocêntrica de que o fenótipo branco é a manifestação comum da espécie, sendo os negros uma minoria, como que uma variação exótica. Apesar disso, como acontecia com Geordi Laforge, o fenótipo “negro” desse vulcano nunca foi mencionado, implicando a superação utópica do racismo nessa realidade futurista.

Travis Mayweather (Anthony Montgomery)

Jornada nas Estrelas: Enterprise é a mais medíocre das séries da franquia, e regrediu em muitos aspectos quando comparada com as séries anteriores. Os ideais veiculados se tornaram muito mais americanocêntricos, belicistas, antropocêntricos e em grande parte conservadores. Embora se veja aqui e ali ideias libertárias que lembram a proposta inicial de Gene Roddenberry, de forma geral Enterprise foi uma decepção.

E isso se reflete no personagem interpretado pelo ator mediano Anthony Montgomery. Travis Mayweather é muito apagado no meio do elenco predominantemente branco. Além de não ter força presencial (talvez pela combinação da mediocridade do ator com o menosprezo velado da produção), ele não atua de forma significativa nos eventos importantes da série e sua história é muito pouco explorada.

Infelizmente, depois do Capitão Sisko a importância dos negros em Star Trek só diminuiu e decaiu totalmente com a insignificância do alferes Mayweather, que parecia estar na ponte de comando para, junto da oficial de comunicações japonesa Hoshi Sato, compor a “cota étnica” do elenco, sem dar volume e profundidade ao personagem. Enfim, é lamentável que um personagem com um conceito tão interessante (ele nasceu num cargueiro espacial e aprendeu desde cedo a pilotar naves, sendo um exímio timoneiro) tenha sido desperdiçado dessa forma.

Race, the final frontier

Sempre senti falta de ver um personagem negro em Star Trek num papel importante que usasse o uniforme azul da divisão de ciências. Embora haja vários exemplos de indivíduos geniais em suas respectivas áreas, é como se, sub-repticiamente, se considerasse mais adequado a um negro ocupar uma posição “não-intelectual”, como oficial de comunicações, engenheiro, chefe de segurança, timoneiro e até a liderança, desde que esta se baseie mais em habilidades políticas do que naquilo que se convenciona chamar de “atividades intelectuais”.

Mas seria possível utilizar esses mesmos exemplos supracitados para se colocar uma questão muito pertinente a respeito do que é a inteligência. Esta assume várias formas diversas, e alguém que domine magistralmente uma área da engenharia (como Geordi) não é menos genial do que um erudito das ciências humanas (como Picard). São áreas diferentes do saber humano, para cujo domínio se exige esforço mental semelhante. Numa perspectiva de maior abertismo, Geordi, o nerd, é tão intelectual quanto Picard, o capitão filósofo. E é difícil imaginar que dos tripulantes da nave estelar Voyager haja alguém mais inteligente do que Tuvok, o chefe de segurança (ao menos numa perspectiva ortodoxa sobre o que é inteligência, que estou criticando aqui). Mesmo assim, seria importante ver os negros ocuparem uma variedade maior de profissões, para que no final não fique a impressão de que eles são “naturalmente” limitados em certas áreas.

Outra limitação na representação dos negros diz respeito ao caráter exótico de grande parte deles, como se eles fossem personagens fantásticos, dotados de uma certa magia e sobrenaturalidade. Geordi com seu visor é um ciborgue com ar misterioso. Guinan é praticamente uma bruxa ou cigana cheia de segredos encantados. Sisko é de certa forma um semideus, filho de um humano com uma “profeta” (ser alienígena que vive fora da temporalidade linear humana).

Vale lembrar um episódio interessante da Nova Geração, em que a tripulação da Enterprise-D se encontra com os Ligonianos (Código de Honra, 1ª temporada, 4º episódio). Estes são todos interpretados por atores negros que não usam nenhuma maquiagem que os diferencie dos humanos. Esses alienígenas podem ser, por um lado, uma resposta interessante às tantas vezes em que apareceram espécies humanoides cujos membros tinham todos a aparência de humanos brancos. Ao mesmo tempo, podem ser ser vistos como uma reafirmação inconsciente de que basta uma espécie ser toda igual aos negros humanos para caracterizá-los como não-humanos (já que, para a ideologia racista eurocêntrica, o modelo default de ser humano é o branco). De qualquer forma, é um episódio instigante que levanta diversas outras questões que contribuem para o debate sobre o racismo.

Star Trek deu um impulso importante para a valorização das minorias, mas ele conseguiu isso muito mais através do contato com alienígenas como metáforas das relações raciais do que dando destaque e relevância a personagens e atores pertencentes a minorias humanas. O espírito da série é favorável para a valorização de mulheres, negros, homossexuais e outros grupos discriminados, mas infelizmente não conseguiu radicalizar até um ponto satisfatório.

Olhando para a montagem que fiz para ilustrar o topo deste post, eu imagino uma tripulação toda formada por pessoas negras. Ora, temos ali um capitão (Sisko), uma oficial de comunicações (Uhura), um engenheiro-chefe (Geordi), um chefe de segurança (Tuvok) e um timoneiro (Mayweather). Pena que não há nenhum grande exemplo de médico (que usaria, a propósito, o uniforme azul) nas naves da Federação para administrar a enfermaria de nossa imaginária nave estelar afro.

Cotas raciais – parte 4

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Em 17 de março de 2010, comecei uma série de artigos sobre o tema das cotas raciais nas universidades brasileiras. Uma parte 2 foi publicada no dia 31 do mesmo mês e foi seguida de uma terceira parte no dia 29 de abril de 2010. As duas últimas foram praticamente respostas aos comentários da primeira parte, e na ocasião eu me “posicionava” contra as cotas, tentando, apesar de tudo, não desprezar de antemão todos os argumentos dos “racialistas” nem acatar todas as ideias dos “negacionistas”.

Desde então muita coisa mudou, muitos debates aconteceram, muita polêmica rolou, várias políticas públicas foram propostas, um controverso Estatuto da Igualdade Racial entrou em vigor e várias pesquisas mostraram o impacto da inserção de cotas raciais nas universidades. E minha posição também mudou.

Obstáculos para entrar na Academia

No processo de seleção para o ingresso nas universidades brasileiras, não há racismo direto. Não há discriminação racial no vestibular, apenas se discrimina a capacidade de se fazer uma determinada pontuação numa prova. Dessa forma, qualquer pessoa que não tenha recebido o preparo necessário (o que a escola pública deveria oferecer) ou que não tenha se preparado para fazer a prova do vestibular terá mais dificuldades de entrar na universidade do que aqueles que tiveram dinheiro para pagar uma escola particular ou um cursinho pré-vestibular.

Mas se não há racismo direto no acesso à universidade, há racismo indireto? Há. Uma vez que a maioria dos pobres é negra e que a maioria dos pobres e negros não podem senão frequentar as escolas públicas, que não os qualifica para a seleção do vestibular, apenas uma minoria de negros entra na universidade. Se tivermos em mente, ainda, o sutil mas muito sério preconceito que temos a respeito dos negros ou das pessoas que têm alguns traços de ascendência africana, segundo o qual essas pessoas são menos capazes do que os brancos, crença compartilhada inclusive por grande parte dos negros, há uma dificuldade a mais: elas têm, em geral, menos autoconfiança em sua capacidade de passar numa prova, muito menos no vestibular, que é cercado de uma aura sagrada e causa enorme tensão nos candidatos. Certa vez perguntei a um jovem quilombola que estava terminando o Ensino Médio se ele pretendia fazer vestibular. Sua resposta foi:

Vou fazer, mas a gente aqui não tem muita chance de passar, não.

Esse é apenas um caso ameno entre as tantas dificuldades de os negros cursarem uma universidade. Não podemos ignorar que há uma grande quantidade de pessoas pobres (a maioria das quais negras) que não têm oportunidade de estudar o ensino fundamental, muitas vezes porque as vicissitudes da vida os obrigam a trabalhar em tempo integral desde cedo.

Não devemos menosprezar o impacto que essa exclusão generalizada tem sobre a maneira como nossa cultura tende a representar os negros, como se fossem incapazes de adquirir as formas socialmente prestigiadas de conhecimento ou, numa perspectiva neoliberal, individualista e que endossa uma meritocracia acrítica, fossem preguiçosos e não conseguissem entrar na universidade por falta de interesse e/ou esforço. As pouquíssimas exceções não servem para provar essa perspectiva a não ser que esta seja imbuída de um teor racista.

Sim, somos racistas. E as discussões sobre as cotas raciais devem se voltar para a reflexão sobre os possíveis meios de se atenuar o racismo no Brasil. A proposta de cotas é uma resposta ao problema do racismo. Este não surgiu do nada na cabeça dos favoráveis às cotas. Não só existe racismo no Brasil, como ele está ligado à coincidência entre a distribuição racial e social, ou seja, a maioria dos pobres é negra, “parda”, indígena, a maioria dos ricos é branca. Muitos dos que se opõem às cotas raciais desenham o retrato de um Brasil bem menos racista do que pensam os pró-cotas. Propõem a “solução” das cotas sociais, que em si mesma é válida como política de ação afirmativa, mas não substitui (e não exclui) o valor simbólico de uma política cujo foco é o combate ao racismo.

O vestibular e a vocação acadêmica

Não é possível falar de meritocracia numa sociedade que não dá condições iguais para que todos possam competir igualmente. Não faz nenhum sentido apregoar a ideologia do esforço individual como única forma legítima de competição num país cuja história recente excluiu um gigantesco contingente populacional dos recursos necessários para “ser bem-sucedido”. Embora haja exceções, a maioria esmagadora das pessoas que “se dão bem” já nasceram em famílias com um mínimo de condições financeiras e capital cultural necessários para frequentar uma escola até o fim do 2º grau, prestar vestibular, cursar uma universidade e conseguir um emprego. Uma das formas de se atenuar a desigualdade desse processo seria instaurar de uma vez por todas um sistema educacional público (no mínimo) bom. Mas os efeitos disso se fariam sentir a longo prazo e não alcançariam o fundo do problema urgente que as cotas raciais tentam combater de imediato, que é o racismo.

Um dos argumentos “negacionistas” diz que instituir cotas raciais implica constituir uma divisão racial que não existe na realidade ou que, se existe, é muito sutil e difusa. Para eles, nomear as “raças” dos candidatos ao vestibular significaria reforçar o racismo ou até mesmo criar um tipo de racismo que não existe no Brasil.Porém, os conflitos raciais (quando há) entre cotistas e não-cotistas nas universidades não são uma consequência da criação das cotas. Eles são um reflexo de um conflito pré-existente. O preconceito que sofrem os cotistas negros poderia ser explicado por um suposto oportunismo da parte deles, uma acusação de que eles querem levar vantagem em cima dos outros candidatos que não precisam de (ou que não podem se qualificar a) cotas. Mas os cotistas estão exercendo um direito oferecido pelo Estado e a maioria deles está tentando com isso conseguir condições de cursar uma universidade, para o que o mero esforço individual geralmente não se mostra suficiente.

Se os conflitos raciais se evidenciam quando pessoas negras entram nas universidades através do sistema de cotas, não é que eles estejam sendo engendrados pela “cisão racial” desse sistema. O racismo é ubíquo e, nas situações cotidianas, parece muitas vezes não existir, estando na verdade ostensivamente oculto. A aparente harmonia (“democracia”) racial no Brasil é uma paz relativa que só se mantém enquanto negros, brancos, índios etc. se mantêm “em seus lugares”, ou seja, nas posições de poder tradicionalmente instituídas pela nossa história recente de dominação europeia, extermínio de índios e escravidão de negros. Quando essa “ordem” implícita é ameaçada, o conflito racial se mostra. Quando os privilégios historicamente construídos dos brancos são ameaçados pela presença negra nas universidades, emerge o racismo que estava velado.

Os anticotas também gostam de argumentar que conceder vagas para indivíduos que não tiram boas notas no vestibular é um risco para a qualidade do corpo discente das universidades. Mas a capacidade de se resolver a prova do vestibular não garante que o candidato terá condições ou vocação para seguir a carreira acadêmica. É notório que muitos universitários que passam no vestibular desistem em algum ponto da graduação. E importa salientar que a desistência entre os cotistas é menor do que entre os não-cotistas.

Ademais, tem sido demonstrado que, em média, o desempenho acadêmico de cotistas é equivalente ao dos não-cotistas. O que nos leva a questionar se o vestibular é realmente um meio absolutamente seguro de se averiguar quem tem condições de cursar bem uma faculdade. A vocação para a carreira universitária não se atesta pelo exame do vestibular, e penso que, mesmo se tivéssemos que insistir num sistema meritocrático, o vestibular deveria ser revisto ou substituído por outro meio.

Meritocracia

Da maneira que as coisas estão atualmente, o vestibular é uma espécie de loteria. Aqueles que têm a sorte de ter frequentado uma escola que os prepare para tirar uma boa nota são agraciados com uma vaga na universidade. Lembremos que até os cotistas precisam tirar uma nota mínima para passar, o que implica, inclusive, que todos os que entram na universidade estão num nível equivalente, não havendo diferença tão significativa entre os desempenhos de cotistas e não-cotistas.

O fato é que, uma vez que o vestibular não é um meio seguro para se averiguar a adequação dos candidatos à vida de pesquisas acadêmicas, ele não faz muito sentido enquanto instrumento meritocrático. A meritocracia do vestibular não tem nada a ver com a vocação acadêmica dos candidatos, e tem mais a ver com receber um ingresso para visitar um museu por ter sido bem-sucedido numa competição de xadrez.

As cotas raciais são uma proposta emergencial com o objetivo de atenuar os efeitos do racismo entranhado em nossa cultura. De fato, oportunizar a alguns negros (é bom que se note que, apesar de tudo, os beneficiados das cotas são uma minoria da população) a chance de sair das condições precárias em que viveram seus pais ajuda a tornar visível que a cor da pele não torna uma pessoa inepta. Mas ainda é necessário que essa política seja acompanhada de uma ostensiva reforma do ensino público, da erradicação das desigualdades sociais e trabalho infantil, além da implantação de projetos culturais de valorização da herança africana em nossa cultura material e imaterial e em nossa biologia.

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