Dia da Toalha

25 de maio foi comemorado o Dia da Toalha, em memória de Douglas Adams. Em sua “trilogia de 5 livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias, a toalha é apresentada como o item mais útil para um viajante interestelar. Duas semanas após a morte de Adams, seus fãs estabeleceram o Dia da Toalha, em que cada pessoa deve sair de casa com sua toalha, que pode vir a calhar em diversas situações cotidianas.

Essa data também é o dia da estreia de Guerra nas Estrelas, em 1977. Como muitos fãs das histórias de Guerra nas Estrelas e da obra de Adams são nerds, resolveram transformar esta data também no Dia do Orgulho Nerd, ou Dia del Orgullo Friki, comemorado pela primeira vez em Madrid, Espanha, em 2006.

Tudo isso é parte de uma onda contemporânea de assunção de uma certa identidade nerd. É interessante ver essas diversas manifestações culturais surgirem como que do nada, celebrando alguns ícones que já se tornaram parte de nossas mitologias modernas, alguns mais populares (como Guerra nas Estrelas e seus jedis) e outras nem tanto (mas com um fiel público específico, como é o caso de O Guia do Mochileiro das Galáxias e sua desconcertante resposta para “a vida, o universo e tudo mais”: 42).

A toalha

Eis o que há de tão extraordinário nas toalhas, segundo Douglas Adams:

O Guia do Mochileiro das Galáxias faz algumas afirmações a respeito das toalhas.

Segundo ele, a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido ao seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está a sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.

Daí a expressão que entrou na gíria dos mochileiros, exemplificada na seguinte frase: “Vem cá, você sancha esse cara dupal, o Ford Prefect? Taí um mingo que sabe onde guarda a toalha.” (Sancha: conhecer, estar ciente de, encontrar, ter relações sexuais com; dupal: cara muito incrível; mingo: cara realmente muito incrível.)

De fato, os viajantes profissionais que perambulam na própria superfície terrestre costumam ter uma toalha a tiracolo, que serve para muitas coisas (dependendo também do tamanho dela). Se pensarmos bem, há tanta coisa que se pode fazer com uma toalha, um verdadeiro quebra-galho, que pode ser considerada uma das grandes invenções da humanidade.

As viagens interplanetárias de Arthur Dent e Ford Prefect, protagonistas da série de Adams, representam todas as odisseias em que nos jogamos, todas as grandes aventuras, buscas e missões de cada ser humano e da humanidade como um todo. Se houver algo mais para se fazer nesse tal de Dia da Toalha que não seja ficar exibindo um pedaço de pano por aí, que seja para pensarmos sobre nossa infinita busca por conhecimento e experiências.

E levar essa reflexão para todos os nossos dias, saindo pelo mundo a conhecê-lo e criando uma existência plena e significativa.

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4 comments

  • Estou lendo o quarto volume heheheh Sinceramente estou achando a história enfadonha, como aquele tipo de coisa: "não tenho mais o que escrever, mas preciso terminar a ideia assim mesmo, deixando de concluir as que comecei dezenas de páginas atrás". Ele poderia ter explorado tão bem o robozinho Marvin, a história da pergunta final para a resposta final que todos já sabemos, e o resquício genético dessa pergunta no cérebro de Arthur, a toalha, tão glorificada pelos fãs, foi esquecida provavelmente no segundo volume ainda, mas até agora, o quarto volume está parecendo um romance entre Arthur e a esquisita Fenchurch, um romance da pior qualidade. O próprio senso de humor do autor, que até me agradou nos primeiros volumes, está cada vez mais forçado, ora usando os manjados trocadilhos de palavras, ora cansando o leitor com frases enormes e repletas de adjetivos que de nada alimentam a obra. Até as críticas bem camufladas contra o comportamento social dos grupos e instituições está ausente. Mas enfim… comprei, então lerei, espero que "Praticamente Inofensiva" salve essa trilogia de cinco: se não salvar, bastava ter terminado no terceiro mesmo.

    Já quanto ao movimento "identidade nerd", ao invés disso me parecer uma afirmação bem construída de um grupo tentando conquistar seu lugar ao sol, ao ver suas manifestações pela própria internet, só percebo como esse movimento não basta de outra "futilidade nerd". A palavra 'identidade' está sendo banalizada tanto quanto a palavra 'amor' já é, esse movimento nerd é um exemplo: só mais uma forma de disseminar brincadeiras e entretenimento pela internet, ou sociabilizando com outros nerds através de encontros, mas uma identidade mesmo, um movimento, só se for os dos joysticks.

  • @Rodrigo,

    O quarto livro é fraco mesmo, tanto no humor quanto na trama. O quinto livro, não chegando a ser tão bom quanto os três primeiros, é bom (inclusive recuperando a importância da toalha). Não deixe de lê-lo.

    Quanto aos nerds, concordo com você, e acho que o que o "movimento nerd" faz é mostrar que todo mundo é nerd de alguma forma, pois todos temos nossos gostos particulares e nossas esquisitices. A identidade nerd da qual eu falo não tem nada a ver com movimento social, mas com uma característica da contemporaneidade, um tanto nostálgica e inquieta.

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