Sexualidade alienígena – parte 1

Padrão

O ser humano tende a antropomorfizar a natureza, ou seja, representar a realidade ao seu redor segundo parâmetros construídos a partir de sua própria experiência. Um dos exemplos mais marcantes em nossa cultura e idioma é a classificação de coisas inanimadas em gêneros masculino e feminino e a representação dessas coisas segundo o que se entende como características masculinas e femininas.

Extrapolando tudo isso, é comum imaginarmos, em histórias de ficção científica, que as espécies alienígenas que porventura possamos encontrar universo afora tenham características muito parecidas com as humanas, como a divisão em dois sexos/gêneros e a procriação sexuada. Até mesmo a existência de algo que possamos identificar como sexualidade é resultado do antropomorfismo.

Mas sabemos quase nada sobre a fisiologia de espécies extraterrestres e só podemos especular, segundo alguns exobiólogos, imaginando que, se uma determinada forma de funcionar deu certo para nós, deve ter se desenvolvido também em outros lugares do Cosmos.

Porém, é provável que a variedade das formas de vida no universo seja muito maior do que tendemos a imaginar, e a forma humanoide dimórfica pode não ser o modelo mais comum. Mas a grande maioria dos alienígenas inteligentes da ficção científica é humanoide e dimórfica, o que pode se dar pelos seguintes motivos:

  • os limites da imaginação humana;
  • o antropomorfismo nas representações do Cosmos;
  • o fato de, no cinema e na televisão, ser mais fácil fantasiar atores humanos para interpretar personagens alienígenas e
  • o fato de muitas histórias com extraterrestres serem alegorias dos problemas enfrentados nas relações entre seres humanos, sendo as espécies alienígenas representações da diversidade humana.

O dimorfismo sexual de espécies humanoides na ficção científica não se resume apenas a uma funcionalidade procriativa, mas envolve o estabelecimento de uniões e alianças entre os indivíduos, diversas formas de afetividade e regras tácitas de como machos e fêmeas se comportam no sexo. Tudo isso pode ser justificado por uma necessidade evolutiva, pois podemos presumir que uma espécie inteligente tenha seguido um caminho parecido ao dos humanos, ou seja:

  • tenha substituído a natureza pela cultura como principal institucionalizador de comportamentos, o que permitiria a complexificação do pensamento, e
  • tenha desenvolvido a necessidade do social (o que inclui a sexualidade, entendida não só como o sexo que pode servir para a procriação, mas como o conjunto das formas de se trocar afeto e prazer) para a manutenção dos costumes, linguagem e saberes sem os quais o espécime não se completa como membro de seu grupo.

Mesmo assim, toda a sexualidade alienígena é imaginada com base nas práticas humanas. Vejamos a descrição de algumas das espécies alienígenas da ficção científica televisiva e cinematográfica que reproduzem o modelo humanoide dimórfico, juntamente com algumas reflexões sobre a influência do antropomorfismo em sua concepção e até onde os autores conseguem chegar na extrapolação da realidade que conhecemos mais de perto.

Vulcanos

Spock e T'Pring

Spock e T’Pring no ritual vulcano do pon farr

Os vulcanos são uma das raças mais notáveis no universo de Jornada nas Estrelas, sendo uma das mais presentes ao longo das cinco séries da franquia. São fisicamente muito aprecidos com os humanos, sendo as únicas diferenças perceptíveis a olho nu as orelhas pontiagudas, as sobrancelhas arqueadas e uma quase imperceptível tonalidade verde na pele. As outras poucas características morfológicas diferentes das humanas incluem o coração localizado na altura do plexo solar e hemoglobina baseada em cobalto ao invés de ferro (o que dá a cor verde ao seu sangue).

Psico-biologicamente, eles são muito parecidos com os seres humanos, porém são mais propensos, geneticamente, a emoções fortes. Sócio-culturalmente, são criados segundo os rígidos ditames de uma ética baseada na Lógica, o que dá a aparência de que não têm emoções, mas a verdade é que estas ficam reprimidas.

Tanto que, quando completam um ciclo de 7 anos, são arrebatados por uma condição fisiológica chamada pon farr, na qual têm a premente necessidade de voltar ao planeta-natal (Vulcano) e se unir ao parceiro ou pretendente. Nisso, precisam se entregar a um elaborado ritual em que se determina a união ou rejeição dos parceiros. O ritual pode envolver até mesmo um combate, que a mulher pode determinar como condição para a consecução do acasalamento.

Embora se diferenciem significativamente dos humanos em alguns aspectos, como o fato de costumarem fazer sexo a cada 7 anos (diferentemente dos humanos, que não têm cio e podem copular em quaisquer dias do ano), a sexualidade vulcana ainda é, no quadro geral, inspirada na humana.

Klingons

Worf e Jadzia

Worf, um klingon, flerta furiosamente com Jadzia, uma trill que sabe como se comportar como uma klingon

Os klingons surgem na série de Jornada nas Estrelas como uma raça praticamente igual à humana, tanto que no episódio Problemas aos Pingos (The Trouble with Tribbles, 15º episódio da 2ª temporada da Série Clássica) um klingon se passa facilmente por humano, só tendo sua identidade descoberta com a ajuda de um tricorder médico.

As maiores diferenças culturais e biológicas entre klingons e humanos só foram melhor exploradas a partir de A Nova Geração, em que desobrimos que os klingons costumam grunhir e morder em suas relações sexuais, sendo escoriações e hematomas os sinais de que um indivíduo praticou sexo recentemente.

Fora isso, não parece haver diferenças fundamentais entre a sexualidade klingon e a humana, pois da possibilidade de intercruzamento se infere que os órgãos sexuais e a cópula são no mínimo semelhantes. Porém, há pequenas peculiaridades na escolha dos parceiros, na corte e no ato sexual. A atração e o amor, em muitos indivíduos dessa espécie, é atiçada pela força, altivez e coragem do pretendente. Os flertes às vezes incluem trocas de grunhidos, e o ato sexual em si parece se misturar com elementos de uma renhida luta.

A diferença entre a sexualidade humana e a klingon, portanto, parece ser mais o resultado de uma diferença cultural, visto que é verossímil que uma sociedade humana desenvolva os mesmos valores e práticas dessa raça de honrados guerreiros. No entanto, os klingons são representados como naturalmente mais fortes e resistentes fisicamente do que os humanos, o que levou Worf, em certa ocasião, a recusar a troca de afetos com uma humana. “Preciso me conter demais. As mulheres humanas são muito frágeis.”

O problema da fertilidade inter-espécies

Mas é notável a presença de um elemento extremamente improvável no quadro geral das espécies alienígenas no universo de Jornada nas Estrelas, que é o fato de praticamente todas as raças serem férteis entre si. O próprio Spock, vulcano mais notável da franquia, é na verdade um meio-vulcano/meio-humano, pois tem pai vulcano e mãe humana.

A própria possibilidade de indivíduos de espécies diferentes formarem casais é um pouco inverossímil (embora não impossível, tendo em vista que os sentimentos comuns podem, em teoria, transcender as formas físicas). Porém, essa possibilidade só se realizaria com a compatibilidade das formas de se trocar afeto e formar uniões. Na ficção científica, é muito comum que os alienígenas sejam, além de sexualmente dimórficos, monogâmicos e quase estritamente heterossexuais (o que, além de representar um antropomorfismo, representa um etnocentrismo de viés euro-ocidental – veja o ensaio Homossexualidade em Star Trek). De fato, aparecem ao longo das séries da franquia muios casais inter-espécies:

  • Sarek (vulcano) e Amanda (humana),
  • Comandante Riker (humano) e Deanna Troi (meio-betazoide),
  • Rom (ferengi) e Leeta (bajoriana),
  • Quark (ferengi) e Grilka (klingon)
  • Jadzia Dax (trill) e Worf (klingon),
  • Odo (transmorfo) e Kira (bajoriana),
  • Ezri Dax (trill) e Dr. Bashir (humano),
  • Neelix (talaxiano) e Kes (ocampa), entre outros.

A necessidade de se criar pretextos para roteiros interessantes permeia as histórias de ficção científica. Em Jornada nas Estrelas, não só os vulcanos e os humanos podem procriar entre si (como no caso dos pais de Spock). Já apareceram híbridos de

  • humano e betazoide (Deanna Troi),
  • humano e klingon (K’ehleyr e B’elanna),
  • humano e romulano (Sela),
  • klingon e romulano (Ba’el) e
  • cardassiano e bajoriano (Ziyal), entre outros.

Essa possibilidade de interfecundidade só é relevante para a criação de enredos pertinentes à reflexão sobre a relação entre os povos (humanos), os problemas advindos do contato intercultural, os conflitos de identidade e situações diplomáticas.

Porém, biologicamente, é improvável que espécies desenvolvidas em dois planetas diferentes e com histórias evolutivas tão díspares possam se unir sexualmente (como é tão comum em todas as histórias de Jornada nas Estrelas). Muito mais improvável, portanto, é que essas uniões possam produzir frutos férteis.

No universo de Babylon 5, série que tem Jornada nas Estrelas como uma de suas principais fontes de inspiração, a situação é um pouco mais verossímil, como veremos no exemplo em seguida.

Centauri

Adira e Londo

Adira Tyree e Londo Mollari, dois centauri

Os centauri são externamente a espécie mais parecida com os humanos na série Babylon 5, ao menos quando estão vestidos. Seus órgãos sexuais são um pouco diferentes dos humanos: os homens têm seis tentáculos em suas costas, três em cada lado, e as fêmeas possuem seis orifícios distribuídos da mesma forma. A cópula acontece numa gradação, começando com a penetração de um dos tentáculos, que provoca prazer em menor intensidade, e este vai aumentando de acordo com a introdução dos tentáculos seguintes, cada um mais intenso do que o anterior.

Um diferencial de Babylon 5 em relação a Jornada nas Estrelas é que o intercruzamento não acontece tão facilmente. Os centauri e os humanos, por exemplo, não têm como cruzar entre si e tampouco produzir filhos (tanto por causa da morfologia como pela incompatibilidade de DNA). O que se vê na série, no máximo, são homens centauri (e de outras raças) apreciando a beleza das fêmeas de outras espécies, inclusive das humanas. O único casamento fértil inter-espécies que se vê na série se dá entre um humano e uma minbari, que teve o próprio DNA misturado com o DNA humano.

Entretanto, por mais diferente que pareça, a sexualidade centauri tem dois resquícios da sexualidade humana. O primeiro é o próprio fato de a espécie ser dividida em dois sexos, com praticamente as mesmas características de seus equivalentes humanos. O segundo é a forma pela qual se dá a cópula, ou seja, a penetração de uma protuberância do macho num orifício da fêmea.

Entre os alienígenas na’vi, do filme Avatar, isso muda um pouco mais significativamente.

Na’vi

Jake e Neytiri

Jake e Neytiri, um meio-na’vi e uma na’vi

Os na’vi são humanoides com diversas características parecidas com os humanos. Têm cabeça, tronco, braços e pernas, rosto com olhos, nariz, boca, cabeça com orelhas e cabelos. Têm algumas diferenças, como cauda, pescoço comprido, orelhas longas, pele azul e olhos amarelos, além de medirem cerca de 3 metros de altura. Seus traços lembram os felinos, como se eles tivessem evoluído a partir de gatos e não de símios.

Eles são tão parecidos com os seres humanos que era de se esperar que seus órgãos reprodutivos fossem praticamente iguais aos do Homo sapiens. Porém, eles fazem sexo através de conexões presentes em filamentos que ficam em meio aos seus cabelos. Não fica claro, no filme, se essa mesma conexão é responsável pela fecundação e reprodução da espécie, mas isso fica subentendido de nossa própria autorrepresentação humana.

Um detalhe curioso e um pouco bizarro é que a conexão usada para a cópula é também usada para se domar animais de montaria, como cavalos e pássaros. Para um olhar humano, é como se eles tivessem institucionalizado o bestialismo como prática aceitável e corriqueira. Isso poderia significar também que o amor, para essa espécie, é um conceito muito mais amplo do que aquele que temos. Ou eles podem sentir algo diferente dependendo de a quem eles se conectam, assim como o afeto trocado com um parente próximo (geralmente) não nos deixa sexualmente excitados, enquanto o mesmo contato físico com um parceiro afetivo-sexual traz essa excitação em menor ou maior grau.

Mas o que é mais problemático nessa espécie fictícia é que eles são criados propositalmente com uma aparência bela, explorando e extrapolando a estética dos modelos de beleza ocidentais e hollywoodianos (altura e magreza), misturada a um exotismo alienígena. É fácil para muita gente se afeiçoar pelos na’vi (muitos até gostariam de pertencer a essa espécie). Aliado a isso, por mais diferentes que eles sejam dos humanos, são quase iguais no comportamento, na forma de expressar emoções e, mais pertinente para este ensaio, na forma de trocar afeto, com carícias, beijos e abraços, de modo que não foi nada difícil para Jake Sully (humano travestido de na’vi) entender como proceder nas preliminares com Neytiri.

[Continua na próxima semana]

Imagens

O paciente

Padrão

Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, o tempo se torna um elemento de preocupação intermitente, como o é o próprio tempo. Ora, todo processo  de cura leva tempo para se concretizar, e a medicina, mais do que a simples aplicação do remédio, é muitas vezes o acompanhamento técnico desse processo de cura, que se dá quase naturalmente, como resposta a algum estímulo químico ou outras terapias adequadas a cada caso.

Numa cena do filme O Outro Lado da Nobreza (Restoration, 1995), o médico Merivel, instado pelo rei a curar a doença de sua cachorrinha, tem a intuição de que a natureza e o tempo deveriam ali fazer seu papel; ele apenas observaria e acompanharia o processo de cura, o que afinal se concretizou e o levou a ser eleito médico real.

 

Para nossas existências humanas, o tempo representa um fator elementar, e a passagem do tempo, sendo um processo natural e, de certa forma, afetando de maneira igualitária toda a matéria existente, (dentro, é claro, das mesmas condições físicas), não é experimentada da mesma forma pelas diferentes mentes que sofrem com ela, sendo, portanto, para nós um fenômeno subjetivo.

O substantivo paciência (do latim patientia, “capacidade de suportar, de resistir”) serve para designar a condição de quem lida mais ou menos bem com a passagem do tempo. O indivíduo paciente é aquele que se deixa abalar o menos possivelmente pela passagem do tempo. Nas circunstâncias em que se encontra uma pessoa sujeita a tratamento médico-hospitalar, usa-se o substantivo paciente, que não por acaso é homônimo e cognato daquele sujeito que suporta a passagem do tempo.

Na cena do filme supracitado, a paciente teve que ser paciente (assim como o médico), suportando as dores até que seu corpo sanasse a si mesmo. E muitas vezes o paciente num hospital precisa exercitar sua paciência, tanto porque se encontra em situação atípica (tendemos a perceber a passagem do tempo mais lenta em situações com que não estamos acostumados) quanto porque fica privado de várias de suas atividades corriqueiras (o que dá a impressão de que o tempo foi “esvaziado”).

Para quem é forçado a se internar na UTI (unidade de tratamento intensivo), há mais razões para que o tempo lhe corra lentamente: a necessidade de se manter por bastante tempo (“bastante tempo” sendo também, ora, uma quantidade subjetiva) numa só posição (deitada ou semideitada), com os movimentos do corpo limitados temporariamente, aliada à dificuldade de os enfermeiros atenderem prontamente aos desconfortos dos vários pacientes (fazendo-os esperar um tempo imprevisível até serem atendidos) e a ausência prolongada de pessoas do convívio cotidiano, que têm um intervalo de tempo muito limitado para efetuar visitas.

A situação é tão reconhecidamente desconfortável que próximo a cada leito da UTI há um televisor, cujo uso, um enfermeiro certa vez me aconselhou, faz “o tempo passar mais rápido”. Mas para que alguém quereria que o tempo passasse mais rápido? Em situações cotidianas e ordinárias, a maioria das pessoas gostaria que o tempo passasse mais lentamente e desejariam ter mais tempo com que se ocupar com atividades mais satisfatórias. Quando estamos na UTI (unidade de tempo infinito) há tempo de sobra com que ocupar a mente, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue conceber esse aproveitamento se não for de uma maneira convencional de “passatempo”, ou seja, ouvindo música, vendo TV ou dormindo (o que, para muita gente, é uma técnica para “apagar” certos intervalos de tempo em que seria preciso esperar).

Albert Einstein

Einstein demonstra que a língua é mais rápida que a luz do flash da câmera

Mas lembremo-nos da Teoria da Relatividade de Einstein e suas aplicações quando o assunto é velocidade x tempo. Uma pessoa que viajasse à velocidade da luz durante 50 anos não sofreria nenhum envelhecimento significativo, o tempo não haveria passado para ela quando a viagem chegasse ao fim, mas as pessoas ao seu redor envelhecerão 50 anos e algumas morrerão. Quando estamos ocupados, o tempo parece passar mais rápido, e mais rápido ainda quando estamos ocupados com algo prazeroso, mas o tempo se arrasta quando estamos ociosos e nos oprime com sua lentidão quando estamos fazendo algo que nos desagrada profundamente.

A primeira noite que passei na UTI (unidade de tortura infernal) depois de uma cirurgia cardíaca foi sentida por mim como uma das mais longas de minha vida. A sensação de passagem do tempo estava alterada em relação à sensação que normalmente experimento, e quando eu achava que haviam passado duas horas, em meio a cochilos e despertares de duração incertíssima, o relógio da enfermeira revelava a passagem de uns 30 minutos. A janela aberta mostrava que o Sol parecia não querer acordar o céu.

Entretanto, o tempo dilatado nesta situação é, à primeira vista, difícil de ser aproveitado com algo menos banal do que a TV (é difícil ficar ouvindo música, pois às vezes as inesperadas interrupções dos enfermeiros e a manipulação do mp3-player – ou equivalente – é complicada pela limitação física; além disso, é difícil dormir devido aos desconfortos). A mente ficará divagando, tal como a avezinha no poema O Devanear de um Cético, de Bernardo Guimarães, sem um caderno para registrar os pensamentos e ajudar a elaborá-los e desenvolvê-los. Se o pa-ciente já estiver ciente do que o espera depois da cirurgia, pode pedir que alguém providencie antecipadamente um gravador a ficar-lhe disponível (se a dificuldade de manipulá-lo não for grande demais).

Civilizações Extraterrenas, de Isaac AsimovNa situação em que escrevo este ensaio (estou pela terceira vez na UTI do mesmo hospital depois da cirurgia), as circunstâncias físicas são mais favoráveis, as limitações corporais são menores e as possibilidades de “passatempo” são mais variadas. Pude facilmente dedicar um bom tempo à escrita num caderno (a falta de um computador se fez sentida, é realmente uma ferramenta muito prática – há quem diga que o PC dificulta a escrita, pois a possibilidade de apagar qualquer resultado momentaneamente insatisfatório supostamente paralisa o escritor, e prefira uma máquina de escrever, na qual o texto vai sendo escrito até o fim e as correções e ajustes são deixadas para depois; discordo disso e não tenho essa dificuldade diante de um teclado e um monitor, tudo depende da desenvoltura desenvolvida pelo escritor), a facilidade de relaxar o corpo me permitiu um bom tempo de expansão da consciência e ainda me foi possível desfrutar a leitura de um bom livro, Civilizações Extraterrenas, de Isaac Asimov, no qual até encontrei uma citação adequada a este texto:

é mais fácil imaginar uma vitória sobre a morte do que uma vitória sobre o tédio.

Asimov afirmou isso num contexto em que discute a possibilidade (improvável) de alcançarmos a imortalidade física enquanto exploramos o espaço em busca de outro sistema planetário, viajando em naves espaciais que não possuem distrações suficientes para”preencher” o tempo dos exploradores. Mas o tédio pode, em algumas circunstâncias, ser até fonte de inspiração para a mente, como o demonstrou Charles Baudelaire num conjunto de poemas denominado Spleen (poemas LXXVIII a LXXXI de As Flores do Mal). O que pode demonstrar que alguma virtude mental permite à pessoa em condição de tédio (predisponente à impaciência) passar bem o tempo.

No filme Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, 2000), cada vez que o personagem do título é privado em sua cela de seus pertences (até ficar plenamente nu), ele encontra alguma forma de escrever e dar vazão à sua imaginação pornográfica, seja rabiscando com sangue suas roupas, seja sussurrando o texto para seus vizinhos de cela, através de pequenas frestas, para que, num telefone-sem-fio, alguém o registre em algum lugar.

Contos Proibidos do Marquês de Sade

O marquês de Sade escreveu em suas próprias roupas, usando sangue como tinta

Em várias partes da Terra, desenvolveram-se técnicas capazes de pacificar a mente, de modo que um indivíduo não precisa de mais do que de si mesmo para “sobreviver” à falta do que fazer. A Ioga (ou o Yôga), as diversas formas do que se generaliza sob o termo meditação, as técnicas para autopromover a experiência fora do corpo e os mantras que induzem o transe são alguns exemplos dessa tecnologia da paciência. Essas técnicas não são simplesmente usadas pontualmente, para “o tempo passar”, mas têm a importância de servir como cultivadoras de uma disposição mental mais permanente, que permite suportar melhor a situação potencialmente estressante.

O que me leva a outras nuances do espectro semântico da paciência.

Faquir

“Um faquir em Benares” (fotografia de Herbert Ponting, 1907)

Uma das coisas que um paciente de hospital precisa aprender desde logo é suportar a dor física. As partes do corpo que foram mexidas durante uma cirurgia doerão quando os efeitos dos sedativos e anestésicos passarem. De vez em quando será preciso puncionar uma(s) ou outra(s) veia(s) para retirar sangue ou para injetar soro e medicamentos (a entrada de alguns dos quais provoca uma extra dor extrema). É preciso seguir o exemplo de um faquir (porém, certa vez Beakman explicou que os faquires não têm que suportar dor nenhuma quando se deitam sobre uma cama de pregos, pois estes estão tão próximos uns dos outros e tão uniformemente espalhados que a pressão do corpo se distribui igualmente sobre eles e nenhum deles chega a perfurar a pele do indivíduo).

A mente, em princípio, pode ser livre e fugir da opressão das urgências do corpo. O Sr. Spock, no episódio Operação: Aniquilar! (Operation: Annihilate!) da série original de Jornada nas Estrelas, consegue, com sua disciplina mental, suspender a sensação de dor excruciante e enfrentar as criaturas que impingem esta sensação em suas vítimas. Os minbari, da série Babylon 5, têm uma disciplina mental parecida e conseguem até controlar a respiração, o que lhes permite  economizar energia (psíquica e física) quando, por exemplo, há pouco oxigênio numa cápsula espacial.

Num dos episódios da história do fundador do Budismo, Sidarta Gautama, em sua busca pela iluminação, ele deliberadamente passou algumas noites numa floresta, com o fim de apaziguar seu medo dos sons noturnos, que a princípio o assustavam, mas que depois passaram a ser encarados com serenidade. Afinal, nas situações em que não se pode evitar um perigo iminente, não adianta perder a calma, o que até pode mais atrapalhar. Pensando bem, nesse tipo de situação é útil um misto de serenidade e atenção, o que ajuda a ativar o foco, e uma mente concentrada pode conseguir agir rapidamente para resolver a ameaça antes que ela piore.

A Temperança

A Temperança, o Arcano Maior de número XIV do Tarô

Neste caso, a paciência tem muito a ver com a virtude da temperança, que é a capacidade de dosar os sentimentos e impulsos da forma mais eficaz possível. Essa noção vem das antigas teorias dos humores, os líquidos que se acreditavam compor nossa fisiologia e cujas dosagens determinavam nossos temperamentos. A fleuma determinava uma personalidade apática, o sangue determinava um caráter sensual, a cólera ou bile amarela determinava um aspecto irascível e a melancolia ou bile negra determinava uma tendência ao abatimento. O ideal buscado era a temperança dos 4 humores.

Talvez daí venha a expressão bom humor, ou seja, o equilíbrio entre os humores formando uma personalidade saudável (tanto física como psiquicamente; na Antiguidade, não havia a rígida separação dualista entre corpo e mente estabelecida por Descartes). E isso tem particularmente a ver com a paciência, pois a mente paciente também tende a desenvolver o bom humor. Um claro sinal de paciência é quando uma pessoa consegue manter um sorriso ou fazer gracejos enquanto passa por uma tribulação.

Aliás, paciência e bom humor estão tão intimamente ligados que se pode dizer também, inversamente, que o bom humor pode predispor à paciência. A pessoa realmente bem-humorada tem a “alma leve”, está quase sempre se sentindo bem e fazendo os outros se sentirem assim. Quando precisa enfrentar uma dificuldade, não permite que as circunstâncias negativas o afetem, mas procura, ao contrário, contagiá-las com seu próprio temperamento.

Passar por uma situação estressante não é sofrimento para o portador de bom humor, que pode encontrar em tudo motivos para sorrir. Porém, isso não quer dizer que se deva contentar com o que poderia ser diferente. É preciso lutar para mudar aquilo que representa um mal às pessoas, mas sempre mantendo a serenidade e a disposição de não sofrer diante do inevitável.

Agora chega dessa chatice e vamos direto à pornografia! “The internet is for porn!”

Obrigado pela paciência

Coleção de sinapses 5

Padrão

Esta semana vimos como o racismo ainda existe e como é fácil aflorar os preconceitos baseados na aparência física. A aparência física, esta, pretende ser usada para identificar o sexo do usuário do Xbox no Projeto Natal, e vimos também como é fácil identificar os heróis de Star Trek em forma de ursinhos de pelúcia estilizados, bem como o próprio Dom Quixote estilizado numa forma inusitada.

Lemos a notícia de que a franquia Guerra nas Estrelas continua lucrativa e sem alma, e embevecemos a alma com a bela canção Spread Your Wings, do Queen. Mas mergulhamos ainda mais profundamente na descoberta do criativo, surrealista e extravagante livro Codex Seraphinianus, uma bela obra de arte-enciclopédia fantástica-poema épico visual que parece muito com ideias que já tive para escrever livros…

Acusações de discriminação racial se repetem no futebol brasileiro – Globo Esporte

Acho que tenho um certo preconceito por achar que, como a maioria dos jogadores de futebol vem da classe pobre e pior alfabetizada, eles tendem a ter mais preconceito racial do que outras pessoas. Mas acho que estou enganado, o racismo está em nossa cultura e basta que alguém com pouco autocontrole se deixe levar por uma raiva para manifestar rapidamente uma discriminação racial.

Projeto Natal é capaz de reconhecer o sexo do usuário – Jovem Nerd News

Aposto que haverá pessoas que terão seu sexo “confundido” pelo Projeto Natal. Lembro que a câmera de minha esposa, que tem o mecanismo de detectar sorrisos, detectou as bocas dos bonequinhos (em forma de caricaturas) que ela fez para o casamento de seu filho com sua nora. E isso me remete também às histórias de Asimov sobre robôs; como um robô será capaz de identificar um ser humano para que as Leis da Robótica se apliquem com eficácia?

Ursinhos de Pelúcia do Capitão Kirk e Spock! – Blog de Brinquedo

A Enterprise já esteve em várias realidades alternativas. Num episódio escrito por Douglas Adams, um gerador de improbabilidades infinitas instalado na nave estelar da Federação poderia causar uma mudança na realidade e transformar a todos em ursinhos de pelúcia. Aí é que veríamos um verdadeiro teste para a lógica vulcana e autocontrole do Sr. Spock.

dom paper quixote – obvious

Achei essa imagem criativa, e sinceramente não tenho mais nenhum comentário para fazer sobre ela…

Nova série de animação de Star Wars se passará depois de Episódio 6?! – Jovem Nerd News

Os episódios IV, V  e VI de Guerra nas Estrelas não eram meras histórias de aventura. Eram contos épicos, míticos, dramáticos, trágicos. Tinham muitos elementos que os faziam histórias bem contadas e envolventes, que nos faziam identificar com os personagens e seus dramas pessoais, que nos faziam detestar os vilões e participar dos conflitos daqueles que não eram tão vilões assim (o Dark Father, por exemplo). Mas as novas histórias, episódios I, II e III, desenhos animados sobre as Guerras dos Clones… foram feitos só para preencher as lacunas deixadas na trilogia original. Tais lacunas foram muito mal preenchidas. Pior, não houve mais preocupação em criar boas histórias (exceto o episódio III, que tem um pouco de conflito e tramoia até que mais ou menos bem-feitas), apenas se quis expandir o universo com novas naves, novas armas, novos personagens extravagantes, novos mundos… tudo sem alma. Não acho que os episódios VII, VIII e XIX venham a trazer nada de bom, pois Guerra nas Estrelas se tornou uma franquia para fazer dinheiro, bonecos, brinquedos, HQs, DVDs, livros e qualquer merchandising que atraia fãs bobocas e crianças que não entendem nada de cinema e de arte.

Spread Your Wings (Queen) – YouTube

Conheci essa música através de um cover feito pela banda Blind Guardian. Só tempos depois descobri que era de autoria do Queen. A versão original, neste videoclip, é bem melhor do que o cover. Uma música triste e otimista.

Abra suas asas e voe para longe
Para longe, para bem longe
Abra suas asinhas e voe para longe
Para longe, para bem longe

Recomponha-se
Porque você sabe que deveria fazer melhor
Pois você é um homem livre

Codex Seraphinianus – Wikipedia

Essa dica de meu amigo Flaubert (não o Gustave) foi um achado. Uma obra ilustrada, escrita e desenhada pelo artista italiano Luigi Serafini, que descreve um mundo imaginário extremamente bizarro e surrealista (ao menos para nossos olhos). Uma obra de arte inusitada, que brinca com a percepção e com nossa forma de ver a natureza e o ser humano, escrita num idioma indecifrável (inventado pelo autor) e desenhada com grande detalhismo. 400 páginas! Custa só R$ 299,04 no site da Livraria Cultura e estou me coçando para comprar… talvez no mês que vem.

Distrito 9 [Resenha]

Padrão

Spoilers! Este texto contém relevações sobre uma obra de ficção. Se você ainda não a viu e não quer estragar a surpresa, pare agora a leitura.

Imagine uma gigantesca nave espacial parada no ar sobre sua cidade. Nada sai lá de dentro durante algum tempo e não sabemos o que a nave trouxe. As Forças Armadas, após algum período de ansiedade geral, decidem penetrar a nave e descobre uma população alienígena, com uma aparência mais ou menos de artrópodes bípedes, desnutrida e desamparada.

O que seria mais adequado fazermos com esses extraterrestres que pedem asilo na Terra? Onde devemos alocá-los? O que podemos lhes oferecer? O que eles podem nos dar em troca? Devemos integrá-los à nossa sociedade? Devemos tratá-los como humanos, como não-humanos com alma ou como animais sem alma (animais sem alma, agora eu me toco, é uma contradição; alma vem do latim: anima)?

O filme Distrito 9, de Neill Blomkamp, produzido por Peter Jackson, assume que uma nave extraterrestre pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul, e apresenta essa história na forma de um semidocumentário. Nele vemos que as Forças Armadas decidiram abrir a nave e encontraram alienígenas desnutridos e desamparados em busca de asilo.

Não sabemos o que ocorreu com eles nem porque vieram até a Terra; especula-se que seus líderes morreram ou que os recursos naturais de seu planeta-natal se exauriram. O fato é que: ei-los, não têm para onde ir.

Começam os conflitos. Os não-humanos, apelidados de “camarões” pelos humanos, são alocados numa região inabitada do município, próxima ao centro urbano, chamada de Distrito 9. Assim como os ex-escravos negros construíram o que hoje são as favelas, os “camarões” passam a viver uma vida degenerada, habitações apertadas envoltas por lixo, convívio com humanos da Nigéria que traficam armas e drogas. O resultado é que o Distrito 9 se tornou um depósito de “camarões” e de lixo.

Aliás, mais do que um depósito, um criadouro. A população não-humana vai crescendo e os “camarões”, segregados da população humana, começam a ser vistos como um perigo. As autoridades decidem realocar os “camarões” e autorizam a MNU (Multinational United), uma empresa militar privada, a empreender uma ação de despejo liderada pelo funcionário Wikus van der Merwe. Os residentes do Distrito 9 deverão ser realojados no Distrito 10, fora das imediações de Joanesburgo.

Por acidente, Wikus é infectado por uma substância que o faz passar por uma gradativa metamorfose, tornando-o genética e fenotipicamente um híbrido de humano e alienígena. Ele se torna cobaia de testes da MNU e depois foragido, nem humano nem “camarão”. Estabelece uma relação ambígua com Christopher, um alienígena que está tentando fugir da Terra. No final, Wikus ajuda Christopher a escapar na nave, em troca da promessa de trazer, em alguns anos, a cura para sua metamorfose.

O navio negreiro e o banzo interplanetário

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

Navio Negreiro, de Johann Moritz Rugendas

A nave espacial repleta de extraterrestres desamparados pode ser entendida como uma metáfora de um navio negreiro ou uma embarcação repleta de imigrantes. A nave simboliza o degredo e nos faz perguntar qual é a origem desse povo degenerado que se encontra sem rumo no espaço, sem líderes e sem saber para onde ir.

Podemos inferir, pelo conjunto de analogias com a relação colonialista e escravocrata da qual a África foi vítima, que os alienígenas que pairam no céu de Joanesburgo são uma carga de escravos, e que a tripulação da nave morreu de alguma forma, talvez assassinada pelos “camarões”.

Entretanto, os equipamentos que eles trazem só podem ser usados por eles, ou seja, foram construídos para sua espécie e provavelmente pela sua espécie. Se eles era escravos, os escravizadores eram muito provavelmente outros “camarões”. Os especialistas entrevistados no “documentário” dizem que os “camarões” encontrados na nave eram operários incapazes de tomar decisões.

Nessa condição, semelhante à dos negros trazidos em navios para a América, seria muito difícil encontrar para eles um abrigo melhor do que uma favela. Não só porque os extraterrestres provocam medo e ninguém sabe que perigo eles podem representar, mas porque a humanidade não se preparou para ampliar os Direitos Humanos ao nível interplanetário.

Esse é o ponto em que a história pode se tornar polêmica. O fato de serem criaturas conscientes (sentient beings) não deveria lhes conceder os mesmos direitos que aqueles concedidos aos humanos?

Humanos não-humanos

Quando as nações  europeias expandiram seu domínio ao Leste, construíram um conjunto de representações racistas (o Orientalismo, segundo Edward W. Said; leia aqui minha resenha do seu livro sobre este tema) que rebaixaram os humanos orientais a uma condição menos evoluída. Para muitos, sua “situação” era irreparável: árabes, indianos e judeus sempre seriam dependentes do domínio do europeu civilizado.

Quando navegantes europeus chegaram à África ocidental e à América, algo semelhante se constituiu. As biologias e as culturas de ameríndios e africanos foram consideradas sub-humanas pela ideologia imperialista, e mais tarde se desenvolveria o racismo científico que naturalizaria a inferioridade e a não-humanidade de povos não-europeus.

O próximo capítulo dessa história, e que se aproxima mais da trama de Distrito 9, é o processo de imigração, especialmente de imigrantes considerados de “raças” diferentes, e que ainda são vistos com o mesmo racismo imperialista e colonialista. É nesse contexto que se desenvolve a xenofobia na forma como a vulgarizamos hoje, ou seja, o medo dos estrangeiros.

Não-humanos humanos

Atualmente, o processo de mundialização da história da humanidade já vislumbra uma nova ética planetária, ainda não colocada plenamente em prática, mas em princípio já esboçada, segundo a qual todos os seres humanos têm os mesmos direitos básicos. Há também uma tendência a ampliar esses direitos aos animais não-humanos (um exemplo pode ser visto no documentário Terráqueos (Earthlings), sobre o qual você pode saber mais neste link).

Como já escrevi em algum lugar desta Teia, esses direitos deverão se expandir quando os humanos tiverem contato e começarem relações com espécies alienígenas. Assim como a crença nas diferenças fundamentais entre “raças” humanas (que justificavam conflitos violentos) foi revista, qualquer crença que justifique desigualdades baseadas nas diferenças interespécies deverá ser superada tanto por parte dos humanos quanto de qualquer outro povo extraterrestre.

Brasão da Federação Unida de Planetas

Brasão da Federação Unida de Planetas, do universo de Jornada nas Estrelas

Essa utopia é prevista em obras como a franquia Jornada nas Estrelas, onde se concebe a Federação Unida de Planetas, que rege vários planetas e vários povos que entre si são alienígenas, tanto biológica como culturalmente. Na série Babylon 5, também há a ideia de que os vários povos interplanetários devem tratar uns aos outros como detentores dos mesmos direitos básicos.

A situação criada em Joanesburgo e no Distrito 9 dificultou grandemente a aplicação de qualquer ideal universalista pós-humanista. Os alienígenas estavam em situação tão precária e doente que passaram a viver no lixo, viciados em ração de gato, traficando armas hi-tech e sem controle populacional.

Ou seja, sem condições de reconstruir uma vida organizada, os “camarões” passam a ser monstros ou, no mínimo, animais, uma praga com que ninguém sabe como lidar. Os Direitos Humanos, portanto, não têm condições de evoluir nessas circunstâncias. Talvez, se nós um dia tivermos condições de acolher um povo desamparado com as melhores condições para sua recuperação, poderemos começar a revisar os Direitos Humanos e constituir os Direitos Universalistas.

O híbrido no limbo

Wikus van der Merwe é um personagem que à primeira vista dá a impressão de poder ser resumido numa palavra: pateta. É arrogante, simplório, preconceituoso e bobo. Porém, enquanto figura central da narrativa, ele se revela e revela a complexidade humana, em seus sentimentos e ações, diante do inusitado, diante do outro e do diferente.

A operação de despejo ocorre através de duas forças antagônicas e complementares: a abordagem pseudoconciliatória de Wikus e a abordagem destrutiva dos soldados que o acompanham. Wikus arrefece os ânimos dos militares (ansiosos para descarregar suas tensões e balas nos “camarões” cuja existência é uma afronta a sua xenofobia) enquanto estes asseguram a eficiência da ação e a segurança de Wikus.

A complexidade subjetiva de sua ação de despejo se revela primeiramente quando ele não consegue convencer um dos alienígenas, Christopher, a deixar sua casa, pois este, inadvertidamente, sabe ler o mandado de despejo e encontra uma contradição. Para se safar, Wikus apela para os sentimentos de Christopher, ameaçando levar embora seu filho.

Em segundo lugar, Wikus se vê sofrendo uma mutação que transforma seu corpo, primeiro um dos braços, no de um “camarão”. Ele é forçado a testar uma arma alienígena, que só funciona quando em contato com um “camarão”, e a matar um não-humano, o que ele recusa insistentemente.

Ao fugir do cativeiro, Wikus passa a protagonizar um dos principais temas do filme: o dilema do híbrido. Ele se torna pária entre os humanos, e aquele que deveria ter salvo Joanesburgo da praga dos “camarões” se encontra no caminho não só de se tornar um destes como de minar a operação de despejo. Isso por que ele passa a trabalhar com um dos alienígenas, em busca de uma troca de favores: Christopher quer voltar para casa e Wikus quer uma cura para a transformação.

Mas é graças à transformação que Wikus consegue salvar a própria pele e a de seu amigo. Para todos os efeitos, Wikus passa a ser um “camarão”, mesmo que neste ponto do filme ele ainda seja bem reconhecível como humano. Sua esposa não o quer mais (primeiro por insistência do pai, mas depois pelo escândalo que os acontecimentos causaram) e ele perde toda os laços com Joanesburgo.

Quando o “branco” se misturou com um “negro” (ou um “camarão”), a ideologia segregacionista da colonização anglo-saxã não cogitou a identidade mestiça. O resultado da mistura é que a parte “branca” foi sujada pela parte “negra”. Como nos EUA, em que uma gota de sangue negro é suficiente para tornar um indivíduo “negro”, Wikus se tornou um “camarão” ao entrar em contato com uma gota do elixir preto de Christopher.

(O dilema do híbrido

Spock, Worf e Arwen

Esse problema trazido pelo ineditismo da identidade híbrida aparece em outras histórias em que a mistura é tematizada. Spock é exemplar, pois, por mais claro que seja, para ele e para os que o rodeiam, o fato de que sua mãe é humana e seu pai é vulcano, ele insistentemente declara sua identidade vulcana, e é muitas vezes questionado sobre essa identidade. Ele é exortado pelo pai, em Star Trek (2009), a escolher entre sua natureza vulcana e humana, e não a assumir uma terceira opção, ou seja, a de que ele é um mestiço.

Ainda no universo de Jornada nas Estrelas, Worf nasceu klingon mas foi criado por humanos. Embora tivesse pouquíssimo contato com outros klingons, ele insistiu que os pais só lhe fizessem comida de sua cultura-natal, e foi muito exigente consigo mesmo quanto à manutenção da tradição de seus ancestrais biológicos e não a dos seus pais adotivos. “I’m a Klingon” é uma expressão que ele repete em muitos momentos da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. O encontro de culturas poderia ter feito nascer uma mentalidade amálgama em Worf, mas ele parece não ter herdado nada dos pais humanos.

Na Terra-Média criada por J. R. R. Tolkien, várias raças se encontram e se misturam. Arwen, por exemplo, é uma meio-elfa, resultado de uma genealogia em que se encontram elfos e humanos. Mas ela é considerada elfa, e portanto imortal, durante quase toda a história de sua vida, até que decide se tornar mortal (humana) por amor ao seu marido, Aragorn, que é humano. Ela não poderia ser um híbrido (como aliás existe no universo do RPG Dungeons & Dragons), com características de ambas as ascendências?

(Pretendo escrever em breve um post mais elaborado sobre este tema.))

O herói

Despretensiosamente, Wikus se tornou um herói para os “camarões”, e talvez sua metamorfose seja considerada uma benção pelos não-humanos. O fato é que, com o tempo, ele completou essa metamorfose e se tornou fisicamente um “camarão”, vivendo no lixo do Distrito 10, à espera do retorno de Christopher.

Porém, fica implícito que a promessa de Christopher de trazer uma cura pode ser uma mentira. De certa forma, Wikus só foi importante para que se abrisse a oportunidade de os “camarões” fugirem e voltarem para casa. Ele é o Judas sem cuja traição Cristo(pher) não poderia ter cumprido sua promessa (talvez a analogia religiosa tenha um certo apelo nos espectadores).

No entanto, é bem provável que Wikus não tenha mais perspectiva de retornar à humanidade. Ele se tornou um anátema em Joanesburgo, por muitos é tido como morto (para sua ex-epossa, ele é um fantasma que deixa flores de metal na porta de sua casa).

Se Christopher retornar com mais não-humanos, possivelmente tentará resgatar os “camarões” que ficaram (e que se multiplicam velozmente) e é bem provável que ocorra um conflito violento com os humanos. Neste conflito, só haverá duas opções razoáveis para Wikus: abster-se ou ficar do lado dos alienígenas. Se a oportunidade de ajudar os humanos surgir (baseada na larga experiência de como vivem e pensam os “camarões”), ele não terá nada a ganhar.

Um cinema híbrido

Distrito 9 me causou sentimentos ambíguos. Se por um lado suscitou uma reflexão interessante (exposta acima) e se inicia de forma criativa, como um documentário realístico, passa depois a conter elementos de ação heroicista e belicista. Se em alguns momentos aborda os temas de modo crítico, em outros cai no apelo emotivo.

No entanto, essa mistura de cinema sul-africano com Hollywood gerou uma obra multifacetada, que pode ser admirada de várias formas e gerar diversas interpretações e apreciações. A introdução do filme cria uma tensão muito grande e uma expectativa de tragédia iminente que, se não fosse contornada pela ação da segunda parte da história, a faria terminar como Dançando no Escuro de Lars von Trier. Pensando  bem, o final de Wikus, transformado em alienígena, é trágico.

Essa mesma ação, que se opõe à primeira parte, contribui para manter a tensão e o espectador na cadeira. Neste aspecto, o cineasta foi bem-sucedido, criando uma obra que prende a atenção até o fim e proporciona a oportunidade de não nos perdermos enquanto acompanhamos uma trajetória repleta de elementos que nos levam à reflexão sobre humanidade, Direitos Humanos e Universalismo.

Um pouco de endorfina

Padrão

Estava pensando sobre alguma coisa que me fez rir e me veio a ideia: vou fazer uma lista de coisas que achei engraçadas. Onde as colocarei? No Orkut? No Twitter? Hum… já sei, vou fazer um post na Teia Neuronial sobre isso. Assim, desviando-me um pouco do que costumo fazer aqui na Teia, pela primeira vez (eu acho) farei uma lista. E, como deve ser algo que fuja ao costume deste blog, não é uma lista acompanhada de (muitas) elucubrações.

Apenas alguns comentários sobre coisas que vi, ouvi, presenciei e que me fizeram mostrar os dentes e rir. É claro que, sendo uma pessoa (relativamente) normal, se eu fosse buscar tudo o que me fez simplesmente rir a lista não teria fim. Portanto, aí vão coisas que me fizeram rir à beça, gargalhar mesmo ou, em alguns casos, tocaram com precisão a minha veia cômica mais fina. 10 itens, sem ordem lógica.

1 – “O inimigo do crime!”

Estava vendo Mulan no cinema, rodeado de crianças, e eis que vejo esta cena: Mushu, o dragão que protege Mulan, sobrevoa o palácio do imperador com uma asa-delta em forma de asas de morcego e pousa perto de alguns guerreiros, dizendo:

“Cidadãos, preciso do seu poder fogo!”

Os guerreiros, assustados, perguntam:

“Qu-quem é você?!”

Abrindo a capa de morcego, aparecendo apenas como uma silhueta preta, Mushu arremata:

“O inimigo do crime!”

Ri demais com isso. Adoro essas homenagens satíricas que, sem ser explícitas, mexem com quem conhece a referência. Pena que não encontrei um vídeo em português no YouTube…

2 – Monty Python e o Sentido da Vida

Especialmente quando, no meio do filme, aparece uma história que complementa o curta-metragem apresentado antes do longa, e o narrador se desculpa pela intromissão do curta.

Monty Python, em geral, é sempre hilário e é muito difícil eu não rir com quase qualquer coisa dos filmes do grupo inglês.

3 – “Captain! Jim!”

A cena que serve de ilustração a este post é espetacular. É a melhor explosão de humanidade de Spock de todos os tempos, em que ele mostra realmente seu sentimento de amizade por Jim Kirk. Notem que raramente Spock chama Kirk de “Jim”, preferindo chamá-lo, quase sempre, usando a formalidade “capitão”.

4 – O desaparecimento do tio Thiago

Estava na casa dos meus pais, num dia em que estavam lá meu irmão, sua esposa e seu filho de nenhum ano de idade (meu sobrinho, Paulo Perigo Neto).

Eu me deitara ao pé da cama onde estava Paulinho com os pais, e chamei um pouco sua atenção. Então, passei por debaixo da cama e pus a cabeça do outro lado. Ele ficou surpreso e boquiaberto por um bom tempo, olhando para mim, e seu semblante me fez gargalhar à beça, pois misturava uma situação cômica com a graciosidade do bebê.

5 – Fluxograma de Total Eclipse of the Heart

Este “fluxograma” eu encontrei no The Huffington Post, entre vários gráficos representando músicas conhecidas.

tumblr_kojs29L9OU1qzd1jno1_r2_1280
Acompanhe a música:

Veja também

6 – Calvin não consegue dormir

No geral, as tirinhas de Bill Watterson sobre o menino Calvin e seu tigre de pelúcia Haroldo estão entre as melhores e mais engraçadas do mundo. Esta aqui me fez muito e representa o que considero de melhor em matéria de humor em quadrinhos, a aliança genial entre texto e imagem.

Calvin não consegue dormir

7 – Piada do especialista

Um homem entrou num edifício, procurando um médico, mas acabou entrando num escritório de advocacia.

“Doutor, estou com uma dor terrível no testículo!”

“Senhor, aqui nós trabalhamos com Direito.”

“Vá ser especialista assim na China!”

8 – Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar)

Há alguns meses, minha esposa me introduziu no cinema de Woody Allen, e começamos a colecionar seus filmes.

Baseado num livro homônimo, Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) é uma coletânea de anedotas muito engraçadas sobre sexo, sexualidade, amor, erotismo et coetera et al. Partindo de uma premissa interessante, que são perguntas simples como “Os afrodisíacos funcionam?”, “O que é sodomia?” ou “Os travestis são todos homossexuais?”, Allen vai contando pequenas histórias com tramas bem feitas e um humor certeiro.

Sem spoilers. Só o trailer:

9 – George Carlin falando sobre as coisas que são comuns a todos

Ele fala sobre coisas tão absurdas e tão comuns que nos faz rir da surpresa: “Por que nunca pensei nisso antes?” O que mais gostei aqui foi que ele prescinde dos preconceitos para ser engraçado. Algumas das coisas que ele conta nem são engraçadas por si mesmas, mas o modo como as relata as torna ridículas (no sentido estrito da palavra).

10 – O Coiote é pego em sua própria armadilha

Numa das melhores e mais bem amarradas tramas de Papa-léguas, o Coiote deixa um copo d’água para sua vítima beber e acionar uma bomba, mas a ave ignora e passa direto. O Coiote continua tentando várias outras armadilhas e, como sempre, se dá mal. No final do episódio, está tão cansado e machucado que não resiste a beber um copo d’água que encontra e… explode! Caiu em sua própria armadilha esquecida.

Lições do Sr. Spock

Padrão

Para I. M.

Como disse no post anterior [na verdade, no texto Star Wars vs. Star Trek], comecei há alguns dias a ver a série clássica de Jornada nas Estrelas. Como é comum entre os trekkers, elegi, por várias razões, o Sr. Spock como personagem favorito. Não costumo fazer esse tipo de escolha, mas às vezes aparecem tipos que me chamam muita atenção.

Spock me pareceu interessante por ser um alienígena trabalhando com humanos, ou seja, por ser um “estranho no ninho”. Mas ele é mais complexo ainda, porque não é completamente vulcano como seu pai, mas tem características humanas (mesmo que sejam muito sutis e só apareçam esporadicamente), que herdou de sua mãe terráquea. Ou seja, ele é um híbrido, o melhor meio de se estabelecer uma relação entre dois povos.

Essa característica o torna inspirador para mim, que desde cedo nesta vida sofri de síndrome do estrangeiro. Há algum tempo venho me esforçando para encontrar meios de melhor me adaptar aos ambientes em que vivo. E sei que tenho coisas importantes a trazer para este mundo, assim como este mundo tem muito a oferecer para minha evolução.

Outro asoecto, o mais óbvio, de Spock que me inspira é sua forma de pensar e resolver situações. Ele sempre enxerga as circunstâncias de forma lógica e tem uma disciplina mental extremamente sofisticada para não demonstrar ou não sentir emoções. É interessante ver cenas da série em que, diante de situações críticas, que afetam sua própria integridade, ele se mostra imperturbável. Em um dado episódio, acometido por um parasita que o faz sentir dor, ele consegue controlar sua mente, pois alega que a dor é um estado mental, para diminuir essa dor ou para não ser afetado por ela.

Spock é o extremo oposto das pessoas que pautam suas ações pelas emoções e que vivem com o objetivo de senti-las, o que considero estagnante evolutivamente. Mas, apesar de admirar uma personalidade como a de Spock, ela também não é a ideal, pois dificulta a empatia, o que é essencial quando se quer ajudar alguém com angústia. Já passei por momentos em que, por não procurar entender o que o outro sente, tomei atitudes que o atrapalharam ao invés de ajudarem. Mas também passei por momentos em que a dificuldade de disciplinar um desejo prejudicou a mim e a pessoas próximas a mim.

Da mesma forma que a relação entre Spock e Jim Kirk (melhor amigo de Spock e representante da emotividade que falta a este) é essencial para que os problemas da nave espacial Enterprise sejam resolvidos de forma equilibrada, a ponderação entre razão e emoção deve ser levada a sério por cada indivíduo. Penso que os sentimentos são importantes, pois o prazer da convivência, seja com pessoas próximas, seja com a humanidade ou seres de outros mundos (outras dimensões e planetas), nos move a ser úteis e a nos beneficiar do que há de bom no universo. Porém, as emoções surgem de forma espontânea, sendo muitas vezes resultado de nossa biologia, das influências do meio e de nossa história pessoal. Por não serem deliberadas, não devemos ter culpa de as sentir ou acusar alguém por agir de forma impensada.

Por isso, considero que a razão deve gerenciar essa relação entre um lado e outro do cérebro, sempre controlando a mente de forma refletida, considerando quais sentimentos devem ou podem ser cultivados e quais emoções devem ser disciplinadas ou extirpadas, para que se concretize o ideal cosmoético “que acontaça o melhor para todos”. É sempre importante estabelecer mentalmente o que é descartável e o que não é, o que é racionalmente melhor e o que devemos abandonar, e agir de forma coerente, sempre combinando atitude mental (cabeça, águia), atitude psíquica (coração, leão) e atitude física (baixo-ventre, boi). Tudo o que fazemos, mesmo um pensamento, repercute ao redor de nós. Temos uma grande responsabilidade pelas descargas elétricas de nossos neuônios.

Esta manhã tive um insight sobre esse problema, e percebi mais claramente quais são alguns dos esforços que tenho que fazer para disciplinar minha mente e não deixar que as emoções me controlem nem que a razão me torne frio demais (o que já aconteceu algumas vezes e foi tão problemático quanto ser arrebatado violentamente por uma emoção). Mais concentração, organização e execução prática de prioridades, bem como exercícios rotineiros de estado vibracional (sobre o EV, links aqui, aqui, aqui e aqui) e ampliação da consciência. Num exercício destes, apareceu-me a imagem mental de um instrumento sendo alocado na parte esquerda de minha cabeça, possivelmente representando uma melhoria (ou indicando que devo fazer mais esforços mentais) para minhas faculdades racionais em detrimento das emocionais.

Talvez, inspirado em algumas atitudes íntimas do Sr. Spock e dando mais atenção a (e cultivando) uma postura já latente em mim, eu possa aproveitar melhor meu relacionamento com outras pessoas e, sendo mais coerente comigo mesmo, ser mais assistencial a elas.

[Publicado originalmente em 16 de dezembro de 2008.]