A orgia humana – parte 2

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A natureza é muitas vezes um recurso argumentativo para defender um modelo ideal de comportamento humano. A Etologia pode ser fonte para justificar, por exemplo, um dado tipo de conduta sexual e de formação de laços entre as pessoas. Porém, vemos que os comportamentos animais são tão diversos que não é possível basear nosso ideal de comportamento humano numa suposta “natureza” imutável.

Quando não adianta recorrer à “natureza” para defender a tradição familiar cristã (que na verdade é tão diversa e muito mais ideal do que real), recorre-se a argumentos de cunho “sociológico”. Um exemplo, dado na primeira parte deste ensaio, é a defesa do suposto significado “correto” da palavra “casal”.

A tradição para justificar a tradição (argumentos circulares)

Um casal de mães lésbicasCostumamos nos referir a uma dupla composta de homem e mulher (sejam casados, irmãos ou colegas) como um casal, e esta palavra se reveste comumente desse sentido. Porém, olhemos para o passado (real e não idealizado) e para o futuro.

A origem da palavra casal está no latim casalis, que provém do radical casa, que significa “casa” mesmo. Casalis, segundo o Dicionário Houaiss, tem o sentido de “pertencente a uma casa”. Ou seja, em seu sentido etimológico, casal é um conjunto de pessoas que vivem juntas. Qualquer dupla de pessoas morando juntas, sejam uma mulher e um homem, sejam dois homens, sejam duas mulheres, pode ser considerada um casal, sem ferir nenhum suposto sentido consagrado da palavra.

E se olharmos para o futuro, veremos que, mesmo ignorando a etimologia, toda palavra evolui em seus significados. Se casal é uma palavra que costumava se referir a uma dupla de dois sexos, já passou a ter um sentido mais amplo, e já está sendo muito usada para nomear as uniões entre duas mulheres ou entre dois homens. Voltemos ao Houaiss:

2 par formado por macho e fêmea
3.1 marido e mulher
3.2 qualquer par de pessoas cuja relação é amorosa e/ou sexual
4 Derivação: por extensão de sentido.duas coisas iguais; par, parelha

A acepção 3.2 diz tudo, e a 4 acrescenta o detalhe de que duas coisas “iguais” formam um casal, ou seja, dois seres humanos são um casal, independentemente dos sexos. Além disso, os termos “par” e “parelha” aparecem como sinônimos, e são palavras que costumamos usar para nomear duplas de quaisquer coisas.

Entretanto, muitas pessoas, mesmo aceitando a opção de dois indivíduos do mesmo sexo formarem um casal (ou qualquer que seja o nome que queiram usar), são categoricamente contra a adoção de crianças por homossexuais.

Alegam que a criança que vive com dois pais ou duas mães não tem em casa o modelo ideal de família; que ela vai se sentir diferente das outras crianças que têm uma mãe e um pai; que ela não vai ter um modelo de masculinidade (quando tem mães lésbicas) ou de feminilidade (quando tem pais gays); que ela vai ser influenciada em sua sexualidade; que ela corre o risco de ser vítima de pedofilia.

Mas o “modelo ideal de família” é sempre relativo. A começar pelo fato de a noção mesma de família ser uma construção social e não um dado óbvio nem natural. As diversas culturas humanas têm suas formas peculiares de estabelecer consanguinidade, parentesco, casamentos, alianças e afiliações.

Existem famílias consideradas apenas no nível nuclear (como é, relativamente, o caso dos casais com filhos nas sociedades ocidentais urbanas), enquanto outras nomeiam como família agrupamentos mais amplos, que incluem tios, primos e sobrinhos (muitas comunidades rurais no Brasil representam a si mesmas como “uma família só”).

Em muitas sociedades “simples”, como várias culturas indígenas brasileiras e tantas outras sociedades tribais mundo afora, usa-se o termo equivalente a “mãe” para designar todos as tias, bem como se nomeiam “pais” todos os tios, enquanto toda a geração seguinte é referida como “filhos” e “filhas”.

Porém, é claro que estamos falando de outras sociedades que não a “nossa”. Em “nossa sociedade”, a família é composta de pai, mãe e filhos. Se o casal não é heterossexual, se não planeja ter filhos ou se é promíscuo, afasta-se muito daquilo que se entende como “família”. Isso serve de argumento para a insistência do discurso conservador em negar o direito dos casais homossexuais constituírem família e formarem casais.

Como vimos na primeira parte deste ensaio, as famílias humanas são diversas. E, mesmo em nossa sociedade, a noção de família, parentesco e aliança sempre mudou ao longo da história. Os ideais e as práticas estruturam condutas que são tidas pela sociedade como naturais e universais (o que também constitui uma representação etnocêntrica da humanidade) e relegam à condição de exclusão ou de sub-humanidade toda a diversidade real, que é ela mesma também estruturada nas práticas humanas.

Por isso, a forma como se constituem as uniões de pessoas na atualidade, mesmo no âmbito de uma sociedade como a brasileira, são muito variadas e estão muito longe de seguir à risca um modelo. Há famílias de mãe sem marido (por escolha ou não), de pai sem esposa, de progenitores separados, de homens que se casam e adotam uma criança, de mulheres que fazem o mesmo, de crianças criadas por avós ou tios, de trios de parceiros e até de uniões que não têm nenhum traço de consanguinidade.

É inprofícuo e irrelevante se preocupar com uma suposta inadequação das crianças que são criadas por dois pais do mesmo sexo. Costuma-se argumentar que essa inadequação é inevitável, pois na família e na escola ainda se veicula o mesmo ideal de família. O que é até verdade, mas esse argumento acaba chegando a uma conclusão que reforça a mesma tradição, e ninguém se propõe a mudar essa concepção e ensinar aos mais novos que as formas de as pessoas se relacionarem são muito diversas. Acaba-se construindo um argumento circular, em que a tradição justifica a importância da tradição.

Tanta diversidade nas relações familiares não leva à ausência de modelos (masculinos ou femininos, divisão que é em si mesma arbitrária), pois é uma ilusão achar que a influência dos pais sobre os filhos é a única relevante. A Psicanálise moderna mostra que as figuras paterna e materna não estão necessariamente ligadas ao pai e à mãe, respectivamente. Cada um dos pais pode carregar aspectos dos dois polos da dualidade.

Além disso, há muitas outras pessoas ao redor da criança que servem de modelos de comportamento, e a falta de um pai ou de uma mãe em casa não significa de modo algum uma falta (a não ser para mães e pais solteiros que precisam cuidar sozinhos de seus filhos).

Mas ainda há o medo de que uma criança com pais ou mães homossexuais seja influenciada pelo comportamento sexual dos pais. Isso já foi muito discutido e sabemos que a porcentagem de heterossexuais versus homossexuais é a mesma, independentemente da sexualidade dos pais. Se essa influência fosse tão significativa, não haveria tantos homossexuais filhos de casais hétero.

Ainda assim, sempre há o medo de que os homossexuais queiram adotar crianças para satisfazer seus desejos pedofílicos. Mas a homossexualidade está tão próxima da pedofilia quanto a heterossexualidade. Sabemos quão comum é o abuso sexual dos filhos de pais heterossexuais, quantas meninas que ficam grávidas do pai, sem falar das violências de outros tipos praticados por pessoas severas que batem e espancam as próprias crias. Um pesquisa nos EUA mostrou que a imensa maioria dos casos de pedofilia é cometida por heterossexuais.

Mas é perfeitamente plausível que o discurso conservador defenda que esse comportamento pedofílico de heterossexuais é mais aceitável do que o de homossexuais, tendo em vista o costume arraigado de velar os abusos dentro das famílias tradicionais. O medo de que um homossexual abuse de um filho é, provavelmente, muito mais o medo de que a criança se torne homossexual, pois, por mais que tente argumentar pela lógica, esse discurso se baseia sempre na irredutível e pré-concebida homofobia.

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4 comentários sobre “A orgia humana – parte 2

  1. Rafael

    Muito bom ! Mas a família é constituída na procriação. Se não qualquer ajuntamento de pessoas poder ser considerado família. Acredito que os homossexuais desfrutam de uma liberdade ímpar sem o controle do estado em suas relações afetivas privilégio que eu gostaria de ter, pois não é um documento do cartório que prova o meu amor pela minha esposa.

    • Olá, Rafael. Obrigado pelo comentário.

      A noção de que a família é constituída na procriação é bem específica de determinadas sociedades, e até na nossa, na prática, já não funciona necessariamente assim.

      Concordo que não é qualquer ajuntamento de pessoas que se constitui em família. Como tentei deixar claro no texto, o conceito de família varia de cultura para cultura e ao longo da história, e a procriação não é um requisito imprescindível em todas elas. A família, de maneira geral, tem mais a ver com as formas de associação de grupos e indivíduos do que com a descendência (este é um elemento que normalmente está presente, mas não é crucial). Há sociedades (inclusive alguns grupos tradicionais em nossa própria sociedade) que consideram que uma família surge com o casamento, mesmo antes de o casal ter filhos. Em suma, não existe só um tipo de família, e existem novas configurações que estão sendo reconhecidas socialmente como familiares sem necessariamente a presença de filhos (sejam biológicos, sejam adotados).

      A afirmação de que os homossexuais desfrutam de mais liberdade precisa ser muito relativizada. O controle do Estado sobre as relações afetivas só ocorre com o casamento civil, e os casais heterossexuais não são obrigados a se casar civilmente (é o meu caso). Quando os homossexuais pretendem adotar filhos, precisam se submeter às mesmas restrições legais que os heterossexuais. No cômputo geral, homossexuais têm menos liberdade, pois se deparam com problemas extrajudiciais, como o indeferimento baseado em homofobia. Na situação em que vivemos, há direitos a que os casais homoafetivos só têm acesso com o casamento e, sem a possibilidade de se casarem como os heterossexuais, eles têm menos liberdade de escolha.

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