Minha filha e meu corpo

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Sonhei que eu era uma mulher que dera à luz recentemente. Mas a equipe do hospital, médicos e enfermeiras, não me deixavam aproximar e nem sequer ver minha filha recém-nascida. Eu tinha que ficar afastada do quarto onde ela era cuidada por uma enfermeira. Eu era membro de uma cultura em que a mãe deve ficar longe dos próprios filhos até estes terem certa idade. Eu sentia uma angústia que era misto de desespero com resignação. Sentia ciúmes da enfermeira que cuidava de minha filha. Parei em frente ao quarto em que ela estava, desobedecendo ordens, e contemplei a criança, me perguntando: como ela vai confiar em mim se eu não posso construir uma relação de intimidade desde seu nascimento?

Talvez esse sonho tenha me ajudado a entender um pouco a agonia de ser mulher numa cultura que ainda subjuga o corpo feminino, percebendo-o como receptáculo da semente de um homem e não como coparticipante da concepção de uma criança. A gravidez é uma crise na vida de uma mulher, e ela deve poder tomar decisões a respeito de seu mais valioso bem material: seu corpo. Aquela criança pode representar meu próprio corpo (uma vez que é fruto e extensão dele), aprisionado e domesticado pela cultura na qual me insiro.

Atualmente, há pelo menos duas questões importantes quanto aos direitos das mulheres sobre seus corpos:

  1. O direito de fazer aborto em casos de estupro e/ou de risco à saúde da gestante e/ou do feto e
  2. O direito a um parto humanizado (para mais sobre este tema, leia o artigo O parto, a mídia, as pessoas e o movimento, de Ellen Paes).

Há muito que se vislumbra um mundo em que as mulheres são incluídas na categoria de concidadãs dotadas dos mesmos direitos e deveres que todos. Para que isso ocorra é preciso destruir completamente a ideia de que as mulheres são instrumentos dos homens, objetos de prazer, úteros para fazer bebês e/ou servas domésticas.

Muitas vozes cristãs politicamente fortes têm dificultado o avanço dessa discussão e defendido a alienação da mulher em relação ao seu corpo, até mesmo nos casos em que a gravidez representa um grande risco para gestante e feto. Em casos de estupro, abortar significa, para esses cristãos, “um atentado à vida”, uma “afronta a Deus”. E, mesmo nos casos em que as duas coisas acontecem (o estupro e o risco), a excomunhão não está descartada.

O direito ao aborto é um tema que envolve não somente a garantia de um indivíduo resguardar seu corpo do resultado de uma violência explícita (o estupro), mas também de uma violência implícita. A estrutura das relações sociais de gênero ainda forçam muitas mulheres a ceder ao constrangimento imposto pelos parceiros, que querem seu sexo e anseiam por uma prole, obrigando-as a “emprestar” seus corpos, mesmo quando elas não o querem.

Descriminar o aborto é um meio de se reconhecer legalmente o direito inalienável de uma mulher sobre seu próprio destino, dar um passo na direção de um futuro em que cada um assumirá a responsabilidade sobre seu corpo e respeitará a liberdade dos outros de fazerem o mesmo.

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  • A Madona de Porto Lligat, por Salvador Dalí

7 comentários sobre “Minha filha e meu corpo

  1. Boas reflexões, Thiago. AInda demorará para termos uma sociedade mais justa com as mulheres – neste e vários outros aspectos… mas estamos aos poucos, evoluindo. Trazer estas reflexões colabora neste sentido. Clara Emilie.

    • Acho importantíssimo colocar esses temas em discussão enquanto a democracia não for universalista. Essas reflexões são boas para mim e espero que ajudem minimamente outras pessoas.

      Obrigado pelo comentário. 🙂

  2. Eu acho engraçado quando alguém reclama que eu sou a favor do aborto. Eu não sou a favor do aborto. Em um primeiro momento, no meu corpo, eu não faria. No entanto, eu nunca estive numa situação de desespero – pois abortar é um ato de medo e desespero – em que eu tivesse que interromper uma gravidez.

    Eu sou a favor do direito de escolha. As mulheres não serão obrigadas por tropas federais a ir abortar seus bebês, que serão arrancados de seus ventres com a descriminalização. Ela apenas vai oferecer segurança no procedimento. Além disso, ela tem que vir com uma forte e eficaz política de controle de natalidade, planejamento familiar e maior distribuição de métodos contraceptivos.

    Acho que também é preciso desmistificar que filho é um "presente de deus", "onde cabe um, cabem dois", e coisas do gênero. Filho é uma responsabilidade para uma vida inteira, é educar e criar um outro ser humano, que será totalmente dependente de um adulto por anos, décadas e isso não pode ser encarado de maneira irresponsável.

    Ótimo texto, mais uma vez. Grande abraço!

    • Concordo plenamente sobre a necessidade de políticas de planejamento familiar. Não adianta só descriminalizar o aborto e correr o risco de se banalizar essa prática, o que poderia ser prejudicial para a saúde das mulheres, pois o aborto é uma violência ao corpo.

      Mas eu discordo que o aborto seja só um ato de medo e desespero. Às vezes é uma necessidade mesmo, quando a gravidez é de alto risco ou quando é um desperdício de tempo e recursos, no caso de fetos anencéfalos. De qualquer forma, as mulheres devem ter o direito de escolha quando se trata de seu próprio corpo, se possível com responsabilidade, como você bem disse.

      • Mas não é que seja apenas um ato de medo e desespero. A mulher tem esse medo natural de engravidar, e acho que um procedimento desses deve botar muito medo em alguém, pois é uma violação e sabemos que as mulheres morrem por procedimentos mal feitos. Quando eu digo medo e desespero eu me refiro a essas mulheres, não apenas que necessitam, no caso de estupros e anencéfalos, mas as que não podem ter mesmo e que precisam interromper por vontade própria.

          • Uma coisa que me deixa muito triste é ver como o corpo da mulher continua sendo alvo de controle dos outros, em especial os homens, já que eles são os legisladores na maioria esmagadora. Lembro de ver um punhado de homens na frente do STF protestando sobre o aborto de anencéfalos… justo eles que não engravidam, que não sabem a tortura psicológica que deve ser para uma mulher, que ainda é culpada caso um bebê nasça com ~problemas~. Todo mundo pensa no feto, mas ninguém pensa na mulher adulta que sofre, que provavelmente já tem outros filhos, que corre riscos e que sofre traumas por abusos. Essa mulher subitamente fica sem direitos. =\

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