Minha filha e meu corpo

Padrão

Sonhei que eu era uma mulher que dera à luz recentemente. Mas a equipe do hospital, médicos e enfermeiras, não me deixavam aproximar e nem sequer ver minha filha recém-nascida. Eu tinha que ficar afastada do quarto onde ela era cuidada por uma enfermeira. Eu era membro de uma cultura em que a mãe deve ficar longe dos próprios filhos até estes terem certa idade. Eu sentia uma angústia que era misto de desespero com resignação. Sentia ciúmes da enfermeira que cuidava de minha filha. Parei em frente ao quarto em que ela estava, desobedecendo ordens, e contemplei a criança, me perguntando: como ela vai confiar em mim se eu não posso construir uma relação de intimidade desde seu nascimento?

Talvez esse sonho tenha me ajudado a entender um pouco a agonia de ser mulher numa cultura que ainda subjuga o corpo feminino, percebendo-o como receptáculo da semente de um homem e não como coparticipante da concepção de uma criança. A gravidez é uma crise na vida de uma mulher, e ela deve poder tomar decisões a respeito de seu mais valioso bem material: seu corpo. Aquela criança pode representar meu próprio corpo (uma vez que é fruto e extensão dele), aprisionado e domesticado pela cultura na qual me insiro.

Atualmente, há pelo menos duas questões importantes quanto aos direitos das mulheres sobre seus corpos:

  1. O direito de fazer aborto em casos de estupro e/ou de risco à saúde da gestante e/ou do feto e
  2. O direito a um parto humanizado (para mais sobre este tema, leia o artigo O parto, a mídia, as pessoas e o movimento, de Ellen Paes).

Há muito que se vislumbra um mundo em que as mulheres são incluídas na categoria de concidadãs dotadas dos mesmos direitos e deveres que todos. Para que isso ocorra é preciso destruir completamente a ideia de que as mulheres são instrumentos dos homens, objetos de prazer, úteros para fazer bebês e/ou servas domésticas.

Muitas vozes cristãs politicamente fortes têm dificultado o avanço dessa discussão e defendido a alienação da mulher em relação ao seu corpo, até mesmo nos casos em que a gravidez representa um grande risco para gestante e feto. Em casos de estupro, abortar significa, para esses cristãos, “um atentado à vida”, uma “afronta a Deus”. E, mesmo nos casos em que as duas coisas acontecem (o estupro e o risco), a excomunhão não está descartada.

O direito ao aborto é um tema que envolve não somente a garantia de um indivíduo resguardar seu corpo do resultado de uma violência explícita (o estupro), mas também de uma violência implícita. A estrutura das relações sociais de gênero ainda forçam muitas mulheres a ceder ao constrangimento imposto pelos parceiros, que querem seu sexo e anseiam por uma prole, obrigando-as a “emprestar” seus corpos, mesmo quando elas não o querem.

Descriminar o aborto é um meio de se reconhecer legalmente o direito inalienável de uma mulher sobre seu próprio destino, dar um passo na direção de um futuro em que cada um assumirá a responsabilidade sobre seu corpo e respeitará a liberdade dos outros de fazerem o mesmo.

Imagem

  • A Madona de Porto Lligat, por Salvador Dalí

Merida, seus pretendentes e o transgenerismo

Padrão

Depois de uma séria e enriquecedora contribuição de Nivea Melo, percebo que minha afirmação de que a protagonista de Valente é transexual pode ter sido mais o resultado da vontade de ver um conteúdo muito mais subversivo do que aquele que o filme realmente tem. Há uma mensagem subversiva sim, mas vai em outra direção.

De qualquer forma, essa discussão leva a pensar em várias outros elementos do filme que trazem muito mais questões à problemática do gênero e da identidade sexual, e isso envolve não só a princesa Merida, mas todos os outros personagens de destaque na trama.

Esclarecimentos conceituais

Antes de mais nada, quero deixar claro o uso de alguns conceitos neste texto.

Sexo e gênero

Fêmea-mulher-feminina e macho-homem-masculino, os dois modelos ideais de identidade sexual

“Homem” não equivale a “macho” assim como “mulher” não equivale a “fêmea”. Mulher e homem são identidades construídas e reconhecidas socialmente, representando o gênero da pessoa, enquanto fêmea e macho são dados biológicos, o sexo do indivíduo. No esquema ao lado, o sexo é representado pelo círculo central, enquanto a identidade de gênero é representada pelos símbolos de Vênus (mulher) e Marte (homem).

Via de regra, na maioria absoluta das sociedades humanas, existe uma identidade de gênero correspondente a cada um dos sexos, ou seja, dificilmente se encontra uma fêmea humana que não tenha sido ensinada a ser mulher ou um macho humano que não tenha sido criado para ser homem. As noções do que significa ser homem ou mulher e dos papéis socialmente atribuídos a cada gênero variam infinitamente ao redor do universo humano, e o que uma sociedade considera “coisa de homem” pode ser considerado “coisa de mulher” por outra cultura. Normalmente, as representações sociais não veem uma descontinuidade entre macho e homem nem entre fêmea e mulher, e os caracteres socialmente construídos são vistos como aspectos naturais de cada sexo-gênero.

Existem pessoas nascidas macho que assumem uma identidade de mulher, feminina; assim como existem crianças nascidas fêmeas que acabam se constituindo com uma identidade masculina, ou seja, de homen. Isso ocorre principalmente em pelo menos dois contextos:

  1. Algumas sociedades imputam a certos indivíduos nascidos em circunstâncias especiais a identidade do gênero “oposto”. Se forem do sexo masculino, recebem um nome feminino e são tratados como mulheres, e o contrário ocorre se forem do sexo feminino.
  2. Há casos em que existe uma identificação precoce do indivíduo pelo universo do outro sexo/gênero, e a criança acaba por assumir a identidade e os papéis do gênero oposto, não tendo necessariamente vontade de mudar de corpo, mas em alguns casos sim (transexualidade).

Seja em um ou outro caso, há uma força social que obriga os indivíduos a assumir impreterivelmente todos os aspectos relacionados a uma identidade/papel de gênero, raramente se admitindo uma mistura ou uma terceira alternativa.

Feminilidade e masculinidade

feminilidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata da mulher ideal. A masculinidade é o conjunto de disposições, atitudes, posturas, trejeitos, formas de falar, modos de vestir que caracterizam a ideia abstrata do homem ideal. Essas duas noções, na prática, classificam não somente os traços tangíveis e intangíveis da identidade sexual de um indivíduo, mas também abarcam as atividades desempenhadas socialmente, ou seja, seu papel de gênero. No esquema acima, a feminilidade e a masculinidade são representadas pelos círculos envolventes maiores.

Assim, se numa determinada sociedade o cabelo comprido é apanágio da mulher, ele é considerado um traço feminino e os homens dessa cultura que usam cabelos compridos têm, portanto, um traço de feminilidade, embora possam perfeitamente manter intocada sua identidade de gênero de homem. Uma mulher que usa calças numa sociedade que considera seu uso como adstrito aos homens, ou seja, que as considera uma indumentária masculina, tem um traço de masculinidade, mesmo que ela mantenha inexorável sua identidade de gênero de mulher.

Isso se aplica também a ocupações ou profissões. Antigamente, uma mulher que se ocupasse da Ciência poderia ser considerada “masculinizada”, pois essa era uma atividade tipicamente exercida por homens. Um homem que trabalhasse com enfermagem era tido como “feminilizado”, por ser essa profissão tradicionalmente ocupada por mulheres.

No processo evolutivo de uma sociedade, podem ocorrer mudanças nessas noções, e aquilo que era considerado “coisa de homem” passa a ser tido como uma característica unissex ou até ir para o lado oposto da dicotomia sexual, tornando-se tipicamente “coisa de mulher”. Assim, se uma cultura passa a considerar que cabelos compridos não são mais atributo exclusivo das mulheres, os homens de cabelos compridos não têm mais nesse traço uma característica feminina. Se as calças passarem a ser uma vestimenta universal, as mulheres que usam calças não serão mais masculinas do que as que usam saias.

Hoje em dia, no Ocidente, o salto alto é um acessório visto unanimamente como feminino. Porém, sua forma moderna teve sua gênese como peça do vestuário masculino, popularizada pelo famigerado Luís XV.

Transgenerismo e transexualidade

Um indivíduo que não se encaixe em nenhum dos dois modelos “macho-homem-masculino” e “fêmea-mulher-feminina” é chamado, em algumas abordagens da questão de gênero, de transgênero. O transgenerismo seria a inadequação, maior ou menor, de uma pessoa quanto às expectativas sociais sobre seu sexo biológico.

O termo transgênero muitas vezes é usado como sinônimo de transexual, tanto por estudiosos das questões de gênero quanto por militantes LGBT e até por psicólogos numa abordagem clínica. Porém, transexual parece ser um termo mais usado quando se refere à condição de uma pessoa que não se identifica com o sexo imposto a si pela natureza nem com o gênero imposto socialmente e procura se assumir e se transformar no outro sexo-gênero. Tendo em vista que os dois termos utilizam, respectivamente, os radicais que remetem a gênero e a sexo, assumo aqui que transgênero é uma condição mais geral, que pode abarcar desde um homem que gosta de colecionar bonecas Barbie, passando por uma mulher crossdresser de identidade andrógina até um travesti nascido homem que se assume mulher, se veste de mulher, modifica o corpo para parecer com o de uma mulher mas não quer fazer vaginoplastia, mantendo o pênis com o qual nasceu.

(A rigor, é difícil acreditar que haja algum indivíduo humano que não seja minimamente transgênero.)

Por outro lado, em consonância com o conceito mais aceito na psicologia em relação ao termo transexual (e especialmente à forma como foi abordado por Nivea Melo no texto Princesa, heroína e guerreira: Valente), considero que este significa o indivíduo que se entende como pertencente ao universo do sexo-gênero “oposto”, ou seja, pessoas nascidas machos que desejam ser fêmeas-mulheres-femininas e pessoas nascidas fêmeas que querem ser machos-homens-masculinos. A transexualidade poderia ser entendida como uma possibilidade extrema de transgenerismo.

Merida – yin e yang

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

Merida na visão do pai e na visão da mãe, respectivamente

A menina Merida, por circunstâncias especiais, acabou recebendo uma herança mista na constituição de sua identidade de gênero. O arco é um símbolo de masculinidade, a herança de seu pai Fergus, enquanto a visão mágica do mundo aparece como dom de sua mãe, que lhe ensina sobre os fogos-fátuos. A magia, como se vê num outro momento do filme, está mais ligada à feminilidade, especialmente representada pela figura de uma simpática bruxa.

Merida foge de quase todos os padrões e expectativas socialmente impostos ao seu sexo e gênero, e o principal fator para isso é seu pai, despreocupado de qualquer imposição de características femininas à personalidade da filha. Ele aceita numa boa as escolhas dela, e quase todas as suas opções fazem parte do universo masculino, das coisas que em sua cultura são consideradas “de homem” e não “de mulher”.

É importante nos determos sobre a influência do pai. Sendo este muito atencioso e próximo dos filhos, inclusive dos travessos trigêmeos mais novos, ele foi um modelo para sua primogênita, que para ele não importava ser menino ou menina nem se enquadrar totalmente naquilo que se espera de seu sexo e gênero. Essa influência não é simplesmente a filha imitar os aspectos masculinos do pai, mas é especialmente a visão menos tradicional que este possui sobre a identidade e os papéis de gênero, inclusive admitindo a mistura de aspectos masculinos com femininos (numa certa androginia).

(É possível que ele até se incomodasse se seu primogênito fosse um menino com traços de feminilidade, tendo em vista seu deboche ao filho de Macintosh, mas isso não se pode afirmar com certeza. Talvez ele tenha encontrado em Merida um “filho” com quem passar o tempo e a quem ensinar o que sabe, e ela certamente se sentiu muito mais à vontade para realizar seus desejos individuais, que em grande parte não condizem com o que sua sociedade espera de uma fêmea-mulher.)

Merida

Merida – yin e yang

A noção do que é feminino e masculino, embora seja construída socialmente, pode variar segundo o ponto de vista e os valores de cada indivíduo. No olhar da mãe Elinor, Merida está fazendo tudo errado, sendo uma fêmea-mulher-masculina, enquanto que para o pai Fergus ela está simplesmente sendo quem é, e aquilo que é considerado masculino em sua cultura não é visto por ele como tal. A seus olhos, sua filha é fêmea-mulher-feminina. No balanço dos olhares enviesados, podemos considerar que Merida é uma transgênera, pois, se pertence ao sexo feminino e tem identidade de mulher, ela possui um misto de feminilidade com masculinidade. Se, por um lado, ela usa arco e flecha, por outro, usa vestido; ela não age segundo a etiqueta do recato feminino, mas acredita em magia e nas lendas.

Embora Merida seja subversiva e, nos temos da antropóloga Margaret Mead (autora de Sexo e Temperamento), uma “inadaptada”, ela não foge à imposição cultural de uma identidade de gênero, que força cada indivíduo humano a se encaixar em apenas uma de duas opções: homem ou mulher. A identidade de gênero de Merida é mulher, e isso em nenhum momento é posto em dúvida ou problematizado. Porém, fugindo do ideal fêmea-mulher-feminina, ela pode ser considerada um exemplo explícito de transgenerismo, não chegando nem perto da condição transexual.

Os pretendentes

O jovem Macintosh na visão de seu pai e na visão de Fergus, respectivamente

A problemática do gênero é um tema recorrente em Valente, e não se resume apenas ao drama de Merida. Importa atentar para os três pretendentes da princesa, representantes de três tipos de masculinidade. O jovem MacGuffin, o jovem Macintosh e o jovem Dingwall, primogênitos dos chefes de seus respectivos clãs, apresentam diferenças explícitas quanto à aparência física, os atributos e as atitudes. No entanto, os três são apresentados como modelos de masculinidade.

No artigo intitulado “Rúgbi e Judô: Esporte e Masculinidade”, presente no livro Masculino, Feminino, Plural: Gênero na Interdisciplinaridade (organizado por Joana Maria Pedro e Miriam Pillar Grossi) a antropóloga Carmen Silvia Rial apresenta, num estudo sobre a trajetória no esporte de dois jovens brasileiros, a constituição de dois ideais diferentes de masculinidade, um representado pela disciplina física e mental de uma arte marcial japonesa (o judô) e outro pelo cultivo de um corpo preparado para os violentos choques de um esporte inglês (o rúgbi). Rial mostra que a noção de uma identidade masculina (o que, por extensão, pode se aplicar à identidade feminina) não é unânime nem mesmo dentro de uma mesma cultura.

No contexto geral dessa sociedade policlânica, os guerreiros que disputam no torneio de arco-e-flecha são considerados perfeitos machos-homens-masculinos. Porém, embora o plano de Merida seja desbancá-los simplesmente derrotando-os com sua exímia habilidade de arqueira, para os pais e mães que acompanham os jogos a questão é: quem dos pretendentes é o mais “homem”?

Entre os diversos clãs, cada um entende a masculinidade de uma forma ligeiramente diferente. Os chefes dos clãs Macintosh, MacGuffin e Dingwall consideram seus respectivos filhos como perfeitos exemplos de machos-homens-masculinos. Entretanto, se prestarmos atenção ao que Fergus sussurra a sua filha sobre o jovem Macintosh, vemos que o índice de masculinidade deste é posto em dúvida. Podemos extrapolar e considerar que cada um dos chefes considera os primogênitos dos outros clãs menos masculinos do que os seus próprios.

Dentro do grupo étnico que envolve os três clãs, há algumas unanimidades quanto ao que é masculinidade, mas cada clã tem ideais específicos que variam esse modelo sutilmente.

Cabeleiras escocesas

Um detalhe interessante para se explorar essa problemática são os cabelos dos personagens e o que eles significam em termos de identidade de gênero, masculinidade e feminilidade. No universo de Valente, percebemos que os cabelos não são arranjados de forma aleatória, segundo algum gosto pessoal dos personagens. Há uma diferença entre o recato da mãe de Merida, a rainha Elinor, que sempre usa seus longos cabelos presos, e sua filha Merida, que rompe com essa regra e, embora não corte suas mechas ruivas, deixa-as soltas, contrariando o decoro que se espera de uma dama.

Não existe, no universo do filme, uma unanimidade em relação ao significado dos cabelos quanto à identidade de gênero. Cada clã (cada cultura, cada etnia) tem uma noção própria daquilo que é a indumentária e a cosmética adequadas aos homens e aquela adequada às mulheres. Em comunidades tradicionais, existe pouca opção de variação, e quase sempre todos os detalhes estéticos têm um significado relacionado ao gênero.

Não é à toa que os penteados dos homens de cada clã é o mesmo. Dingwall e seu filho têm os mesmos cabelos curtos e arrepiados. Macintosh e seu primogênito ostentam mechas longas e soltas. MacGuffin sênior e júnior usam cabelos presos. As roupas também são as mesmas, bem como o porte físico (que não é apenas uma questão de hereditariedade genética, mas da valorização de um tipo ideal, capaz de realizar as atividades “dignas de um homem”).

No decorrer da história, vemos que essas diferenças são aos poucos suplantadas em situações críticas, especialmente o “debate” e, depois, a luta contra o urso Mor’du. No primeiro momento, em que os clãs quase chegam a declarar guerra, todos os homens se encontram frente a frente como homens-masculinos, desaparecendo as diferenças próprias a cada grupo. Quando Merida intervém no debate, ocorre uma crise ainda maior, pois a moça se coloca de igual para igual com os homens, e a noção daquilo que diferencia homens e mulheres sofre uma mudança. O estilo “masculino” de Merida ao impor sua presença passa a ser visto como um aspecto neutro, nem masculino nem feminino.

Na luta contra Mor’du, da qual Merida e a própria Elinor participam, essa quebra de paradigma se acentua, pois sem a participação das mulheres como guerreiras nesse conflito não teria havido vitória contra a fera, e a própria arte da luta passa a ser admitida como uma atividade unissex.

Por outro lado e complementarmente, as diferenças entre os diversos modelos de masculinidade passam a ser entendidos mais como idiossincrasias e particularidades pessoais do que como moldes no quais se encaixar os indivíduos. O rompimento com a tradição do casamento arranjado traz consigo um rompimento com a obrigação de os homens se provarem enquanto tais, seguindo carreiras diferentes daquelas esperadas por seus pais. O jovem Dingwall, por exemplo, talvez quisesse ser músico, tendo em vista que ele prefere usar o arco para tirar notas de suas cordas e não tem o menor jeito para atirar flechas.

Pós-generismo

Valente é uma ótima alegoria para se discutir o relativismo das identidades de sexo e de gênero. Aquilo que entendemos como identidades masculina e feminina não estão dados pela natureza, e essas noções estão sempre variando no tempo, no espaço e no contexto.

Merida antes e depois

A história de Merida e seu drama familiar pode ser lida como uma alegoria das revoluções sociais. A princesa guerreira promove uma situação de crise em sua sociedade e nos valores de sua cultura. Ela não apenas apresenta uma alternativa para a tradição que obriga jovens a se casar contra seu desejo pessoal. Ela também explicita a violência da imposição de identidades/papéis de gênero. No final, ela consegue fazer sua sociedade mudar a ideia do que é feminino e masculino, e Merida, que podia ser entendida como sendo híbrida, passa a ser aceita como uma possibilidade de fêmea-mulher-feminina. Até sua mão, outrora ferrenha defensora dos papéis tradicionais de gênero, passa a realizar atividades que provavelmente sempre teve vontade de fazer, como cavalgar livremente pelos campos. A sociedade humana evolui.

Entretanto, se as mudanças que vemos ocorrer nesse processo evolutivo mostram, por um lado, a capacidade das instituições humanas de se reinventarem, elas mostram, em contrapartida, os mecanismos pelos quais as novas configurações se adequam às mesmas estruturas antigas. Ou seja, ao invés de se passar a considerar Merida como um novo tipo de identidade/papel de gênero, ela continua a ser entendida como pertencente ao lugar supostamente reservado às fêmeas humanas. Ao invés de se admitir uma androginia de sua personalidade, a cultura cria uma nova feminilidade socialmente aceita.

(É o que acontece com qualquer tipo de acessório tradicionalmente masculino que passa a ser usado por mulheres, ou acessórios femininos que passam a ser usados por homens. As roupas que passam a ser unissex, como as calças, sofrem modificações para se adequar ao corpo das mulheres e para não parecerem “masculinas”. As bolsas, tidas como objeto exclusivo das mulheres, são modificadas para não deixar os homens “feminilizados”. Perpetua-se assim a cisão entre os dois universos, e qualquer pessoa que não adote a variação socialmente aceita de um objeto para o seu sexo-gênero entra no mundo do transgenerismo e causa estranheza.)

Assim, Merida não é uma transexual, pois ela não sofre agonia por pertencer ao sexo feminino e ter a identidade de mulher. Porém, ela é num primeiro momento uma transgênera, e suas atitudes, bem como os eventos decorrentes de sua história, fazem vislumbrar uma nova sociedade, em que as imposições ligadas ao sexo e ao gênero são mais frouxas e talvez venha, num futuro mais distante, dissolver a dicotomia e possibilitar o aparecimento de identidades totalmente inesperadas e inauditas. A visibilidade do transgenerismo, cada vez maior, pode nos levar aos poucos a um pós-generismo, em que não haja mais a imposição de identidades e papéis de gênero, tolhedoras das individualidades.

Links

Palavras incestuosas

Padrão

Inês me contou que, quando fez o curso Teoria e Prática da Autopesquisa, uma professora pareceu constrangida ao abordar o tema sexo na frente do filho, que também era aluno no curso. A voz da professora, segundo a narradora da história, quase não saiu, e ela se apressou a pular para o próximo tópico. É tão forte o tabu do sexo nas relações familiares, em muito especial na relação entre pais/mães e filhas/filhos, que provoca situações de enorme constrangimento não só para os protagonistas de um determinado incidente, mas para quem o presencia.

Minha monografia de graduação, por exemplo, que defendi em 2004, disserta sobre a derivação psíquica comum de dois tipos de desejos que em nossa cultura são antagônicos: o desejo sexual de um homem por uma mulher e o amor do filho pela mãe. Minha mãe assistiu à minha defesa, e da minha parte não houve qualquer constrangimento para tratar desse assunto na frente dela, que se sentou na primeira fileira de carteiras da sala, bem diante de mim, que fiquei em pé ao apresentar meu trabalho.

Continue lendo

A cor do brinquedo

Padrão

A pequena Riley fez um sucesso instantâneo na internet ao demonstrar sua indignação para com o marketing, que manipula os desejos infantis por brinquedos de acordo com o sexo das crianças. Meninas devem querer princesas e brinquedos cor-de-rosa. Meninos devem desejar super-heróis de qualquer outra cor. Afinal, afirma ela, há meninos que querem princesas cor-de-rosa e há meninas que querem super-heróis de outras cores.

Há não muito tempo presenciei uma cena que se repete o tempo todo em nossa sociedade. O pai pede ao garoto que escolha qual a cor do brinquedo ele quer levar; o menino escolhe rosa; o pai responde enfático: “Rosa não, você é doido?! Você é homem! Escolha outra cor.” Há um desejo legítimo da parte de algumas pessoas por objetos que são socialmente proibidos ao seu gênero. Esse desejo é tolhido e moldado para se enquadrar num modelo de masculinidade ou feminilidade.

Continue lendo

O corpo afrodisíaco

Padrão

“E ainda tem gente que não gosta, não é, rapaz?”, disse um homem ao seu companheiro de mesa no restaurante, referindo-se a duas mulheres bonitas sentadas à mesa em frente. É claro que, com a crescente visibilidade da busca por direitos iguais pelos LGBTs, torna-se muito comum as pessoas tocarem no assunto, muitas vezes para demonstrar seu conservadorismo e sua reprovação, especialmente dirigida aos homossexuais do sexo masculino.

Eis algumas perguntas não muito óbvias para questionar essas manifestações: Por que um homem precisa proclamar de forma irônica seu desprezo pelo desejo homossexual, sugerindo através dessa mesma ironia que sua orientação é heterossexual? Por que esse tipo de afirmação costuma ser restrito às conversas entre homens? Por que existe alguma coisa errada em qualquer pessoa que não se excite com a visão de um corpo feminino?

Continue lendo

Objeto Neuronial 002

Padrão

Resolvemos experimentar uma periodicidade semanal para as tirinhas Objeto Neuronial, colocando-as no ar aos domingos (certo, certo, estou publicando na segunda-feira, mas vou tentar ser mais pontual).

Apresentamos a personagem Leda, nome que significa alegre e tem o mesmo radical de ledice, derivado do latim Laetitia, que em português se lê Letícia e era o nome de uma deusa romana que personificava a alegria. A história é baseada em fatos reais e você pode vê-la também no blog Objeto Obscuro.

Leda

De neurônios, sexo e sexualidade

Padrão

Recentemente, o professor Alípio de Sousa Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, editor da revista Bagoas, publicou um artigo intitulado “Cérebros (homos)sexuais: as ressonâncias do preconceito”, no CMI Brasil e no blog Mulheres de Olho. No texto, o sociólogo comenta a conclusão de uma pesquisa neurológica feita por Ivanka Savic e Per Lindström, em Estocolmo, sobre os cérebros de homossexuais. Segundo a pesquisa, os cérebros dos gays funcionam como os cérebros das mulheres heterossexuais, e os cérebros das lésbicas como os cérebros dos homens heterossexuais, o que, de acordo com os cientistas, indicaria uma predisposição neurobiológica ao comportamento homossexual.

Alípio (chamo-o pelo primeiro nome pela intimidade; ele foi meu professor na universidade) critica duramente a conclusão de Savic e Lindström, dizendo que ela ressoa uma necessidade da sociedade ocidental de explicar a origem da homossexualidade, tida como anormal, e não se detém na explicação da heterossexualidade, tida como óbvia normalidade. Esse tipo de pesquisa é comemorado por militantes GLBTT, que acreditam que traz a possibilidade de ser melhor aceitos pela humanidade homófoba. Para Alípio, entretanto, essa pesquisa não deveria ser motivo de comemoração, pois ela reflete a incapacidade de nossa sociedade de aceitar que a homosexualidade pode ser uma opção. Essa sociedade se dá melhor com a idéia de que a orientação sexual é algo inevitável, uma determinação a que os homossexuais, “coitados”, não podem escapar. Vale a pena ler o texto na íntegra.

Em ambos os websites em que foi publicado, o artigo de Alípio suscitou comentários desfavoráveis, tanto de fanáticos religiosos e homófobos assumidos quanto de militantes homossexuais e de feministas. Concordo com alguns argumentos de Alípio, principalmente no que se refere ao tipo de acolhimento de nossa sociedade aos homossexuais, vistos como anormais, pecadores, portadores de uma doença (às vezes quase) irremediável. Também concordo que é preciso levar em consideração, numa pesquisa neurológica, que o funcionamento do cérebro pode ser o resultado e não a causa de um comportamento.

No entanto, a questão não é resolvida de forma tão simples como ele propõe (para Alípio, todo comportamento humano prescinde de explicação biológica). A meu ver, concordo que fatores sociológicos são tão importantes ou mais do que os biológicos para constituir o comportamento humano. Mas não há evidências científicas suficientes para assegurar que são os únicos fatores. Concordo com ele que cada indivíduo possui uma trajetória de vida composta de uma miríade de ocorrências condicionantes de seu temperamento. Mas talvez a a biologia tenha algum papel nisso tudo. E se tiver, não penso que seja o mais determinante, nem acho que seja em si motivo para pensar nas pessoas como condenadas pela biologia.

Hermafrodito reclinado

Hermafrodito Reclinado, escultura romana do século I e.c.

De qualquer forma, para além dos comentários sobre o artigo supracitado, penso que uma pesquisa neurobiológica como a de Savic e Lindström deixou de levar em conta um complexo conjunto de outros elementos relevantes e importantes na questão da sexualidade. Um deles é a bissexualidade. Como funciona o cérebro de um bissexual? Como funciona o cérebro de um zoófilo? E como, por todas as estrelas que brilham no céu terráqueo, como funciona o cérebro de um pansexual?

Brokeback MountainÉ muito importante que tenhamos em mente que o gênero masculino de uma pessoa não necessariamente corresponde ao desejo sexual por mulheres. Se um homem homossexual tivesse alguma diferença, em relação a um homem heterossexual, em termos de gênero, ele não seria chamado de homossexual, pois ele não seria homem. É justamente pelo fato de ser homem que seu desejo por outro homem é homossexual (homo, em grego, quer dizer “igual”). Um homem que gosta de outros homens não tem necessariamente vontade de pertencer ao sexo feminino. Uma lésbica não é necessariamente um homem em corpo de mulher.

Já vi, na televisão, um homem, casado com um travesti, que queria que sua companheira fizesse uma cirurgia para trocar de sexo. Onde se encaixam esses indivíduos na classificação do comportamento sexual? Qual é a preferência do primeiro, casado com uma pessoa que tem corpo masculino? Será que ele gostou da pessoa que conheceu, mas ficou insatisfeito por não ter um corpo de mulher?

Outro caso interessante, também visto na televisão, que só conhecia em teoria, foi o de uma pessoa, nascida com o sexo masculino, que tinha o desejo de mudar, de se tornar uma mulher. Já assumira uma identidade feminina, trocando o nome de batismo e passando a se vestir com roupas de mulher. Mas ela não tinha desejos sexuais por homens. De fato, namorava uma moça de sua idade. Como funciona os cérebros dessas pessoas?

Gostaria de saber o nome do filme do qual, certa vez, vi trechos, em que uma garota dizia algo assim:

Não é que eu goste de mulheres. Eu me apaixono por pessoas. O fato de as pessoas por quem eu me apaixonei serem mulhere é coincidência.